Monthly Archives: January 2020

O papel passou à história? Não …

Mal acabei de nascer, os meus pais foram obrigados a juntar papel à minha existência: a “cédula pessoal”. Nela inscreveram o meu nome, o deles e registaram o dia em que vim a este mundo. Ainda a guardo “para memória futura”, embora “esteja fora de moda”. Já não se usa. Não me acompanhará até ao fim dos meus dias porque, entretanto, deu lugar ao “bilhete de identidade”, que também já passou à história e faz parte daqueles papeis inúteis que guardo zelosamente numa gaveta e que um dia alguém mandará para o lixo. Ora, recentemente, também este abdicou a favor do “cartão de cidadão”. Sim esse mesmo que, inicialmente, esteve para se chamar “cartão único”, cujo símbolo abreviado seria (CU). No entanto, o nome viria a ser alterado para cartão de cidadão (CC) pelo desconforto que seria ir ao banco ou a uma repartição pública qualquer e ouvir dizer: “mostre-me o seu CU”. Presumo que ficaríamos muito indecisos sobre qual deles mostrar… E o papel continuou a seguir-me no registo e assento de batismo, onde o meu nome ficou gravado, para o caso de vir a esquecer. A partir daí, nunca mais deixei de ter o papel nas suas múltiplas formas ligado à minha vida, numa parceria comprometida e muito empenhada. Basta ver os quilos e quilos que tenho espalhados pelos quatro cantos da casa, como “acumulador de lixo” que sou. Não posso deixar de dizer que uma boa parte do que tenho já devia ter ido para o “Papelão”, pois nem sequer dá para usar na casa de banho. Seria tão útil noutro tempo …

Na escola primária (no papel agora diz-se “básica”), aumentei o meu relacionamento com o papel, por ter de andar com cadernos de uma e duas linhas, sebentas e livros às costas, dentro de uma saca de pano feita pela minha mãe, numa grande proximidade. Fora da escola, não lhes dava “confiança” nem o uso necessário. E nem sequer lhes fazia companhia. Tinha até uma certa alergia ao “papel” … Aproveitava o papel do jornal “O Comércio do Porto” que o meu pai comprava ao domingo, cortado aos bocados, para “serviço de limpeza” …

À medida que fui avançando nos estudos, maior era a carga de papel que eu carregava às costas, porque maiores eram os livros, cadernos e apontamentos, para além de mais numerosos. E vieram os testes, as cartas, as revistas e os livros. E até o papel higiénico (em substituição dos jornais), num aumento crescente desse “casamento” invisível do papel comigo, nas suas variadíssimas formas. Tornei-me dependente deste material, tal como a maioria das pessoas, que se foi infiltrando na minha vida de forma continuada e cada dia mais intensa, como na vida de todos nós. Mais ainda, tem sido em papeis mais ou menos elaborados, que tenho recebido certificações, diplomas, atestados, cartões de identificação e outras inutilidades semelhantes que nós teimamos em multiplicar como se fossem importantes. 

Ao entrar na vida profissional passei a fazer parte da legião de consumidores de papel em tantas e tantas finalidades, que seria impossível descrevê-las na totalidade. Das simples instruções aos relatórios, dos folhetos publicitários aos cadernos de encomenda, dos bilhetes e manuais aos inquéritos, quantas vezes de forma quase obsessiva, indiferentes ao que é necessário “destruir” para se poder produzir o papel. Durante muitos anos foi através do papel, em carta ou postal, que as pessoas comunicavam entre si para tratar de negócios e em cartas amorosas, longas e ternas. E vejo uma pequena fração desse uso e abuso nos montes de livros que se arrumam cá por casa, a par das numerosas pastas, revistas, registos médicos, bancários, fiscais e contabilísticos, para além das caixas e gavetas de todo o tipo de recibos da água à eletricidade, do calçado à roupa, do supermercado ao combustível e tantos outros. 

