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Somos mesmo um animal de hábitos…

Cá em casa sou eu que preparo o meu pequeno almoço. O ritual e os passos são sempre os mesmos: ainda em jejum, bebo um copo de água (no inverno aqueço-a ligeiramente no micro-ondas durante 35 segundos. Sempre). Depois, coloco na mesa da cozinha um tabuleiro com uma colher de sopa e uma tigela (a minha). Encho-a até um dedo abaixo do bordo com bebida de soja (vulgarmente conhecida como leite de soja), um quarto de litro mais coisa menos coisa. Levo-a ao micro-ondas durante 1 minuto e 30 segundos e, enquanto aquece, vou à sala retirar um medicamento e dois do armário na cozinha bem como o pacote de flocos de cereais. E é quando toca a campainha do micro-ondas a avisar que está quente. Com duas pegas retiro a tigela que volto a colocar no tabuleiro e tiro da lata de bolachas uma para a cliente do costume: a minha cadela Becas. Sento-me, mexo a bebida e, à medida que vou colocando flocos vou comendo, porque gosto de os sentir a estalar na boca. A cada quatro colheradas a Becas tem direito a um bocado da bolacha Maria. Faço coincidir o final do meu pequeno almoço com o último bocado de bolacha e arrumo tudo pela mesma ordem. Todos os dias cumpro este ritual, sem alterações de monta, como se o momento fosse reproduzido por uma cassete gravada. A mesma cena repetida ao longo dos dias, semanas, meses e anos. 

Esta é uma cena diária, repetitiva, um hábito que não sofre qualquer alteração. Mas há muitos mais. Desde que acordo, a forma como o faço, como me levanto, o roupão, o telemóvel, a casa de banho, o cortar a barba, o banho e tantos outros ritos que se repetem dia após dia, ano após ano, sendo cada gesto, ato ou tique algo muito pessoal, mas sempre igual. Porquê? Porque sou um animal de hábitos.

Ao longo da vida, especialmente quando adultos, adquirimos hábitos. Uns podem ser bons e outros ruins. Alguns ajudam-nos a progredir e seguir em frente, enquanto outros não passam de um travão. Daí que a qualidade da nossa vida é o reflexo dos nossos hábitos, bons, ruins ou nem uma coisa nem outra. Aliás, há hábitos tidos como maus, mas que podem ser geradores de algo bom. Se um jovem tem o costume de usar e abusar da internet e dos jogos eletrónicos, isso pode dar-lhe capacidades que, bem orientadas e aproveitadas, podem vir a ser uma mais valia.

Se analisarmos ao pormenor cada dia da nossa vida, veremos que a maioria deles é quase uma cópia dos anteriores, como que tirada a papel químico. Nenhum de nós é igual ao outro nos seus hábitos, na sua maneira de ser. Cada um tem a sua forma de executar uma ação com frequência e regularidade até a tornar um hábito.

Para quem trabalha numa indústria em que os procedimentos fabris estão bem estandardizados, como é a de confeções, os gestos, os procedimentos, os movimentos de braços e pernas não passam de cópias ritmadas em cadências muito semelhantes ao longo da vida profissional. Se olharmos bem, até o levantar da cabeça, o ajeitar a peça com o braço, acionar o marcador das peças fabricadas, o respirar fundo, coçar o pescoço ou outra parte do corpo, são gestos automáticos, instintivos, fotocópias umas das outras ao longo de dias, semanas, meses, anos, vidas. Tudo é uma eterna repetição, como quando em criança cometia um erro no ditado ou cópia e a professora, por castigo, me obrigava a escrever a mesma palavra cinquenta vezes seguidas para não voltar a cometê-lo. E, na fábrica, essa repetição faz-se indefinidamente, vezes sem conta, como numa aprendizagem sem fim à vista …

Como procedemos quando vamos tomar banho pala manhã? Será que variamos a sequência dos passos a seguir ou cumprimos à risca uma “cartilha” sem um mínimo de variação? Eu dispo-me, coloco a roupa no mesmo lugar, entro no chuveiro, corro a cortina, abro a água e espero até ficar temperada, molho o corpo na mesma sequência do dia anterior (e dos outros), fecho a água, ensaboo-me, volto a abrir a água, enxaguo e retiro a espuma seguindo sempre o mesmo ritual, fecho a misturadora, limpo-me com a toalha a partir da cabeça, para terminar nos pés. E passo à fase do vestir. Todos os momentos são os mesmos do dia anterior e dos outros, como se já não soubesse tomar banho doutra forma. Como se fosse um robô programado e em piloto automático. 

Tenho um amigo que tem horror aos hábitos e às rotinas. Quando vai a qualquer lado, a pé ou de automóvel, faz questão de voltar por um caminho alternativo. Acha ele que toda a repetição é monocórdica, entediante. Por isso, varia em tudo o que pode, desde o restaurante à comida, do que faz à música que ouve. Já lhe perguntei porque é que ainda está casado com a mesma mulher há quase quarenta anos, mas não me respondeu, nem eu quis saber se “quebra” essa rotina e com que frequência o faz …

É natural que cada um de nós tenha os seus hábitos, bons e maus, que definem muito quem somos e como somos. É verdade que podemos, e em muitos casos devemos trabalhar alguns deles, no mínimo para ter melhor qualidade de vida. Cá por mim preciso de “dar um jeito” a todos aqueles hábitos a que chamamos “males da vida moderna”, tais como alimentação não saudável, horários de sono desorganizados, vida sedentária, falta de descanso, excesso de trabalho e outros tidos como normais na nossa sociedade, mas que, mais dia menos dia, nos vão cobrar o seu preço.  

Diz-se que somos um animal de hábitos. E, se olharmos bem para os nossos comportamentos e atitudes, temos de reconhecer que é bem verdade. A questão verdadeiramente importante é saber se somos capazes de manter os bons hábitos, os que funcionam a favor de uma saúde física e mental equilibrada, ao mesmo tempo que reduzimos o peso dos outros que não ajudam, naquilo que faz da vida “uma eterna repetição” …   

O divórcio antes do casamento …

Vera e Artur, nomes fictícios como se percebe, juntaram os trapinhos e, depois de quase quatro anos a viverem juntos e com dois cães de companhia, decidiram casar. Cá para nós que ninguém nos ouve, ela é que tomou a decisão quando uma das amigas “deu o nó com pompa e circunstância”. Desabafou com a irmã que também tinha de conseguir e Artur, como qualquer homem que pensa ser ele que toma a decisão, depois de muitos “ses” e “mas” acabou por engolir as objeções e deu o “ámen”, ainda por cima sem aquele ar contrariado que punha quando falavam no assunto, para “não ter de a ouvir” o resto da vida. Eles (ou ela?) escolheram a igreja, “aquela quinta de eventos”, o mês de Abril de 2020, a ementa “premium”, os arranjos florais, a música, fogo de artifício e tudo o mais, para além de uma longa lista de convidados a ultrapassar os trezentos, já reduzida depois do noivo ter conseguido eliminar alguns convivas que nenhum dos dois conhecia bem nem sabia como ali tinham ido parar. Escolheram e compraram o fato e o vestido de noiva, alianças, viagem para a lua de mel nas Maldivas e todos os pormenores, desde os convites às prendinhas surpresa, sem deixar nada ao acaso. Mas, diz-se que “o homem põe e Deus dispõe”. Em Março desse ano chegou a pandemia e virou tudo do avesso. E o confinamento e todas as restrições que o acompanharam, fizeram com que só restassem duas opções ao casal Vera e Artur: escolher um novo modelo de casamento com muito poucos convidados e mesmo assim com todas as condicionantes de proteção e distanciamento ou adiar à espera de dias melhores. Ora, para quem queria o casamento espetacular como era o caso, não restou outra opção senão o adiar, acabando por ser consensual remarcarem para o mês de Setembro. Talvez as coisas já estivessem mais calmas. Artur não se opôs e até teria mais tempo para se adaptar à ideia da nova situação de vida. Conseguiram alterar a marcação na quinta dos eventos, não para um sábado como desejavam, mas para o único domingo livre na agenda e tudo passou a ser reprogramado para o novo dia, com novos convites porque os primeiros não puderam ser aproveitados, mas as alianças seriam as mesmas, se bem que tendo a gravação da primeira data, o que eles consideraram ser um pormenor sem importância.

