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Parque Jurássico 17: O Regresso…

Apesar de se dizer para aí que esses lagartos terríveis conhecidos como dinossauros foram animais que dominaram a Terra durante mais de cem milhões de anos, confesso nunca ter ouvido falar deles nem em criança nem na adolescência. É verdade, nunca tropecei em nenhum ao ir para a escola e nem reparei nos bichos. Hoje, qualquer “puto” de cinco anos “dá-me dez a zero” na matéria e sabe que os havia com o tamanho de um gato ou de uma enorme baleia, que andavam em duas ou quatro patas e que uns eram herbívoros inofensivos, mesmo que gigantes como o “braquiossauro” com umas boas oitenta toneladas, enquanto outros eram carnívoros e caçadores impiedosos, sedentos de sangue como o “T-Rex” e o “Tiranossauro” (ao que parece, já havia tiranos na altura…). Dinossauros são lagartos que cresceram mais do que aquilo que seria de esperar. É como aquele que comprou um cachorrinho lindo, levou-o para o apartamento mas o estúpido do bicho não parou de crescer até sobrar cão e faltar apartamento. E se esse “maduro” tivesse levado um ovo de “braquiossauro” e passasse o dia a chocá-lo com cobertores e botijas de água quente? Só iria descobrir que tinha um problema quanto “partes do animal” saíssem pela janela, não? Dinossauros também são sinónimo de garras enormes, excelentes para tirar a cera dos ouvidos, as ranhetas do nariz e coçar as costas…

Mas, há quem diga que se extinguiram. E, não se sabendo bem “quem foi o culpado por tal mortandade”, entre várias apostas, a maior é no Evento do Impacto, um asteroide que se “estampou” contra a Terra na península do Iucatão, no México, há 65 milhões de anos, formando a enorme cratera de Chicxulub e cobrindo o planeta de poeira durante longo tempo. Dizem que a crise na Terra durou cinco milhões de anos, fazendo com que se extinguissem (nós temos uma crise com meia dúzia de anos e já estamos todos meios mortos por não nos adaptarmos às “mudanças do clima”…). Assim morreram dinossauros e toda a bicharada que havia por cá, ficando este planeta “em cacos”, totalmente destruído, com aquilo a que chamaram “inverno nuclear”. Mas há mais teorias que não vou aqui explanar, senão o diretor do jornal manda-me pentear macacos por estar a ocupar espaço demais… Bom, só conto uma que ouvi há poucos dias: A Teoria das Pedras, isto é, de que os dinossauros foram comidos por pedras. Sim, por pedras. E a prova disso é que para se encontrar um, tem de se partir uma pedra, às vezes bem grande… Aliás, alguns foram engolidos por pedreiras, que se tornaram muito valiosas, a tal ponto que há uma para os lados de Fátima que rendeu uns milhões só por ter pegadas. Olha se tinha dinossauros…

Os paleontólogos, aqueles que andam à caça de pegadas, ossos, ovos e dentes fossilizados (há caçadores com cada gosto…), dizem que os dinossauros estão extintos há milhões de anos e que, como não foram enterrados num cemitério conhecido, para apanhar o que resta deles “dá uma trabalheira danada”. Mas que morreram todos, morreram…. Ora, eu até costumo acreditar nos cientistas, gente que estuda e sabe mais do que eu, mas isto de que morreram todos, custa-me a engolir. E vamos lá a ver quem tem razão.

Lá para os lados da Lourinhã foi descoberto o crânio de um suposto dinossauro. Juntaram-se os paleontólogos, os melhores especialistas mundiais para o identificarem, mas não chegavam a conclusões. A curiosidade fez com que um velho aldeão que por ali passava se juntasse ao magote de gente e desse uma espreitadela. Mal olhou, deu logo a sua sentença: “Olha o tetravô, não sei se do Mário Soares se do Mota Amaral”… Isto pôs-me de sobreaviso. E foi então que soube estar eminente o regresso de velhos “dinossauros” que se julgavam extintos, para se candidatarem às eleições autárquicas de 2017… Quem pensou que estavam mortos, desengane-se. A lei da limitação de mandatos que, inicialmente, se pensava ser o “inverno nuclear” para os “dinossauros da política”, não passou de um “outono ameno” que só os fez hibernar por quatro anos e, mesmo assim, só para os que não quiseram fazer como os “saltões” da minha infância (que passaram a gafanhotos quando cresci), saltando de autarquia em autarquia (há quem lhes chame outros nomes…), para tornear o tal inverno. Diz-se que muitos deles nunca fizeram nada na vida, absolutamente nada mas, ao que parece, alimentaram-se da política “anos a fio”. Nasceram disfarçados de cidadãos, medraram à custa de múltiplas influências nas freguesias e principais instituições do concelho, e cresceram, cresceram. Somam muitos mandatos, uma legião de seguidores incondicionais, encobrem uma trupe com maus hábitos e poderes secretos. Talvez por estarmos no verão, com as temperaturas em alta, acordam da hibernação e dão sinais de vida, como que num pré aquecimento para as autárquicas do próximo ano. Marcam território. Sim, os “dinossauros” andam por aí, disfarçados, adormecidos para os julgarmos mortos e extintos, mas vão aparecer como “dragões” cuspindo fogo, se bem que vão dizer-nos serem promessas… Têm o sonho de serem perpétuos, como os jazigos, porque o fantasma da extinção ensombra a vida de qualquer “dinossauro”. E os “diretores do circo” anseiam desenterrar os seus “dinossauros”, apelam ao seu regresso para conquistarem público, lugares e poder, com a “miragem” de que só os seus nomes farão tremer adversários, cair obstáculos, criar ondas de vitória.

Pensando bem, não são as crianças quem mais gosta de dinossauros?

Créditos e vida mais longa…

Um amigo costumava dizer-me com ar sério que, “qualquer homem que consiga aturar a mulher durante cinco anos, tem o direito ao céu”. Então, eu pensava cá para mim: “Aos anos que aturas a tua, já tens direito a oito… Mas, como quando fores desta para melhor só vais precisar de um, deveria ser-te concedido um crédito de sete céus sem que isso te retire o lugar que já tens assegurado (?) num recanto feliz do Além”… E eu imaginava o direito a esse crédito ao lembrar-me do livro “A Maravilhosa Aventura” do escritor italiano Dino Segre, mais conhecido por Pitigrilli. Ali se conta a história de um homem que foi condenado injustamente por um crime que não cometeu e foi parar à prisão. Só quando anos mais tarde o verdadeiro culpado confessou ter sido o autor do crime, é que veio a ser reconhecida a sua inocência e libertado. Então, para ser ressarcido dos anos que lá passou, pediu ao juiz que lhe concedesse um crédito desse tempo por forma a que, sempre que viesse a cometer um delito qualquer de que resultasse prisão, em vez de cumprir a pena esta lhe fosse descontada na conta. O juiz concordou com a pretensão. A partir daí, sempre que cometia uma infração e as autoridades o prendiam, ia ao juiz e era imediatamente libertado, sendo o tempo da pena descontado nos anos que tinha a haver. Isso fez com que, a partir de certa altura, as autoridades locais já cansadas de o prender e ter de libertar de imediato, passaram a “fazer vista grossa” às infrações, tornando-se o crédito uma espécie de salvo conduto para cometer ilegalidades e infrações sem que daí viessem consequências. E o mesmo seria devido ao meu amigo pois, com sete céus a haver, podia “m. fora do penico” por conta do crédito que possuía…

