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O “Homem” que recusou Harvard …

Quando somos crianças e adolescentes alimentamos sonhos de todos os tipos, que, em regra, envolvem poder, dinheiro e fama. Quem não deseja ser um Cristiano Ronaldo, um artista de cinema ou um Tio Patinhas? Ou seguir uma carreira profissional bem remunerada ou a vida de um “carreirista da política” para ter acesso a todos os bens de consumo, especialmente aos exclusivos, reservados a alguns. Quem não sonha ser um deles? Felizmente, ainda há quem renuncie e nos faça acreditar na bondade do ser humano e no serviço aos outros!

Com 20 anos de idade, Robert Prevost estava no auge: “Professor de matemática em Chicago. Católico devoto.  Foi aceite na Universidade de Harvard”. Tinha tudo o que um jovem poderia sonhar. Mas então,

enquanto os seus amigos de infância continuaram para se tornarem advogados e médicos, ele tomou uma decisão que ninguém esperava: Disse “Não” a Harvard. “Não” a um salário anual de seis dígitos. “Não” à fama. “Não” ao conforto. E disse “Sim” a algo que poucos ousam escolher: a vida de entrega total. Entrou para um grupo missionário e mudou-se para o Peru. Não para as cidades. Não para os pontos turísticos. Mas para as vilas mais remotas, onde as crianças morriam de doenças tratáveis. Onde famílias caminhavam quilómetros para ter água limpa. Onde não havia estradas, nem água canalizada, nem rede de WI-Fi. Só montanhas, silêncio e pobreza. Mas ele abraçou tudo como um lar. Robert não só viveu entre o povo, como se tornou um deles. Aprendeu Quechua – a língua sagrada dos incas – carregou comida a pé durante dias, dormiu no chão de terra com os locais e rezou sob as estrelas. Quando não estava a construir abrigos, ensinava matemática a crianças descalças debaixo de tetos partidos. Quando não ensinava, levava doentes em burros à procura de ajuda. Quando não estava a curar, ouvia – de verdade – histórias que ninguém mais se importava de ouvir. Ao contrário dos amigos, ele tornou-se: Um pastor. Um irmão. Um guerreiro silencioso da fé. Um padre, mas não um padre qualquer. Alguém que cumpriu o que um dia prometeu no seminário. Um dia, quando estudava para padre, perguntaram-lhe “que sacerdote gostaria de ser?” E o jovem Robert Prevost, bonito e convicto, respondeu que tinha a ambição de ser um padre capaz de abdicar de toda a matéria, de todas as roupas caras, de todos os perfumes, de tudo o que o afastasse do Homem que resolveu seguir. E sacrificou-se pelos mais pobres, sacrificou a sua condição burguesa, a sua tranquilidade e conforto, para viver no Peru, numa cidade a 800 quilómetros de Lima, a capital. Amparou trabalhadores explorados na apanha da cana do açúcar, dormiu em barraco de gente sem água encanada, protegeu mulheres violentadas, arregimentou vontades para que casas de tijolo fossem construídas, para que escolas tivessem professores, para que às mães não faltasse o leite, para que aos homens não faltasse trabalho. Os peruanos de Chiclayo faziam fila para ouvir uma sua palavra, para receber a hóstia e o seu sorriso, a sua esperança, o seu exemplo. No Natal, levavam-lhe cabrito e o pato que durava para o resto do inverno. Na primavera levavam-lhe as crianças para ele as abençoar e todas as semanas Robert Prevost comia em casa de algum pobre, de alguém que o sentava como se fosse família, de alguém que comia dos seus pratos gastos, da sua comida humilde e bebia da sua pinguinha caseira.

E, aos poucos, a sua lenda cresceu. Os seus atos não eram divulgados, mas ecoavam pelos Andes. Padres notaram. Bispos notaram. E, finalmente, o Vaticano notou. Chamaram-no de volta para liderar toda a ordem agostiniana. De servir uma vila, passou a supervisionar 2.800 irmãos em mais de 40 países. Ainda assim, manteve as mesmas sandálias. Ainda assim, caminhava com os pobres. Ainda assim, rejeitava o luxo. Então, veio o chamamento que mudou tudo. Roma queria-o mais perto. Em 2020 foi nomeado arcebispo e designado para governar outros bispos no mundo todo. Era raro. Mas Robert nunca procurou posição. Não era só fluente em latim ou direito canónico. Era fluente em compaixão. Em humildade. Em escuta. Em presença. O Vaticano não viu apenas um padre. Viram um líder com alma. Em 30 de Setembro de 2023, o Papa Francisco oficializou: Robert Prevost foi nomeado Cardeal, apenas um passo abaixo do Papa. E então … em 2025 a história foi feita. Pela primeira vez, um americano, um ex-professor de matemática, um missionário dos esquecidos, foi elevado como o 267º. Papa da Igreja Católica. 

Mas ele não esqueceu o povo que o formou. Até hoje, o Papa Robert ainda volta às mesmas vilas. Ainda reza em Quechua. Ainda se senta no chão de terra. Ainda segura as mãos dos idosos em silêncio. Porque ele acredita que liderança é questão de presença, não de posição. O mundo é obcecado por poder. Mas Robert Prevost prova que: Títulos não significam nada sem esforço. Conhecimento é inútil sem amor. E fé, sem sacrifício, é barulho. Ele recusou o mundo. E, em vez disso, tem como missão mudá-lo. 

Leão XIV é precisamente este padre, um homem distinto, que fez voto de pobreza e se dedicou ao fim do mundo, aos que nasceram sem acesso às benesses. Por isso, houve felicidade em Chiclayo. Por isso, as pessoas saíram à rua com tachos e panelas. Por isso, ouviram-se gritos e viram-se muitas lágrimas entre os índios peruanos, entre os trabalhadores cansados da cana-de-açúcar, entre as mulheres com filhos ao colo, até entre os presos – houve quem batesse nas grades. Por isso, não admira que Robert Prevost, o homem que recusou ir para a Universidade de Harvard para servir nas vilas mais pobres do Peru, tenha dito, que a igreja pode trazer luz às noites escuras e deve ser julgada pela santidade dos membros e não pela grandeza dos edifícios. Alguém que, contrariamente ao que vulgarmente se conta, pode gritar bem alto: “Olhem para o que eu digo e olhem mais ainda para o que eu faço”! 

