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A cabeça da pescada

Hoje comi uma cabeça de pescada cozida “com todos”, um dos meus pratos favoritos, se bem que, para tirar o maior partido do repasto, obrigo-me a dispor do tempo que for preciso para cumprir todo o ritual. Tudo começou ontem quando fui ao supermercado. Aquelas pescadas frescas (pensamos nós e dizem-nos eles, até porque estão no gelo …) e grandes, foram uma tentação a que não resisti (deixem-me ser sincero: como qualquer bom português, a maior tentação foi a excelente promoção, pois estavam a pouco mais de metade do preço). Pedi para a prepararem logo ali e para cortarem a cabeça “com gola”, um “pescoço comprido” como se lhe viesse agarrada uma boa posta. Dá imponência à cabeça e desafia-me o apetite, além de fornecer uns bons pedaços do lombo, bem precisos para não ficar com fome. É que, as espinhas, não enchem pança. Para começar a função do meu ritual começo por tirar a gema dum ovo cozido, esmaga-la no prato e fazer o molho amarelo com muito azeite, vinagre tinto caseiro, alho e sal. É com esse molho que vou temperando batatas, pedaços de pescada, couve, cenoura e cebola, para lhes dar o meu “gostinho especial”. Então, com muita calma e paciência, vou comendo um pouco de cada um dos componentes e usufruindo da cabeça da pescada, espinha a espinha, “à unha” (como o Zé da Cunha) sem cerimónias, para poder “chuchá-las” bem. Em regra, acabam todos de almoçar muito antes de mim, mas já sabem que eu continuo até porque a demora faz parte do ritual. 

Não sei a que se deve este meu gosto, mas penso que é pelo facto de ter nascido ainda no decorrer da segunda guerra mundial e ter sido marcado pela falta de alimentos, o que me obrigou a valorizar cada bocado de comida, muito especialmente se se trata de carne ou peixe, por serem raros. E era por isso que se fazia o aproveitamento integral do peixe, de que sobravam somente as espinhas, depois de estarem “limpas”. Aliás, o que se passava com a pescada também acontecia com a carne. Prefiro as partes com ossos, como é o caso das costelas ou dos “ossos de assuã”.

Enquanto comia a cabeça de pescada, dei comigo a pensar que não conheço nenhum jovem que tenha este prazer, tal como não encontro um que goste da carne com osso ou gordura. Será que os excessos a que estão habituados os levaram a escolher o mais fácil de comer – a febra de carne, sem nada de osso? Será por terem sido “formatados” pela “macdonald’s” e “pizza hut” através de publicidade agressiva e continuada? Será porque cedo impuseram aos seus aquilo que só queriam comer sem que os pais fossem capazes de os educar com “boa boca” e a comer de tudo? 

Contra mim falo, que cedi, como toda a gente. É assim que os “nossos meninos” hoje só comem alguns pratos do cardápio, alegando que “não gosto de peixe porque tem espinhas”, apesar da mamã se dispor a retirá-las uma a uma, ou “não gosto de rojões porque têm gordura” ou “não gosto de sopa porque…”

Há dias, uma senhora contava-me muito chocada que, no infantário da sua aldeia, onde trabalha, uma grande parte dos “paizinhos” vai buscar os filhos à hora do almoço para irem comer a casa. E não ficam para almoçar no infantário por uma única razão: as criancinhas não querem comer sopa e até dizem porquê. ”É enjoativa”, desculpam-se elas. “Porque… é sopa”. Ora, como é que “aquelas” crianças, apesar de ainda andarem no infantário, já têm idade para saber o que querem e o que não querem e o que é melhor para elas? É surpreendente que, com tão tenra idade, já tenham adquirido personalidade suficiente para se imporem ao pessoal que trabalha no infantário. E os papás e as mamás, como submissos que são ante o “quero, posso e mando desses pequenos ditadores”, acatam e fazem com que a sua vontade seja cumprida. É que os pais não querem, não podem e não as sabem contrariar. “Deus me livre” dizia um paizinho. “Ficam traumatizadas para o resto da vida”. Dizer-lhes “Não” ou “Vais ter de comer a sopa”, está fora de questão. “É uma violência que não é educativa”, dizem.

Já me tenho visto na cozinha de algumas pessoas onde, quase por norma, é preciso fazer quase diariamente um prato diferente para o menino ou a menina, porque “não gostam”, “não querem”, “isso faz engordar” ou uma outra desculpa esfarrapada qualquer. É que comer a refeição normal de casa é um castigo e está fora de questão. Todos os dias se pergunta ao “pequeno ditador” o que é que ele quer comer. “Um bife com batatas fritas”, quando não um hambúrguer. “Sopa”? Nem pensar … E já agora, porque não ir ao Macdonald’s ou à Pizza Hut satisfazer o desejo de “quem manda”? E já nem falo na comida que fica no prato, como desperdício de um bem valioso que falta a muita gente, com a bênção dos papás. Incapazes de se imporem aos “infantes”, o que se pode esperar deles quando tiverem de os educar quando já adultos?

No Japão, num restaurante de “sel-service”, cada um só se serve com aquilo que vai comer. Só. E comem tudo, sem deixar comida no prato à boa maneira portuguesa. Nenhum alimento pode ser desperdiçado. E não é. Aliás, na educação japonesa, as crianças limpam as suas escolas todos os dias durante quinze minutos, juntamente com os professores, que levou ao aparecimento de uma geração de japoneses entusiasta da limpeza. Se por cá pusessem os meninos (e meninas) a limpar a escola, “caíam-lhes os parentes na lama” e os professores “estavam feitos ao bife” com as crianças, mas muito pior, com os familiares … Por isso, vamos criando a “ganapada” sem regras nem respeito pelas pessoas, pelos alimentos, pelo meio ambiente, pela lei e por tantas outras coisas. E depois queremos adultos responsáveis …

Vida de melros e do “Macaco Nu” …

Os melros já há muitos anos se instalaram nos terrenos cá de casa sem sequer me pedir autorização. E, por mim, ainda bem. Ora, alguns foram tomando conta do jardim e fizeram dele o seu território onde são reis e senhores e se impõem aos outros da sua espécie. Fico feliz por escolherem o meu jardim, até porque o melro-preto faz parte da minha infância e, diga-se, da minha cultura. Conhecia-lhe os hábitos, descobria-lhes os ninhos para retirar algum filhote pois, nesse tempo distante, na aldeia era comum ter-se um melro em casa, numa gaiola mais ou menos improvisada. E alguns cantavam maravilhosamente. Recordo-me especialmente de um que o Tónio, empregado da minha avó, criara desde muito pequeno e que reproduzia com perfeição tudo aquilo que ele lhe assobiava, inclusive a música do “Avé Maria” cantada nas celebrações de Fátima. Aqui, todos os anos fazem o ninho numa das sebes ou entre a hera da palmeira, para abrigar os filhotes, garantir a reprodução e assegurar as futuras gerações. É para isso que acasalam e copulam.

