Category Archives: Uncategorized

Gases com som e odor. Só falta a cor…

Pré-aviso: se é sensível a gases mal cheirosos, que é o mesmo que falar de flatulência, pare de ler e mude de página. É que este é um artigo de m. (para quem ainda não sabe, o m. é a forma recatada de dizer merda). Vire para as páginas da política ou do futebol, embora não seja garantido que o cheiro seja melhor …

Gosto de caminhar e faço-o por prazer, sem me sentir obrigado pelos benefícios que traz à saúde física e mental. E hoje, ao fazer o caminho do costume, dei comigo a observar-me e a sentir um alívio da pressão intestinal pela saída de gases através do “tubo de escape”, ao mexer o corpo à medida que caminhava. É que, como cada um de nós, carrego dia e noite uma “fossa séptica e uma rede de esgotos” de que não me consigo separar, nem a dormir. Assim, todos os homens ou mulheres, ricos ou pobres, feios e bonitos, pretos e brancos, altos e baixos, não conseguem fugir e cada um transporta a sua fossa para todo o lado, onde processa os alimentos que come, com muito ar à mistura, além de produzir outros gases através do metabolismo bacteriano desses alimentos no intestino. É por essa razão que temos necessidade de “largar umas farpas” diariamente, para aliviar a “pressão na tripa”. Faz parte da natureza humana e do animal que não deixamos de ser. Os “puns”, popularmente chamados de “peidos”, “farpas”, “traques”, “ameixas”, “bombas”, “tiros” e outros nomes mais ou menos ousados, são a “manifestação pública” do estado do nosso corpo. E, embora não sejam tidos por convenientes, são normais e necessários, um sinal do bom funcionamento do nosso organismo. 

Consideram os entendidos que cada pessoa dá em média vinte “disparos” por dia. Por isso, não se sinta mal e “dispare” também. É natural. Sabemos que é um tabu e a sociedade reprime aqueles que “soltam o escape” e deixam sair livremente os gases. Não é bonito e as mais elementares regras de educação mandam conter o “aperto” e fazer com que se dissipe no interior do intestino ou sorrateiramente se escape sem ruido e, se possível, sem odor. Por isso, na caminhada estamos à vontade para soltar o “foguetório” livremente, sem ter de olhar para o lado. Somos livres para nos vermos livres do “ar a mais”.

No Malawi, o parlamento criminalizou as manifestações públicas de flatulência através do “traque”, com o argumento de que “o governo tem a obrigação de garantir a decência pública e introduzir ordem no país”, tendo “as pessoas de controlar a natureza. Foi um hábito que só apareceu com a democracia, quando sentiram que podiam libertar gases em qualquer lugar”. Será que noutro regime não se podiam “peidar”? Assim, a flatulência virou ilegalidade e passou a ser crime. Só se pratica na “clandestinidade” … Vá lá. Aqui ainda não é crime!!!

Para quem é mais velho e tem algumas complicações, a produção de gases é maior e a dificuldade de “contenção” um problema acrescido. Um homem que sofria de flatulência e tinha de a “descarregar” com frequência, teve de fazer uma viagem de comboio. Para se precaver, escolheu uma carruagem vazia. No entanto, já com o comboio em andamento, entrou outro passageiro, que o deixou preocupado. Foi a medo que, quando lhe chegou a vontade, deixou escapar um “traque” silencioso e depois um outro em “tom baixo”. Como o tal passageiro não reagiu, ele apercebeu-se que devia ser surdo. Assim, à vontade, foi dando liberdade aos gases, contendo-se na intensidade sonora sem que o companheiro de viagem reagisse. Às tantas, o “traque” saiu qual “tiro de canhão”. O passageiro estremeceu e perguntou: “O que foi isto”? O autor do “morteiro” levantou-se de imediato, foi até à janela para disfarçar e respondeu: “Há trovoada. Foi um raio”. Muito intrigado, o passageiro levantou a cabeça, fez sinal de quem estava a cheirar o ar e retorquiu: “Então, deve ter caído em m. …

Se alguma universidade fizesse um estudo sobre os “peidos”, dividia-os em várias categorias e classes, a começar pelos “p. silenciosos” e os “p. sonoros”. Nos “p. silenciosos” consideram-se os “p. clandestinos”, de que ninguém se apercebe por saírem “à socapa” e sem qualquer odor para dizer “estou aqui” e os “p. anónimos”, também largados sub-repticiamente, sem aviso prévio, mas que descobrimos estarem à nossa volta pelo cheiro que nos invade o nariz. Nos “p. sonoros” há uma variedade maior. Começando pelos “p. musicais” que, conforme o maior ou menor aperto da “boca de saída” e do grau de intensidade na pressão interior do ar, podem ser mais agudos – daí os toques a “flauta” ou “clarinete” – ou mais graves, podendo ir do “saxofone”, ao “trombone” e à “tuba”, aquele som profundo que faz tremer a sala. Seguem-se depois os “p. militares”, que não passam de uma imitação barata do disparo de armas. O mais simples é o “p. tiro”, uma cópia do disparo de uma arma. Outro, é o “p. canhão”, fácil de reconhecer pelo estrondo. Além do “Bum” do “p. morteiro”, há o “p. metralhadora”, uma reprodução perfeita da rajada desta arma. Há ainda outros como os “motorizados”, pois o ruído que fazem quando “saem à rua” mais parece o de uma “moto” potente ou uma “motorizada” de 50cc …

Há ainda outros sem categoria definida, começando por aquele som que mais parece o “rasgar de calças”. Aliás, é a desculpa comum de quem deixa fugir um destes e é apanhado em flagrante. Agarra as calças pelo traseiro e, fingindo que se rasgaram, sai a correr da sala. Temos também o “p. fole”, aquele som que se assemelha ao soprar da forja e o “p. às prestações”, porque vai saindo aos bocados. Entre os “sentimentais” quero dar grande realce aos “sofredores”. Ao ouvi-los, sentimos o sofrimento e a dor, como quem está a parir … um “peido” doloroso. As lágrimas até ameaçam chegar-lhe aos olhos, se bem que os gases se escapam por outro “olho” …

Na disputa entre homens e mulheres para ver quem “fabrica” mais “gases”, ninguém pode dizer que ganha. Há um “empate técnico”. Uns e outros produzem o mesmo, embora as mulheres têm mais recato quando toca a pô-los cá fora. Aqui, devo fazer um ponto de ordem e recomendar que tenham cuidado com a utilização de qualquer chama quando está para se soltar um “traque”. É que, na sua composição há metano, esse gás poluente com elevado efeito de estufa e que é muito inflamável. Se a chama estiver na “saída do tubo de escape”, funciona como “lança chamas”, podendo o traseiro acabar tostado.

Lembro-me do Tónio acender um fósforo quando quis espreitar para dentro de uma fossa séptica. Tirou a tampa e ao meter o fósforo aceso dentro, incendiou o metano e deu-se uma explosão. Com o cabelo queimado, além da cara e pescoço, parecia saído da guerra. É o mesmo gás que a “fossa séptica” individual de cada um de nós produz …

Segundo o estudo de uma universidade inglesa, cheirar o sulfureto de hidrogénio, o gás que dá o cheiro a ovos podres nos “puns”, tem um efeito benéfico na nossa saúde, especialmente na prevenção de AVCs, artrite, doenças cardíacas e outras. A ser assim, em breve deveremos ver milhares de cabines espalhadas pelo país, alimentadas por gases de pessoas idosas. Ao comerem feijoada e dose reforçada de cebola, produzem gás suficiente para “inundar” as cabines onde o povo vai com regularidade cheirar os seus “puns”, em quinze sessões de vinte minutos, como quem vai à fisioterapia. E podem ir descansados para casa, porque não haverá AVC que lhes pegue. É um negócio de futuro … Será que a moda pega e vamos todos passar a cheirar os “traques” uns dos outros? Será que podem ser coloridos?  