Mas a tecnologia, mais do que as lutas em defesa do meio ambiente e dos recursos naturais, deu o pontapé de saída com vista à redução do consumo de papel através daquilo que se chama a “desmaterialização dos processos administrativos”, fazendo substituir o registo em papel por registos informáticos a partir de moderníssimos computadores com capacidade de armazenagem incrível, que permitem “guardar” grande quantidade de dados em pouco espaço que, se fosse em papel, exigiria grandes áreas de arquivos, muito mais caras e de consulta muitíssimo mais difícil. Essa tecnologia vem eliminando de variadas formas a utilização de papel, desde as agendas agora substituídas pelos telemóveis, os livros impressos trocados pelo formato digital, os projetos de construção tanto na sua apresentação às entidades licenciadoras, concursos e tudo o mais. Até as enciclopédias, de que tenho cá em casa uma de vinte e tal volumes que me ocupa a fiada do meio de uma grande estante e está “novinha em folha”, já deixaram de ser vendidas porta a porta por vendedores aguerridos porque o acesso à internet permite fazer todo o tipo de consultas sem que tenha de se investir “uma pipa de massa” e ter uma estante ocupada, se bem que continua a ser “um bom elemento decorativo” na sala (é para isso que muitas servem). Com a chegada dos “livros digitais”, que dizem ser o futuro, qual será o futuro dos livros de papel? Será que é mais um alívio para o consumo de papel, como o é nos jornais “on line”?

Ainda não acompanho os meus filhos na dispensa do papel em coisas triviais. Quando precisam de registar a marca de um produto ou tipo de embalagem, “sacam” do telemóvel, tiram uma fotografia e enviam-na de imediato por mail para a loja com a encomenda respetiva, sem perda de tempo nem consumo de um bocadinho de papel sequer. Já eu, que estou formatado noutro registo, tenho de agarrar na agenda ou num bocado de papel e tomar nota do produto, referência, quando não de dados sobre a cor da embalagem. Na realidade eles são mais práticos, mais eficientes e muito mais ecológicos nisto de poupar o recurso natural de que se faz o papel. 

“O papel passou à história”? Não, nada disso. O papel é importante nas nossas vidas e continuará a ser, embora seja preciso reduzir o seu consumo. Apesar da tecnologia dar uma excelente ajuda, ainda há um longo caminho a percorrer …

O silêncio do dia um e as promessas…

Está visto. No primeiro dia do ano não há madrugadores. E percebe-se porquê: todos querem prolongar o mais possível o Ano Velho como se tivesse sido o melhor das suas vidas, adiando dessa forma a “verdadeira” entrada no Ano Novo. Ninguém quer confrontar-se com a dura realidade de que nada muda senão o dia e a data. Por isso, fica-se a festejar (alegadamente) até às tantas a partida de um ano onde todos sabem o que aconteceu e dão-se as boas vindas ao que chega, esperando-se generosidade, o que é sempre uma incógnita. 

Pensando eu que seria um dos últimos a levantar-me, fiz questão de “madrugar” saindo da cama às 10H00 da manhã. Aliás, já não aguentava mais com o barulho dos foguetes que teimaram e insistiram em lançar a partir das oito horas da manhã, num carrocel sonoro pouco agradável para quem tentava dormir, vindo ora de um lado, ora de outro. Calculo eu que devem ser “as sobras do Natal”, porque ninguém no seu perfeito juízo pode contribuir com um cêntimo sequer para o foguetório que lhe vai atazanar a paciência e acordá-lo quando só quer dormir. E o pior é que os responsáveis por esse “massacre” não são capazes de se juntar e concertarem a hora para, em uníssono, despacharem todas as “sobras” de uma assentada. Cá por mim, podia muito bem ser às cinco da tarde, a hora decente pois já ninguém deve estar a dormir, embora todas as horas são más para acordar o Zé. Mas não. O fogo começou cedo vindo do lado onde nasce o sol e, depois de meia dúzia de “bombas”, acabou-se. Alguns minutos depois houve uma descarga vinda do “sol posto” e parou depressa. O “material de fogo” devia ser pouco. Do Norte soaram os primeiros disparos vinte minutos depois e assim sucessivamente, de um lado e do outro, mais longe ou mais perto, para melhor nos “moerem o juízo”.

