Category Archives: Uncategorized

“À primeira vista”, choca. E, depois …

Depois do jantar, fico sentado junto da Luísa até às tantas, dividido entre o computador e a televisão onde passam os programas que a sua sensibilidade suporta. Na prática, a televisão está ao seu serviço, não ao meu. Assim, sempre que manifesta incómodo pelo programa que passa no momento, mudo de canal rapidamente. Tolera bem os “Got Talent”, “The Voice”, um pouco o “Telejornal” até chegar alguma notícia chocante e os programas do tipo “Somos Portugal” ao fim de semana, mais um ou outro neutro. Não gosta de ação ou violência e só vê alguns filmes dentro da mesma lógica. Quando não há programa adequado ou não tenha gravações aceitáveis, salto de canal em canal à procura de algo que a não faça reagir de desagrado. 

Numa dessas buscas fui parar ao canal onde decorria um episódio de “Casados à primeira vista”, na Austrália, mas, confesso, considerei tão absurdo e ridícula a filosofia do programa, que mudei imediatamente de canal. Já ouvira falar nele e criara-lhe alguma “aversão”, pois não compreendia como é que alguém se sujeitasse a casar sem conhecer a pessoa com quem iria viver. Achei que era mais uma das “aberrações” que a televisão cria em nome do “vale tudo” para conseguir subir nas audiências. Nos dias seguintes, por diversas vezes passei por ali, mas mudava sempre para não dar à Luísa um “produto” daqueles. Porém, sem uma razão especial, uma ocasião a televisão ficou ali sintonizada e fui vendo a espaços as incidências e consequências dos casamentos. E a curiosidade levou-me a querer perceber a mecânica do programa e, muito especialmente, as motivações das pessoas que se dispõem a participar numa exposição pública do que pode ser ou não um lado importante das suas vidas. E se a minha primeira reação foi recusar ver tal “disparate” por não achar aceitável que alguém se case com uma pessoa que não conhece, depois de ver algumas partes fiquei a pensar nas razões que terão originado o programa e que poderá não ser assim tão absurdo como “à primeira vista” parece. 

O mundo mudou e tudo mudou à nossa volta. E nesse tudo, incluído está o modelo dos “encontros” e de casamentos, o conceito de casal, a (aparente) facilidade com que as pessoas se relacionam, a pressa com que se “juntam os trapinhos” e a velocidade estonteante com que se separam. E, no essencial, a destruição da família como célula fulcral da sociedade e os “cacos” que ficam como seus falsos substitutos. O certo é que, a cada ano que passa e apesar de vivermos num tempo em que tudo parece fácil para se criar relações, os encontros e todas as facilidades (aparentes) de relacionamento não evitam que cada vez mais pessoas, que não o desejam, vivam sozinhas contra a sua vontade.  E não é isso que desejavam. Essa gente, na maioria, quer e precisa de alguém com quem partilhar o dia e a noite, os problemas, o sofá, a televisão, enfim, a vida. Mas estão sós. Muitos são os que, para enganar a ausência, afogam-se em noitadas de sexo sem companhia, de álcool, quando não de drogas. 

Mais de 40% dos portugueses são solteiros e, além destes, tem aumentado os viúvos e, mesmo muito, o número de divorciados pela facilidade com que hoje se descarta o casamento. De tal forma que alguns deles se assemelham à pescada: “antes de o ser já o era”. Isto traz-nos uma realidade nova que cresce dia a dia, sem que se imagine forma de a diminuir. Mas diminuem os “compromissos” porque, apesar das facilidades, a vulnerabilidade necessária a um relacionamento saudável é mais rara, já que subiu a desconfiança, a dúvida, o ceticismo. Provavelmente, a questão é que a maioria já nem sequer o sabe fazer.

Outrora, as fases de uma relação eram: “Conhecimento, compromisso e sexo”, enquadradas em regras tradicionais rígidas. Mas a evolução da sociedade até aos nossos dias fez com que a ordem fosse alterada para “Sexo, conhecimento, compromisso”. No entanto, a facilidade de “conseguir logo à primeira” aquilo que seria o fim último, tornou-se sério obstáculo em alcançar o “compromisso” porque a satisfação do instinto animal fora conseguida sem necessidade de o assumir.  E isto somado à ligeireza com que se desfaz o casamento e se descartam as relações, só vem acrescentar números aos inúmeros casos de solidão. Ora, a chegada de um programa deste género, onde se promete que “uma boa equipa de especialistas vai decidir por si”, com base no seu perfil psicológico e no de muitas outras pessoas, ao ser divulgado em “campo de muitas necessidades”, só pode ter enorme adesão entre gente que já tinha desistido de procurar a sua “cara-metade”. E não deixa de ser curioso que altera e estabelece o novo alinhamento das tais três fases: “Compromisso, conhecimento e sexo”, ordem essa já mais ajustada à moral cristã.  Portanto, é natural que grande parte dessa gente se questione: “Porque não? Vale a pena tentar”. Reparei que muitos concorrentes chegam a dizer “já tinha desistido de tentar encontrar a alma gêmea”. Assim, alinham no programa como outros o tentam pela internet em sites de relacionamentos. O desespero já não impõe condições. Isso passa-se em todo o mundo, sendo o problema tanto maior quanto maior é o desenvolvimento da sociedade. E o expoente máximo dessa solidão e incapacidade de assumir relações é o Japão. Hoje, na era do digital, da velocidade, parece impossível que metade dos jovens adultos japoneses sejam virgens e que tenham dificuldades enormes ou mesmo incapacidade de se relacionarem com mulheres. Estas dizem até que é difícil conhecer pessoas depois de passarem os 25 anos. Serão assim tão velhas? A situação é de tal forma grave que os municípios, instituições e empresas promovem os “Encontros às cegas” e “Festas de solteiros”, juntando milhares de pessoas para estimular “uniões”. E os casais organizam festas com pequenos grupos, para a qual convidam amigos e amigas que não se conhecem entre si, só para “fomentar ligações”.

E quantos sites de relacionamentos não existem por esse mundo fora para juntar pessoas que se não conhecem? Quantas organizações de viagens turísticas destinadas a pessoas sozinhas com esse objetivo?

Se a minha primeira reação foi de uma recusa absoluta do processo e a crítica dura a todos os que alinham no programa, ao parar e pensar acho que é de elogiar a coragem de muitos deles ao arriscar e expor publicamente, como que em tentativa desesperada para não ficar só. Será preferível sair da concha e arriscar, dizer que “preciso de ajuda” ou desistir de ir à luta, de tentar e deixar-se ficar em casa derrotado, com uma vida “preenchida pela tristeza e frustração, quando não de revolta e até ressentimento com quem está perto”?

No tal programa, os participantes fazem o caminho contrário ao de um “casamento normal”, partindo do “compromisso para o sexo”, enquanto neste partem do “sexo para o compromisso”. O conceito e os princípios não estão assim tão errados como se pode pensar.

Claro que o programa enferma de vários senãos, sendo o principal o não se conseguir saber o que é real e o que é teatro, além da pressão que há sobre os casais para “avançar na relação” em função de necessidades televisivas, como se as relações possam evoluir ao tic tac do relógio e conveniência de audiências. Não se dá tempo ao tempo que o namoro exige, nem a liberdade para que ambos se conheçam e em que esse tempo é essencial. Em suma, o programa usa um problema grave da sociedade, crescente e comum a milhões de pessoas que todos temos obrigação de conhecer e sobre ele refletir, pois a qualquer momento podemos incorporar essa legião. E se assenta em princípios básicos corretos, o processo padece dos erros próprios de um programa que, explorando uma realidade dramática, não se desvia um milímetro do objetivo principal na guerra das audiências, a qualquer preço … 

Que o tema é sério, ninguém duvida. Tal como dizia Geraldo Fontes, “viver sozinho é um problema, uma escolha ou um fracasso” …     

