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Afinal, quem é a “vaca leiteira”?

Todos nós sabemos que, na natureza, a vaca produz leite suficiente para alimentar as crias, os bezerros. No entanto, como o ser humano fez do leite uma base da nossa alimentação, para conseguir obter produções que possam suprir as nossas necessidades usou a seleção e manipulação genética para obter animais com mais capacidade produtiva. É assim que hoje há vacas a produzir dez vezes mais leite por dia que há cem anos. Com isso, a vaca leiteira transformou-se literalmente numa máquina de produção de leite em quantidades industriais, usada e abusada como mera indústria produtiva. E foi por isso que a “vaca leiteira” passou a ser o termo de comparação quando nos queremos referir a algo onde todos querem “mamar”. E vimos isso à pouco com o ex-ministro Manuel Pinho ao ser interpelado no parlamento (que mais me pareceu um “para lamento”), sem dizer nada aos deputados sobre os seus “ganhos adicionais” que o “dono disto tudo” de então lhe pagava enquanto foi ministro.

Ora, para desviar a conversa e “fugir com o rabo à seringa” das perguntas dos deputados, acabou por “revelar” o que todos já sabiam: “A fatura de eletricidade é uma vaca leiteira”. “Porque”, diz ele, “cobra-se tudo através da fatura da eletricidade”. Traduzido isto em miúdos e para a gente perceber, quis ele dizer que os políticos feitos Estado, usam a fatura de eletricidade para “sugar” mais e mais impostos. Seguindo a sua lógica, os políticos (onde ele está incluído) criaram não uma, mas muitas “vacas leiteiras”, sendo as faturas de eletricidade, gás natural e combustíveis algumas delas, que “alimentam” um “Estado mamão” difícil de satisfazer. Mas há mais, muito mais. Ora, como Manuel Pinho nos chamou a atenção para a “vaca” da fatura de eletricidade – e sem esquecer que ele esteve lá e não fez nada para evitar que ela fosse “usada e abusada” – fui ver com atenção a quem o seu “leitinho” alimenta e engorda. Se pensava que estava preparado para o que ia ficar a saber, confesso que nunca me passou pela cabeça que fossem tantos os “vitelos” que vivem à conta dela. E, pior, não se sabe ao certo quantos são.

Na fatura da eletricidade, além da “energia consumida” ainda nos fazem pagar pela “potência contratada” e até pelo “serviço urgências elétricas” (nem sabia que existia e era pago, usando-o ou não). Mas também estão lá uma data de taxas e impostos, tantos, que é preciso tirar um curso para os identificar. Começam logo com o “Imposto Especial de Consumo”, tão especial que não consegui saber para que é. Depois, aplicam-nos a “Taxa de Exploração DGEG”, dizendo-nos que é para financiar a Direção Geral de Energia e Geologia. Para que a conta não fique por aí, a taxa de IVA é a máxima que a lei permite ou seja, vinte e três por cento, apesar de se tratar dum bem de consumo essencial. E a lista de taxas vai mais além com a “Contribuição para o Audiovisual”, que foi a forma que os políticos encontraram para financiar o serviço público de rádio e televisão, mesmo que o cliente não use nenhum deles. Mas paga. É a justiça … estatal. Podemos sorrir um pouco, embora com “sorriso amarelo”, porque a “Contribuição do Audiovisual” só é onerada com IVA a seis por cento. Nada mau … Como ainda a procissão vai no adro, a fatura inclui a “Tarifa de Acesso às Redes Elétricas”, que é uma taxa paga pelo uso das redes (transporte e distribuição) e uso geral do sistema. E inclui ainda os CIEG, que são os “Custos de Interesse Económico Geral”, que nada têm a ver com eletricidade e servem para pagar custos de natureza ambiental, autoridade e concorrência, rendas de concessão pela distribuição em baixa tensão, ajustamentos comerciais de último recurso e muitos outros custos com descrições obscuras e complexas. Em suma, está lá tudo metido. Só a sobrecarga de impostos e taxas no setor elétrico representa quarenta por cento da fatura da luz – e não vemos luz ao fundo do túnel que nos tire deste “sugadouro” …

Mas este aproveitamento que o Estado tem dos nossos consumos para nos “sacar” mais e mais dinheiro, usando como argumentos principais a “sustentabilidade do Estado Social”, que diminui a olhos vistos, e a “redução da Dívida Pública”, que aumenta mais do que bolo no forno, não se limita à fatura de eletricidade. Estende-se à fatura de gás natural (com o imposto especial de consumo, taxa de ocupação de subsolo e IVA a vinte e três por cento), ao preço dos combustíveis onde o desaforro já ultrapassa, e muito, os cinquenta por cento em impostos, ao consumo de tabaco (que bate o record de impostos a rondar os oitenta por cento), à indispensável água (com a tarifa de saneamento, a taxa de recursos hídricos, a taxa de resíduos sólidos urbanos e, claro, o IVA), bebidas alcoólicas e açucaradas e um sem fim de bens que usamos no nosso dia a dia, como se fosse pecado capital ser consumidor.

