Monthly Archives: February 2019

Provavelmente, também desistia…

Não fui, não sou, nem gostaria de ser professor, especialmente nos dias de hoje. Julgo que não teria paciência suficiente nem capacidade de encaixe. Por isso, admiro muito todos aqueles que se dedicam a essa nobre arte de ensinar, muitas vezes a quem nem sequer quer ser ensinado. E essa admiração é renovada sempre que ouço ou conheço testemunhos daquilo a que um professor está sujeito nos nossos dias. O jornalista e escritor Leonardo Haberkom era professor numa das universidades de Montevideu e escreveu um texto emotivo no seu blog pessoal, mas que um jornalista publicou e a internet fez chegar aos quatro cantos do mundo e que certamente tocou e toca muito a quem exerce a profissão de educador. Esse professor uruguaio atira a toalha ao chão e diz não poder mais com seus alunos e suas extensões tecnológicas, do twitter ao facebook. E que já não pode captar a sua atenção, nem alterar a sua profunda ignorância. Com o título “Me cansé … me rindo …”, declara o porquê de deixar o ensino, a profissão que antes o apaixonava. Diz ele:

“Depois de muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade. Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.

Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam, perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel, que não para de receber selfies. Claro que nem todos são assim. Mas, cada vez há mais.

Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante noventa minutos, ainda que fosse só para não serem mal educados, tinha algum efeito. Agora, não. Pode ser que seja eu que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal. Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem veem sentido em estar informadas.

Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só um estudante entre vinte conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto, não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (…) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à esquerda nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim! Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém!

Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel. Nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo, é complicado. É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revistas na rua.

Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho. E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados e a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles. Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta baixamos a guarda. E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim. O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula terminasse. Eu, também.”

Talvez o pior de tudo seja o facto daqueles alunos irem ser amanhã Adultos, sem terem crescido nem amadurecido, cheios de Direitos, sem Deveres nem Responsabilidades … alguns até Políticos ou Governantes …

Tinha escrito esta parte da crónica há uns dias atrás e acabei agora de a mostrar a uma jovem que estuda enfermagem. Depois de ler este desabafo, contou-me o que hoje mesmo se havia passado numa das aulas. O professor lecionava num auditório que não estava cheio e, em dado momento, enquanto ia debitando a matéria, saiu do lugar na tribuna e foi andando entre a plateia até parar junto de um aluno que nem se apercebeu da sua chegada, de tão concentrado no que estava a fazer. “Você já está agarrado ao telemóvel há mais de quarenta minutos”, começou ele na abordagem ao aluno. “Você não consegue, desligar-se, pois não? É muito importante estar a par do que se está a passar nas redes sociais”? O aluno não ficou atrapalhado, mas fez menção de desligar o telemóvel. O professor interveio: “Não desligue se não quiser. Não é isso que conta. Aliás, se preferir, tem ali a porta e pode ir lá para fora para ter mais privacidade”. E, voltando-se para a turma que os olhava em silêncio, continuou: “Vocês já alguma vez se interrogaram qual a razão porque querem tirar este curso? Já algum dia se perguntaram se a razão principal é por quererem cuidar de pessoas? Ou se, pelo contrário, é porque o pai ou a mãe querem que vocês tirem um curso, seja ele qual for? Mas é isso mesmo que vocês querem? Se pensam que eu fico preocupado, estão enganados. Tenho a minha vida organizada, atingi todos os objetivos a que me propus. Para isso, tive de trabalhar, tirar um curso, ser bom para poder tratar pessoas de carne e osso. Sinto-me realizado. 

E vocês? O que é que já alcançaram? Nada. Eu tinha de andar todos os dias cerca de uma hora de comboio e autocarro até chegar à universidade. Vocês, na maioria, vêm no carro que o papá vos deu e, se o destruírem, irão ter outro. Se calhar, melhor. Sem esforço, sem trabalho vosso. Será que vão acabar o curso? Talvez. Mas, será ele uma ferramenta de trabalho ou só um título para encaixilhar? É que, se pensam que saem daqui a saber o suficiente para exercer, estão enganados. Vai ser preciso trabalhar muito para se tornarem bons profissionais. O curso é uma ferramenta que os prepara para aprenderem. Mas precisam de ter a humildade e a força de vontade para o fazer. Aqui podem aprender mais ou menos conforme estejam disponíveis ou não e absorver o que vos ensinam. A escolha é vossa, entre isso ou atender prioritariamente ao que se passa nas redes sociais, como o vosso colega … e muitos outros”.

O silêncio foi a resposta. O mesmo silêncio a que nos remetemos tantas vezes enquanto pais, enquanto educadores … 

Heróis do meu dia a dia: Como se deve viver e morrer…

Quando morre um “Homem Bom”, todos perdem e o mundo fica mais pobre. Perde a família, perdem os amigos, perdem aqueles com quem se relaciona, perde a sociedade. Enfim, perdemos todos. Porque não é todos os dias que se encontra um “Homem Bom” (e com este título quero referir-me aos dois sexos para não ser acusado de descriminar a mulher). Rico ou pobre, um “Homem Bom” é raro, algo que quase já não se fabrica. Tem que conter em si um misto de genes da bondade e educação a condizer, respaldada pelo bom exemplo de vida dos pais, porque é fundamental. A principal característica que o “Homem Bom” transporta consigo é a de querer sempre o melhor para os que estão à sua volta, para estar de bem consigo. A bondade deriva do amor ao próximo. Daí a sua permanente preocupação com os outros, mesmo antes de se preocupar consigo. Por isso, nele esse egoísmo não existe porque dá prioridade às necessidades dos que o rodeiam. Diz o Salmo que “os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor … ainda que caia, não ficará prostrado” …

Paulo foi um jovem que não quis concluir o seu curso universitário e preferiu ir trabalhar com o pai, proprietário e principal responsável de uma empresa de média dimensão. Durante anos fez da empresa a sua escola para a vida e com o pai aprendeu tudo o que precisava aprender para o poder substituir no dia em que tomou a decisão de se reformar e entregar-lhe “o leme do barco”. Por isso, foi com toda a naturalidade que assumiu essa pesada responsabilidade, sendo que depressa ganhou o respeito e a amizade dos colaboradores. A sua juventude e dinamismo fizeram com que a empresa alargasse os seus horizontes a novos mercados, o seu humanismo fê-lo ganhar todo o respeito dos trabalhadores. 