Envelhecer não é um problema …

Para ser sincero, acho que ninguém gosta de envelhecer. Não é só por nós, que perdemos faculdades, mas também pelos outros, para quem passamos a ser “um estorvo”, “cansativos”, “inúteis”, “maçadores”, “descartáveis” e “chatos”, já para não falar de outros predicados “bem menos simpáticos”. Apesar disso, ser idoso não é uma doença, nem sequer um problema. Pelo contrário, a grande conquista do nosso tempo é o “direito de envelhecer”. Eu gosto de ser velho e de continuar a envelhecer porque a “alternativa” é algo que gostaria de adiar “indefinidamente”. O envelhecimento será sempre um triunfo e nunca um problema. A questão principal é envelhecermos bem e ter quem cuide de nós. Para isso, Portugal não se recomenda a ninguém. Em 53 países, estamos no grupo dos cinco que pior trata os idosos e podemos “agradecer” a quem nos tem “governado” … Claro que temos livre acesso ao “cardápio das doenças” dos velhos, como hipertensão, pneumonia, cancro, cataratas, diabetes, alzheimer, osteoporose, perda de audição e outras, de que nos podemos “servir à vontade”. Que eu saiba, já “contabilizo” algumas para me poder “gabar” junto do meu grupo etário. É que nas reuniões de amigos, dizemos que temos isto e aquilo e há sempre quem queira sobressair: “Mas eu tenho mais do que tu …”. Os esquecimentos e “lapsos de memória” também fazem parte do “cardápio”, mas são um “luxo”, pois até “dão jeito” nalgumas ocasiões para nos desculparmos. Eu já tenho os meus, que fazem parte do processo, mas ainda me lembro de quem são os meus pés …                                                                              Os esquecimentos dos idosos são motivo de histórias e anedotas como a seguinte: “Um grupo de amigos com 50 anos discutia qual o restaurante a escolher para o jantar. Finalmente, decidiram-se pelo Restaurante Tropical porque as empregadas eram jeitosas e usavam mini-saia e blusas muito decotadas. Dez anos mais tarde, aos 60, o grupo reuniu-se novamente e voltaram a discutir sobre a escolha do restaurante. Escolheram o Restaurante Tropical, pois a comida era muito boa e havia uma excelente carta de vinhos. Dez anos depois, aos 70 anos, reuniram-se outra vez e decidiram-se pelo Tropical porque tinha uma rampa para cadeira de rodas e até um pequeno elevador … Aos 80 anos, o grupo juntou-se a discutir e escolheram outra vez o Restaurante Tropical. Todos admitiram que era uma grande ideia, “porque nunca lá tinham ido almoçar” …                                                            Dizem os especialistas em demografia que em 1970/75 fomos dos países mais jovens da Europa e em 2050 seremos o que tem mais velhos. Admirava-me se assim não fosse. Se aos jovens de então somarmos mais 80 anos, lá para 2050 serão velhos certamente. Como sabemos, os políticos aumentaram a idade da reforma só para reduzir a dívida pública. Mas, havendo mais idosos, vão ter de a aumentar mais. Já agora, para evitar que o país venha a ser o “mais velho da Europa”, também deviam decretar que só será considerado idoso quem tenha mais de 85 anos. Duma “penada”, voltavam a “rejuvenescer o país” …                                                                      Mas, ser velho é uma maravilha e, tirando as “dores” e “afins”, só tem vantagens. A maior de todas é “não termos de trabalhar”. Que trabalhem os outros, porque já foram muitos anos a “dar o corpo ao manifesto”. Outro lado positivo é para os que vivem isolados e sós. Podem-se dedicar à “meditação”. Paz de espírito ou solidão? Os “velhotes” têm muita gente que se preocupa com eles. Melhor, com a “gestão do seu património”. Está provado que muitas vezes cuidam de os “aliviar” desse “fardo pesado”, um gesto “altruístico” digno de “bom samaritano”. E não falta gente sempre “disponível para ajudar”. O senhor João, já com oitenta anos, morava com a mulher dependente e o filho deficiente em casa própria. Em casas suas, ali ao lado, vivem dois filhos à borla e, como “moram longe”, não tinham “hipóteses” de o visitar. Só a nora “conseguia” ajudá-lo. Quando ele precisava, fazia-lhe uma sopa ou conduzia-lhe o carro, … mas cobrava-lhe 5 euros. Não são ajudas “bestiais???                                   Mas as vantagens não ficam por aqui. Para já, não têm ninguém a dizer-lhes que são novos. Só mesmo a gozar. E os privilégios que têm? Os bancos dos jardins são (quase) todos deles, tal como os tascos e os cafés do bairro. Como “o trabalho está feito”, não têm horas para se levantar e podem ficar toda a noite a ver televisão, pela mesma razão. Não é “baril? Se demoram o dobro do tempo a fazer uma caminhada, é porque são sempre eles que apreciam melhor a paisagem. Tal como apreciam a comida, mastigando só, e bem … com as gengivas. Lentamente. E saem muito de casa … basta ver o número de visitas que fazem ao … médico, à farmácia, ao hospital. Cresce-lhes (quase) tudo, especialmente os pelos e as peles. Só “minga” uma coisa, de que têm saudades. O que também não é para todos. 

Um amigo meu sempre que ia à sua quinta gostava de falar com a mulher do caseiro, com quem tinha grande confiança. Numa das vezes, quando lhe perguntou como andava o “homem”, ela respondeu preocupada: “Agora ninguém o atura”. Na brincadeira, espicaçou-a: “Então? Já não vai lá?”. Com naturalidade, ela retorquiu: “Nada disso. Sabe, agora só consegue dar duas por noite …”.  Ele ficou de boca aberta e tão atrapalhado, que não teve capacidade de resposta … Mas há outras exceções que fazem inveja aos mais novos. Já se sabe que os idosos com demências podem apresentar híper-sexualidade, havendo relatos de alguns que fazem sexo várias vezes ao dia. Pensando bem, há uma prova científica de que “ser velho é melhor que ser novo”. É que a medicina e a ciência aumentaram-nos a longevidade, mas prolongaram só a velhice, não a juventude. Não é uma evidência? E outra prova é que, como nos esquecemos da anedota que nos contaram, rimo-nos sempre como se fosse a primeira vez.           Já agora, só mais esta história real para provar que ser velho é bom. A senhora Miquinhas vai a caminho dos noventa anos. Vive numa casita térrea e todos os dias prepara o almoço para a neta e marido e ainda para a nora, já viúva, que não deixa de lá almoçar diariamente, apesar de nem sequer dirigir a palavra à “cozinheira e dona da casa”. E mais: a D. Miquinhas, depois de servir esse almoço a “tão ilustres comensais”, recolhe-se ao canto da cozinha onde não lhe tiram o “direito de comer sozinha”. Não, “com Deus”.                                                                        Mas há muito mais vantagens em ser “velhote”. Porém, como já vai longa a conversa, só refiro que recebem muitos conselhos, como um que circula na net destinado aos homens que, durante a noite, têm de ir várias vezes ao WC. Vou ter de experimentar: “Ao dormir, o corpo na horizontal facilita a circulação do sangue e o coração bate pausadamente. Se você acordar para ir à casa de banho urinar, não se levante à pressa porque o sangue “esvazia” a cabeça e você pode ficar tonto e desmaiar. Faça assim: retese as pernas a partir dos pés durante trinta segundos, para começar a acelerar os batimentos cardíacos. Sente-se calmamente na beira da cama e fique quieto durante um minuto. Passado este tempo, deve-se deitar novamente porque já estará … todo “mijado” …                                                                                                                                                

Pequenos gestos, grandes ganhos…

Sentado confortavelmente na varanda do apartamento, observava o movimento numa das principais artérias de Viseu naquela manhã de domingo, quando surgiu de uma rua lateral um grupo com cerca de vinte rapazes e raparigas, andando passeio abaixo e empunhando cartazes onde se lia em letras garrafais: “QUER UM ABRAÇO?” E os transeuntes que encontravam, surpreendidos e curiosos com aquela iniciativa, paravam e aceitavam, quase sempre bem, um ou mais abraços dos jovens. E seguiam sorrindo, como se tivessem recebido uma prenda de Natal, enquanto o grupo continuava lentamente pela rua fora. Fiquei ali na varanda muito para além de os ver desaparecer ao fundo, roído de inveja daquela simplicidade, ingenuidade e dádiva ao outro, mesmo que desconhecido. 

Dei comigo a pensar que vivi um tempo em que nada disto era possível. Fomos formatados com outros princípios comportamentais, em que as relações interpessoais nada tinham a ver com os dias de hoje. O simples “toque” entre familiares era muitíssimo reduzido, quanto mais com estranhos. Não me lembro de grandes abraços e a saudação aos pais e avós era oral, num “vote-me a sua bênção meu pai” ou “vote-me a sua bênção minha mãe”. Já à minha avó, que não gostava de ser tratada como tal, era um “vote-me a sua bênção mãezinha”. Como as vidas eram muito difíceis em tudo, o pai tinha a função de “caçar”, isto é, ir ganhar a vida para sustentar a família, para o que era necessário trabalhar de sol a sol. Os filhos de lavrador (caseiro), desde tenra idade eram “mão de obra barata”. Por isso se “faziam” muitos filhos. Trabalhavam muito para além do que a sua idade aconselharia, quando ninguém pensava sequer se era legal ou ilegal. E o que se passava com os filhos dos lavradores, passava-se com os filhos de todos os outros. Assim, não havia tempo, disposição nem o hábito de manifestações de afeto em casa através do abraço ou beijo entre homem e mulher e destes com os filhos, quanto mais em público. Era impensável porque “parecia mal”. Porque os sentimentos “não precisavam de ser demonstrados”. Daí haver um pudor cultural enorme, nas palavras, nos gestos, na distância, no respeito. Era bem? Mal? Não é justo julgar à luz dos conceitos de hoje, comportamentos de há setenta anos.

