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Será que também sou judeu?

Se somasse todos os minutos que passei na vida em frente ao espelho a cuidar da “caixa dos pirolitos”, diariamente, correspondia a cerca de cem dias seguidos. Ora, estar 100 dias a olhar esta cara que é a minha para nunca ter descoberto que “sou descendente de judeus”, das duas uma: ou estive sempre a dormir ou sou um descendente degenerado, que perdeu os traços característicos desse povo, como o nariz grande e curvo, testa alta, olhos redondos e escuros, além das clássicas boca e orelhas judaicas. 

Dizem os estudiosos que nos meus antepassados há judeus. E já agora, não se surpreenda porque o mesmo acontece consigo, tal como a grande maioria dos portugueses. Surpreendido? Também eu. Se calhar, talvez mal informado. Se o seu sobrenome é Almeida, Cardoso, Carvalho, Teixeira, Castro, Marques, Fonseca, Melo, Nunes, Pereira, Rodrigues e muitos outros de uma extensa lista, pode crer: “Tem costela de judeu”. O meu Machado no sobrenome também faz parte da lista, tal como o Lousada. Reza a história que a Península Ibérica no ano de 1.400 foi o centro do judaísmo no mundo. Quando perto do final desse século os judeus espanhóis tiveram de fugir da Inquisição no país para salvarem “a pele”, entraram cá em Portugal cerca de 100.000 que, ao juntarem-se aos outros 100.000 judeus que cá estavam instalados há muitos anos, passaram a constituir vinte por cento da população. É por essa razão que os historiadores dos “judeus sefardistas”, nome pelo qual são conhecidos os judeus com origem na Península Ibérica, dizem que a maioria dos portugueses tem raízes judaicas, e percebe-se porquê. Eu e você incluídos.

Vale a pena ler a história dos judeus sefardistas que aqui viveram e de quem, eventualmente, somos descendentes. Porque também aqui em Portugal a intolerância religiosa os obrigou a fugir por medo da Inquisição ou a converterem-se ao cristianismo (e chamados cristãos novos), numa altura em que encarnavam o mais alto nível cultural, estético e moral da Europa. Não deixa de ser curioso que, apesar de perseguidos, de queimados e mortos aos milhares como foi o caso do massacre de Lisboa em 1506, Portugal e Espanha permaneceram e permanecem ainda no imaginário das famílias dos seus descendentes mais de 500 anos depois, como Terra da Esperança e Prometida. Para muitos desses judeus, que nasceram e viveram as suas vidas fora e nunca puseram os pés em Portugal, o fim da história e o seu é cá, não em Jerusalém. Os descendentes daqueles que fugiram e se encontram espalhados pelo mundo, ainda hoje possuem chaves medievais das casas dos seus antepassados que viveram em Portugal, apesar das casas já não existirem. Após as muitas perseguições de que foram alvo, a cultura sefardista continuou ao longo de séculos conservando orações em português. Vendo bem, foram humilhações, perseguições, expulsões, conversões forçadas e massacres a mais para um povo só. Mesmo assim, sobreviveram a egípcios, babilónicos, romanos, persas, soviéticos, gregos, alemães, enfim, a todo o mundo e a saga continua. 

Mas, se for verdade que tenho uma parcela de judeu, também posso estar feliz por “fazer parte do povo escolhido por Deus”. Até porque, Jesus e os doze Apóstolos eram judeus, tal como Abraão e os muitos cientistas, historiadores e outros ilustres cidadãos do mundo que, em elevado número, ganharam o Prémio Nobel. Terá sido por acaso ou sinal de que são mesmo “um povo escolhido”, ao menos pelo júri que o atribui?

Se eu for judeu – e vou procurar uma empresas certificada que ateste isso em documento oficial, ainda que tenha de meter uma cunha ou dar um dinheirito por fora – passarei a pertencer ao povo de Albert Einstein a Ralph Lauren e Calvin Klein, de Anne Frank aos criadores do Google Larry Page e Sergey Brin, de Karl Marx, um dos homens mais influentes da humanidade, ao criador da Marvel e dos “heróis” Homem-Aranha e os Vingadores. Mesmo que não tenha sangue 100% judeu, pode ser o suficiente para ser um psicólogo como Sigmund Freud, talvez um criador como Levi Strauss (calças Levis), maestro como Leonard Bernstein ou filósofo como Milton Friedman, todos eles judeus retintos. E se tivesse o tal nariz grande e curvo, diria que era igual ao da Bárbara Streisand, do Dustin Hoffman, Harrison Ford, Jessica Parker e tantas outras estrelas de cinema, podendo vir a ser escolhido pelo tamanho da “penca” para fazer uma “fita qualquer”.

A verdade é que, podendo ter ou não algum sangue judeu, para além do tal “nariz adunco ou aquilino”, falta-me mais alguma coisa porque o sucesso, seja nos negócios, na criatividade, na investigação ou nas artes, não se alcança sem uma boa preparação e muito trabalho. E não é por acaso que são o país com a maior média de universitários por habitante no mundo e que produz em média maior número de documentos científicos.

Mas tudo isto para dizer que não sei se em mim corre sangue judeu, apesar de haver fortes probabilidades dado que eles chegaram a ser um quinto da população portuguesa, portanto, muitos de nós. E isso incomoda-me? De jeito nenhum, pois não é essa possibilidade que faz de mim um judeu. Tendo sido educado com a palavra “judeu” a ter uma certa carga negativa – e as razões dessa “sina” foram mudando ao longo dos tempos – aquilo que tenho lido sobre esse povo errante, sofrido e resiliente leva-me a ter por ele um enorme respeito. Diria até, certa admiração porque, apesar dos muitos condicionamentos, geraram entre os seus sem número de pessoas ilustres, muitíssimo acima de qualquer outro país em termos proporcionais, que deram um enorme contributo para o desenvolvimento económico, social, tecnológico e cultural da Humanidade e a quem se deve muito do nosso bem estar. 

Por isso, fica-me a curiosidade: “Será que também sou judeu”?

O papel passou à história? Não …

Mal acabei de nascer, os meus pais foram obrigados a juntar papel à minha existência: a “cédula pessoal”. Nela inscreveram o meu nome, o deles e registaram o dia em que vim a este mundo. Ainda a guardo “para memória futura”, embora “esteja fora de moda”. Já não se usa. Não me acompanhará até ao fim dos meus dias porque, entretanto, deu lugar ao “bilhete de identidade”, que também já passou à história e faz parte daqueles papeis inúteis que guardo zelosamente numa gaveta e que um dia alguém mandará para o lixo. Ora, recentemente, também este abdicou a favor do “cartão de cidadão”. Sim esse mesmo que, inicialmente, esteve para se chamar “cartão único”, cujo símbolo abreviado seria (CU). No entanto, o nome viria a ser alterado para cartão de cidadão (CC) pelo desconforto que seria ir ao banco ou a uma repartição pública qualquer e ouvir dizer: “mostre-me o seu CU”. Presumo que ficaríamos muito indecisos sobre qual deles mostrar… E o papel continuou a seguir-me no registo e assento de batismo, onde o meu nome ficou gravado, para o caso de vir a esquecer. A partir daí, nunca mais deixei de ter o papel nas suas múltiplas formas ligado à minha vida, numa parceria comprometida e muito empenhada. Basta ver os quilos e quilos que tenho espalhados pelos quatro cantos da casa, como “acumulador de lixo” que sou. Não posso deixar de dizer que uma boa parte do que tenho já devia ter ido para o “Papelão”, pois nem sequer dá para usar na casa de banho. Seria tão útil noutro tempo …

Na escola primária (no papel agora diz-se “básica”), aumentei o meu relacionamento com o papel, por ter de andar com cadernos de uma e duas linhas, sebentas e livros às costas, dentro de uma saca de pano feita pela minha mãe, numa grande proximidade. Fora da escola, não lhes dava “confiança” nem o uso necessário. E nem sequer lhes fazia companhia. Tinha até uma certa alergia ao “papel” … Aproveitava o papel do jornal “O Comércio do Porto” que o meu pai comprava ao domingo, cortado aos bocados, para “serviço de limpeza” …

À medida que fui avançando nos estudos, maior era a carga de papel que eu carregava às costas, porque maiores eram os livros, cadernos e apontamentos, para além de mais numerosos. E vieram os testes, as cartas, as revistas e os livros. E até o papel higiénico (em substituição dos jornais), num aumento crescente desse “casamento” invisível do papel comigo, nas suas variadíssimas formas. Tornei-me dependente deste material, tal como a maioria das pessoas, que se foi infiltrando na minha vida de forma continuada e cada dia mais intensa, como na vida de todos nós. Mais ainda, tem sido em papeis mais ou menos elaborados, que tenho recebido certificações, diplomas, atestados, cartões de identificação e outras inutilidades semelhantes que nós teimamos em multiplicar como se fossem importantes. 