Mas quando Setembro já estava próximo, a situação mantinha-se sem hipótese de poderem realizar o casamento conforme o planeado e fez com que voltassem a alterar a data, regressando ao mês de Abril, mas desta vez de 2021. Com isso, tiveram de se sujeitar à disponibilidade da quinta, tendo desta vez a escolha recaído numa sexta-feira pois já foram dos últimos a decidir a mudança. E voltaram a refazer o plano e os preparativos para a nova data, esperançados de que a pandemia em Abril estaria ultrapassada. Mas, à medida que os meses passavam com a situação sanitária a agravar-se e o confinamento a provocar os estragos de uma convivência intensa e anormal, aconteceu a rotura no casal e toda a relação se esfumou em poucos dias.

Ora, não há no país quem queira festejar o primeiro aniversário do Covid-19 em Portugal, embora alguns tenham “engordado” em época tão difícil. Mas os períodos de crise “nunca são maus para todos”. Daí o provérbio “não quero que ninguém morra, mas quero que a minha vida corra”. A pandemia virou-nos a vida de pernas para o ar e desfez num instante quase todos os planos e sonhos, brincando com a nossa saúde num jogo de lotaria russa onde nunca sabemos se já chegou a nossa vez. Consigo trouxe mais pobreza, exclusão, medo, quebra nas exportações, aumento da dívida pública, ansiedade, falências, stress, instabilidade, vítimas de violência doméstica, incerteza no futuro e um rasto de mortos.

Enfim, perdemos a vida que julgávamos segura, ao ponto de serem impedidos os contactos físicos como os abraços e beijos, encerradas numerosas atividades, proibidos ou reduzidos a muito poucas pessoas espetáculos e celebrações diversas como as missas, batizados e até casamentos. Foi assim que, para aqueles que, como a Vera, queriam uma cerimónia muito participada por amigos e familiares para festejar esse momento importante das suas vidas, não lhes restou outra solução senão adiar a celebração. E isso aconteceu com milhares de casais em 2020 e, ao que tudo indica, continuará a acontecer este ano, sem fim à vista. E os mais devotos por cerimónia com muitos convidados correm o risco de ver o casamento adiado eternamente, esperando-se que um pouco antes de terem netos. Há dias dizia-me a mãe de uma noiva: “A minha filha ia casar-se agora, mas só podia ter um pequeno número de convidados e a festa na quinta tinha de acabar às nove da noite. Que raio de festa ia ser essa com hora de fecho e restrições à diversão? Claro que lhe disse para a adiar”. 

Em Portugal o número de casamentos tem vindo a baixar, para se vir a manter um pouco acima dos 30.000/ano na última década. Já no que diz respeito aos divórcios estamos muito bem, colocados entre os três primeiros da Europa, lugar do pódio que muito preocupa aqueles que estudam a nossa demografia. É que, por cada 100 casamentos, há em média mais de 65 divórcios, no casa e descasa que quase não dá tempo para juntar mesmo os “trapinhos”.

Com o confinamento, a pandemia veio trazer pressão à relação e nos casais com fragilidades, fechados em casa sem o escape de uma saída a jantar fora ou uma ida à praia ou ao centro comercial, elas foram agravadas ou romperam-se. Como se já não fosse suficiente o tempo indefinido em que é possível viverem juntos sem ter de casar, dando tempo para ensaiar e experimentar a vida em comum sem passar pelo casamento e todo aquele peso da responsabilidade, além dos custos da “festa”, ao atrasar as celebrações como o fez em 2020 e continua a fazer este ano, o Covid-19 permite que um número bem significativo de casais que já tinha a boda marcada como foi o caso da Vera, se separem ainda a tempo de cancelarem definitivamente o casamento, poupando na fatura da “festa”, lua de mel incluída, bem como no divórcio que viria a seguir e divisão dos “trapinhos”, que da outra forma é (quase) sempre conflituosa. A isto chama-se “divórcio antes do casamento”, que é bem mais económico, fácil e saudável que depois. E parece que não são tão poucos …

E alguém fica a perder? Claro que sim. A quinta do evento que perde uma receita. Os convidados, que perdem uma farra. Os patronos da celebração, que perdem a oportunidade de se gabar e fazer inveja à vizinha. E a estatística do país pois é menos um casamento a estragar a média nacional …

Um sorriso, para derreter o gelo …

A primeira imagem com que ficamos de uma empresa, instituição, serviço ou repartição pública é-nos sempre dada pela pessoa que nos atende. Boa, má ou assim, assim, agradável ou desagradável, pode perdurar para sempre e fazer com que passemos a ser clientes fieis ou, pelo contrário, nos deixe péssimas recordações pela forma como fomos tratados e nos aconselhe a nunca mais lá voltar. Por isso se diz que quem nos atende é “o rosto” visível da empresa ou da instituição. Dele guardaremos a simpatia de um sorriso e as palavras amáveis ou uma cara arrogante, quando não de trato grosseiro e desrespeitoso. Tenho encontrado de tudo. Homens e mulheres, altos e baixos, feios e bonitos, magros e gordos, jovens e velhos, de quem recebi o brilho de um raio de sol ou o vendaval de uma chuva gelada. E se há alguns que fiz questão de reter na memória pela excelência da receção, outros houve que foram atirados de imediato para o rol do esquecimento e em dois casos, dei-me ao cuidado de telefonar ao proprietário dando-lhe a sugestão de que deveria melhorar a qualidade do atendimento para não “espantar a clientela”.       

Nos seus oitenta anos, o senhor Domingos era um solteirão alegre e bem disposto, mas muito respeitoso. Naquele dia precisou de tinta e dirigiu-se à drogaria mais próxima. Quando entrou, duas funcionárias que estavam ao balcão conversavam, contando detalhadamente entre si as histórias do fim de semana, com pormenores a mais, sem sequer se preocuparem com a presença do senhor Domingos. E ele ficou ali, do lado de fora do balcão à espera de ser atendido durante mais de vinte minutos, enquanto as duas balconistas tagarelavam como dois papagaios à solta pela manhã, esquecidas do resto. Só quando uma delas avisou que ia à casa de banho é que a outra se “virou para o cliente” com ar insolente e fez a pergunta de quem está a fazer um frete, incomodada: – O que é que quer? O senhor Domingos fingiu não notar o tom desagradável e tirou do bolso um bloco de notas onde registara a referência da tinta que o pintor lhe solicitara, entregando-a à empregada, dizendo: – Por favor, desejo uma lata de cinco litros desta tinta. Levando consigo o bloco de notas, ela foi ao armazém e pouco depois apareceu com a lata de tinta que poisou em cima do balcão. E, naquele ar insolente, perguntou: “É só?”, como querendo saber se ele só queria aquilo ou se precisava de mais alguma coisa. E o senhor não deixou fugir a oportunidade para lhe “dar troco” pela sua indelicadeza: “Não sou só, não. Tenho lá em casa mulher, dois filhos e um cão” …

A qualidade do atendimento ao cliente é um ponto fundamental em qualquer empresa. Sem um bom atendimento, não há clientes, sem clientes não há negócio e, sem negócio, não há empresa. Também o é nas instituições e repartições públicas, onde de vez em quando ainda encontramos gente que teima em querer fazer de nós, cidadãos com direitos, meros pedintes do que nos é devido e que essa gente pensa ser favor só porque estamos do outro lado do balcão. E, confesso, já por mais que uma vez abandonei a fila por não querer ser atendido por alguém “com cara de poucos amigos”, com falta de educação e arrogância. 

Felizmente hoje já temos em muitas empresas e instituições gente que “sabe sorrir”, um sinal que encurta a distância entre as pessoas e que é tão importante como os conhecimentos e preparação de quem atende. E, pensando bem, o sorriso não custa nada, mas pode não ter preço; é leve, mas tem um poder imenso, é breve, mas a lembrança pode ficar para o resto da vida; não se compra, não se vende, não se empresta, não se rouba. Oferece-se, troca-se, dá-se. E o sorriso atrai e provoca sorriso, tal como o espelho nos devolve a imagem.

