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O “reverso” da medalha de guerra …

Participei na guerra do ultramar ao serviço do país, como a maioria dos jovens da minha geração, e não me sinto menorizado por o ter feito, mas isso não é a razão desta crónica. Fui parar a Moçambique com mais de dois mil militares a bordo do superlotado NIASSA, numa viagem épica de quase um mês, lembrando um pouco o tempo das caravelas. Desembarcamos em Nacala e rumamos para o interior com destino à zona que tem o nome do barco que nos levou, começando a viagem de comboio, para continuar em camião com ferry pelo meio. Embora o comando do batalhão tenha ficado em Mecula, a minha companhia seria colocada em Nantuego, onde praticamente não vi sinais de guerra. Alguns meses depois mudamo-nos para o Kandulo, terra que não vem no mapa porque, para além do aquartelamento situado no meio de nenhures, não havia mais nada. E caímos no meio “deles”, terroristas de então, “amigos” de agora.

Uma noite sofremos um ataque violento, com metralhadoras, armas ligeiras e morteiros. Dormia num beliche na cama de cima e acordei deitado no chão ao som dum tiroteio infernal, vendo as balas de rasto tracejante passarem-me por cima da cabeça, pensando então que estariam a atravessar a parede de adobe, quando afinal só estavam a perfurar a cobertura de chapa. 

O meu conterrâneo Agostinho era o responsável do morteiro, localizado no centro do aquartelamento e foi ele e os seus subordinados que rechaçaram o ataque com algumas morteiradas, pondo o inimigo em fuga, o que lhe valeu uma medalha de cruz de guerra, o direito a umas férias no continente e … a inveja de todos nós.

No meio do tiroteio um soldado saiu a correr da caserna em direção ao abrigo, mas não se apercebendo de um arame para secar a roupa, foi apanhado pelo pescoço dando um trambolhão. “Ai Jesus que já me acertaram”, gritou ele. Mas, apalpando-se e vendo não ter sido ferido, voltou a gritar, retomando o caminho para o abrigo: “Afinal, não me acertaram, não, não me acertaram não.”  

A nossa companhia ainda seria transferida por algum tempo para a sede do batalhão em Mecula, antes deste ser deslocada para Tete, onde ficamos os últimos meses da comissão, para uma espécie de “repouso do guerreiro” antes do regresso a casa. Enquanto a sede do batalhão ficou em Tete, a nossa companhia foi colocada do outro lado do rio Zambeze, em Moatize, região mineira já explorada nessa época, hoje um polo de exploração importante… por estrangeiros E aí a vida era outra. A localidade era minimamente organizada e até tinha uma piscina. A partir do momento em que o nosso capitão adoeceu e teve de regressar, passamos a ser comandados pelo alferes Carvalho. Era quase como se estivéssemos de férias.

Um dia recebemos no aquartelamento o batalhão acabado de chegar de Portugal continental sob o comando de um tenente coronel, em trânsito para a zona de Cabora Bassa onde havia “pancada”. Nesse dia tivemos uma sardinhada na messe com uma caixa sardinhas ida de cá e oferecida pela Força Aérea. No final, o Agostinho embrulhou duas sardinhas num guardanapo de papel e meteu-as no bolso, para o que desse e viesse. Bem comidos e bebidos e sem qualquer preocupação de estar bem ou mal fardados e à vontade, fomos a pé até ao pequeno café que havia à saída do quartel, ocupando a maior parte das mesas. Depressa a conversa ficou animada e percebia-se o porquê. Às tantas, entrou o tenente coronel que comandava o batalhão recém chegado. Os militares que estavam junto da porta levantaram-se e fizeram-lhe a continência, mas a maioria ou não o viu ou fingiu que não o viu. Ele aproximou-se de uma das mesas onde ninguém o cumprimentara e bateu nas costas de um furriel dizendo com ar cínico: “Não se levante, nosso furriel…”. Este levantou-se, pediu desculpa e fez a continência militar. 

Ele foi de mesa em mesa, até àquela onde estava o Agostinho. Quando este se apercebeu disso e sentiu que o tenente coronel lhe tocava nas costas, sem se voltar, disse: “Não me bata nas costas, pois quem me bate nas costas é o meu pai quando eu lhe peço dinheiro e ele me diz: “tem paciência, mas não pode ser”. O tenente coronel, apanhado de surpresa, ficou parado e estupefacto, sem saber o que fazer, enquanto os outros militares que estavam por perto, pensando que não sabia quem estava atrás dele, avisaram-no: “Oh Agostinho, olha que é o nosso tenente coronel”. Então, lentamente, o Agostinho levantou-se, virou-se para o comandante e disse: “Não me interessa quem é”. E sem mais, meteu a mão no bolso, tirou o embrulho, abriu-o e colocou-o em cima da mesa: “Olhe, eu vou comer sardinhas. É servido?” O comandante não conseguiu reagir e o Agostinho sentou-se a comer sardinhas, dando o assunto por encerrado, enquanto ele, meio estupefacto, se retirava para um canto à procura de uma mesa vazia, já sem incomodar mais ninguém. 

Ao outro dia o tenente coronel foi apresentar queixa ao comandante do nosso batalhão. No entanto, já o alferes Carvalho se antecipara com uma boa desculpa: “O meu comandante lembra-se do Agostinho, aquele furriel que foi condecorado”? “Ah, sim, claro que me lembro bem. O que se passa com ele?”, questionou o comandante. O alferes já improvisara uma história: “Meu comandante, quando o Agostinho veio para cá deixou noiva lá na terra de quem gostava muito. Agora, recebeu a notícia que ela se casara com outro homem, o que o deixou muito transtornado. Foi por isso que, quando ontem foi questionado pelo comandante do batalhão que está no nosso quartel em trânsito, respondeu-lhe de forma menos simpática, mas só por isso”. “Coitado do rapaz”, exclamou o comandante. “Deve andar desorientado!!! Deixe que eu resolvo o problema com o nosso tenente coronel”. Foi assim que o Agostinho se safou de um “imbróglio” com a ajuda da medalha de guerra e de uma “mentira piedosa” do alferes Carvalho. No entanto, “não se livrou” de comer as sardinhas sozinho, porque o tenente coronel, apesar de convidado, “não alinhou na patuscada” … 

“Reter ou não reter”? Eis a questão …

“Chumbei” no 2º. ano, que hoje corresponde ao 6º., tendo ali ficado “a marcar passo” durante um ano, para além de levar uma reprimenda dos meus pais, como que a perguntar se queria continuar a estudar ou se preferia ir trabalhar. Optei pela primeira e não voltei a sofrer mais “retenção” nenhuma, como agora se diz. Com outros pais menos compreensíveis e mais rigorosos, a “conversa” seria outra e teria de “tirar as medidas” ao cinto de cabedal do pai. Não fiquei preocupado? Claro que sim. De tal forma que, no ano seguinte, “dei ao pedal” para cumprir o objetivo: passar. E o que ainda retenho na memória desse “acidente”? Que me acordaram para o sentido da “responsabilidade”. Nesse tempo nunca ouvi falar de “estatísticas”, de “percentagens de chumbos”, “traumas” ou coisas do gênero. Várias décadas passadas, tudo mudou. O ensino massificou-se, as crianças já não vão sozinhas para a escola por razões diversas, a desresponsabilização dos pais cresceu e retiraram dos seus filhos a responsabilidade de estudar e aprender, atirando-a para os professores e as escolas, como se estes fossem os progenitores e tenham o dever de, além de ensinar, educar. Perdeu-se o respeito e outros valores que regiam a sociedade. Apesar dos inúmeros meios de que hoje dispõe a escola quando comparada à desse tempo distante, passou a ser um local inseguro. Que o digam os professores em relação a (alguns) pais (e até alunos). Que o digam alguns alunos em relação a outros alunos e a agentes externos. Hoje a escola passou a ser objeto de “estatísticas”, sobretudo para políticos e suas agendas “políticas”, laboratório de ensaios e experiências feitas a cada mudança de “côr” do “poder instalado”. 

É assim que agora se anuncia o “fim das retenções até ao 9º. ano” o que, numa linguagem corrente, quer dizer “fim dos chumbos”, uma prática importada de outros países onde as realidades sociais, económicas e culturais nada têm a ver connosco. 

Os que defendem e querem acabar com os “chumbos” até ao 9º. ano, acham que “as retenções multiplicam as retenções” e que “quem está contra pensa com base no senso comum e não com base na melhor informação”. Já para os que se opõem à medida, dizem ser a cultura do “facilitismo” e “trabalhar só para as estatísticas”, o que não ajuda o aluno porque aí é que ele fica entregue à sua sorte. Acrescentam até que “é uma medida injusta, pois premeia tanto aquele que estuda, se esforça e é responsável, como o que não cumpre e faz da escola um local de turismo”. 