Ao entrar na vida profissional passei a fazer parte da legião de consumidores de papel em tantas e tantas finalidades, que seria impossível descrevê-las na totalidade. Das simples instruções aos relatórios, dos folhetos publicitários aos cadernos de encomenda, dos bilhetes e manuais aos inquéritos, quantas vezes de forma quase obsessiva, indiferentes ao que é necessário “destruir” para se poder produzir o papel. Durante muitos anos foi através do papel, em carta ou postal, que as pessoas comunicavam entre si para tratar de negócios e em cartas amorosas, longas e ternas. E vejo uma pequena fração desse uso e abuso nos montes de livros que se arrumam cá por casa, a par das numerosas pastas, revistas, registos médicos, bancários, fiscais e contabilísticos, para além das caixas e gavetas de todo o tipo de recibos da água à eletricidade, do calçado à roupa, do supermercado ao combustível e tantos outros. 

Mas a tecnologia, mais do que as lutas em defesa do meio ambiente e dos recursos naturais, deu o pontapé de saída com vista à redução do consumo de papel através daquilo que se chama a “desmaterialização dos processos administrativos”, fazendo substituir o registo em papel por registos informáticos a partir de moderníssimos computadores com capacidade de armazenagem incrível, que permitem “guardar” grande quantidade de dados em pouco espaço que, se fosse em papel, exigiria grandes áreas de arquivos, muito mais caras e de consulta muitíssimo mais difícil. Essa tecnologia vem eliminando de variadas formas a utilização de papel, desde as agendas agora substituídas pelos telemóveis, os livros impressos trocados pelo formato digital, os projetos de construção tanto na sua apresentação às entidades licenciadoras, concursos e tudo o mais. Até as enciclopédias, de que tenho cá em casa uma de vinte e tal volumes que me ocupa a fiada do meio de uma grande estante e está “novinha em folha”, já deixaram de ser vendidas porta a porta por vendedores aguerridos porque o acesso à internet permite fazer todo o tipo de consultas sem que tenha de se investir “uma pipa de massa” e ter uma estante ocupada, se bem que continua a ser “um bom elemento decorativo” na sala (é para isso que muitas servem). Com a chegada dos “livros digitais”, que dizem ser o futuro, qual será o futuro dos livros de papel? Será que é mais um alívio para o consumo de papel, como o é nos jornais “on line”?

Ainda não acompanho os meus filhos na dispensa do papel em coisas triviais. Quando precisam de registar a marca de um produto ou tipo de embalagem, “sacam” do telemóvel, tiram uma fotografia e enviam-na de imediato por mail para a loja com a encomenda respetiva, sem perda de tempo nem consumo de um bocadinho de papel sequer. Já eu, que estou formatado noutro registo, tenho de agarrar na agenda ou num bocado de papel e tomar nota do produto, referência, quando não de dados sobre a cor da embalagem. Na realidade eles são mais práticos, mais eficientes e muito mais ecológicos nisto de poupar o recurso natural de que se faz o papel. 

“O papel passou à história”? Não, nada disso. O papel é importante nas nossas vidas e continuará a ser, embora seja preciso reduzir o seu consumo. Apesar da tecnologia dar uma excelente ajuda, ainda há um longo caminho a percorrer …

O silêncio do dia um e as promessas…

Está visto. No primeiro dia do ano não há madrugadores. E percebe-se porquê: todos querem prolongar o mais possível o Ano Velho como se tivesse sido o melhor das suas vidas, adiando dessa forma a “verdadeira” entrada no Ano Novo. Ninguém quer confrontar-se com a dura realidade de que nada muda senão o dia e a data. Por isso, fica-se a festejar (alegadamente) até às tantas a partida de um ano onde todos sabem o que aconteceu e dão-se as boas vindas ao que chega, esperando-se generosidade, o que é sempre uma incógnita. 

Pensando eu que seria um dos últimos a levantar-me, fiz questão de “madrugar” saindo da cama às 10H00 da manhã. Aliás, já não aguentava mais com o barulho dos foguetes que teimaram e insistiram em lançar a partir das oito horas da manhã, num carrocel sonoro pouco agradável para quem tentava dormir, vindo ora de um lado, ora de outro. Calculo eu que devem ser “as sobras do Natal”, porque ninguém no seu perfeito juízo pode contribuir com um cêntimo sequer para o foguetório que lhe vai atazanar a paciência e acordá-lo quando só quer dormir. E o pior é que os responsáveis por esse “massacre” não são capazes de se juntar e concertarem a hora para, em uníssono, despacharem todas as “sobras” de uma assentada. Cá por mim, podia muito bem ser às cinco da tarde, a hora decente pois já ninguém deve estar a dormir, embora todas as horas são más para acordar o Zé. Mas não. O fogo começou cedo vindo do lado onde nasce o sol e, depois de meia dúzia de “bombas”, acabou-se. Alguns minutos depois houve uma descarga vinda do “sol posto” e parou depressa. O “material de fogo” devia ser pouco. Do Norte soaram os primeiros disparos vinte minutos depois e assim sucessivamente, de um lado e do outro, mais longe ou mais perto, para melhor nos “moerem o juízo”.

Passava das dez da manhã quando, bem agasalhado porque o tempo não estava para brincadeiras, saí porta fora, desci a ladeira e fiz-me à estrada no circuito do costume, “tropeçando” num silêncio de morte. Parecia que estava sozinho cá na terra, num silêncio geral. As casas, de persianas descidas e portas cerradas, sem gente à vista nem sinais de vida, mais pareciam jazigos. Nem sequer os cães do habituais nos vieram “saudar” com alguns latidos. Também terão feito noitada? As ruas estavam desertas de carros e pessoas, e até os habituais “atletas de fim de semana” com que me costumo cruzar, “fizeram gazeta”. Em todo o trajeto cruzei-me somente com meia dúzia de “madrugadores” e automóveis. Fora isso, silêncio. A maioria das pessoas preferiu ficar em casa para recuperar da noitada e não quis “mergulhar” logo no ano dos dois vintes. Noutros tempos, eu estaria em retoma após uma noite a cantar as Janeiras de porta em porta, de petisco em petisco, de copo em copo. Mas isso foi no tempo em que o frio não me pegava …. 

Nesse dia fui almoçar ao Porto. A anormalidade continuou no trânsito reduzido na autoestrada, nos acessos à cidade (não me lembro de ver tão pouco movimento) e dentro desta, dando a entender que grande parte das pessoas estavam a ganhar coragem para enfrentar o Ano Novo. E o dia era tão estranho, que até os “supermercados”, aqueles bastiões do consumismo que raramente “dão baldas”, fecharam (sem ser para balanço). Estão a “prometer mudar” ou é só “fogo de vista”?

Tenho de reconhecer que a época natalícia é muito perigosa para nós, porque dura muito tempo. São dez dias de festa, convívio, encontros de família, rever amigos e matança do porco. Dizia-me uma senhora que o pai, emigrante em França, veio cá passar o Natal com a família tendo chegado pouco antes da consoada. Durante os dias esses dias de férias, foi almoço atrás de almoço, jantar atrás de jantar, rodando de sua casa para a casa da cunhada e desta para a outra filha, sem interregnos.

