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Escravos da tecnologia, perdemos o momento …

Noite de Natal. À roda daquela enorme mesa de madeira maciça, mais de trinta elementos da família estavam reunidos para a Ceia de Natal, na celebração do amor, da partilha e da pertença. À chegada dos que vieram de mais longe, dois deles do outro lado do oceano, a alegria do reencontro e o entusiasmo por estarem juntos tinham enchido a casa de vozes animadas, em conversas cruzadas de quem quer saber tudo ao mesmo tempo. Já sentados à mesa e depois das crianças pequenas terem comido, serviu-se o tradicional bacalhau com batatas cozidas e o ruído das conversas foi baixando de tom, com as bocas ocupadas noutra função. Numa ponta da mesa, uma “jovem” viúva de sessenta anos que viera da cidade, com o garfo na mão esquerda e o telemóvel na direita, ao mesmo tempo que “dava ao dente” tirava fotografias a tudo e a todos, escrevia e publicava de imediato as imagens da Ceia e ia lendo mensagens e os comentários em voz alta, numa comunicação permanente com todos os “amigos do Facebook” a quem se dedicava de alma e coração, em “pescaria” para “fisgar” algum “peixão” que lhe acabasse com a solidão. Enquanto recebia mensagens de cada um dos seus “amigos”, comentava os “resultados” dos encontros com eles. Na verdade, foi uma Ceia de Natal em que quase só esteve “presente” lá longe, ligada em direto ao aparelho que a sua mão direita manipulava muito bem apesar das seis décadas de uso, até regressar à cidade.

Apesar de já alimentada, a pequena Catarina que ainda não tinha três anos de idade, ora corria à volta da mesa obrigando o pai a atenção redobrada, que não evitou duas quedas, ora choramingava para pedir atenção ou colo. Quando a mãe manifestou sinais de incómodo pelo comportamento da criança, o pai resolveu o problema depressa e da forma habitual: levantou-se, foi ao móvel da entrada recolher o seu moderno telemóvel e, sem se dar ao trabalho de o ligar, entregou-o à “pequerrucha” que o agarrou com as duas mãos. Foi como quem deita água no lume. A pequena Catarina, que mal podia com o sofisticado aparelho, desatou a carregar aqui e ali, ligando-o, abrindo a aplicação que tinha o jogo com os bonecos preferidos e não mais foi vista aos gritos ou a correr. Acabou por adormecer sozinha, com o telemóvel entre as mãozitas, provavelmente cansada de matraquear nas teclas da tecnologia que parecia dominar melhor que os mais velhos ali presentes.

Como as coisas evoluíram: se antigamente as mães, para calar as crianças pequenas lhes enfiavam na boca a “boneca”, um pequeno embrulho de pano de linho embebida em aguardente e açúcar, fazendo “adormecer” as mais impertinentes “por anestesia”, agora dá-se-lhes para a mão um pedaço de tecnologia que manipulam instintivamente e as deixa “pedradas”, “ausentes” e anestesiadas para o que se passa em seu redor. Já nem sei o que é melhor …

O João, adolescente de quinze anos, intercalava cada garfada com as mensagens que escrevia a grande velocidade à namorada, com a mão debaixo da mesa e sem olhar ou lendo as respostas que lhe punham algum brilho nos olhos. Quando a Ceia ia a meio, mais de metade dos “participantes” estava “ausente” através desses aparelhos que toda a gente carrega no bolso ou na bolsa, mais preocupados em comunicar com quem está longe do que com quem lhe está encostado, ombro com ombro ou “de caras”, pelo “Facebook”, “Instagram”, “Twitter” e outras redes sociais. Talvez a dificuldade seja no ter de olhar o outro olhos nos olhos … Até uma jovem mãe “despachou” o ainda bebé para a madrinha ali presente, que teve de se haver com duas “descargas” intestinais da criança e uma “borradela” dos pés à cabeça, para se dedicar a essa “ingrata e difícil” tarefa de se “agarrar” ao “Facebook” enviando mensagens e fotografias dos doces de Natal da sua ceia, enquanto recebia outras, numa oportunidade para criticar: “Esta não tem vergonha de pôr farturas à mesa” ou ainda “vejam se isto é um arranjo de flores que se ponha numa mesa de Natal…”. Entretanto, a madrinha cuidava de limpar o rabinho à criança!!!