A memória e as nossas memórias …

A memória é a capacidade que nos permite codificar, armazenar e recuperar informações. Muito mais que um arquivo de lembranças, ela é o alicerce da nossa identidade, da aprendizagem e da nossa adaptação e sobrevivência diária, crucial para a evolução da espécie humana. Desempenha um papel fundamental para a nossa qualidade de vida, pois é condição primordial para aprendermos. A capacidade de evocar esses conteúdos condiciona a nossa adaptação ao mundo, aos nossos relacionamentos sociais, ao planeamento e tomada de decisões. E se isso não acontece de forma satisfatória, afeta o nosso lado emocional com sentimentos de fracasso por não se conseguir realizar alguma coisa que depende da boa memória. Como resultado, corremos o risco de rebaixar a nossa autoestima, em sentimentos de inadequação e de poder conduzir à depressão. É a esta base de dados feita de experiências passadas e de emoções que vamos buscar a informação necessária para gerir situações presentes e criar cenários para pensar o futuro. E, como constatam os especialistas da área, estes episódios que guardámos ao longo dos anos, ajudam-nos a ficar com uma ideia de nós próprios. 

Lembramo-nos de coisas – situações, atos, pessoas e lugares, livros e músicas, faltas e omissões – e essas coisas lembram-nos de outras e de nós próprios. Andamos no mundo misturados com coisas que fazem parte de quem somos e nos fazem ser quem somos. Lembrar é um ato mágico que traz o passado ao presente, que faz com que o que aconteceu não se perca na escuridão da noite e deixe de existir para sempre. Sem memória não teríamos mundo, porque o nosso mundo seria desfeito por uma sucessão de factos sem relação entre si, incapazes de os integrar numa história onde ganhem sentido. Mas, por outro lado, o que é recuperado e trazido para o presente nunca é uma simples duplicação ou reprodução do que foi: o passado que vem ao presente é transformado pelo tempo, visto de forma diferente por quem o recorda, filtrado por uma série longa e variável de condições que vão desde um conhecimento mais ou menos completo e fidedigno do acontecido à situação individual de cada um.

Quase toda a gente já se surpreendeu ao ter uma lembrança ao sentir um cheiro ou ouvir um som. Isso acontece porque somos construídos a partir de lembranças e os estímulos do que está à volta contribuem para as despertar. Cada pessoa tem dentro de si um baú repleto de memórias boas e más, que nos levam a ser quem somos. Revisitar as boas lembranças de tempos a tempos, faz bem ao nosso estado de espírito. A Teresa partilhou comigo algumas das memórias felizes e marcantes da sua infância, em palavras que dizem tudo. Vejam só:

“Fiz-me pequena para caber no passado da infância feliz: os dias viviam-se na simplicidade dos acontecimentos; todas as minhas pessoas eram vivas; e as coisas do mundo que vivia eram grandes. Os terrenos dos meus avós eram infinitos. As ramadas de videiras frondosas, serpenteavam o céu dos quintais. As fiteiras adornavam as margens do pequeno regato, companheiro da leira de baixo. As laranjeiras, de fruto pequeno e ácido, aninhavam-se sob as nogueiras, cuja frescura da sua sombra, era a mais intensa, dizia o avô. Por aqui e por ali, as aves construíam as suas guaridas. As manhãs e fins de tarde eram a mais bela orquestra das músicas da doce infância. Pela noite, as corujas cantavam as melodias ensaiadas, entendidas como os agoiros das gentes. Os cenários eram mais que perfeitos, mesmo conhecendo-os apenas como a realidade quase ímpar dos meus dias. O quintal de cima, o tanque, a bomba de água manual, a leira dos tremoços, a leira de baixo, o barroco e os quintais contíguos ao nível das casas da nossa família. Esta é a sequência da tela mais bela da minha memória. Um dia, as ramadas vieram abaixo, parte dos terrenos vendidos e a aparente falta de um todo fez-se realidade. Desde esse tempo que se iniciou esse trabalho diário de seu nome recordação. As cores, os cheiros, os sons, jamais se poderão apagar, pois a pureza da memória é amiga leal. E, no abraço à infância, caibo mais uma vez naquele lugar, o lugar que a cada instante eternizo para que jamais se esfume de mim” …

Tal como a Teresa, muitas vezes regresso às minhas memórias de infância, verdadeiramente livre e feliz, ciclo de aprendizagem com três mestres, qual deles o mais importante: a casa de meus pais onde me foi dada educação, a escola onde recebi instrução e a aldeia, um mundo de liberdade em natureza e com a natureza, com quem todas as crianças deveriam ter, obrigatoriamente, contacto. Curiosamente, aos 103 anos de idade, são as memórias de infância de minha mãe as mais teimosas em se manterem presentes, testemunhas de um passado muito distante que ela evoca frequentemente despoletadas a partir de uma rua, um lugar ou um nome e que recorda com precisão quase milimétrica. Pelo contrário, perdeu por completo a memória recente, manifestada na incapacidade de recordar informações, como conversas, eventos e tarefas que ocorreram ou foram realizados recentemente, o que lhe cria alguns constrangimentos.

Alguém disse que “nós somos um conjunto de memórias (conscientes e inconscientes), e são elas que conduzem e orientam todas as nossas escolhas e que determinam o nosso futuro.” E “os comportamentos e atitudes no presente resultam sempre da evocação das memórias passadas”. Por isso cuide da sua memória e, sempre que possa, faça uma “visita” às memórias agradáveis do passado para ganhar alento para o futuro. É como dar dois passos atrás para ganhar balanço …

“Marido rico”: Precisa-se

Está mais que provado que muitas pessoas se casam por interesse. Seja por dinheiro, beleza ou até mesmo pelo facto da outra pessoa fazer tudo em casa, existem diversos motivos que levam muita gente a esquecer o amor e a paixão e, simplesmente, a pensar mais nelas próprias e na sua comodidade. Também dizem as pesquisas e todo o tipo de inquéritos que a aspiração feminina de casar bem, com um homem mais graduado e com um rendimento bem maior que o dela persiste na maioria dos países europeus. As mulheres continuam a usar o casamento como uma boa alternativa à carreira. Ora, uma pesquisa recente comparada com dados de uma outra realizada em 1940, concluiu que hoje, mais do que na época desse inquérito, uma maior percentagem de mulheres quer encontrar um homem rico que as sustente. Aliás, o mesmo se pode dizer dos homens que fazem “pontaria” a mulheres financeiramente muito melhor que eles, por uma questão de “solidariedade”, para as “ajudar” a “consumir o cacau”. Há cá um que já vai na terceira e tem dado conta do recado … 

Mais de metade dos americanos admitem que dão prioridade a uma boa situação financeira na escolha de um parceiro para casar em vez de procurar o amor romântico. E o padrão para conferir qualidade ou não ao candidato é o valor anual do seu rendimento traduzido em dólares, sendo que o número ideal hoje deve aproximar-se ou atingir mesmo os sete dígitos, isto é, um milhão de dólares por ano. Outrora, as pessoas que procuravam alguém com base na situação económica tentavam fazê-lo de forma “discreta” para que o seu parceiro (ou parceira) não se apercebesse das suas intenções. É que não dava para “ficar bem na fotografia” se tais intenções “caíssem na praça pública” e fossem do conhecimento geral. Mas, “marido rico” virou termo popular nas buscas sobre relacionamento e dinheiro. As buscas por um marido rico já não são novidade. Basta observar redes sociais, reality shows, fóruns e até pesquisas no Google, para perceber que dinheiro e relacionamento continuam profundamente ligados. Ali, termos como “marido rico”, “como casar com homem rico” e “homem rico solteiro” apresentam volume constante nas buscas.