Tive de ir ao Departamento de Urbanismo de uma câmara do Alto Minho para solicitar uma informação ao técnico responsável de que só conhecia o nome. Quando cheguei, estavam três pessoas na fila. Com a intenção de saber se o técnico em causa estava de serviço, aproximei-me do balcão e, num momento que me pareceu oportuno, abordei o funcionário que estava a atender: “Desculpe. Por favor, pode-me só informar se” …  mas fui logo interrompido num tom seco e ríspido com um “vá para a fila e aguarde a sua vez”. Nem sequer quis contestar a indelicadeza da atitude e voltei à fila para aguardar a minha vez como me fora ordenado. As pessoas que estavam à minha frente foram sendo atendidas muito lentamente e, quarenta minutos depois, chegou a minha hora. Repeti parte do que já tinha dito: “Por favor, pode-me informar se o senhor arquiteto Afonso está”? E aquele rosto fechado e sisudo, respondeu-me no mesmo tom que já ouvira: “Não sabe que hoje não é dia de atendimento? Tem de fazer marcação se quiser falar com ele”. E a conversa acabou. Estive ali a secar nos últimos quarenta minutos quando ele, se soubesse ouvir, só perdia 5 a 10 segundos e tinha resolvido o meu problema sem prejudicar as outras pessoas.  

O cliente ou utente não pede nem merece um discurso ou lição de moral, mas sim um bom atendimento, se possível excelente, com simpatia, educação e bom humor. E, claro, com um sorriso, sabendo escutar quem estiver disposto a falar, sejam críticas, sugestões ou pedidos, porque todas as pessoas são importantes. Mesmo nestes tempos difíceis que todos estamos a viver, é mais importante que nunca para quem está na linha da frente do atendimento saber ouvir com paciência, atenção e preocupação real pelas pessoas. Se fosse numa empresa onde o objetivo é vender, nunca mais eu lá punha os pés …

Há momentos em que a vida nos é madrasta e perdemos alguém que amamos, a vida não correu bem, temos um problema de saúde com um familiar ou uma derrocada financeira. Sentimo-nos zangados com a vida, zangados com tudo e com todos. Mas devemos perceber que temos de deixar os nossos problemas cá fora, à porta da repartição ou da empresa, porque os clientes/utentes não têm culpa das pedras que a vida nos põe no caminho. Ou então optamos por ficar afastados de cena até recuperar o ânimo e alegria de viver, por nós e pelos outros. Quem sabe se o conseguimos pela força de um sorriso, aberto e genuíno, de alguém durante um atendimento em que fomos capazes de pôr alguma humanidade com uma boa dose de humor e empatia …    

Prisão ou rua? Dá para escolher?

Já lá vai o tempo em que a cadeia de Lousada funcionava na cave da Câmara Municipal. Quando andava por ali junto do pelourinho, via os presos atrás das grades de ferro e metia-me impressão vê-los com os braços de fora a pedir um cigarro ou uma moeda a quem passava. E por vezes, havia um ou outro conhecido de algum que ficava ali em amena “cavaqueira”, ajudando a matar o tempo, fazendo da rua a “sala de visitas da cadeia”, no tempo em que as prisões não tinham “condições de habitabilidade”. Mas hoje a realidade é bem diferente e as prisões improvisadas e sem condições, como era o caso, acabaram. Agora são edifícios especiais com outros requisitos, tanto em termos de segurança como condições para presos e pessoal, além de regalias para detidos que até há quem pergunte se são parte de um castigo ou alguma estância balnear para retiro espiritual. Os políticos defendem sempre a melhoria das instalações prisionais e lá têm as suas razões para o fazer. Conta-se que um governante andou pela região a visitar equipamentos diversos, ouvindo sugestões, revindicações e pedidos da população. Numa escola deram-lhe uma longa lista de reclamações por o edifício estar muito degradado. Já na penitenciária os presos exigiram melhor qualidade de vida, melhor comida, mais tempo de recreio e acesso às novas tecnologias. No regresso o governante deu instruções à secretária que o acompanhava: “desencadeia o processo para reparar as janelas na escola. Nada mais. Quanto à penitenciária, manda satisfazer todas as exigências dos prisioneiros”. Escandalizada com a ordem recebida, respondeu-lhe: “Mas o que me disse, senhor ministro, não faz sentido nenhum” … Ele, sem a deixar concluir o seu raciocínio, continuou: “Pensa bem. Nós já andamos na escola e jamais voltaremos para lá. Mas, quanto à prisão… nunca se sabe”. Por alguma razão se diz que “governar é prever”. 

Circula na internet uma paródia de alguém que considera absurdo as condições nas prisões se comparadas com as condições de vida de muitos idosos cujo único crime foi terem uma vida de trabalho. Por isso, propõem uma solução inovadora para dar dignidade aos velhos e castigar os que prevaricaram na sociedade: “Que os idosos ocupem na prisão o lugar dos reclusos e estes sejam obrigados a morar nas casas dos idosos.  E assim se faria mais “justiça social”. Vejamos:

“Com esta simples medida, os idosos teriam um duche diário, lazer e passeios. Não precisavam de preparar refeições, ir às compras, lavar a roupa e a loiça, arrumar a casa e outras tarefas diárias. Ser-lhes-ia assegurada assistência médica e medicamentos, gratuitamente, bem como as refeições quentes a tempo e horas, devidamente controladas pela ASAE. Não tinham de pagar renda pelo alojamento, a roupa da cama era mudada duas vezes por semana e tinham a roupa lavada e passada a ferro com regularidade. Deixavam de sofrer com a solidão de casa pois estariam sempre acompanhados, com direito a vigilância permanente através dos meios tecnológicos mais avançados, com garantia de assistência imediata em caso de acidente ou emergência, tudo a custo zero. Até teriam alguém que os iria visitar a cada vinte minutos e entregar o correio em mão. Das regalias desta “hotelaria”, constaria o acesso à biblioteca para cuidar da mente e ao ginásio para cuidar do corpo. Eram encorajados a arranjar terapias ocupacionais adequadas, com formador, instalações e todo o tipo de equipamentos a título gratuito, com acesso a sala de leitura, computador, televisão, rádio e chamadas telefónicas na rede fixa. Teriam roupa e produtos de higiene pessoal, bem como assistência jurídica, sem ter de dispor de um cêntimo. Além de terem enfermeiros, médicos, psiquiatras e dentistas, beneficiariam ainda dum secretariado de apoio, psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, mais as visitas dos políticos, das televisões, grupos de voluntários e defesa dos seus direitos, para lhes dar atenção e atender reclamações. Em suma, viveriam num “condomínio privado” e seguro, com zona de convívio, exercícios ao ar livre e ginásio, vigiado de dia e de noite por guardas obrigados a respeitar um código de conduta, sob pena de serem severamente penalizados, além de lhes serem reconhecidos os direitos humanos internacionalmente convencionados e subscritos por Portugal”.

“Já os delinquentes, ao ocuparem as casas dos idosos, teriam de viver com 200 euros por mês ou pouco mais numa pequena habitação que já não via obras há 50 anos. Para comer, teriam de confecionar as refeições, comê-las muitas vezes frias e fora de horas e, quando se esquecessem de comer ou tomar a medicação, não teriam ninguém para os ajudar. Eram obrigados a tratar da sua roupa, viveriam sós e sem vigilância sujeitos a ser vigarizados, assaltados ou até violados, sem ter quem lhes acudisse. As instituições e os políticos não lhes ligariam nenhuma, a não ser em períodos eleitorais. Estariam anos à espera de uma consulta ou cirurgia, se é que a tinham antes de “bater a bota” e não teriam ninguém a quem se queixar. Tomavam banho de 15 em 15 dias, sujeitos a não ter água quente e a caírem na banheira velha da casa. O único entretenimento diário seria ver na televisão as telenovelas, o Goucha, a Júlia Pinheiro e afins, bem embrulhados em cobertores grossos no inverno para se protegerem do frio, pois a reforma de 200 euros ou pouco mais não dava para aquecer os pés, quanto mais a casa. E, se morressem, podiam ficar dias, semanas, meses ou anos, até que alguém os encontrasse”.

O autor acha que esta seria uma forma de fazer mais justiça social, de proteger o contribuinte, castigar quem prevarica e defender aqueles que trabalharam uma vida e têm reformas de miséria.