Os créditos fazem-me lembrar as novas regras das cartas de condução. Sem termos feito nada por isso, nem de bom nem de mau, foram-nos concedidos doze pontos. Também aqui podemos fazer alguns desvarios e cometer ilegalidades, que as penalidades aplicadas serão abatidas à nossa “conta” pessoal. Tudo bem, é provavelmente a única forma de travar a tendência para prevaricar, para ultrapassar os limites de velocidade e o teor de álcool no sangue. Só acho que os condutores exemplares deveriam ser premiados todos os anos com alguns pontos de crédito por bom desempenho. Seria justo. De outra forma, como o único crédito possível são uns míseros três pontos ao fim de três anos, a lei praticamente não beneficia o cumpridor.

Esta conversa veio à “baila” porque assisti recentemente a um colóquio sobre a evolução da população portuguesa e duas ideias se confirmaram. A primeira, é que estamos com um grave problema de envelhecimento. Há cinquenta anos as crianças eram o maior grupo etário em Portugal e, há medida que se subia na idade o número de pessoas ia diminuindo, fazendo com que a escala etária fosse uma pirâmide perfeita. Hoje, a base da pirâmide onde estão representadas as crianças encolheu de forma muito significativa pela redução da natalidade enquanto lá em cima, aumentaram os idosos como eu e o topo tem-se vindo a alargar. Isto quer dizer que daqui a vinte ou trinta anos a pirâmide demográfica estará invertida com poucas crianças e muitos velhos. Sem dúvida, vamos ser um país de velhos… a não ser que os casais jovens acordem e alterem este filme. Como? Fazendo filhos. Menos entretenimento e mais trabalho caso contrário, não vão ter netos, não vão ter reformas, nem vão ter quem tome conta de si. Dediquem-se já à função…

A segunda ideia é unânime, de que as mulheres vivem em média mais seis anos do que os homens. Sempre foi assim. Ainda esta semana uma senhora me dizia que só no lugar onde mora há mais de uma dúzia de viúvas de meia idade. O facto das mulheres durarem mais tempo do que nós tem merecido os mais diversos estudos e explicações, tanto de cientistas como de cidadãos comuns e até de imbecis. Ora, há quem atribua essa maior durabilidade às “pilhas. Serão Duracell? Outros, dizem que tal se deve à “ruindade das mulheres”, confirmando-se assim a sabedoria popular que “prato ruim não cai abaixo do louceiro”. Explicam até que “os bons (e falamos dos homens) morrem mais cedo, antes que se ponham maus, enquanto os maus (claro, as mulheres) ficam por cá mais tempo para ver se passam a bons… Ao falar nestas coisas, uma das Teresas cá de casa disse-me com um sorriso que “os homens são como os perus: Custam a vingar”…

Muita gente acredita que os homens morrem mais cedo por… terem de aturar as mulheres. A ser assim, tem razão o meu amigo ao dizer que nós temos direito ao céu ao fim de cinco anos de “sacrifício”… Ora, se o motivo principal de vivermos menos seis anos do que elas for esse, tenho uma solução para os homens que queiram viver tanto como as mulheres:… “Casem com outro homem”. Mas, atenção, é um mero conselho baseado no ditado popular “olhem para o que eu digo e não olhem para o que eu faço”. Aliás, devo acrescentar que se esta for a única solução para vivermos mais tempo, tenho uma certeza absoluta: Vou morrer mais cedo…

Muito mais do que um jogo de futebol…

A vida ensina-nos (e obriga-nos) a jogar muitas vezes “à defesa”, para nos resguardarmos. Como qualquer pessoa que precisa de se cuidar, também o faço sempre que necessário. A última vez que “joguei à defesa” foi durante a final do campeonato da europa de futebol que ocorreu em Paris há dias e que nos trouxe uma alegria enorme, um misto de sensações como há muito não tinha. Instalei-me em casa no sofá, à frente da televisão, aparentemente tranquilo mas, ao fim de alguns minutos de jogo e já com Ronaldo combalido do toque que sofrera, achei por bem mudar de canal… e mais tarde saberia o resultado. E foi assim que, eu e a Luísa, ficamos protegidos da tensão em que estaríamos a ver um jogo daqueles, ao longo de cento e vinte minutos, com os nervos à flor da pele.

Saltando de canal em canal, uma daquelas coisas que não gosto de ver quando é outro a ter o comando na mão, acabei por ver um filme sobre a história real do estudante e jogador de futebol americano Ernie Davis, o primeiro afro-americano a ganhar o Troféu Heisman, o mais importante prémio para o melhor jogador daquela modalidade universitária. Nasceu na segunda década do século passado no meio da pobreza e com dificuldades agravadas após a morte do pai quando ainda era criança. Numa América muito racista, sujeito ao racismo dos vizinhos, só quando se mudou com a mãe para Nova Iorque e se dedicou ao desporto é que veio ao de cima o seu enorme talento com a bola oval. E foram essas qualidades que o levaram a integrar a equipa de futebol americano da Universidade de Syracusa, pela mão do lendário treinador Ben Schwartzwalden, tendo-se tornado num dos maiores jogadores da história na sua posição. A sua integração não foi nada fácil e era evidente a segregação racial na própria equipa, onde só existiam mais dois negros. Mas, o seu desempenho extraordinário como jogador, fez com que viesse a ser aceite entre os “brancos”. Depois de fazerem uma série de jogos só com vitórias, tiveram o confronto final no Texas, um dos estados mais segregacionistas do país. A pressão racista manifestou-se logo no hotel onde nem sequer foi admitido e acabou por ficar separado dos colegas brancos. Essa pressão viria a atingir o pico já no estádio, com ameaças não só a ele mas a toda a equipa pela aceitação de negros. Foi neste contexto que, depois de marcar alguns pontos, colocar a sua equipa na frente e de ter sido massacrado intencionalmente por dois defesas para o “arrumarem” do jogo, o treinador entendeu substitui-lo para o proteger. Ausente do jogo, os adversários viriam a recuperar. No último intervalo, pediu ao treinador para voltar ao campo, acabando por levar a equipa à vitória apesar do ambiente hostil. O que mais retive de toda a sua história, foi o discurso emotivo e dramático do treinador aos jogadores durante o último intervalo, apelando à união do grupo, ao esforço físico e mental de cada um até ao limite alegando que, o que estava a ser jogado em campo não era um simples jogo de futebol americano que decidiria quem seria o vencedor da competição. Era muito mais do que isso. E os jogadores compreenderam… e ganharam.