E todas as refeições eram uma celebração. Foi a noite de consoada, o almoço de Natal que continuou noite dentro em jornada contínua, o almoço da Feira de Ano e muitos outros porque além da Noite de Fim de Ano, houve ainda o primeiro dia de Ano Novo, a Noite de Reis, a matança do porco lá em casa, a “desfazedura” do porco, a feitura dos rojões e dos enchidos, tudo isto repetido em três casas, em “viagem” gastronómica contínua que deu cabo das dietas. Claro que, com este “tratamento”, não há quem resista, muito menos numa noite quase sempre longa, onde os “usos e abusos” são normais e “perdoáveis”.

Por isso, promete-se mudanr nos dias que se seguem na alimentação, no exercício físico, nas relações, nos gastos, como em muitos aspetos da nossa vida. Mas a verdade é que o dia de amanhã é muito semelhante ao de ontem, tal como ao de hoje. Todos têm vinte e quatro horas e a vontade não se mexe ao ritmo dos nossos desejos. Exige bem mais esforço do que estamos dispostos a dar. Promete-se mudar de vida, embora já se tenha dito isso nos anos anteriores. E sei como é porque, depois de três meses a fazer exercício regularmente num ginásio, parei em Junho com a desculpa de ir fazer o “Caminho de Santiago”. No entanto, quando regressei fiquei em casa com nova desculpa: precisava ainda de recuperar até ao fim do mês. No mês seguinte, achei que “não tinha recuperado” do esforço e prometi a mim mesmo regressar aos exercícios antes de Agosto. Certo é que já estamos em Janeiro do ano seguinte e farto de renovar a promessa de regressar ao ginásio onde, devo dizê-lo, me senti muito bem. Ainda não fui, mas uma coisa é verdade: continuo a prometer que um dia destes vou regressar … da mesma maneira que continuo a prometer que vou fazer dieta e, a partir de agora, só comer comida saudável. Onde é que eu já ouvi isto?

“Sopas de cavalo cansado” e outras …

Ainda hoje tenho saudades da comida da minha mãe, apesar dos muitos anos que já me separam da infância. Retenho memórias dos seus cheiros e dos sabores que lhe são característicos e que o tempo não esbateu. De tal forma que, quando a vida me fez sair de casa e tomar outro rumo, custou-me bastante a adaptação a novos aromas e paladares bem diferentes daqueles a que estava habituado, que eram as minhas referências gastronómicas. Numa cozinha simples, com um fogão a lenha que eu gostava de alimentar metendo cavaco atrás de cavaco, mas com todas as cautelas para não me chamuscar, dotada somente de dois tachos e outras tantas panelas, não havia máquinas nem apetrechos de cozinha como hoje. No entanto, a comida sabia tão bem, que não esqueci nunca. E nem eram os cozinhados mais complicados que me atraíam e que eram muito raros, mas as coisas simples desse tempo em que não havia margem para escolher: era aquilo ou então, “aquilo”. A “escolha” estava feita por natureza. Mas a comida da minha mãe tinha um paladar tão próprio!!! …

Em casa dos meus pais a carne de porco era a eleita porque o pai não gostava de carne de vaca. Por isso, seguia-se a tradição matando um porco no inverno segundo os usos e costumes da região, que acabava guardado na salgadeira, a forma tradicional de conservar a carne, até porque não havia frigoríficos nem arcas. E tinha der ser gordo, muito gordo mesmo, pois na aldeia havia uma espécie de competição para ver quem tinha o porco mais pesado. Era normal matarem-se porcos com mais de quinze arrobas. Dali saíam os presuntos, pás e “calubas” para serem dependuradas na cozinha tradicional em casa da minha avó, juntamente com os enchidos, salpicões e chouriças de sangue, e tudo o mais “rendia” ao longo do ano. Do porco, entre outros, ficou-me o gosto pelos ossos de assuã (ou de assuão) no caldo verde. Os ossos são cozidos no próprio “caldo” e a sua gordura dá-lhe um sabor especial. Assim preparado, o caldo verde era servido em prato ou numa enorme “malga”, regado com um fio de azeite e muitas vezes coberto com folhas de hortelã (dizia-se que eram boas para combater as “bichas”). 

Em simultâneo com o caldo, ia-se rapando dos ossos, pacientemente, a pouca carne que lhes estava agarrada, ficando o “tutano” para o final. Certo é que, agarrado ao osso, não ficava um bocadinho de carne sequer. Quem não gostava desse “excesso de zelo” era o cão… 

No dia da “desfazedura do porco” também se preparavam os rojões num grande tacho, usando para o efeito quase só carne da barriga porque os rojões entremeados eram (e são) os melhores. No meio deles havia uns especiais, os “rojões do redenho”. Para quem não conhece – e ainda há um ou outro restaurante de comida tradicional que os tem na sua ementa – são feitos com a gordura que envolve os intestinos e que, posta a “regir” juntamente com a carne dos rojões normais, dá esse produto saboroso, desaconselhado por médicos e excluído da dieta alimentar pelos nutricionistas dado o seu elevado teor em gordura. Mas que são saborosos, não há dúvida.

Como a comida era escassa, sempre que era possível deitar a mão a alguma coisa que se “trincasse”, não se perdia a oportunidade, muito especialmente à tarde. Bastava uma fatia de carne gorda defumada sobre um pedaço de broa para me parecer um grande manjar ou até uma cebola crua. Talvez por a ter comido com frequência, ainda hoje me sinto atraído por cebola crua e não consigo disfarçar, embora também goste dela assada, frita ou até cozida. É normal nos assados, cozidos, saladas ou noutro prato qualquer em que venha envolvida, dar sempre comigo a tirar dose reforçada, mesmo que tenha de ouvir frequentemente um “vais ficar a cheirar a cebola”. Continuo a gostar mais dela crua, em natureza. E há duas maneiras de a consumir que vêm desses tempos de infância e que já tinha posto de lado há muitos anos. Uma delas só é possível pouco tempo depois da plantação do “cebolo”, depois dos bolbos se começarem a formar e ao atingirem a grossura de um dedo. Arrancam-se com rama, limpam-se as folhas velhas, corta-se a ponta da rama e passam-se por água. Prepara-se numa malga o molho, com azeite, vinagre tinto e sal grosso. Cortam-se as pequenas cabeças da cebola em quatro e vão-se molhando à medida que se vão comendo. São sempre boas, tanto a acompanhar a refeição como numa petiscada. Agora, voltaram a fazer parte do meu “cardápio gastronómico” a partir do momento em que cá em casa se começaram a plantar no pequeno “quintal” ou quando pessoa amiga se lembra de mim. 

Também gosto de cebolas grandes cruas, com sal grosso, daquele que é usado para salgar os porcos. Descascadas e abertas em quatro, com o sal metido no meio e apertadas para entrar bem, são uma delícia. Mas não posso abusar. Não que a cebola me faça mal, mas pelo mal que o excesso de sal faz à minha tensão arterial. Acompanhada com um naco de broa e, claro, regada com bom vinho tinto, diz o povo que “sabe a galinha”. E vá-se lá saber porquê…

Nesse tempo distante em que a comida era pouca e havia “deficit” de calorias na alimentação, rigorosamente ao contrário de hoje em que os excessos alimentares são mais que muitos, nalguns dias quentes de verão a minha mãe fazia o favor de me preparar “sopas de cavalo cansado” a meio da tarde. O nome deste “reforço alimentar” parece resultar de alguém, com ou sem intenção, ter recuperado as forças do seu cavalo com este alimento. A minha mãe usava uma grande malga (agora chamada de tigela) onde misturava broa desfeita, vinho tinto e açúcar amarelo e estavam feitas as sopas, que comia com prazer. Por isso, ainda agora quando me lembro delas na época estival, vou até à cozinha e preparo essa “velha receita” a que alguém deu o nome de “sopas de cavalo cansado” e acompanho com uma tira de “bacalhau da peça” para contrastar o doce com o salgado. E, embora já não sejam necessárias como fonte energética como o eram antigamente, continuam a ser uteis, quanto mais não seja para aplacar a saudade …  