“Estou contra. Mas quero ser um …”

Um velho amigo, dotado de uma filosofia muito própria, dizia-me que “por mais rico que fosse, a sua capacidade de comer estava sempre condicionada ao tamanho do seu estômago e não da conta bancária”. Queria ele dizer que não lhe adiantava ser muito rico, porque não era por isso que conseguia comer mais. E tinha razão. Com mais dinheiro come-se menos, mas paga-se mais. E alimenta-se muitos “comensais”. No entanto, assistimos a uma aceleração da concentração da riqueza de ano para ano e nada a parece travar. Os sistemas políticos em vigor são incapazes de implementar medidas sérias para evitar que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, até porque não se entendem na tributação, são “manipuláveis” e acabam por concorrer entre si para captar capitais, concedendo-lhes mais e maiores facilidades. Veja-se o que acontece na União Europeia, onde a fiscalidade deveria ser igual para todos os países que dela fazem parte. No entanto, cada país aplica benefícios fiscais melhores que os seus companheiros de UE, para lhes “apanhar a clientela”. E, não satisfeitos com isso, até têm dentro das suas fronteiras paraísos fiscais onde não cobram qualquer imposto ou somente uma taxa ridícula. Em contrapartida, oferecem garantias de sigilo absoluto a todo aquele que pretenda ficar anónimo, protegido dos sistemas fiscais nacionais. Não há hipóteses! A economia vai ter sempre uma “saída de emergência” por onde os tubarões escapam ao fisco.

Vi as pequenas mercearias da minha infância serem “engolidas” pelas cadeias de supermercados, algumas feitas multinacionais de muitos milhões, que controlam o mercado da distribuição e esmagam bem os produtores. Vi as alfaiatarias de outrora virarem fábricas de confeção para depois passarem a depender de grandes empórios comerciais que nada fabricam, mas tudo vendem sob a capa de uma marca feita a peso de ouro. E pagando quando, como e o que querem, submetendo a legião de fabricantes que para si trabalha. Vi falirem bancos e deles nascerem golpistas milionários. Vi colapsar sistemas políticos que diziam defender as classes trabalhadoras e surgir “empresários” de ocasião que tomaram de assalto empresas estatais que se diziam “ao serviço do proletariado”. E fizeram-se novos ricos à pressa. E, tal como acontece no mar onde os tubarões “engolem” todos os peixes pequenos, em múltiplos setores de atividade as grandes empresas fizeram o mesmo. E “secaram” tudo à sua volta com base no poderio económico, na golpada, quando não no domínio sobre governos de países ditos soberanos. E assim foi acontecendo a concentração da riqueza, atingindo números absurdos. 

Quando lemos que no Brasil, cinco milionários têm tanta riqueza como mais de cem milhões de brasileiros, é sinal de que está muita coisa errada no país do “pica pau amarelo”. Mas pior está a nível mundial quando as estatísticas dizem que menos de trinta multimilionários têm tanto como 3,8 mil milhões de pessoas. Como é possível? Está tudo louco …

Após a crise, o crescimento económico foi parar ao bolso dos mais ricos. Houve mais concentração de riqueza e menos distribuição. O paradoxo é que nunca se produziu tanta riqueza e, ao mesmo tempo, nunca houve tantos pobres. E cada cidadão bem formado só pode estar contra esta aberração da sociedade que ajudamos a criar.

Perante esta realidade, a grande maioria das pessoas considera esta situação absurda e nem compreende como foi possível chegarmos lá, apesar dos políticos, de governos ditos democráticos, de reguladores e outros controladores que nada controlam. Somos todos do contra. É um escândalo mundial que ninguém devia ignorar, mas ignoramos.

Se calhar, apesar de não concordarmos por a riqueza estar tão mal distribuída (Francis Bacon durante o Renascimento, já dizia entre outras coisas, que …  “o dinheiro é como o adubo. Não é bom a não ser que seja espalhado …”), também não estamos muito preocupados com isso. Estamos nós empenhados em impedir que estes absurdos se tornem cada vez maiores ou, melhor ainda, vão diminuindo para números de razoabilidade e bom senso? Penso que não. Aliás, diria mesmo que a nossa preocupação é outra e isso pude observá-lo há alguns dias atrás. Ia a passar numa rua do Porto quando me deparei com uma longa fila de pessoas no passeio, à espera para entrarem numa determinada casa comercial. Como ia distraído, “feito parolo a olhar p’ró boneco”, não me apercebi do que se passava. Mas depressa percebi a razão daquela espera de pacientes para entrar na loja. E foi então que me veio à cabeça um pensamento revelador de que estava perante um contrassenso. É que, se perguntasse a todos as pessoas da fila se concordavam com a concentração de tanta riqueza em tão pouca população, de certeza que estariam radicalmente contra. Mas, todos eles estavam ali, naquela fila, para arriscar uns “euritos” com a esperança de que o “Jackpot” de mais de 160 milhões de euros desse prémio especial do “Euromilhões” pudesse vir a engordar a sua conta bancária e fazer deles mais um dos “nababos” que agora criticam, mas que, lá bem no fundo, anseiam ser. E alguém acredita que se essa “pipa de massa” saísse a qualquer um deles, iria ficar somente com o aceitável para ser remediado e distribuía o resto do bolo irmãmente entre os familiares e amigos, instituições sociais e humanitárias? Balelas. Basta vê-los quando sai um prémio taludo. O dinheiro faz com que briguem homens, mulheres, noivos e namorados. Escondem a identidade para que se não saiba a quem saiu, pagam para guardar segredo e até vão diretamente a Lisboa movimentar o “cacau” para conta privativa. Assim, fogem aos pedidos de esmola, empréstimos ou doações, pois tudo é pouco para a ganância que há em cada um de nós. 

Bem vistas as coisas, todos queremos ser um desses acumuladores de riqueza, que quase sempre só criticamos. Por … inveja. Tudo o resto, é conversa …   

As cataratas que ninguém quer ver…

Nasci e cresci na aldeia e o mesmo é dizer no meio da natureza. Não seria a mesma pessoa se tivesse sido num meio urbano. Ficou-me a atração pela liberdade, pelos grandes espaços e belezas naturais que ainda pululam por este nosso mundo. Entre elas, estão as cataratas. Uma catarata, é uma queda de água de grande caudal, em cortina. Por regra, proporciona imagens espetaculares. Há mais de cinquenta anos tive a oportunidade de conhecer a segunda maior catarata de África. O acaso levou-me a fazer o estágio em Angola sobre a cultura do algodão e, depois de três meses em Luanda, fui “despachado” para Malanje, cidade onde se encontrava sediada a delegação do Instituto do Algodão para a Baixa de Cassanje. A partir dali, com um velho jeep Land Rover e um nativo que era “homem para todo o serviço”, desde cozinheiro a mecânico, lavador de roupa a guia, percorri extensas áreas dessa parte de Angola. Um dia o meu colega e amigo Zé lançou-me o desafio para irmos visitar as Quedas do Duque de Bragança – já batizadas após a independência de Angola de Quedas de Kalandula – e que ficavam a oitenta quilómetros de Malanje. Aceitei e de repente vi-me a grande velocidade numa “picada” (estrada em terra batida) ladeada de capim com dois metros de altura, como que voando num túnel e sujeitos a ver surgir um carro em sentido contrário e no mesmo trilho único. Mas não aconteceu nada. Minto. Aconteceu que descobri então uma imponente catarata com mais de quatrocentos metros de comprimento e cem de altura, num cenário selvagem fantástico, com imagens de uma beleza que só lá, e naquele estado virgem, se podiam encontrar. Foi o meu primeiro êxtase perante uma “queda de água”, uma obra prima da natureza.