Quando hoje estava a olhar o jardim, vi um lindo macho de bico amarelo a fazer a corte à fêmea. O melro eriçava as penas do corpo, fazia uma curta corrida sobre o muro de vedação e parava. E voltava a repetir a cena novamente, à espera de um sinal da sua “namorada”. Entretanto, a jovem fêmea permanecia imóvel no ramo duma árvore ali próxima e assistia às exibições de conquista do candidato a acasalar. E, às tantas, levantou a cabeça e a cauda em sinal de aceitação do pretendente, permitindo que este avançasse para a cópula. A conquista estava feita e a relação foi consumada em poucos segundos.

A evolução humana é entusiasmante, levando o homem a fazer coisas julgadas impossíveis há poucos anos. No entanto, este corre um sério risco de se deslumbrar com tudo o que conseguiu. E, na ilusão desse deslumbramento, esquecer-se que, na sua essência, não passa de um animal. E, apesar de animal especial, tem as necessidades básicas de qualquer outro, precisando também de urinar e coçar-se como outro animal qualquer. Vendo os melros no jardim na fase de acasalamento, lembrei-me de Desmond Morris ao analisar o homem como animal, para ele um “símio nu”. Quando este zoólogo descreve os rituais de acasalamento do homem, divide esse período em três fases: formação de par, pré-copulatória e copulatória. A primeira fase é aquela a que vulgarmente chamamos “namoro”, a segunda é a fase do noivado e a terceira o casamento propriamente dito. No entanto, temos de nos situar no tempo pois o seu livro foi escrito há mais de cinquenta anos e com um contexto social bem diferente dos dias de hoje. Vivi esse tempo em que as regras de cada fase eram bastante rígidas e formais, de tal forma que, sempre que eram ultrapassadas, aguentava-se com as consequências.

Ora, nestes cinquentas anos ou mais, já o mundo deu muitas voltas, aconteceram demasiadas revoluções e até já se discute com vigor o que é um casal e, em consequência, o que é o acasalamento. E, à luz do que é a prática de acasalamento do tal “Macaco Nu” nos nossos dias, inverteram-se completamente as fases em que Desmond Morris dividiu esse período. Os relacionamentos de hoje já começam pela “cópula”, aquela que seria a última fase. Esse passou a ser “o objetivo” imediato do primeiro encontro. Haverá continuidade e segunda fase? Depois se verá. No caso de haver segundo encontro, talvez resolvam tentar a fase “pré copulatória”, que de “pré” já não terá nada, despida de compromissos, “na desportiva”. E se as coisas se proporcionarem, pode ser que, alguns anos mais tarde, passem à “formação do par” … Este é o “novo normal”.  

E tudo isto vem a propósito de algumas imagens que correram pelo mundo das redes sociais, recolhidas “nas noites de farra” da Queima das Fitas do Porto. Nas palavras do jovem universitário que filmou e me mostrou no visor do seu telemóvel algumas cenas “bem pouco edificantes”, aquilo era uma pequena amostra do que se podia ver “ao vivo e a cores” no recinto da festa ao longo da noite e à medida que o álcool “encharcava” por completo os corpos dos “festivaleiros” que, naquele estado, não tinham sequer noção do que era ou não diversão. Segundo o relato, o cúmulo acontecia numa das barracas de bebidas onde a malta que por ali passava se deixava “corromper” com a oferta de um ou dois “shots”, desde que aceitassem fazer uma “cena sexual” provocatória e anormal. E, segundo rezam as crónicas, as “exibições” eram todas filmadas, não só por aqueles que “armaram a barraca” como por qualquer mirone com um simples telemóvel, podendo lançá-las nas redes sociais com toda a naturalidade, como foi o caso. E, de repente, alguns jovens “acordaram expostos a nu” em situações degradantes, nalguns casos sem terem nenhuma recordação do que se passou por estarem completamente inconscientes à beira do coma alcoólico, como atores péssimos de um filme pornográfico ordinário, mas muito mediatizado e fazendo passar para o exterior a sensação de que aquela festa é uma orgia coletiva que, penso eu, não é. 

Não sei qual será a reação dos pais de hoje ao verem no Instagram a sua filha estendida sobre o balcão de um bar, “em pelo” como veio a este mundo, com os “buracos naturais” a servir de “copo” onde um e outros jovens ébrios “bebem um shot à borla”, dividido “boca a boca” com a “dona do copo”. Será um choque? Ou, pelo contrário, motivo de orgulho por a filha ter virado “artista de cinema”? E que reação terá aquela jovem ao ver-se olhada de lado pelos outros, entre sorrisinhos escondidos sem saber porquê, até que “uma alma caridosa” a avise e faça ver as imagens divulgadas pelas tais redes sociais mundo fora, filmada de “vários ângulos” naquela “triste figura”? Será que vê nisso motivo de orgulho, para melhorar o “currículo pessoal” e a sua vida de libertinagem ou “cai na real” e percebe a vergonha da exposição pública em situação pouco abonatória, o que pode levá-la à depressão e ao isolamento por vergonha?