Uma “sociedade” de equilíbrio difícil …

Tenho plena consciência de ter vivido em criança numa sociedade de homens em que as mulheres só obedeciam. O homem “caçava”, isto é, tinha o encargo de trabalhar e de angariar os meios para sustentar a família, enquanto a mulher tomava conta da casa e da prole. Por isso, era o homem quem mandava e quando dizia “é para ali”, era mesmo. Bom, não era bem assim porque, para as mulheres que “soubessem dizer-lhe para onde deveria ir”, ele ia. Mas, para fora, era ele a decidir. Com a passagem dos anos e a crescente emancipação da mulher, esta passou a estar em pé de igualdade (em teoria) com o homem, embora a prática nos viesse a mostrar em muitos casos uma outra realidade, fruto de causas que os sociólogos sabem identificar melhor do que eu. Daí as vítimas de “violência doméstica” em que a mulher domina nas estatísticas. No entanto, também lá estão homens como vítimas, embora (quase) ninguém fale deles, sendo ignorados pela imprensa, ausentes dos debates televisivos, esquecidos na legislação e excluídos dos sistemas de proteção. É verdade que a emancipação delas alterou a relação homem/mulher tornando-a menos submissa por parte do “sexo fraco”, mais competitiva, dura e combativa. E nesse processo, algumas mulheres “libertaram” a sua veia de “mandonas”, acabando por fazer dos homens “gato sapato”. O curioso é que isso agradou a muitos e foi de encontro ao seu comodismo, tendo eles sabido tirar proveito para terem mais espaço, tempo e até tranquilidade nas suas vidas pessoais, numa relação de interesse que não é saudável. Enfim, estrategicamente, tornaram-se uns “paus mandados”. No entanto há os que se sentem atingidos na dignidade pessoal, no seu “Ego” de macho latino e nesse caso, quando aguentam, “a pressão na panela” aumenta podendo tornar-se insustentável, quando não estoirar …

O cenário real é uma habitação da região. Gracinda (nome fictício), pega no telemóvel, marca um número e, quando atendem, pergunta: “Onde estás”? Do lado de lá responde-lhe o marido. Ela não desarma e ordena: “Vem já para casa”. Mas ele recusa-se a fazê-lo no imediato alegando que está a jogar o dominó com os amigos. Sem esperar mais e com modos rudes, desliga o telemóvel, vai à sala, pega nas chaves do carro e sai disparada porta fora. Em dez minutos chega ao tasco e entra de rompante sem cumprimentar, direta ao reservado onde se encontra o homem. “Vamos embora”, ordena-lhe ela, indiferente à presença dos amigos dele. E aquele “homenzinho”, envergonhado à frente dos seus pares, mas sem querer fazer escândalo, despede-se pedindo desculpa e sai vermelho de raiva com ela colada atrás. Mal arrancam, ele encosta-lhe o punho fechado à cara e, com voz rouca, ameaça: “Não voltes a fazer-me isto”. Mas ela não o teme e provoca-o: “Queres-me bater? Bate!!! Ou não és homem suficiente”? E indo ainda mais longe: “Não tens os t… no sítio para me bater”. Essa provocação acabou por lhe correr mal como contou mais tarde, embora convicta que tinha agido bem, afirmando solenemente que “ele vai acabar por fazer tudo aquilo que eu quero” … (em abono da verdade, já começou a “educá-lo”, ao ponto de afirmar que “ele já faz xixi sentado” …). 

A falta de respeito pela individualidade do outro, que é frequente dos dois lados do problema, leva a que se queira moldar o conjugue à sua “imagem e semelhança”, não aceitando as diferenças, embora todos sejamos diferentes. E é essa vontade de querer “anular” a maneira de ser do seu par e “recriá-lo” à medida dos seus gostos pessoais que faz com que a relação esteja condenada a prazo ou seja uma hipocrisia. 

“A mulher entrou no oculista, dirigiu-se ao empregado e enquanto lhe entregava uns óculos disse sem rodeios: “Venho-lhe cá devolver os óculos que comprei para o meu marido, pois ele continua a não “ver” as coisas à minha maneira” … Esta anedota que me enviaram há dias, é bem o reflexo duma realidade escondida em muitas relações, umas vezes em pequenas coisas que o homem nem sequer valoriza ou até lhe é conveniente, mas noutras onde tem tudo para que corra mal. É dos livros que “homem e mulher são muito diferentes” e têm muita dificuldade em comunicar e entenderem-se. Assim se conta que “um arqueólogo descobriu numas escavações uma velha lâmpada. Quando a esfregou para lhe limpar o pó, surgiu um génio a dizer: – Por você me libertar, pode pedir um desejo. O arqueólogo pensou, pensou e lá pediu: – Quero uma autoestrada com duas pistas da Suécia a Portugal. O génio abanou a cabeça: – Acabo de chegar, estou cansado e faz-me um pedido tão grande e tão difícil? Peça outra coisa. Ele pensou um instante e disse: – Gostava de poder comunicar com as mulheres. O génio arregalou os olhos, abanou a cabeça e respondeu: – Voltemos à autoestrada. Quantas pistas quer”? 

Como hoje faço o papel de “advogado do diabo”, acho que conviver com uma mulher que não admite ser contrariada, vive estabelecendo regras e controla cada passo do seu “mais que tudo”, pode ser um grande problema. E mais difícil ainda é quando exige que ele cumpra as regras que ela impõe. Muitos são os que, para não se “chatearem”, “deixam correr o marfim”, acomodando-se. Mas quando o “espírito de mandona” cresce e fica fora de controle, a “chatice” pode passar a problema e o “caldo fica entornado”, nunca se sabendo quando e como vai terminar. 

“Depois de chegar do emprego, Ana (nome fictício) “preocupa-se” com os filhos e as refeições de família, adotando “táticas” próprias. Para os filhos, telefona a diversos familiares até encontrar alguém que “tome conta” deles. Quanto às refeições, “salta” da mãe para a sogra e desta para a mãe, apanhando “boleia” ora numa, ora noutra. Quando não consegue, espera que o marido chegue de um dia longo de trabalho e diz-lhe em tom autoritário: “Vamos comer fora”. E vão. Mas não lhe basta isso, pois toda ela é exigências sem reticências, despesas sem se preocupar de onde vem o dinheiro, imposições sem permitir recusas ou hesitações. E ele, frustrado e incapaz de se impor talvez a pensar nos filhos, vive recalcado, remoído e vai confessando por aí a sua desdita, especialmente quando bebe uma pinguita a mais. Até um dia. Mas, pior ainda, é a frequência com que ela o vai procurar ao café ou a outro local e, sem qualquer tipo de recato, ordena: “Já à minha frente para casa”!!! E ele, pobre coitado, de “rabinho entre as pernas”, com ela “a morder-lhe os calcanhares”, lá vai, revoltado e impotente. Até um dia” …

Qualquer relação séria começa pelo respeito de um para o outro. Se não for assim, está condenada a prazo. E, porque a tradição tem muito peso e ainda diz que “quem veste calças em casa é o homem” (se bem que lá dentro é ela que manda), envergonhá-lo em público é um ato perigoso de desrespeito e humilhação, com consequências imprevisíveis.  

Para estas duas mulheres que aqui trago à cena, tal como para muitos outros homens e mulheres capazes destas indignidades, apetece-me citar-lhes um pequeno trecho de Balzac: “Estas pequenas misérias, repetidas por várias vezes, ensina-os a viver sozinhos no seio do seu lar, a não dizer tudo em casa, a não se confessar senão a si próprios e passar a pôr muitas vezes em dúvida que as vantagens de ter um leito nupcial sejam superiores aos seus inconvenientes” …

O “reverso” da medalha de guerra …

Participei na guerra do ultramar ao serviço do país, como a maioria dos jovens da minha geração, e não me sinto menorizado por o ter feito, mas isso não é a razão desta crónica. Fui parar a Moçambique com mais de dois mil militares a bordo do superlotado NIASSA, numa viagem épica de quase um mês, lembrando um pouco o tempo das caravelas. Desembarcamos em Nacala e rumamos para o interior com destino à zona que tem o nome do barco que nos levou, começando a viagem de comboio, para continuar em camião com ferry pelo meio. Embora o comando do batalhão tenha ficado em Mecula, a minha companhia seria colocada em Nantuego, onde praticamente não vi sinais de guerra. Alguns meses depois mudamo-nos para o Kandulo, terra que não vem no mapa porque, para além do aquartelamento situado no meio de nenhures, não havia mais nada. E caímos no meio “deles”, terroristas de então, “amigos” de agora.