Não pude deixar de pensar nas muitas semelhanças entre a história do filme que passou naquele canal, onde fui parar por mero acaso, e o jogo de futebol entre Portugal e a França. Coincidência premonitória? Não sei o que Fernando Santos terá dito aos jogadores antes do jogo e nos intervalos, que argumentos usou para os motivar porque, nestes momentos, a motivação é essencial. Seguramente o fez, ele que sempre acreditou na conquista do título. A verdade é que nesse jogo da final de Paris naquele estádio estava muito mais em jogo do que saber simplesmente quem marcaria mais golos e quem levaria o “caneco” para casa. Na mente de milhões de portugueses estavam outras razões para além do resultado. Em causa estava também a vontade de provar que não somos “cidadãos de segunda” a viver e trabalhar num país mais rico do que o nosso, aceites muitas vezes mas… para ficarmos no nosso lugar. A discriminação pratica-se de muitas formas… Em causa estava provar que as ofensas difundidas pela imprensa francesa, eram incompatíveis com o tão apregoado slogan de “liberté, egalité, fraternité”. Em causa estava provar que o “caneco” seria de quem o ganhasse em campo e não de quem tivesse melhor “nota artística”. O “futebol nojento” e as “favas contadas” não passavam de arrogância própria de quem “não pode nem sabe perder”. Em causa estava a desforra daquela semifinal da década de oitenta e de outros confrontos mais recentes. Mas, acima de tudo, neste jogo estava em causa a possibilidade de todos os portugueses se sentirem orgulhosos do seu país, da sua história, dos seus, o que era bem evidente na alegria incontida dos nossos emigrantes, pedaços do país espalhados pelo mundo. E foi por isso que a grande maioria dos portugueses desejou esta final com os franceses e com mais ninguém, na sua terra, na sua capital, com os holofotes mundiais ali apontados. Para podermos provar que somos tão capazes como eles, tão dignos de conquistas como eles, tão merecedores do respeito dos outros como eles, mesmo que sejamos tidos por mais pobres… E PROVAMOS…

Solução estúpida de gente irresponsável…

Não adianta, as pessoas não aprendem nem querem aprender. Por mais que se lhes diga que um animal não é uma coisa, não conseguem interiorizar isso. Por isso, continuam a comprar animais por impulso, por capricho, porque é bonito. Num momento de entusiasmo, viram aquele cão que mais parecia um urso de peluche e, ao pedido dos filhos ou da vaidade dos pais, há que comprar o cachorro, pois vai ficar bem lá em casa… E é uma festa. As crianças batem palmas, dão-lhe colo, pegam-se umas com as outras na disputa do privilégio de mais tempo com o bicho. Os pais, ficam babados perante o entusiasmo dos filhos e, no seu íntimo, deram satisfação a um desejo recalcado que nunca conseguiram realizar na casa dos pais: Ter um cão. Esqueceram-se de um pormenor, aliás, dois: O primeiro, é de que vivem num apartamento de espaço reduzido. O segundo, é que aquela bola de pelos não é mais nem menos que um cão duma raça que cresce bastante: Um pastor alemão. Apesar de lindo, de orelhas espetadas. Mas isso não foi equacionado na compra, nem nos primeiros tempos, em que o que contava eram as brincadeiras com aquele “boneco de pelos”. Até mesmo quando o animal fazia as suas necessidades em locais menos apropriados, havia sempre uma desculpa para não valorizar o incómodo. Mas, há medida que os dias iam passando, que as necessidades diárias do cachorro tinham de ser satisfeitas, a graça e a piada da “bola de pelos” começaram a diminuir, até serem uma maçada, uma chatice. Ter de limpar todos os dias os dejetos que ele insistia em largar aqui ou ali, como granadas em campo de tiro, passou a ser um tormento. E então, surgiu uma “ideia luminosa”: Para que o animal não sujasse tanto, havia que lhe cortar na comida pois “quem pouco come, pouco c.”. Se assim o pensaram, melhor o fizeram. A ração encolheu para metade e, depois, menos ainda. E o cão reduziu o “cocó”, mas não de vez… Nessa “atitude tão inteligente”, esqueceram-se de olhar para o animal e de reparar no seu estado. Foi emagrecendo, emagrecendo, até ficar pele e osso, embora o pelo grande escondesse as “misérias”. Porém, o corte não foi suficiente para que o animal deixasse de sujar. Só fico admirado por “gente tão inteligente” não se ter lembrado de “enfiar” uma rolha num certo buraco do bicho… Assim, tapava de vez. E para o outro, aquele que fazia com que ele “regasse” todos os dias a porta da entrada? Podiam descobrir a solução no que se passou na urgência de um hospital público e aplicar a receita ao cachorro: Um homem entrou no serviço de urgência acompanhado da esposa, com um problema grave no órgão sexual, muito inchado e negro. Os técnicos de saúde preparam-se logo para o algaliar e fazer sair a urina mas alguém se apercebeu da existência de um fio pendurado na ponta do “instrumento”. Foi com surpresa que descobriram o seguinte: O homem tinha problemas de próstata que o obrigavam a ir muitas vezes à casa de banho durante a noite. A mulher, cansada de o ver levantar-se para fazer xixi e de ser incomodada, resolveu o problema amarrando-lhe o “saco” com um fio. E resultou… Mas esqueceram-se do “feito”, mesmo quando descobriram que “aquilo” estava preto e inchado… E, atenção, era gente com formação superior. Olha se não fossem…

