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Correr ou andar a passo de boi?

Recordo-me frequentemente do meu amigo Bernardo dizer com ar de entendido na matéria: “Qualidade de vida têm as pessoas que vivem no interior transmontano e que marcam o seu ritmo de vida ao do meio de transporte que usam, isto é, o boi. E fazem tudo à sua cadência, sem pressas, sem correrias, havendo tempo para tudo. Como eu gostaria de viver assim… Na cidade, o ritmo é marcado pelo automóvel. É por isso que todos correm e saltam para se desviarem dos autocarros e outros veículos. Andam apressados mas sempre atrasados. A vida é acelerada”. A verdade é que pautou a sua vida sem esta mania de querermos fazer tudo em pouco tempo, sempre para ontem, como se fossemos capazes de acabar com o trabalho.

Quando me lembro das suas palavras, vem-me à memória a imagem do senhor Virgílio, de Malhadas (Miranda do Douro), seguindo atrás do gado a caminho do lameiro. O seu andamento era claramente “a passo de boi”. Já no lameiro, grande parte do tempo ficava deitado à sombra de um ulmeiro junto ao muro de pedras, a dormir. Era um homem feliz, que gostava de receber bem. E eu que o diga, pois pude usufruir desse bom gosto, à volta da sua lareira…

Há alguns anos, um industrial de confecção cá da região montou uma fábrica bem no interior do país, a pensar nas facilidades de mão de obra, embora alegasse que era para ajudar o povo de lá. Não durou muito a aventura. Viria a desistir encerrando a fábrica, alegando as mesmas razões: “As pessoas de lá não têm ritmo e a produção ressentia-se muito”.

Na última ida aos Açores, entregamo-nos ao senhor Paulo taxista para nos mostrar alguns pontos turísticos da ilha Terceira. É a melhor forma de conhecer os lugares mais emblemáticos… Durante a viagem, foi-nos dizendo que os açorianos apreciam melhor a vida do que os continentais. Não têm pressa para nada. Vivem ao seu ritmo, lento, que não é bem aquele que qualquer empresário do continente pretende para os seus trabalhadores. E isso é tão certo e atual que, recentemente, uma empresa de construção continental que tomou conta e fez uma grande obra na Terceira, só conseguiu concretizar a obra levando todos os trabalhadores do continente porque, “com os trabalhadores de cá não ia a lado nenhum”. E contou isto como uma virtude local, que ele próprio aprecia e defende. Porque, nas suas palavras, “vivemos melhor a vida. Vocês, continentais, não têm tempo para vós”. É verdade que eles não correm, a não ser nas touradas a fugir do touro. Mas nem são muitos os que o fazem pois a maioria limita-se a ver, em local protegido.

O meu amigo Rui em tempos, fez parte de uma sociedade que montou uma fábrica numa das principais ilhas do arquipélago, com o objetivo de trabalhar madeira de criptoméria. Esta madeira é muito bonita e ainda tem a vantagem de ser leve, quase como a madeira de balsa. Na sua qualidade de técnico, participou na montagem da fábrica como dirigiu o fabrico. Mas, bem cedo se apercebeu que não ia resultar. É que ele nunca sabia quantas pessoas iam aparecer para trabalhar. O pessoal ia quando lhe convinha… e queria. Diziam-lhe até com toda a naturalidade: “Vocês no continente têm três velocidades: Parado, a andar e depressa. Nós aqui só temos duas: A andar e parado”. Pouco tempo durou o sonho industrial nos Açores…

Na ilha Terceira há a tradição da “tourada à corda” e, no verão, são diárias. Muitos açorianos largam tudo o que têm a fazer para irem assistir. O Governo Regional teve de publicar uma lei, proibindo as touradas antes das dezassete horas, para evitar a “debandada” dos locais de trabalho…

Será que o corre, corre da vida está certo ou certos estão os açorianos que vivem a vida ao ritmo da natureza? Será que nós seres humanos fomos feitos para andar à velocidade da luz ou a querer chegar lá? A verdade é que de avião não vemos a paisagem e pior será se for de foguetão. Mas, montados num burro ou a passo, temos todo o tempo do mundo para apreciar a paisagem. E o que será melhor para a nossa saúde, física e mental?

O meu primo Nuno, a viver nos Açores (nem de propósito…), enviou-me um e-mail com uma entrevista (polémica) do dr. Paulo Ubiratan, de Porto Alegre (Brasil), em que faz a defesa do contrário do que nos é habitualmente recomendado. Como diz ele, “encontrei o médico de família certo… e não quero outro”!!! Quando perguntaram ao médico se exercícios cardiovasculares prolongam a vida, ele respondeu: “O seu coração foi feito para bater durante uma quantidade de vezes e só… não desperdice essas batidas em exercícios. Eventualmente, tudo se acaba. Acelerar o seu coração não o vai fazer viver mais: isso é como dizer que pode prolongar a vida do seu carro conduzindo mais depressa. Quer viver mais? Faça uma soneca”!!! E à questão se devemos cortar na carne vermelha e comer mais frutas e legumes, a resposta também foi surpreendente: “É preciso entender a logística da eficiência… O que é que a vaca come? Feno e milho. E isso o que é? Vegetais. Então, o bife nada mais é do que uma forma eficiente de adicionar vegetais ao seu sistema. Tem necessidade de grãos? Coma frango”! Quanto o questionaram se chocolate faz mal, foi peremptório: “Está doido? Cacau!!! Outro vegetal!!! É a melhor comida para se ser feliz”!!! E ainda recomendou: “E lembre-se: A vida não deve ser uma viagem para o túmulo com a intenção de chegar lá são e salvo e com um corpo lindo, atraente e bem preservado. O melhor é gozar a vida – cerveja numa mão, petisco na outra! – E possuir um corpo completamente gasto, totalmente usado, gritando: VALEU!!! QUE VIAGEM!!!

Até porque, se caminhar fosse saudável, o carteiro seria imortal! O coelho corre e pula e só vive 15 anos. Mas a tartaruga não corre, não pula, não faz nada e… vive até aos 450 anos”!!! Afinal, quem está certo”?

Morreu um cão…

Morreu um cão. Apesar do profissionalismo da equipa médica que dele tratou, não foi possível debelar o mal intestinal que o consumia e lhe fez perder um terço do peso nos últimos trinta dias. Numa longa conversa, o médico veterinário responsável falou com o dono e informou-o da queda dos valores das análises muito para baixo dos mínimos e do seu significado, desenganando-o e deixando nas suas mãos a decisão sobre o futuro do seu cão. E foi a decisão mais difícil que teve de tomar na sua vida. A sua opção foi de não prolongar mais o sofrimento do animal, um sofrimento inútil e sem sentido. Nem prolongar o seu sofrimento pessoal e o da família. Mas chorou muito, como já há muito tempo não o fazia… E chorou também nos dias seguintes sempre que abria a porta de casa pela manhã e sentia a falta daquela enorme bola de pelos a irromper casa dentro, abanando a cauda de alegria e encostando-lhe o focinho nas pernas, pedindo os acostumados mimos matinais. Ficou-lhe uma saudade imensa desse animal que adoptou de um canil e a quem salvou a vida e recuperou por traumas do passado, mas a quem se afeiçoou tanto. E recebeu dele muito mais do que lhe deu. Sim, porque o seu cão recompensou-o plenamente daquilo que fez por ele.