No acasalamento dos melros o que era normal há cinquenta ou cem anos, continua a sê-lo, com os mesmos rituais, os mesmos objetivos. Pelo contrário, com o “Macaco Nu”, na sua permanente insatisfação, tudo o que era normal ficou fora de moda, o que era comum passou a ser “ultrapassado” e só o que é chocante vende. As orgias desceram à praça pública e a libertinagem ganha asas e voa. Já nem se trata de uma questão de imoralidade, mas de total ausência dela …    

“Dou a minha palavra de honra …

Nas palavras do brasileiro Anderson Senna, “a confiança é igual a virgindade. Só se perde uma vez”. Por isso, para se ser merecedor de confiança, é preciso saber honrar os compromissos, as promessas e ações. Era isso que faziam aqueles a quem outrora o povo chamava “Homens de Honra”. Da infância à adolescência, convivi com alguns homens de negócio e assisti a acordos verbais, “selados” com um simples aperto de mão. E os dois ficavam “presos” à sua “palavra”, porque era tida como “palavra de honra”. E a “honra”, esse princípio do ser humano que age com base em valores como a honestidade, dignidade e outros socialmente virtuosos, era coisa que ninguém queria perder. Como a virgindade.  Acompanhei um negócio que, algumas horas depois, se revelaria desastroso para o comprador. Mas ele quis honrar a palavra dada e cumpriu o acordado sem sequer solicitar ao vendedor qualquer alteração à transação. E, apesar de ter argumentos para o fazer … tinha dado a sua “palavra de honra”.

Os meus primeiros negócios de compra e venda de propriedades foram concluídos e selados com o tradicional aperto de mão, sem qualquer contrato escrito. Seguia o princípio em que fui formatado e tudo correu bem, pois sempre cumpri e cumpriram o acordado. Quando nos anos setenta começaram a surgir em Portugal os perfis de alumínio para caixilharias, através de um familiar meu conheci um grande importador de então que estava sediado em Lisboa e que me convenceu a abrir um armazém desse material em Lousada, numa oportunidade única. Decidido a avançar, procurei terreno adequado para construir o pavilhão e encontrei-o em local bem situado na vila. O vendedor, o homem que à época mais terrenos comprava e vendia na zona, marcou encontro comigo no local. Numa grande área de que era proprietário, marcamos uma parcela com a dimensão necessária, acertamos o preço e passei-lhe logo um cheque. Apertei-lhe a mão e, quando estava a virar-me para ir embora, ouvi-o dizer: “Espere um instante que vou dar-lhe um cartão a dizer que recebi este dinheiro”. E, enquanto tirava da carteira um cartão, respondi-lhe que não. Não era necessário. Mas ele insistiu e, nas costas do cartão de visita com o seu nome, escreveu: “Recebi duzentos contos pela compra de um terreno”. Assinou e entregou-mo. Para minha surpresa, ao outro dia, sofreu um AVC e foi a enterrar poucos dias depois. Aquele pequeno cartão foi a minha tábua de salvação, perante um familiar ranhoso e desconfiado, que questionou tudo e mais alguma coisa, insinuando e pondo em dúvida o teor do negócio. Só quando lhe disse que, não tendo eu querido aquele cartão, a verdade é que nele estava explícito que lhe comprara um terreno e lhe entregara duzentos contos. E, das duas uma: ou confiava em mim para saber qual o terreno e os termos do negócio ou me devolvia o dinheiro. Era um problema dele. Foi o meu primeiro sinal de que as coisas estavam a mudar. O aperto de mão já não era suficiente … 

Um pouco antes de falecer, o meu pai teve uma boa conversa comigo. Entre outras coisas, aconselhou-me a documentar-me bem sempre que efetuasse um negócio. Para não acreditar só na palavra. Já não era suficiente. E contou-me alguns casos em que o enganaram e teve prejuízos consideráveis, com “amigos” em quem confiara. Um deles, a quem vendera um negócio no início que viria a revelar-se altamente rentável, e que até era tido como seu “amigo”, nunca lhe pagou nada do acordado. Nem quando atingiu o estatuto de rico …

A partir de certa altura passei a formalizar os contratos promessa de compra e venda a partir duma minuta preparada pelo advogado e, sempre que fazia um acordo verbal selado com aperto de mão, nunca aceitava a entrega de sinal, em dinheiro ou cheque, sem preparar e assinar o respetivo contrato e onde constava o valor recebido. Dizia como argumento, com base no que me acontecera, que “há o viver e o morrer” … Já eram contratos formais, se bem que nem sempre com o rigor dos pormenores em que só os juristas são entendidos.

Passaram os anos, atravessamos o “deserto” de uma crise violenta e a realidade de hoje já nada tem a ver com os tempos da minha infância. De tal maneira, que me traz à memória o filósofo da Grécia Antiga Diógenes de Sinope, mais conhecido por Diógenes, o Cínico. Andava pelas ruas carregando uma lamparina acesa durante o dia, alegando estar à procura de “um homem honesto”. E o meu desencanto com a extinção quase total da “palavra de honra” como valor importante da sociedade, num desprezo por compromissos assumidos, já não é só apanágio dos contratos verbais selados com o aperto de mão, mas de todo o tipo de contratos. Hoje, mais do que nunca, tem uma enorme atualidade a velha máxima de que qualquer contrato deve ser feito “como se os intervenientes fossem inimigos, para virem a ficar amigos”. É que, basearmos a nossa confiança no velho aperto de mão ou mesmo num contrato simples, é correr um risco sério de, mais dia menos dia, virmos a “ser comidos por lorpas”. E sei do que falo por experiência (má) própria, com gente de quem nunca me passou pela cabeça que pudesse ser tão desonesta, no verdadeiro sentido literal da palavra e de quem não me acautelei em devido tempo.

Não deixa de ser curioso que, ao fim destes anos de vida, tenha sido entre pessoas com muito dinheiro ou tidas por ricas e até alguns a quem o povo ainda chama “fidalgos” (se bem que essa dita fidalguia deve ter caído na lama, para não dizer na m. há muito tempo), que encontrei os maiores vigaristas e desonestos. Confiar nalguns deles sem me precaver convenientemente, foi um erro que me custou e continua a custar, muito dinheiro e consumições. Pelo contrário, tendo efetuado muitas transações com pessoas simples e humildes, nunca me trouxeram qualquer dissabor. Foi com muitos desses que selei acordos com um simples aperto de mão, à moda antiga, sem nunca faltarem ao prometido. 