Mas, voltando ao nosso cachorro, os donos acabaram por reconhecer finalmente que “era uma chatice” continuar com o animal no apartamento, não pelo animal mas pelos incómodos que causava. Tarde, muito tarde, pois provocaram-lhe muito sofrimento, desnecessariamente. Ver aquele cão de olhar triste, só pele e osso, esfomeado e sedento, meteu-me pena. Conta-nos uma história das misérias humanas. Fala-nos da irresponsabilidade e ignorância que grassa por aí e que só leis severas e convenientemente aplicadas podem ajudar a corrigir. Porque, não tenhamos ilusões: Não basta educar, é preciso criminalizar quem assim trata um animal. Mas as leis já existem? Já, só que não são aplicadas. Ao contrário de outros países onde atitudes como estas têm consequências – e lembro-me de um espanhol que foi condenado a prisão por atirar um cão pela janela, de uma brasileira que apanhou doze anos de cadeia por matar vários cães e gatos, de uma americana ir parar “à pildra” durante seis meses por pôr piercings no gato e até de um inglês ser condenado por deixar o seu cão engordar quinze quilos a mais que o peso recomendado – em Portugal, apesar de existirem leis, não se têm aplicado. Ao fim do primeiro ano, apesar das muitas queixas de maus tratos, foram aplicadas… cinco multas em dinheiro. E pequenas. Assim não vamos lá, os prevaricadores continuarão a agir como se nada tenham a temer, sentem-se impunes. E o sentimento de impunidade só dá força a quem pratica tais crimes, porque de crimes se trata. Neste caso, fazia-lhes o que fizeram ao cachorro: Cortava-lhes na ração para fazerem menos m., tal como o fizeram ao animal. Para sentirem na pele. E são tantos os que maltratam os animais e que depois os abandonam como lixo…

No meio disto tudo, duas notas de realce, dois pontos dignos de registo. O primeiro, foi o excelente comportamento do cachorro pois, apesar da fome e sede que passou, respeitou sempre os donos embora estes não o tivessem respeitado. Nunca os traiu, não os abandonou e nem deixou de manifestar alegria quando os via. O segundo, foi a transformação operada nos donos que nos permite dar como garantido que são realmente animais… irracionais, umas bestas. Sim, eles os donos. E o cachorro nem se apercebeu disso, na sua inocência, na sua fidelidade…

Importância e vaidade. Até na morte…

É comum dizer-se que nascemos nus e morremos nus. Afinal, nada levamos desta vida. E não fará a menor diferença se formos ricos ou pobres, famosos ou anónimos, conhecidos ou desconhecidos porque a morte é o grande nivelador. Num cemitério, todos os corpos são semelhantes, um estado transitório para se tornarem pó. Nada do que pensamos ter adquirido na vida passa através do portal da morte. Do lado de lá, estaremos totalmente nus, eventualmente embrulhados numa mortalha, num fato, num vestido, que importa? E estaremos sós, despidos de tudo o que pensávamos ser nosso…

Se é estúpida a exibição da vaidade e da importância em vida, muito maior o é na morte. Mas, basta entrar num cemitério, num qualquer dos nossos cemitérios, para vermos a vaidade exacerbada em jazigos de pedras trabalhadas em capela ou pirâmide, sejam de granito ou mármore. E até parece que estes tempos “fáceis” que estamos a viver são mais propícios a tais exibicionismos pois a “corrida” para ter o melhor jazigo está mais ativa que nunca. Alguém dizia “o meu jazigo tem que ser maior do que o dele, não vou ficar atrás”. E é isso que as indústrias de mármores e granitos querem porque essa “competição” na busca do “melhor que o meu vizinho” é um estímulo ao negócio, um acréscimo à faturação. Tais empresas beneficiam muito com a vaidade posta no jazigo e na sepultura. Na moda estão os granitos importados do Brasil, da África do Sul e até de Angola, mais nas cores cinza e preta. O mármore, já há muito caiu em desuso. E, claro, convém não esquecer os adornos como cruzes, lampiões, floreiras, livros, lápides e outros. Alguns muito caros, tão caros que se tornam um convite para a ladroagem…

No jazigo de um cemitério concelhio, a inscrição está em letras gordas para efeitos de “imortalidade”: “JAZIGO PERPÉTUO DE MARIA (permitam-me guardar o resto do nome) E MARIDO”. Só ela teve direito ao nome próprio. Só ela é importante. O “marido” é um acessório, um adereço sem nome, um anónimo, um “ramo de flores” para adornar-lhe o jazigo. É algo para que o mundo dos vindouros saiba que ela não ficou para tia, nem morreu virgem e seca como um carapau. Mas, o mais curioso, é que naquele jazigo só está enterrado ele, o anónimo “marido”. Porque ela, continua por aí “vivinha da Silva”, não sei se pronta a enterrar mais algum… E, nesse caso, ainda vai ter de alterar o epitáfio para MARIDOS…

Há toda uma indústria à volta do negócio da morte, utilizada por aqueles que, através destes sinais exteriores, querem exprimir os seus sentimentos pelos que já partiram, embora para muitos não seja mais do que uma “montra de vaidades”. E os nossos cemitérios e a nossa mentalidade, ajustam-se a isso. Por isso, preferia ser enterrado num cemitério como os americanos, autênticos parques relvados onde cada campa tem uma simples cruz e uma lápide, nivelando todos pela mesma bitola, pela mesma importância. Porque todos estão despidos de “teres e haveres”, tal como vieram ao mundo. E saberia que uma parte de mim continuaria a viver nas folhas, no alto de uma árvore ou rente ao chão onde sempre tive os pés, na relva.

Por cá, compete-se no arranjo da sepultura. Onde muitos honram os seus com flores colhidas no jardim de casa, quando não oferecidas pelos vizinhos, outros gastam autênticas fortunas em arranjos caríssimos para “mostrar” como é, quem é o maior. Quando não podem, para “não ficarem atrás”, roubam flores e adereços de outras campas. E tantas vezes nem sequer pensam no morto, que não passa de um motivo para se exibirem, num lugar de silêncios onde todos deveriam ser humildes…

Também tenho visto alguns jazigos mandados construir em vida pelos seus donos e futuros ocupantes onde, em letras garrafais, ao seu nome acrescentaram títulos profissionais, funções e cargos que desempenharam, numa falta de modéstia que atinge o ridículo. E o povo, que até tinha consideração por eles enquanto cidadãos, faz disso motivo de gozo e chacota. É que as honrarias que alguém atribui a si próprio e faz lavrar na pedra para a posteridade, só poem a nu a pobreza de espírito e a imbecilidade. Cabe à sociedade e não a cada um em relação a si próprio, de fazer jus “àqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”.  

Se antes a maioria das sepulturas eram em terra, hoje muitas são um buraco cimentado, porque há quem não suporte a ideia de ficar coberto de terra com medo de “abafar” e de vir a “ser comido pelos bichos”. Se já somos comidos em vida por todo o tipo de “bichos”, porque não depois de mortos? Verdade é que não se conhece um único morto que tenha vindo queixar-se do peso da terra, do ataque da bicharada ou do frio que passa nas noites de invernia. Num cemitério implantado em zona húmida, tais sepulturas enchem-se de água com frequência, “afogando” o caixão e, com ele, o seu ocupante. Será que ficar “afogado” é melhor do que “abafado” com terra? E que diferença faz? É que os mortos já não têm oportunidade de conquistarem ninguém, de “catrapiscarem” o olho a quem lhe está próximo. Os vivos, sejam viúvos ou viúvas, sim. Aliás, o cemitério é o lugar ideal para se encontrarem, para se conhecerem e, quiçá, se poderem “amparar” mutuamente nos momentos de saudade e maior tristeza… e nos outros.