Já neste século, devo ter feito as minhas duas últimas grandes viagens com os dois filhos, ambas aos Estados Unidos. E tinha consciência que assim seria. Por isso, quis aproveitar esses momentos, ainda antes deles “levantarem voo” e passarem a voar na companhia de outras “aves”. 

Numa dessas aventuras, quando estávamos em Nova Iorque, decidimos ir conhecer talvez as mais célebres cataratas do mundo, que ficam na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá e que são conhecidas por Cataratas do Niagara, no rio com o mesmo nome. Metemo-nos numa dessas viagens turísticas, um misto de avião e autocarro e, na realidade, valeu bem a pena. Tudo o que se possa dizer sobre essa maravilha da natureza é pouco, apesar de hoje estar “metida” entre dois núcleos urbanos que se desenvolveram à custa do turismo que tal atração gera. É que são “só” vinte milhões de turistas ao ano que por ali passam … E é preciso dar-lhes guarida, comida e todos os bens de consumo de que tal gente se alimenta, incluindo “recordações para a família”. Nos seus sessenta metros de altura e mais de mil e cem metros de comprimento nos dois países, não se pode ficar indiferente a essa obra prima da natureza. Como diz a publicidade, é uma das mais belas do mundo.

Um feliz desafio efetuado por um casal amigo também me levou a outro local onde as imensas massas de água e o terreno montanhoso do país fizeram com que ali existam muitas, grandes e belas quedas de água. Todos os rios da Islândia recebem água a partir de enormes glaciares e do clima atlântico que gera grandes quantidades de chuva e neve. A Islândia é um dos mais belos países do mundo para se ver quedas de água. E há muitas. Mas tem de se ir preparado para fazer longas caminhadas pois, nalguns casos, o carro não chega perto. E são indispensáveis agasalhos e mais agasalhos, porque faz frio a sério, muito especialmente quando o vento polar sopra com intensidade e nos trespassa os ossos …

Mais recentemente, ainda na companhia do mesmo casal amigo, tive a felicidade de me deixar maravilhar por aquela que se tornou para mim a catarata das cataratas. Fica no rio Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e a Argentina. A sua beleza ainda é mais extraordinária porque as Cataratas estão integradas em dois Parques Nacionais, o brasileiro e o argentino, com uma dimensão enorme, numa demonstração séria de como proteger a natureza e a sua joia. Só lá se toma verdadeira consciência da sua dimensão, em tamanho e beleza. Por isso, os dois Parques Nacionais foram classificados de Património da Humanidade e o do Brasil escolhido como uma das sete maravilhas do mundo. Para termos noção da sua grandiosidade, trata-se de um conjunto de 275 quedas de água com o comprimento total de 2,7 quilómetros, encastradas na mata atlântica. Um assombro. O ponto alto desse conjunto é a chamada “Garganta do Diabo”, em forma de U, onde o visitante se sente no meio de uma enorme catarata com água a jorrar por todos os lados.

Mas, se adoro ver cataratas como estas que tive o privilégio de visitar e conhecer, cada uma com a sua beleza natural própria, há outras de que não gosto mesmo nada e “nem pintadas” as gostava de ver, muito menos nos meus olhos. Fazem com que a paisagem não tenha beleza, as letras não façam sentido, as pessoas tenham um rosto difuso. Pões óculos, tiras óculos, limpas as lentes para ver se o problema acaba, mas a “neblina” continua e vês tudo enevoado. Não adianta esfregar os olhos. Estás acordado, não é esse o problema. Piscas os olhos para ver se a imagem regressa ao normal, mas ela continua nublada, quase como se estivesses atrás de uma fina cortina de tule. Até que vamos ao oftalmologista e, depois de nos espreitar a alma através dos olhos, descobre algo e dá a sentença: “Você tem cataratas”. E, quando algum vos disser isto, não vale a pena sonhar com o que vos contei lá atrás, porque não vão precisar de viajar para chegar a elas, porque “elas” estão em vós, nos vossos olhos. É o cristalino, essa lente natural do olho, que ficou turvo. “Deu o berro”. E o cirurgião pode retirá-lo e substitui-lo por uma lente artificial, para regressar à normalidade.

Eu já esfreguei os olhos quanto baste, mas não passou. Nem passará. Já não tenho mais alibi para adiar o inadiável, se quero voltar a ver com nitidez as verdadeiras cataratas … E quero.      

Vozes de burro não chegam ao céu…

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixe de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (…)”. Foram palavras de Guerra Junqueiro no ano distante de 1896, mas tão atuais, incluindo para o que aqui me traz.

Para quem não sabe, um provérbio é um dito de tradição popular que resume um conceito ou uma norma social. É curto, de autor anónimo e baseia-se no senso comum ou no conhecimento empírico. Por uma questão de princípio, devo confessar que gosto muito de provérbios e até comecei a fazer uma recolha há muitos anos. Esse rol dorme entre a anarquia dos meus papeis. Por isso escrevo, não só na condição de “fã incondicional” dos ditados e frases populares, mas também pelo respeito da tradição que passou de geração em geração e faz parte da cultura do povo que somos. E ainda como defensor dos direitos dos animais, se bem que já se estarão a perguntar “o que é que a cara tem a ver com a careta”. Mas tem. Já lá irei.

O PAN, partido dos animais, aderiu à campanha da PETA, organização com sede nos Estados Unidos, para alterar expressões que “reforcem comportamentos negativos contra os animais”, entre as quais alguns provérbios. Tiveram o desplante de propor “alternativas” para meia dúzia deles, quando ali “não vejo mata de onde saia coelho”. 

Sugerem que o ditado popular “matar dois coelhos de uma só cajada” deva ser alterado para “pregar dois pregos de uma só martelada” e ainda que “pegar o touro pelos cornos” deva ser substituído por “pegar uma flor pelos espinhos”. Diria o povo que é preciso ter cá uma “cabeçorra” !!! É que não é qualquer um que tem “inteligência” suficiente para tão arrojadas propostas. Trocar o “touro” por uma “flor”, é “genial. Será que perguntaram aos coelhos e aos touros se se sentem ofendidos por se verem nomeados na frase de um conceito? E mudar “cajada” para “martelada” – e cada um dá-lhe o sentido que quer – deu muito que pensar. Esta deve ter sido muito difícil …

Muita imprensa classificou este “devaneio absurdo” de autêntica “palhaçada”. Será que um deputado da nação não tem mais que fazer?Não sei se estas ideias peregrinas lhe surgem enquanto dorme no parlamento “embalado” pelos discursos desenxabidos e maçudos dos seus pares ou para ganhar protagonismo (que não tem). Há uns anos atrás um “pseudo intelectual” da nossa praça também propôs que se alterasse a letra do Hino Nacional. Dizia esse “iluminado” que já não fazia sentido a expressão “contra os canhões, marchar, marchar”. Foi ignorado e bem. Agora, estamos perante novo “iluminado”, com lugar de responsabilidade no Parlamento ao ser eleito pelos portugueses como deputado. É mais um assalariado do povo português. Ora, como não consegue resolver questões centrais do seu programa eleitoral – acabar com o abandono e maus tratos a animais – entretém-se com estes devaneios de fanatismo ridículo. Aprendeu depressa o jogo da política ao falar do acessório e esquecer o essencial, por ser incapaz de o resolver. Um absurdo. E assumindo as posições da PETA como suas causas, fez dos provérbios e frases populares que atravessaram séculos e passaram de geração em geração, um alvo a abater. Melhor, a adulterar, tal como o outro intelectual o queria fazer com o Hino Nacional. Devo ser “burro” – e espero que o digníssimo deputado não venha sugerir alterações à minha hipotética afirmação – pois não vejo no que as suas propostas possam ajudar a defesa dos direitos dos animais, se é nisso que está interessado.