Mas nem é preciso regressar à minha infância para ver as diferenças e sentir os condicionamentos culturais. Ainda há dias, em conversa franca, uma senhora com pouco mais de metade da minha idade me confessava que, estando casada há quinze anos, só há dois foi capaz de dar a mão ao marido. E disse mais. Que foi quase acidental pois, ao andar lado a lado, as suas mãos tocaram-se por acaso e naturalmente agarraram-se. E sentiu-se muito bem. Porque foi que durante vinte e oito anos de namorados e de casados não foram capazes de o fazer, como seria normal? Reconhece que foi o condicionamento resultante da educação familiar, pelo “parece mal”, pelos olhares dos outros que dizem “não podes”, pela limitação que no subconsciente dizia “não” e impedia manifestações de afeto entre pessoas, o que hoje encaramos com naturalidade.

Quanto vale um abraço de conforto, solidariedade, amizade, amor ou simples cumprimento? “Não tem preço”, dizemos nós aqui e agora. Se perguntasse outrora, a resposta talvez fosse: “Tem valor”? Dizem que precisamos de oito abraços por dia para viver melhor e com mais saúde. É caso para nos interrogarmos porque não vivemos melhor se é “tanto ganho por tão baixo custo”? Porque não o fazemos mais? Sabe-se que o abraço melhora o estado de espírito, o humor e o grau de felicidade, sendo mesmo recomendado como terapia. E como os carinhos dos pais permanecem gravados e são lembrados sempre que recebemos um abraço. É que ele acalma, entusiasma, estimula e descontrai, porque foi feito para exprimir o que as palavras não conseguem dizer. Há muita gente a reconhecer que “o melhor lugar para se morar é na ternura de um abraço”. Se soubéssemos o quanto um abraço na hora certa pode resolver …

Pois a memória leva-me lá atrás, àquele tempo de abraços e beijos raros, aliás, de ausência deles. E, apesar disso, não sei dizer se muito valiosos. Mais ainda, como todas as manifestações de carinho e amor, eventualmente restritas ao silêncio e descrição do quarto do casal, longe dos olhares críticos e de “juízes” pouco condescendentes. Se é que havia algo parecido com “carinho e amor”. Não posso esquecer as imagens de telenovelas do “país irmão”, quando o coronel dá ordens à sua mulher: “Dona Branca logo se apronte, que eu vou lhe usar esta noite”. E o que é que isto tem a ver connosco? Nada, porque aqui não havia “coronéis”. E tudo, porque se dizia ou fazia mais ou menos o mesmo, “usando outras palavras”. É que as manifestações de afeto não faziam parte da vida de então. Na realidade, quase só aconteciam quando o “predador” queria apanhar uma “presa”, sendo usadas por ele como “argumento”, quando não “armadilha”. 

O condicionamento que a sociedade fazia às manifestações de afeto era múltiplo. Relembro que as próprias autoridades funcionavam como “polícia de costumes”, atuando sempre que, no seu entender, estivesse em causa a “moral pública”. Assim, eram proibidas todas e quaisquer “manifestações públicas de carinho” porque ofendiam a moral. E sei do que falo, já que também fui um dos interpelados pela polícia no parque do Palácio de Cristal só porque “estava demasiado perto de uma jovem”. Somente isso. Sem tirar “proveito” nenhum, fui repreendido por aquele polícia com ar “didático” e paternal. E tive sorte de não ter ido parar à esquadra …

Neste tempo de liberdade, as autoridades saíram deste filme e tudo (ou quase) passou a ser permitido, seja qual for o espaço público que se use para o efeito. Do abraço ao beijo, do cumprimento de mão ao afago, quando não ir além do que o sentido do pudor recomendaria, tudo é olhado com alguma naturalidade e aceite pela sociedade como normal. Mesmo os maiores absurdos …

Demonstrar afeto é vital para a convivência saudável de qualquer sociedade e foi uma das grandes conquistas da nossa evolução social. E posso falar disso, porque assisti ao “antes” e ao “depois” do quebrar de preconceitos e medo, e à libertação das manifestações de afeto, sejam emoções ou sentimentos. E não tenhamos dúvidas de que, quando o afeto é “real”, as “manifestações” são importantes para um desenvolvimento saudável … 

Festa Grande: O “ruído” que ficou …

Hoje estive a rever imagens da Festa Grande de Lousada, maior, cada ano “mais Grande”. Há quem a denomine de “Festas Grandes” e ainda quem lhe chame de “Grandiosas”. Ora, apesar de decorrer ao longo de vários dias – e este ano foram seis – continua a ser uma só festa em honra do Senhor dos Aflitos e não várias (embora pareça). E faz todo o sentido o “Festa Grande”, porque é a maior do concelho, o corolário de todas as que se realizam em cada freguesia em honra do seu santo padroeiro. E é por ter esse sentido concelhio que o contributo é de todas as freguesias e não só das da vila de Lousada. É desse nome que me lembro quando procuro nos arquivos da memória as lembranças pessoais mais antigas da Festa Grande. E já lá vão uns anitos …

Entre as primeiras memórias está o sábado com a tradicional feira de gado, o rufar dos bombos e a dança dos “gigantones e cabeçudos”, os vendedores da “banha da cobra” com promessas de curar todos os males, propagandistas a atirar pentes ao povo para captar a atenção, negociantes de gado armados de varapau para o que desse e viesse, as filhas dos lavradores, coradas e de cordão de ouro ao pescoço à caça de namorado, os carteiristas e jogadores da “vermelhinha” que vinham dum concelho vizinho para “aliviar” carteiras, a garotada de olhos postos nos pequenos brinquedos artesanais em madeira. E no domingo, a missa de festa com o pregador empolgado no púlpito, a procissão ao fim da tarde e o ajoelhar quando passava o Senhor e depois o piquenique em família junto aos lavadoiros públicos. E já à noite, a banda de música, as tigelinhas a iluminar o monte do Senhor dos Aflitos, as barracas de comes e bebes com pipas de vinho e iscas de bacalhau servidas em grandes mesas de “bancos corridos”. Para fechar, a vaca de fogo que via cheio de medo dentro do carro do meu pai em plena avenida. 

Anos mais tarde falaram-me de “uma mulher da vida” que numa noite acalmou a “tensão” de uns quantos homens entre o milho dos campos lá atrás do monte, usando como lema “cu no chão, dinheiro na mão”. Dizia quem por lá andou que o resultado da noitada foi de quarenta escudos … sendo que cada “cliente” pagava uma “coroa”, ou seja, cinco tostões ou, para quem não sabe, meio escudo. É só fazer as contas …

De ano para ano, o entusiasmo das comissões organizadoras fez com que a Festa crescesse em importância, grandeza e entretenimento para públicos diversos, embora nos últimos tempos muito centrada no negócio do álcool para gente nova, uma forma de financiamento da organização sem ter em conta as consequências. Mas, como dizia alguém envolvido nessas andanças, “é o preço a pagar pelo dinheiro”. 

Agora, fruto das circunstâncias da vida, nos dias de festa fico em casa e só digo “abençoado seja o Monte do Loreto”. É que ele interpõe-se entre a minha casa e a zona onde decorrem os festejos, fazendo com que cá dentro não ouça nada do que se passa no arraial. É como se vivesse noutro mundo. Somente quando rebentam os foguetes, muito especialmente as bombas e os morteiros, sim. Chega o incómodo do barulho, visível no comportamento da minha cadela ao dar sinais de agitação, metendo-se debaixo da cadeira. Então, ouço os estrondos, embora amortecidos pelo monte abençoado. 