Uma mulher jovem escreveu ao Financial Times – um dos maiores jornais do mundo, especializados em negócio e economia – a pedir dicas sobre “como arranjar um marido rico”. Contudo, muito mais inacreditável que o pedido da rapariga, foi a resposta do editor do jornal que, muito inspirado, respondeu à sua mensagem, de forma irónica e muito bem fundamentada em termos económicos. Vale a pena ler porque a resposta do editor é extraordinária. Dizia a carta: “Sou uma mulher linda (maravilhosamente linda) de 25 anos de idade. Sou bem articulada e tenho classe. Quero casar com alguém que ganhe, no mínimo, meio milhão de dólares por ano. Há algum homem que ganhe 500 mil dólares ou mais nesse jornal ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que me possa dar algumas dicas? Já namorei com homens que ganham por volta de 200 a 250 mil dólares, mas não consigo passar disso. E, 250 mil por ano não me vão permitir morar em Central Park West. Conheço uma mulher (do meu grupo de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita como eu, nem sequer é inteligente. Então, o que foi que ela fez que eu ainda não fiz? Qual é a estratégia correta? Como posso chegar ao nível dela?” E assina: Raphaella S.

A resposta foi dada e publicada por Philip Stephens, editor associado do jornal Financial Times:

“Li o seu pedido com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil dólares por ano. Portanto, não estou a tomar o seu tempo à toa … Posto isto, considero os factos da seguinte forma: Visto da perspetiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que procura), o que me oferece é, simplesmente, um péssimo negócio. Eis o porquê: deixando o convencionalismo de lado, o que sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: Você entra com a beleza física e eu entro com o dinheiro. Mas há um problema. Com toda a certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia vai acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará a aumentar. Assim, em termos económicos, você é um ativo que sofre depreciação enquanto eu sou um ativo que rende dividendos. Você não somente sofre depreciação, mas também sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre a aumentar! Explicando melhor, você tem hoje 25 anos e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E, no futuro, quando se comparar com uma fotografia de hoje, verá que se transformou num caco. Isto é, hoje você está em “alta”, na época ideal para ser vendida, mas não de ser comprada. Usando a terminologia de Wall Street (Bolsa de Valores de Nova Iorque), quem a tiver hoje deve mantê-la como “trading position” (posição para comercializar) e não como “buy and hold” (comprar e manter), que é para o que você se oferece. Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um “buy and hold”) consigo não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a ponderar é namorar. Sem ponderar …

Mas, já a ponderar e, para me certificar do quão “articulada, com classe e maravilhosamente linda” você é, eu, na condição de provável futuro locatário dessa “máquina”, quero tão somente o que é da praxe: fazer um “test drive” antes de fechar o negócio … podemos marcar?” 

Esta história publicada no Financial Times, revela o conflito entre amor, interesse financeiro e valor pessoal, mostrando que tratar casamento como investimento pode transformar pessoas em ativos e relações em contratos emocionais frágeis. Ela só queria uma coisa: um marido rico. Mas o que ela não esperava era uma resposta fria, matemática e brutal, que transformaria o amor numa equação financeira E, mais do que uma anedota, esta história revela algo muito profundo sobre o mercado do amor contemporâneo … 

Veja o filme “O Som da Liberdade” …

Quem não tiver muito tempo para ir ao cinema ou para de outro modo ver filmes, vê-se forçado a escolher bem os que vê, para que não seja desperdiçado esse seu precioso tempo. No meu caso, várias pessoas já me tinham recomendado o filme “O Som da Liberdade”,

que apresenta “a incrível história verídica de um antigo agente do governo transformado em vigilante que embarca numa perigosa missão para salvar centenas de crianças dos traficantes”, revela a sinopse oficial. Por acaso, percebi a tempo que ia ser transmitido num canal televisivo e não perdi a oportunidade de o ver. Valeu a pena. Depois de ver esse filme, só posso dizer que foi uma ótima escolha e que não posso deixar de também o recomendar, pois a ação de Tim Ballard, que resgatou desse tráfico um grande número de crianças com toda a sua envolvência, é extraordinária. Esta obra desencadeou debates acesos nos Estados Unidos, dividiu opiniões e reacendeu o conflito cultural entre diferentes sectores da sociedade americana. E criou polémicas associadas ao filme: a tentativa, vinda de uma fação política, de o instrumentalizar para alimentar uma teoria da conspiração sobre a cumplicidade de políticos nesse tráfico e, vindos de uma fação política oposta a essa, o boicote e a oposição como reação à eventualidade desse aproveitamento; a recusa da sua distribuição pelas maiores empresas do ramo; a mobilização popular como reação a essa recusa que se tem traduzido num grande êxito de bilheteira. Mas, sem preconceitos políticos e abstraindo de todas as polémicas, o conteúdo, a mensagem e a qualidade do filme podem, e devem, ser apreciados, porque são muito valiosos.

O horror da exploração sexual de crianças não é uma novidade. São simplesmente irreproduzíveis, neste e em muitos outros contextos, as descrições de pornografia infantil que constam de notícias e de processos judiciais. Este filme também nos faz supor claramente esse horror, mas de forma decorosa e sensível e sem nunca o explorar com fins mórbidos. No meio desse horror, o filme retrata a beleza da inocência das crianças vítimas deste crime e a beleza dos laços que as ligam às suas famílias, de paternidade e de fraternidade. Descreve com forte carga emotiva a dor de pais e filhos, a dor da separação entre eles, simbolizada num quarto vazio. Reflete a dignidade dos pobres que são também essas vítimas.

Também com forte carga emotiva, apela a que cada pessoa, cada pai ou mãe, sinta cada uma dessas crianças como se fosse seu filho ou filha. E cada uma delas, como cada filho ou filha, é um bem precioso, único e irrepetível. Por causa de cada uma delas, que poderia ser nosso filho ou filha, vale a pena deixar o conforto de uma vida tranquila e até arriscar a vida, como fez o protagonista da história.

De um modo muito discreto, pode ser colhida uma inspiração cristã neste filme, que reflete a fé dos seus produtores e atores principais: numa alusão às severas palavras do Evangelho sobre o escândalo dos pequeninos, na referência à intervenção de Deus na conversão de um criminoso num momento de desespero, na frase que sintetiza a motivação do combate a este crime: «os filhos de Deus não estão à venda».