Por isso, se tem algum contrato para fazer, arranje um bom advogado e previna-se porque, mesmo assim, está sujeito a encontrar um vigarista encartado pela frente por mais engravatado que esteja e acaba esfolado como um pato. Se não quer acreditar, veja o caso do Joe Berardo, que tem “a lata” de dizer em público que não deve nada aos bancos … E, se calhar, sem ter razão nenhuma, a justiça vai ter de lhe dar razão …

Não deixa de ser curioso que para as pessoas humildes a “palavra de honra” ainda continua a contar. Só que não é para toda a gente …

Todas as profissões são respeitáveis

Se eu fosse um jornaleiro, gostava que respeitassem o meu trabalho, a minha pessoa, a minha condição. Não gostava de ser ignorado, tido por “coitadinho” ou “um pobre diabo”. Já trabalhei lado a lado com jornaleiros durante horas, dias, semanas e meses, com quem aprendi muito e que me mereceram sempre o maior respeito. Porque foram competentes, responsáveis e dedicados ao seu trabalho, coisa que nem sempre tenho visto noutros trabalhadores de outras profissões tidas por “mais importantes”, sociavelmente mais aceites. Para além do respeito que lhes era devido, tiveram sempre a minha confiança. Porquê? Porque o trabalho do jornaleiro, da empregada doméstica, do trolha ou do lavador de pratos é tão digno como qualquer outro.

Mas, para a sociedade, não é assim. Penaliza, ignora e ridiculariza algumas profissões, a tal ponto que, para lhes retirar esse estigma, muda-lhes o nome. Como se tivesse alguma coisa de ofensivo num “caixeiro”, mudou-se o nome para “empregado de balcão” e agora é moda chamar-se “agente de vendas”. No caso da atual “empregada doméstica”, já foi chamada de “serviçal” e, antes disso de “criada”. A “telefonista” virou “assistente operacional”, o “vendedor” urbanizou-se como “técnico de vendas” e a “empregada de escola” passou a ser “auxiliar de ação educativa”. Mas muitas mais se transfiguraram nos nomes, se bem que aquilo que fazem efetivamente em nada tenha mudado na maioria das vezes. Em muitos casos, fugiu-se ao estigma para o voltar a apanhar alguns anos mais tarde. Mas o povo diz que, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” …

A senhora trabalhava em algumas casas como empregada doméstica, dando horas aqui e ali para fazer face aos encargos da família. Logo no segundo dia numa das casas, quando entrou ao serviço a patroa mandou-a limpar a cozinha. E, mal deu a ordem, saiu porta fora como quem tem pressa de chegar a qualquer lado. Mal entrou na cozinha para fazer o trabalho, apercebeu-se de imediato de que, em cima da tampa do fogão, estavam espalhados vários anéis e outros objetos em ouro. Embora humilde, a empregada pressentiu que a patroa estava a testar a sua honestidade, até pela forma como saiu de casa a correr e a quis deixar à vontade e verificar se iria aproveitar a oportunidade para “dar o golpe”. Procedeu como a dona da casa ordenou e fez o serviço completo, limpando a cozinha de alto a baixo. Mas deixou a tampa do fogão com os objetos tal como estavam, sem lhe pôr a mão. Mal a patroa regressou, dirigiu-se-lhe e disse: “Minha senhora, a sua cozinha já está limpa. Já agora, tem aqui o pano para a senhora limpar o pó da tampa do fogão, porque não lhe ponho as mãos, para não vir a dizer que eu roubei o que quer que seja”, enquanto lhe foi passando para a mão o pano de limpeza. A patroa percebeu o erro que cometeu e pediu desculpa, alegando que “a gente não sabe em quem confiar hoje em dia e foi por isso que a quis testar”. Mas a reação daquela mulher ofendida, foi firme, lembrando-lhe que estava a desconfiar da sua seriedade à partida, sem que ter qualquer motivo para o fazer. E despediu-se naquele momento.

Seria caso para lhe perguntar: “Se fosse um professor de música que fosse lá a casa dar aulas de piano ao filho também lhe colocava as peças de ouro em cima do teclado para o testar”? Ou nesse já confiava por ser músico? Quer dizer que há profissões que estão na lista das “confiáveis”, ainda que alguns sejam ladrões, enquanto outras não são nada de confiar, mesmo que só tenham profissionais sérios? É uma questão de juízos prévios, de gente “condenada” sem que haja crime nem tão pouco julgamento. Ou melhor, discriminada pela profissão que exerce …

Há empregadas domésticas desonestas? Há, ninguém o pode negar. Mas, em todas as profissões há gente séria e gente desonesta. Em todas. E não vale a pena armarmo-nos em “virgens ofendidas”, como se isso não fosse uma realidade deste mundo. Daquele em que nós vivemos no dia a dia. Mas só não vê quem não quer. No entanto, isso não nos impede de trabalhar todos os dias com empreiteiros, trolhas, advogados, carpinteiros, jardineiros, banqueiros, políticos, artistas, sapateiros, carpinteiros, sapateiros, etc. 

Nenhum de nós “testou” a honorabilidade dos banqueiros do BES, BPN, BPP e Banif antes de lhes confiar o dinheirinho que tanto custou a ganhar. Ou testamos? Espalhamos algumas moedas em cima do balcão para ver se eles as metiam ao bolso sem darmos conta? Que eu saiba, ninguém o fez. Confiamos. E fomos roubados à descarada. Então, porque não se dá a mesma oportunidade à empregada doméstica, confiando e esperando para ver se é merecedora dessa confiança? Por ser isso: “empregada doméstica” e não “banqueiro”? Por se vestir com roupa humilde e não aparecer “encanada” num fato italiano feito por medida? Fui roubado (e de que maneira) por alguns empreiteiros e advogados e isso não é motivo para questionar à partida a seriedade dos outros …   

Quando aquela jovem e mãe entrou na casa da patroa, professora já aposentada, estranhou por não a ver na sala como era habitual, para controlar descaradamente a sua hora de entrada ao serviço e poder descontar mais tarde um eventual atraso de mais de cinco minutos. Sentiu-lhe o barulho dos passos no andar. Quando ia vestir a bata, ao passar na lavandaria, viu estendido sobre a máquina de lavar um ror de dinheiro, tudo notas de vinte euros dispostas em leque e sentiu-se humilhada na sua dignidade. Revoltada, subiu as escadas e dirigiu-se à patroa: “A senhora tem um maço de notas em cima da máquina de lavar. Deve tirá-las imediatamente, porque está a querer pôr a minha honestidade em causa. E faça o favor de as contar, para ver que eu não retirei nenhuma”. A professora, com ar de fingido esquecimento, respondeu: “Oh, já nem me lembrava desse dinheiro”. “Já agora, para não se esquecer, faça as minhas contas porque não posso continuar a servir numa casa onde desconfiam de mim”, rematou a empregada …

Não soube destes dois casos pela televisão, pelos jornais nem sequer através das redes sociais. Não. Nem se passaram lá longe, onde até parece que não nos diz respeito. Não. Pelo contrário. Ouvi-os eu aqui relatados de viva voz por gente humilde desta Lousada com os olhos marejados de lágrimas. E com razão. Porque foram provocatórios, chocantes, ofensivos. Um atentado à dignidade a que qualquer pessoa tem direito. 