Num país do “faz de conta”, só há vantagens nesta vontade de acabar com os “chumbos”, pois todos “saem a ganhar”. Começa por ganhar o país, pois dizem os “contabilistas” desta medida que a poupança é de duzentos e cinquenta milhões de euros, o que dá um “jeitão” ao Mário Centeno e às finanças públicas para abater as dívidas a fornecedores. Além disso, o estado livra-se de gastar mais recursos nas escolas para combater o insucesso escolar (o verdadeiro problema) e sobe para o topo do “ranking” estatístico, mesmo que de forma administrativa, o que não deixa de ser motivo de orgulho nos fóruns internacionais e “bandeira” eleitoral. Ganham as escolas, porque se livram dos cábulas “de uma penada”. Beneficiam os professores, cansados de “malhar em ferro frio”, pois a partir de agora promover ou não o sucesso passa a ser indiferente, não têm a pressão das estatísticas e no final do ano as aprovações serão de 100%. O sistema deixa de os chatear. Usufruem os pais desta medida porque, ao verem aprovados os jovens rebentos ano após ano sem um único “chumbo”, passam a viver “tranquilos e felizes”, e até orgulhosos pelo “sucesso escolar” dos seus herdeiros, embora deixem de ter motivos para implicar com os professores e a escola (mas podem sempre inventar qualquer argumento). Quanto aos alunos cábulas, são só “ganhos” (pensam eles): veem aprovada a teoria de que “malandragem” compensa, que quem estuda é “burro” e de que “ser responsável” é só para os velhos. 

Não sei se deva, mas faço a pergunta: “Afinal, o que é que desejamos? Baixar a fasquia para apanhar tudo na rede ou mantê-la alta e puxar para cima quem está em baixo? No nosso sistema procura-se ensinar e que os alunos aprendam e tenham sucesso, classificando-os em função do seu desempenho, trabalho e responsabilidade ou “medir todos pela mesma bitola”? Dizem para aí que o nível de exigência corresponde seguramente a qualidade do ensino e a sucesso efetivo dos alunos. Se insistirem neste novo caminho, para que o “êxito educacional” do país seja completo, talvez seja melhor regressarmos ao tempo do PREC de 1974 e às célebres passagens administrativas” de que alguns políticos da nossa praça beneficiaram. Bastará estar matriculado em qualquer curso para passar de ano. Em pouco tempo, elevamos os índices de “licenciados” ao top mundial e passaremos a ser motivo de inveja. Vale a pena ir por aí …

Vivemos tempo em que a escola e professores são o bode expiatório do sistema de ensino, da irresponsabilidade de alguns pais e alunos, do facilitismo e dos traumas. Curiosamente, é um problema que não é só nosso, apesar de pensarmos que lá fora tudo são maravilhas, o que não é verdade. Por mero acaso, ao debruçar-me neste tema, “caiu-me” uma informação sobre a Escola Secundária de Maroochydore, na Austrália e o teor da mensagem que foi gravada no atendedor de chamadas da escola e está agora a ser utilizada diz (quase) tudo. Esta situação decorre na sequência da implementação de políticas que obrigam os pais a responsabilizarem-se pelas faltas dos filhos e pela não entrega dos trabalhos de casa. Escola e professores foram muito pressionados por eles a quererem que os “chumbos” sejam alterados para notas positivas, mesmo que as crianças faltem de 15 a 30 vezes durante um semestre, não tenham aproveitamento escolar e que não efetuem trabalhos suficientes para passar. Se telefonarmos à escola vamos ouvir no atendedor de chamadas:

“Trriimm, trrimm, trriimm,” … Click

“Olá, chegou ao Serviço de Mensagens da sua Escola. Para melhor o ajudar a encontrar o responsável correto para o seu pedido, por favor oiça todas as opções antes de proceder à sua escolha!

– Para inventar mentiras a justificar a falta do seu filho, prima 1!

– Para desculpar o facto do seu filho não ter feito os trabalhos de

  casa, prima 2!

– Para se queixar do nosso trabalho, prima 3!

– Para insultar os membros desta Escola, prima 4!

– Para perguntar porque não recebeu informações que já foram

  dadas em diversos emails, prima 5!

– Se quiser que sejamos nós a criar a sua criança, prima 6!

– Se quiser atingir, bater ou esbofetear alguém, prima 7!

– Para solicitar outro professor pela 3ª. vez este ano, prima 8!

– Para reclamar dos transportes escolares, prima 9!

– Para reclamar das refeições escolares, prima 0!

– Se tiver percebido que este é o mundo real e o seu filho deve

  ser responsabilizado pelas suas atitudes e comportamentos, 

  trabalhos escolares e de casa e que não é culpa dos docentes a

  falta de esforço do seu filho, desligue e tenha um bom dia!

– Se quiser ouvir esta mensagem noutra língua diferente, mude-

  se para um país onde a falem!”

Heróis do meu dia a dia: “Com o sentimento do dever”…

A nossa Constituição tem uma extensa lista de direitos, liberdades e garantias, mas no que toca a deveres, muito pouco ou quase nada. É que nós estamos muito interessados nos direitos que temos e muito pouco nos deveres. Aliás, há numerosos “especialistas” nisso, porque só vivem com os primeiros. Os deveres são a parte ”chata”. Como tal, dispensáveis. Ora, como na maioria dos casos o único controle que existe do seu cumprimento é a nossa consciência, porque nos vêm do imperativo moral e do conjunto de valores que lhe estão associados, com o “evoluir da sociedade” fomos esquecendo-os e começamos a “assobiar para o lado”, fingindo que não é connosco. 

Ser cidadão implica ter direitos, mas também de fazer a nossa parte para que a sociedade seja melhor, com o contributo e disponibilidade. 

Já caíra a noite e Alfredo estava sentado no automóvel quando na rua entrou outro carro e tentou fazer inversão de marcha entre as filas de viaturas estacionadas de um e outro lado da via. Ao tentar a manobra, o condutor acertou em cheio na lateral de um dos carros ali parados, amolgando o painel. O automóvel imobilizou-se e do seu interior saiu uma mulher. Aproximou-se da viatura em que embatera, verificou os estragos e olhou em volta. Não vislumbrando ninguém, voltou para o seu e arrancou, perdendo-se na noite.

Mas o Alfredo não se demitiu nem de espectador nem de cidadão e tomou nota da matrícula desse carro em fuga e saiu para o frio da noite à procura do dono da viatura embatida sem saber quem era nem onde o poderia encontrar. Lá foi andando, de porta em porta, de pergunta em pergunta. E finalmente, quando entrou no terceiro espaço público aberto àquela hora e quis saber quem era o dono daquele Toyota verde, conseguiu encontrá-lo. Perante ele, não só relatou o que viu como se dispôs a acompanhá-lo à GNR para participar a ocorrência e testemunhar o acidente até ser levantado o respetivo auto, identificada a condutora que fugira e deixar caminho aberto à intervenção da autoridade e à salvaguarda do direito à reparação do carro atingido. Mas tudo isso só foi possível porque o “senhor Alfredo” se recusou ao comodismo do “não me quero incomodar”, assumindo o seu dever de cidadania ao ajudar a corrigir um comportamento errado.   

São inúmeras as viaturas amolgadas sem que os donos se apercebam ou vejam e muito poucos os casos em que alguma testemunha do facto se disponha a assumir o papel de “Alfredo”. Até já damos como desculpa esfarrapada um “vou-me incomodar, para quê?”. E o que se passa com estas situações, passa-se com muitos outras ocorrências onde nos demitimos do dever de cidadania, embora quando somos os lesados, “criticamos” aqueles que viram e não se preocuparam. Mas quando estamos no papel da mulher que amolgou o carro e se “pôs a milhas”, qual será a nossa atitude? Procuramos o dono do carro para lhe comunicar o acidente? Deixamos um bilhete e assumimos a total responsabilidade da reparação? Ou olhamos à volta e fazemos como ela?  