Perto do final da sobremesa, dos trinta e tal comensais só quatro continuavam “a cear” em “amena cavaqueira”. O que já não era mau. Todos eles tinham alguns fatores em comum: idade avançada, não dominavam as novas tecnologias e, quanto a redes, certamente só conheciam as de arame … Além disso, com as dificuldades de audição próprias da idade, se alguém lhes falasse no “Instagram” poderiam reagir como alguém que conheço: – Se “está grande”, não é meu.

Quando um elemento desta família me relatou esta Ceia de Natal, percebi o sentimento de “frustração” na voz e no olhar porque, no seu imaginário, gostaria de ter encontrado ali um espaço de convívio e partilha da família num momento que é único, em vez de uma triste manifestação da “dependência tecnológica” de que a maioria de nós hoje enferma, para se entregar ao instinto básico de “exibicionista”, de “mirone” e “comentador encartado”, quando não cáustico, nas “trocas de galhardetes”.

Ao ficarmos vidrados nos telemóveis, tabletes e outros aparelhos com que a tecnologia nos vem brindando como se fossem o caminho para sermos felizes, ligados à net porque sim, ao Facebook porque é baril, ao Instagram porque está na berra, a quem está longe talvez porque não tem rosto, durante as refeições de família e, muito em especial nesse acontecimento único que é a Noite de Natal, perdemos momentos que não se repetem, conversas a que devíamos pertencer e estar integrados, pormenores, respeito e dedicação aos outros e a capacidade e dever de “estar presente”. Mas não. Estamos muito mais empenhados e interessados em fazer publicidade do que se está a passar connosco e à nossa volta, armados em “repórteres do diabo” e mirones, em lugar de sermos “parte integrante desse momento”. De que, estupidamente, nos demitimos …

Ela perguntou: “Du yu espic inglish”?

Há alguns anos atrás (o que é caso para dizer: “ao tempo que isto dura”…), questionava aqui “porque não mudar de língua”? É que o português, português (de Portugal), morreu, já não existe. Tirando alguns “nativos” das aldeias do interior que ainda incluem no seu vocabulário palavras como “bloques”, “presigo”, “lapada”, “tringalha”, “borra-botas”, “indireita” e muitas mais que os jovens de hoje já não conseguem “traduzir”, já não se fala o português de Portugal. Nem se quer, nem se sabe falá-lo e, pior, até parece que temos vergonha de o falar. Porquê? Porque é uma língua de pacóvios, arcaica, ultrapassada e tão fora de moda. Tentamos espalhá-la pelo mundo e o que se vê nos países “ditos de língua portuguesa”? Adulteraram-na de tal forma que não os entendemos. À mistura com palavras da nossa língua, têm muitos outros vocábulos que ignoramos ou nos induzem em erro e até podem provocar-nos embaraços. Ora, façamos um teste: quando um brasileiro fala em “veado” julgamos que se refere a um animal selvagem de grande porte. Errado. Quer dizer “homossexual”. Ou se disser “galera”, não se refere a uma nau, mas a um conjunto de pessoas. E muitas mais poderíamos citar. Se saltarmos do português do Brasil, para o de Angola, Moçambique ou Timor, torna-se ainda mais complicado.

Mas o que mais incomoda é que, a cada dia que passa, substituímos mais e mais palavras nossas por “estrangeirismos” que nada têm a ver connosco. É só uma questão de moda, de querer dar um ar de que se sabe estar, se é culto, como dizia uma velhota da aldeia, “de armar ao pingarelho”. E tem razão. E desses “estrangeirismos”, o maior uso e abuso é de palavras inglesas. Por tudo e por nada, lá estamos nós a “gramar” com o know-how ao falar de experiência técnica, report quando temos “relatório” para dizer o mesmo, budget no lugar de orçamento ou dá-me o teu feedback quando se pede “só” opinião. Já Eça de Queirós no episódio das corridas do hipódromo em “Os Maias” exagerava de propósito dos “estrangeirismos” para mostrar quanto é ridícula essa mania.    