Uma noite sofremos um ataque violento, com metralhadoras, armas ligeiras e morteiros. Dormia num beliche na cama de cima e acordei deitado no chão ao som dum tiroteio infernal, vendo as balas de rasto tracejante passarem-me por cima da cabeça, pensando então que estariam a atravessar a parede de adobe, quando afinal só estavam a perfurar a cobertura de chapa. 

O meu conterrâneo Agostinho era o responsável do morteiro, localizado no centro do aquartelamento e foi ele e os seus subordinados que rechaçaram o ataque com algumas morteiradas, pondo o inimigo em fuga, o que lhe valeu uma medalha de cruz de guerra, o direito a umas férias no continente e … a inveja de todos nós.

No meio do tiroteio um soldado saiu a correr da caserna em direção ao abrigo, mas não se apercebendo de um arame para secar a roupa, foi apanhado pelo pescoço dando um trambolhão. “Ai Jesus que já me acertaram”, gritou ele. Mas, apalpando-se e vendo não ter sido ferido, voltou a gritar, retomando o caminho para o abrigo: “Afinal, não me acertaram, não, não me acertaram não.”  

A nossa companhia ainda seria transferida por algum tempo para a sede do batalhão em Mecula, antes deste ser deslocada para Tete, onde ficamos os últimos meses da comissão, para uma espécie de “repouso do guerreiro” antes do regresso a casa. Enquanto a sede do batalhão ficou em Tete, a nossa companhia foi colocada do outro lado do rio Zambeze, em Moatize, região mineira já explorada nessa época, hoje um polo de exploração importante… por estrangeiros E aí a vida era outra. A localidade era minimamente organizada e até tinha uma piscina. A partir do momento em que o nosso capitão adoeceu e teve de regressar, passamos a ser comandados pelo alferes Carvalho. Era quase como se estivéssemos de férias.

Um dia recebemos no aquartelamento o batalhão acabado de chegar de Portugal continental sob o comando de um tenente coronel, em trânsito para a zona de Cabora Bassa onde havia “pancada”. Nesse dia tivemos uma sardinhada na messe com uma caixa sardinhas ida de cá e oferecida pela Força Aérea. No final, o Agostinho embrulhou duas sardinhas num guardanapo de papel e meteu-as no bolso, para o que desse e viesse. Bem comidos e bebidos e sem qualquer preocupação de estar bem ou mal fardados e à vontade, fomos a pé até ao pequeno café que havia à saída do quartel, ocupando a maior parte das mesas. Depressa a conversa ficou animada e percebia-se o porquê. Às tantas, entrou o tenente coronel que comandava o batalhão recém chegado. Os militares que estavam junto da porta levantaram-se e fizeram-lhe a continência, mas a maioria ou não o viu ou fingiu que não o viu. Ele aproximou-se de uma das mesas onde ninguém o cumprimentara e bateu nas costas de um furriel dizendo com ar cínico: “Não se levante, nosso furriel…”. Este levantou-se, pediu desculpa e fez a continência militar. 

Ele foi de mesa em mesa, até àquela onde estava o Agostinho. Quando este se apercebeu disso e sentiu que o tenente coronel lhe tocava nas costas, sem se voltar, disse: “Não me bata nas costas, pois quem me bate nas costas é o meu pai quando eu lhe peço dinheiro e ele me diz: “tem paciência, mas não pode ser”. O tenente coronel, apanhado de surpresa, ficou parado e estupefacto, sem saber o que fazer, enquanto os outros militares que estavam por perto, pensando que não sabia quem estava atrás dele, avisaram-no: “Oh Agostinho, olha que é o nosso tenente coronel”. Então, lentamente, o Agostinho levantou-se, virou-se para o comandante e disse: “Não me interessa quem é”. E sem mais, meteu a mão no bolso, tirou o embrulho, abriu-o e colocou-o em cima da mesa: “Olhe, eu vou comer sardinhas. É servido?” O comandante não conseguiu reagir e o Agostinho sentou-se a comer sardinhas, dando o assunto por encerrado, enquanto ele, meio estupefacto, se retirava para um canto à procura de uma mesa vazia, já sem incomodar mais ninguém. 

Ao outro dia o tenente coronel foi apresentar queixa ao comandante do nosso batalhão. No entanto, já o alferes Carvalho se antecipara com uma boa desculpa: “O meu comandante lembra-se do Agostinho, aquele furriel que foi condecorado”? “Ah, sim, claro que me lembro bem. O que se passa com ele?”, questionou o comandante. O alferes já improvisara uma história: “Meu comandante, quando o Agostinho veio para cá deixou noiva lá na terra de quem gostava muito. Agora, recebeu a notícia que ela se casara com outro homem, o que o deixou muito transtornado. Foi por isso que, quando ontem foi questionado pelo comandante do batalhão que está no nosso quartel em trânsito, respondeu-lhe de forma menos simpática, mas só por isso”. “Coitado do rapaz”, exclamou o comandante. “Deve andar desorientado!!! Deixe que eu resolvo o problema com o nosso tenente coronel”. Foi assim que o Agostinho se safou de um “imbróglio” com a ajuda da medalha de guerra e de uma “mentira piedosa” do alferes Carvalho. No entanto, “não se livrou” de comer as sardinhas sozinho, porque o tenente coronel, apesar de convidado, “não alinhou na patuscada” … 

“Reter ou não reter”? Eis a questão …

“Chumbei” no 2º. ano, que hoje corresponde ao 6º., tendo ali ficado “a marcar passo” durante um ano, para além de levar uma reprimenda dos meus pais, como que a perguntar se queria continuar a estudar ou se preferia ir trabalhar. Optei pela primeira e não voltei a sofrer mais “retenção” nenhuma, como agora se diz. Com outros pais menos compreensíveis e mais rigorosos, a “conversa” seria outra e teria de “tirar as medidas” ao cinto de cabedal do pai. Não fiquei preocupado? Claro que sim. De tal forma que, no ano seguinte, “dei ao pedal” para cumprir o objetivo: passar. E o que ainda retenho na memória desse “acidente”? Que me acordaram para o sentido da “responsabilidade”. Nesse tempo nunca ouvi falar de “estatísticas”, de “percentagens de chumbos”, “traumas” ou coisas do gênero. Várias décadas passadas, tudo mudou. O ensino massificou-se, as crianças já não vão sozinhas para a escola por razões diversas, a desresponsabilização dos pais cresceu e retiraram dos seus filhos a responsabilidade de estudar e aprender, atirando-a para os professores e as escolas, como se estes fossem os progenitores e tenham o dever de, além de ensinar, educar. Perdeu-se o respeito e outros valores que regiam a sociedade. Apesar dos inúmeros meios de que hoje dispõe a escola quando comparada à desse tempo distante, passou a ser um local inseguro. Que o digam os professores em relação a (alguns) pais (e até alunos). Que o digam alguns alunos em relação a outros alunos e a agentes externos. Hoje a escola passou a ser objeto de “estatísticas”, sobretudo para políticos e suas agendas “políticas”, laboratório de ensaios e experiências feitas a cada mudança de “côr” do “poder instalado”. 

É assim que agora se anuncia o “fim das retenções até ao 9º. ano” o que, numa linguagem corrente, quer dizer “fim dos chumbos”, uma prática importada de outros países onde as realidades sociais, económicas e culturais nada têm a ver connosco. 

Os que defendem e querem acabar com os “chumbos” até ao 9º. ano, acham que “as retenções multiplicam as retenções” e que “quem está contra pensa com base no senso comum e não com base na melhor informação”. Já para os que se opõem à medida, dizem ser a cultura do “facilitismo” e “trabalhar só para as estatísticas”, o que não ajuda o aluno porque aí é que ele fica entregue à sua sorte. Acrescentam até que “é uma medida injusta, pois premeia tanto aquele que estuda, se esforça e é responsável, como o que não cumpre e faz da escola um local de turismo”. 