O curioso é que Alfredo já estivera numa situação semelhante, mas do lado contrário. Sendo motorista de camião de longo curso, numa das suas viagens lá fora e já depois de atravessar a fronteira portuguesa e entrar em território espanhol, ao passar em zona mais apertada ficou com a sensação de que o camião tocara numa viatura. Logo que pôde encostou à berma e voltou para trás até ao local onde lhe pareceu que algo ocorrera. Na verdade, havia um automóvel um pouco amolgado. Procurou saber quem era o dono, mas não conseguiu nada. Por isso, escreveu um bilhete ao proprietário que deixou no para-brisas, onde relatava o acontecido e fornecia todos os seus dados pessoais, para além de o informar que, quando regressasse da viagem, o procuraria para pagar os prejuízos. Não satisfeito, dirigiu-se ao posto da guarda civil espanhola e falou com o agente de serviço, a quem descreveu o sucedido e pediu ajuda para encontrar o proprietário do automóvel na passagem de regresso a Portugal. Após tudo isso, seguiu viagem para o centro da Europa. Quando regressou, voltou a parar e dirigiu-se ao posto da guarda civil onde encontrou o agente com quem falara. “E então?”, perguntou-lhe. O agente respondeu-lhe: “O dono do carro pediu-me para te entregar esta carta”, estendendo-lhe um envelope fechado. E, enquanto Alfredo ia abrindo o envelope, foi-lhe dizendo: “Não era preciso. Bastava dizer quanto lhe devo”. “Não sei”, retorquiu o guarda com um sorriso enigmático e insistindo para ler a carta. Mas ao lê-la, Alfredo apanhou uma das maiores surpresas da sua vida. O dono do carro começava a carta com um agradecimento, elogiando-o pela nobreza da atitude e dava-lhe conta que nada lhe tinha a pagar pela reparação. E, mais surpreendente ainda foi que, para além do elogio e da recusa à reparação dos danos, juntava um certo valor em dinheiro como prémio pela seriedade e dignidade do seu gesto, coisa rara do nosso tempo. 

Não há dúvida que estes dois homens foram bem dignos um do outro. Porque, se um assumiu a responsabilidade que lhe cabia, plenamente e sem hesitações nem subterfúgios, o outro, apesar de “lesado”, não só não fez o que é normal exigindo o direito à reparação (às vezes do que foi e do que não foi), como ainda foi mais longe ao reconhecer a nobreza da atitude de Alfredo e respondendo ao gesto com um gesto magnânimo, igualmente digno e nobre. 

Tanto como espectador acidental de um incidente em que o culpado se pôs em fuga, como responsável por um acidente de que suspeitou embora pudesse ignorar, Alfredo não só não se demitiu, como soube agir de acordo com a consciência e o sentimento do dever cumprido, transformando-se num modelo de referência para todos nós. Porque, não tenho dúvidas, a maioria teria feito rigorosamente o contrário …    

Desperdício. Nem a crise o eliminou…

Quando andava na escola primária, levava os poucos apetrechos e livros que tinha numa saca de pano que a minha mãe fizera em casa, aproveitando alguns restos de tecido para o efeito, pois a maioria dos meus colegas não só não tinha saca como nem sequer os livros. Uma coisa era comum a todos nós: a “lousa”, aquele retângulo de ardósia relativamente fino envolvido num caixilho de madeira com os cantos arredondados, para fazer tanto os trabalhos de casa como os da sala. Escrevia-se na lousa com um lápis também de ardósia e, para apagar, bastava aplicar-lhe uma valente cuspidela no meio do “retângulo”. E a manga da camisola fazia o resto. A professora escrevia as parcelas das contas no quadro e nós copiávamos e fazíamos a multiplicação, a soma ou outra conta na “lousa”, indo depois mostrar-lha para ver se estava certa ou errada. Já os trabalhos de escrita, como as redações, cópias ou repetição de palavras, eram normalmente efetuados num caderno de duas linhas, onde as letras eram desenhadas com uma “pena” de aparo que se molhava regularmente no tinteiro existente no tampo da carteira, cheio com tinta da marca “Pelikan”. A “lousa” era o nosso “tablet” de outrora, usada para escrever, fazer contas e trabalhos diversos que pudessem ser apagados, ficando disponível para novo uso vezes e vezes sem conta. Não tinha desgaste nem era descartável. Só quando partia acidentalmente ou no meio de uma rixa é que deixava de ter utilidade e tinha de ser descartada e substituída por outra, o que não era mau para todos, pois as gentes de Valongo que as fabricavam agradeciam.

Quando fiz o exame de admissão no final da 4ª. Classe e entrei no 1º. Ano do liceu, ou melhor, do Colégio Eça de Queirós já que não existia liceu em Lousada, desapareceu a “lousa” dos apetrechos escolares, passando a objeto de museu, substituída por cadernos e sebentas que foram evoluindo com o tempo e com as alterações do ensino, para os mais diversos tipos. Se a “lousa” era um artigo de uso constante e repetido, em que nada era descartável (a não ser a cuspidela), já o caderno era aproveitado até à última página porque, sendo material descartável e como o dinheiro era “curto”, pensava-se duas vezes até se decidir comprar um novo.

Foi assim durante todo o liceu e assim continuou a ser em Coimbra, não havendo lugar a desperdícios nem a usos indevidos do material. 

Quando comecei a trabalhar num organismo público depois de ter cumprido o serviço militar, sempre que precisava de um caderno, bloco de papel, esferográfica ou um simples lápis, era-me entregue pelo responsável do material de escritório e registado num livro como se de uma preciosidade se tratasse, sendo o seu uso controlado por forma a não haver aproveitamento para outros fins que não os do serviço. Com o passar dos anos e a (aparente?) evolução económica do país, abrandou-se no rigor do controle dos consumíveis e estes descambaram de forma acelerada, pois o descartável passou a ser descartado com o máximo das facilidades, como se não tivesse um custo e o fornecimento fosse ilimitado.

Usar papel ou outro artigo qualquer de forma displicente e descontrolada passou a ser o “pão nosso de cada dia”, sem responsabilidade e impunemente, porque a euforia da (boa?) situação económica tudo permitia. Quando a crise chegou foi necessário cortar nas despesas, a começar no desperdício porque era despesa inútil que a ninguém servia, mas isso já não foi fácil. Recordo uma conversa que tive nessa altura com o responsável de um Organismo público. Os cortes orçamentais de então levaram a que ele fosse nomeado para reorganizar e controlar os consumíveis dentro do organismo, pois estavam fora de controle. A falta de verbas e financiamentos implicavam uma redução global na despesa, para se não entrar em colapso. Mas ele deparou-se com grandes problemas quando quis disciplinar chamadas telefónicas, consumo de papel, lápis, fotocópias, esferográficas, réguas, borrachas e outros artigos, porque encontrava uma forte oposição da parte do pessoal que não aceitava tal imposição. Dizia ele que os maus hábitos de longos anos e a impunidade pelos consumos excessivos e desregrados criaram nas pessoas como que o sentimento de um direito adquirido, o “direito ao desperdício”.

Thomas Fuller resumiu tudo numa simples frase: “Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água”. E é verdade. Como ao abrir a torneira corre água, ao acionar o interruptor acende a luz, ao irmos ao supermercado há sempre muitos alimentos para comprar, na loja de vestuário nunca faltam “trapos” para nos tentar, não valorizamos nada. Mesmo, nada. Por isso, damo-nos ao luxo de ser “desregrados no consumo”, quando não consumidores obsessivos sem respeito por quem tem de pagar o que gastamos, sem respeito pelos outros que também têm direito a ter algo para consumir, sem respeito por nada nem ninguém, muito menos pela natureza de que fazemos parte, que não é infinita no manancial daquilo que nos dá. E tudo isso até ao dia em que ao abrirmos a torneira não saia nada, ao acender a lâmpada ela continue apagada ou não tenhamos bens para desperdiçar nem para consumir. 

Já Alex Periscinoto dizia que “tudo é infinito até que vire finito. Desperdiçamos tudo – água, luz, mantimentos, porque pensamos que esse tudo vai durar para sempre. Errado” …

Quando nos anos oitenta passamos pela crise do petróleo, o preço dos combustíveis subiu muito e bastantes vezes. Sempre que havia aumento, comentava o assunto com um colega bastante mais velho (e sábio) do que eu. E em todas as ocasiões em que me queixava pela subida do preço da gasolina, ouvia-o comentar: “Ainda não está cara”. Depois de ter aguentado aquela “lenga, lenga” várias vezes e já farto da “cassete”, perguntei-lhe: “Oh inteligente, diz-me lá: se ainda não está cara, qual é o dia em que tu me vais dizer que está mesmo cara”? E ele, com ar cínico, respondeu-me: “No dia em que fores a um posto de abastecimento e te digam que não há, nem haverá mais”!!!