A ser assim, se um “pato bravo” pode propor adulterar provérbios, porque não exerço eu também o meu direito de mudar alguns que já são “mais velhos do que a Sé de Braga”? Pode ser que a minha veia artística não lhe fique atrás, nem “no engenho nem na arte” e mais adiante, num próximo ato eleitoral, possa ser também candidato a um “tachito” na capital, com direito a dormir na hora do trabalho.

Considero desde já que o provérbio que serve de título a esta crónica deve sofrer uma pequena mudança para “Vozes de deputado não chegam ao Céu”, que é como quem diz, que ninguém está interessado nas suas propostas. Ou será mais adequado ser “vozes de burro…”? Afinal, voto pela manutenção do “burro”. Ajusta-se melhor à voz do proponente … Também, ao olhar para o ditado “pela boca morre o peixe”, acho que se pode substituir este pelo “político”, pois o que lhes sai da boca nem sempre lhes garante o futuro. Tal como “grão a grão, alguns (e todos sabemos quem) enchem o papo”.

Desde criança, sempre ouvi dos mais velhos variados provérbios que haviam aprendido com os mais velhos e assim sucessivamente, não se sabendo a idade de cada um deles. Mas, que são muito antigos, parece não existirem dúvidas. E, que se saiba, nenhum “inteligente” questionou de forma significativa o seu teor numa ótica de ofensa, estímulo à agressividade, ao mau comportamento ou ainda à boa saúde mental de quem quer que seja. Nomeadamente dos animais. Ou será que, afinal, quem está em causa são outros “animais”?

Provavelmente, também desistia…

Não fui, não sou, nem gostaria de ser professor, especialmente nos dias de hoje. Julgo que não teria paciência suficiente nem capacidade de encaixe. Por isso, admiro muito todos aqueles que se dedicam a essa nobre arte de ensinar, muitas vezes a quem nem sequer quer ser ensinado. E essa admiração é renovada sempre que ouço ou conheço testemunhos daquilo a que um professor está sujeito nos nossos dias. O jornalista e escritor Leonardo Haberkom era professor numa das universidades de Montevideu e escreveu um texto emotivo no seu blog pessoal, mas que um jornalista publicou e a internet fez chegar aos quatro cantos do mundo e que certamente tocou e toca muito a quem exerce a profissão de educador. Esse professor uruguaio atira a toalha ao chão e diz não poder mais com seus alunos e suas extensões tecnológicas, do twitter ao facebook. E que já não pode captar a sua atenção, nem alterar a sua profunda ignorância. Com o título “Me cansé … me rindo …”, declara o porquê de deixar o ensino, a profissão que antes o apaixonava. Diz ele:

“Depois de muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade. Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.

Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam, perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel, que não para de receber selfies. Claro que nem todos são assim. Mas, cada vez há mais.

Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante noventa minutos, ainda que fosse só para não serem mal educados, tinha algum efeito. Agora, não. Pode ser que seja eu que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal. Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem veem sentido em estar informadas.

Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só um estudante entre vinte conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto, não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (…) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à esquerda nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim! Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém!

Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel. Nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo, é complicado. É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revistas na rua.

Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho. E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados e a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles. Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta baixamos a guarda. E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim. O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula terminasse. Eu, também.”

Talvez o pior de tudo seja o facto daqueles alunos irem ser amanhã Adultos, sem terem crescido nem amadurecido, cheios de Direitos, sem Deveres nem Responsabilidades … alguns até Políticos ou Governantes …

Tinha escrito esta parte da crónica há uns dias atrás e acabei agora de a mostrar a uma jovem que estuda enfermagem. Depois de ler este desabafo, contou-me o que hoje mesmo se havia passado numa das aulas. O professor lecionava num auditório que não estava cheio e, em dado momento, enquanto ia debitando a matéria, saiu do lugar na tribuna e foi andando entre a plateia até parar junto de um aluno que nem se apercebeu da sua chegada, de tão concentrado no que estava a fazer. “Você já está agarrado ao telemóvel há mais de quarenta minutos”, começou ele na abordagem ao aluno. “Você não consegue, desligar-se, pois não? É muito importante estar a par do que se está a passar nas redes sociais”? O aluno não ficou atrapalhado, mas fez menção de desligar o telemóvel. O professor interveio: “Não desligue se não quiser. Não é isso que conta. Aliás, se preferir, tem ali a porta e pode ir lá para fora para ter mais privacidade”. E, voltando-se para a turma que os olhava em silêncio, continuou: “Vocês já alguma vez se interrogaram qual a razão porque querem tirar este curso? Já algum dia se perguntaram se a razão principal é por quererem cuidar de pessoas? Ou se, pelo contrário, é porque o pai ou a mãe querem que vocês tirem um curso, seja ele qual for? Mas é isso mesmo que vocês querem? Se pensam que eu fico preocupado, estão enganados. Tenho a minha vida organizada, atingi todos os objetivos a que me propus. Para isso, tive de trabalhar, tirar um curso, ser bom para poder tratar pessoas de carne e osso. Sinto-me realizado. 

E vocês? O que é que já alcançaram? Nada. Eu tinha de andar todos os dias cerca de uma hora de comboio e autocarro até chegar à universidade. Vocês, na maioria, vêm no carro que o papá vos deu e, se o destruírem, irão ter outro. Se calhar, melhor. Sem esforço, sem trabalho vosso. Será que vão acabar o curso? Talvez. Mas, será ele uma ferramenta de trabalho ou só um título para encaixilhar? É que, se pensam que saem daqui a saber o suficiente para exercer, estão enganados. Vai ser preciso trabalhar muito para se tornarem bons profissionais. O curso é uma ferramenta que os prepara para aprenderem. Mas precisam de ter a humildade e a força de vontade para o fazer. Aqui podem aprender mais ou menos conforme estejam disponíveis ou não e absorver o que vos ensinam. A escolha é vossa, entre isso ou atender prioritariamente ao que se passa nas redes sociais, como o vosso colega … e muitos outros”.

O silêncio foi a resposta. O mesmo silêncio a que nos remetemos tantas vezes enquanto pais, enquanto educadores … 

Heróis do meu dia a dia: Como se deve viver e morrer…

Quando morre um “Homem Bom”, todos perdem e o mundo fica mais pobre. Perde a família, perdem os amigos, perdem aqueles com quem se relaciona, perde a sociedade. Enfim, perdemos todos. Porque não é todos os dias que se encontra um “Homem Bom” (e com este título quero referir-me aos dois sexos para não ser acusado de descriminar a mulher). Rico ou pobre, um “Homem Bom” é raro, algo que quase já não se fabrica. Tem que conter em si um misto de genes da bondade e educação a condizer, respaldada pelo bom exemplo de vida dos pais, porque é fundamental. A principal característica que o “Homem Bom” transporta consigo é a de querer sempre o melhor para os que estão à sua volta, para estar de bem consigo. A bondade deriva do amor ao próximo. Daí a sua permanente preocupação com os outros, mesmo antes de se preocupar consigo. Por isso, nele esse egoísmo não existe porque dá prioridade às necessidades dos que o rodeiam. Diz o Salmo que “os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor … ainda que caia, não ficará prostrado” …

Paulo foi um jovem que não quis concluir o seu curso universitário e preferiu ir trabalhar com o pai, proprietário e principal responsável de uma empresa de média dimensão. Durante anos fez da empresa a sua escola para a vida e com o pai aprendeu tudo o que precisava aprender para o poder substituir no dia em que tomou a decisão de se reformar e entregar-lhe “o leme do barco”. Por isso, foi com toda a naturalidade que assumiu essa pesada responsabilidade, sendo que depressa ganhou o respeito e a amizade dos colaboradores. A sua juventude e dinamismo fizeram com que a empresa alargasse os seus horizontes a novos mercados, o seu humanismo fê-lo ganhar todo o respeito dos trabalhadores. 