E é de uma injustiça tremenda que alguém tenha de estar sujeito a esta hipocrisia, numa discriminação mal encapotada e vergonhosa, que só desonra quem a pratica … 

Pequenas misérias do ser humano…

A Terra é habitada por numerosas espécies de animais. Nós somos mais uma, aquela a quem Desmond Morris chamou “o Macaco Nu”. O protagonista principal, quase sempre pelas piores razões. Mas isso é outra história. Balzac escreveu a “Comédia Humana” sobre grandeza e miséria da condição humana, obra imensa de histórias de costumes onde a aparência é tudo. Mudaram-se os tempos e de que maneira. Mas se Balzac fosse nosso contemporâneo, continuava a ter inúmeras pequenas e grandes misérias para contar sobre o tal “Macaco Nu”, algumas delas trazidas à luz do dia e divulgadas pelas notícias a uma velocidade vertiginosa.

Nos absurdos do nosso mundo, encontra-se o que ocorreu há pouco tempo no Reino Unido. Um milionário saudita foi acusado de violar uma jovem de 18 anos. Na sessão do julgamento, que durou apenas 30 minutos, o réu alegou que “caiu em cima da jovem e penetrou-a acidentalmente”. E isso foi o suficiente (se é que não houve mais nada por fora) para o ilibar e sair absolvido. Ao ler esta notícia, imaginei como seria a cena do “acidente”: o milionário a passear pela sala de “arma em riste”, à cata de um possível “ladrão”. Ao passar entre os móveis, tropeça no tapete, cai direito como uma estátua sobre o sofá, sempre “de arma apontada”, onde estava “acidentalmente” a “vítima descascada e de papo para o ar”. E, “inexplicavelmente”, o “cano da arma” encaixou perfeitamente “na cova do ladrão”, sem necessidade de ajustes. Daí ter sido, como ele disse, uma “penetração acidental”. Presume-se que ele, como cavalheiro respeitoso, terá feito “marcha atrás”. Mas a “cova” era tão agradável, que ele voltou a “entrar”. E ali ficou, indeciso entre o sair e entrar, num vai e vem que só terminou quando já não podia mais. Francamente. Só as pessoas de má índole não acreditam que aquilo foi um “acidente”. E que “acidente” …

Mas os “acidentes” do foro sexual são vulgares, às vezes bizarros e até originais. É que o ser humano tem “necessidades” que o obriga a “pôr-se a jeito” e às vezes é apanhado com “as calças na mão”. Assim,

naquele dia o serviço de urgências do hospital tinha poucos doentes e a maioria das cadeiras na sala de espera estavam vagas. Por isso, o enfermeiro estranhou ver um homem muito irrequieto, andando de um lado para o outro em grande agitação. Quando se aproximou dele e o aconselhou a sentar-se, o homem recusou e continuou a circular pela sala, como se estivesse ligado à corrente. O enfermeiro só viria a perceber a razão da sua “instabilidade” quando ele foi atendido pelo médico e lhe teve de explicar o seu “problema”. Segundo o “doente”, quando estava a “brincar com um vibrador”, este “escapou-se-lhe da mão” e entrou-lhe pelo ânus dentro “sem pedir licença”, penetrando pelo intestino acima “em contramão”, isto é, em sentido contrário ao “trânsito normal” daquela “via de circulação” que, por regra, se dirige sempre para a saída “no fundo das costas”, à procura da “liberdade”.

E, tal como acontece nas autoestradas quando o automobilista entra em contramão e corre perigo de provocar acidente grave, também ali o “aparelho” estava sujeito a ser abalroado por algum “tutano de m.”. Mas o maior problema é que o referido “aparelho” estava ligado e a funcionar no momento da “invasão”, razão pela qual ele não se podia sentar na cadeira quando o enfermeiro, com a melhor das intenções, o aconselhou a fazê-lo. Quem conseguia estar quieto com o vibrador a “tremer-lhe” na tripa?  Não sei se ele informou o médico qual era a marca das pilhas pois, no caso de serem “Duracell”, teria “massagem” assegurada até ao fim dos seus dias, se fizermos fé na publicidade. Sabe-se que o doutor lhe mandou fazer uma radiografia de imediato, demonstrando, “preto no branco”, que o “aparelhozinho” penetrou de forma significativa pelo intestino. Ora, isso era uma prova inequívoca de que o “fugitivo” era de boa qualidade construtiva, pois continuava a funcionar, apesar das “condições adversas” da “via de circulação”. No entanto, revelou ter uma falha técnica de grande importância para facilitar a resolução de situações como esta e que não sei se o médico apontou no relatório: “Faltava-lhe a “marcha atrás”, controlada por um comando à distância”. Se estivesse dotado com esta característica técnica, até o doente resolveria o problema sem se expor, fazendo-o sair “às arrecuas” pelo local por onde entrou, “inadvertidamente”.