Saí duas vezes um pouco antes da meia noite, em ocasiões em que prometi à Luísa ir buscar as tradicionais farturas. Aproveitei para dar uma volta rápida pelos locais mais movimentados do arraial, a forma simples de “apalpar o pulso” à Festa. Como já é habitual, passei pelas barracas de “artesanato africano” feito à máquina na China ou num barracão de Alcabideche, mas vendido por nativos negros vestidos com roupas coloridas para dar credibilidade à “origem controlada”. Também vi trabalhos de outras bandas, sinal de que somos uma boa “sociedade inclusiva”, abraçando tudo e todos. Curiosamente, sendo um ajuntamento onde se promove a venda de “artesanato”, estranho não conseguir encontrar nenhuma barraca de artesanato local, nem sequer da região. As barracas de “comes e bebes” nada têm a ver com as de antigamente. Modernas e sofisticadas nalguns casos, oferecem uma grande variedade alimentar que vai do pão com chouriço meio artesanal às pizas e cachorros. É um facto comprovado que a Festa cresceu em tudo. Em área, diversões, barracas, concertos, iluminação, bêbados e outras estatísticas. Só diminuiu na média de idades dos “anestesiados”, pois se antigamente eram quase sempre “homens velhos enfrascados em verde tinto”, hoje são “adolescentes novos conservados em shots de álcool puro” ou quase. Conserva melhor … A “Família Armando” manteve o seu registo normal ao empanturrar-nos com farinha húmida frita, polvilhada com açúcar. E eu fui cliente duas vezes, fazendo da Luísa uma “vítima” inocente. É que, ao comer farturas e beber sumo, a farinha cresce e a barriga vai atrás e incha …

Apagaram-se as luzes da Festa Grande de Lousada deste ano e com elas o barulho da animação e dos foguetes, para descanso da minha cadela. Mas ficou um “ruído de fundo” que vai e vem, mas teima em continuar, provocado pela indefinição de qual vai ser a Comissão da Festa do próximo ano. Chegou a notícia pública e publicada de que há um grupo que se disponibilizou para o efeito. Mas, além disso, ouço rumores e conversas em surdina sobre reuniões, pressões, avanços e recuos, ingerências e ausências, que transpiram para a praça pública e em nada dignificam os atores. Não se podem esquecer que estamos a falar da “organização da Festa Grande em Honra do Senhor dos Aflitos” e não de um jogo de futebol de casados e solteiros ou de uma corrida ao galo. Por isso, o processo devia ser transparente, célere e digno do que está em causa para evitar especulações e sem se deixar inquinar pela politiquice, que não dignifica o que está em causa … 

É caso para dizer “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. Tal como se apagaram as luzes da Festa e o barulho dos morteiros, será bom que também desapareça esse “ruído” inútil e desnecessário que ficou …    

Será preciso um dia de reflexão?

Hoje é dia de reflexão e eu, como sou bem mandado, estou a refletir. Tenho vinte e quatro horas para o fazer, mas será difícil conseguir estar tanto tempo a refletir. É caso para perguntar: “Será que alguém aproveita este dia em véspera das eleições, para refletir”? Não creio. Se sair por aí a perguntar “está em reflexão?”, vão pensar que estou maluco, porque nem sabem ao que me refiro. E não é necessário um dia reflexão para nada, até porque já todos “conhecemos os políticos de ginjeira”. E “pela aragem, se vê quem vai na carruagem” …

“Conta-se a história de um homem que caminhava por uma estrada, quando se apercebeu de um balão a voar muito baixo. O balonista acenou-lhe desesperado. Conseguiu baixar o balão o mais possível e gritou: “Pode ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas horas da tarde e já são quatro e nem sei onde estou. Pode dizer-me onde me encontro”? O homem da estrada respondeu: “Sim. Você está a flutuar a cinco metros acima da estrada, a trinta e oito graus e quarenta e seis minutos de latitude norte e a nove graus e oito minutos de longitude oeste”. O balonista escutou e perguntou com um sorriso irónico: “Você é engenheiro”? “Sim, senhor! Como foi que descobriu?”, perguntou o homem. “Simples. O que você disse está tecnicamente correto. Porém, a sua informação não me é nada útil e continuo perdido. Será que consegue dar-me uma resposta mais satisfatória”? O engenheiro, depois de uma breve pausa, perguntou ao balonista: “E você é político”? E recebeu como resposta: “Sim, sou político filiado. Como descobriu”? Com ar sarcástico, o engenheiro satisfez-lhe a curiosidade: “Fácil. Você subiu sem se preparar e sem ter a mínima noção de orientação! Não sabe o que fazer, onde está e tão pouco para onde ir! Fez uma promessa e não tem a menor ideia de como conseguir cumpri-la! Ainda espera que outra pessoa resolva o seu problema, continua perdido e acha que a culpa disso passou a ser minha! É político nato!!!” 

Eu não preciso de refletir coisa nenhuma, pois estou decidido e mais que decidido. Claro que vou escolher quem prometeu reduzir muito os impostos, pôr os medicamentos gratuitos para idosos, além de não pagar mais nada na saúde. É o melhor cá para o Zé. E o que se passa comigo também acontece com os dez milhões de portugueses que têm direito a ir votar amanhã. Já escolheram há muito. O partido que propõe a legalização da canábis não conquistou já certo eleitorado, doa a quem doer? E quem promete que a semana de trabalho passa para as 30 horas e o salário mínimo para os oitocentos e cinquenta euros ou até novecentos euros tem ou não tem assegurados os votos de imensos eleitores? Será que algum deles precisa de refletir? 

Mas são muito mais as promessas dos partidos que arrebanharam os milhões de votos em disputa. A promessa de creches gratuitas vai ao encontro dos casais jovens em idade de procriação e com vontade de aproveitar. Passam a ter onde deixar os “pimpolhos” a custo zero. Daí, zero de necessidade de reflexão. Para quem está a precisar de habitação faz algum sentido escolher outro partido que não o que promete construir 100.000 casas com rendas baratuchas? 

E se os eleitores são de Lisboa ou Porto, vão fazer questão de estar à porta do local de voto às cinco da manhã para garantir lugar na fila (tal e qual como em muitas repartições públicas, centros de saúde, etc.) e ser dos primeiros a votar. Terão a certeza que ajudaram a colocar o partido “promitente” no poder. Como a criançada ainda não pode votar, os pais dos cábulas votam por eles no partido que promete acabar com os chumbos no ensino básico (já se fala também fazer o mesmo no secundário). Podem aproveitar também e votar em quem promete acabar com as propinas. Mesmo que os filhos ainda estejam na creche. É uma visão de futuro …

Para os que vivem nos centros urbanos e querem “regressar à terra” há um que lhes serve como uma luva, pois promete criar uma “Rede Nacional de Hortas Urbanas”. Não sei se são “hortas penduradas” ou não. Para quem acha que os políticos vivem à sua custa, votará com certeza no partido que vai reduzir os deputados para 100. Falta saber é se, para dar “emprego” aos outros, não vão aumentar o número de ministros, secretários de estado, etc. Mas há promessas para todos os gostos (e necessidades). Não quer que se pague a dívida pública? Quer que Portugal saia da União Europeia e da Nato? E os comboios devem chegar mais longe? ADSE para todos? Aulas de filosofia para crianças? Já nem falo nos eleitores que são “adeptos fanáticos” do seu “clube político”, pois não vale a pena refletirem porque só veem “uma coisa ao fundo”. Por tudo isto, não é preciso este dia de reflexão …  

Se os políticos vão cumprir ou não o que prometem é outra questão, que amanhã não importa. Nem sequer depois …

Entregámo-nos confiantes e inocentes aos políticos (governantes) e não percebemos (ou não queremos perceber …) que para eles, “não mentir”, não significa “dizer a verdade”. São duas coisas distintas. Basta lembrar o que se passou com o “arremedo de descentralização” anunciado pelo ministro da saúde (que “já foi de vela”) e confirmado depois pelo primeiro ministro no Parlamento em tom agreste e muito cínico, de que o Infarmed vinha para o Porto, quando estava visto que a “montanha ia parir um rato”. E aconteceu. O Porto “ficou a ver o Infarmed por um canudo” e já ninguém se lembra da “garantia que era a sério” e do nosso primeiro ter “a lata” de afirmar “que já o tinha repetido perante os deputados da nação e do país por cinco vezes”, como se tratasse de uma verdade definitiva. Com todas as repetições, conseguiu um feito histórico ao “afirmar” uma mentira duas vezes mais do que o apóstolo Pedro quando negou Jesus Cristo … 

Aliás, foi o que fizeram os políticos de cento e oitenta e nove países no ano 2000, como diz o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Nesses dias do ano 2.000, 189 países assinaram a Declaração do Milénio e comprometeram-se a resolver todos os dramas do mundo. O único objetivo alcançado não apareceu na lista: conseguir multiplicar-se a quantidade de “especialistas” necessários para levar adiante tarefas difíceis. 