Tudo o que consumimos em excesso, por egoísmo e com desperdício, pode ser-nos devolvido em escassez e privação. A nós ou aos nossos filhos. Porque “o desperdício de hoje, pode ser o que nos vai faltar amanhã” …

“À primeira vista”, choca. E, depois …

Depois do jantar, fico sentado junto da Luísa até às tantas, dividido entre o computador e a televisão onde passam os programas que a sua sensibilidade suporta. Na prática, a televisão está ao seu serviço, não ao meu. Assim, sempre que manifesta incómodo pelo programa que passa no momento, mudo de canal rapidamente. Tolera bem os “Got Talent”, “The Voice”, um pouco o “Telejornal” até chegar alguma notícia chocante e os programas do tipo “Somos Portugal” ao fim de semana, mais um ou outro neutro. Não gosta de ação ou violência e só vê alguns filmes dentro da mesma lógica. Quando não há programa adequado ou não tenha gravações aceitáveis, salto de canal em canal à procura de algo que a não faça reagir de desagrado. 

Numa dessas buscas fui parar ao canal onde decorria um episódio de “Casados à primeira vista”, na Austrália, mas, confesso, considerei tão absurdo e ridícula a filosofia do programa, que mudei imediatamente de canal. Já ouvira falar nele e criara-lhe alguma “aversão”, pois não compreendia como é que alguém se sujeitasse a casar sem conhecer a pessoa com quem iria viver. Achei que era mais uma das “aberrações” que a televisão cria em nome do “vale tudo” para conseguir subir nas audiências. Nos dias seguintes, por diversas vezes passei por ali, mas mudava sempre para não dar à Luísa um “produto” daqueles. Porém, sem uma razão especial, uma ocasião a televisão ficou ali sintonizada e fui vendo a espaços as incidências e consequências dos casamentos. E a curiosidade levou-me a querer perceber a mecânica do programa e, muito especialmente, as motivações das pessoas que se dispõem a participar numa exposição pública do que pode ser ou não um lado importante das suas vidas. E se a minha primeira reação foi recusar ver tal “disparate” por não achar aceitável que alguém se case com uma pessoa que não conhece, depois de ver algumas partes fiquei a pensar nas razões que terão originado o programa e que poderá não ser assim tão absurdo como “à primeira vista” parece. 

O mundo mudou e tudo mudou à nossa volta. E nesse tudo, incluído está o modelo dos “encontros” e de casamentos, o conceito de casal, a (aparente) facilidade com que as pessoas se relacionam, a pressa com que se “juntam os trapinhos” e a velocidade estonteante com que se separam. E, no essencial, a destruição da família como célula fulcral da sociedade e os “cacos” que ficam como seus falsos substitutos. O certo é que, a cada ano que passa e apesar de vivermos num tempo em que tudo parece fácil para se criar relações, os encontros e todas as facilidades (aparentes) de relacionamento não evitam que cada vez mais pessoas, que não o desejam, vivam sozinhas contra a sua vontade.  E não é isso que desejavam. Essa gente, na maioria, quer e precisa de alguém com quem partilhar o dia e a noite, os problemas, o sofá, a televisão, enfim, a vida. Mas estão sós. Muitos são os que, para enganar a ausência, afogam-se em noitadas de sexo sem companhia, de álcool, quando não de drogas. 

Mais de 40% dos portugueses são solteiros e, além destes, tem aumentado os viúvos e, mesmo muito, o número de divorciados pela facilidade com que hoje se descarta o casamento. De tal forma que alguns deles se assemelham à pescada: “antes de o ser já o era”. Isto traz-nos uma realidade nova que cresce dia a dia, sem que se imagine forma de a diminuir. Mas diminuem os “compromissos” porque, apesar das facilidades, a vulnerabilidade necessária a um relacionamento saudável é mais rara, já que subiu a desconfiança, a dúvida, o ceticismo. Provavelmente, a questão é que a maioria já nem sequer o sabe fazer.

Outrora, as fases de uma relação eram: “Conhecimento, compromisso e sexo”, enquadradas em regras tradicionais rígidas. Mas a evolução da sociedade até aos nossos dias fez com que a ordem fosse alterada para “Sexo, conhecimento, compromisso”. No entanto, a facilidade de “conseguir logo à primeira” aquilo que seria o fim último, tornou-se sério obstáculo em alcançar o “compromisso” porque a satisfação do instinto animal fora conseguida sem necessidade de o assumir.  E isto somado à ligeireza com que se desfaz o casamento e se descartam as relações, só vem acrescentar números aos inúmeros casos de solidão. Ora, a chegada de um programa deste género, onde se promete que “uma boa equipa de especialistas vai decidir por si”, com base no seu perfil psicológico e no de muitas outras pessoas, ao ser divulgado em “campo de muitas necessidades”, só pode ter enorme adesão entre gente que já tinha desistido de procurar a sua “cara-metade”. E não deixa de ser curioso que altera e estabelece o novo alinhamento das tais três fases: “Compromisso, conhecimento e sexo”, ordem essa já mais ajustada à moral cristã.  Portanto, é natural que grande parte dessa gente se questione: “Porque não? Vale a pena tentar”. Reparei que muitos concorrentes chegam a dizer “já tinha desistido de tentar encontrar a alma gêmea”. Assim, alinham no programa como outros o tentam pela internet em sites de relacionamentos. O desespero já não impõe condições. Isso passa-se em todo o mundo, sendo o problema tanto maior quanto maior é o desenvolvimento da sociedade. E o expoente máximo dessa solidão e incapacidade de assumir relações é o Japão. Hoje, na era do digital, da velocidade, parece impossível que metade dos jovens adultos japoneses sejam virgens e que tenham dificuldades enormes ou mesmo incapacidade de se relacionarem com mulheres. Estas dizem até que é difícil conhecer pessoas depois de passarem os 25 anos. Serão assim tão velhas? A situação é de tal forma grave que os municípios, instituições e empresas promovem os “Encontros às cegas” e “Festas de solteiros”, juntando milhares de pessoas para estimular “uniões”. E os casais organizam festas com pequenos grupos, para a qual convidam amigos e amigas que não se conhecem entre si, só para “fomentar ligações”.

E quantos sites de relacionamentos não existem por esse mundo fora para juntar pessoas que se não conhecem? Quantas organizações de viagens turísticas destinadas a pessoas sozinhas com esse objetivo?

Se a minha primeira reação foi de uma recusa absoluta do processo e a crítica dura a todos os que alinham no programa, ao parar e pensar acho que é de elogiar a coragem de muitos deles ao arriscar e expor publicamente, como que em tentativa desesperada para não ficar só. Será preferível sair da concha e arriscar, dizer que “preciso de ajuda” ou desistir de ir à luta, de tentar e deixar-se ficar em casa derrotado, com uma vida “preenchida pela tristeza e frustração, quando não de revolta e até ressentimento com quem está perto”?

No tal programa, os participantes fazem o caminho contrário ao de um “casamento normal”, partindo do “compromisso para o sexo”, enquanto neste partem do “sexo para o compromisso”. O conceito e os princípios não estão assim tão errados como se pode pensar.

Claro que o programa enferma de vários senãos, sendo o principal o não se conseguir saber o que é real e o que é teatro, além da pressão que há sobre os casais para “avançar na relação” em função de necessidades televisivas, como se as relações possam evoluir ao tic tac do relógio e conveniência de audiências. Não se dá tempo ao tempo que o namoro exige, nem a liberdade para que ambos se conheçam e em que esse tempo é essencial. Em suma, o programa usa um problema grave da sociedade, crescente e comum a milhões de pessoas que todos temos obrigação de conhecer e sobre ele refletir, pois a qualquer momento podemos incorporar essa legião. E se assenta em princípios básicos corretos, o processo padece dos erros próprios de um programa que, explorando uma realidade dramática, não se desvia um milímetro do objetivo principal na guerra das audiências, a qualquer preço … 

Que o tema é sério, ninguém duvida. Tal como dizia Geraldo Fontes, “viver sozinho é um problema, uma escolha ou um fracasso” …     