Foi um companheiro fiel e leal sempre pronto a segui-lo para todo o lado com alegria e entusiasmo. Fazia parte da rotina da sua vida diária e era importante na felicidade quotidiana da família, com a sua presença constante, sem nada pedir em troca. Uma companhia que nunca o criticou nem julgou, ajudando a amenizar o stress do dia a dia. Se no início não era opção entrar dentro de casa, bem cedo se foi insinuando pela ternura e pela docilidade e, pouco a pouco, virou membro pleno da família, com acesso a toda a casa, onde passava a maior parte do tempo. Tornou-se um companheiro inseparável que raramente perdia os donos de vista. Mal o dono pegava na trela, saltava e rodopiava sobre si numa alegria incontida, a comemorar antecipadamente a saída para uma caminhada pelas ruas da terra. E tanto corria no relvado, como passava horas deitado a seus pés quando lia, trabalhava ou via televisão. Mas perdeu-o e só lhe restam as imagens e a saudade, uma imensa saudade.

Agora percebe o porquê de todos os donos de animais de estimação sentirem não ter “autorização” da sociedade para ficarem tristes ou até chorarem pela morte do seu animal. É que a grande maioria da sociedade não considera que uma pessoa “possa estar de luto” e “entristecer” pela simples morte de um animal, mesmo que lhe seja próximo, que lhe esteja ligado afetivamente. É um facto, a sociedade não dá espaço ao luto e tem de se continuar a viver como se nada tivesse acontecido. Normalmente nem se fala com os outros sobre o que se está a sentir, pois parece que são muito poucos os que se sensibilizam quando se diz “o meu cão morreu”. Por isso, a morte de um cão é uma perda, embora não reconhecida como tal. Ouve-se até com frequência: “Era só um cão!!!…”, como quem quer dizer “uma coisa vulgar, sem qualquer valor. Há muitos outros por aí. Se ao menos fosse uma criança?”. Mas ao dono apetece gritar: “Não, não era só um cão. É O MEU CÃO e fazia parte da minha vida”.

Mas, falar do sentimento de perda em relação a um cão é incompreensível para muita gente. E é natural. Quem nunca teve a felicidade de viver com um animal, não faz (nem pode fazer) a mínima ideia do quanto se sofre (nem sequer do quanto se perde) com a sua morte. E nem compreende a importância que ele pode ter tido na vida do seu dono e da família. Essa insensibilidade é extensiva a muitos daqueles que, tendo animais de estimação à sua guarda, nunca os “adoptaram” verdadeiramente, nem integraram no agregado. Muitos, usam-nos para prestar um serviço, seja ele caçar, guardar a propriedade ou como mera “fábrica de produção” de cães para negócio. Quando deixam de servir, desfazem-se deles abandonando-os no meio do monte a duzentos quilómetros de casa, com um tiro na cabeça ou afogando-os. São descartáveis, tal como os seres humanos quando deixam de ser úteis, quando deixam de produzir. Só que os humanos não são abatidos… para já. Mas já faltou mais…

A morte, esse desfecho que encerra a vida de todos, é uma certeza que aprendemos a ignorar no dia a dia, fingindo que não é connosco. Mas ela chega, porque nunca se esquece de nós. E então, ficamos tristes por perder algo que amamos tanto. É por isso que a perda de um parente ou amigo costuma ser devastadora. Ora, os animais de estimação ocupam lugares semelhantes na vida de quem os integrou na família e a dor de perdê-los é igualmente grande. Porque nos dão muito, em lealdade, em amor incondicional, em fidelidade. Como me dizia uma mulher simples da aldeia, “com um cão nunca estamos sós, nem sentimos a solidão. E ao chegar a casa temos sempre alguém à nossa espera, a receber-nos com expressões de alegria impensáveis num ser humano”. E, verdadeiramente, só cada dono é capaz de saber o quanto representa para si. Ninguém mais. Assim, a morte de um cão que esteja integrado na família não é diferente da perda de um ente querido, até porque de um ente querido se trata. E sofre-se com a sua perda, somente porque nos permitimos amar, retribuindo em singelo o que ele nos dá em dobro.

Morreu um cão… Era tido como membro da família que o adoptou, deixando um vazio e uma saudade enormes, um sentimento de perda que não se imaginava e para o qual não se estava preparado.

O cão que morreu tinha oito anos. Era uma fêmea dócil e dava pelo nome de Diana.

E eu sinto-me orgulhoso. Triste, mas orgulhoso, por poder dizer que tive o privilégio e a felicidade de ser seu dono…

Levantar cedo? Que sacrifício…

Nunca fui um “madrugador militante” e só em casos de extrema necessidade ou quando não tenho alternativa me submeto a esse suplício. Sim, porque é uma violência, muito especialmente para quem se deita quase à hora do galo cantar… Definitivamente, estou com os que dizem que só os tolos se levantam cedo. Os tolos e os necessitados. O homem não nasceu para acordar cedo, nasceu para acordar. Em lado nenhum está escrito que tem de ser cedo. Isso é só para os que dormem a correr… A natureza não nos criou com esse “defeito de fabrico”, é uma invenção da era industrial. E então, ter de acordar com o barulho estridente de um despertador enfurecido, é violência psicológica que mais parece uma tortura da Idade Média, deixando qualquer um traumatizado para o resto da vida. Para atenuar tal violência, já se desperta ao som da música preferida… que só o é, até se tornar a música do despertador. Todas as manhãs tenho muita vontade de acordar cedo mas, para ser sincero, a vontade de continuar a dormir é bem maior. Por isso, todos os dias luto comigo mesmo para saltar da cama para fora e, quando consigo, dou comigo a dormir em pé. É natural que, neste tempo em que se vive muito a noite e de noite, toda a gente desperta com uma grande vontade: De continuar a dormir. Até porque, o difícil não é o deitar tarde. Difícil, difícil, é acordar cedo. Quem comanda este mundo louco só devia autorizar o acordar sem ser ao compasso de horários, ao ritmo dos compromissos, dos toques do telefone, campainhas de rua ou de despertadores roufenhos, de ser cedo ou tarde, noite ou dia.

À medida que os anos passam, as coisas ficam mais complicadas para mim. Deito-me para recuperar forças e acordar renovado e fresco mas, na realidade, quando me levanto tenho o corpo moído, como se tivesse sido atropelado por um comboio. O que está errado? Só o facto de me ter levantado. Nada mais. Aliás, o meu corpo reage sempre negativamente a isso, pela manhã. Sem mais nem para quê, mal saio da cama desato a espirrar e só paro muito para além da meia dúzia de “Atchins”. Constipação? Nada disso. Trata-se de alergia pura e só pode ser ao “levantar”. Ou, quando muito, à “manhã”. Sim, alergia matinal, aos primeiros raios de sol, à luz do dia e tudo o mais que possa acontecer a essa hora.

Já foi tempo em que o Tónio Silva, vizinho dos meus pais e pedreiro de profissão, se levantava às cinco da manhã para ir a pé para o trabalho a quilómetros de distância, onde tinha de “pegar” ao nascer do sol. E só “arriava” depois do sol posto… para regressar a casa a pé. Aí, a “ditadura da miséria” impunha leis contra natura, como essa de ter de levantar cedo, quando o corpo pedia descanso. Como não havia televisão, o povo “deitava-se com as galinhas e, antes de adormecer, entretinha-se a fazer filhos. Era uma “ocupação” boa? Tão boa como outra qualquer. Daí haver “ninhadas grandes”…

Agora, não há nada disso. Vivemos (quase) todos agarrados à televisão que transmite toda a noite em “trezentos canais” diferentes, não deixando tempo para essa “outra distração”, pois até o cidadão mais enfezado tem de fazer uma ginástica do caraças com a mão para dominar o comando da TV, saltando de canal em canal. Claro que, assim, só pode ir para a cama às tantas da manhã, já sem físico nem paciência para “cambalhotas”. E depois, faz algum sentido ter de aguentar um despertador qualquer aos berros às sete ou antes? Não faltava mais nada.