Não é de agora esta moda que está a ganhar novo fôlego, de pessoas mandarem construir mausoléus soberbos para si próprios, querendo com essa exibição de poder económico comprar a “imortalidade, com monumentos fúnebres que a vaidade levanta à vaidade. Devem até acreditar que, com tais “adereços”, S. Pedro vai escancarar-lhes as portas do Céu quando os vir chegar. Só que se esquecem das palavras do Senhor e que fazem Lei lá no Céu: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”…

Um preço que temos de pagar…

Neste enorme tabuleiro de xadrez que é o mundo nós, cidadãos comuns, não passamos de peões para ser “comidos” em qualquer movimento das “peças” que dominam o “tabuleiro”. Somos a “carne para canhão” que alimenta guerras mas não faz parte da história. Não passamos de cobaias usadas nas mais diversas experiências, de produtos que vão desde medicamentos a alimentares, de pesticidas a cosméticos, de domésticos a industriais, sem estarmos conscientes das consequências do seu uso.

Como noutros tempos e com outros produtos químicos, a imprensa tem-nos “vendido” a teoria de que agora é o “glifosato” o alvo a abater, considerado pela OMS como “uma substância com potencial cancerígeno”. E levantam-se vozes de quem esteve calado durante quarenta anos a assistir à utilização deste herbicida, até agora tido como um milagre para a agricultura no combate a ervas perenes, aquelas que são mais difíceis de eliminar, acreditando piamente na ausência de perigo para a saúde pública proclamada pela Monsanto, a multinacional que criou o produto e teve o exclusivo da sua comercialização enquanto a patente foi válida. Sejamos francos e acabemos com a hipocrisia e a ilusão de que a utilização da maioria destes e outros produtos químicos não tem um preço a pagar, porque tem, e às vezes é demasiado grande para nós seres humanos. Mas isso é secundário perante os grandes interesses.

O DDT foi um dos pesticidas mais vendidos no mundo, ajudou a salvar milhões de pessoas e até serviu para nos matar os piolhos quando eu era criança. Até ao dia em que a bióloga americana Rachel Carson denunciou a poluição e os perigos do pesticida, no seu livro Primavera Silenciosa, ponto de partida para a criação dos movimentos de defesa do meio ambiente. Na sua luta, só anos depois da sua morte a poderosa indústria química americana foi vencida e o produto retirado do mercado. Mas outros vieram para o substituir como sendo melhores, mais inofensivos para tudo e todos, novas gerações de produtos e, não tenhamos ilusões, o tempo acabou e vai acabar por denunciar os perigos do seu uso. E a ganância é tal que, sempre que um produto como o DDT é retirado do mercado, os seus utilizadores compram-no “às carradas” para o armazenarem e poderem utilizar muito para além da sua proibição, indiferentes às consequências da sua aplicação em produtos agrícolas e nos efeitos para o ser humano. Vi isso quando foi proibida a comercialização do “aldrin”, um inseticida para combater especialmente o “alfinete” que ataca batatas, cenouras e outras culturas. Quando se soube que ia ser retirado do mercado, os agricultores que o costumavam usar acorreram aos locais de venda e compraram todo o produto que havia, esconderam-no e utilizaram-no ao longo de vários anos e enquanto tiveram, indiferentes às razões da proibição. E se fosse só com esse…

Hoje os produtos químicos entram na nossa vida (e na nossa boca) com uma intensidade e frequência tal, que nem nos passa pela cabeça a dimensão do problema. E, quem deveria estar vigilante, cala-se ou demite-se da suas funções e só quando acontece um caso mediatizado é que acordam (e nos fazem acordar). Por alguma razão se diz que “o ignorante vive feliz”. E nós somos e vivemos como tal… Senão, vejamos: Os médicos dizem que o peixe é bom para a nossa saúde e por isso o recomendam. E nós comemos… Só não sabemos é que muito dele, especialmente o de aquacultura, pode ser bom para nos arranjar problemas de saúde por conter doses elevadas de químicos perigosos, quer pelas águas onde são criados quer, especialmente, pelas rações com que são alimentados. Na Suécia, as peixarias informam os clientes quando o peixe é proveniente do mar Báltico, alertando-os de que só o devem comer uma a duas vezes por mês pelos riscos que representam para a saúde. Eles sabem como aquele mar é poluído, até com materiais radioativos da famigerada central nuclear de Chernobyl. E isso talvez explique a razão pela qual grande parte do peixe capturado nesse mar seja destinado à indústria de farinhas… para alimentar peixes de aquacultura… que nós comemos sempre que temos dinheiro para o comprar…. E vai dar tudo ao mesmo…

De vez em quando a comunicação social dá realce a um “produto perigoso”, como é o caso do “glifosato”, “vendo a árvore mas esquecendo a floresta” de outros produtos, tanto ou mais perigosos, que diariamente são utilizados na produção daquilo que consumimos. O drama, é que estamos “entalados” por um lado, pela grande força das multinacionais que controlam a produção e comércio de pesticidas e outros produtos e cuja influência sobre técnicos, políticos e países é mais que conhecida e, por outro, pela noção que, sem o controle químico das pragas e doenças, metade da população mundial poderá morrer à fome por falta de alimentos. Daí que, há quem opte pelo “mal menor”… o que para alguns, poucos, se torna num “bem maior”, o “preço a pagar”. E, quem paga, somos nós, os “carneiros”, não os “pastores”…

Tempos de “larica”, tempos de excessos…

Às vezes digo que “hoje se sofre mais por comer demais do que antigamente se sofria por comer de menos”. Também devo referir que, apesar de ter atravessado os tempos difíceis de outrora, tive a felicidade de não ter chegado a situações de carência tão graves como a maioria dos meus contemporâneos, alimentados quase exclusivamente com malgas de caldo mal “adubado” e um pedaço de broa, quando havia. Mesmo assim, se hoje contar aos meus filhos as situações de carência que vivi, pura e simplesmente não acreditam. Ainda há poucos dias alguém que também passou por esses tempos recordava como é que uma sardinha dava para três pessoas… quando havia sardinhas!!! E o quanto gostava de fatias de carne gorda com quatro ou cinco centímetros de altura, em cima de um naco de broa… Também eu…

A carência generalizada de comida e o facto de muitos alimentos serem escassos e só acessíveis a uns quantos, criavam recalcamentos, desejos insatisfeitos, que se mantinham e marcaram a vida de cada um de nós. Por alguma razão inconsciente, a maioria daqueles que aprecia mais a carne junto dos ossos, que pede as costelas do cabrito ou do leitão e gosta de “ossos de assuã”, viveu situações em que a carne era rara e, quando havia, normalmente era das partes do animal em que o osso e a gordura tinham relevância. Por isso, tudo era aproveitado, comiam-se os “rojões do redenho”, os ossos ficavam limpos e nem o “tutano” escapava.