Envelhecer não é um problema …

Para ser sincero, acho que ninguém gosta de envelhecer. Não é só por nós, que perdemos faculdades, mas também pelos outros, para quem passamos a ser “um estorvo”, “cansativos”, “inúteis”, “maçadores”, “descartáveis” e “chatos”, já para não falar de outros predicados “bem menos simpáticos”. Apesar disso, ser idoso não é uma doença, nem sequer um problema. Pelo contrário, a grande conquista do nosso tempo é o “direito de envelhecer”. Eu gosto de ser velho e de continuar a envelhecer porque a “alternativa” é algo que gostaria de adiar “indefinidamente”. O envelhecimento será sempre um triunfo e nunca um problema. A questão principal é envelhecermos bem e ter quem cuide de nós. Para isso, Portugal não se recomenda a ninguém. Em 53 países, estamos no grupo dos cinco que pior trata os idosos e podemos “agradecer” a quem nos tem “governado” … Claro que temos livre acesso ao “cardápio das doenças” dos velhos, como hipertensão, pneumonia, cancro, cataratas, diabetes, alzheimer, osteoporose, perda de audição e outras, de que nos podemos “servir à vontade”. Que eu saiba, já “contabilizo” algumas para me poder “gabar” junto do meu grupo etário. É que nas reuniões de amigos, dizemos que temos isto e aquilo e há sempre quem queira sobressair: “Mas eu tenho mais do que tu …”. Os esquecimentos e “lapsos de memória” também fazem parte do “cardápio”, mas são um “luxo”, pois até “dão jeito” nalgumas ocasiões para nos desculparmos. Eu já tenho os meus, que fazem parte do processo, mas ainda me lembro de quem são os meus pés …                                                                              Os esquecimentos dos idosos são motivo de histórias e anedotas como a seguinte: “Um grupo de amigos com 50 anos discutia qual o restaurante a escolher para o jantar. Finalmente, decidiram-se pelo Restaurante Tropical porque as empregadas eram jeitosas e usavam mini-saia e blusas muito decotadas. Dez anos mais tarde, aos 60, o grupo reuniu-se novamente e voltaram a discutir sobre a escolha do restaurante. Escolheram o Restaurante Tropical, pois a comida era muito boa e havia uma excelente carta de vinhos. Dez anos depois, aos 70 anos, reuniram-se outra vez e decidiram-se pelo Tropical porque tinha uma rampa para cadeira de rodas e até um pequeno elevador … Aos 80 anos, o grupo juntou-se a discutir e escolheram outra vez o Restaurante Tropical. Todos admitiram que era uma grande ideia, “porque nunca lá tinham ido almoçar” …                                                            Dizem os especialistas em demografia que em 1970/75 fomos dos países mais jovens da Europa e em 2050 seremos o que tem mais velhos. Admirava-me se assim não fosse. Se aos jovens de então somarmos mais 80 anos, lá para 2050 serão velhos certamente. Como sabemos, os políticos aumentaram a idade da reforma só para reduzir a dívida pública. Mas, havendo mais idosos, vão ter de a aumentar mais. Já agora, para evitar que o país venha a ser o “mais velho da Europa”, também deviam decretar que só será considerado idoso quem tenha mais de 85 anos. Duma “penada”, voltavam a “rejuvenescer o país” …                                                                      Mas, ser velho é uma maravilha e, tirando as “dores” e “afins”, só tem vantagens. A maior de todas é “não termos de trabalhar”. Que trabalhem os outros, porque já foram muitos anos a “dar o corpo ao manifesto”. Outro lado positivo é para os que vivem isolados e sós. Podem-se dedicar à “meditação”. Paz de espírito ou solidão? Os “velhotes” têm muita gente que se preocupa com eles. Melhor, com a “gestão do seu património”. Está provado que muitas vezes cuidam de os “aliviar” desse “fardo pesado”, um gesto “altruístico” digno de “bom samaritano”. E não falta gente sempre “disponível para ajudar”. O senhor João, já com oitenta anos, morava com a mulher dependente e o filho deficiente em casa própria. Em casas suas, ali ao lado, vivem dois filhos à borla e, como “moram longe”, não tinham “hipóteses” de o visitar. Só a nora “conseguia” ajudá-lo. Quando ele precisava, fazia-lhe uma sopa ou conduzia-lhe o carro, … mas cobrava-lhe 5 euros. Não são ajudas “bestiais???                                   Mas as vantagens não ficam por aqui. Para já, não têm ninguém a dizer-lhes que são novos. Só mesmo a gozar. E os privilégios que têm? Os bancos dos jardins são (quase) todos deles, tal como os tascos e os cafés do bairro. Como “o trabalho está feito”, não têm horas para se levantar e podem ficar toda a noite a ver televisão, pela mesma razão. Não é “baril? Se demoram o dobro do tempo a fazer uma caminhada, é porque são sempre eles que apreciam melhor a paisagem. Tal como apreciam a comida, mastigando só, e bem … com as gengivas. Lentamente. E saem muito de casa … basta ver o número de visitas que fazem ao … médico, à farmácia, ao hospital. Cresce-lhes (quase) tudo, especialmente os pelos e as peles. Só “minga” uma coisa, de que têm saudades. O que também não é para todos. 

Um amigo meu sempre que ia à sua quinta gostava de falar com a mulher do caseiro, com quem tinha grande confiança. Numa das vezes, quando lhe perguntou como andava o “homem”, ela respondeu preocupada: “Agora ninguém o atura”. Na brincadeira, espicaçou-a: “Então? Já não vai lá?”. Com naturalidade, ela retorquiu: “Nada disso. Sabe, agora só consegue dar duas por noite …”.  Ele ficou de boca aberta e tão atrapalhado, que não teve capacidade de resposta … Mas há outras exceções que fazem inveja aos mais novos. Já se sabe que os idosos com demências podem apresentar híper-sexualidade, havendo relatos de alguns que fazem sexo várias vezes ao dia. Pensando bem, há uma prova científica de que “ser velho é melhor que ser novo”. É que a medicina e a ciência aumentaram-nos a longevidade, mas prolongaram só a velhice, não a juventude. Não é uma evidência? E outra prova é que, como nos esquecemos da anedota que nos contaram, rimo-nos sempre como se fosse a primeira vez.           Já agora, só mais esta história real para provar que ser velho é bom. A senhora Miquinhas vai a caminho dos noventa anos. Vive numa casita térrea e todos os dias prepara o almoço para a neta e marido e ainda para a nora, já viúva, que não deixa de lá almoçar diariamente, apesar de nem sequer dirigir a palavra à “cozinheira e dona da casa”. E mais: a D. Miquinhas, depois de servir esse almoço a “tão ilustres comensais”, recolhe-se ao canto da cozinha onde não lhe tiram o “direito de comer sozinha”. Não, “com Deus”.                                                                        Mas há muito mais vantagens em ser “velhote”. Porém, como já vai longa a conversa, só refiro que recebem muitos conselhos, como um que circula na net destinado aos homens que, durante a noite, têm de ir várias vezes ao WC. Vou ter de experimentar: “Ao dormir, o corpo na horizontal facilita a circulação do sangue e o coração bate pausadamente. Se você acordar para ir à casa de banho urinar, não se levante à pressa porque o sangue “esvazia” a cabeça e você pode ficar tonto e desmaiar. Faça assim: retese as pernas a partir dos pés durante trinta segundos, para começar a acelerar os batimentos cardíacos. Sente-se calmamente na beira da cama e fique quieto durante um minuto. Passado este tempo, deve-se deitar novamente porque já estará … todo “mijado” …                                                                                                                                                

Pequenos gestos, grandes ganhos…

Sentado confortavelmente na varanda do apartamento, observava o movimento numa das principais artérias de Viseu naquela manhã de domingo, quando surgiu de uma rua lateral um grupo com cerca de vinte rapazes e raparigas, andando passeio abaixo e empunhando cartazes onde se lia em letras garrafais: “QUER UM ABRAÇO?” E os transeuntes que encontravam, surpreendidos e curiosos com aquela iniciativa, paravam e aceitavam, quase sempre bem, um ou mais abraços dos jovens. E seguiam sorrindo, como se tivessem recebido uma prenda de Natal, enquanto o grupo continuava lentamente pela rua fora. Fiquei ali na varanda muito para além de os ver desaparecer ao fundo, roído de inveja daquela simplicidade, ingenuidade e dádiva ao outro, mesmo que desconhecido. 

Dei comigo a pensar que vivi um tempo em que nada disto era possível. Fomos formatados com outros princípios comportamentais, em que as relações interpessoais nada tinham a ver com os dias de hoje. O simples “toque” entre familiares era muitíssimo reduzido, quanto mais com estranhos. Não me lembro de grandes abraços e a saudação aos pais e avós era oral, num “vote-me a sua bênção meu pai” ou “vote-me a sua bênção minha mãe”. Já à minha avó, que não gostava de ser tratada como tal, era um “vote-me a sua bênção mãezinha”. Como as vidas eram muito difíceis em tudo, o pai tinha a função de “caçar”, isto é, ir ganhar a vida para sustentar a família, para o que era necessário trabalhar de sol a sol. Os filhos de lavrador (caseiro), desde tenra idade eram “mão de obra barata”. Por isso se “faziam” muitos filhos. Trabalhavam muito para além do que a sua idade aconselharia, quando ninguém pensava sequer se era legal ou ilegal. E o que se passava com os filhos dos lavradores, passava-se com os filhos de todos os outros. Assim, não havia tempo, disposição nem o hábito de manifestações de afeto em casa através do abraço ou beijo entre homem e mulher e destes com os filhos, quanto mais em público. Era impensável porque “parecia mal”. Porque os sentimentos “não precisavam de ser demonstrados”. Daí haver um pudor cultural enorme, nas palavras, nos gestos, na distância, no respeito. Era bem? Mal? Não é justo julgar à luz dos conceitos de hoje, comportamentos de há setenta anos.