Cá em casa já parti os despertadores todos à marretada, para não ficar qualquer fiozinho ligado, por mais pequeno que seja, que ainda permita chatearem-me a horas inconvenientes. Já não me conformo ao ser acordado por um despertador desafinado, quando não roufenho. Nem sequer pela Rádio Comercial… É que é muito difícil viver quando a gente se deita para dormir e, minutos depois, já é dia e hora de pôr o coirão fora da cama. Que culpa temos dos ponteiros do relógio andarem a grande velocidade quando estamos a dormir? Por isso, nas muitas vezes que acordamos de madrugada com vontade de fazer xixi, mantemo-nos no aconchego dos lençóis a lutar contra o “vou ou não vou” à casa de banho. E vamos aguentando na cama, divididos entre a “vontade” do xixi que não deixa dormir e o sono que não nos deixa sair da cama. Faz falta o velho “penico”…

Ninguém compreende os que defendem que nos devemos levantar cedo. Só se for para castigar o corpo ou para termos tempo de voltar para a cama… Esta coisa do sono é coisa séria. Um dia num Lar de Idosos (agora chamados de seniores ou “sessenta mais”), uma mulher gritava desalmadamente: “Ai, ai, ai…”. Aqueles gritos incomodavam qualquer um e a minha mulher, no seu habitual espírito de tentar ajudar, perguntou-lhe: “A senhora tem dores”? E a utente respondeu prontamente: “Tenho, tenho muitas dores”… “ E de que se queixa”, insistiu? E ela respondeu-lhe logo: “São dores de sono”…

O mundo evoluiu, há que reconhecê-lo. Se foi para melhor ou pior, não sei. Antigamente deitávamo-nos “com as galinhas” (isto é, cedo) e cedo nos levantávamos. Mas isso era antes… Agora, tiramos cursos de morcego, fazendo noitadas até às tantas da matina. E depois, ainda querem que se acordemos cedo… Mas o que é isso de “acordar cedo”? Às sete… da tarde? Ou tem de ser às cinco?

A Simone de Oliveira dizia numa entrevista que a pior coisa que lhe podia acontecer era ter de acordar e, quando se levantava de manhã (e para ela “manhã” era a partir do meio dia), sentia que “tinha cem anos ou mais”. Mas, à medida que o dia ia avançando, revivificava e rejuvenescia hora a hora, a tal ponto que, quando chegava à meia noite, era como se tivesse quarenta anos ou menos.

Nos últimos tempos a Luísa acorda quase sempre entre as sete e as oito horas da manhã e diz logo: “Quero ir embora”, que é como quem diz, “Quero levantar-me”. Bem enterro a cabeça na almofada, finjo que estou a ressonar ou digo que ainda não é dia, mas nada adianta. Tenho de a ajudar a levantar-se, com tudo o que isso implica… Mas pareço um zombie. E ela, apesar dos seus problemas de saúde, todos os dias se apercebe desse meu estado. E enquanto a estou a ajudar, no seu espírito solidário, diz-me sempre: “Estás cheio de sono. Vai dormir que eu levanto-me sozinha”… Vejam isto, até ela é a primeira a reconhecer que são horas impróprias para eu acordar. Por isso, meus amigos, deem-me uma ajuda e nunca me telefonem… antes do pôr do sol. Posso estar a dormir…

Uma época de pura felicidade…

Está a chegar ao fim o período de maior felicidade de uma mulher: A época de saldos, se bem que agora “já é Natal (quase) todo o ano”… Fazer compras, faz bem a qualquer mulher. Oh se faz… Por isso, após uma ida às compras, toda a mulher se sente alegre e volta para casa mais animada, revigorada. É que, se está deprimida, se lhe dói a cabeça, se não sabe o que fazer ou sem razão nenhuma especial, nada como uma ida ao shoping. É remédio santo para todos os males. Mulher às compras irradia felicidade, está no seu mundo. E quanto maior é o tamanho e o número dos sacos de compras à saída da loja, maior é a dimensão dessa felicidade. Até quando só experimenta um centena de sapatos na loja, sem comprar sequer um par, diz: “Depois eu volto”. Já o homem odeia essa viagem, detesta acompanhar a mulher numa ida ao shoping. Basta olhar para os sofás e bancos espalhados pelos corredores dos centros comerciais a abarrotar de homens com a mesmas “trombas” e olhar triste, à espera pela mulher que anda às compras… Têm todos o mesmo ar de desgraçados. E, vá lá, vá lá. Pior é para aqueles que têm de as seguir loja dentro e ser assistentes no programa completo delas, a experimentarem roupa ou calçado: “Este está apertado… aquele faz-me gorda… a cor desta não liga bem com o casaco…” E ver o ar infeliz por debaixo do sorriso profissional das empregadas, ao tirar e pôr artigos atrás de artigos das caixas e cabides, a dobrar roupa e voltar a arrumar a loja de alto a baixo. O homem sente-se envergonhado. Afasta-se e finge olhar uma coisa qualquer, para não ser tido por cúmplice no virar a loja de pernas para o ar.

Pois é, meu caro companheiro de desdita. Aqui estou eu a manifestar-lhe a minha solidariedade e dizer-lhe: “Não se sinta só. Há milhões de homens que odeiam ir às compras com a mulher… mas têm de ir. Conte com a sua solidariedade, com o mesmo sofrimento, porque é no sofrimento que as pessoas mais se aproximam. E todos nós sabemos que, acompanhar a mulher numa ida ao centro comercial, é tarefa pesada, muito pesada. E cara… É o chamado “frete supremo”… Eu sei com que cara fica quando está à entrada da loja à espera dela, fingindo ver montras ou ver as mensagens no telemóvel. A sua cara não engana e nem consegue esconder esse mal estar: Está desolado… Mas tem de estar por perto quando ela o chama… para pagar e carregar a mercadoria. Mas, do mal o menos. Ao ficar fora da loja livrou-se de “ser consultado” quando ela veste ou calça qualquer artigo: “Achas que me fica bem”? “Não é muito escuro”? “ Liga bem com os sapatos”? “Não me faz mais velha”?

Mas, preste bem atenção, para o caso de ter de funcionar como “consultor de moda”. Se ainda lhe resta uma pontinha de juízo, não responda. Abane com a cabeça como os burros, que bate certo com aquilo que ela quer, e não diga nada. Porque tudo o que disser, joga contra si. Se diz que fica bem, ouve logo: “Não vês que me faz gorda?”… Se diz o contrário, vai ter de ouvir: “Pois é, o que tu queres é que eu não gaste dinheiro”… E, mesmo quando sabe de antemão que não vai comprar nada, ela experimenta a loja toda… Como é possível? Não é para nós homens entendermos. Para elas, são “momentos de pura felicidade” à borla.