Mas a globalização e a crise, associadas a perdas muito grandes com a falta de pagamento de clientes angolanos e espanhóis, arrastaram a sua empresa para a insolvência, apesar de todos os esforços para a salvar. E então, a sua maior preocupação passou a ser os trabalhadores, porque a empresa ficou sem meios para pagar os direitos que lhes eram devidos. Aí chegado, rejeitou a ideia de ficar a dever-lhes um cêntimo sequer. Podia fazer como a maioria faz nestas situações, escondendo os bens em nome de outros. Mas recusou-se e nem sequer deu ouvidos aos apelos de familiares e amigos para salvaguardar a casa e o carro. Não, tinha de cumprir com aqueles que o serviram e não podia ser de outra forma. Para isso, vendeu um a um todos os bens pessoais que tinha, desde a casa da família, o carro, terrenos (incluindo um onde projetava construir a nova residência), o mobiliário, a moto, as pratas e até as joias pessoais da mulher. Foi tudo. Só ficou a roupa de cada membro da família. Aos insistentes apelos de quem lhe era mais próximo disse sempre que não, com um argumento de peso: “Eu tenho capacidades e conhecimentos para me defender que a maioria das pessoas que trabalhava comigo não tem”. E aceitou, com naturalidade, ficar sem nada.

Recomeçou a vida do zero no Brasil por conta de um empresário que lhe prometeu salário e compensação pelos resultados. Mas viria a não cumprir. Regressou a Portugal para trabalhar, restabelecendo a vida profissional, económica e familiar baseado nos princípios que sempre o nortearam da retidão, verticalidade e preocupação pelo próximo. Mas o futuro nem sempre é justo para os justos. Quando tudo parecia voltar a sorrir, uma doença maligna atirou-o para as rotinas dos hospitais, sujeito a tratamentos intensos e agressivos, bem como aos avanços e recuos da doença. À quimioterapia, fez uma reação alérgica brutal que lhe deixou o corpo em ferida, num sofrimento horrível. Mas aceitou-o sem revolta nem desânimo. No final, só perguntou ao médico: “E agora? O que me resta”? Manteve a esperança intacta ou, pelo menos, soube transmitir essa esperança a familiares e amigos. Só quando quiseram extrair-lhe o tumor para lhe darem mais algum tempo de vida, recusou dizendo que, a partir daí, era uma questão de calendário, numa aceitação do fim sem queixas, apesar da violência das dores. Um ciclo duro, onde colheu alguns frutos do muito amor e generosidade que plantou na vida, ao ficar rodeado por familiares e amigos incondicionais que nunca o deixaram só. Até o patrão e amigo não deixou de lhe pagar o vencimento por inteiro ao longo de mais de dois anos, pela sua capacidade profissional e técnica, mas sobretudo, pela sua afabilidade e humanidade.

Sabendo que ia morrer a curto prazo, a sua preocupação foi sempre para a mulher, a filha e o irmão que padecia de doença semelhante, a ponto de comemorar com grande alegria a redução das metástases dele. O seu respeito pelos outros era tal que, quando o cunhado lhe fez uma adaptação para o sofá, sempre que ele estava presente tinha a preocupação de ficar ali sentado e só o abandonava já depois dele sair. Apesar daquela posição lhe ser muito mais dolorosa …

Nos últimos meses permaneceu na sua residência, mas quando sentiu que estava a ficar sem tempo, quis ir para o hospital para a sua filha não ficar com a imagem do pai a morrer em casa. Despediu-se da sua irmã, com quem tinha uma grande cumplicidade, com um “Obrigado por tudo. Um dia destes encontramo-nos outra vez” e pediu para lhe prometer “que à mulher e à filha não faltasse nada. E não falava de dinheiro”. Despediu-se daqueles de quem mais gostava, até pedir à irmã: “Por favor, não deixes vir mais ninguém, porque já não tenho força para mais despedidas”.

Mas a mais notável das suas ações, aquela que revela uma nobreza de caráter invulgar só acessível a alguns Homens, foi a vontade expressa de se despedir daqueles que o prejudicaram de uma ou outra forma, para lhes conceder o seu perdão. E fez questão de pedir ao padre celebrante para, na cerimónia do seu funeral, nessa hora de adeus, lhes dizer: “Àqueles de quem não me despedi, àqueles que me prejudicaram, às pessoas de quem a vida me afastou, eu quero dizer-lhes para não viverem mais com remorsos. Eu quero dizer-lhes que estão perdoadas. E não vale a pena viverem com ressentimentos, porque o que mais conta é o perdão. Que sejam muito felizes e não se deixem dominar pelas mágoas”. E ele sabia que estariam lá alguns … 

Em vida semeou amor e amizade, reunindo regularmente ao longo de anos com um grupo de familiares e amigos, para confraternizar. E a sua memória permanece viva nesse grupo, que continua a reunir com a mesma regularidade, a mesma alegria, o mesmo entusiasmo como ele gostaria que vivessem, tirando fotos que colocam no Facebook com uma dedicatória muito especial: “Para ti, Paulo” … 

Porque sabem que ele está lá para as receber …