Pelo que ouvi, em S. Domingos um dos especialistas estava a percorrer os arredores da cidade, quando parou diante do galinheiro da dona Maria de las Mercedes Holmes e lhe perguntou: “Se eu disser exatamente quantas galinhas tem, a senhora dá-me uma? E ligou o computador tablet com tela “touch screen”, ativou o GPS, conectou-se através do seu telefone celular 3G com o sistema de fotos de satélite, pôs o contador de pixels a funcionar: “A senhora tem 132 galinhas”. E pegou uma. Dona Maria de las Mercedes não ficou calada: “Se disser ao senhor qual é o seu trabalho, devolve-me a galinha? Pois então eu digo: o senhor é um especialista”. “Como sabe”, questionou ele. Ela respondeu: “O senhor é um especialista internacional. Notei porque veio sem ninguém o chamar, entrou no galinheiro sem pedir licença, contou-me uma coisa que eu já sabia e cobrou-me por isso” …

Da esquerda à direita, as promessas eleitorais têm mais ofertas que um propagandista em feira de ano, com benesses para todo o tipo de clientela. A verdade é que a maioria delas não passa de fogachos. Os que decidem em muitas dessas matérias têm os “rabos” sentados em Bruxelas e Estrasburgo e não em Lisboa. E, que se saiba, as eleições de amanhã deixarão os eleitos sentados na nossa capital …

Moscas, mosquitos e outras “melgas” …

Havíamos chegado a Luanda há alguns dias e, instalados na pensão bem perto do mercado de S. Paulo, conseguira convencer o Zé, meu colega e amigo, a comer o bife que lhe serviram ao jantar porque, como estava habituado à “comida da mamá”, já andava a passar fome desde que saímos do continente. Meteu a primeira garfada à boca e, quando se preparava para cortar mais um bocado de carne, naquela sala onde as moscas eram mais que muitas, duas delas “abraçaram-se” em pleno voo e, incapazes de controlar a aterragem, caíram aos trambolhões dentro do prato dele. E com um ar de desgraçado e de quem não sabe o que fazer, perguntou-me: “E que faço agora”? Sem pensar muito, disse-lhe o que pensava: “Empurra-as para o lado e acaba o bife”. Era um tempo em que não havia lugar ao desperdício …

Como é que um pequeno inseto, seja mosca ou o mosquito, nos pode estragar a refeição ou dar-nos cabo do juízo ao pôr-nos a fazer figura de estúpidos dando “sapatadas” na cara, na cabeça ou no corpo, na tentativa de lhes acertar sem que levemos a melhor na maior parte das vezes? Chega a ser desesperante travar luta tão inglória. Ainda hoje andava cá por casa a “jardinar” e suei bastante. A certa altura, as moscas começaram a voar à minha volta tentando pousar na cabeça, nas orelhas e no nariz, atacando e fugindo logo numa estratégia de “guerrilha” que fazia “moça” pelo incómodo. Uma chatice. Mas o pior foi quando uma delas ficou às voltas dentro da orelha, obrigando-me a dar uma palmada na cara com mais força que a desejada. Raio de mosca. Mas são rápidas, bem mais rápidas do que nós. Dificilmente lhes acertamos. E tudo está nos olhos e na velocidade de perceção das imagens, um sem número de vezes mais rápida do que nós, que lhes permite perceberem o nosso movimento muito cedo, mal o comecemos a fazer e que lhes dá tempo para se “porem ao fresco”. Sempre que vou fazer a minha caminhada matinal atrás da Becas, sim, porque é ela que me leva a reboque, numa parte do percurso é habitual ser atacado por umas moscas pequenitas, mas chatas, que me obrigam a tentar sacudi-las agitando as mãos dos dois lados da cabeça ou abanando com o boné. Ontem, quando ia a chegar ao cimo duma subida a fazer tal figura de parvo, de tão desesperado, ao agitar as mãos acertei nas hastes dos óculos escuros que uso nos dias mais luminosos, indo estes parar ao asfalto da rua com alguma força. Como que de forma automática, fecharam-se e, com as lentes arredondadas voltadas para baixo, começaram a deslizar pelo asfalto ladeira abaixo. De repente, vi-me a correr atrás dos óculos na descida, mas quanto mais corria, mais os óculos aceleravam qual “skate” e não os consegui apanhar senão quando pararam lá no fundo. Se alguém ali ao lado estivesse a ver a cena pensaria que era o programa dos “apanhados”. Claro que as lentes ao deslizarem sobre o asfalto áspero, foram bem “esmeriladas” sem eu pedir. E tudo por culpa de uma mosquinha, a que nem sequer se podia chamar de mosca …   

Não gosto de moscas nem de mosquitos por muito ecologista que seja e não espero vir a ser convencido do contrário. Nem mesmo quando nos dizem que a “mosca soldado negra” pode ser uma solução para o problema da alimentação humana. Já há criadores de larvas desta espécie de mosca pois, diz quem sabe, elas conseguem transformar qualquer resíduo orgânico em proteína de altíssima qualidade. Mas nem assim. É que “as moscas tanto pousam no mel como no estrume” e, quando me tentam chatear, nunca sei de “onde é que elas vieram”.

Já decidi que não inicio nenhuma viagem por mais curta que seja com uma mosca “a bordo”. São um perigo à condução porque, quando se poem a voar à nossa volta podem ser tão chatas que nos obrigam a tentar abatê-las o que, para quem vai a conduzir, pode ser um problema sério … 

Mas, muito mais incomodativo que a mosca, é a melga. A melga é um mosquito, embora nem todos os mosquitos são melgas. Só as fêmeas, pois os machos não nos picam nem chateiam. Só mesmo elas têm o péssimo hábito de nos darem cabo do juízo e do corpo. Diria que é uma característica inata de “género” … Mas, voltando à melga, para além de duas asas está também munida de uma tromba especializada em picar a pele e sugar sangue. Mas se há alguma coisa de que não gosto (nem ninguém penso eu …) é ser acordado a meio da noite com um “bzzzzzz”, “bzzzzzz” a entrar pelos ouvidos, do tipo berbequim a furar, voando à volta da cabeça num vai e vem sem parar, diminuindo ou aumentando de intensidade conforme se afasta ou aproxima. Quando acordado ao “toque de ataque” desse “inimigo invisível”, sem pensar e de forma instintiva, cubro a cabeça com o lençol e tapo-me todo para impedir que tenha acesso à minha pele. Mas o “bzzzzzz” não para, pois ela sabe que tem sangue fresco ali à mão. Às vezes, quando mais acordado, acendo a luz, mas desaparece como por encanto. Mal apago o candeeiro, o som volta. Só me resta sujeitar-me ao castigo para lhe montar a armadilha. Ponho o braço esquerdo de fora dando-lhe “campo” para ela aterrar e picar. E deixo que enterre a tromba e comece a sugar sangue, para se distrair da palmada que a mão direita tem preparada. Só assim será possível abater esse “inimigo”.

As melgas atacam-nos porque somos como que um “camião cisterna” do alimento necessário para a maturação dos seus ovos: o sangue. E conseguem facilmente descobrir-nos pois emitimos odores especiais que elas detetam, como “letreiro em supermercado”. Já me aconteceu estar com outras pessoas em quem elas não “tocam”. Será que é gente com o sangue envenenado e, se picarem, morrem? Ou terão o sangue estragado e com sabor a ranço? A acreditar nos estudiosos, há alguns humanos que emitem algo parecido com um repelente, que as afasta. Infelizmente, não é o meu caso. Chego a pensar que o meu tem mel …

Já agora que estou a pensar no muito que “fui mordido” ao longo da vida, não há dúvida que as maiores “picadelas” que levei foram dadas por “melgas” bem maiores e que não têm tromba, mas “trombas”. A alguns, bem me apetecia “parti-las”. Verdade seja dita que nunca me acordaram a meio da noite nem tão pouco fizeram “bzzzzzz” à minha volta a avisar que estavam prestes a picar-me. Nisso, as verdadeiras melgas são honestas porque avisam quando vão atacar, ao contrário das “melgas grandes”, que são traiçoeiras e enganadoras.