Mas nem é preciso regressar à minha infância para ver as diferenças e sentir os condicionamentos culturais. Ainda há dias, em conversa franca, uma senhora com pouco mais de metade da minha idade me confessava que, estando casada há quinze anos, só há dois foi capaz de dar a mão ao marido. E disse mais. Que foi quase acidental pois, ao andar lado a lado, as suas mãos tocaram-se por acaso e naturalmente agarraram-se. E sentiu-se muito bem. Porque foi que durante vinte e oito anos de namorados e de casados não foram capazes de o fazer, como seria normal? Reconhece que foi o condicionamento resultante da educação familiar, pelo “parece mal”, pelos olhares dos outros que dizem “não podes”, pela limitação que no subconsciente dizia “não” e impedia manifestações de afeto entre pessoas, o que hoje encaramos com naturalidade.

Quanto vale um abraço de conforto, solidariedade, amizade, amor ou simples cumprimento? “Não tem preço”, dizemos nós aqui e agora. Se perguntasse outrora, a resposta talvez fosse: “Tem valor”? Dizem que precisamos de oito abraços por dia para viver melhor e com mais saúde. É caso para nos interrogarmos porque não vivemos melhor se é “tanto ganho por tão baixo custo”? Porque não o fazemos mais? Sabe-se que o abraço melhora o estado de espírito, o humor e o grau de felicidade, sendo mesmo recomendado como terapia. E como os carinhos dos pais permanecem gravados e são lembrados sempre que recebemos um abraço. É que ele acalma, entusiasma, estimula e descontrai, porque foi feito para exprimir o que as palavras não conseguem dizer. Há muita gente a reconhecer que “o melhor lugar para se morar é na ternura de um abraço”. Se soubéssemos o quanto um abraço na hora certa pode resolver …

Pois a memória leva-me lá atrás, àquele tempo de abraços e beijos raros, aliás, de ausência deles. E, apesar disso, não sei dizer se muito valiosos. Mais ainda, como todas as manifestações de carinho e amor, eventualmente restritas ao silêncio e descrição do quarto do casal, longe dos olhares críticos e de “juízes” pouco condescendentes. Se é que havia algo parecido com “carinho e amor”. Não posso esquecer as imagens de telenovelas do “país irmão”, quando o coronel dá ordens à sua mulher: “Dona Branca logo se apronte, que eu vou lhe usar esta noite”. E o que é que isto tem a ver connosco? Nada, porque aqui não havia “coronéis”. E tudo, porque se dizia ou fazia mais ou menos o mesmo, “usando outras palavras”. É que as manifestações de afeto não faziam parte da vida de então. Na realidade, quase só aconteciam quando o “predador” queria apanhar uma “presa”, sendo usadas por ele como “argumento”, quando não “armadilha”. 

O condicionamento que a sociedade fazia às manifestações de afeto era múltiplo. Relembro que as próprias autoridades funcionavam como “polícia de costumes”, atuando sempre que, no seu entender, estivesse em causa a “moral pública”. Assim, eram proibidas todas e quaisquer “manifestações públicas de carinho” porque ofendiam a moral. E sei do que falo, já que também fui um dos interpelados pela polícia no parque do Palácio de Cristal só porque “estava demasiado perto de uma jovem”. Somente isso. Sem tirar “proveito” nenhum, fui repreendido por aquele polícia com ar “didático” e paternal. E tive sorte de não ter ido parar à esquadra …

Neste tempo de liberdade, as autoridades saíram deste filme e tudo (ou quase) passou a ser permitido, seja qual for o espaço público que se use para o efeito. Do abraço ao beijo, do cumprimento de mão ao afago, quando não ir além do que o sentido do pudor recomendaria, tudo é olhado com alguma naturalidade e aceite pela sociedade como normal. Mesmo os maiores absurdos …

Demonstrar afeto é vital para a convivência saudável de qualquer sociedade e foi uma das grandes conquistas da nossa evolução social. E posso falar disso, porque assisti ao “antes” e ao “depois” do quebrar de preconceitos e medo, e à libertação das manifestações de afeto, sejam emoções ou sentimentos. E não tenhamos dúvidas de que, quando o afeto é “real”, as “manifestações” são importantes para um desenvolvimento saudável … 

Festa Grande: O “ruído” que ficou …

Hoje estive a rever imagens da Festa Grande de Lousada, maior, cada ano “mais Grande”. Há quem a denomine de “Festas Grandes” e ainda quem lhe chame de “Grandiosas”. Ora, apesar de decorrer ao longo de vários dias – e este ano foram seis – continua a ser uma só festa em honra do Senhor dos Aflitos e não várias (embora pareça). E faz todo o sentido o “Festa Grande”, porque é a maior do concelho, o corolário de todas as que se realizam em cada freguesia em honra do seu santo padroeiro. E é por ter esse sentido concelhio que o contributo é de todas as freguesias e não só das da vila de Lousada. É desse nome que me lembro quando procuro nos arquivos da memória as lembranças pessoais mais antigas da Festa Grande. E já lá vão uns anitos …

Entre as primeiras memórias está o sábado com a tradicional feira de gado, o rufar dos bombos e a dança dos “gigantones e cabeçudos”, os vendedores da “banha da cobra” com promessas de curar todos os males, propagandistas a atirar pentes ao povo para captar a atenção, negociantes de gado armados de varapau para o que desse e viesse, as filhas dos lavradores, coradas e de cordão de ouro ao pescoço à caça de namorado, os carteiristas e jogadores da “vermelhinha” que vinham dum concelho vizinho para “aliviar” carteiras, a garotada de olhos postos nos pequenos brinquedos artesanais em madeira. E no domingo, a missa de festa com o pregador empolgado no púlpito, a procissão ao fim da tarde e o ajoelhar quando passava o Senhor e depois o piquenique em família junto aos lavadoiros públicos. E já à noite, a banda de música, as tigelinhas a iluminar o monte do Senhor dos Aflitos, as barracas de comes e bebes com pipas de vinho e iscas de bacalhau servidas em grandes mesas de “bancos corridos”. Para fechar, a vaca de fogo que via cheio de medo dentro do carro do meu pai em plena avenida. 

Anos mais tarde falaram-me de “uma mulher da vida” que numa noite acalmou a “tensão” de uns quantos homens entre o milho dos campos lá atrás do monte, usando como lema “cu no chão, dinheiro na mão”. Dizia quem por lá andou que o resultado da noitada foi de quarenta escudos … sendo que cada “cliente” pagava uma “coroa”, ou seja, cinco tostões ou, para quem não sabe, meio escudo. É só fazer as contas …

De ano para ano, o entusiasmo das comissões organizadoras fez com que a Festa crescesse em importância, grandeza e entretenimento para públicos diversos, embora nos últimos tempos muito centrada no negócio do álcool para gente nova, uma forma de financiamento da organização sem ter em conta as consequências. Mas, como dizia alguém envolvido nessas andanças, “é o preço a pagar pelo dinheiro”. 

Agora, fruto das circunstâncias da vida, nos dias de festa fico em casa e só digo “abençoado seja o Monte do Loreto”. É que ele interpõe-se entre a minha casa e a zona onde decorrem os festejos, fazendo com que cá dentro não ouça nada do que se passa no arraial. É como se vivesse noutro mundo. Somente quando rebentam os foguetes, muito especialmente as bombas e os morteiros, sim. Chega o incómodo do barulho, visível no comportamento da minha cadela ao dar sinais de agitação, metendo-se debaixo da cadeira. Então, ouço os estrondos, embora amortecidos pelo monte abençoado. 