A mensagem central deste filme é a importância e urgência de um combate sério a este crime, que, sem exagero, pode ser equiparado à escravatura. Numa altura em que muitos querem sublinhar os danos causados no passado pela escravatura, muitos também ignoram ou esquecem esta escravatura bem atual. No final do filme afirma-se até que o número de vítimas atuais desta forma de escravatura excede o das vítimas da escravatura no passado, quando ela era legal e é muito maior do que em qualquer outra época da história. E recorda-se o poder que têm os “contadores de histórias” para despertar as consciências, como sucedeu com o célebre livro A Cabana do Pai Tomás e a influência que teve como contributo para a abolição da escravatura nos Estados Unidos. É algo de semelhante que pretende este filme, no que se refere ao combate ao crime de tráfico para exploração sexual de crianças e adolescentes. Deus queira que possa ter um grande êxito nesse sentido, para além dos êxitos de bilheteira. Os responsáveis e protagonistas do filme tudo fizeram para trazê-lo às salas de cinema depois de concluído e só o conseguiram após mais de três anos de bloqueios. Mas conseguiram que chegasse ao público, a todos nós, como mensagem que deve passar de boca em boca, porque a dimensão da missão exige que cada um faça a sua parte …

“O rei vai nu”. Ou não queremos ver?

Há histórias que atravessam séculos e estão sempre atuais porque revelam, de forma simples, verdades que preferimos não ver. O Rei Vai Nu, o célebre conto popular é uma delas. Vale a pena relembrá-la:

Era uma vez um rei muito vaidoso, que gostava de andar sempre bem arranjado. Um dia foram ter com ele dois aldrabões que se diziam alfaiates e lhe disseram: “Majestade, sabemos que gosta de se vestir muito bem, isto é, vestido como ninguém e bem o mereceis! Ora, nós descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade, que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim, Vossa Majestade pode distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos, que não servirão para a vossa corte”. E o rei respondeu: “Oh! Isso é uma descoberta espantosa! Tragam já esse tecido e façam-me um fato. Quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço”.

Os dois aldrabões tiraram-lhe as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo: “Majestade, aqui está o vosso fato”. O rei olhou e não viu nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu: “Oh, como é belo”! Então os dois aldrabões fizeram de conta que lhe estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas: “Ficais tão elegante! Todos vos vão invejar”! Como ninguém da corte queria passar por tolo, todos diziam que o fato era uma verdadeira maravilha. Que o rei até parecia um deus! A notícia correu pela cidade: O rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia, o rei resolveu sair para mostrar ao povo o seu belíssimo fato. Toda a gente admirava e elogiava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido. Até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, exclamou: “Olha, olha! O rei vai nu”.  E foi então que o rei acordou para a realidade e se apercebeu da esparrela em que tinha caído. Oportuna, Teresa enviou-me este texto:

“Era ainda muito miúda quando li pela primeira vez esse belíssimo conto de Hans Christian Andersen: O Rei vai nu. Na altura, em função do entendimento que tinha, não me parecia nada razoável o facto do Rei estar convencido do seu deslumbramento com tão admirável “farpela” e desfilar perante o seu povo quase todo ele a olhar o seu soberano com inteira veneração. Apenas alguns olhavam o Rei com olhos que viam e com mentes que entendiam: o Rei desfilava nu. 

Nem sempre é fácil olhar o que nos rodeia e alcançar o seu verdadeiro significado, mas naturalmente que, se fizermos um esforço (ou não), facilmente alcançaremos e com verdade poderemos ajuizar os “Reis” que vão passando pelo cortejo da nossa vida. Estes “Reis” aparecem-nos vestidos de muitas formas e em muitas áreas sociais e culturais. Muitos deles fazem-me lembrar a expressão da minha avó Maria quando se referia a alguns desses “Reis”, dizendo: “Parece um garnizo” (ou garnizé, alguém pequeno e exibicionista)! São estes “garnizos” ou “Reis” ou como lhes queram chamar que, convencidos do seu enlevo, arrastam multidões e seguidores com suas vestes nuas e palavras ocas. Depois, dentro das muralhas dos castelos de alguns, ainda podemos contar com aqueles “Reis” que envergam as suas capas bordadas de falsas humildades e que por debaixo dessas mesmas capas, acham-se sempre glamorosamente vestidos, quando na realidade desfilam igualmente nus.

Os olhos servem para ver e a mente para entender. Há que utilizá-los sempre (e sem preguiça), há que ter opinião construída, há que saber distinguir o que é “show off” do que é realmente substância plena! Ou continuamos apenas a olhar o cortejo a passar …?”                                    A história atravessou séculos, tornou-se uma expressão popular para denunciar ilusões coletivas, conformismo social, verdades incómodas que todos veem, mas poucos o admitem e a expressão continua mais atual que nunca. Hoje, muitas “verdades” são mascaradas com outras roupagens, narrativas convenientes e consensos artificiais. Importa mais parecer do que ser. Neste conto há três aspetos profundamente humanos que continuam presentes. A vaidade coletiva no desejo de «parecer bem» é mais forte do que o compromisso com a verdade. O medo do julgamento negativo, preferindo calar-se com receio de serem considerados ignorantes, desatualizados ou «fora do sistema». Por fim, a força libertadora da verdade simples, pois, muitas vezes, basta uma voz honesta para expor uma mentira amplamente aceite. Hoje, estas realidades manifestam-se em muitos cenários. Estamos reféns da «cultura de imagem». As redes sociais, a publicidade, as relações pessoais, etc. criam frequentemente um teatro de «roupas invisíveis», discursos bonitos, «verdades» convenientes. Há projetos inúteis valorizados, especialistas que vendem «tecidos invisíveis» disfarçados de inovação, e ninguém questiona para não parecer incompetente. É um pacto social tácito de fingimento, onde reina o mandamento: «Não digas nada, deixa andar». Mas, o «rei vai nu» e todos o sabem. Prefere-se a mentira confortável do que enfrentar o desconforto da verdade. No conto, a criança é a consciência pura e a liberdade de quem não tem nada a perder. 

A expressão «o rei vai nu» é um convite a um exercício de consciência crítica, coragem e autenticidade. Implica, assim, preferir a verdade ao aplauso, desenvolver espírito crítico face às narrativas dominantes, promover ambientes, onde questionar não seja visto como rebeldia, mas como maturidade, valorizar a transparência, a humildade e a honestidade intelectual. Ser a criança que denuncia a nudez não é ser ingénuo, é ser responsável. 