Mas a globalização e a crise, associadas a perdas muito grandes com a falta de pagamento de clientes angolanos e espanhóis, arrastaram a sua empresa para a insolvência, apesar de todos os esforços para a salvar. E então, a sua maior preocupação passou a ser os trabalhadores, porque a empresa ficou sem meios para pagar os direitos que lhes eram devidos. Aí chegado, rejeitou a ideia de ficar a dever-lhes um cêntimo sequer. Podia fazer como a maioria faz nestas situações, escondendo os bens em nome de outros. Mas recusou-se e nem sequer deu ouvidos aos apelos de familiares e amigos para salvaguardar a casa e o carro. Não, tinha de cumprir com aqueles que o serviram e não podia ser de outra forma. Para isso, vendeu um a um todos os bens pessoais que tinha, desde a casa da família, o carro, terrenos (incluindo um onde projetava construir a nova residência), o mobiliário, a moto, as pratas e até as joias pessoais da mulher. Foi tudo. Só ficou a roupa de cada membro da família. Aos insistentes apelos de quem lhe era mais próximo disse sempre que não, com um argumento de peso: “Eu tenho capacidades e conhecimentos para me defender que a maioria das pessoas que trabalhava comigo não tem”. E aceitou, com naturalidade, ficar sem nada.

Recomeçou a vida do zero no Brasil por conta de um empresário que lhe prometeu salário e compensação pelos resultados. Mas viria a não cumprir. Regressou a Portugal para trabalhar, restabelecendo a vida profissional, económica e familiar baseado nos princípios que sempre o nortearam da retidão, verticalidade e preocupação pelo próximo. Mas o futuro nem sempre é justo para os justos. Quando tudo parecia voltar a sorrir, uma doença maligna atirou-o para as rotinas dos hospitais, sujeito a tratamentos intensos e agressivos, bem como aos avanços e recuos da doença. À quimioterapia, fez uma reação alérgica brutal que lhe deixou o corpo em ferida, num sofrimento horrível. Mas aceitou-o sem revolta nem desânimo. No final, só perguntou ao médico: “E agora? O que me resta”? Manteve a esperança intacta ou, pelo menos, soube transmitir essa esperança a familiares e amigos. Só quando quiseram extrair-lhe o tumor para lhe darem mais algum tempo de vida, recusou dizendo que, a partir daí, era uma questão de calendário, numa aceitação do fim sem queixas, apesar da violência das dores. Um ciclo duro, onde colheu alguns frutos do muito amor e generosidade que plantou na vida, ao ficar rodeado por familiares e amigos incondicionais que nunca o deixaram só. Até o patrão e amigo não deixou de lhe pagar o vencimento por inteiro ao longo de mais de dois anos, pela sua capacidade profissional e técnica, mas sobretudo, pela sua afabilidade e humanidade.

Sabendo que ia morrer a curto prazo, a sua preocupação foi sempre para a mulher, a filha e o irmão que padecia de doença semelhante, a ponto de comemorar com grande alegria a redução das metástases dele. O seu respeito pelos outros era tal que, quando o cunhado lhe fez uma adaptação para o sofá, sempre que ele estava presente tinha a preocupação de ficar ali sentado e só o abandonava já depois dele sair. Apesar daquela posição lhe ser muito mais dolorosa …

Nos últimos meses permaneceu na sua residência, mas quando sentiu que estava a ficar sem tempo, quis ir para o hospital para a sua filha não ficar com a imagem do pai a morrer em casa. Despediu-se da sua irmã, com quem tinha uma grande cumplicidade, com um “Obrigado por tudo. Um dia destes encontramo-nos outra vez” e pediu para lhe prometer “que à mulher e à filha não faltasse nada. E não falava de dinheiro”. Despediu-se daqueles de quem mais gostava, até pedir à irmã: “Por favor, não deixes vir mais ninguém, porque já não tenho força para mais despedidas”.

Mas a mais notável das suas ações, aquela que revela uma nobreza de caráter invulgar só acessível a alguns Homens, foi a vontade expressa de se despedir daqueles que o prejudicaram de uma ou outra forma, para lhes conceder o seu perdão. E fez questão de pedir ao padre celebrante para, na cerimónia do seu funeral, nessa hora de adeus, lhes dizer: “Àqueles de quem não me despedi, àqueles que me prejudicaram, às pessoas de quem a vida me afastou, eu quero dizer-lhes para não viverem mais com remorsos. Eu quero dizer-lhes que estão perdoadas. E não vale a pena viverem com ressentimentos, porque o que mais conta é o perdão. Que sejam muito felizes e não se deixem dominar pelas mágoas”. E ele sabia que estariam lá alguns … 

Em vida semeou amor e amizade, reunindo regularmente ao longo de anos com um grupo de familiares e amigos, para confraternizar. E a sua memória permanece viva nesse grupo, que continua a reunir com a mesma regularidade, a mesma alegria, o mesmo entusiasmo como ele gostaria que vivessem, tirando fotos que colocam no Facebook com uma dedicatória muito especial: “Para ti, Paulo” … 

Porque sabem que ele está lá para as receber …   

Obrigados a viver 100 anos… Ou mais…

Se a estatística estiver correta, os portugueses já vivem em média até aos oitenta anos. Aliás, para ser mais correto, as mulheres passam acima dos oitenta e três enquanto os homens ainda não chegam aos setenta e oito anos de idade. E todos sabemos as razões pelas quais elas duram mais do que nós … 

Isto quer dizer que, nos últimos vinte anos, os homens viram a sua esperança de vida aumentar em cerca de cinco anos, enquanto elas tiveram um acréscimo de quatro. Será caso para perguntar se vamos continuar a durar mais e mais, até passar a média dos cem anos, ou se daqui para a frente as melhorias vão ser mais lentas e reduzidas. A ver vamos, se cá estivermos. 

Mas apetece-me dizer que, por todas as razões e mais uma, temos a obrigação de chegar aos cem anos e até ultrapassá-los muito. Porque não cento e vinte ou cento e trinta já nesta geração? É que temos tudo para lá chegar: o conhecimento, a sabedoria, a informação, os técnicos de nutrição, os alimentos e a internet. E nem falo dos clínicos e todos os meios que estão ligados à medicina, cuja evolução das últimas décadas é uma das causas de sucesso no aumento da nossa esperança de vida.

