Quem não tiver muito tempo para ir ao cinema ou para de outro modo ver filmes, vê-se forçado a escolher bem os que vê, para que não seja desperdiçado esse seu precioso tempo. No meu caso, várias pessoas já me tinham recomendado o filme “O Som da Liberdade”,
que apresenta “a incrível história verídica de um antigo agente do governo transformado em vigilante que embarca numa perigosa missão para salvar centenas de crianças dos traficantes”, revela a sinopse oficial. Por acaso, percebi a tempo que ia ser transmitido num canal televisivo e não perdi a oportunidade de o ver. Valeu a pena. Depois de ver esse filme, só posso dizer que foi uma ótima escolha e que não posso deixar de também o recomendar, pois a ação de Tim Ballard, que resgatou desse tráfico um grande número de crianças com toda a sua envolvência, é extraordinária. Esta obra desencadeou debates acesos nos Estados Unidos, dividiu opiniões e reacendeu o conflito cultural entre diferentes sectores da sociedade americana. E criou polémicas associadas ao filme: a tentativa, vinda de uma fação política, de o instrumentalizar para alimentar uma teoria da conspiração sobre a cumplicidade de políticos nesse tráfico e, vindos de uma fação política oposta a essa, o boicote e a oposição como reação à eventualidade desse aproveitamento; a recusa da sua distribuição pelas maiores empresas do ramo; a mobilização popular como reação a essa recusa que se tem traduzido num grande êxito de bilheteira. Mas, sem preconceitos políticos e abstraindo de todas as polémicas, o conteúdo, a mensagem e a qualidade do filme podem, e devem, ser apreciados, porque são muito valiosos.
O horror da exploração sexual de crianças não é uma novidade. São simplesmente irreproduzíveis, neste e em muitos outros contextos, as descrições de pornografia infantil que constam de notícias e de processos judiciais. Este filme também nos faz supor claramente esse horror, mas de forma decorosa e sensível e sem nunca o explorar com fins mórbidos. No meio desse horror, o filme retrata a beleza da inocência das crianças vítimas deste crime e a beleza dos laços que as ligam às suas famílias, de paternidade e de fraternidade. Descreve com forte carga emotiva a dor de pais e filhos, a dor da separação entre eles, simbolizada num quarto vazio. Reflete a dignidade dos pobres que são também essas vítimas.
Também com forte carga emotiva, apela a que cada pessoa, cada pai ou mãe, sinta cada uma dessas crianças como se fosse seu filho ou filha. E cada uma delas, como cada filho ou filha, é um bem precioso, único e irrepetível. Por causa de cada uma delas, que poderia ser nosso filho ou filha, vale a pena deixar o conforto de uma vida tranquila e até arriscar a vida, como fez o protagonista da história.
De um modo muito discreto, pode ser colhida uma inspiração cristã neste filme, que reflete a fé dos seus produtores e atores principais: numa alusão às severas palavras do Evangelho sobre o escândalo dos pequeninos, na referência à intervenção de Deus na conversão de um criminoso num momento de desespero, na frase que sintetiza a motivação do combate a este crime: «os filhos de Deus não estão à venda».
A mensagem central deste filme é a importância e urgência de um combate sério a este crime, que, sem exagero, pode ser equiparado à escravatura. Numa altura em que muitos querem sublinhar os danos causados no passado pela escravatura, muitos também ignoram ou esquecem esta escravatura bem atual. No final do filme afirma-se até que o número de vítimas atuais desta forma de escravatura excede o das vítimas da escravatura no passado, quando ela era legal e é muito maior do que em qualquer outra época da história. E recorda-se o poder que têm os “contadores de histórias” para despertar as consciências, como sucedeu com o célebre livro A Cabana do Pai Tomás e a influência que teve como contributo para a abolição da escravatura nos Estados Unidos. É algo de semelhante que pretende este filme, no que se refere ao combate ao crime de tráfico para exploração sexual de crianças e adolescentes. Deus queira que possa ter um grande êxito nesse sentido, para além dos êxitos de bilheteira. Os responsáveis e protagonistas do filme tudo fizeram para trazê-lo às salas de cinema depois de concluído e só o conseguiram após mais de três anos de bloqueios. Mas conseguiram que chegasse ao público, a todos nós, como mensagem que deve passar de boca em boca, porque a dimensão da missão exige que cada um faça a sua parte …