Passava das dez da manhã quando, bem agasalhado porque o tempo não estava para brincadeiras, saí porta fora, desci a ladeira e fiz-me à estrada no circuito do costume, “tropeçando” num silêncio de morte. Parecia que estava sozinho cá na terra, num silêncio geral. As casas, de persianas descidas e portas cerradas, sem gente à vista nem sinais de vida, mais pareciam jazigos. Nem sequer os cães do habituais nos vieram “saudar” com alguns latidos. Também terão feito noitada? As ruas estavam desertas de carros e pessoas, e até os habituais “atletas de fim de semana” com que me costumo cruzar, “fizeram gazeta”. Em todo o trajeto cruzei-me somente com meia dúzia de “madrugadores” e automóveis. Fora isso, silêncio. A maioria das pessoas preferiu ficar em casa para recuperar da noitada e não quis “mergulhar” logo no ano dos dois vintes. Noutros tempos, eu estaria em retoma após uma noite a cantar as Janeiras de porta em porta, de petisco em petisco, de copo em copo. Mas isso foi no tempo em que o frio não me pegava …. 

Nesse dia fui almoçar ao Porto. A anormalidade continuou no trânsito reduzido na autoestrada, nos acessos à cidade (não me lembro de ver tão pouco movimento) e dentro desta, dando a entender que grande parte das pessoas estavam a ganhar coragem para enfrentar o Ano Novo. E o dia era tão estranho, que até os “supermercados”, aqueles bastiões do consumismo que raramente “dão baldas”, fecharam (sem ser para balanço). Estão a “prometer mudar” ou é só “fogo de vista”?

Tenho de reconhecer que a época natalícia é muito perigosa para nós, porque dura muito tempo. São dez dias de festa, convívio, encontros de família, rever amigos e matança do porco. Dizia-me uma senhora que o pai, emigrante em França, veio cá passar o Natal com a família tendo chegado pouco antes da consoada. Durante os dias esses dias de férias, foi almoço atrás de almoço, jantar atrás de jantar, rodando de sua casa para a casa da cunhada e desta para a outra filha, sem interregnos.

E todas as refeições eram uma celebração. Foi a noite de consoada, o almoço de Natal que continuou noite dentro em jornada contínua, o almoço da Feira de Ano e muitos outros porque além da Noite de Fim de Ano, houve ainda o primeiro dia de Ano Novo, a Noite de Reis, a matança do porco lá em casa, a “desfazedura” do porco, a feitura dos rojões e dos enchidos, tudo isto repetido em três casas, em “viagem” gastronómica contínua que deu cabo das dietas. Claro que, com este “tratamento”, não há quem resista, muito menos numa noite quase sempre longa, onde os “usos e abusos” são normais e “perdoáveis”.

Por isso, promete-se mudanr nos dias que se seguem na alimentação, no exercício físico, nas relações, nos gastos, como em muitos aspetos da nossa vida. Mas a verdade é que o dia de amanhã é muito semelhante ao de ontem, tal como ao de hoje. Todos têm vinte e quatro horas e a vontade não se mexe ao ritmo dos nossos desejos. Exige bem mais esforço do que estamos dispostos a dar. Promete-se mudar de vida, embora já se tenha dito isso nos anos anteriores. E sei como é porque, depois de três meses a fazer exercício regularmente num ginásio, parei em Junho com a desculpa de ir fazer o “Caminho de Santiago”. No entanto, quando regressei fiquei em casa com nova desculpa: precisava ainda de recuperar até ao fim do mês. No mês seguinte, achei que “não tinha recuperado” do esforço e prometi a mim mesmo regressar aos exercícios antes de Agosto. Certo é que já estamos em Janeiro do ano seguinte e farto de renovar a promessa de regressar ao ginásio onde, devo dizê-lo, me senti muito bem. Ainda não fui, mas uma coisa é verdade: continuo a prometer que um dia destes vou regressar … da mesma maneira que continuo a prometer que vou fazer dieta e, a partir de agora, só comer comida saudável. Onde é que eu já ouvi isto?