Agora que “está fora do poleiro” e para “dar tanga” aos deputados que estavam lá para saber outras coisas, Manuel Pinho “batizou” a fatura da eletricidade como uma “vaca leiteira”, com a intensão de desvalorizar as chamadas “rendas da edp” a que ele está associado e passando o ónus da energia cara para quem “mama” na dita “vaca”.

O ex-ministro da economia errou ao tomar a “parte pelo todo” ou não quis dizer a verdade aos deputados, como não lhes havia dito nada daquilo que eles queriam saber. A “fatura da eletricidade”, tal como a “fatura do gás natural”, o “preço dos combustíveis” e outras faturas, não são nenhuma “vaca leiteira”. Longe disso. Para mim, mais não são do que simples “tetas” onde os políticos puseram a “boca” do Estado a “mamar”, muito mais do que seria aceitável, escandalosamente, sem respeito pela verdadeira “vaca”. Porque, afinal, a verdadeira “vaca leiteira” que tem de sustentar este Estado, “faminto e insaciável”, é o desgraçado do “Contribuinte”. E “Contribuintes” somos todos nós que consumimos, trabalhamos e produzimos, mas que nem sempre temos consciência que, para os políticos, não passamos de “vacas leiteiras” … E, das duas uma: Ou damos um coice em quem “mama demais” ou a maioria destas “vacas” vai morrer “seca como um carapau” …

Além de Festa, “ponto de encontro”…

Acabou a festa. Agora, é o desmontar das barracas, o carregar dos contentores, o retirar de cabos elétricos e arcos de iluminação, o desfazer do palco em peças, o mudá-lo para o próximo local. E vão-se os carroceis, os carrinhos de choque, o “canguru” e outras diversões mais ou menos radicais dum parque improvisado com curta duração. Há gruas, camiões grandes e pequenos, furgões, carrinhas, caravanas e gente a carregar as tralhas feitas entretenimento e negócio nas Festas Grandes de Lousada. Só ficou a barraca das farturas para nos empanturrar de frituras de farinha e água, polvilhadas com açúcar e canela, feitos pedaços de tentação que nutricionistas desaconselham. Durante os dias de festa a Vila acordou atapetada de lixo espalhado pelo chão em tudo quanto é sítio, menos nos locais onde devia ser colocado. É curioso como ninguém conseguiu acertar com os copos de plástico nos “ecopontos” nem com o lixo nos contentores. Devia haver algum problema, pois muito desse lixo foi parar ao chão pela mão de gente civilizada, mas que estava afetada pela “síndrome da manada” – fazer o que a manada faz. O trabalho ficou para o pessoal da câmara e da empresa de recolha. E foi muito para lá do razoável. Além do lixo as Festas também “pariram” dejetos humanos em cada canto mais ou menos escondido, odor intenso a urina em cada porta como se a rua fosse uma latrina coletiva (as portas de madeira que sofreram tal “tratamento” estarão protegidas dos ataques do bicho da madeira durante o próximo século porque, se aproximar, morre com o pivete), preservativos, moradores com sono e mal humorados por noites em branco e jovens adolescentes a deambular, anestesiados a álcool e pensando que a noitada ainda não terminara e com cara de aparvalhados, enquanto os paizinhos dormiam na “paz do Senhor … dos Aflitos”.

Elogia-se ou critica-se a organização pelos artistas contratados para dar espetáculo e animar as noites de acordo com o gosto de cada um, se o fogo de artifício foi bonito de se ver e fazem-se comparações com as Festas de Paredes e, especialmente, as de Freamunde, porque se mantem essa rivalidade absurda, de um bairrismo da Idade da Pedra.