As pessoas só se podiam “desforrar” das privações e da fome nos casamentos, compensando-as com excessos, com o “comer à tripa forra”. Aí, sim, soltava-se o apetite (o que não era difícil), alargava-se o cinto, “enchia-se o bandulho” e comia-se até não poder mais. Num almoço de casamento, a canja de galinha “abria as hostilidades”. E seguiam-se os pratos tradicionais como cozido à portuguesa e os assados, conforme a carteira do noivo, num desfilar de comida a que os olhos dos comensais não estavam habituados. Então, enchia-se o prato e “atacava-se” a comida para aplacar o “roncar” do estômago e saciar o apetite. Como resultado, com a pança cheia, quase a rebentar, era só vê-los sentados ou deitados, de roupa desapertada já quase sem se poderem mexer, tal como as cobras ao sol que acabaram de engolir um animal maior que elas. Alguns, com o desejo ainda não saciado, resguardavam-se num canto do quintal para meterem dois dedos na garganta, “lançarem a carga ao mar” para ganharem novo “espaço de armazenagem” e assim poderem voltar ao “campo de batalha”. Cheguei a ver um homem de meia idade a chorar convulsivamente, porque “não conseguia comer mais”… É provável que o que ele já não “devia” era beber mais…

As carências alimentares que atravessamos após a segunda guerra mundial deixaram marcas em toda a gente, de uma ou de outra maneira, condicionando a nossa forma de encarar a comida, de a valorizar, de evitar e ficar chocado com o desperdício a que assistimos nos tempos de euforia e que ainda se vai vendo por aí. E havia alimentos aos quais não se teve acesso e que deixaram desejos reprimidos. Lembro-me de um: O meu primeiro emprego depois de regressar do serviço militar levou-me para o Porto. Como não havia meios nem condição económica para ir e vir todos os dias, arranjei lugar num enorme quarto de quatro camas, uma a cada canto. No meio da divisão, um balde para “serviços noturnos”. Ficava junto à rua dos Caldeireiros onde já dormia um amigo e conterrâneo que trabalhava na cidade há alguns anos. Um dia fez-me uma proposta: “Ontem trouxe lá de cima um garrafão de vinho “morangueiro” (vinho americano). Se quiser alinhar, eu dou o vinho e você compra uma bola de queijo. É que eu tenho um desejo enorme de comer queijo à vontade, porque nunca o pude fazer. O máximo que comi foram duas fatias”. Aquela confissão simples de um desejo recalcado tocou-me de tal maneira que lhe disse logo que sim. Foi assim que, com uma bola de queijo (de mais de um quilo) e um garrafão de morangueiro, fomos parar ao jardim da Cordoaria ali perto(que no futuro seria conhecido como um lugar onde se viriam a passear outros “queijos” à procura de quem os “comesse”…) e sentamo-nos num banco a dar conta da “encomenda”. Depressa fiquei farto até porque, para além do queijo e vinho, não havia qualquer outro acompanhamento. Mas ele insistiu, insistiu, na tentativa de “dar cabo” daquela inquietação alimentar (e da bola de queijo…) que o consumia, até desistir, triste por não conseguir comer mais, se bem que as sobras fossem poucas.

Ora, hoje mesmo noticiaram que em Portugal já somos dois milhões de obesos, muitos deles crianças. Com a notícia, desfiaram também um rosário de doenças associadas ao excesso de comida e de calorias, muitas delas a provocar desfechos fatais. E recomendaram regimes alimentares e exercício, pois os “estragos” da fartura saem caros ao país e a cada um, provocando muita dor e sofrimento. Vivi numa sociedade de carência alimentar real porque, apesar de mal distribuídos, a realidade é que não havia alimentos para todos. Pouco a pouco, essa realidade foi-se alterando para outra de excessos e desequilíbrios (e desperdícios), com outro tipo de problemas como confirmam as estatísticas. Daí as chamadas “doenças da fartura”. Afinal, a pergunta prevalece: Não será que hoje se sofre mais por comer demais…??? No meu caso, não tenho dúvidas…

Os buracos na “caixa” do “milho”

Encontrei na “loja” duma casa de lavoura uma daquelas caixas grandes onde os agricultores, senhorios e algumas pessoas com posses guardavam outrora o milho. Feita em madeira de pinho velho, resistia ao “caruncho” e a todo o tipo de bicharada, pelo que era excelente para guardar cereal. Ali se ia buscar milho para dar de comer às galinhas e uma ou duas “rasas” para o moleiro de Moinhos, no fundo da freguesia junto ao rio Sousa, moer e transformar em farinha a troco da “maquia”. Também se tirava algum grão para juntar à “lavagem”, os restos que sobravam da confecção na cozinha e com que se alimentava o porco. A dona da casa geria o consumo de milho por forma a durar o ano inteiro, porque a colheita e a renda só aconteciam uma vez por ano. As caixas eram como cofres, onde o milho estava conservado e em segurança. Como a madeira era rija, não apodrecia e, regra geral, resistia bem aos ataques dos roedores e outros inimigos. Os ratos que enfestavam as “lojas” das casas, como sabiam que ali dentro havia comida, tentavam abrir buracos na madeira mas, quase sempre, em vão.

O milho era a base da nossa alimentação e estava sempre presente à mesa na broa cozida em casa. Todos os dias se comia broa e caldo. Dia sim, dia sim. Daí a sua importância para nós, gente desse tempo.

Com o passar dos anos as caixas onde se guardava o milho foram desaparecendo. Por um lado, porque a área de cultivo de milho grão na região foi diminuindo até quase desaparecer e, por outro, com a proliferação das padarias. Os próprios caseiros das quintas, que têm as suas rendas expressas em “carros de milho”, deixaram de ter grão para pagar a renda ao senhorio. E assim, os tradicionais “carros de milho” passaram a ser substituídos por dinheiro. A (quase) extinção do cultivo de milho na região para a produção de grão, fez com que as caixas desaparecessem e a sua madeira fosse aproveitada para fazer móveis ou tapar buracos.