A expressão «o rei vai nu» lembra-nos que a verdade não deixa de existir só porque é ignorada, o consenso pode ser apenas medo camuflado, a coragem de um pode libertar muitos, a autenticidade é mais revolucionária do que a aparência. Quando um empresário nascido rico salta para a política e torna-se o presidente do país mais rico do mundo, apesar de revelar o discurso de uma criança de sete anos e uma conduta irresponsável que põe todo o mundo em sobressalto, o que vemos? O impensável: um “rei completamente nu”. Mas é seguido por uma multidão, alguns dos quais matariam por ele … O drama atual é que se aposta demasiado na “imagem”, mesmo à custa de “vestes falsas” quando, na realidade, por debaixo desses “tecidos maravilhosos” a “nudez” é total e, se calhar, não sabem. E tolo é quem não o quer ver … 

O português que conquistou a Patagónia

Dos inúmeros portugueses gloriosos com que, generosamente, a nossa história nos brindou, muito especialmente na era dos Descobrimentos, a maioria deles nunca foi, nem será, glorificado por essa história, nem as suas conquistas ou feitos serão exaltados e cantados por poetas como Camões. Muitos deles tiveram histórias de vida incríveis que, só de as imaginar, é entrar numa aventura alucinante. É o caso de José Nogueira, um homem que nunca soube ler nem escrever e que só decidiu aprender a desenhar as doze letras dos seus primeiro e último nomes, apenas quando deixaram de lhe chamar “José, o português” para passarem a tratá-lo por “Dom José”. Mas, apesar de praticar ao longo de uma década, raramente a pena lhe obedecia para deixar as letras direitas. Definitivamente, não tinha mão para a escrita. As suas mãos foram fadadas para ser marinheiro e chegar à idade adulta à força de ventanias e trabalhos no mar. 

Nascido no seio de uma família pobre de uma das freguesias de Gaia há quase 200 anos, bem cedo começou a ser atraído pela faina na Afurada e pela chegada e partida de navios para o Brasil e outras paragens. Aos 12 anos, de calças remendadas e atadas com um cordão à cintura, uma camisa velha a nadar no corpo magro e os calcanhares a sobrar de uns tamancos, ofereceu-se para aprendiz de marinheiro ao contramestre de um navio que ia partir para Terras de Vera Cruz. E, não se sabe bem porquê, foi aceite. E lá foi ele aprendendo a arte de marinheiro, indo parar ao Rio de Janeiro onde permaneceu durante 6 anos, servindo em navios que percorriam a costa brasileira desde o Amazonas a Porto Alegre e percorrendo as ruas da Cidade onde se fez homem.

Juntamente com mais dois portugueses, rumaram mais a sul, primeiro ao Uruguai que estava em guerra e de onde saíram logo que puderam para seguir até Buenos Aires, na Argentina. O mar era o ofício deles, mas queriam mais. Mais aventura, mais futuro, mais provento, mais de tudo. Há muito ouviam as histórias dos mais velhos sobre as fortunas que a caça à baleia podia render. E se não encontrassem baleias, havia sempre os lobos-marinhos, em especial os de “dois pelos”, de pele mais macia, mais procurada e que rendia bom dinheiro. E é assim que, com 20 anos de idade José Nogueira desembarca do outro lado dos Andes já no Oceano Pacífico em Callao, o mais importante porto do Peru. E é a partir daí que embarca numa nova aprendizagem na caça aos lobos-marinhos, para depois desembarcar num dos lugares mais inóspitos e esquecidos do Planeta, dizia-se “onde não há lei, nem Deus existe”, com vento de 100 a 200 kms por hora, a “têmpera dos desesperados”. Ficou em Punta Arenas, 30 casas de madeira em estado ruinoso, entre dois oceanos e à margem do estreito que tem o nome de outro português: Magalhães. E foi ali, onde tudo faltava, tudo estava por fazer e tudo lhe parecia possível, num lugar de que já nem Deus se lembrava, que José Nogueira assentou e teimou que ia deixar herança. Depressa aprendeu a cruzar os canais da região, a apanhar lontras e lobos-marinhos em campanhas de 4 meses em abrigos improvisados. Com uma vontade férrea de vencer, casou com 26 anos vendo ao largo já o seu primeiro barco de 2 mastros, quando a povoação crescia, com a caça aos lobos-marinhos como negócio, além do ouro e comércio com os índios. Às peles, Nogueira juntou o negócio de fretes marítimos e, ocasional, de salvados (barcos naufragados), o que o levou a comprar outro veleiro 3 vezes maior, início de uma frota a que viria a juntar mais outros 5, que o tornou no maior armador de Punta Arenas, além de abrir o armazém que se transformaria na Nogueira & Cia, a mais próspera importadora e exportadora da colónia chilena. 

Consolidada a sua posição comercial tanto no mar como na região, separado da mulher e, mais tarde viúvo, José Nogueira virou-se para as terras inóspitas, desoladas e tidas como sem qualquer préstimo, construindo a “Estância Pecket Harbour” com alguns milhares de hectares numa fatia de terreno junto ao estreito de Magalhães, uma estância modelo de criação de ovelhas para produção de lã, que ele fez questão de gerir pessoalmente, tendo sido ponto de partida para voos mais altos. É precisamente em terra, na Terra do Fogo, que ele prepara e faz a sua maior jogada, ao candidatar-se junto do governo chileno para que lhe fosse atribuída uma área a perder de vista na ilha Dawson para a criação de ovelhas e não só. Para tal, como maior empresário da região e principal dinamizador da cidade, moveu grandes influências junto do poder central para que lhe fosse satisfeita tal pretensão.

Entretanto, do contacto próximo com a família alemã Brown, conheceu e acabou por casar com Sara, a filha mais velha, juntando sociedades e negócios, que escalaram consideravelmente. Enquanto o cunhado Maurício assumiu o negócio marítimo, desde os fretes às peles, do ouro às carcaças de navios naufragados, das encomendas de todo o tipo de artigos e materiais vindos da Europa à América e o câmbio das libras esterlinas e as letras bancárias, José concentrou-se na Estância e no projeto enorme da nova extensão de terras, até porque uma tosse que teimava em não ceder, o incomodava de sobremaneira, até confirmar-se que se tratava de tuberculose nos seus 43 anos. Nesse ano recebeu uma primeira notícia da concessão de 180.000 hectares para, no mesmo ano, receber uma segunda de 170.000 hectares a Maurício, como seu “testa de ferro”, que se juntavam aos 30.000 que já detinha. Em meses passou a ser o maior proprietário privado do Chile. E foi depois de um encontro pessoal entre o presidente do Chile e José Nogueira, que este o conquistou com o seu projeto visionário para colonizar de vez a Terra do Fogo, com a concessão de mais um milhão de hectares. E a 9 de Julho de 1890, o presidente assinou o decreto que lhe concedia um milhão e nove mil hectares. Era toda a terra chilena da ilha Grande que era aproveitável. As concessões a Nogueira somavam 1.359.000 hectares e a exploração arrancaria com ovelhas, vacas e cavalos, quando ele tinha 45 anos de idade e uma doença crescente, que o levaria aos 47 anos. Deixou para trás um império pastoril, da Terra do Fogo até terras argentinas, com muitas participações em empresas da caça à baleia a minas de cobre, dos seguros à banca, das novas companhias de eletricidade e telefones de Punta Arenas e Magalhães, à indústria frigorífica. 