Saí duas vezes um pouco antes da meia noite, em ocasiões em que prometi à Luísa ir buscar as tradicionais farturas. Aproveitei para dar uma volta rápida pelos locais mais movimentados do arraial, a forma simples de “apalpar o pulso” à Festa. Como já é habitual, passei pelas barracas de “artesanato africano” feito à máquina na China ou num barracão de Alcabideche, mas vendido por nativos negros vestidos com roupas coloridas para dar credibilidade à “origem controlada”. Também vi trabalhos de outras bandas, sinal de que somos uma boa “sociedade inclusiva”, abraçando tudo e todos. Curiosamente, sendo um ajuntamento onde se promove a venda de “artesanato”, estranho não conseguir encontrar nenhuma barraca de artesanato local, nem sequer da região. As barracas de “comes e bebes” nada têm a ver com as de antigamente. Modernas e sofisticadas nalguns casos, oferecem uma grande variedade alimentar que vai do pão com chouriço meio artesanal às pizas e cachorros. É um facto comprovado que a Festa cresceu em tudo. Em área, diversões, barracas, concertos, iluminação, bêbados e outras estatísticas. Só diminuiu na média de idades dos “anestesiados”, pois se antigamente eram quase sempre “homens velhos enfrascados em verde tinto”, hoje são “adolescentes novos conservados em shots de álcool puro” ou quase. Conserva melhor … A “Família Armando” manteve o seu registo normal ao empanturrar-nos com farinha húmida frita, polvilhada com açúcar. E eu fui cliente duas vezes, fazendo da Luísa uma “vítima” inocente. É que, ao comer farturas e beber sumo, a farinha cresce e a barriga vai atrás e incha …

Apagaram-se as luzes da Festa Grande de Lousada deste ano e com elas o barulho da animação e dos foguetes, para descanso da minha cadela. Mas ficou um “ruído de fundo” que vai e vem, mas teima em continuar, provocado pela indefinição de qual vai ser a Comissão da Festa do próximo ano. Chegou a notícia pública e publicada de que há um grupo que se disponibilizou para o efeito. Mas, além disso, ouço rumores e conversas em surdina sobre reuniões, pressões, avanços e recuos, ingerências e ausências, que transpiram para a praça pública e em nada dignificam os atores. Não se podem esquecer que estamos a falar da “organização da Festa Grande em Honra do Senhor dos Aflitos” e não de um jogo de futebol de casados e solteiros ou de uma corrida ao galo. Por isso, o processo devia ser transparente, célere e digno do que está em causa para evitar especulações e sem se deixar inquinar pela politiquice, que não dignifica o que está em causa … 

É caso para dizer “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. Tal como se apagaram as luzes da Festa e o barulho dos morteiros, será bom que também desapareça esse “ruído” inútil e desnecessário que ficou …    

Será preciso um dia de reflexão?

Hoje é dia de reflexão e eu, como sou bem mandado, estou a refletir. Tenho vinte e quatro horas para o fazer, mas será difícil conseguir estar tanto tempo a refletir. É caso para perguntar: “Será que alguém aproveita este dia em véspera das eleições, para refletir”? Não creio. Se sair por aí a perguntar “está em reflexão?”, vão pensar que estou maluco, porque nem sabem ao que me refiro. E não é necessário um dia reflexão para nada, até porque já todos “conhecemos os políticos de ginjeira”. E “pela aragem, se vê quem vai na carruagem” …

“Conta-se a história de um homem que caminhava por uma estrada, quando se apercebeu de um balão a voar muito baixo. O balonista acenou-lhe desesperado. Conseguiu baixar o balão o mais possível e gritou: “Pode ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas horas da tarde e já são quatro e nem sei onde estou. Pode dizer-me onde me encontro”? O homem da estrada respondeu: “Sim. Você está a flutuar a cinco metros acima da estrada, a trinta e oito graus e quarenta e seis minutos de latitude norte e a nove graus e oito minutos de longitude oeste”. O balonista escutou e perguntou com um sorriso irónico: “Você é engenheiro”? “Sim, senhor! Como foi que descobriu?”, perguntou o homem. “Simples. O que você disse está tecnicamente correto. Porém, a sua informação não me é nada útil e continuo perdido. Será que consegue dar-me uma resposta mais satisfatória”? O engenheiro, depois de uma breve pausa, perguntou ao balonista: “E você é político”? E recebeu como resposta: “Sim, sou político filiado. Como descobriu”? Com ar sarcástico, o engenheiro satisfez-lhe a curiosidade: “Fácil. Você subiu sem se preparar e sem ter a mínima noção de orientação! Não sabe o que fazer, onde está e tão pouco para onde ir! Fez uma promessa e não tem a menor ideia de como conseguir cumpri-la! Ainda espera que outra pessoa resolva o seu problema, continua perdido e acha que a culpa disso passou a ser minha! É político nato!!!” 

Eu não preciso de refletir coisa nenhuma, pois estou decidido e mais que decidido. Claro que vou escolher quem prometeu reduzir muito os impostos, pôr os medicamentos gratuitos para idosos, além de não pagar mais nada na saúde. É o melhor cá para o Zé. E o que se passa comigo também acontece com os dez milhões de portugueses que têm direito a ir votar amanhã. Já escolheram há muito. O partido que propõe a legalização da canábis não conquistou já certo eleitorado, doa a quem doer? E quem promete que a semana de trabalho passa para as 30 horas e o salário mínimo para os oitocentos e cinquenta euros ou até novecentos euros tem ou não tem assegurados os votos de imensos eleitores? Será que algum deles precisa de refletir? 

Mas são muito mais as promessas dos partidos que arrebanharam os milhões de votos em disputa. A promessa de creches gratuitas vai ao encontro dos casais jovens em idade de procriação e com vontade de aproveitar. Passam a ter onde deixar os “pimpolhos” a custo zero. Daí, zero de necessidade de reflexão. Para quem está a precisar de habitação faz algum sentido escolher outro partido que não o que promete construir 100.000 casas com rendas baratuchas? 

E se os eleitores são de Lisboa ou Porto, vão fazer questão de estar à porta do local de voto às cinco da manhã para garantir lugar na fila (tal e qual como em muitas repartições públicas, centros de saúde, etc.) e ser dos primeiros a votar. Terão a certeza que ajudaram a colocar o partido “promitente” no poder. Como a criançada ainda não pode votar, os pais dos cábulas votam por eles no partido que promete acabar com os chumbos no ensino básico (já se fala também fazer o mesmo no secundário). Podem aproveitar também e votar em quem promete acabar com as propinas. Mesmo que os filhos ainda estejam na creche. É uma visão de futuro …

Para os que vivem nos centros urbanos e querem “regressar à terra” há um que lhes serve como uma luva, pois promete criar uma “Rede Nacional de Hortas Urbanas”. Não sei se são “hortas penduradas” ou não. Para quem acha que os políticos vivem à sua custa, votará com certeza no partido que vai reduzir os deputados para 100. Falta saber é se, para dar “emprego” aos outros, não vão aumentar o número de ministros, secretários de estado, etc. Mas há promessas para todos os gostos (e necessidades). Não quer que se pague a dívida pública? Quer que Portugal saia da União Europeia e da Nato? E os comboios devem chegar mais longe? ADSE para todos? Aulas de filosofia para crianças? Já nem falo nos eleitores que são “adeptos fanáticos” do seu “clube político”, pois não vale a pena refletirem porque só veem “uma coisa ao fundo”. Por tudo isto, não é preciso este dia de reflexão …  

Se os políticos vão cumprir ou não o que prometem é outra questão, que amanhã não importa. Nem sequer depois …

Entregámo-nos confiantes e inocentes aos políticos (governantes) e não percebemos (ou não queremos perceber …) que para eles, “não mentir”, não significa “dizer a verdade”. São duas coisas distintas. Basta lembrar o que se passou com o “arremedo de descentralização” anunciado pelo ministro da saúde (que “já foi de vela”) e confirmado depois pelo primeiro ministro no Parlamento em tom agreste e muito cínico, de que o Infarmed vinha para o Porto, quando estava visto que a “montanha ia parir um rato”. E aconteceu. O Porto “ficou a ver o Infarmed por um canudo” e já ninguém se lembra da “garantia que era a sério” e do nosso primeiro ter “a lata” de afirmar “que já o tinha repetido perante os deputados da nação e do país por cinco vezes”, como se tratasse de uma verdade definitiva. Com todas as repetições, conseguiu um feito histórico ao “afirmar” uma mentira duas vezes mais do que o apóstolo Pedro quando negou Jesus Cristo … 

Aliás, foi o que fizeram os políticos de cento e oitenta e nove países no ano 2000, como diz o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Nesses dias do ano 2.000, 189 países assinaram a Declaração do Milénio e comprometeram-se a resolver todos os dramas do mundo. O único objetivo alcançado não apareceu na lista: conseguir multiplicar-se a quantidade de “especialistas” necessários para levar adiante tarefas difíceis. 