Enquanto estas caixas iam passando à história, começaram a surgir como cogumelos outras “caixas”, algumas chamadas de “bancos” (talvez porque uns quantos ali “alaparam o cu” e por lá ficaram sentados, a “engordar”), onde se guardava outro “milho”, fruto do trabalho de um sem número de “pintainhos”, crédulos de que tais “caixas” eram seguras… Acreditavam mesmo que podiam dormir descansados e que o seu “milho” não corria perigo. E dormiram… Mas, tal como nas antigas caixas onde se guardava o outro milho, apareceu também o “gorgulho” que atacou o “grão” pelo lado de dentro e ainda os “ratos”, outro tipo de ratos, em pragas cada vez maiores e mais insaciáveis, que não deram um minuto de descanso à “madeira” pelo lado de fora. Começaram por abrir “buraquinhos” que rapidamente passaram a “buracões”, por onde entraram os “roedores esfomeados”, atacando o “milho” sem dó nem piedade. E enquanto os “pintainhos” andavam pelo campo a “esgravatar” à procura de “grãos”, conseguidos com muito esforço (porque são raros em tempos de crise), os “ratos” apanhavam grandes “barrigadas de milho” e deitavam-se ao sol besuntados com o seu “óleo”, para se protegerem dos raios solares, normalmente em praias lindas de areia branca e em lugares chamados de “paraísos”. Como o tamanho dos buracos nas “caixas” era grande, apareceram também os “porcos” saídos não se sabe de onde, orientados pelos “passarões” do costume. E, ao verem tanta “comida” à descrição, ali “à mão de semear”, atacaram “à focinhada” os montes de “milho”, comendo, cuspindo, roubando e estragando como se não tivesse dono, como se não houvesse amanhã. Foi assim que algumas “caixas” que todos consideravam seguras caíram, com mais buracos que um passador. Nos “caixotes de lixo” da informação ainda se conseguem ver restos de madeira com marcas gravadas a ferro em brasa, onde ainda são legíveis as letras BPN, BPP, BES e BANIF…

Já há alguns anos que se fala também da existência de “buracos” na maior “caixa de milho” do país, conhecida entre nós como a “Caixa Geral”, local onde a maioria dos “pintainhos” guarda o seu “grão”, porque era tida como a caixa forte cá do “galinheiro”. E foi lá que, “grão a grão”, muitos foram “deixar à guarda” o produto do seu suor, confiantes na segurança do lugar. Seria impensável alguém imaginar que a “Caixa” pudesse vir a ter “buracos”, muito menos “rombos”… Mas, as notícias que têm saído como quem não quer a coisa, talvez para “apalpar o pulso”, visam preparar-nos psicologicamente para quando da oficialização de que ali há mesmo “buraco”. Será só uma questão de tempo até a notícia ser confirmada. Na verdade, só nos falta saber “qual o tamanho do rombo”. E isso quer dizer também que vão impor aos “pintainhos” (há quem diga que já foram há muito tempo promovidos a “patos”…) uma “entrega adicional de milho a fundo perdido”, para tapar aquele que pode ser o “grande buraco” e que, entendidos no assunto, consideram ser um “enorme buraco negro”… Ah, tal como noutros casos, nenhum dos “ratos” que deram cabo do “milho” foi, nem será apanhado. Por isso, será de todo impensável que se venham a apanhar os “porcos” e os “passarões”, mesmo que sejam vistos por aí com o focinho e o bico cheios de “milho”… Até porque, se não tiverem outra desculpa, poderão sempre dizer que não é seu, é de um amigo… Como dizem para aí, “porque será que eu não tenho um amigo assim”?

E venham os “cavalheiros de domingo”…

Atribui-se a Honoré Balzac (e não a Émile M. Saint-Hilaire) a autoria de um livro publicado à quase dois séculos no Brasil no qual, em dez lições, se explicava “A arte de pagar suas dívidas, e satisfazer seus credores, sem desembolsar um tostão”. Aliás, Balzac sabia do que falava pois as dívidas perseguiram-no até à morte… Numa linguagem jocosa, para o autor “os credores são produtores de riqueza e os devedores, meros consumidores”. Ali se aconselha uma atitude socialista em que, “ficar a dever a pessoas que têm demais, será uma espécie de compensar as misérias e redistribuir a riqueza, contribuindo assim, de forma decisiva, para o restabelecimento do equilíbrio social e diminuição das desigualdades”. Recomenda como “qualidades morais” essenciais ao devedor, “sangue frio, boa memória dos credores, paciência de enfermeiro e constante presença de espírito”, mas que precisam de ser acompanhadas de atributos físicos como “olhos vivos e penetrantes, pés ligeiros, saúde de ferro e punhos de aço” pois, quem não possuir integralmente todas estas qualidades, está equivocado ao “financiar-se” com este esquema e será melhor não ter dívidas nem credores”. Um bom aviso, à época… Mas as coisas mudaram, diria mesmo, inverteram-se. Hoje os caloteiros não têm nada a ver com os de então e já não precisam nem das “qualidades morais” preconizadas nem dos tais “atributos físicos” como “olho vivo e pé ligeiro” da época de Balzac. Para quê? Agora quem deve ter essas características são os credores, que tantas vezes têm vergonha, quando não medo, de pedir o que é seu e que lhes é devido. Confrontados com a arrogância e a “lata” dos caloteiros, daqueles que assumiram dívidas e se comprometeram mas faltaram ao prometido, chegam a recear “dar de caras” com eles e até mudam de passeio quando veem algum e… têm tempo de o fazer.

Nas relações entre pessoas e sociedades sempre existiram situações de credor/devedor, tidas como normais. Outrora, estavam sujeitas a um código de valores que impunha confiança, honestidade, seriedade e palavra de honra. E (quase) ninguém queria faltar à palavra nem perder a honra. Estou a lembrar-me dos pedreiros da minha infância, os “empreiteiros” de então, a quem se entregava a tarefa de construir uma casa. No inverno, quando o tempo estava mau, não podiam trabalhar e, consequentemente, nada ganhavam. Por isso, mandavam a mulher à loja, como a do meu tio Peixoto, para comprar “fiado” os bens essenciais à sobrevivência da família. O merceeiro “assentava” a dívida num livro estreito e comprido, sendo o tamanho da dívida tanto maior quanto maior fosse a duração da invernia. A esta distância de tempo o que me ficou foi que, mal retomavam o trabalho e recebiam algum dinheiro, procediam ao pagamento religiosamente porque a honra estava acima de tudo.