Não soube qual foi a forma como o problema foi resolvido e aquele pequeno aparelho recuperado. Entre familiares e amigos, a questão foi abordada e não posso deixar de dizer que várias sugestões foram aventadas. Houve quem sugerisse uma cana de pesca, o que não me pareceu grande ideia por três razões. A primeira, porque obrigaria o doente a colocar-se com o “c. virado para a lua”, numa posição pouco ortodoxa. Em segundo lugar, por não se saber qual o melhor isco para colocar no anzol. E, por último, como é que o “fugitivo” podia morder no anzol se estava a ser pescado por trás? Houve alguém que sugeriu a ingestão de um laxante, que faria acelerar o “trânsito intestinal” e arrastar o inoportuno vibrador para o “buraco” onde se escondeu ao “fugir” da mão do dono. No entanto, tal solução não colheu parecer favorável de nenhum interveniente, por se considerar haver perigo elevado com a possibilidade do aparelho, a trabalhar, aguentar-se até que a acumulação de gases provocasse o seu disparo como um tiro de canhão, de consequências imprevisíveis para a “via de circulação” e a “boca de saída” … Por fim, como “cada cabeça cada sentença”, surgiu a sugestão mais simples: “Com o aparelho ligado permanentemente, bastava a “vítima” abrir a boca e deixá-la aberta, que o instrumento acabaria por sair sozinho, ao continuar o seu caminho “tripa dentro”. Seria só uma questão de tempo, já que os dois “buracos” estão ligados entre si por uma “conduta”, apesar de longa e sinuosa …

Estes dois casos, embora pareçam diferentes têm muito em comum. Ora vejamos. Os dois intervenientes andavam “em pelote”. Também ambos “caíram (in)voluntariamente”. Sendo certo que o saudita “caiu de frente”, presume-se que o português “caiu de cu”, para trás. Se o primeiro sinistrado quando caiu penetrou a jovem que “repousava” no sofá, já o segundo fez o contrário, deixando-se penetrar por um vibrador que, no momento, devia estar de passagem “a saltitar”. Sabe-se que a jovem levou o saudita a tribunal, acusando-o de a ter violado. Que se saiba, o vibrador não apresentou queixa em tribunal, nem pediu indemnização pelo facto de ter sido enfiado num tubo de esgoto. 

Citando Desmond Morris, “se a organização das atividades mais primárias – alimentação, medo, agressão, sexo, cuidados parentais -tivesse sido desenvolvida unicamente através de meios culturais, teríamos certamente agora sobre ela um controle mais eficaz e poderíamos, inclusive, fazer ajustes pontuais. Mas não o fizemos. Curvámo-nos repetidamente diante da nossa natureza animal e admitimos, tacitamente, a existência da complexa besta que se agita dentro de nós”. E da qual não nos conseguimos libertar … 

Cuidar os outros. E quem cuida deles?

De enxada na mão, o senhor Albuquerque consumia os dias da sua reforma a agricultar no quintal da casa, entre hortaliças e flores. Naquela tarde, quando o filho mais velho o foi visitar, encontrou-o estendido junto à cancela, sem reação. Chamou de imediato o INEM e, a partir daí, a sua vida alterou-se radicalmente. O AVC provocou-lhe a perda total de movimentos do lado esquerdo e afetou a fala, audição e atividade cerebral. 

De um momento para o outro, passou de homem ativo a dependente de terceiros. Depois de estabilizado, o Hospital enviou-o para uma Unidade de Cuidados Continuados, onde viria a permanecer durante três meses. Apesar de alertada para tal, a família “acordou” para o problema no dia em que foi informada de que iria ter alta. “E agora?”, perguntaram os dez filhos reunidos em casa para decidir quem havia de tomar conta do pai. Mas, todos os olhares se fixaram na sua irmã viúva, como se ela tivesse a obrigação de tomar conta do pai. E houve até quem o verbalizasse: “O melhor é ficar em casa da Emília”, disse um deles, dando a entender que não era uma sugestão, mas uma decisão. Enquanto a Emília ficou calada no seu canto, todos os outros aprovaram a sugestão sem hesitar como quem se livra da peste, sem se preocuparem em saber o que pensava a sua irmã viúva. Como nenhum queria o “embrulho”, a decisão “só podia ser aquela”. Afinal, não era um problema, porque foi resolvido num instante. Mas não se esqueceram de nada? Nem de ninguém?

Se é de um momento para o outro que se passa de pessoa saudável a um ser mais ou menos dependente, também é em decisões como esta que se fica a ser “cuidador informal”. “Empurra-se o problema” quase sempre para uma irmã, muito especialmente se for solteira, viúva ou divorciada. “É a única que tem possibilidades de tomar conta do pai”, dizem os outros, como se ela não tivesse vida própria. Neste egoísmo sem pudor, muitas vezes até se “esquecem”, intencionalmente, de lhe assegurar o apoio financeiro, como se lhe coubesse também a ela essa obrigação. É assim que uma mulher recebe um “presente” para o qual não está preparada e que vai fazer dela em pouco tempo uma ruína física e psicológica. O AVC que deixa graves consequências, modifica a rotina da pessoa doente, mas também a de todos os que estão à sua volta. E, no caso em questão, sabe-se que nas primeiras semanas os irmãos até foram passando lá por casa, para ver como estava o pai. Mas, como ele não falava, não participava numa conversa por mais simples que fosse, era uma “chatice” ficar ali a olhar para ele, a “fazer figura de parvo”. Foi por isso, e por muito mais, que os outros filhos se “foram esquecendo” da existência do pai, entregue aos cuidados da irmã Emília. E ela, apesar de ter recebido o “presente” por empurrão dos irmãos sem sequer ter sido ouvida nem achada, dedicou-se ao pai a tempo inteiro, numa missão nada fácil que a foi consumindo física e psiquicamente. A sua vida pessoal acabou e deixou de ter tempo para si, para cuidar da sua saúde, do emprego, do lazer. Nenhum dos nove irmãos se lembrou sequer, que ela também tinha os mesmos direitos que eles, apesar de ser viúva. Mas só viram que estava disponível …

É verdade. Não se tem verdadeira noção do que é “tomar conta” e “cuidar” de alguém com incapacidade física ou mental durante dias, meses e anos, uns atrás dos outros, sem ter estado nessa situação. Só quem passa por isso fica a saber como é difícil e desgastante, de onde se sai arrasado, deprimido, pronto para ir ao psiquiatra ou para uma cura de sono. Não se tem vida pessoal porque se vive só para o outro, não se tem capacidade de reagir pois tem de se anular, não se tem saúde porque só se tem tempo para cuidar da saúde de outro.     