Um dos argumentos mais usados pela mulher para ir às compras é invocar a necessidade dele: “Estás a precisar de comprar calças. As que tens estão velhas”. “Tens de comprar camisas. As tuas estão puídas no colarinho”. “Andas sempre com a mesma roupa, precisas de ir às compras”… E ele, numa tentativa de evitar o “desastre”, argumenta: “Ora, ora. Tenho o armário cheio de roupa que não uso há muito tempo”… Mas, nada adianta. Ao outro dia o desgraçado lá vai atrás dela, arrastado e contra a vontade, a pensar para si próprio: “Que seja para desconto dos meus pecados”… No final, sem ter voto na matéria, sai carregado de sacos e caixas, que já não tem mãos que chegue. E a ele tocou-lhe um par de calças de marca que lhe custaram os olhos da cara, quando ficava bem servido com aquelas calças azuis que estavam no quinto saldo… É que assim, ela tem argumento para lhe dizer: “A tua roupa está muito cara”…

Se mulher adora fazer compras e de ficar horas numa loja, homem odeia. Enquanto ela anda feliz da vida, saltando de loja em loja, ele só é capaz de entrar se vir algo na montra de que goste. Nesse caso entra, aponta para o artigo da montra, pergunta se tem o seu tamanho, experimenta e, se servir, compra e sai. Dez minutos já é tempo demais para permanecer numa loja. Detesta experimentar artigos e não quer incomodar as empregadas. Só o indispensável. E até pede desculpa pelo incómodo…

Telefonou-me um amigo. Eram quase sete horas da tarde e ainda se encontrava num “outlet” lá para os lados de Vila do Conde, para onde tinha ido às três da tarde. Carregado de embrulhos, seguia a mulher de loja em loja, pois ela exigia a sua presença e a sua “opinião”, que é como quem diz, “não ter voto na matéria”. Estava cansado e farto mas não tinha “autorização” para o manifestar. Queria desabafar mas, além de o ouvir pacientemente, só lhe pude manifestar a minha solidariedade…

Na China, o problema é semelhante. Por isso, alguns centros comerciais resolveram o incómodo criando um “berçário” para homens, uma sala com poltronas para relaxar, ver televisão ou dormir, onde as mulheres que “não necessitam dos seus serviços” os largam, para felicidade deles. Mas não se esquecem de lhes levar o cartão de crédito…

Um artista que é “um espetáculo”…

Participei recentemente num congresso durante dois dias, ouvindo alguns palestrantes com prazer, enquanto outros só me conseguiram embalar, até me porem a dormir. Valeram-me os companheiros de jornada, já avisados: Quando ressonava mais forte, davam-me uma cotovelada, suficiente para acalmar o ronco e evitar com isso que os outros “acordassem”. Nesses dois dias havia um homem no auditório vestido de jeans e t-shirt, que carregava cadeiras e mesas, regulava microfones, organizava o palco, uma espécie de “faz tudo”, humilde e discreto naquela multidão de gente engravatada. No segundo dia, à noite, o programa deu-nos um espetáculo nesse auditório. Talvez por já ter dormido o suficiente com a intervenção de alguns palestrantes, alinhei no sarau. De início tocaram dois grupos locais, que ouvi com muito agrado e depois entrou o “arrumador” com uma viola regional e a mesma roupa com que andara vestido durante o dia. Regulou o microfone e pensei que deveria estar a prepará-lo para o artista seguinte. Mas não. Sentou-se, pegou na viola, chegou o microfone para junto de si e anunciou: “Agora vai tocar o porteiro”. E daquela viola regional a que chamam “viola da terra” e que noutras regiões do país apelidam de “braguesa”, “dois corações” ou “campaniça”, retirou uma música dedilhada com um virtuosismo impressionante, que deixou toda a plateia extasiada. Só tocou três músicas, entremeadas por conversa bem humorada e inteligente, que arrancou enormes gargalhadas à plateia. Quando terminou, foi aplaudido de pé, com o pedido para continuar. Mas ele pediu desculpa e não tocou mais, porque o espetáculo tinha de prosseguir com o programa previsto, de que ele era o responsável.

No dia seguinte procurei-o. Andava a preparar o auditório para a sessão de encerramento, com a mesma simplicidade, ficando até surpreendido por o abordar. Conversamos um bocado e, se já a sua música e a veia humorística me tinham impressionado no dia anterior, a sua humildade e modéstia despidas de qualquer sombra de vedetismo, deixaram-me rendido ao homem e ao artista.

Luís Gil Bettencourt é o seu nome. Músico, compositor e produtor musical, que mantem uma atividade na organização de eventos culturais, é natural da Terceira, nos Açores. Descendente de família de músicos, começou aos seis anos a tocar e cantar para os militares americanos da base das Lajes. Viveu a adolescência nos Estados Unidos com os pais e nove irmãos, a maioria deles músicos e fez parte de uma banda que atingiu grande prestígio. Mas deixou a terra do tio Sam para regressar ao seu país e aos Açores e “puxar” pela cultura das ilhas que são a sua casa. E fez disso a sua missão.

Na sequência da nossa conversa e de contactos posteriores, atuou recentemente no Auditório de Lousada. E, se dúvidas houvesse sobre as suas reais capacidades, dissiparam-se por completo ao longo dum espetáculo que o público (onde me incluía) não queria que acabasse. Desde o momento da apresentação até à última canção, transportou os espectadores numa viagem musical que começou nas ilhas e atravessou o país, tendo ele sido o cicerone e o guia, levando-os do riso às lágrimas, do silêncio ao coro geral da sala, com mestria e inteligência, na simplicidade e humildade de um grande artista.

Para introduzir uma canção de embalar, falou da sua mãe e de como ela lha cantava quando era pequeno. “Nós somos dez irmãos, quase todos ligados à música. E temos a sorte de nos darmos muito bem, de estarmos juntos muitas vezes. A minha mãe morreu nos Estados Unidos. Nos últimos dias, já era a máquina que lhe suportava a vida. Não havendo mais esperança, a família reuniu-se e deliberou que a máquina devia ser desligada. Coube-me a mim essa honra. Então, com os filhos à volta da cama, no momento em que eu desligava a máquina, todos em coro cantamos-lhe esta canção de embalar”. Neste momento a maioria dos espectadores estava com um lágrima no canto do olho. E ele, imediatamente e para quebrar esse momento carregado de emoção, acrescentou: “E ainda hoje não sabemos se a minha mãe morreu por eu lhe ter desligado a máquina ou se foi por cantarmos tão desafinados”… E as pessoas passaram das lágrimas ao riso, levadas por um artista completo, senhor do palco e do público com quem interagiu plenamente.

O seu irmão mais novo a quem ensinou os primeiros acordes da viola, é já há alguns anos considerado um dos maiores guitarristas do mundo e dá pelo nome de Nuno Bettencourt. E ele, que teve tudo para ser consagrado também no mundo da música, abdicou de uma carreira para se dar aos Açores, mantendo laços de amizade com muitas estrelas mundiais da música, algumas das quais faz questão de levar à sua terra em dois mil e dezanove, num festival invulgar na Lagoa das Sete Cidades.

Voltou a Lousada como amigo. Quando lhe disse que os UHF iam atuar à noite e estavam nos testes de som, quis dar um abraço ao vocalista António Ribeiro, seu amigo pessoal. Fui com ele junto do palco no centro da Vila mas só lá estava o pessoal auxiliar a testar o som. Músicos, nenhum. Então foi junto do controle do som e tentou falar com um membro da equipa. Muito educadamente, perguntou pelos músicos mas só recebeu indiferença e má educação, de alguém que se julga “importante” por trabalhar com os UHF. Mas ele, com humildade, disse-lhe que gostava de cumprimentar o vocalista. A indiferença e cara de poucos amigos do “manager” continuou a ser a mesma. Ao fim de alguns minutos, quando viu que nada havia a fazer ali, pediu-lhe: “Já agora, faça-me um favor. Diga ao António Ribeiro que o Luís Bettencourt esteve cá e lhe deixa um abraço”. O homem que permanecera sentado e indiferente durante a conversa, levantou-se como que impelido por uma mola e deu um grito de surpresa: “Luís Bettencourt? Oh que grande honra vê-lo aqui”… E desfez-se em amabilidades, cumprimentos e elogios, numa manifestação de imbecilidade e subserviência, a contrastar com a arrogância e indiferença de momentos atrás.