Numa desolada terra de aventureiros, desterrados, índios, caçadores, deserdados e imigrantes, este “Português” que partiu pobre e menino do cais de Gaia com 12 anos, construiu casa e fortuna e tornou-se “Dom José”. Dedicou-se à caça, abriu comércio, foi armador, explorou ouro e salvados de navios, amealhou terras imensas, criou ovelhas e deixou nome e herança na Patagónia e na Terra do Fogo chilenas, onde as ventanias geladas matavam o corpo e a alma se a força de vontade não fosse indomável, como foi a do “Portugês” “Dom José”. 

“Lamento, mas eu só queria passar” …

Nos últimos anos, tem sido relevante a resposta da Natureza aos ataques e agressões constantes que recebe desde o início dos tempos, mas com maior intensidade nas últimas décadas, através das muitas formas de poluição em larga escala e atentados ao meio ambiente, tendo como consequência uma crise climática que não tem mais fim. Devastação das florestas, represamento dos rios e estrangulamento do seu curso, ocupação de leitos dos rios e zonas de alagamento através de todo o tipo de construções como pontes, casas, indústrias, centrais de tratamento de esgotos e outras, além da destruição das margens naturais, poluição pelo lançamento de substâncias tóxicas, descargas de lixo, esgotos e demais poluentes, que provocam graves danos ao meio ambiente, refletem-se nessa fúria da Natureza por esse mundo fora. Os temporais que se viveram no país, em especial no centro, revelam bem a dimensão da revolta, de uma Natureza maltratada pelo ser humano, sem qualquer preocupação com as consequências. A intervenção humana no meio ambiente quase sempre só prejudicou o equilíbrio natural. A fatura dessa agressão é apresentada cada vez com mais frequência e aquela que recebemos nesses dias de caos foi, e vai ser, muito pesada.

Nesses dias de depressões sucessivas, com ventos ciclónicos e chuvas diluvianas que fizeram de muitas aldeias e cidades, matas e campos, caminhos, estradas e autoestradas um cenário apocalítico, a Natureza enviou-nos um recado, que, teimosamente, não vamos ouvir. Em vez disso, como vimos nas televisões, gritamos que “ninguém nos ajuda”, que a culpa é, em primeiro lugar, do governo porque não nos tira a água das casas, não repõe as telhas que voaram, a cobertura que desapareceu, não salva o carro que aprendeu a nadar ou ficou a “segurar” uma árvore ou as pedras duma casa, não levanta os postes de eletricidade num piscar de olhos, repõe as comunicações e tudo o mais, como se a dimensão da tragédia permitisse fazer em meia dúzia de dias aquilo que vai precisar de anos de muito trabalho. E muito, mas mesmo muito dinheiro. À medida que os dias passaram, foram vindo ao conhecimento público mais e mais casos dramáticos, casas arrastadas por derrocadas de arribas, troços e troços de estradas absolutamente destruídas, linhas de alta tensão arrasadas como se fossem de brincar, instalações industriais esventradas tendo de se recomeçar do zero. Enfim, um sem número de tragédias pessoais e empresariais que vão demorar muito tempo a inventariar estragos, quanto mais a efetivar reparações. Nas suas mais variadas formas, as tempestades são o eco da revolta e da expressão mais violenta que a natureza utiliza para nos castigar.

E, depois dos ventos ciclónicos e chuvas diluvianas, vieram ainda as inundações, que atingiram uma enorme dimensão nos principais rios da zona central do país, com especial incidência nas regiões próximas da sua foz. E pudemos ver “novos mares” a cobrir campos, aldeias, vilas e cidades, entrando casas dentro para destruir, estragar e levar o caos a habitações, comércios, indústrias, serviços, comunicações e todo o tipo de infraestruturas, como se não bastassem os estragos do vento e da chuva. 

Mas, se nesta altura vemos e ouvimos um coro de lamentações quase interminável e legítimo, também deveria ser tempo de reflexão sobre os erros cometidos por nós, seres humanos, à forma como ocupamos o território, muito especialmente no leito dos rios e zonas inundáveis, em desrespeito pela natureza. Se em épocas passadas a inexistências de Planos Diretores Municipais podia ser justificação para alguns abusos, hoje não é concebível que se continuem a alterar e ignorar Planos Diretores em zonas críticas como “zonas de alagamento” de um certo rio assim consideradas durante anos e várias “alterações ao PDM, onde não era possível qualquer tipo de construção, para, de um momento para o outro, por artes mágicas, essa “zona de alagamento” desaparecer por encanto, talvez porque o rio tenha prometido nunca mais a inundar, passando a nascer ali algumas construções, com a possibilidade de virem mais! Milagre …

Acho apropriado trazer a lume o “Lamento de um rio”, um poema da professora brasileira Scheilla Lobato, pela sua beleza e atualidade, que tem emocionado e tocado milhares de pessoas, muitas delas afetadas por grandes inundações e que é uma lição de vida em forma de verso, para os seres humanos pararem e reagirem na busca de um desenvolvimento sustentável. No poema, o rio lamenta os danos causados por ter transbordado, mas sublinha que ele, rio, só queria seguir o seu curso natural e não teve qualquer intenção de destruir o que quer que fosse, mas o seu caminho estava obstruído. Porque ele, “só queria passar”:

“Perdoem-me por esta “bagunça” … Eu só queria passar.

Eu não fui feito para Destruir … Eu só queria passar.

Já fui esperança para os Navegantes …                                                      Rede cheia para Pescadores …

Refresco para os banhistas em dias de intenso calor.