Há muitas recomendações para afastar as melgas e evitar as picadas dolorosas, desde usar roupa clara, “fazer de morto”, andar com uma ventoinha e outros mais ou menos curiosos. Além disso há os meios técnicos expressos numa grande variedade de aparelhos feitos para matar ou repelir. Para não ser “picado” pelas outras “melgas”, tenho alguma dificuldade em dar conselhos, porque preciso de alguns. Em teoria, é fácil. Para resistir ao “canto da sereia”, lembra-te bem: “nos negócios, não existem amigos, apenas clientes” e “não emprestes dinheiro a um amigo, porque perderás os dois”. Se formos capazes de seguir estes dois princípios, não precisaremos de nenhum outro “repelente” … 

Que ele me perdoe o preconceito

Morreu Roberto Leal, tido como “o português mais brasileiro” para milhões de pessoas e “o brasileiro mais português” por muitos mais. Se durante alguns anos a sua música me “passou ao lado”, tal como a sua figura exótica, não posso deixar de reconhecer que, a partir do momento em que conheci a sua história e a força das suas convicções, passei a ter por ele um respeito acrescido, muito maior ainda quando fui confrontado no meio do Pantanal por um natural do “país irmão”. Tinha ido parar a uma casa nas margens do rio Paraguai levado por um amigo brasileiro que me prometera uma pescaria em grande ao “jaú”, um peixe que atinge mais de duzentos quilos e por lá fiquei durante três dias a “tentar pescar” durante muitas horas seguidas, a comer bem (e beber mais) e a borrifar-me de repelente para escapar ao ataque de milhões de melgas famintas de sangue fresco. À noite, entre um jogo de cartas e cerveja gelada, saíam conversas com a meia dúzia de pescadores idos de vários pontos do Brasil onde se falava de tudo. 

E aí, “no meio do nada”, um deles questionou-me o porquê de só haver um cantor português a atingir grande sucesso no Brasil e ser o único grande embaixador da música portuguesa e de Portugal. Fiquei sem saber a quem se referia e vieram-me à cabeça alguns nomes. Mas na dúvida, perguntei: -De quem está a falar? E então fui surpreendido pela resposta: – De Roberto Leal. E desfiou um enormíssimo elogio ao cantor, não só pela sua música, mas também pela forma como soube ajustar-se à cultura brasileira sem deixar de ser um grande promotor de Portugal naquele país. A conversa foi longa e o tema foi o Roberto Leal, como homem e cantor de sucesso por aquelas bandas.  

Tudo aquilo que aquele brasileiro me disse naquela noite coincidiu com outras informações que conhecera nos últimos anos e que me levaram a olhá-lo com respeito e admiração. Mais ainda, se tivermos em conta que teve de emigrar para o Brasil na companhia do pai e de mais nove irmãos, para fugir à miséria e à pobreza de Trás Os Montes (e do país), mais concretamente de Vale da Porca. Com onze anos viu-se num país estranho onde teve de trabalhar como sapateiro (e até engraxador) e depois comerciante de doces. Só mais tarde, criando um visual “ao gosto do mercado brasileiro” e com a canção “Arrebita” do António Mafra se viria a lançar como cantor, num sucesso sempre maior, traduzido em cerca de vinte milhões de discos vendidos. “Mais do que música, ele deu conforto a quem estava longe da sua terra e era consumido pelas saudades”, dizia um jornalista …

Profundamente religioso, sempre expressou publicamente a sua fé e o amor pelo país que o viu nascer. 

Na “Folha de S. Paulo”, Júlio Maria escreveu: “Mais do que a divindade Amália Rodrigues, mais do que a Mariza, mais do que a Carminho e bem mais do que António Zambujo, Roberto Leal foi quem levou ao mais distante dos quintais brasileiros a música do seu país, num tempo em que o Brasil não consumia nada de Portugal. O Brasil só descobriu Portugal com Leal a partir dos domingos em que ele entrava nos lares dançando o vira com uma desenvoltura de passista de escola de samba. Sozinho, foi ele que abriu as portas do Brasil quando ninguém por aqui queria saber de Portugal”.

Roberto Leal partiu desta vida com o sentimento de que o seu país não foi justo com ele e se esqueceu de reconhecer oficialmente o seu trabalho de “embaixador”. Aliás, o serviço que ele prestou a Portugal é reconhecido por todos os brasileiros, quer se identifiquem ou não com a sua música, que também não entendem como é que num país onde todos os anos se anda à procura de gente a quem entregar uma comenda, inclusive alguns tidos por ladrões e corruptos, ninguém se tenha lembrado do seu nome, se é que não houve discriminação pelo seu visual, pela sua música ou pelo que se disse dele em determinada altura.

Tudo isto para confessar qual a razão de trazer Roberto Leal à liça, aqui e agora. No momento em que a televisão noticiou a sua morte, parei com o que estava a fazer e, quase instintivamente, pensei nele e acabei por lhe pedir que me perdoasse lá do lugar onde a sua alma repousa. Não o conhecia pessoalmente, nunca fui a um concerto seu nem seguia o seu percurso profissional. Também não sou um maluco. Nada disso. Tive um rebate de consciência por ter tido durante uns quantos anos, alguns preconceitos em relação a ele, sem qualquer razão objetiva e comprovada. A minha opinião desfavorável não tinha por base dados concretos, pois nada sabia sobre a sua vida pessoal e só conhecia as imagens que vi na televisão e, eventualmente, alguns comentários do apresentador ou comentador. Diria mesmo que foi uma má primeira impressão e uma reação hostil às imagens de alguém exuberante na maneira de vestir, aos arranjos de músicas portuguesas, sei lá bem. Caí naquele mau hábito de um julgamento apressado e sem sentido. Foi assim que durante alguns anos não “ouvi” Roberto Leal a cantar, mas “vi” alguém sobre o qual tinha preconceitos. Só quando um acaso me deu a conhecer a sua história de vida, tive consciência do quanto eu tinha sido injusto e estúpido ao julgá-lo de forma leviana. 

Goste-se ou não se goste da sua música, do seu visual ou da sua cara, há que ter respeito por alguém que, saído do nada, subiu a pulso a escada do sucesso tendo de sujeitar a imagem (e o nome) à exigência da profissão, sem que por isso tenha perdido valores e as referências das suas origens e dos seus.

Junto à fronteira com a Bolívia e ao rio Paraguai, mas longe de tudo e confinado ao espaço limitado de uma casa abrigo de pescadores por “pressão” das nuvens de melgas que esperavam lá fora, ao ouvir os argumentos do pescador brasileiro a favor do “nosso” Roberto Leal colocando-o no ponto mais alto do sucesso luso em terras brasileiras, não tive qualquer problema em pensar que errara. E agora que está num “local” onde, sem continuar a cantar o “Arrebita”, o “Português Brasileiro” ou o “Canto a Portugal”, não irá receber a condecoração que mereceu, espero que os anjos e os querubins o levem tão alto no Céu quão alto chegou no país que o adotou … 

“T’ás c’o tau”? “Bai bergar a mola” …

Há muitos anos, tantos que ainda nem existia o GPS com aplicações onde introduzimos uma morada e somos “guiados” até ela, mesmo que seja “nos confins do mundo”, tive de ir a casa de uma pessoa lá para os lados de Ermesinde, numa zona de ruas e ruelas onde não era fácil chegar ao destino sem ajuda. Às tantas vi um homem sentado à porta de casa e parei, pedindo o favor de me orientar para encontrar a morada. E ele, com pronúncia muito vincada e linguagem típica “do Porto”, foi “claro e muito objetivo ao dar-me a indicação: “Olhe meu amigo, bocê bai por esta estrada sempre em frente. Bai aparecer-lhe à mão direita uma biela e bocê cague na biela. Siga em diante e quando bir outra rua à mão esquerda, cague também nessa rua. Só depois, na rua que bem a seguir, à mão esquerda, é que bocê bao por aí e logo na primeira casa à mão direita bai ber o Miro”. E foi tão “claro e direto” que fiz tudo aquilo que ele me mandou fazer, desde o “cagar na biela à mão direita”, “cagar na rua à mão esquerda” e “entrar” na outra rua à mão esquerda para ir ter direitinho à porta do Miro sem pedir mais informações a ninguém. Para cumprir todas as indicações que aquele homem havia dado tão simpaticamente, tive de “cagar” na “biela” e na rua como ele me indicou, sem ter de levar à letra o sentido literal da palavra, mas somente a sua “tradução” para a linguagem comum, que queria dizer “para as ignorar e ir em frente”. 

A forma de falar na região do Porto, para além duma fonética própria como a pronúncia acentuada do “ão” como “morcom” ou “ladrom”, o trocar o “v” pelo “b” como é o caso do “vai” pelo “bai” ou do “vir” pelo “bir”, além de outras, tem ainda como característica a incorporação de algumas expressões e palavras em calão e ainda as do chamado “baixo calão”. E nós aqui no Vale do Sousa, embora não tenhamos a pronúncia tão cerrada e própria de algumas zonas da cidade do Porto e arredores, acusamos uma forte influência, muito especialmente nas expressões e no calão que usamos com frequência.