Como a conversa já vai longa e para concluir, um primeiro conselho: Se encontrarem um imbecil como este, armado em gente importante, ignorem-no. E um outro, que nunca devem esquecer: Se tiverem a oportunidade de ir a um concerto do Luís Gil Bettencourt, agarrem-na com unhas e dentes, porque ele é excepcional, como músico e humorista. E como homem. Como diria o Fernando Mendes, irão ver “um artista que é um espetáculo”…

Identificado o animal mais perigoso…

Só a criança ingénua e pura que havia em mim, me fez acreditar que o ser humano era como o vinho do Porto: Ficaria melhor com os anos. Acreditava mesmo que, geração após geração, numa aprendizagem constante, libertava-se dos aspetos negativos e evoluiria, tornando-se mais “humano”. Santa ingenuidade… À medida que os anos passaram e me foi dado conhecer os factos do dia a dia, desapareceu tal ilusão, deixando em seu lugar a certeza de um ser humano que é capaz do melhor e do pior, embora mais instruído, dotado de mais e melhores meios. Nem as guerras entre países, nem as lutas entre vizinhos e famílias, lhe serviram de lição para amaciar o bárbaro e cruel que tem dentro de si e que se vai manifestando aqui e ali, não só na sua relação com os outros seres humanos, como com os animais e o meio ambiente de que é parte integrante mas se julga dono. Quando na crónica anterior escrevi sobre a entrada em vigor da lei onde são reconhecidos os direitos dos animais de companhia ou estimação, não imaginava ter de voltar a este assunto uma semana depois, para manifestar indignação e revolta pelo comportamento de alguns seres humanos. O conhecimento de nova barbaridade pública sobre um cão pacífico, mostra a indiferença pela nova lei por alguns e aos direitos ali consagrados, à sombra da impunidade a que estão habituados. Quando a Teresa me mostrou as fotografias do estado em que a Lady foi encontrada pela Ana e seu pai, senti as lágrimas nos olhos e uma raiva tremenda contra o “animal” que fez tamanha crueldade sobre um ser pacífico e indefeso. Lembrei-me então do que disse a Silvana Lance: “Se os homens fossem um pouquinho mais animais, seriam mais gente”. Na página da Associação Lousada Animal de que é voluntária, a Ana Coelho publicou a notícia:

“Neste momento gostávamos de dizer várias coisas sobre este caso mas, infelizmente, não nos é permitido dizer tudo o que pensamos. Mas uma coisa podemos dizer: Desejamos que a pessoa que fez isto a este pobre animal tenha exatamente as mesmas dores que ela teve. Exatamente o mesmo desespero, exatamente a mesma fome e sede que ela teve durante a semana que esteve naquele buraco.

Esta é a Lady.

A Lady era uma cadela de rua, que tinha muito medo das pessoas. Dá-se muito bem com outros animais mas não com as pessoas. Sempre que um humano se aproximava dela, desatava a fugir sem olhar para trás. E, pelos vistos, sempre teve motivos para não confiar nos seres humanos.

A Lady foi deitada para um buraco no meio de uma quinta para morrer. Foi encontrada com um fio de cabo de aço amarrado ao pescoço e a outra ponta amarrada a umas silvas que lá se encontravam. Esteve naquele buraco durante uma semana ou, se calhar, mais. No momento em que reparamos no estado em que ela estava, caiu-nos o mundo aos pés. A Lady estava muito assustada, muito magra, cheia de fome e sede e, pior que tudo, estava com o pescoço completamente cortado. O desespero da Lady para sair daquele buraco foi tanto, mas tanto, que o fio acabou por dilacerar toda a camada muscular existente na zona do pescoço. E assim, ali ficou a Lady à espera da morte. Da sua morte, lenta e dolorosa…”

A Lady é uma cadela de rua que fazia duma quinta o seu mundo. Estava referenciada e era apoiada pela Ana, tal como a ninhada que tem. E foi nesse apoio continuado que a Ana se apercebeu de que algo de anormal lhe teria acontecido, para desaparecer de repente quando ainda tinha os filhotes a seu cargo. Durante dias procuraram-na por todo o lado sem lhe encontrarem o rasto, para além de um gemido leve que não conseguiam localizar. Só ao fim de uma semana a iriam encontrar naquele buraco, num estado deplorável de que as imagens publicadas na página da Associação dão uma ideia, bem longe do sofrimento a que o pobre animal esteve sujeito. E a Ana continuou:

“Agora a nossa guerreira está bem. Encontra-se internada no Breed – Hospital Veterinário de Paredes, mas terá alta em breve. A zona do pescoço tem uma infeção e terá de fazer pensos diariamente. Mas, tirando isso, a saúde dela está muito bem, o que é de admirar.” E faz um apelo: “Neste momento iremos precisar imenso da vossa ajuda. Iremos precisar de ração, iremos precisar de donativos e, o mais importante, iremos precisar de uma boa família que queira adoptar a nossa Lady quando estiver recuperada”…

Aqui relembro que a Associação Lousada Animal sobrevive à custa do trabalho dos voluntários e dos donativos e contributos destes e de alguns beneméritos, pois não recebe qualquer subsídio público. Não dispõe de canil próprio mas tem “famílias de acolhimento. E já salvou e entregou para adopção muitos animais… Um (pequeno) grande contributo para que tenhamos uma sociedade melhor. Pois, já Gandhi dizia: “A grandeza de uma nação e o seu progresso moral, podem ser avaliados pela forma como trata os seus animais”.

E a Ana acrescentou ainda, num apelo final:

“ESTAS SITUAÇÕES DE PURA MALDADE, TÊM DE ACABAR. As pessoas têm de perceber que os animais sentem dor, fome, medo, tal e qual como os humanos. É inadmissível em pleno século XXI ainda existir todos os dias casos destes.

AJUDE-NOS A FAZER JUSTIÇA, POR TODAS AS LADYS QUE SOFREM TODOS OS DIAS NAS MÃOS DOS HUMANOS!!!”

Cabe a cada um de nós denunciar os “animais” que cometem tais atrocidades porque, “o animal mais perigoso… é o homem”.

E seja solidário. Vá ao multibanco e dê um pouco de si, por muito pouco que seja, para ajudar a salvar a Lady e outras Ladys deste “mundo cão”…

Deposite o donativo no IBAN: PT50 0045 1325 40272039328 93

Eles sabiam que tinham direitos… Só nós é que não…

Até que enfim!!! Finalmente a lei pôs preto no branco um facto que era uma evidência, mas que muitos teimavam em negar: “Os animais de estimação não são coisas”. E, o curioso, é que os animais já o sabiam. Desde sempre… Só que muitos de nós, não. Ora, a lei veio reconhecer aos animais de estimação ou companhia, direitos relativamente à saúde, bem estar e não só. Até nos divórcios, os animais passam a ter o direito da “guarda partilhada”, isto é, de passar uns dias ora com um, ora com outro elemento do casal, como se de um filho se tratasse. Mas também há multas e até pena de prisão para quem os maltratar. Quero acreditar que agora é a sério… Apesar de termos evoluído na forma como tratamos os nossos animais de companhia, há ainda muito caminho a percorrer. Não falta por aí quem faça dos animais de estimação, especialmente dos cães, o saco de boxe onde se despeja a raiva e a frustração, a cobardia e o medo, através de pontapés, socos, pauladas e outras formas de agressão. E já nem falo na ausência de cuidados básicos como saúde e alimentação. E, quando já não servem para o fim pretendido (caça incluída), dá-se-lhe um tiro, amarra-se a um pinheiro no meio do nada, afoga-se ou abandona-se, com toda a descontração e estupidez natural. Toda a gente conhece exemplos deste tipo de barbaridades, como se ainda estivéssemos na idade da pedra…

Apesar disso, e independentemente da forma como cada um trata os animais, eles não se importam do lugar onde moram, se é palácio ou barraca, se o dono é rico ou pobre, gordo ou magro, nem a religião ou partido a que pertence. Ao contrário dos humanos. E são sempre uma companhia que não falha.