Hoje, todo aquele que presta assistência a uma pessoa dependente de ajuda para o seu dia a dia, sem qualquer remuneração, é tratado por “cuidador informal”, o nome que carrega sofrimento, esconde dramas e implica sacrifícios. Como se trata de uma atividade stressante, o seu prolongamento no tempo leva à sobrecarga do cuidador, provocando altos índices de depressão, sintomas de stress, uso de psicotrópicos e outras doenças associadas, sendo que esses efeitos negativos podem persistir em alguns mesmo depois da perda do paciente. O “cuidador informal” é a expressão de amor e carinho, em regra por familiar ou, às vezes, amigo Em princípio, está entregue a si próprio, ignorado pelo estado, abusado pela família, esquecido de que também é gente. 

A senhora Maria tem mais de oitenta anos e cuida de dois filhos com deficiência há mais de cinquenta anos, a tempo inteiro. Cinquenta anos é uma vida. Mas, pior que isso, naquelas circunstâncias é uma eternidade para quem está despida de si, para quem nunca se põe em primeiro lugar. E, como se essa vida difícil não bastasse, vive com a angústia cravada no peito ao ver que os anos que lhe restam já não serão muitos e interrogando-se: “Quem vai cuidar deles quando eu morrer”? Porque ninguém sabe cuidar deles como ela, conhecer-lhes as necessidades específicas como pôr a mão na cara dum deles para conseguir adormecer. “Como vai conseguir ele adormecer sem mim”, pergunta desesperada, sem conseguir uma resposta que a sossegue e lhe dê a tranquilidade e a paz de que tanto precisa no crepúsculo da sua existência.

Diz-se que são mais de 800.000, mas ninguém sabe. Há muita gente a cuidar do conjugue, dos pais, de filhos e outros familiares. Porque são muitos os dependentes que não conseguem cuidar de si próprios.

Foi a pensar nestes heróis anónimos, naqueles que abdicaram de si em favor do outro, em todos aqueles de quem o estado e a sociedade se demitiram, que a Misericórdia de Lousada lançou em este ano o CACI – Centro de Apoio ao Cuidador Informal, para saber quem são, quantos são no concelho de Lousada e quais são as suas necessidades e as respostas que possam atenuá-las. Sem ter a veleidade de sanar o problema, pretende-se conhecê-lo e estudá-lo para encontrar formas de ajudar esta gente, de que eu faço parte.

Sendo uma obra de grande dimensão, a Instituição quer estabelecer parcerias com todos aqueles que possam dar mais valia ao projeto e ser parte integrante da solução. Todos podemos colaborar, a começar por ajudar na identificação das pessoas que tomam conta de alguém em situação de dependência. É que nem sempre é fácil chegar a eles, muitas vezes ignorados, esquecidos ou até escondidos da família e vizinhos, como se fosse um crime desempenhar um papel tão nobre. Para causa tão importante e que sempre foi ignorada, há que ajudar na empreitada, porque a tarefa é imensa. Mas, como diz o pensador chinês Lao-Tsé, “uma longa caminhada começa com o primeiro passo”. E todos seremos poucos para o fim pretendido …

Será que somos todos iguais?

Por esse mundo fora vendem-se imensas teorias, umas verdadeiras outras falsas, algumas mais ou menos lógicas e outras mais ou menos estranhas. Há as que são óbvias e têm aplicação prática, mas também as que não passam disso: Teorias. Uma das que nos vão impingindo é a de que nós, seres humanos, somos todos iguais. É bonito e fica bem, como slogan promocional da igualdade, mas está longe da realidade. Gostava de ter razões para crer, mas não tenho. E já nem alimento as ilusões de sonhador. Por isso, considero que não passa de mais uma teoria. Diria mesmo que não é mais que uma “teoria da treta”. Seria bom que fosse verdade, porque todos nascemos iguais: “Nus”. Mas rapidamente deixamos de o ser, conforme o “berço” em que se nasce, o “biberão” em que se mama, a “mesa” em que se come, a roupa que se veste. 

Mas somos todos iguais perante a lei? Claro que somos … e isso quer dizer o quê? Somos todos iguais perante a Justiça? Somos … mas quem não tem dinheiro para pagar a um batalhão de advogados pode com mais facilidade “bater com os costados na cadeia”. Somos todos iguais no acesso à Saúde? Dizem que somos … mas quem não tem “cacau” para não ter de ficar à espera da cirurgia que precisa com urgência ou não conhece alguém que conhece outro alguém, que também conhece alguém no hospital, pode já não vir a precisar dela …

Podemos dizer que somos todos iguais, independentemente da raça, religião, sexo, partido, clube ou nível de estupidez natural? Somos … em teoria. E só em teoria. Ou querem-me convencer que nenhum destes fatores é discriminatório? Por se ser preto e não branco, do partido X que está no poder e não do partido Y que está na oposição, não é motivo para se colocar A à frente de B, C à frente de D, sem ter em conta as suas capacidades e qualificações? 

A este propósito estou a lembrar-me de uma personalidade do norte do país que, em tempos, foi escolhida pelo governo de então para dirigir os destinos de um organismo público que tutela a região norte. E liderou esse organismo até ao dia em que, involuntariamente, a boca lhe fugiu para a verdade. Quando questionado se, na admissão de pessoas para esse organismo não dava preferência maior a uns do que a outros, respondeu: “No caso de ter de escolher entre alguém que é do meu partido e outra pessoa que não é, escolho sempre… o do meu partido”. E, pelas pressões sofridas por parte da oposição, povo e, sobretudo, da imprensa, ao governo não restou outra saída senão indicar-lhe… a porta de saída. 

Uma afirmação destas é “politicamente incorreta”? É. Mas todos o fazem, todos os partidos dão prioridade aos seus correligionários e simpatizantes por mais incompetentes e estúpidos que sejam, mas ninguém o pode dizer em público, muito menos reconhecê-lo. Daí que, quem milita no partido político que no momento está no poder deixa de ser igual aos outros. Passa a ser, nas palavras de George Orwell,  “mais igual do que os outros”. Com mais “direitos”, com “via verde” para chegar à fala com governantes nos mais variados níveis. E tem acesso exclusivo aos “tachos” através da “porta do cavalo” …

São tantas e tão variadas as provas de que não somos tratados como iguais, que faz fé o que se pratica e não o que a Lei diz. E no dia a dia acontece isso tantas vezes, que nem sequer reparamos que também damos o nosso “contributo” para essa realidade. 