Engolimos a selfiequando nos estamos a fotografar a nós próprios, tudo é topquando devia ser bom ou fantástico, o que até graduava melhor. Já não corremos, fazemos running. Dizer que criamos uma “marca” é para atrasados mentais. Tem de ser brand. Até os tascos, tão tipicamente portugueses, já têm escrito à porta take awayou hot-dog. Onde é que vamos parar? Nem falo nos festivais de música que enchem os verãos deste palco à beira mar de norte a sul. NOS Alive, Freedom Festival, EDP Beach Party, Rock in Rio,EDP Cool Jazz, e muitos outros, que “não seriam nada se não fossem “vendidos” em inglês, como se a maioria dos espectadores fossem ingleses ou estivéssemos na terra dos “camones”. E não é de admirar. Quando o poder político, num gesto claro de submissão e “baixar as calças” aos reformados ingleses que povoam o extremo sul do país, pôs a sua chancela na mudança do nome dessa região para “ALLGARVE”, é caso para perguntar: “O que vem a seguir”.

Hoje deu-me para voltar a “pegar” com esta mania, esta “vergonha” ou medo de falar em português, porque um amigo me fez chegar a

carta que uma senhora escreveu a um canal de televisão para que a lessem em direto, intitulada “Du yu espic inglish?”. E eu, não tendo qualquer indicação do nome da autora, transcrevo-a em homenagem:

“Desde que aos emblemas chamam pins, a maricas gays, às comidas frias lunches e aos elencos de filmes castings, este país não é o mesmo: agora é muito, muitíssimo mais moderno. Antes as crianças liam banda desenhada em vez de comics, os estudantes colavam posters pensando serem cartazes, os empresários faziam negócios em vez de business, e os operários, tão ordinários que eles eram, pegavam numa caixa ao meio-dia em vez de tupperware.

Eu, no colégio, fiz aeróbica muitas vezes, mas, que tonta que era, pensava estar a fazer ginástica. Ninguém é realmente moderno se não disser todos os dias cem palavras em inglês. As coisas noutra língua soam-nos muito melhor.

É evidente que não é o mesmo dizerbaconem vez de presunto, ainda que tenham a mesma gordura, nem vestíbulo em vez de hall, nem deficiente em vez de handicap… sob este ponto de vista, nós, os portugueses, somos moderníssimos.

Já não dizemos biscoito, mas cup-cake, nem temos sentimentos, mas feelings. Compramos tickets, tablets, comemos sandwiches, vamos ao pub, praticamos rappele raffting, em vez de acampar fazemos camping, e quando vem o frio, assoamo-nos com kleenex.

Estas mudanças de linguagem influenciaram os nossos costumes e melhoraram muito o nosso aspeto. As mulheres não usam meias, mas panties, e os homens não usam cuecas, mas slipse depois de se barbearem deitam after-shaveque deixa a cara muito mais fresca que o tónico.

O português moderno já não corre, mas faz jogginge footing; não estuda, mas faz masterse nunca consegue estacionar, mas encontra sempre um parking. O mercado agora é o marketing, o auto-serviço o self-service, a escala o rankinge o diretor, o manager.

Os importantes são vips, os auriculares walkmen, os postos de venda, stands, os executivos, yuppies, as babás, baby-sitterse até nannies. No escritório, o chefe está sempre em meetingsou brain stormse quase sempre com public-relations, enquanto a assistantenvia mailingse organiza trainings. Depois irá ao ginásio fazer gim-jazze encontrar-se-á com todas as do jet, que acabam de fazerliftings e com algumatop-modelamante de iogurte light e do body-fitness.

O arcaico aperitivo deu lugar aos cocktails, onde se oferece roast-beef. Ainda que pareça o mesmo, engorda muito menos que a carne.

Uns trabalham num magazine, não num programa. Na televisão, quando o apresentador diz várias vezes O.K.e dança rodando pelo palco, a isso chama-se show, muito diferente, como sabem, do antiquado espetáculo; já não põem anúncios, mas spotsque, para além de serem muito melhores, permitem-lhe fazer zapping.

Espero que tenha gostado … e que não tenha ficado com stress”.

E eu paro por aqui, sem dizer “stop”, que seria mais moderno e muito mais chique …