De entre os animais de estimação, dou primazia ao cão. É mais fiel, mais leal, mais companheiro. Alguns homens afirmam até que existem mais vantagens em ter um cão do que em ter uma… mulher. E fazem questão de as sublinhar.

Para começar, “se chegarmos tarde, atrasados ou pela noite dentro, alegres e com um grão na asa, vamos encontrá-lo sempre feliz por nos ver”… Por outro lado, “já alguma vez esperamos por um cão? Nunca. Está sempre pronto a sair connosco, a qualquer hora, em qualquer dia e em qualquer lugar”… E é sabido que “o cão ouve e respeita o dono, ainda que este lhe levante a voz ou grite”… “Se distraidamente e por engano o chamarmos por outro nome que não o dele, nunca se chateia, nem nos dá cabo da mona”… “Que se saiba, nenhum dono foi acordado a meio da noite pelo seu cão para lhe perguntar: Se eu morrer, vais arranjar outro cão”? De uma coisa podes estar tranquilo em casa: “Os pais do cão nunca te irão visitar, nem ficar para jantar ou dormir”… Também não te preocupes com o dinheiro nem com os teus bens porque, “nenhum cão te vai pedir emprestado o carro nem o cartão de crédito”. Ah, e “se chegares a casa a cheirar a outro cachorro, vai-te cheirar, cheirar, e continua a abanar o rabo de contentamento”… Por fim, e não menos importante: “Se por uma razão qualquer, ainda que remota, o teu cão te abandonar, não tenhas medo: Ele não leva nem exige metade dos teus bens”… Que mulher faria isto?

Quanto mais histórias da dedicação de cães pelo seu dono conheço, mais os seres humanos saem diminuídos da comparação com eles. E há tantas… Relembro uma: Mozart é considerado um dos músicos mais famosos e geniais de todos os tempos. Aos sete anos, na idade em que qualquer criança quase só pensa em brincar, já ele tocava, compunha e publicava obras musicais. Teve anos de honra e glória, sendo reconhecido por reis e rainhas de toda a Europa. Mas nunca soube lidar com dinheiro e, da sua bondade e genialidade musical, aproveitaram-se muitos oportunistas sem escrúpulos. Por essas e outras razões, já depois de casado, a sua vida desmoronou-se, acabando por ser abandonado pela mulher. Quando a mãe adoeceu gravemente, como não tinha dinheiro, vendia as suas composições musicais ao desbarato a troco de remédios. Depois da sua morte, triste e desiludido, adoeceu também e o único amigo fiel que nunca o abandonou foi o seu cão Pimperi. Ficou sempre a seu lado até à hora da morte, aos trinta e cinco anos de idade. Sem meios nem amigos, seria enterrado como anónimo numa vala comum. Quando a mulher soube da sua morte estava em Paris. Partiu logo para Viena, com o intuito de visitar a sua campa. Ao procurar no cemitério, ficou desesperada por não haver uma placa sequer que identificasse o túmulo onde Mozart fora sepultado. Apesar do inverno rigoroso, vasculhou o cemitério à procura de uma pista ou de um sinal. E ao procurar entre os túmulos, encontrou um pequeno corpo congelado pelo frio, em cima da terra batida. Foi então que reconheceu o cão de Mozart e assim identificou a campa onde ele estava enterrado. Hoje, quem visitar Viena pode ver o grande mausoléu onde está sepultado Mozart e o seu fiel cão.

A dedicação, lealdade e gratidão que os cães têm por quem a eles se dedica, não tem limites. É o caso do cão de Mozart. Indiferente à tempestade que desabava sobre Viena, foi atrás do carro onde seguia o caixão até ao cemitério. Mozart produziu obras memoráveis como “A Flauta Mágica”, “As Bodas de Fígaro” e “Don Giovanni” e muitos foram os que o admiraram, idolatraram ou dele se aproveitaram. No entanto, o amigo que lhe restou na hora da “partida”, foi o seu fiel cachorro que, indiferente à miséria, à chuva, ao frio e à tempestade, acompanhou o dono até à sua última morada e aí… morreu de amor e saudade.

E ainda há quem pense que os cães são “coisas”…

Quem come por gosto, não engorda…

Provavelmente, o melhor será desistir. Não tenho solução e não posso continuar a prometer a mim próprio que vou voltar a fazer exercício diário e uma alimentação equilibrada, sem gorduras, nada de pão branco, com pouco sal e zero de açúcar porque, quanto mais prometo, mais a “barriguinha” cresce. Vingança do corpo em relação à mente. Tenho uma enorme atração para o consumo de carne com gordura, provavelmente influenciado pelo tipo de alimentação que tive na infância. Em casa dos meus pais criava-se e matava-se todos os anos um ou dois porcos para consumo próprio, habitual nessa época em que quase não existiam talhos. E os porcos para serem bons, tinham de ser grandes e gordos. Muito gordos. Se possível com um peso superior a quinze arrobas (duzentos e vinte e cinco quilos) o que, só por si, era motivo de orgulho. Imagine-se então como ficava o dono do porco mais pesado da aldeia…

Se no dia da matança já havia grande azáfama lá em casa, no dia seguinte em que o porco era “desfeito”, mais parecia uma festa. O senhor Cunha era o “matador”, que tinha a função de matar os porcos lá de casa. Preservo a sua memória, até porque tinha sempre uma atenção especial para a pequenada. Depois de descer o porco que ficara pendurado durante a noite num gancho pregado na trave da loja, abria-o e, antes de o “desmanchar”, cortava uma febra para cada um de nós. Não resistíamos e íamos a correr assa-la na chapa do fogão, que já estava aceso para cozinhar os rojões. Depois das carnes serem colocadas na salgadeira entre camadas de sal, de se preparar a “massa” dos enchidos (chouriças e salpicões), servia-se ao almoço a rojoada acabada de cozinhar, feita sobretudo com carne da barriga, entremeada, com alguns rojões do “redenho” pelo meio (preparados a partir da gordura que envolve o intestino do porco). Achava-os (e ainda acho) uma delícia, embora agora sejam mal amados pelos dietistas… E eles é que mandam.

Como a qualidade do “bicho” era avaliada pela altura da camada de gordura no lombo, era tido como bom aquele que tivesse “uma mão travessa” de espessura. A carne era separada, salgada e depois defumada. Chamávamos-lhe a carne da “caluba”. Muitas fatias comi, com um simples naco de broa…

Ao recordar as pessoas dessa época, não me lembro de ninguém que fosse gordo (agora, para ser politicamente correto, tenho de chamar-lhes obesos ou fortes…) no sentido e dimensão que agora lhe damos. É verdade que se comia muito menos do que se come atualmente e também se fazia mais exercício, não porque se praticasse desporto mas porque o trabalho era braçal, as deslocações feitas a pé ou de bicicleta (para os mais felizardos). Mas ninguém desaconselhava o consumo de carne gorda. Pelo contrário, quem a não queria? Até era usada como “adubo” no “caldo” (hoje urbanizado como sopa), a principal alimentação do povo.