Para se viver mais anos e melhor só é preciso ser dogmático e saber utilizar a informação que circula na internet. Porque lá, está tudo o que precisamos. Não é preciso mais nada. Basta seguir as instruções.Senão, vejamos: se não queremos sofrer de doenças cardiovasculares, que são das principais razões que nos passam a “guia de marcha”,  só temos de seguir à risca as “boas práticas alimentares” prescritas, comendo, pelo menos, duas vezes por semana peixe grelhado ou assado, feijão, aveia, tomate, beterraba crua ou cozinhada (apesar de odiada por muitos), meia cebola crua, três dentes de alho (reduz o colesterol mau e aumenta o bom), airelas vermelhas (uma baga que vem da Finlândia), abacate, banana, laranja, morango, kiwi e goiaba. O menu pode e deve contemplar um copo de vinho tinto ao almoço e outro ao jantar e uma pequena porção de chocolate negro para fazer a boca doce. Se formos bem comportados, nada de comer gorduras, açúcares, sal e de beber álcool (excluindo o copito de vinho tinto). E usando estes produtos com regularidade, vamos ter um coração mais forte do que o motor de um camião, a acreditar naquilo que dizem os “entendidos da net”. É difícil? Nada, mesmo nada …

Mas se o problema é o envelhecimento, a fórmula recomendada para o travar também passa pelo controle da boca, por forma a combater os chamados “radicais livres”. Por isso, se quer ficar por cá muitos e bons anos com cara de quem tem dezoito, há duas coisas que tem de se preocupar: não se deixe matar antes do tempo de forma estúpida debaixo dum automóvel e pratique um regime alimentar que o não deixe envelhecer. Assim, faça uma dieta “detox”, aquele preparado de chá verde, alcachofra, própolis, legumes, limão, fruta e verduras, tudo bem batido. Se não gostar do resultado e não for capaz de olhar para essa “mixórdia” nem sequer de cheirá-la, feche os olhos e engula, se não quer envelhecer. Além do “detox” deve comer abóbora, cenoura, batata doce, germe de trigo, mamão, laranja, limão, castanhas, açaí, maçã, pera, uvas, morangos, nozes e amêndoas. É capaz de cumprir estas indicações tão “simples” e “agradáveis”? Não sabe onde pode encontrar alguns destes produtos de nome estranho? A internet fornece-lhe todas as indicações para os conseguir. E vai ver que se o fizer a rigor, mantem-se jovem e fica com a pele lisinha e macia como de um bebé. Ou não acredita nas “verdades” da internet?

Como vê, é muito fácil (a acreditar no que nos dizem…) de impedir o envelhecimento e as doenças cardiovasculares. Mas já o ouço dizer: “E as outras doenças e males que nos limpam o sebo”? Tenha calma, pois também há soluções para tudo. Quer emagrecer? Deixe-me só procurar uns instantes e … cá está. Comece por comer brócolos crus ou em saladas. São excelentes para perder peso. Vá por mim. Até ouvi uma médica dizer que “é comida de gajas”, pois é habitual comerem para andarem “na linha”. Mas não basta. Nas carnes, vá pelo frango, peru e lombo de porco e nos peixes o salmão e outros peixes gordos. É que eles são gordos, mas não engordam. Têm Òmega-3. Grelhados, claro. Acompanhe com arroz castanho, sem o pintar, muitos legumes como repolho, cenoura, couve flor, além de aveia, cevada perolada, lentilhas, vinagre, grãos integrais e abóbora. Como sobremesa coma banana, maçã, pera, laranjas, abacate e acompanhe com um copito de vinho tinto, mas não abuse. Para fazer boca doce, chocolate negro, uma porção. E noutras ocasiões, use ovos, chá verde, chia e mirtilos. Se der resultado e ficar com o peso ideal, registe a receita e pode ganhar uns tostões na internet. Vá por mim… 

Pensando bem, o seu (e o meu) problema para não ultrapassar muito a barreira psicológica dos cem anos, é que não levamos a sério estas “bíblias da nutrição” de que a internet está bem “abastecida”. E falo por mim. Estou “condenado” a comer um “arroz de frango pica no chão”, um “cozido à portuguesa”, um “cabrito assado no forno” seja na Pitarisca ou mesmo em casa, uns “rojões” à nossa moda ou à moda do Minho e é melhor não continuar para não abrir mais o apetite – o seu e o meu. A verdade é que hoje temos demasiada informação, muitas vezes contraditória.

E, mais ainda. Quando nos dizem que este ou aquele produto é bom porque tem antioxidantes, não resolvemos nada se comermos “à fartazana”, pois a necessidade que temos deles pode ser mínima. E, se abusarmos, o mais certo é ficar de “caganeira”, pois o excesso não serve para nada. Devemos comer com peso, conta e medida, numa alimentação variada quanto rica, se queremos chegar lá. Mas não basta. É preciso muito mais do que isso … 

As (boas) recordações duma época…

Há sessenta anos atrás, fizesse chuva ou sol, ia da casa dos meus pais à vila de Lousada de bicicleta para frequentar as aulas no Colégio Eça de Queirós, um pequeno farol a brilhar no meio do deserto do ensino secundário de então. De tal forma que, para fazer exames do segundo, quinto e sétimo ano, tínhamos de ir … ao Liceu de Guimarães. Mas fui um felizardo porque a maioria dos meus colegas de escola primária não teve essa chance. Aliás, muitos deles nem sequer completaram o ensino primário. Outros tempos e muito mais dificuldades. 

No Eça de Queirós vivi boa parte dos primeiros anos da adolescência, alguns dos que mais marcaram a minha vida. Foi lá que desenvolvi o saber e o gosto pela matemática, disciplina que viria a ser muito importante em numerosos aspetos do meu futuro como homem e profissional. Também foi ali que encontrei o professor que mais me influenciou enquanto estudante. Apesar da sua licenciatura ser em medicina, o doutor Abílio soube conduzir-me pelo mundo infinito dos números. A ele devo muito mais do que o simples ensino da matéria para passar nos exames. Nunca cheguei a manifestar-lhe quanto lhe sou devedor. Lá vivi experiências e momentos inesquecíveis, tal como o torneio de futebol do Colégio que a minha turma ganhou, as sessões mágicas de hipnotismo do padre Jorge, o espetáculo de variedades organizado e ensaiado pela D. Palmira Meireles e levado a efeito na antiga sala de espetáculos dos Bombeiros de Lousada, a ida de carroça até Paredes para um jogo de futebol contra o Colégio local, os torneios internos de ténis de mesa e voleibol, a participação nos torneios de atletismo e tantos outros momentos. E fiz amigos para a vida ao longo desses anos de que guardo gratas recordações.

Como a casa dos meus pais ficava a mais de três quilómetros da Vila de Lousada, o meu pai comprou-me uma bicicleta “roda 26” (mais pequena que o normal, porque eu só tinha dez anos quando entrei no colégio) para me deslocar no dia a dia. Dessas viagens de bicicleta de casa para o colégio e de regresso a casa, guardo memória do perigo que representavam as curvas atrás do Hospital de Lousada. Passar por ali em dias de “neve” (termo pelo qual se designava o gelo na estrada), era um desafio arriscado, um perigo constante. Apesar de tomar sempre as cautelas necessárias, dei alguns “sopapos” naqueles “paralelos”, pois tão depressa estava sentado no selim da bicicleta como, de repente, estava estendido no chão. Uma manhã o Arnaldo estatelou-se à minha frente, apesar de estar confiante de que nada lhe aconteceria. Quando o vi estendido ao comprido na estrada, não consegui conter uma grande gargalhada porque o que “estava a ver”, era a “arrogância apeada do pedestal”. Um pouco antes de chegar ali, vinha-se a gabar que não havia “neve” que o deitasse ao chão. Mas não cheguei a acabar e tive de engolir o riso, pois vi-me “acampado” ao seu lado, com o rabo a congelar do frio dos “paralelos” da estrada. Quando recordo esse episódio, vem-me à cabeça o provérbio “não te rias do vizinho que o teu mal vem pelo caminho”. Nessas curvas atrás do hospital, onde o sol não chegava no inverno para derreter o gelo, este tornava o piso muito escorregadio, fazendo cair ciclistas como o Arnaldo e eu, despistar automóveis, patinar e cair pedestres por mais cautelas que tivessem. Num desses dias de geada, até a leiteira levou consigo na queda a bilha cheia de leite e a perna. Ambas ficaram em péssimo estado … Retive a imagem do leite derramado na estrada, se bem que “não vale a pena chorar” sobre ele …

Desse tempo, recordo as idas à festa da Santa Águeda, em Sousela, em romagem anual a que não podíamos faltar, além do pequeno/grande merendeiro improvisado com aquilo que cada um conseguia desviar de casa, fosse um salpicão, uma garrafa de vinho ou algum pedaço de broa, para comermos em grupo, acantonados na encosta sobranceira à capela. E se o convívio e animação eram motivo mais que suficiente para ir àquela romaria, petiscar e beber alguma coisa era o perfeito complemento. Porque nesses tempos de “cinto apertado”, qualquer patuscada que incluísse “comes e bebes” só por si era uma benesse. 