É curioso que o governo holandês, recentemente, deliberou impor à sua “clientela prisional” o pagamento de uma diária por ficarem “hospedados” atrás das grades. Com isso, pretende obrigar todos os criminosos a assumirem o custo dos seus atos e poupar dinheiro ao erário público. O governo considera que o detido é parte integrante da sociedade e que, ao cometer um delito, lhe é devido contribuir para os custos inerentes. 

Nesta miscelânea de notícias e opiniões, é evidente a discrepância do tratamento e das “benesses” atribuídas aos presos e o esquecimento a que são votados os idosos. Os primeiros, apesar de limitados na liberdade de circulação, vivem ociosamente e sem preocupações à conta do estado (isto é, de todos nós), podendo mesmo, se quiserem, tirar qualquer curso profissional, médio ou superior com tudo pago, inclusive o transporte para fazer os exames no estabelecimento de ensino escolhido. Quanto aos “outros”, os velhos, cujo único crime que cometeram foi o terem levado uma vida de trabalho sério, duro e sofrido com trinta ou quarenta anos de contribuições para o estado, em grande número têm de fazer esticar a pensão de miséria pelos trinta dias do mês, num equilíbrio difícil. Não se defendendo que os primeiros não devam ter um “alojamento” digno, com acesso a várias atividades físicas e educativas facilitadoras duma reintegração social, não é justo que “quem cumpriu o seu dever” de cidadão e contribuiu para a sociedade, não tenha, no mínimo, benesses e regalias iguais àqueles que não cumpriram a lei, precisamente quando a saúde física e mental mais o exige.

Será que neste sofisma há verdades que não queremos ver ou ouvir?  

Uma “sociedade” muito difícil …

Diz o povo que o casamento é a “sociedade” mais difícil de manter. E numa “sociedade” tão difícil como é a relação de um casal, seja ela formalizada através de “escritura pública”, o chamado casamento, seja ela informal, a dita união de facto, o risco de “dissolução” ou até mesmo de “ir à falência” é muito alto nos nossos dias, bem maior do que nas sociedades comerciais. E o elevado número de divórcios, separações e muitos outros finais da relação é o sinal evidente da grande dificuldade em encontrar nos “sócios” quantidade suficiente de respeito, diálogo, paciência, resiliência, aceitação e a capacidade de perdoar. E eu disse nos “dois sócios”. Mais ainda, as facilidades (e conveniências) dum “período experimental de utilização”, de duração indefinida, facilita e faz crescer o número de “devoluções” do outro à procedência ao mínimo incómodo, arrufo ou insatisfação. 

Todo o encanto e dificuldade para ser um casal é consequência de se juntarem duas personalidades com identidades próprias e perceções e histórias de vida diferentes, bem como desejos e projetos distintos e que pretendem ser um só. Convenhamos que não é fácil, até porque homem e mulher têm motivos de interesse diversos que raramente são coincidentes e que, mais dia menos dia, se tornam no rastilho de uma explosão caseira. Ora, estando eu do lado dos homens, cabe-me defender a sua visão, o seu olhar sobre o “outro lado”.    

Estamos no século XXI e, apesar de todos os avanços científicos e do conhecimento mais profundo do ser humano, continua-se a afirmar que para o homem, “é difícil entender as mulheres”. E, claro, é difícil entender pessoas quando elas próprias não se entendem. Mais ainda porque enquanto o homem é muito “visual” e prático, já a mulher é emocional e complexa. Confessava um marido não perceber o que se havia passado com a esposa. Quando iam sair à noite ela “descobriu” que o vestido era demasiado decotado. Voltou para trás e trocou-o por umas calças, blusa e casaco, mas ao entrar no carro apercebeu-se que os sapatos não condiziam com o resto e … regressou a casa. Bom, conseguiram arrancar quase uma hora depois. 

Quando perguntamos à mulher “o que se passa?” e ela responde “não é nada” ou, num tom seco e ríspido “naaaada” e com cara de amuada (que em gíria popular se traduz “de trombas” ou “com cara de poucos amigos”), é sinal que algo se passa. Ela sabe e nós sabemos, que algo não lhe caiu bem, que alguma coisa a incomoda. O quê? Se pensarmos que vai ser fácil descobrir “que mosca lhe mordeu”, estamos muito enganados. Em regra, é bem difícil descobrir ou tal só será possível depois de ela “fazer muitas fitas”. E vai ser precisa uma grande dose de paciência, num jogo de (falsa?) preocupação, porque é isso que ela quer. Que fiquemos preocupados. Porque ela gosta de sentir a nossa preocupação, real ou falsa, pois dá-lhe um grande prazer “assistir” ao “sofrimento” do “escravo”, como se isso seja a sua redenção. No fundo da questão, quer atenção, muita atenção quando corta dois dedos no comprimento do cabelo e temos de descobrir imediatamente o “novo look”, fazendo um elogio rasgado e sincero (porque o seu radar sabe se é sincero ou não). Tal como com o vestido novo, os sapatos ou um simples lenço do pescoço. E ai daquele que o não veja …

Se ela perguntar “este vestido faz-me gorda?”, é preciso ter cuidado a responder, porque “podemos ser presos por ter cão e presos por não ter”. A pergunta tem rasteira, porque ela tem consciência que aquele vestido a faz gorda. Ora, como ela já conhece a verdade, mas não quer ouvi-la da nossa boca, precisa de arranjar um “bode expiatório” para o facto de o ter comprado e sentir-se desapontada por lhe ficar justo demais, fazendo realçar aqueles pequenos pneus à volta da cintura. Por isso, não lhe podemos dizer que a faz gorda, porque é disso que ela está à espera para nos cair em cima dizendo que “não gostas de mim” ou “achas mesmo que sou gorda?”. Mas se cairmos também na patetice de lhe esconder a verdade, que é evidente, a reação poderá ser ainda pior com um acalorado “estás a mentir” ou “não é isso que estás a pensar”. Entre uma e outra resposta, há que escolher terceira via, alternativa, que é optar por não responder, porque nestes casos ela não quer ouvir resposta nenhuma da nossa parte. É uma pergunta somente para se ouvir, um desabafo atirado ao “vento” e, já agora, a nós. E o vento nunca lhe responde, porque é mais inteligente do que nós. Ainda podemos optar pela fuga, inventando uma desculpa bem conseguida e consistente, para não dar azo a sermos “apanhados a mentir”. O argumento de que “temos de ir urgentemente à casa de banho” ou outro bem consistente, não pode deixar dúvidas para que a saída seja airosa. E precisamos de ter consciência que a fuga pode ser um ato de coragem em muitas ocasiões … 

Hoje ouço falar na partilha de trabalhos em casa, dos cuidados com os filhos, outras responsabilidades e até no “comando da sociedade” o que pode não passar de uma mera intenção. É que a mulher gosta de mandar e se o parceiro não se cuida, quando der por si já estará “formatado” ao seu gosto. No que veste, porque depressa se torna no seu “gestor de imagem”, no que vê na televisão, pois ela não gosta de futebol, onde vão comer ou passear. E o seu toque também está no planeamento das férias e não só. A maioria dos homens reconhece que a palavra de ordem dentro de casa vem da mulher, além de que preferem mudar de opinião a comprar uma briga com ela …

Devemos ter sempre em conta que “a esposa é a mulher que está ao nosso lado para nos ajudar a resolver problemas … que não teríamos se não estivéssemos casados”. 

As pessoas gostam de ser enganadas

Em 1810 nasceu nos Estados Unidos um homem que viria a ficar conhecido por Phineas Barnum. Embora tenha sido autor, editor, palestrante, filantropo e até político, tornou-se um empresário de sucesso no ramo do entretenimento norte americano, sendo lembrado principalmente por promover as mais famosas fraudes e curiosidades humanas e por ter fundado o mais famoso dos circos. O circo começou por ser um museu de esquisitices e monstruosidades que atraía multidões fazendo fila, inclinando-se diante da escrava cega que tinha 161 anos de idade e amamentara George Washington, beijando a mão de Napoleão Bonaparte que media 64 centímetros de altura e comprovando que estavam bem coladinhos um ao outro os irmãos siameses Chang e Eng, além de verificarem que as três sereias tinham rabos de peixe autênticos. Barnum tornou-se o homem mais admirado pelos políticos profissionais. Ele levou à prática, melhor do que ninguém, a sua grande descoberta: “As pessoas gostam de ser enganadas”. 