Agora, os porcos já não são o que eram. Criaram-se novas raças que só produzem febra, em resposta às exigências dos consumidores e dos conselhos de médicos e dietistas. E, ainda por cima, só são alimentados a ração, própria para não produzir gordura… Por isso, nos presuntos e enchidos, “a tradição já não é o que era”. São mais secos, duros e sem “aquele” paladar. Pouco mais nos resta que a carne de porco preto, essa sim, bem entremeada com gordura, mas muito mais cara. Para comprar, é precisa uma certa “coragem” ou não deixar os olhos verem o preço…

Durante décadas comi muita carne de porco, gorda quanto baste mas sem qualquer tipo de preocupação, não pensando no colesterol, no peso e noutros malefícios tão apregoados nos dias de hoje. E mantive o peso inalterável ao longo de décadas… Não sei se foi por a comer com prazer, por “dar à perna” com alguma regularidade ou porque, apesar de tudo, não se comia à descrição. Mas, tudo mudou. Agora chegou a minha vez de ter cuidado com a boca. É que olho para a “almofada” que trago à volta da cintura e não gosto. Daí as tais promessas a mim próprio que é desta vez que vou resolver o assunto, comendo muitos legumes, frutas e outras coisas que os “técnicos da desengorda” recomendam. Até já fui a uma nutricionista… Mas, apesar de ter “negociado” objetivos razoáveis, ainda não os atingi. Pelo contrário. Se nos primeiros dias a coisa até parecia estar a ir bem, cedo cedi à tentação de me desviar só um bocadinho (de cada vez) das suas recomendações…

Numa das viagens que fiz aos Estados Unidos há alguns anos, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas gordas que vi por todo o país, muitos deles jovens, altos e muito, muito pesados. Havia locais onde era quase um sim um não, com muitos deles a ultrapassarem os duzentos quilos. Encontrei diversas famílias em que todos os seus membros sofriam do mesmo mal. E, confesso, não esperava que esse fenómeno chegasse a Portugal, com a gravidade que lá vi. Mas, ao contrário do que eu previa, chegou, sendo hoje um problema de saúde pública, “visível” a olho nu.

No entanto, como sou defensor das tradições e dos nossos usos e costumes, acho que ainda temos uma saída para combater esse flagelo: Vamos esquecer as pizas e as lasanhas, ignorar os hambúrgueres da Mcdonald’s ou do Burger King e deixar de parar nas barracas de cachorros quentes. Em vez disso, voltemos a comer o cozido à portuguesa, os rojões à nossa moda, o presunto caseiro, a orelheira, os salpicões e as chouriças porque, só assim, poderemos ganhar “corpos Danone”, “físico de atleta” e outros atributos estéticos. Mas que esta alimentação tenha como “temperos” a moderação nas doses e o “dar à perna” como outrora, deixando a carripana na garagem. Assim, reabilitamos o porco na nossa alimentação e ganharemos sorrisos luminosos, em sinal de satisfação e prazer.

Importante, do nascimento à morte…

A cama, aquele móvel onde nos deitamos, descansamos, dormimos e fazemos outras “habilidades” bem mais interessantes, merece ser o objeto que mais devemos reverenciar, cuidar, dar atenção e até atribuir-lhe um “estatuto” especial, tendo em conta que é, provavelmente, o mais emblemático da nossa vida. Não digo que deveríamos andar com uma às costas mas, se pensarmos bem, os momentos mais marcantes da nossa existência, estão associados a ela. Ela é parte integrante do nosso quotidiano. E, “para começar do princípio”, a grande maioria de nós, foi “produzido” sobre uma cama, nalguns casos fruto de um “projeto” estudado e planeado e noutros, resultado de um mero acidente, de um imprevisto, do azar ou por algo que correu mal. O que acontece a muito boa gente… Com isso, há situações em que se arranja “um problema do arco da velha”… Bom, mas se grande parte dos humanos foi “concebido” entre ou por cima dos lençóis da cama, seja ela de madeira ou de outro material, também não é menos verdade que quase todos nós saímos da “chocadeira” onde andamos nove meses comodamente instalados até vermos “a luz do dia”, mais uma vez… na cama. Ou seja: Tanto a “entrada na linha de produção” como a “saída da fábrica”, tiveram (quase) sempre como palco, a cama. Só por isso, já seria motivo para ser um local de eleição (sem precisar de votos), de romagem e de referência na história de qualquer ser humano. Mas há mais, muito mais razões a ter em conta.

Onde é que nos enfiamos durante uma boa parte do dia? Na cama, claro. Só pelo tempo que ali passamos, é razão suficiente para ser tida como indispensável para nós, humanos. Será sempre o sítio onde estamos e estaremos mais tempo. Em nenhum outro permanecemos tantas horas por dia, tantos dias do ano, tantos anos da nossa vida. É mesmo caso único, um ritual que não dispensamos, até porque o nosso corpo o exige. E foi por isso que o ser humano a inventou e a fez evoluir ao longo dos séculos, desde as primitivas às versões mais modernas e sofisticadas, com um objetivo principal: Para nos estendermos ao comprido (e às vezes estendemo-nos mesmo…). Daí que, também associamos cama a descanso, a dormir, a retemperar forças, se bem que muitas vezes ao levantar estamos mais cansados do que quando nos deitamos (e não estou a pensar em qualquer tipo de “atividade extra”, para além de “passar pelas brasas”).

Se apanhamos uma gripe, onde é que os médicos nos mandam ficar? Na cama. E para curar uma constipação? Na cama. E na maioria das doenças? Na cama. Basta ir a um hospital para vermos que os doentes estão enfiados… na cama. A cama é meia cura. Há quem recomende até, para curar certas doenças, “a cama e um suadouro de quatro joelhos”… Por aqui se vê também a sua importância para a saúde física e mental do povo (diz-se que “dormir é meia mantença”).

E, para as “festas e diversões” íntimas de um casal, que melhor local se pode pedir além de uma cama? Nenhum. Por mais que a gente goste do chão (embora “cama de chão, é cama de cão”), sofá, bancada, mesa, banheira, carro ou barraca de campismo, uma boa cama continua a ser fundamental para esses “eventos”, especialmente quando o vizinho de baixo reclama ao mínimo ruído, ao mais pequeno “nheco, nheco” ou chiadeira… Através dos tempos as camas sempre foram o local preferido para a “luta corpo a corpo” entre homem e mulher. Sejam de madeira, de ferro ou outro material, com colchão de palha, folhelho, molas, espuma, água ou penas, silenciosas ou rangendo por forma a acordar toda a vizinhança, em tamanho de solteiro, de casal ou “king size” para que a “arena de combate” seja suficientemente espaçosa, é nelas que se fazem todo o tipo de jogos amorosos e joguinhos de estratégia, se usam as dores de cabeça ou de costas como desculpa, se chora e se ri, se geme e se grita, se é franco, se mente ou se finge. E funciona como um laboratório de novas “experiências”, das posições mais estranhas na “batalha corpo a corpo” a que o casal se propõe.