Hoje sou sinónimo de medo e dor …

Mas eu só queria passar …
Perdoem-me por vossas casas, por vossos móveis e imóveis.
Por vossos animais, por vossas plantações… Eu só queria passar.
Não sou vosso inimigo, não sou um vilão,
Não nasci para a destruição … Eu só queria passar.
Era o meu curso natural, só estava seguindo meu destino.
Mas, violentaram-me, sufocaram minhas nascentes,
Desmataram meu leito … Quando eu só queria passar.
Encontrei tanta coisa estranha pelo caminho …                                          Que me fizeram transbordar…
Muros, casas, entulhos, garrafas, lixo, pontes, pedras, paus …
Tentei desviar … Porque eu só queria passar.
Perdoem-me por inundar vossa história,
Perdoem por manchar esta história … Eu só estava passando …
Seguindo o meu trajeto, cumprindo o meu destino:
Passar” …

Uma “instituição” que passou à história …

Foi inventado pelos gregos, popularizado durante a Idade Média, mas sobretudo do século XIV para diante. Entrou em Portugal há séculos e foi um artefacto de uso corrente no dia a dia para alívio de tantos nós. Ganhou muitas formas e feitios, os altos e os baixos, redondos e achatados, cheirosos e os que se limitavam a receber o cheiro da evacuação, mas o redondo com asa foi o mais tradicional. Há os que se partem e os que não quebram de jeito nenhum. Há-os em porcelana e até em madeira. De barro e em vidro, tal como em cerâmica ou em plástico. Também existem de ferro fundido e em alumínio, mas o mais preferido foi sempre o de ferro esmaltado. Já não falo nos feitos de ouro, esses reservados somente aos traseiros reais. Mas o John Bull, um inglês agachado com o braço a servir de asa, é o mais célebre entre nós, tendo sido desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro para satirizar os ingleses após o ultimato que fizeram a Portugal no final do século XIX para se retirar de alguns territórios de África. O objeto está no Museu Soares dos Reis e nunca chegou a ser comercializado. Foi criado com a intenção dos portugueses poderem “obrar” para dentro do John, vingando-se assim da humilhação dos ingleses. Claro que estamos a falar do bacio, também conhecido por “vaso de noite” e, mais popularmente, por penico. Enfim, uma instituição.

O penico serviu reis e rainhas, nobres, burgueses, ricos e remediados. Só não serviu os pobres das zonas rurais. Esses tinham de fazer as “descargas” das suas necessidades no campo, numa estrumeira em frente à porta da cozinha ou mesmo nas cortes do gado. Já no Palácio da Pena, em Sintra, existia um penico fora do vulgar, com tampa, que era da rainha D. Amélia e que hoje se encontra no museu. A certa altura, o penico até ganhou uma estrutura adjacente, uma cadeira à sua volta, exclusivo para ricos, burgueses e nobres. O penico é um objeto ingrato, tão útil quanto rejeitado, algo muito escondido pelos burgueses e nobres, mas carregado pelos escravos para momentos de aflição durante as viagens.

Por norma, o penico era colocado debaixo da cama, à mão de semear, para alívio dos aflitos em “apertos noturnos”. Mas, de vez em quando era “atropelado” a pontapé por cliente ensonado, espalhando o seu conteúdo malcheiroso, quando não metia a “pata na poça”. Muitas vezes tinha um lugar especial reservado na parte inferior de um móvel do quarto, a mesinha de cabeceira, fabricada em estilo próprio, com direito a porta privativa para tão importante artefacto. Pode-se dizer com toda a propriedade que outrora “os quartos com penico, lavatório e jarro de água” constituíram-se como o primeiro “quarto com casa de banho privativa”, um luxo que não era para toda a gente.

A cultura ocidental associa muitas vezes a vergonha a atos tão naturais e essenciais como o respirar, o comer, o defecar e o urinar. Sobre tal, Bernard Shaw dizia: “Só uma sociedade muito refinada é capaz de pensar nestas coisas (penico, retrete ou sanita) e, ao mesmo tempo, ruborizar-se ao falar delas”. A um objeto destinado a recolher dejetos e odores nada refinados como é o penico, fazem-se bastantes associações negativas como é o caso de uma caricatura célebre em que no penico está escrito “políticos” e o interior cheio de homens de casaca. Nesta linha de pensamento, quem não é militante de qualquer partido, é tido por “desalinhado” e, como tal, diz-se que “mija fora do penico”. Ora, quando Marinho Pinto foi candidato apelou aos jovens portugueses, precisamente para “mijarem fora do penico”, isto é, votando nele. Onde terá mijado quem lhe fez a vontade?

O penico serviu de instrumento der agressão à falta de melhor arma, foi despejado vezes sem conta janela fora sem se consideração nem respeito por quem ia a passar na rua, “aromatizando” os transeuntes incrédulos, serviu der caneca improvisada para rodadas de cerveja e até foi usado como “boné” de estudantes caloiros em desfiles universitários. Mas perdeu terreno para o saneamento das casas, deixando o interior das mesas-de-cabeceira e tornando-se uma brincadeira de crianças. Mas a sua força cultural é muito maior do que o objeto que é, porque além da função para que foi vocacionado também serviria e serve de inspiração aos criadores de piadas. A Dona Joaquina atendeu o telefone, dizendo: “Bom dia, fala a Joaquina. Com quem estou a falar?” E ouviu a resposta: “Daqui fala o Manuel. A senhora pode tirar-me uma dúvida?”, perguntou o homem do outro lado da linha. E ela, simpaticamente, disse: “Se eu souber. Qual é a dúvida?” Então o homem, armado em engraçadinho, perguntou: “D. Joaquina, a senhora sabe-me dizer se penico de barro enferruja?” E ela, oportuna e como se tivesse já a resposta na ponta da língua, respondeu: “Depende do cu que nele se senta, seu filho da …” E num instante a D. Joaquina despachou o chico-esperto com ironia e cinismo. Já a senhora Maria perguntou à Isaura: “Que barulho enorme foi aquele ontem à noite no teu quarto”? E a Isaura confessou: “Foi o bêbado do meu homem que tropeçou no penico”. 

Ainda recordo uma quadra popular que o José Barbosa, figura típica nos meus tempos de criança, de vez em quando recitava com ar brincalhão quando passava uma moça emproada: “Uma menina bonita/ por mais bonita que seja /sempre dá o seu peidinho/no penico quando “meija” (mija, mas em linguagem popular).

Vemos filmes das cortes com bailaricos e as festas de então, mas nunca vemos as divisões onde os penicos eram estrategicamente colocados para os convidados se aliviarem e nem sequer vemos um só penico. Lá está a tal vergonha e o pudor ocidental de, com naturalidade, falar, mostrar e, porque não, valorizar aquilo que tanto jeito deu a numerosas gerações, para não terem de sair de casa e ir a um canto qualquer a meio da noite, “arriar o calhau” ou despejar a bexiga antes que rebentasse. Não desvalorizemos o penico, considerado “o rei da noite”, uma “instituição” que já passou à história, pela importância que teve como “depositário” dos dejetos, líquidos e sólidos, dos “dois canos de esgotos” dos nossos avós, como de numerosos reis, rainhas, princesas, ricos e pobres, marqueses, aristocratas e burgueses, numa situação de igualdade democrática absoluta pois, por mais rendas, perfumes e bordados que os rodeassem, todos eles, mas todos mesmo sem exceção, foram sempre igualitariamente malcheirosos …

Uma carta que podia ser da Becas …

Adotei há cerca de 8 anos uma pequena cadela, a Becas, que a Teresa recuperou depois de recolhida pelo pai e irmã num estado miserável quando a encontraram no meio de um monte onde fora atada a uma árvore e abandonada pelo dono, condenada a uma morte horrível, de que escapou somente porque conseguiu roer a corda que o outro “animal” lhe colocara ao pescoço. E, apesar dos traumas que trazia depois de atravessar tal inferno, depressa se adaptou, insinuou e integrou como membro pleno desta família, encontrando aqui o porto de abrigo e a vida a que tinha direito. Recebeu e deu muito, deixando-nos uma imensa saudade quando partiu em consequência de doença grave. Cá em casa continuamos a sentir muito a sua falta, sofremos com a sua ausência e olhamos o vazio dos seus espaços. Mas ficou-nos a certeza que recebemos dela tanto ou mais do que aquilo que lhe demos. 