Num país do “faz de conta”, só há vantagens nesta vontade de acabar com os “chumbos”, pois todos “saem a ganhar”. Começa por ganhar o país, pois dizem os “contabilistas” desta medida que a poupança é de duzentos e cinquenta milhões de euros, o que dá um “jeitão” ao Mário Centeno e às finanças públicas para abater as dívidas a fornecedores. Além disso, o estado livra-se de gastar mais recursos nas escolas para combater o insucesso escolar (o verdadeiro problema) e sobe para o topo do “ranking” estatístico, mesmo que de forma administrativa, o que não deixa de ser motivo de orgulho nos fóruns internacionais e “bandeira” eleitoral. Ganham as escolas, porque se livram dos cábulas “de uma penada”. Beneficiam os professores, cansados de “malhar em ferro frio”, pois a partir de agora promover ou não o sucesso passa a ser indiferente, não têm a pressão das estatísticas e no final do ano as aprovações serão de 100%. O sistema deixa de os chatear. Usufruem os pais desta medida porque, ao verem aprovados os jovens rebentos ano após ano sem um único “chumbo”, passam a viver “tranquilos e felizes”, e até orgulhosos pelo “sucesso escolar” dos seus herdeiros, embora deixem de ter motivos para implicar com os professores e a escola (mas podem sempre inventar qualquer argumento). Quanto aos alunos cábulas, são só “ganhos” (pensam eles): veem aprovada a teoria de que “malandragem” compensa, que quem estuda é “burro” e de que “ser responsável” é só para os velhos. 

Não sei se deva, mas faço a pergunta: “Afinal, o que é que desejamos? Baixar a fasquia para apanhar tudo na rede ou mantê-la alta e puxar para cima quem está em baixo? No nosso sistema procura-se ensinar e que os alunos aprendam e tenham sucesso, classificando-os em função do seu desempenho, trabalho e responsabilidade ou “medir todos pela mesma bitola”? Dizem para aí que o nível de exigência corresponde seguramente a qualidade do ensino e a sucesso efetivo dos alunos. Se insistirem neste novo caminho, para que o “êxito educacional” do país seja completo, talvez seja melhor regressarmos ao tempo do PREC de 1974 e às célebres passagens administrativas” de que alguns políticos da nossa praça beneficiaram. Bastará estar matriculado em qualquer curso para passar de ano. Em pouco tempo, elevamos os índices de “licenciados” ao top mundial e passaremos a ser motivo de inveja. Vale a pena ir por aí …

Vivemos tempo em que a escola e professores são o bode expiatório do sistema de ensino, da irresponsabilidade de alguns pais e alunos, do facilitismo e dos traumas. Curiosamente, é um problema que não é só nosso, apesar de pensarmos que lá fora tudo são maravilhas, o que não é verdade. Por mero acaso, ao debruçar-me neste tema, “caiu-me” uma informação sobre a Escola Secundária de Maroochydore, na Austrália e o teor da mensagem que foi gravada no atendedor de chamadas da escola e está agora a ser utilizada diz (quase) tudo. Esta situação decorre na sequência da implementação de políticas que obrigam os pais a responsabilizarem-se pelas faltas dos filhos e pela não entrega dos trabalhos de casa. Escola e professores foram muito pressionados por eles a quererem que os “chumbos” sejam alterados para notas positivas, mesmo que as crianças faltem de 15 a 30 vezes durante um semestre, não tenham aproveitamento escolar e que não efetuem trabalhos suficientes para passar. Se telefonarmos à escola vamos ouvir no atendedor de chamadas:

“Trriimm, trrimm, trriimm,” … Click

“Olá, chegou ao Serviço de Mensagens da sua Escola. Para melhor o ajudar a encontrar o responsável correto para o seu pedido, por favor oiça todas as opções antes de proceder à sua escolha!

– Para inventar mentiras a justificar a falta do seu filho, prima 1!

– Para desculpar o facto do seu filho não ter feito os trabalhos de

  casa, prima 2!

– Para se queixar do nosso trabalho, prima 3!

– Para insultar os membros desta Escola, prima 4!

– Para perguntar porque não recebeu informações que já foram

  dadas em diversos emails, prima 5!

– Se quiser que sejamos nós a criar a sua criança, prima 6!

– Se quiser atingir, bater ou esbofetear alguém, prima 7!

– Para solicitar outro professor pela 3ª. vez este ano, prima 8!

– Para reclamar dos transportes escolares, prima 9!

– Para reclamar das refeições escolares, prima 0!

– Se tiver percebido que este é o mundo real e o seu filho deve

  ser responsabilizado pelas suas atitudes e comportamentos, 

  trabalhos escolares e de casa e que não é culpa dos docentes a

  falta de esforço do seu filho, desligue e tenha um bom dia!

– Se quiser ouvir esta mensagem noutra língua diferente, mude-

  se para um país onde a falem!”

Heróis do meu dia a dia: “Com o sentimento do dever”…

A nossa Constituição tem uma extensa lista de direitos, liberdades e garantias, mas no que toca a deveres, muito pouco ou quase nada. É que nós estamos muito interessados nos direitos que temos e muito pouco nos deveres. Aliás, há numerosos “especialistas” nisso, porque só vivem com os primeiros. Os deveres são a parte ”chata”. Como tal, dispensáveis. Ora, como na maioria dos casos o único controle que existe do seu cumprimento é a nossa consciência, porque nos vêm do imperativo moral e do conjunto de valores que lhe estão associados, com o “evoluir da sociedade” fomos esquecendo-os e começamos a “assobiar para o lado”, fingindo que não é connosco. 

Ser cidadão implica ter direitos, mas também de fazer a nossa parte para que a sociedade seja melhor, com o contributo e disponibilidade. 

Já caíra a noite e Alfredo estava sentado no automóvel quando na rua entrou outro carro e tentou fazer inversão de marcha entre as filas de viaturas estacionadas de um e outro lado da via. Ao tentar a manobra, o condutor acertou em cheio na lateral de um dos carros ali parados, amolgando o painel. O automóvel imobilizou-se e do seu interior saiu uma mulher. Aproximou-se da viatura em que embatera, verificou os estragos e olhou em volta. Não vislumbrando ninguém, voltou para o seu e arrancou, perdendo-se na noite.

Mas o Alfredo não se demitiu nem de espectador nem de cidadão e tomou nota da matrícula desse carro em fuga e saiu para o frio da noite à procura do dono da viatura embatida sem saber quem era nem onde o poderia encontrar. Lá foi andando, de porta em porta, de pergunta em pergunta. E finalmente, quando entrou no terceiro espaço público aberto àquela hora e quis saber quem era o dono daquele Toyota verde, conseguiu encontrá-lo. Perante ele, não só relatou o que viu como se dispôs a acompanhá-lo à GNR para participar a ocorrência e testemunhar o acidente até ser levantado o respetivo auto, identificada a condutora que fugira e deixar caminho aberto à intervenção da autoridade e à salvaguarda do direito à reparação do carro atingido. Mas tudo isso só foi possível porque o “senhor Alfredo” se recusou ao comodismo do “não me quero incomodar”, assumindo o seu dever de cidadania ao ajudar a corrigir um comportamento errado.   

São inúmeras as viaturas amolgadas sem que os donos se apercebam ou vejam e muito poucos os casos em que alguma testemunha do facto se disponha a assumir o papel de “Alfredo”. Até já damos como desculpa esfarrapada um “vou-me incomodar, para quê?”. E o que se passa com estas situações, passa-se com muitos outras ocorrências onde nos demitimos do dever de cidadania, embora quando somos os lesados, “criticamos” aqueles que viram e não se preocuparam. Mas quando estamos no papel da mulher que amolgou o carro e se “pôs a milhas”, qual será a nossa atitude? Procuramos o dono do carro para lhe comunicar o acidente? Deixamos um bilhete e assumimos a total responsabilidade da reparação? Ou olhamos à volta e fazemos como ela?  