Se há duzentos anos essa afirmação era verdadeira, hoje tornou-se mais verdadeira que nunca, até porque vivemos num mundo global onde a informação, boa e má, circula à velocidade da luz. Do futebol à política, das falsas notícias às promessas de ganhos grandes e fáceis, das religiões que vendem a salvação, da publicidade enganosa que dá ideia de uma coisa quando a realidade é outra, tudo é campo fértil de tentações e enganos.  

Há alguns dias um amigo teve um problema elétrico no automóvel. Como conhecia o senhor José, bom eletricista e de confiança, apesar de não o visitar já há algum tempo, foi procurá-lo. Quando o encontrou e relatou o problema, ele disse-lhe que não podia fazer nada porque tinha fechado a empresa. Nem sequer tinha material para lhe fazer o serviço. “Mas você tinha uma empresa tão boa, com tanta clientela. O que diabo aconteceu?”, perguntou-lhe muito intrigado. E então, as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara abaixo. Constrangido, lá conseguiu dizer: “Foi a minha mulher. Meteu-se numa dessas religiões que vieram do Brasil e confiou de forma cega no bispo. Sem eu me aperceber, limpou-me mais de duzentos mil euros da conta. Quando eu quis pagar aos fornecedores estava totalmente desfalcado. Só me restou pedir a insolvência”. 

Este “filme” já o vimos noutras ocasiões, com outros protagonistas. Apesar dos avisos, há sempre quem esteja “disponível” para “embarcar” na conversa das promessas de salvação pelo “desprendimento dos bens materiais”. Só que eles fazem precisamente o contrário. E o expoente máximo e mais mediático parece ser o “bispo” Edir Macedo, dono de um autêntico império, apesar da imprensa ir denunciando as fraudes e o fausto em que vive à conta da sua capacidade oratória. Tal como Barnum, descobriram que “as pessoas gostam de ser enganadas”. Mesmo quando lhes pedem dinheiro no meio do “barulho” …

É mais fácil acreditar em coisas esquisitas e anormais do que pensar, questionar. Acontece isso com os mágicos, bruxos, cartomantes e os adivinhos. Só que o mágico confessa que faz truque, mas não revela o segredo, enquanto os outros dizem que falam com os mortos, leem a sorte e alteram o destino das pessoas só ao olharem as cartas, a bola de cristal ou as borras de café e que têm visões. E as pessoas creem, porque “preferem ser enganadas”. E o mais caricato é que é preciso muito cuidado ao dizer a verdade a essas pessoas pois não querem acreditar nela. Preferem o engano. 

Mas se formos à política a coisa é igual ou pior. Veja-se o louco que esteve à frente de um país como os Estados Unidos, comportou-se como um elefante anormal no meio de uma loja de louças e, mesmo assim, quase metade da população americana continua a estar do seu lado, acreditando sem questionar nos milhares de mentiras que lhes impingiu ao longo do seu mandato. Aliás, nem precisamos de ir lá fora para encontrar “artistas” que, pela sua capacidade oratória, têm vendido todo o tipo de “banha da cobra”, angariando numerosos “crentes”, adeptos incondicionais que não questionam, que não se interrogam se é verdade ou mentira o que lhes sai da boca e nem se dão ao trabalho de pensar. É o mais fácil. Há mentiras vestidas de verdade e verdades irrefutáveis em que não acreditam. Quando são condenados pela justiça, cumprem prisão, voltam e são reeleitos precisamente por aqueles de quem se aproveitaram. O que se pode esperar? Estes políticos são uma espécie de “santos”, cartomantes ou bruxos em que as pessoas querem acreditar. Por isso, vão-lhes dando algumas “migalhas”, para dar credibilidade à mentira. Tal como dizia António Aleixo: “P’ra mentira ser segura/ e atingir profundidade/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade”.

Os “pregadores e vendedores” de grandes ganhos financeiros são um outro bom (mas mau) exemplo de que “gostamos de ser enganados” ou ainda de “nos querermos enganar a nós próprios”. E isso acontece mais nos períodos de crise económica, porque a falta de dinheiro faz com que as pessoas estejam “abertas” às tais “soluções milagrosas”, com promessas de ganhos muito acima da média. Aliás, já Hitler em 1925 no seu livro Mein Kampf diz: “as massas serão mais facilmente vítimas de uma grande mentira do que de uma pequena”. E isto ainda é válido nos nossos dias, porque as pessoas acreditam no que querem acreditar, quando têm de acreditar. Daí que, nas questões financeiras, quanto maior é a proposta de ganhos possíveis, maior é a apetência em aderir à solução proposta. Foi assim que este país viu surgir a D. Branca e todos os seus “discípulos”, seguidores dos princípios básicos que ela utilizou, mas com “outra sofisticação e uma melhor qualidade de imagem”. Os “herdeiros da filosofia” mantiveram a mentira num nível alto com os “10% de juros prometidos ao mês, e até mais”, o que aniquilava toda e qualquer “dúvida” que pudesse pairar na cabeça interessada de gente “obcecada, cega pela tentação de ganhos fáceis”, o que, normalmente, impede de ver além da “promessa fantástica”. E, pelo contrário, é uma rendição de quem quer ser enganado.

Eu sou uma pessoa como qualquer outra e sempre estive exposto às mesmas rasteiras, erros, tentações e defeitos dos seres humanos. Há ocasiões que penso no número de vezes que me deixei ir na “oratória milagreira”, na “ilusão de ganhos mirabolantes”, nas “promessas de políticos demagógicos”, no “conto do vigário” ou outra mentira bem travestida de verdade, por não querer ver o evidente, não questionar, pensar, nem pôr a razão a controlar a emoção. Francamente, quantas vezes também terei pedido para ser enganado?

O esquecimento é a morte antecipada

Os últimos dias têm vindo a confirmar aquilo que eu já sabia há muito tempo, mas que não queria reconhecer na dimensão devida: que sou um “grande acumulador de lixo”. Essa confirmação devo-a, em parte, à pandemia, porque me tem obrigado a conter e ficar mais tempo em casa, dando bom uso a esse tempo de confinamento, especialmente ao “correr de fio a pavio” algumas divisões, identificando a tralha que se acumula em todo o lado, fazendo a separação do que é ou não útil e mandando para o lixo o que já era lixo há muitos anos. A verdade é que, ao fim de uma semana, ainda nem sequer saí do escritório e dum pequeno arrumo, tendo-me limitado a separar papelada e material eletrónico desatualizado. Ao “passar a pente fino” estantes, gavetas, armários, caixas, sacos, pastas, arquivos e embalagens diversas, foi como viajar no tempo, recordar momentos, relembrar razões que me levaram a conservar isto e aquilo, enfim, arranjar desculpas por não ter enviado tanta coisa há mais tempo para o caixote do lixo. Livros, relatórios, orçamentos, contratos, faturas, notificações, folhetos, revistas, cadernos, agendas, projetos e todo o tipo de documentos já com muitos anos de arquivo, desta vez foram “arquivados” de vez em caixas de cartão com destino ao Ecocentro. Ao todo, mais de 300 Kgs de papel para reciclar, um crédito a abater na conta da água e alívio cá em casa. Já no material eletrónico foram televisões, monitores, leitores de CD e DVD, walkman, rádios, telemóveis desde o “tijolo” aos mais recentes, antenas, carregadores, despertadores, cassetes, vários relógios e todo o tipo de cabos que as empresas vão trocando permanentemente para nos obrigarem a comprar novos. Enfim, lixo.

Depois entrei no material da Luísa, todo arrumado em caixas que fui abrindo e selecionando. Bem, não foi propriamente selecionar, pois pouco restou daquilo tudo. Dos seus arquivos escolares dos muitos anos de ensino em várias escolas, ficaram as fotografias dos alunos de algumas classes, crianças que hoje são homens e mulheres, apesar    

de, para ela, permanecerem crianças para sempre. De certo modo, dei comigo a pensar que lhe “apaguei o passado”, se bem que ela já o terá perdido desde o dia em que sofreu o derrame cerebral. A ligação que foi mantendo a esse passado manifestava-se nas manhãs em que me dizia que tinha de se levantar para ir à escola ou nas visitas que uma colega lhe fez durante vários anos após ter adoecido e mais duas ou três pessoas. Fora isso, não há outra ligação às escolas por onde passou e às pessoas com quem conviveu nesse longo período de vida.