O acesso generalizado da população à escola nos dias de hoje poderia fazer crer que o calão e algumas expressões mais brejeiras tenderiam a ter um uso muito diminuto, mas não me parece que seja o caso. Por isso, hoje como ontem, ouvimos muita gente com a língua “solta”, sem peias nem preconceitos, com toda a naturalidade, falar naquilo que é uso dizer-se, “português vernáculo”. E se o uso do calão pode ter uma carga ofensiva ao ser usado como “arma de arremesso” para agredir alguém verbalmente, na maior parte das vezes são só “palavras como as outras”, estranhas para quem não é de cá, mas que saem boca fora inocentemente sem qualquer intenção de ofender, sem complexos nem sentimentos de culpa, até com sentido elogioso. Ao conhecer as notas do filho na Secundária, uma mãe disse-lhe orgulhosa: “Saíste-me cá um filho da p. bem mais inteligente do que eu …”.

Tenho uma tia que sempre usou no seu vocabulário esses “palavrões” regionais, mas com uma pequena diferença, subtil. “Oh meu filho da curta” ou “vai-te cozer”, eram duas das expressões onde “torneava” a rudeza do calão que considerava “impróprio” para uma mulher, mas não deixava de o utilizar na sua versão “adoçada” pela simples troca de uma ou duas letras.

Para além do calão “puro e duro”, existem expressões de há muito tempo, vocábulos populares e gíria urbana de uso corrente na região.   

Algumas são até criativas como “mandei-lhe uma traulitada direta à caixa dos fusíveis” que o mesmo é dizer “dei um murro nas ventas”, “na caixa dos pirolitos”, “no focinho”, ou seja, na cabeça. Já quando alguém morre, dizem “foi fazer tijolo”, “deixou de fumar”, “secou-lhe o céu da boca”, “bateu a caçoleta”, “bateu a bota”, “esticou o pernil”, “foi para o Jardim das Tabuletas”, “foi desta para melhor”, “deu o peido mestre” e muitos outros. A verdade é que, se não estivermos dentro da gíria, podemos ouvir a conversa e ficar “como um burro a olhar para o palácio” porque não entendemos patavina, algo como quando os jovens falam na gíria atual e me deixam “sem perceber a ponta dum corno”.

Ele entrou no “boteco” pela “porta do cavalo” quando já “não podia com uma gata pelo rabo” e “sem saber de que terra era”, até porque apanhara a “bezaina” ao “correr as capelinhas”. De “chuço” na mão, parecia “um gato pingado” a fazer “conversa de chacha” quando “deu de trombas” com o João. “Estás com’ó aço”, disse-lhe ele, “e com cara de quem vai chamar pelo Gregório”. “Bai-me à loja”…  e então o João “lá bazou”, enquanto ele “birava o barco”. Mas logo a seguir já “tava a bombar” e a “mandar bitaites”. Quando passou uma amiga atirou-lhe: “Vais toda lampeira”, mas ela “estava com o toco” e respondeu: “Bai bergar a mola, morcom”. Ora, quando somos apanhados no meio de diálogos deste tipo, podemos ter alguma dificuldade em acompanhar e compreender o “filme” completo, porque nem sempre dominamos todas as expressões.

Há dias, o filho de um amigo hesitava em tomar uma decisão. O pai, já farto de esperar, às tantas explodiu: “Assim, nem o pai morre nem a gente almoça”. Não conhecia a expressão e lembrei-me de um outro momento em que ele se decidiu pela compra de um determinado modelo de carro. Quando o tentaram dissuadir, foi perentório: “Nem que a vaca tussa”. Se fosse a minha tia, no seu calão “adoçado”, diria: “Nem que te … cozas”.

Para “não borrar mais a pintura” e “não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada” nem “o olho do cu com a feira de Montemor” ou “a obra prima do mestre com a prima do mestre de obra”, “vou dar de frosques” e “corda nos sapatos”, munido “de armas e bagagens”, pois tudo o que eu possa dizer “não adianta um grosso” …  

Agosto, é o melhor e o pior para …

O mês de Agosto é em si um paradoxo, a começar pelo provérbio “Agosto nos mata, Agosto nos farta”. Mas é um paradoxo sobretudo por ser sem dúvida “o melhor e o pior” mês para se gozar férias. Até parece um absurdo que se seja uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo, mas Agosto tem essa particularidade. Mais ainda, também é o melhor e o pior mês para se trabalhar. E esta? E tudo é demonstrável como se poderá perceber, embora seja estranho quando duas ideias se opõe uma à outra, que é o contrário do que diz o senso comum de qualquer cidadão. Mas vamos a isto, porque a tarefa é ingrata …

A maioria das pessoas sempre escolheu o mês de Agosto para as suas férias, por uma ou outra razão. E cada uma tem as suas razões. O mês é tido como “época alta” e isso quer dizer com procura elevada. E se a maior parte de portugueses prefere o mês de Agosto, é porque ele é o seu preferido (ou o possível) para descansar. Nessa perspetiva, pode-se dizer que é o melhor mês para férias. Há muito sol, a água do mar é mais quente especialmente no Algarve, há mais dia que noite, muitos turistas, noites agradáveis (em todos os sentidos), diversões e festas para todos os gostos. É o mês em que governantes, políticos de todos os quadrantes, empresários de sucesso, figurantes e figurões de todo o tipo de mediatismo aparecem no sul de Portugal (porque querem bronzear, mas muito mais, estar no sítio certo para vir nas revistas cor de rosa). Os iates e lanchas saem das marinas, as esplanadas são invadidas por multidões dia e noite e as discotecas estão “a bombar”. É o S. Miguel das agências de viagem, que despacham povo para todo o mundo em férias “lá fora”, em contraponto com o “faça férias cá dentro”. Por tudo isso, quem não quer fazer férias em Agosto? 

Pois, para mim, Agosto é o pior mês para ir de férias. Sem dúvida. Se a estação é alta e as temperaturas são altas (este ano nem por isso), os preços não lhes ficam atrás. Vendo bem, neste mês tudo é exagerado. A começar pelas filas de trânsito, que são um teste à paciência. Mas há também as filas nas caixas do supermercado, dos restaurantes e até das tascas foleiras, das discotecas, das viagens turísticas. E todas as outras filas onde quem está de férias precisa entrar para o que quer que seja. E tem de se comprar o que há e não o que se quer, pois “está esgotado” e não se sabe quando vai haver. É o mau atendimento em restaurantes, hotéis e todo o tipo de serviços turísticos porque a procura é muita e a qualidade da oferta cai. 

Será que tenho o espírito de contradição? De maneira nenhuma. Há muita gente que sente esse problema, mas “tem de fazer férias em Agosto”, porque é quando a empresa encerra para férias ou quando os filhos não têm aulas. Está em sintonia comigo e, mais ainda, porque não gosta de ir para a praia e andar a esmolar um pedacinho de areal para estender a toalha, ficar com o bafo a cerveja do vizinho mais próximo, ser incomodado pelos atropelos e “banhos de areia” de quem passa ou apanhar as cascas de banana e as gargalhadas altas do lado. E até para ir tomar banho no mar ter de pedir autorização para entrar na água. Lá para a ponta sul do país, é atendido em inglês, como se estivesse no estrangeiro. Até pode ser “chique”, mas estamos em Portugal!!! E tem de se aprender a esperar, mesmo que seja por uma simples garrafa de água. E a ter paciência, muita paciência mesmo para não estragar as férias. Em suma, quem procura tranquilidade encontra confusão, quem deseja silêncio tem barulheira e quem quer fugir ao stress, “mete-se na boca do lobo”. De tal forma que, quando se está na longa fila à espera de mesa no restaurante, chega a pensar que entrou na fila “da sopa dos pobres” …