As Festas Grandes são cada vez “mais grandes”. Porque tem que ser.  Não se pode ficar atrás da concorrência nem das outras comissões de festas. Quando era criança, a Festa Grande era “Grande”, mas “curta”. Vi-a crescer no número de dias que ocupa a vila, anima forasteiros e desanima moradores. No estender da iluminação a mais avenidas, ruas, praças e vielas da vila. Na crescente quantidade e, às vezes, qualidade, de artistas “cabeça de cartaz”, cuja escolha nem sempre é consensual. As Festas já se estendem por vários dias seguidos, sem falar dos “preliminares” que acontecem ao longo do mês de Julho. Se a intensão é atrair cada vez mais forasteiros, não me parece que o paradigma escolhido com a introdução das “barracas de cerveja” seja o caminho certo. Pelo contrário, a venda sem controle de bebidas alcoólicas associada à música em ambiente de “discoteca de rua” tipo “rave” é um erro que já outros cometeram há muitos anos. E nós não quisemos aprender a devida lição e teimamos em repeti-lo e insistir nele, em nome de uma receita adicional tida como importante para o orçamento da organização. Haverá mais recursos para prolongar os dias festivos, recrutar mais cantores do top nacional ou consumir em “foguetório”, coisa em que a minha cadela, se tivesse voto na matéria, estaria contra. Detesta foguetes. Mas o acréscimo de forasteiros nas Festas não pode nem deve ser conseguido à custa do sacrifício dos adolescentes, queimados em lume brando no consumo de álcool sem limites, sem idades, sem razões sérias de interesse público. Se Aquele que é o Patrono das Festas viesse a tomar posição sobre o que estão a fazer em Seu Nome, tenho a certeza que voltaria a correr com os “vendilhões do Templo”, a chicote …

Sempre fui um entusiasta das Festas Grandes. Enquanto criança e até adolescente, pelos doces que os meus pais compravam, pelo “jantar” depois da procissão junto aos “tanques”, pela diversão nos carroceis e carrinhos de choque, pelo “picadeiro”, pela “cascata de luz” que era o monte do Senhor dos Aflitos nas tigelinhas, pelas vacas de fogo que eu via protegido no carro do meu pai, na Avenida Senhor dos Aflitos. Com a passagem à idade adulta as Festas Grandes, para além da festa e do entretenimento, passaram a funcionar como verdadeiro “ponto de encontro” onde ia reencontrar familiares, amigos e condiscípulos que a vida conduzira para outras paragens, mais ou menos distantes, mas sempre perto de nós. E era ali que a cada ano revia uns quantos, relembrava histórias, recebia informações de outros que estavam ausentes e se aplacava a saudade. Seguramente, a cada ano as Festas traziam-me novidades enquanto “ponto de encontro”. E era como voltar às nossas origens, ao encontro do passado, selado num abraço. Há dez anos que me marcam falta nesse “ponto de encontro”, mas os amigos sabem porquê. Apesar da lista de “participantes” diminuir a cada ano que passa, sei que alguns são resilientes e marcam o ponto, porque é dos últimos locais onde ainda nos encontramos, além dos casamentos e funerais.

Fiquei feliz quando perguntei à Teresa se tinha gostado das Festas e ela me disse: “Foram excelentes. Divertimo-nos imenso. Encontramos vários amigos que já não víamos há muito tempo e que vivem fora. Veja lá, que nem sequer reconheci um deles porque está barrigudo e de barbas. Teve de ser ele a vir cumprimentar-nos. Foi um excelente “ponto de encontro”, instalados numa esplanada a rever amigos”. E fiquei a pensar que ela já chegou à fase seguinte, de olhar as Festas também como “ponto de encontro” que são.

E o João, jovem adolescente que os pais “soltaram” à meia-noite, foi com um colega até às barracas de bebidas onde, para “aquecer os motores”, começou com dois “shots” e depois “foi sempre a abrir”. É preciso “molhar os pés” para ganhar asas e desinibir-se, agarrar-se ao copo para estar integrado e parecer um homem, “abanar o capacete” ao som da música. Também para ele as Festas serviram de “ponto de encontro” com a miúda loura de copo na mão que não conhecia. E ainda hoje não sabe quem é, como se chama, nem de onde veio. Sabe que se “colou” a ela grande parte da noite e que “despertou” sozinho já o sol se levantara, deitado junto a um portão de garagem quando este começou a abrir. Foi também um “encontro”, mas não sabe “de que falaram”, que parte do corpo usou para “comunicar” ou até mesmo se chegou a “entrar em contacto”. Os vapores do álcool “apagaram” o registo. Valerá a pena insistir na “fórmula” – e no erro – para termos mais “forasteiros” destes? Em nome de quê?