Enquanto rasgava papeis, selecionava livros ou carregava caixas de velhos equipamentos eletrónicos, fui refletindo sobre a importância do afastamento e do esquecimento, uma espécie de morte antecipada que acontece frequentemente com as pessoas que atingem uma idade avançada e que, por várias razões a começar pela saúde, têm de ficar mais em casa, viver mais recolhidos. Lentamente, muitas vezes de forma quase impercetível, as visitas inicialmente normais vão sendo cada vez mais espaçadas, passando a raras, para serem substituídas por chamadas telefónicas que depois escasseiam, até se perder a “ligação” por completo. Por outro lado, as outras pessoas da mesma geração vão envelhecendo também, perdem a mobilidade e isso não ajuda a encontrarem-se com regularidade. E os mais novos já não conhecem, já nem sabem de quem se trata. 

Quando faleceu o senhor José Dias, um empresário de enorme importância em Lousada e que marcou uma época, apercebi-me que é essa a realidade. Para alguém como ele que deu emprego a muita gente criando oportunidades de uma vida melhor, que foi um dos três maiores industrias de Lousada, apoiou instituições e pessoas tornando-se uma figura importante na terra, ter na “despedida final” muito poucas pessoas a acompanhá-lo à sua última morada, seria algo que eu não imaginaria. Mas a verdade é que, se hoje perguntar aqui na sua terra quem era José Dias, a maior parte abana a cabeça e diz que não sabe. Só algumas pessoas de idade que viveram no seu tempo responderão à pergunta. A verdade é que, lamentavelmente, o senhor Dias foi praticamente esquecido na terra por quem tanto fez quando ainda estava vivo. “Morreu“ na memória dos conterrâneos muito antes da sua morte física. Aliás, o povo tem uma expressão que diz tudo: “Quem não é visto, não é lembrado”.

No seu caso, como acontece com muitas outras pessoas que se reformam e retiram da atividade vivendo mais recolhidas em casa, foi esquecido por uma parte dos que o conheciam e ainda estão vivos e foi ignorado pelos mais novos a quem nada dizia. E o certo é que, se pessoas como ele fizeram o que fizeram e depressa foram esquecidas ou passaram praticamente ao anonimato, que dizer do cidadão comum? É uma lei da vida muito injusta para as pessoas que merecem ser lembradas e confesso que, quando mais novo, acreditava que não era assim. Por isso defendi a necessidade de termos memória enquanto sociedade, se bem que hoje, mais que nunca, tenho consciência que rapidamente seremos esquecidos, sendo os filhos (e nem todos) o último “livro” onde nós seremos memória. Se pensarmos bem nisso, talvez sejamos menos arrogantes, convencidos, estúpidos e imbecis.

Defendi aqui nestas crónicas que algumas pessoas deveriam ver o seu nome perpetuado numa rua, praça ou bairro por tudo aquilo que fizeram e deram à sociedade, sendo uma delas o senhor José Dias cujo nome deveria ficar para sempre no parque industrial existente nas instalações fabris que construiu. No entanto, já duvido de mim mesmo, pois questiono quantas pessoas saberão quem foi Sá e Melo ou o Visconde de Alentem que dão nome a arruamentos da vila. 

O doutor Abílio Alves Moreira cujo nome serviu para batizar o bairro social local, contava muitas vezes o que determinada figura pública, que não consegui identificar, dizia ao saber que pretendiam fazer isso com ele: “Se acham que eu fiz alguma coisa de útil, que me imitem. Prefiro isso a ter o meu nome na placa de uma rua, que só servirá para mijatório de cães e pasmaceira de vadios” …  

O falhanço monumental de um país …

Falhamos estrondosamente, a fatura é alta, continua a subir sem fim à vista e “o valor já pago não tem preço nem retorno”. Está perdido para sempre. E não vale a pena arranjar desculpas esfarrapadas nem enterrar a cabeça na areia. Todos temos de assumir o fiasco. Todos, a começar pelos governantes que se perderam nos autoelogios de um “sucesso falso” no combate à primeira vaga da pandemia, esquecendo de, atempadamente, planear e tomar as medidas convenientes, ainda que impopulares, para controlar o que veio a seguir. Pelos políticos que quiseram tirar dividendos da crise quando se deviam preocupar com as pessoas, que não são números. Pelos especialistas, que tentam encontrar um caminho feito de avanços, recuos e até contradições. Pelos jornalistas, que fizeram dos noticiários um autêntico massacre psicológico, com relatos estatísticos tão exaustivos quanto maçudos. E todos nós que ficamos agarrados ao nosso comodismo, liberdades, regalias, direitos adquiridos, hábitos e tradições, esquecidos de que há um valor maior que tem de estar à frente de tudo isso: a vida de cada um. A nossa, dos nossos familiares, amigos, vizinhos, novos e menos novos, conterrâneos, estranhos, pessoas como nós. E temos esquecido que a luta para nos mantermos vivos tem de estar acima de tudo e em primeiro lugar. Sem ela, o que vale o resto?

Pode parecer estranho, mas o melhor e mais inteligente discurso de um governante ao seu povo durante a crise do Covid-19 alertando contra as pessoas que se comportam mal neste período da pandemia foi do presidente do Uganda, Kaguta Museveni, que começou a dizer aos ugandeses: “Deus tem muito trabalho, pois tem o mundo inteiro para cuidar. ELE não pode estar aqui simplesmente, no Uganda, a cuidar de idiotas …” Mas vale a pena ler a sua declaração pública que, mais do que para os ugandeses, deve servir de lição para todos nós:

“Numa situação de guerra, ninguém pede a ninguém para ficar dentro de casa. Você fica dentro de casa por opção. De facto, se você tem uma cave, fica escondido lá enquanto as hostilidades continuarem.

Durante uma guerra, você não insiste na sua liberdade. Desiste voluntariamente em troca da sobrevivência.

Durante uma guerra, você não se queixa de fome. Você sente fome e reza para continuar a viver para poder comer de novo.

Durante uma guerra, você não discute abrir ou não o seu negócio. Você fecha a sua loja (se tiver tempo) e corre para salvar a vida.

Você reza para sobreviver à guerra, para poder voltar ao seu negócio (isto é, se não tiver sido saqueado ou destruído por um morteiro).

Durante uma guerra, você fica grato por estar vivo mais um dia na terra dos vivos.

Durante uma guerra, você não se preocupa se seus filhos não vão à escola. Você reza para que o governo não os aliste à força como soldados para serem treinados nas dependências da escola, agora transformada em depósito militar.

O mundo está atualmente em estado de guerra. Uma guerra sem armas e balas. Uma guerra sem soldados humanos. Uma guerra sem fronteiras. Uma guerra sem acordos de cessar-fogo. Uma guerra sem teatro de guerra. Uma guerra sem zonas sagradas. Nesta guerra o exército não tem piedade. É indiscriminado – não respeita crianças, mulheres ou locais de culto. Este exército não está interessado em espólios de guerra. Não tem intenções de mudança de regime. Não está interessado na riqueza dos recursos minerais. Nem sequer se interessa por hegemonia religiosa, étnica ou ideológica. A ambição dele não tem nada a ver com superioridade racial. 

É um exército invisível, sem bases e impiedosamente eficaz. A sua única agenda é uma colheita de morte. Só ficará saciado depois de transformar o mundo num grande campo de morte. A sua capacidade de atingir o seu objetivo não está em dúvida. Sem máquinas anfíbias, terrestres e aéreas, possui bases em quase todos os países do mundo. O seu movimento não é governado por nenhuma convenção nem por protocolo de guerra. Em suma, “é uma lei em si mesma”. 

É o coronavírus, também conhecido como COVID-19.

Felizmente este exército tem uma fraqueza e pode ser derrotado. Requer apenas a nossa ação coletiva, muita disciplina e tolerância.

O COVID-19 não pode sobreviver ao distanciamento social e físico. Só prospera quando você o confronta. Adora ser confrontado. Capitula diante do distanciamento social e físico coletivo. Ele se curva diante de uma boa higiene pessoal. Fica desamparado quando você toma o destino nas suas próprias mãos, mantendo-as higienizadas o mais tempo possível.