A cama foi e continua a ser um excelente local de negócios, melhor do que qualquer clube de empresários, mas onde o homem, por norma, sai a perder. É que, se há um “pato a depenar”, é ele. E está provado que, se a mulher souber do seu ofício, deixa-o mais “limpo” que um frango de aviário na vitrine do supermercado… Diria mesmo que, alguns, saem “com uma mão à frente e outra atrás” e felizes da vida por terem sido depenados. Como o mundo é estranho…

Desde que se vulgarizaram as máquinas de filmar e os telemóveis que gravam cenas em vídeo, as camas também viraram cenários para “filmes de animação”. Já não são só os realizadores profissionais de “filmes de ação” a utilizarem as camas para cenas bem escaldantes pois, agora, não faltam casais a agirem como realizadores e atores, protagonistas dos seus próprios filmes, fazendo da cama o seu palco, recinto de luta onde “vale tudo”. Na minha santa inocência, creio que o objetivo destes “artistas” é altruísta e puramente “didático”. A confirmar a minha dedução, está o facto dos vídeos se encontrarem disponíveis na internet gratuitamente, sem qualquer contrapartida financeira. E o “didático” (e já sou eu a especular), é pelo intuito de ensinar aos adolescentes de hoje matéria do foro anatómico do ser humano, quiçá de entretenimento que, com toda a certeza, os jovens de agora “desconhecem por completo”…

Mas, como vimos, se a sua presença é indispensável nos momentos cruciais da nossa vida, tanto na “produção” como na “chegada a este mundo cão”, no contributo para curar a doença e como local de descanso e lazer diário, de “entretenimento e prazer”, também é quase sempre nela que fechamos o ciclo da vida, onde “apanhamos a guia de marcha e partimos desta para melhor” (será mesmo para melhor?). Em suma, uma companheira de “viagem”, fiel e presente nos bons e maus momentos, do princípio ao fim do nosso tempo por cá (porque, por lá, não sei se há camas nem diversões…).

Afinal, quem manda lá em casa?

Somos uma sociedade machista e, nós homens, fazemos questão disso. Não é de agora pois, noutros tempos, essa característica era bem mais marcante. A mulher “sabia qual era o seu lugar”: A tomar conta da lide de casa, das crianças e dos velhos. O homem ia para onde queria e “não lhe dava cavaco”… Aliás, todos faziam questão de se afirmar como “o homem da casa”. E, mesmo nesse tempo de condicionamento da mulher, muitas vezes não passava de conversa de tasco (eram mais do que os cafés), para se exibirem diante dos amigos, quando não de plateias maiores.

A D. Antónia era uma senhora. Pela amizade que sempre tive com os filhos, ia muitas vezes lá a casa onde era tratado como um deles. Apesar de ser adolescente, gostava muito das conversas e lições que me deu ao longo de anos. Entre outras coisas, recordo como ela fazia questão de afirmar que, quem mandava em sua casa, era o marido. Achava isso natural e fazia questão que continuasse a ser assim. O marido mandava, era o chefe. Dizia ela que ele era “a cabeça” da casa e não queria essa responsabilidade para si. Mas, fazia questão de afirmar também que ela era “o pescoço”… E, enquanto “pescoço”, fazia rodar a “cabeça” para o lado que mais lhe interessasse… Mas ele seria sempre “a cabeça”… Por alguma razão se diz que “por detrás de um grande homem, está sempre uma grande mulher”. Será?

Apesar da grande evolução que houve na chamada “igualdade de género”, todo o homem que se preza faz questão de se mostrar aos amigos como sendo “aquele que veste calças lá em casa”. Afirma mesmo que lhe cabe sempre a última palavra. E, na realidade, é mesmo assim. Quando a mulher diz “Não há mais discussão, este ano quero fazer férias no Algarve” ele, como “homem da casa”, diz: “Está bem, meu amor”… A última palavra foi ou não foi dele?

O homem vai às compras ao supermercado ou ao talho mas, quem decide o que é preciso comprar? É ela, claro. É ela que lhe entrega a lista das compras, que lhe dá algumas dicas a ter atenção como o prazo de validade ou o tipo de embalagem ou o alerta para não ser enganado. Ele não passa do “moço de recados” e o resto, é conversa fiada.

Se o homem anda bem ou mal vestido, a responsabilidade é sempre da mulher. No entanto, nem é uma mentira dizer que somos nós que compramos a nossa roupa. De maneira nenhuma. Porque é isso que acontece quase sempre. Mas, para falar verdade, quem escolhe… é ela. E ainda bem porque a maioria dos homens não acerta com aquilo que deve vestir, na combinação das calças com o casaco, da camisa com a gravata mais adequada. Eu sou um deles, mas não posso confessá-lo… Não fica bem a um homem…

Está a pensar ir de férias? Faz muito bem. Vá à agência de viagens, peça catálogos e conselhos, anote os preços. Procure na internet os destinos exóticos com que sonha há anos. E espere que a sua mulher “decida” para onde vão… Porque a decisão final, é dela. Mas, para não ficar mal no filme, alinhe nisso, finja que a ideia de ir para aquela praia que você detesta é sua. Se o seu desejo era fazer férias noutro local que não o escolhido por ela, só lhe resta tomar uma atitude: Mude de opinião e “engula o sapo”. Para seu bem É que todos os homens estão conscientes que é melhor mudar de opinião e aceitar a opinião dela, do que comprar uma briga de que, com toda a certeza, vão sair a perder.

Se vai comprar casa, preste bem atenção: O vendedor vai ser simpático consigo mas ele sabe que, quem ele precisa mesmo de convencer, é a sua mulher, apostando especialmente na cozinha e nas casas de banho. E no bom gosto dela. A partir do momento em que ela está rendida, então sim, só lhe resta a si dizer a última palavra: “Sim, meu amor”. E passar o cheque de sinal…

A mulher escolhe os alimentos, a roupa, os produtos que consomem, o carro e a mota, o tipo de festa que quer dar naquelas ocasiões especiais e até os produtos tecnológicos. E você? Tem sempre a última palavra a dizer… E essa ninguém lha tira. Nem ela…

Claro que há alguns machões que, não sabendo como contrariar esse poder da mulher, recorrem à violência física ou psicológica, descarregando nela as suas frustrações e os seus medos. Usam a força para se impor, para a anular mas, verdadeiramente, nunca chegam a mandar porque vivem isolados na sua prepotência.

Mas, em muitas casas de família de hoje, o poder não está no homem nem na mulher. Também não caiu na rua. Nesses casos, está entregue a pequenos ditadores aos quais o casal se sujeita por inteiro, quase sempre de forma ridícula e absurda: Os filhos. Tantas vezes são eles que verdadeiramente mandam lá em casa e ai de quem não fizer o que eles dizem. Os pais, são meros criados que existem só para lhes satisfazer as vontadinhas todas. “Quero aquele brinquedo”. “Quero ir ao concerto da Madona”. Quero aquele vestido para ir a um casamento”. “Quero um Iphone 7 e um Ipad” não sei quantos. É só um “quero” sem haver lugar a negociação ou contrapartidas. Quer porque quer e não tem discussão. Senão, vai haver uma birra, uma choradeira de morrer, uma ameaça de que vai sair de casa .

Meus caros companheiros de gênero. Para nosso bem, não devemos ter ilusões. Se há alguém que não manda lá em casa, com toda a certeza somos nós. Por norma, esse poder pertence às mulheres. E assenta-lhes que nem uma luva, até porque são mandonas por natureza. E não escondem a vontade de mandar. Mas, se não o fazem descaradamente, usam as artimanhas femininas: A choradeira, a sensualidade e até o sexo. E aí, ponto final, parágrafo. Todo o homem dito “macho” cede e faz tudo o que elas querem… Embora no café, diante dos amigos, continue a afirmar que é ele “que veste calças lá em casa”. E eles fingem que acreditam, em sinal de solidariedade… Porque na casa deles, o filme é o mesmo…