E dei eu esta volta por esses tempos do colégio Eça de Queirós para recordar o meu primo Luís. Quando entrei para o primeiro ano ele ainda por lá andava e, confesso, já não sei dizer quantos anos ainda estivemos juntos. Saiu para a vida ativa muito antes de eu deixar o colégio, mas não se esqueceu dos companheiros que ali deixou. Foi trabalhar na Repartição de Finanças de Lousada e, de vez em quando, no final do trabalho ia ter connosco e desafiava três ou quatro de nós para o acompanhar. O local de destino era sempre o mesmo: a “loja do Meireles”, situada na rua de Santo António, ali a dois passos do estabelecimento escolar. Não era preciso perguntar ao que íamos pois sabíamos de antemão que ele mandaria servir duas ou três latas de atum com cebola picada e broa a acompanhar. Para “molhar a palavra”, um jarro de “remessa”, feita de vinho com cerveja e açúcar. Invariavelmente, o programa era este, em convívio muito animado. Ele tinha prazer em convidar amigos e pagar a despesa, não só por ser o único que já tinha salário, mas por um desprendimento natural e invulgar. 

Esses tempos, da chegada da televisão a Portugal, do Elvis Presley e do rock and roll, do Pelé e do Sputnik, o primeiro satélite lançado pelo homem a atingir a órbita ao redor da Terra, deixaram-me gratas recordações, imagens de uma adolescência distante onde os amigos ocupam lugar de destaque. E a amizade é sempre um bom motivo para celebrar a vida …

Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não…

Julgo que ninguém sabe ao certo qual foi o valor que os portugueses tiveram de pagar por dívidas que não eram suas, mas sim de bancos, banqueiros, vigaristas e ladrões, por decisão unilateral de políticos e burocratas. Dizem que já passa de dezassete mil milhões, embora os buracos que se vão descobrindo irão fazer com que ultrapasse em muito os vinte mil milhões de euros. Dinheiro que saiu e continua a sair do bolso de todos nós, através de múltiplos impostos silenciosos, em que os políticos são peritos. Mas há povos que resistiram a esse “assalto administrativo” e não aceitaram que os governantes se ajoelhassem perante os poderes, político e económico.

“No ano de 2011, pela segunda vez, a população disse não às ordens do Fundo Monetário Internacional (FMI). O FMI e a União Europeia tinham decidido que os 320.000 habitantes da Islândia deveriam assumir a bancarrota dos banqueiros e pagar todas as suas dívidas internacionais, que dava a base de doze mil euros por cabeça. Essa sociabilização pelo avesso foi rejeitada em dois plebiscitos. Diziam:

“Essa dívida não é nossa. Por que vamos pagar”? Num mundo cego e enlouquecido pela crise financeira, a pequena ilha perdida nas águas do Norte deu-nos, a todos nós, uma saudável lição de bom senso”.

No seu livro “Os filhos dos dias”, o escritor Eduardo Galeano”, nascido no Uruguai, dá-nos conta deste e de outros contrassensos que alguns políticos e dirigentes assumiram em nome do povo, mas que o povo rejeita liminarmente “quando é consultado”. Mas quase sempre não é ouvido, nem no seu sentimento nem nas suas aspirações. Alguém nos perguntou se queríamos pagar as dívidas que os banqueiros fizeram? Alguém nos questionou se deveríamos aderir à União Europeia? Ou ao euro? Como em tantas outras coisas, alguém decidiu por nós. Até acham que não temos “maturidade democrática” para tomar certas decisões e recusam ouvir-nos. Mas, às vezes, como dizia a letra da canção, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. E o povo toma a decisão nas suas mãos.

Ainda de Eduardo Galeano: “Há uns trezentos e sessenta milhões de anos, as plantas vêm produzindo sementes fecundas sem nunca receberem um tostão por esse favor que fazem a todos nós. Mas, em 1998, foi outorgada à empresa Delta and Pine a patente que santifica a produção e venda de sementes estéreis, que obrigam a comprar novas sementes a cada semeadura. E, em meados de 2006, a empresa Monsanto apoderou-se da Delta and Pine e também dessa patente. E assim, a Monsanto consolidou o seu poder universal. As sementes estéreis, chamadas de “sementes suicidas” e ainda de “sementes Terminator”, integram o muito lucrativo negócio que também obriga a comprar herbicidas, pesticidas e outros venenos da farmácia transgénica. Na Páscoa de 2010, poucos meses depois do terramoto, o Haiti recebeu um grande presente da Monsanto: sessenta mil sacos de sementes produzidas pela indústria química. Os camponeses juntaram-se para receber a oferenda e queimaram todos os sacos numa imensa fogueira”.

De vez em quando, vinga esta consciência coletiva do que é realmente importante para a sociedade e melhor serve o seu futuro, mesmo que os “rótulos” nos vendam o contrário. Neste caso, todos precisamos de perceber as consequências a longo prazo da utilização daquele tipo de sementes, que vêm eliminando as sementes naturais, fecundas e com capacidade de se multiplicarem. Ao seguir por esse caminho, colocamos todo o potencial reprodutivo das culturas importantes para a alimentação humana nas mãos de uma empresa monopolista, sem escrúpulos pelos reais interesses da humanidade, para quem o lucro é o objetivo sagrado. E só. Os camponeses do Haiti perceberam isso, como perceberam os de Valpaços quando se confrontaram com uma grande plantação de eucaliptos na sua região, falha de água e onde tal árvore é estranha e problemática. Sem medo, disseram não.  

A 31 de Março de 1989, o povo de Valpaços invadiu uma quinta no vale do Lila para arrancar 200 hectares de eucaliptos que a Soporcel tinha plantado na região. Quando o sino da aldeia tocou a rebate, oitocentas vozes entoavam juntas “oliveiras sim, eucaliptos não” e arrancaram à mão os eucaliptos plantados pouco antes, enquanto fugiam à ação da polícia que as tentava impedir. Hoje, o Ermeiro é terra de nogueiras, amendoeiras, oliveiras e pinho. E nunca ardeu …

E, tal como o povo de Valpaços não permitiu que os eucaliptos lhes invadissem e ocupassem a região, também os bolivianos souberam escolher entre a ilusão publicitária da “comida de plástico” e a sua cozinha tradicional, sem alardes, mas com sabedoria. E, mais uma vez, retiro do livro de Eduardo Galeano este registo “alimentar”: 

“Em 2002, fecharam as portas os oito restaurantes McDonalds na Bolívia. Apenas cinco anos demorou essa “missão civilizadora”. Ninguém a proibiu. Aconteceu simplesmente que os bolivianos lhes viraram as costas, ou melhor, se negaram a abrir-lhes a boca. Os “ingratos” negaram-se a reconhecer o gesto da empresa com mais êxito no planeta que, “desinteressadamente”, honrava o país com a sua presença. Os “anos de atraso”, impediram que a Bolívia se atualizasse com “comida de plástico” e os vertiginosos ritmos da vida moderna. As “empanadas caseiras” derrotaram o progresso. Os bolivianos continuaram a comer sem pressa, em lentas cerimónias, teimosamente apegados aos antigos sabores nascidos no fogão familiar. Foi-se embora, para nunca mais, a empresa que no mundo inteiro se dedica a “dar felicidade às crianças”, a mandar embora os trabalhadores que se sindicalizaram e a multiplicar os gordos”.