O curioso é que Alfredo já estivera numa situação semelhante, mas do lado contrário. Sendo motorista de camião de longo curso, numa das suas viagens lá fora e já depois de atravessar a fronteira portuguesa e entrar em território espanhol, ao passar em zona mais apertada ficou com a sensação de que o camião tocara numa viatura. Logo que pôde encostou à berma e voltou para trás até ao local onde lhe pareceu que algo ocorrera. Na verdade, havia um automóvel um pouco amolgado. Procurou saber quem era o dono, mas não conseguiu nada. Por isso, escreveu um bilhete ao proprietário que deixou no para-brisas, onde relatava o acontecido e fornecia todos os seus dados pessoais, para além de o informar que, quando regressasse da viagem, o procuraria para pagar os prejuízos. Não satisfeito, dirigiu-se ao posto da guarda civil espanhola e falou com o agente de serviço, a quem descreveu o sucedido e pediu ajuda para encontrar o proprietário do automóvel na passagem de regresso a Portugal. Após tudo isso, seguiu viagem para o centro da Europa. Quando regressou, voltou a parar e dirigiu-se ao posto da guarda civil onde encontrou o agente com quem falara. “E então?”, perguntou-lhe. O agente respondeu-lhe: “O dono do carro pediu-me para te entregar esta carta”, estendendo-lhe um envelope fechado. E, enquanto Alfredo ia abrindo o envelope, foi-lhe dizendo: “Não era preciso. Bastava dizer quanto lhe devo”. “Não sei”, retorquiu o guarda com um sorriso enigmático e insistindo para ler a carta. Mas ao lê-la, Alfredo apanhou uma das maiores surpresas da sua vida. O dono do carro começava a carta com um agradecimento, elogiando-o pela nobreza da atitude e dava-lhe conta que nada lhe tinha a pagar pela reparação. E, mais surpreendente ainda foi que, para além do elogio e da recusa à reparação dos danos, juntava um certo valor em dinheiro como prémio pela seriedade e dignidade do seu gesto, coisa rara do nosso tempo. 

Não há dúvida que estes dois homens foram bem dignos um do outro. Porque, se um assumiu a responsabilidade que lhe cabia, plenamente e sem hesitações nem subterfúgios, o outro, apesar de “lesado”, não só não fez o que é normal exigindo o direito à reparação (às vezes do que foi e do que não foi), como ainda foi mais longe ao reconhecer a nobreza da atitude de Alfredo e respondendo ao gesto com um gesto magnânimo, igualmente digno e nobre. 

Tanto como espectador acidental de um incidente em que o culpado se pôs em fuga, como responsável por um acidente de que suspeitou embora pudesse ignorar, Alfredo não só não se demitiu, como soube agir de acordo com a consciência e o sentimento do dever cumprido, transformando-se num modelo de referência para todos nós. Porque, não tenho dúvidas, a maioria teria feito rigorosamente o contrário …    

Desperdício. Nem a crise o eliminou…

Quando andava na escola primária, levava os poucos apetrechos e livros que tinha numa saca de pano que a minha mãe fizera em casa, aproveitando alguns restos de tecido para o efeito, pois a maioria dos meus colegas não só não tinha saca como nem sequer os livros. Uma coisa era comum a todos nós: a “lousa”, aquele retângulo de ardósia relativamente fino envolvido num caixilho de madeira com os cantos arredondados, para fazer tanto os trabalhos de casa como os da sala. Escrevia-se na lousa com um lápis também de ardósia e, para apagar, bastava aplicar-lhe uma valente cuspidela no meio do “retângulo”. E a manga da camisola fazia o resto. A professora escrevia as parcelas das contas no quadro e nós copiávamos e fazíamos a multiplicação, a soma ou outra conta na “lousa”, indo depois mostrar-lha para ver se estava certa ou errada. Já os trabalhos de escrita, como as redações, cópias ou repetição de palavras, eram normalmente efetuados num caderno de duas linhas, onde as letras eram desenhadas com uma “pena” de aparo que se molhava regularmente no tinteiro existente no tampo da carteira, cheio com tinta da marca “Pelikan”. A “lousa” era o nosso “tablet” de outrora, usada para escrever, fazer contas e trabalhos diversos que pudessem ser apagados, ficando disponível para novo uso vezes e vezes sem conta. Não tinha desgaste nem era descartável. Só quando partia acidentalmente ou no meio de uma rixa é que deixava de ter utilidade e tinha de ser descartada e substituída por outra, o que não era mau para todos, pois as gentes de Valongo que as fabricavam agradeciam.

Quando fiz o exame de admissão no final da 4ª. Classe e entrei no 1º. Ano do liceu, ou melhor, do Colégio Eça de Queirós já que não existia liceu em Lousada, desapareceu a “lousa” dos apetrechos escolares, passando a objeto de museu, substituída por cadernos e sebentas que foram evoluindo com o tempo e com as alterações do ensino, para os mais diversos tipos. Se a “lousa” era um artigo de uso constante e repetido, em que nada era descartável (a não ser a cuspidela), já o caderno era aproveitado até à última página porque, sendo material descartável e como o dinheiro era “curto”, pensava-se duas vezes até se decidir comprar um novo.

Foi assim durante todo o liceu e assim continuou a ser em Coimbra, não havendo lugar a desperdícios nem a usos indevidos do material. 

Quando comecei a trabalhar num organismo público depois de ter cumprido o serviço militar, sempre que precisava de um caderno, bloco de papel, esferográfica ou um simples lápis, era-me entregue pelo responsável do material de escritório e registado num livro como se de uma preciosidade se tratasse, sendo o seu uso controlado por forma a não haver aproveitamento para outros fins que não os do serviço. Com o passar dos anos e a (aparente?) evolução económica do país, abrandou-se no rigor do controle dos consumíveis e estes descambaram de forma acelerada, pois o descartável passou a ser descartado com o máximo das facilidades, como se não tivesse um custo e o fornecimento fosse ilimitado.

Usar papel ou outro artigo qualquer de forma displicente e descontrolada passou a ser o “pão nosso de cada dia”, sem responsabilidade e impunemente, porque a euforia da (boa?) situação económica tudo permitia. Quando a crise chegou foi necessário cortar nas despesas, a começar no desperdício porque era despesa inútil que a ninguém servia, mas isso já não foi fácil. Recordo uma conversa que tive nessa altura com o responsável de um Organismo público. Os cortes orçamentais de então levaram a que ele fosse nomeado para reorganizar e controlar os consumíveis dentro do organismo, pois estavam fora de controle. A falta de verbas e financiamentos implicavam uma redução global na despesa, para se não entrar em colapso. Mas ele deparou-se com grandes problemas quando quis disciplinar chamadas telefónicas, consumo de papel, lápis, fotocópias, esferográficas, réguas, borrachas e outros artigos, porque encontrava uma forte oposição da parte do pessoal que não aceitava tal imposição. Dizia ele que os maus hábitos de longos anos e a impunidade pelos consumos excessivos e desregrados criaram nas pessoas como que o sentimento de um direito adquirido, o “direito ao desperdício”.

Thomas Fuller resumiu tudo numa simples frase: “Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água”. E é verdade. Como ao abrir a torneira corre água, ao acionar o interruptor acende a luz, ao irmos ao supermercado há sempre muitos alimentos para comprar, na loja de vestuário nunca faltam “trapos” para nos tentar, não valorizamos nada. Mesmo, nada. Por isso, damo-nos ao luxo de ser “desregrados no consumo”, quando não consumidores obsessivos sem respeito por quem tem de pagar o que gastamos, sem respeito pelos outros que também têm direito a ter algo para consumir, sem respeito por nada nem ninguém, muito menos pela natureza de que fazemos parte, que não é infinita no manancial daquilo que nos dá. E tudo isso até ao dia em que ao abrirmos a torneira não saia nada, ao acender a lâmpada ela continue apagada ou não tenhamos bens para desperdiçar nem para consumir. 

Já Alex Periscinoto dizia que “tudo é infinito até que vire finito. Desperdiçamos tudo – água, luz, mantimentos, porque pensamos que esse tudo vai durar para sempre. Errado” …

Quando nos anos oitenta passamos pela crise do petróleo, o preço dos combustíveis subiu muito e bastantes vezes. Sempre que havia aumento, comentava o assunto com um colega bastante mais velho (e sábio) do que eu. E em todas as ocasiões em que me queixava pela subida do preço da gasolina, ouvia-o comentar: “Ainda não está cara”. Depois de ter aguentado aquela “lenga, lenga” várias vezes e já farto da “cassete”, perguntei-lhe: “Oh inteligente, diz-me lá: se ainda não está cara, qual é o dia em que tu me vais dizer que está mesmo cara”? E ele, com ar cínico, respondeu-me: “No dia em que fores a um posto de abastecimento e te digam que não há, nem haverá mais”!!!