Pelo que ouvi, em S. Domingos um dos especialistas estava a percorrer os arredores da cidade, quando parou diante do galinheiro da dona Maria de las Mercedes Holmes e lhe perguntou: “Se eu disser exatamente quantas galinhas tem, a senhora dá-me uma? E ligou o computador tablet com tela “touch screen”, ativou o GPS, conectou-se através do seu telefone celular 3G com o sistema de fotos de satélite, pôs o contador de pixels a funcionar: “A senhora tem 132 galinhas”. E pegou uma. Dona Maria de las Mercedes não ficou calada: “Se disser ao senhor qual é o seu trabalho, devolve-me a galinha? Pois então eu digo: o senhor é um especialista”. “Como sabe”, questionou ele. Ela respondeu: “O senhor é um especialista internacional. Notei porque veio sem ninguém o chamar, entrou no galinheiro sem pedir licença, contou-me uma coisa que eu já sabia e cobrou-me por isso” …

Da esquerda à direita, as promessas eleitorais têm mais ofertas que um propagandista em feira de ano, com benesses para todo o tipo de clientela. A verdade é que a maioria delas não passa de fogachos. Os que decidem em muitas dessas matérias têm os “rabos” sentados em Bruxelas e Estrasburgo e não em Lisboa. E, que se saiba, as eleições de amanhã deixarão os eleitos sentados na nossa capital …

Moscas, mosquitos e outras “melgas” …

Havíamos chegado a Luanda há alguns dias e, instalados na pensão bem perto do mercado de S. Paulo, conseguira convencer o Zé, meu colega e amigo, a comer o bife que lhe serviram ao jantar porque, como estava habituado à “comida da mamá”, já andava a passar fome desde que saímos do continente. Meteu a primeira garfada à boca e, quando se preparava para cortar mais um bocado de carne, naquela sala onde as moscas eram mais que muitas, duas delas “abraçaram-se” em pleno voo e, incapazes de controlar a aterragem, caíram aos trambolhões dentro do prato dele. E com um ar de desgraçado e de quem não sabe o que fazer, perguntou-me: “E que faço agora”? Sem pensar muito, disse-lhe o que pensava: “Empurra-as para o lado e acaba o bife”. Era um tempo em que não havia lugar ao desperdício …

Como é que um pequeno inseto, seja mosca ou o mosquito, nos pode estragar a refeição ou dar-nos cabo do juízo ao pôr-nos a fazer figura de estúpidos dando “sapatadas” na cara, na cabeça ou no corpo, na tentativa de lhes acertar sem que levemos a melhor na maior parte das vezes? Chega a ser desesperante travar luta tão inglória. Ainda hoje andava cá por casa a “jardinar” e suei bastante. A certa altura, as moscas começaram a voar à minha volta tentando pousar na cabeça, nas orelhas e no nariz, atacando e fugindo logo numa estratégia de “guerrilha” que fazia “moça” pelo incómodo. Uma chatice. Mas o pior foi quando uma delas ficou às voltas dentro da orelha, obrigando-me a dar uma palmada na cara com mais força que a desejada. Raio de mosca. Mas são rápidas, bem mais rápidas do que nós. Dificilmente lhes acertamos. E tudo está nos olhos e na velocidade de perceção das imagens, um sem número de vezes mais rápida do que nós, que lhes permite perceberem o nosso movimento muito cedo, mal o comecemos a fazer e que lhes dá tempo para se “porem ao fresco”. Sempre que vou fazer a minha caminhada matinal atrás da Becas, sim, porque é ela que me leva a reboque, numa parte do percurso é habitual ser atacado por umas moscas pequenitas, mas chatas, que me obrigam a tentar sacudi-las agitando as mãos dos dois lados da cabeça ou abanando com o boné. Ontem, quando ia a chegar ao cimo duma subida a fazer tal figura de parvo, de tão desesperado, ao agitar as mãos acertei nas hastes dos óculos escuros que uso nos dias mais luminosos, indo estes parar ao asfalto da rua com alguma força. Como que de forma automática, fecharam-se e, com as lentes arredondadas voltadas para baixo, começaram a deslizar pelo asfalto ladeira abaixo. De repente, vi-me a correr atrás dos óculos na descida, mas quanto mais corria, mais os óculos aceleravam qual “skate” e não os consegui apanhar senão quando pararam lá no fundo. Se alguém ali ao lado estivesse a ver a cena pensaria que era o programa dos “apanhados”. Claro que as lentes ao deslizarem sobre o asfalto áspero, foram bem “esmeriladas” sem eu pedir. E tudo por culpa de uma mosquinha, a que nem sequer se podia chamar de mosca …   

Não gosto de moscas nem de mosquitos por muito ecologista que seja e não espero vir a ser convencido do contrário. Nem mesmo quando nos dizem que a “mosca soldado negra” pode ser uma solução para o problema da alimentação humana. Já há criadores de larvas desta espécie de mosca pois, diz quem sabe, elas conseguem transformar qualquer resíduo orgânico em proteína de altíssima qualidade. Mas nem assim. É que “as moscas tanto pousam no mel como no estrume” e, quando me tentam chatear, nunca sei de “onde é que elas vieram”.

Já decidi que não inicio nenhuma viagem por mais curta que seja com uma mosca “a bordo”. São um perigo à condução porque, quando se poem a voar à nossa volta podem ser tão chatas que nos obrigam a tentar abatê-las o que, para quem vai a conduzir, pode ser um problema sério … 

Mas, muito mais incomodativo que a mosca, é a melga. A melga é um mosquito, embora nem todos os mosquitos são melgas. Só as fêmeas, pois os machos não nos picam nem chateiam. Só mesmo elas têm o péssimo hábito de nos darem cabo do juízo e do corpo. Diria que é uma característica inata de “género” … Mas, voltando à melga, para além de duas asas está também munida de uma tromba especializada em picar a pele e sugar sangue. Mas se há alguma coisa de que não gosto (nem ninguém penso eu …) é ser acordado a meio da noite com um “bzzzzzz”, “bzzzzzz” a entrar pelos ouvidos, do tipo berbequim a furar, voando à volta da cabeça num vai e vem sem parar, diminuindo ou aumentando de intensidade conforme se afasta ou aproxima. Quando acordado ao “toque de ataque” desse “inimigo invisível”, sem pensar e de forma instintiva, cubro a cabeça com o lençol e tapo-me todo para impedir que tenha acesso à minha pele. Mas o “bzzzzzz” não para, pois ela sabe que tem sangue fresco ali à mão. Às vezes, quando mais acordado, acendo a luz, mas desaparece como por encanto. Mal apago o candeeiro, o som volta. Só me resta sujeitar-me ao castigo para lhe montar a armadilha. Ponho o braço esquerdo de fora dando-lhe “campo” para ela aterrar e picar. E deixo que enterre a tromba e comece a sugar sangue, para se distrair da palmada que a mão direita tem preparada. Só assim será possível abater esse “inimigo”.

As melgas atacam-nos porque somos como que um “camião cisterna” do alimento necessário para a maturação dos seus ovos: o sangue. E conseguem facilmente descobrir-nos pois emitimos odores especiais que elas detetam, como “letreiro em supermercado”. Já me aconteceu estar com outras pessoas em quem elas não “tocam”. Será que é gente com o sangue envenenado e, se picarem, morrem? Ou terão o sangue estragado e com sabor a ranço? A acreditar nos estudiosos, há alguns humanos que emitem algo parecido com um repelente, que as afasta. Infelizmente, não é o meu caso. Chego a pensar que o meu tem mel …

Já agora que estou a pensar no muito que “fui mordido” ao longo da vida, não há dúvida que as maiores “picadelas” que levei foram dadas por “melgas” bem maiores e que não têm tromba, mas “trombas”. A alguns, bem me apetecia “parti-las”. Verdade seja dita que nunca me acordaram a meio da noite nem tão pouco fizeram “bzzzzzz” à minha volta a avisar que estavam prestes a picar-me. Nisso, as verdadeiras melgas são honestas porque avisam quando vão atacar, ao contrário das “melgas grandes”, que são traiçoeiras e enganadoras.

Há muitas recomendações para afastar as melgas e evitar as picadas dolorosas, desde usar roupa clara, “fazer de morto”, andar com uma ventoinha e outros mais ou menos curiosos. Além disso há os meios técnicos expressos numa grande variedade de aparelhos feitos para matar ou repelir. Para não ser “picado” pelas outras “melgas”, tenho alguma dificuldade em dar conselhos, porque preciso de alguns. Em teoria, é fácil. Para resistir ao “canto da sereia”, lembra-te bem: “nos negócios, não existem amigos, apenas clientes” e “não emprestes dinheiro a um amigo, porque perderás os dois”. Se formos capazes de seguir estes dois princípios, não precisaremos de nenhum outro “repelente” …