 “Não é tempo de chorar por pão e manteiga como crianças mimadas. Temos de achatar a curva do COVID-19”.

Vamos exercitar a paciência. Sejamos guardadores dos nossos irmãos. Em pouco tempo recuperaremos a nossa liberdade, as empresas e a socialização. No meio da EMERGÊNCIA, pratiquemos a urgência do serviço e a urgência do amor pelos outros”.

O nosso problema é que “estamos numa guerra”, mas não tomamos verdadeiramente consciência de que essa “guerra” é real e temos de lutar pela vida contra um inimigo invisível. Era mais evidente se fosse um vulcão em erupção, um terramoto arrasador ou uma torrente de água e lama que nos arrastasse ribanceira abaixo com todos os bens a reboque. Aí lutávamos pela vida sem querer saber de nada mais que não fosse ficar vivo. Quando em 2005 o furacão Katrina atravessou Nova Orleans, deixou um rasto de destruição e quase 2.000 mortos. A grande preocupação dos habitantes da cidade foi “salvar a pele”. Para trás deixaram casas, carros, negócios, empregos e bens pessoais. Em suma, tudo. E ali ficaram sem eletricidade, água potável, um teto para se abrigar, sem segurança e proteção. Agora nós, com mais de 10.000 mortos, que tudo indica passarão do dobro muito em breve, estamos ocupados em defender os direitos que a constituição nos confere, que os filhos continuem a ir à escola, que as nossas vidas continuem a ser iguais ao antes da pandemia! Também continuamos a comportar-nos como idiotas não respeitando o confinamento, distanciamento social e higienização frequente das mãos, talvez à espera dum milagre ou se calhar, convencidos que a chegada de alguns milhares de vacinas já nos imunizou a todos, como por encanto! Quando vamos acordar?

Esta “guerra” é difícil porque o “inimigo” não se mostra, mas está cá; dá-nos uma falsa sensação de segurança, que por ser falsa é perigosa; leva-nos a pensar mais nos bens materiais que estão em risco do que na vida que se pode perder num momento. E, sejamos francos, já não nos choca o número obsceno de mortos que a televisão nos atira à cara diariamente, cada vez maior, como se fosse banal tombarem a cada dia 250 pessoas ou mais. Porque não nos dizem respeito? São números de um “filme” diário que ouvimos, mas não sentimos. Já não mexe connosco. Ao que chegamos!!! E esquecemos, ignoramos e, pior ainda, com a nossa falta de cuidado, desrespeitamos os profissionais/ de saúde que estão na frente de combate, cansados, esgotados física e psicologicamente, ao verem-se impotentes para conter a “colheita” que a morte faz à sua volta. Quantos não terão vontade de desistir?

Em 10 meses, esta “guerra” já nos levou tantas vidas como a guerra do Ultramar em 13 anos e “assobiamos para o lado”, governantes e governados, só sendo “acordados” quando tomba alguém que nos é próximo. 

É tempo de sermos responsáveis antes que os nossos filhos tenham de chorar o nosso “número” nas estatísticas de um dia destes … 

Não estamos satisfeitos com nada …

Ainda antes de eu nascer, houve um ano de seca em que quase não choveu. Nas fontes, ou corria um “fio de água” ou secaram. Até os poços, cuja captação é a alguma profundidade, estavam reduzidos a um nível muito baixo de água, insuficiente para as necessidades da população. A situação era grave, as pessoas andavam preocupadas e com receio que a água faltasse por completo. Ciente da preocupação popular e da necessidade de ajuda divina, o pároco da minha aldeia convocou os paroquianos a orarem em conjunto no domingo à tarde. Com a igreja cheia de gente movida pela fé e crença da intervenção divina, a cerimónia começou. Todos rezavam com fervor e devoção. Já a oração conjunta decorria há algum tempo, quando a trovoada se fez anunciar através de um trovão distante. Mas isso não fez com que pároco e fieis interrompessem a cerimónia e continuaram a rezar. Pouco a pouco o ribombar dos trovões foi-se aproximando e centrou-se sobre a igreja, fazendo-se acompanhar duma chuva torrencial. No entanto, o celebrante continuou a cerimónia sem vacilar, como que a agradecer essa dádiva de Deus. Dentro da igreja sentia-se que chovia muito e era grande a quantidade de água caída sobre o telhado do templo. As pessoas sentiam-se esmagadas pela resposta ao seu apelo. E, às tantas, a água começou a entrar pela porta, numa enxurrada mista de água e terra, invadindo a igreja. Quando se aperceberam que a água já estava no interior do templo, algumas pessoas entraram em alvoroço e outras desataram a gritar. Ao ver toda aquela agitação, o padre interrompeu a oração. Ao manter-se a agitação, fechou o livro de orações e disse: “Vamos embora. O povo já está farto de água …”

É normal que andemos meses a queixar-nos que não chove, que há falta de água, as albufeiras estão baixas e, quando a chuva vem, logo ao segundo dia é vulgar ouvir-se: “Já estou farto de chuva”. Dois dias antes resmungava-se por não chover e mal ela chega já se quer outra coisa? 

É por isso que se costuma dizer que “as pessoas nunca estão satisfeitas com nada”. E é verdade. Somos um ser “defeituoso”, pois temos uma insatisfação permanente. Queremos sempre o que não temos. Essa insatisfação já a manifestava António Variações numa das suas canções, ao dizer: “… porque eu só estou bem, aonde eu não estou, porque eu só quero ir, aonde eu não vou” … 

É normal ter-se ambição, querer ir mais longe, mais além. Mas se achamos que a felicidade só está naquilo que não temos, algo está errado. É como correr atrás do arco-íris para o agarrar. As pessoas se têm pouco querem muito, se têm muito, querem muito mais e se têm muito mais, “têm a lata” de dizer que desejam ser felizes com pouco. Só que não dão um passo nesse sentido, para ficarem mesmo com o “pouco” … É que custa muito libertarem-se dos “teres e haveres”, num desprendimento dos bens materiais. E depois? Começariam tudo de novo a partir do zero? 

Para além de sermos seres insatisfeitos, também não damos valor ao que temos, a tudo aquilo de que usufruímos. Nem sequer percebemos quanto somos privilegiados em milhentas pequenas e grandes coisas que não valorizamos nada, mas a que milhões de pessoas gostariam de ter acesso e não têm. Ao abrir a torneira de água e poder escolher entre fria e quente, com muita ou pouca pressão, estou agradecido. Ao carregar no interruptor elétrico e fazer acender a lâmpada, estou agradecido. Ao ter uma casa onde me abrigar com a família, mais ou menos equipada, bem ou mal decorada, climatizada ou não, tenho de estar agradecido e feliz pela localização. Há melhor? Oh se há, mas não é isso que me deve fazer lamentar porque tenho quanto baste. 

Um homem que queria vender uma propriedade ao andar pela rua encontrou o poeta Olavo Bilac seu conhecido. E perguntou ao poeta: “Poeta, eu quero vender a minha propriedade que o senhor conhece tão bem. O senhor poderia redigir um anúncio de venda para eu pôr no jornal”? O poeta pegou em papel, lápis e escreveu: “Vende-se uma propriedade encantadora onde, num extenso arvoredo, cantam os pássaros ao amanhecer. É cortada por águas límpidas e cristalinas de um belo ribeiro. A casa nela existente é banhada pelo sol nascente e oferece as sombras tranquilas das tardes nas varandas”. Passados uns dias o poeta encontrou-se com o homem e perguntou-lhe: “Então, já vendeu a propriedade? E ele respondeu: “Nem pensei mais nisso. Depois de ver o anúncio que você escreveu é que eu vi a maravilha que tenho”.