Tudo o que consumimos em excesso, por egoísmo e com desperdício, pode ser-nos devolvido em escassez e privação. A nós ou aos nossos filhos. Porque “o desperdício de hoje, pode ser o que nos vai faltar amanhã” …

“À primeira vista”, choca. E, depois …

Depois do jantar, fico sentado junto da Luísa até às tantas, dividido entre o computador e a televisão onde passam os programas que a sua sensibilidade suporta. Na prática, a televisão está ao seu serviço, não ao meu. Assim, sempre que manifesta incómodo pelo programa que passa no momento, mudo de canal rapidamente. Tolera bem os “Got Talent”, “The Voice”, um pouco o “Telejornal” até chegar alguma notícia chocante e os programas do tipo “Somos Portugal” ao fim de semana, mais um ou outro neutro. Não gosta de ação ou violência e só vê alguns filmes dentro da mesma lógica. Quando não há programa adequado ou não tenha gravações aceitáveis, salto de canal em canal à procura de algo que a não faça reagir de desagrado. 

Numa dessas buscas fui parar ao canal onde decorria um episódio de “Casados à primeira vista”, na Austrália, mas, confesso, considerei tão absurdo e ridícula a filosofia do programa, que mudei imediatamente de canal. Já ouvira falar nele e criara-lhe alguma “aversão”, pois não compreendia como é que alguém se sujeitasse a casar sem conhecer a pessoa com quem iria viver. Achei que era mais uma das “aberrações” que a televisão cria em nome do “vale tudo” para conseguir subir nas audiências. Nos dias seguintes, por diversas vezes passei por ali, mas mudava sempre para não dar à Luísa um “produto” daqueles. Porém, sem uma razão especial, uma ocasião a televisão ficou ali sintonizada e fui vendo a espaços as incidências e consequências dos casamentos. E a curiosidade levou-me a querer perceber a mecânica do programa e, muito especialmente, as motivações das pessoas que se dispõem a participar numa exposição pública do que pode ser ou não um lado importante das suas vidas. E se a minha primeira reação foi recusar ver tal “disparate” por não achar aceitável que alguém se case com uma pessoa que não conhece, depois de ver algumas partes fiquei a pensar nas razões que terão originado o programa e que poderá não ser assim tão absurdo como “à primeira vista” parece. 

O mundo mudou e tudo mudou à nossa volta. E nesse tudo, incluído está o modelo dos “encontros” e de casamentos, o conceito de casal, a (aparente) facilidade com que as pessoas se relacionam, a pressa com que se “juntam os trapinhos” e a velocidade estonteante com que se separam. E, no essencial, a destruição da família como célula fulcral da sociedade e os “cacos” que ficam como seus falsos substitutos. O certo é que, a cada ano que passa e apesar de vivermos num tempo em que tudo parece fácil para se criar relações, os encontros e todas as facilidades (aparentes) de relacionamento não evitam que cada vez mais pessoas, que não o desejam, vivam sozinhas contra a sua vontade.  E não é isso que desejavam. Essa gente, na maioria, quer e precisa de alguém com quem partilhar o dia e a noite, os problemas, o sofá, a televisão, enfim, a vida. Mas estão sós. Muitos são os que, para enganar a ausência, afogam-se em noitadas de sexo sem companhia, de álcool, quando não de drogas. 

Mais de 40% dos portugueses são solteiros e, além destes, tem aumentado os viúvos e, mesmo muito, o número de divorciados pela facilidade com que hoje se descarta o casamento. De tal forma que alguns deles se assemelham à pescada: “antes de o ser já o era”. Isto traz-nos uma realidade nova que cresce dia a dia, sem que se imagine forma de a diminuir. Mas diminuem os “compromissos” porque, apesar das facilidades, a vulnerabilidade necessária a um relacionamento saudável é mais rara, já que subiu a desconfiança, a dúvida, o ceticismo. Provavelmente, a questão é que a maioria já nem sequer o sabe fazer.

Outrora, as fases de uma relação eram: “Conhecimento, compromisso e sexo”, enquadradas em regras tradicionais rígidas. Mas a evolução da sociedade até aos nossos dias fez com que a ordem fosse alterada para “Sexo, conhecimento, compromisso”. No entanto, a facilidade de “conseguir logo à primeira” aquilo que seria o fim último, tornou-se sério obstáculo em alcançar o “compromisso” porque a satisfação do instinto animal fora conseguida sem necessidade de o assumir.  E isto somado à ligeireza com que se desfaz o casamento e se descartam as relações, só vem acrescentar números aos inúmeros casos de solidão. Ora, a chegada de um programa deste género, onde se promete que “uma boa equipa de especialistas vai decidir por si”, com base no seu perfil psicológico e no de muitas outras pessoas, ao ser divulgado em “campo de muitas necessidades”, só pode ter enorme adesão entre gente que já tinha desistido de procurar a sua “cara-metade”. E não deixa de ser curioso que altera e estabelece o novo alinhamento das tais três fases: “Compromisso, conhecimento e sexo”, ordem essa já mais ajustada à moral cristã.  Portanto, é natural que grande parte dessa gente se questione: “Porque não? Vale a pena tentar”. Reparei que muitos concorrentes chegam a dizer “já tinha desistido de tentar encontrar a alma gêmea”. Assim, alinham no programa como outros o tentam pela internet em sites de relacionamentos. O desespero já não impõe condições. Isso passa-se em todo o mundo, sendo o problema tanto maior quanto maior é o desenvolvimento da sociedade. E o expoente máximo dessa solidão e incapacidade de assumir relações é o Japão. Hoje, na era do digital, da velocidade, parece impossível que metade dos jovens adultos japoneses sejam virgens e que tenham dificuldades enormes ou mesmo incapacidade de se relacionarem com mulheres. Estas dizem até que é difícil conhecer pessoas depois de passarem os 25 anos. Serão assim tão velhas? A situação é de tal forma grave que os municípios, instituições e empresas promovem os “Encontros às cegas” e “Festas de solteiros”, juntando milhares de pessoas para estimular “uniões”. E os casais organizam festas com pequenos grupos, para a qual convidam amigos e amigas que não se conhecem entre si, só para “fomentar ligações”.

E quantos sites de relacionamentos não existem por esse mundo fora para juntar pessoas que se não conhecem? Quantas organizações de viagens turísticas destinadas a pessoas sozinhas com esse objetivo?

Se a minha primeira reação foi de uma recusa absoluta do processo e a crítica dura a todos os que alinham no programa, ao parar e pensar acho que é de elogiar a coragem de muitos deles ao arriscar e expor publicamente, como que em tentativa desesperada para não ficar só. Será preferível sair da concha e arriscar, dizer que “preciso de ajuda” ou desistir de ir à luta, de tentar e deixar-se ficar em casa derrotado, com uma vida “preenchida pela tristeza e frustração, quando não de revolta e até ressentimento com quem está perto”?

No tal programa, os participantes fazem o caminho contrário ao de um “casamento normal”, partindo do “compromisso para o sexo”, enquanto neste partem do “sexo para o compromisso”. O conceito e os princípios não estão assim tão errados como se pode pensar.

Claro que o programa enferma de vários senãos, sendo o principal o não se conseguir saber o que é real e o que é teatro, além da pressão que há sobre os casais para “avançar na relação” em função de necessidades televisivas, como se as relações possam evoluir ao tic tac do relógio e conveniência de audiências. Não se dá tempo ao tempo que o namoro exige, nem a liberdade para que ambos se conheçam e em que esse tempo é essencial. Em suma, o programa usa um problema grave da sociedade, crescente e comum a milhões de pessoas que todos temos obrigação de conhecer e sobre ele refletir, pois a qualquer momento podemos incorporar essa legião. E se assenta em princípios básicos corretos, o processo padece dos erros próprios de um programa que, explorando uma realidade dramática, não se desvia um milímetro do objetivo principal na guerra das audiências, a qualquer preço … 

Que o tema é sério, ninguém duvida. Tal como dizia Geraldo Fontes, “viver sozinho é um problema, uma escolha ou um fracasso” …