As democracias modernas, muitas vezes mais não são que regimes de milhentas pequenas ditaduras contra as quais nos devemos impor ao assumir uma cidadania plena, para as denunciar e dizer “Não”. Poder político e poder económico andam de braço dado e associam-se com demasiada frequência por “interesses comuns”, que nem sempre são os interesses dos cidadãos. A recusa dos islandeses em pagar a conta que não lhes pertencia, a consciência dos agricultores do Haiti de que a oferta daqueles sacos de sementes era “um presente envenenado”, a determinação do povo de Valpaços em não permitir que o poder económico, sob a capa de “investimento”, lhes ocupasse as terras com árvores invasoras e desajustadas à região e a escolha acertada dos bolivianos pela cozinha tradicional contra a “comida de plástico” como se fosse sinal de desenvolvimento (quando é de colonização), mais do que um sinal de esperança, são exemplos de determinação na defesa do que verdadeiramente interessa.    

Só que não passam de pequenos oásis no deserto da indiferença dos cidadãos de todo o mundo, incluindo o nosso … 

Escravos da tecnologia, perdemos o momento …

Noite de Natal. À roda daquela enorme mesa de madeira maciça, mais de trinta elementos da família estavam reunidos para a Ceia de Natal, na celebração do amor, da partilha e da pertença. À chegada dos que vieram de mais longe, dois deles do outro lado do oceano, a alegria do reencontro e o entusiasmo por estarem juntos tinham enchido a casa de vozes animadas, em conversas cruzadas de quem quer saber tudo ao mesmo tempo. Já sentados à mesa e depois das crianças pequenas terem comido, serviu-se o tradicional bacalhau com batatas cozidas e o ruído das conversas foi baixando de tom, com as bocas ocupadas noutra função. Numa ponta da mesa, uma “jovem” viúva de sessenta anos que viera da cidade, com o garfo na mão esquerda e o telemóvel na direita, ao mesmo tempo que “dava ao dente” tirava fotografias a tudo e a todos, escrevia e publicava de imediato as imagens da Ceia e ia lendo mensagens e os comentários em voz alta, numa comunicação permanente com todos os “amigos do Facebook” a quem se dedicava de alma e coração, em “pescaria” para “fisgar” algum “peixão” que lhe acabasse com a solidão. Enquanto recebia mensagens de cada um dos seus “amigos”, comentava os “resultados” dos encontros com eles. Na verdade, foi uma Ceia de Natal em que quase só esteve “presente” lá longe, ligada em direto ao aparelho que a sua mão direita manipulava muito bem apesar das seis décadas de uso, até regressar à cidade.

Apesar de já alimentada, a pequena Catarina que ainda não tinha três anos de idade, ora corria à volta da mesa obrigando o pai a atenção redobrada, que não evitou duas quedas, ora choramingava para pedir atenção ou colo. Quando a mãe manifestou sinais de incómodo pelo comportamento da criança, o pai resolveu o problema depressa e da forma habitual: levantou-se, foi ao móvel da entrada recolher o seu moderno telemóvel e, sem se dar ao trabalho de o ligar, entregou-o à “pequerrucha” que o agarrou com as duas mãos. Foi como quem deita água no lume. A pequena Catarina, que mal podia com o sofisticado aparelho, desatou a carregar aqui e ali, ligando-o, abrindo a aplicação que tinha o jogo com os bonecos preferidos e não mais foi vista aos gritos ou a correr. Acabou por adormecer sozinha, com o telemóvel entre as mãozitas, provavelmente cansada de matraquear nas teclas da tecnologia que parecia dominar melhor que os mais velhos ali presentes.

Como as coisas evoluíram: se antigamente as mães, para calar as crianças pequenas lhes enfiavam na boca a “boneca”, um pequeno embrulho de pano de linho embebida em aguardente e açúcar, fazendo “adormecer” as mais impertinentes “por anestesia”, agora dá-se-lhes para a mão um pedaço de tecnologia que manipulam instintivamente e as deixa “pedradas”, “ausentes” e anestesiadas para o que se passa em seu redor. Já nem sei o que é melhor …

O João, adolescente de quinze anos, intercalava cada garfada com as mensagens que escrevia a grande velocidade à namorada, com a mão debaixo da mesa e sem olhar ou lendo as respostas que lhe punham algum brilho nos olhos. Quando a Ceia ia a meio, mais de metade dos “participantes” estava “ausente” através desses aparelhos que toda a gente carrega no bolso ou na bolsa, mais preocupados em comunicar com quem está longe do que com quem lhe está encostado, ombro com ombro ou “de caras”, pelo “Facebook”, “Instagram”, “Twitter” e outras redes sociais. Talvez a dificuldade seja no ter de olhar o outro olhos nos olhos … Até uma jovem mãe “despachou” o ainda bebé para a madrinha ali presente, que teve de se haver com duas “descargas” intestinais da criança e uma “borradela” dos pés à cabeça, para se dedicar a essa “ingrata e difícil” tarefa de se “agarrar” ao “Facebook” enviando mensagens e fotografias dos doces de Natal da sua ceia, enquanto recebia outras, numa oportunidade para criticar: “Esta não tem vergonha de pôr farturas à mesa” ou ainda “vejam se isto é um arranjo de flores que se ponha numa mesa de Natal…”. Entretanto, a madrinha cuidava de limpar o rabinho à criança!!!

Perto do final da sobremesa, dos trinta e tal comensais só quatro continuavam “a cear” em “amena cavaqueira”. O que já não era mau. Todos eles tinham alguns fatores em comum: idade avançada, não dominavam as novas tecnologias e, quanto a redes, certamente só conheciam as de arame … Além disso, com as dificuldades de audição próprias da idade, se alguém lhes falasse no “Instagram” poderiam reagir como alguém que conheço: – Se “está grande”, não é meu.

Quando um elemento desta família me relatou esta Ceia de Natal, percebi o sentimento de “frustração” na voz e no olhar porque, no seu imaginário, gostaria de ter encontrado ali um espaço de convívio e partilha da família num momento que é único, em vez de uma triste manifestação da “dependência tecnológica” de que a maioria de nós hoje enferma, para se entregar ao instinto básico de “exibicionista”, de “mirone” e “comentador encartado”, quando não cáustico, nas “trocas de galhardetes”.

Ao ficarmos vidrados nos telemóveis, tabletes e outros aparelhos com que a tecnologia nos vem brindando como se fossem o caminho para sermos felizes, ligados à net porque sim, ao Facebook porque é baril, ao Instagram porque está na berra, a quem está longe talvez porque não tem rosto, durante as refeições de família e, muito em especial nesse acontecimento único que é a Noite de Natal, perdemos momentos que não se repetem, conversas a que devíamos pertencer e estar integrados, pormenores, respeito e dedicação aos outros e a capacidade e dever de “estar presente”. Mas não. Estamos muito mais empenhados e interessados em fazer publicidade do que se está a passar connosco e à nossa volta, armados em “repórteres do diabo” e mirones, em lugar de sermos “parte integrante desse momento”. De que, estupidamente, nos demitimos …