Ao tomar conhecimento deste caso com o poeta Olavo Bilac, lembrei-me de uma viagem que fiz ao Brasil, tendo passado alguns dias numa fazenda em pleno Pantanal atravessada por um riacho sinuoso, onde se passeiam onças, jacarés e muitos outros animais e aves selvagens, além de poder andar de barco ou a cavalo. Para quem gosta de estar de bem com a natureza é algo espetacular. O dono da fazenda morava numa cidade próxima e, com a família, ia-se revezando na assistência aos clientes como nós. Numa das conversas contava ele que um dia contou a uma cliente oriental estar a pensar vender a propriedade. Então ela perguntou-lhe: “O que vai fazer com o dinheiro da venda”? E ele respondeu-lhe: “Vou comprar um paraíso qualquer para passar o resto dos meus dias”. E ela, sem rodeios, disse-lhe o que ele nunca ouvira: “Se o senhor já tem aqui um paraíso incrível, praticamente virgem, vai largá-lo de mão e procurar outro que não sabe se algum dia vai encontrar? Você não precisa de procurar o que já tem” … 

Assim é na vida. Não deixemos que seja necessário vir alguém de fora para valorizar o que nós não conseguimos ver, para admirar o que já não nos satisfaz e só porque queremos outra coisa. Sintamos a beleza da vida porque estamos dentro dela. E teremos sempre a escolha por viver com dificuldades, sem dificuldades e apesar das dificuldades. Mas viver, valorizando sempre tudo o que temos, muito ou pouco … 

E a pandemia fez ver, a quem quer ver, o muito que tínhamos, mas que achávamos não ser suficientemente bom. E se era …

Atenção aos erros de comunicação …

É através da comunicação que os homens e os animais, trocam informações entre si, quer seja por gestos, sons, linguagem corporal, verbal ou outros códigos. E as falhas ou erros, tanto na transmissão como na interpretação dessas informações podem ocasionar muitos problemas, pequenos ou grandes, podendo mesmo ficar fora de controle ou até serem irreversíveis. Não deixa de ser verdade que “a culpa costuma morrer solteira” porque os culpados arranjam quase sempre forma de “encontrar um bode expiatório”, embora os erros de comunicação possam acontecer com qualquer um de nós por mero acaso, falta de rigor na comunicação, por se falar muito do que não importa e retardar a informação essencial por receio ou medo. Sem consequências significativas, ainda há poucos dias fiz compras num comércio e, ao pagar, tinha de receber de troco 34,50 euros. Como ainda tinha a carteira aberta, pedi à senhora para me entregar as notas (30,00 €) com a intenção de as arrumar logo, pois as moedas costumo guardá-las no bolso das calças. E ela assim fez. Enquanto as colocava na carteira, ela agradeceu-me e enfiou os 4,50 euros em moedas numa caixa decorada para brindes de Natal. Não tendo sido essa a intensão pois nem reparara na caixa de ofertas, percebi o erro, mas não o desfiz, até porque a culpa fora minha ao não a informar bem da minha intenção e nem o montante em causa era significativo. Mas o não entendimento sobre prescrições e conselhos médicos pode levar a problemas de saúde mais ou menos graves, conforme o caso.

Um dentista procurava orientar os pacientes sobre os cuidados a ter para evitar hemorragia após a extração de dente. Entre outros, havia um conselho que recomendava sempre: “nada de café quente na boca”. Qual não foi a surpresa quando um dos seus pacientes apareceu no dia seguinte à extração com a boca toda inchada. Quando lhe perguntou o que aconteceu, ele respondeu que não sabia pois tinha feito tudo direitinho como o doutor mandara: “tomei café quente e fui nadar” …

A falta de clareza, com rodeios, não objetiva e não indo ao centro da questão, pode acontecer porque há pessoas a acharem que os outros têm de entender e adivinhar o que elas pensam, dando-lhes códigos de informação nem sempre fáceis, como foi o caso duma mulher num restaurante. Depois de ver a ementa, pediu uma sopa. O empregado serviu-a e afastou-se um pouco. Mas ela chamou-o logo: “Pode provar a sopa”? O rapaz perguntou se estava alguma coisa mal e ela insistiu: “Pode provar a sopa”? Então, imaginando que a sopa estivesse fria, ele pediu desculpa e disse-lhe que trazia uma sopa quente. Mas ela não desarmou: “Pode provar a sopa”? Já farto desta conversa, o rapaz questionou-a: “Se a sopa não está ruim, nem fria, qual é o problema? E ela continuou: “Pode provar a sopa”? Com tanta insistência da parte da cliente, ele sentou-se, puxou o prato para si e procurou a colher para a provar. Não havia colher. E então ela completou a informação: “Já viu qual é o meu problema com a sopa? A falta da colher. Sem ela, não consigo comê-la”!!!

Mas muitas vezes tiramos conclusões precipitadas antes de conhecer a informação completa e podemos arranjar uma confusão danada:  

“Num determinado país foi criado um programa de incentivo à natalidade, pois o número de habitantes estava a cair muito e a proporção de idosos crescia assustadoramente. Necessitando de mão-de-obra, o governo decretou uma lei que obrigava os casais a ter

um certo número de filhos. A lei dava também a tolerância de cinco anos após o casamento, ao fim dos quais o casal deveria ter pelo menos um pimpolho. Aos casais que nesse prazo não tivessem um único filho, o governo destacaria um agente auxiliar para que a criança fosse gerada. Neste cenário deu-se o seguinte diálogo entre um casal:                                                                                                                   

“Ela disse-lhe: – Querido, completamos hoje cinco anos de casamento. E ele: – É … querida e … infelizmente não tivemos um filho sequer. E a mulher continuou: – Será que eles vão mandar o tal agente? Mas ele respondeu: – Não sei … talvez mandem! Nervosa, ela insistiu: – E se ele vier? Ouviu-o num desabafo: -Bom, eu não posso fazer nada. Ao que ela adiantou: – E eu, menos ainda … Já à porta, ele disse: – Tenho de sair pois estou atrasado para o trabalho.

Logo após a saída do marido, bateram à porta: TOC, TOC, TOC!!!! A mulher abriu e encontrou um homem com boa aparência à espera

(Tratava-se de um fotógrafo que saíra para atender a chamada de uma família que queria fotografar a sua criança recém-nascida, mas que, por erro, se enganara no endereço). E aconteceu esta conversa:

HOMEM: Muito bom dia! Não sei se sabe, mas eu sou…

MULHER: Ah, já sei! Faça o favor de entrar.

HOMEM: Obrigado. O seu marido está em casa?

MULHER: Não. Já foi trabalhar.

HOMEM: Presumo que esteja a par da minha vinda aqui?!…

MULHER: Sim e o meu marido também sabe de tudo. E eu concordo.

HOMEM: Ótimo. Então, vamos começar.

MULHER: Mas já? Tão rápido!!!

HOMEM: Preciso de me despachar, pois hoje ainda tenho de visitar mais 16 casas.

MULHER: Minha nossa! E o senhor aguenta?

HOMEM: O segredo é gostar do meu trabalho. Dá-me muito prazer!

MULHER: Então, vamos lá começar. Como faremos e onde prefere?

HOMEM: Permita-me sugerir: – Uma no quarto, duas no tapete, duas no sofá e, uma em pé ao lado da mesinha do telefone.

MULHER: Puxa, serão necessárias assim tantas?

HOMEM: Bem, talvez possamos acertar na mosca logo à primeira tentativa.

MULHER: O senhor já visitou alguma casa neste bairro?

HOMEM: – Não, mas tenho comigo várias amostras do meu trabalho e… (mostrou algumas fotos de crianças). – Não são lindas??

MULHER: Como são belos os bebés! Foi o senhor mesmo quem fez?

HOMEM: Sim. Veja esta. Foi conseguida à porta do supermercado.

MULHER: Que horror! O senhor não acha que é muito público?

HOMEM: Sim, mas a mãe queria ter uma grande publicidade.

MULHER: Eu não teria coragem para isso!!!

HOMEM: Já esta aqui foi efetuada em cima de um autocarro.

MULHER: Cacilda. Minha nossa!!! De um autocarro?

HOMEM: Foi um dos serviços mais difíceis que eu fiz na vida.

MULHER: Claro, eu imagino!!!

HOMEM: Esta foi feita no inverno, num Parque de Diversões.

MULHER: Credo! Como foi que o senhor conseguiu? Não sentiu frio?

HOMEM:  Não foi fácil! Como se não bastasse a neve a cair, tinha uma enorme multidão à volta. Quase não consegui acabar …

MULHER: Oh, não. Eu sou discreta e não quero ninguém a olhar-nos.

HOMEM: Ótimo, eu também prefiro assim. Agora, se me der licença, preciso armar o tripé. 

MULHER: TRIPÉ?!!!

HOMEM: Sim, minha senhora, pois o negócio, além de pesado, depois de armado mede quase um metro.

E a Mulher …  desmaiou.