Às vezes, imagino-me a receber uma carta sua, como inúmeros donos gostariam de receber dos seus animais que partiram, dizendo:

“Querido dono, perdoa-me por te ter feito chorar e sofrer, mas chegou o momento de eu partir. Rogo-te que não chores mais. Sei que estás triste por ter ido embora, mas devo dizer-te que estou muito feliz por te ter conhecido. Quantos como eu, nascem, vivem, sofrem e morrem sem conhecer alguém especial? A maioria passa demasiado tempo só, entregue à sua sorte. Só conhecem o frio, a fome, a sede e o perigo, lutando todos os dias para arranjar comida, um lugar onde se sintam protegidos, enfim, sobreviver. Veem muitas pessoas diariamente, que passam e olham sem os ver. E muitas vezes é melhor que não os vejam para não acabarem maltratados. De vez em quando há um rosto que olha, vê e se condói da nossa indigência. E acontece o milagre quando nos recolhe, trata das feridas e cuida plenamente. E adotam-nos e até nos dão um NOME e, com isso, uma identidade. Eu tive a felicidade de ser encontrada, recolhida, cuidada e aceite por uma família humana que também me deu um nome. Tornei-me então muito “especial”, deixando de ser mais uma anónima, para ter um lugar e um lar a quem passei a pertencer. Já nunca mais tive medo, fome, frio nem senti solidão ou perigo. Se os humanos pudessem calcular quanto isso nos faz felizes! Pois para nós, qualquer casa é um palácio e não importa se é grande ou pequena, rica ou pobre. Já não temos de nos preocupar se chove ou neva, de um carro a grande velocidade ou de alguém que nos vai maltratar. E, principalmente, já não estamos sozinhos. É que, a solidão é terrível. Que mais se pode pedir? Eu sei que a minha partida te entristeceu, mas o meu sofrimento era inútil e chegou a minha hora. E peço-te que não te culpes por nada. Ouvi-te a soluçar por achares que deverias ter feito algo mais por mim. Não digas isso, pois fizeste muito mesmo! Sem ti não teria conhecido a beleza da vida e guardo-a comigo. 

Sabes bem que nós, animais, sentimos dor, fome, medo, alegria, mágoa, tristeza e raiva. Sofremos ao ser abandonados E até pressentimos se o nosso dono estás triste, alegre, feliz ou zangado, assustado ou furioso. E, como os humanos, não queremos morrer sozinhos. As nossas vidas começam quando conhecemos o amor, como o que me deste. És o meu anjo sem asas. Por isso te digo que, se vires um animal abandonado e gravemente ferido, a quem só reste um bocadinho de tempo, prestas-lhe um enorme serviço se o acompanhares nos seus momentos finais. Como te disse, nenhum de nós gosta de estar só, menos ainda quando percebemos que chegou a hora de partir. Por isso, ficar ao nosso lado é muito importante, acariciando-nos, segurando a nossa pata, dizendo algo em língua estranha, mas que o coração sabe traduzir. Isso ajuda-nos a ir em paz. 

Não chores mais, por favor, eu vou feliz. Tenho na lembrança o nome que me deram, o calor da tua casa e da família que também se tornou minha. Levo o som da tua voz falando para mim, mesmo quando não entendia o que dizias. Guardo a saudade das nossas caminhadas matinais, das brincadeiras no jardim ou deitada aos vossos pés e do meu lugar nos sofás da casa onde adormecia com a cabeça no teu colo ou subia para as costas do sofá para servir de encosto à tua cabeça, sentindo-me tão segura e protegida. Carrego no coração cada carícia que me fizeram e todo o amor que me dedicaram. E, não falando a vossa língua, certamente pudeste ler nos meus olhos a minha imensa gratidão, “pois as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar”.

Só te peço mais alguns favores: lava o rosto e começa a sorrir; lembra-te como foi bom os momentos que vivemos juntos; não esqueças as palhaçadas que fazia para te alegrar; e não digas que não adotarás outro animal porque tens sofrido muito com a minha partida. Sem ti eu não teria uma vida tão bela. Não faças isso e não prives o teu coração de se dar de novo, por medo de sofrer! Há muitos outros esperando por alguém como tu. Dá-lhes o que me deste, eles precisam de um anjo assim como eu precisei de ti. Continua essa missão nobre, pois agora cabe-me a mim ser o teu anjo, porque aqui no céu, é-nos concedido o direito de velar e zelar por alguém que amamos. Vou acompanhar-te no teu caminho e ajudar-te-ei a ajudar outros como eu. E quando falar com os outros animais que estão aqui comigo, vou contar-lhes tudo o que fizeram por mim e dizer-lhes com orgulho: “Aquela é a minha família”. E nas noites estreladas olha o céu e verás uma estrela a piscar. Sou eu a abrir e fechar um olho, a avisar-te que cheguei bem e a dizer-te: “Obrigado pelo amor que me deste”. E não te vou dizer ‘adeus’, mas somente um “até já”, porque há um céu especial para pessoas como vocês, o céu para onde todos nós vamos, onde continuamos a viver no coração um do outro. E a vida recompensa-nos, fazendo com que nos voltemos a encontrar. Não tenhas pressa, estarei sempre à tua espera”!

Este texto, mistura de retalhos de mensagens, vida e sentimentos, 

é um tributo não só à Becas, um animal feliz, dócil e adorável, mas mais ainda, a todos as pessoas que amam os seus animais e os consideram como membros da família, muitas vezes criticados por o fazerem em excesso. Mas é justo dizer que são essas mesmas pessoas sensíveis, que amam igualmente os seus familiares, os amigos, o emprego, o jardim, um livro, uma banda rock, o vizinho do lado, o outro que sofre, o desconhecido que pede ajuda. E isso diz-nos tudo sobre quem são e o que são …