No século XVII a Inglaterra tinha leis rígidas e severas para os indivíduos que não pagassem as suas dívidas, correndo sérios riscos de serem presos e julgados. Se merecessem condenação e os credores assim o exigissem, arriscavam-se a “bater com os costados na prisão”, podendo ser presos em qualquer dia da semana, excepto ao domingo por ser o dia do Senhor. Por esta razão, os caloteiros “encartados”, viviam os seis dias da semana escondidos e, dessa forma, evitavam ser presos mas, ao domingo, apareciam descaradamente em público como qualquer cavalheiro respeitável, sendo chamados de “cavalheiros de domingo”. Nesse dia andavam em liberdade pelas ruas, cafés, cervejarias e espaços públicos, misturavam-se com a multidão sem receio da polícia, sem temerem qualquer ameaça dos tribunais. O domingo era o salvo conduto, o bilhete que lhes assegurava a liberdade, para se passearem como “senhores respeitáveis” ataviados segundo a moda da época, de cabeleira ao vento, bofes de renda e espada à cinta, gozando esses curtos momentos em que eram senhores de si, de fazer o que lhes apetecesse. Dizia-se desses “cavalheiros de domingo” que eram “um sétimo de cavalheiro”…

Ora, vivemos um tempo em que há muitos caloteiros encartados, autênticos profissionais do “não pagar” que fazem disso a sua profissão, consumindo “à grande e à francesa” e acumulando riquezas “à conta” dos outros ou do estado (que somos todos nós) sem que a justiça lhes chegue. Escondidos em empresas que usam e abusam de esquemas, dos “buracos “ da lei e da inépcia de quem de direito, provocam falências “convenientes” depois de esconderem o património em nome de familiares e amigos ou em sociedades anónimas (e o nome diz tudo), levando à falência gente honesta a quem enganaram. Individualmente aproveitam-se da boa fé que (ainda) existe em muito boa gente e a quem depois se recusam pagar o que devem, mesmo tendo condições de o fazer. Entretanto, passeiam-se todos os dias da semana em grandes carros registados em nome de uma sociedade anónima, “cabeleira ao vento e bofes que nada têm de renda”. E são tantos!!!… Aliás, são demasiados. A confiança cai, a economia ressente-se, todos perdemos. Por isso, venha quem recupere essas antigas leis inglesas, com urgência, para retirar da rua a “praga” de caloteiros que, se não for banida, acabará por nos “engolir”. Assim, aumentará a confiança e o ar ficará mais respirável durante a semana… E ao domingo? Ao domingo saberemos que os caloteiros podem andar por aí feitos “gente honesta”, apanhar banhos de sol, quem sabe, “ir à missa” pedir perdão…

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Não sou utilizador das redes sociais e, por isso, talvez considerem que vivo na idade da pedra. É verdade, não uso o Facebook nem o Twitter e, francamente, não tenho sentido a sua falta. Mas o meu nome deve aparecer como subscritor do primeiro já que o meu filho criou uma página (é assim que se diz?) para fazer de mim utilizador desta “ferramenta de comunicação”. Mas não passou disso. Nunca a abri, “não sei como se faz, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”, como diz o povo. Mas respeito quem aproveita a sua utilidade para contactar pessoas, partilhar receitas, dizer de onde veio, onde está e para onde vai, contar histórias, cruzar vidas, enfim, “fazer amigos”. Os criadores do Facebook e das outras redes são visionários e fizeram algo que já ultrapassa o próprio Google. A sua utilidade é inquestionável para as empresas, instituições e pessoas, sendo uma ferramenta poderosíssima de divulgação e comunicação. Tiro-lhes o meu chapéu (se o tivesse…). Do Papa Francisco ao cidadão anónimo, do presidente americano ao político mais anónimo de uma assembleia de freguesia, todos fazem questão de tirar partido desse meio de comunicação que já ninguém ignora (a não ser eu e mais alguns “nabos” como eu…). E, para o bem e para o mal, passa-se a vida a “twittar” ou agarrado ao Facebook. Se só este já tem mais de mil milhões de usuários. Ora, isso quer dizer que eu é que estou errado ao não aderir à moda. Mas, como “burro velho não toma andadura”, fico na minha “a zurrar sozinho”.

Diz-se que as redes sociais e a internet “aproximam quem está longe e distanciam quem está perto”. Ainda há dias via isso numa família sentada à volta da mesa do café, com os seus quatro membros “agarrados” ao Ipad e ao telemóvel, “ausentes”, “bem longe” uns dos outros… Provavelmente, estavam a sentir-se “perto” de alguém, lá longe…

Os políticos cedo perceberam o poder das redes e por isso não há político que se preze que não tenha a sua página, a sua “roda de amigos” (que convém que sejam também votantes) onde se mostram cheios de virtude, muito humanos, cidadãos honestos preocupados com os problemas da sociedade, em suma, uma chatice… A ilusão a respeito de si próprios…

As redes sociais tornaram-se um bem que, quando convenientemente usado, pode dar um contributo importante à sociedade. Mas há usuários que ultrapassaram o bom senso no seu uso e se viciaram na rede à qual se “ligam” com grande frequência, onde “põem a nu” a sua vida na praça pública, sem limites, sem pudores, sem qualquer cuidado, numa espécie de “Big Brother”. E relatam onde estão, o que vestem, o que comeram, com quem se encontraram, a que horas saem de casa e quando regressam, o que pensam e o que esperam pensar mais tarde, enfim, um desnudar do corpo e da alma… Alguém dizia que as redes sociais são importantes para muitas coisas mas, quando se trata de “fazer amigos”, “curtir”, etc… da forma como têm sido usadas, não passam de uma “hipnose coletiva” onde todos falam de si mesmos, dos outros, para uns e para todos, mas ninguém os leva a sério, numa afirmação virtual de quem não vive no mundo real. E vale tudo, ou quase. Todos têm carta branca para falar, comentar, criticar, cantar, gritar, insultar, elogiar e o que bem entenderem, num espaço onde não existe o “olho no olho”, o aperto de mão, o abraço, os cheiros da comida ou do perfume, o calor das pessoas, o convívio humano real. O que fica da reunião de amigos?

Diz-se que o indivíduo viciado nas redes, faz delas o seu divã e ao “postar”, acha que cumpriu a sua parte de cidadão, sem perceber que nem sequer saiu do lugar, do conforto.

As redes sociais em muitos aspetos desvirtuaram-se do seu objetivo que era de fazer uma onda de amigos para virarem muitas vezes num mecanismo de alienação onde qualquer um pode escrever o que lhe apetece para um público que não está lá. E diz-se que é considerável o número de usuários que se enquadra aí. É natural que quem trabalha muito precise de momentos de ócio e de lazer para “desligar”. É assim que hoje se passam os momentos de ócio… no Facebook. Aí divaga-se, esquecem-se responsabilidades e invertem-se papéis: O professor vira aluno e o aluno professor, o psicólogo vira doente, o analfabeto intelectual e aí por diante.

Um velho amigo escreveu-me dando-me conta do que “anda a fazer:

“Atualmente estou a tentar fazer amigos fora do Facebook… mas usando os mesmos princípios. Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas. Entrego-lhes fotos da minha mulher, dos meus filhos, do meu cão, minhas no jardim, na piscina e fotos que fazemos no fim de semana. Também caminho atrás das pessoas, a certa distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que “gosto” do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde partilho tudo com outras pessoas.

E funciona…

Já tenho três pessoas que me seguem…

São dois polícias e um psiquiatra”…