E se Agosto é o melhor e o pior mês para ir de férias, também é o pior e o melhor mês para ficar a trabalhar. Porque quem fica a trabalhar é impedido de o fazer ou, pelo menos, tem a vida muito complicada. Se quiser comprar alguma coisa para o seu trabalho, vai descobrir que a empresa fechou para férias e só abre no mês que vem ou só lhe fazem o fornecimento na segunda quinzena de Setembro. Para conseguir um simples orçamento vai ter que esperar porque o responsável não está ou o stock está esgotado e só será reposto nessa altura. Mas se precisar de ir a uma repartição ou organismo público, tire a senha e espere. Quando chegar a sua vez, vai descobrir que o funcionário que trata do assunto que você quer resolver foi para o estrangeiro ou só vem na segunda semana de Setembro. E se souber por mero acaso que o seu processo foi analisado e tem parecer favorável, é certo e sabido – e pode estar a contar – que o responsável que tem de dar o despacho final não vai estar. Porque, como é o mês de Agosto, o mês das férias, muita gente não vai estar e você não vai conseguir que lhe resolvam assunto nenhum. Você até se vai arrepender de não ter ido também de férias. Com um pouco de sorte podia encontrar por lá a pessoa responsável e era meio caminho andado para despachar o seu caso. Bem vistas as coisas, até parece que se uniram todos aqueles de que precisa para fazer o seu trabalho, só para o chatear. Mas não é só consigo. Agosto é isso mesmo, não dá para trabalhar, especialmente para resolver problemas em que se depende de outros. Você pode até resolver manter em funcionamento a sua fábrica de confeções, mas se precisar de um “carrinho de linhas”, vai ver que o fornecedor … 

Eu tinha vários assuntos para tratar este mês, mas não consegui resolver um único. Nada. Só queria riscar um da lista, mas nem isso. Estavam de férias. Por isso, Agosto é o pior mês para se trabalhar. Mas é e não é. É mais uma vez um paradoxo. Se é verdade que é o pior mês como vimos, também não deixa de ser verdade que é o melhor. Exato. O melhor para trabalhar e, curiosamente, o pior para tirar férias. Porquê? Pela simples razão de que, como a maioria das pessoas vai de férias, quem fica “tem férias” dos que partem e por isso está mais à vontade, sem pressão. Para mim, fazer férias noutro mês que não em Agosto é como se tivesse dois meses de férias: o mês que se escolhe para ir passear e “laurear a pevide” e o mês de Agosto, porque poucos são os que ficaram para nos “fazer trabalhar”. Já viu o que é trabalhar numa repartição durante esse mês e atender a pouca gente que não foi de férias? Já sei que vêm os emigrantes a querer resolver assuntos pendentes durante os dias que estão por cá. Mas há sempre uma saída: “O colega que trata disso está de férias” …

Ora, para este ano já estamos conversados pois o Agosto já se foi e não adianta dizer que quer fazer férias nesse mês. Agora, já só para o ano que vem. Mas não se esqueça que Agosto é o pior e o melhor mês para fazer férias, tal como o melhor e o pior para ficar a trabalhar. E se tiver dúvidas disso, arranjo-lhe testemunhos que comprovam uma coisa e o seu contrário. Um paradoxo? Talvez. Por isso meu caro, para a próxima a escolha continua a ser sua … e seja o que Deus quiser …  

Mal por mal, qual o mal menor?

Datas não são o meu forte. Deve ser por isso que não fui bom aluno a história. E porque “levava na cabeça” de vez em quando por esquecer aniversários ou outras datas tidas por importantes. E ainda levo. Mas há um dia que não esqueço e sobre o qual amanhã já se completam onze anos: aquele em que encontrei a Luísa tombada de lado na casa de banho sem dar acordo de si na sequência de um derrame cerebral, que se viria a repetir de forma mais grave cerca de quinze dias depois quando ainda estava internada no Hospital de S. João. Alguns meses de hospital em hospital, de tratamento em tratamento, de avanços e recuos, fizeram com que chegássemos a uma situação relativamente estável, mas com perdas graves. E essas perdas são totais, ou quase, no equilíbrio, na autonomia, na memória de curto prazo, além de outras condicionantes graves em termos de higiene e saúde pessoal. Desorientada no espaço e no tempo, muito dificilmente consegue saber onde está, para onde vai, qual é o dia ou o mês. Ao longo destes onze anos “habituamo-nos” às suas limitações e ao seu mutismo, estando quase sempre junto de nós, mas na realidade bem longe, num mundo que é só seu. É muito raro ouvi-la dizer que lhe dói isto ou aquilo, mas de vez em quando verbaliza um “estou mal disposta”, que pode significar várias coisas, até mesmo que alguma coisa lhe está a doer. Enfim, uma vida passada entre a cama e a cadeira de rodas, mas num mundo à parte …

A sua “ausência da realidade” é como uma moeda de duas faces. Por um lado, é uma perda terrível que a faz estar fora do mundo que lhe passa ao lado a cada momento, sem o perceber, pois não consegue compreender um filme por mais simples que seja a sua história. Por outro, acaba por ser uma bênção, pois não tem consciência do estado de saúde e da dimensão das suas limitações, vivendo o dia a dia com tranquilidade. Se tivesse essa perceção, como estaria o seu lado psíquico?

Foi neste estado de saúde que hoje, às seis da manhã, fui acordado pelas palavras que a Luísa proferiu: “Estou a sofrer muito”. E logo de seguida, acrescentou: “O que me vai acontecer?”. Percebi logo que a Luísa estava bem acordada e tomara consciência do seu estado e das suas limitações. Daí o seu sofrimento e a sua preocupação pelo que lhe iria acontecer em função delas. Foi-se o sono e veio um pedaço de conversa para a acalmar, até conseguir que voltasse a adormecer, para só acordar quando a manhã ia adiantada, sem memória alguma do que se passara e de novo “ausente”. 

Não deixa de ser curioso que, no dia a dia e enquanto está connosco sentada na cadeira de rodas, embora pareça estar concentrada na televisão ou noutra coisa qualquer e não dê atenção ao que fazemos ou dizemos, de vez em quando faz um comentário assertivo e que se encaixa perfeitamente na conversa, como se estivesse atenta. Foi o que sucedeu quando uma estudante de enfermagem a fazer estágio num hospital contava o que lhe tinha acontecido com um doente afetado por problemas mentais e que não reagia a nenhum estímulo. Dizia ela que, para estimular o doente e ver se tinha alguma reação, quando a enfermeira passou, disse: “Já viu que a senhora enfermeira é gira?”. Aquele doente teve então um sorriso rasgado. A Luísa, que ouvia calada, meteu a “colherada”: “É porque ele não estava doente das vistas …”.  

Tenho muita dificuldade em perceber se estes “comentários”, apesar de simpáticos, se serão conscientes ou reações instintivas, fruto da sua forma de ser e brincar com as situações. Ontem mesmo, quando víamos a história de um português pelo mundo, para a despertar do mutismo em que se refugia, comentei: “O rapaz é bonito”. E ela reagiu de imediato: “… para ver de passagem”. Mantem esse instinto natural da resposta pronta “na ponta da língua”. Consciente ou inconsciente? Boa pergunta …

Não sei se a sua “ausência” da realidade se deve somente à doença que a afetou ou se é alguma medicação específica para impedir que novo derrame volte a acontecer que a inibe e lhe retarda o “acesso” à realidade. Enquanto leigo nestas questões de saúde, imagino que antes do amanhecer e quando já estava um pouco repousada e “livre” dos efeitos inibidores dessa tal medicação, conseguiu chegar até mim, à realidade, e ganhou consciência do seu verdadeiro estado físico e das suas limitações, ainda que por um período de tempo curto. E foi aí que ela manifestou o “seu sofrimento” pelo que estava a “ver” em si própria. Porque, pela forma como disse “estou a sofrer muito”, deu a entender que tinha percebido o seu verdadeiro estado de saúde e que teria sido um “choque” enorme para quem voltava à realidade. Mais ainda, quando disse “o que me vai acontecer?”, manifestou um medo enorme do futuro, como se esse futuro incerto e negro só começasse naquele momento. E eu, na minha preocupação, também fiquei com medo. Medo de que esse “acordar” seja mais frequente, duradoiro e até permanente e pelas consequências que isso poderá trazer para a saúde psíquica de alguém que tem tendência para depressões.

Agora mesmo, ao olhar para ela de olhos fixos na televisão como que hipnotizada pelas imagens contínuas e variadas que a sua “memória de curto prazo” já não retém, questiono-me sobre o que será melhor para a sua muito relativa “qualidade de vida”: Se esta tranquilidade aparente, fruto da “ausência” do mundo real que não compreende e da falta de consciência das suas grandes limitações físicas e psíquicas, mas que não lhe trazem ansiedade nem agitação ou pelo contrário, a hipotética de uma crise depressiva consequência de alguma melhoria no estado de saúde, suficiente para a consciencializar de como está, mas não o suficiente para a curar??? Por uma questão de humanidade e, não sei, se com alguma dose de egoísmo, prefiro ter junto de mim a Luísa tranquila e capaz de fazer intervenções que nos fazem sorrir. Porque ela sorri também …