Se um pelintra saca alguma coisa dum supermercado, ainda que seja por fome, dizemos que é ladrão. Mas, no caso dum gestor, político, banqueiro ou outro “gabiru” “meter a mão no prato” e gamar alguns milhões, é um “gajo esperto”, “inteligente” e “fino”. Nessas escandaleiras que a imprensa divulgou e o país pagou, a todos aqueles que “desviaram” milhões, o que são eles de facto? E já alguém lhes disse com todas as letras que são LADRÕES? Claro que não. Até em coisas simples em que, sem nos darmos conta, tratamos as pessoas de forma desigual. Diria mesmo que discriminamos. E não faz sentido. Se alguém humilde vai a nossa casa, come do que há, sem haver lugar a “almoço melhorado” nem a atenções especiais. No entanto, se é o “senhor fulano de tal”, o almoço é reforçado com aperitivos, entradas e já não será um prato qualquer, mas algo mais requintado, mais elaborado. E até se abre a garrafa de vinho de marca destinada a momentos especiais. O estômago dessa pessoa simples é diferente do estômago do “senhor fulano de tal”? 

Porque vulgarizamos um e reverenciamos o outro, se ambos são pessoas, iguais nos seus direitos? Ou será que não é bem assim e não são mesmo iguais? O curioso é que até fazemos isso com os próprios animais, de que é exemplo o João. Ofereceram-lhe um cão “rafeiro” e ele deu-lhe “vida de cão”. Comia o que havia e só quando havia. E, se tivesse de comprar ração, era da mais barata porque era cão vulgar. Mais tarde vieram a oferecer-lhe um “mastim inglês” com “pedigree”, que é como quem diz, com o certificado de pureza racial (como os nazis desejavam para si). Então, para esse cão, passou a adquirir uma ração especial e até alguns suplementos alimentares, porque era … “um cão de raça”. Coitado do “rafeiro”, que foi tido como animal de segunda classe, quando não de terceira. Porém, o “mastim inglês”, foi tratado com honras de “senhor fulano de tal”, com outros direitos e, provavelmente, com menos deveres. Que raio de igualdade …

É um facto que somos todos diferentes: altos, baixos, feios, bonitos, gordos, magros, louros, morenos, alegres, tristes, inteligentes, menos inteligentes e por aí adiante, goste-se ou não se goste, por mais que isso não seja “politicamente correto”. Mas há algo que, só por si, é mais que suficiente para justificar a minha descrença na teoria da igualdade. Diz respeito à diferença entre gente bem ou mal educada, pessoas que respeitam os outros e pessoas que não os respeitam, pessoas que têm direitos e deveres e pessoas que só acham que têm direitos. E não falo em instrução, mas em educação. Havendo vários níveis de educação, quando não existem as coisas mais básicas, mais elementares numa pessoa, é difícil, senão impossível, tê-las por iguais e, como tal, conviver com elas. Ser bem educado não é uma questão de etiqueta ou maneirismo, mas de que as pessoas sejam capazes de viver segundo as regras mais elementares e essenciais da sociedade, desde o tipo de linguagem usada entre elas, a forma como se usa e respeita os espaços comuns a todos nós. Ser educado é respeitar os outros e os seus legítimos direitos porque a nossa liberdade acaba onde começa a deles. Mas, quantas vezes não damos de caras com alguém que invade o nosso espaço e ofende os nossos princípios? Será que esses devem ser respeitados e tratados como nossos iguais, se nem sequer aceitam os princípios do respeito comum? Será que aí, alguém continua a defender que “somos todos iguais”? Em teoria, sim. Mas só em teoria. Senão, não passa de uma “Teoria da Treta” …

“Encontrei o seu cão …”

Tenho uma empresa, uma empregada e um escritório, onde se atendem clientes, fazem negócios e desenham projetos. Por mais estranho que pareça, também ali se promove a adoção de animais abandonados e até se dá abrigo a um ou outro. Por isso, passa lá gente sensível à causa, que ajuda a fazer este mundo um pouco melhor. Gente boa, discreta, humilde, atenta, que tantas vezes vai além do possível só para salvar um animal. Há histórias lindas de fazer chorar, lições de vida que ficam no anonimato, dedicação aos que não podem nem sabem reivindicar, não têm voz, apesar de terem direitos. Simples e preocupados, dos que passam na rua e veem o que a maioria não enxerga, e fica quando os outros têm pressa, que procura uma solução quando o normal é ignorar.

Se eu fosse aquele cão rafeiro que foi levado para o escritório pela Teresa, provavelmente contaria algo como isto: “… e então, cansado, ferido por dentro e por fora, com sede e fome, desisti de mim. Fiz um buraco na terra e lá me deitei enroscado para esperar o fim, como sempre o fazem os animais abandonados. Quando ouvi passos e vozes humanas, já não abri os olhos. Nem tinha forças, nem acreditava. Mas você parou, tocou-me e chamou por mim. Quis rosnar, arreganhar os dentes, porque só me enxotaram, mas você disse: “agora está tudo bem”. Cortou a corda que trazia ao pescoço, com que me amarraram à árvore e que eu roera. E pegou-me ao colo como se fosse um bebé. Deixei-me ir. Estava cansado de lutar. Deu-me banho, remédio, cuidou minhas feridas e mazelas, deu-me água e comida, sem um grito, um pontapé. E um espaço, um lugar, uma companhia. Quando já não acreditava, tirou-me da rua, lutou por mim. Não passou sem me ver e sentiu a minha solidão”. Sempre que olhava esse cão, não deixava de ter vergonha pelas nossas pequenas e grandes misérias … 

Como alguém partilhou comigo um lindo texto de autora anónima com o título “Encontrei o seu cão”, não posso deixar de o fazer também aqui. É um bom complemento ao tema em questão.

“Hoje encontrei seu cão. Não, ele não foi adotado por ninguém. Aqui por perto a maioria das pessoas já tem vários cães e quem não tem nenhum não quer um cão. Eu sei que você esperava que ele encontrasse um bom lar quando o deixou aqui, mas ele não encontrou. Quando o vi pela primeira vez ele estava bem longe da casa mais próxima, sozinho, com sede, magro e mancando por causa de um machucado na pata.
Eu queria tanto ser você no momento em que parei na frente dele! Então poderia ver sua cauda abanando e seus olhos brilhando ao pular em teus braços, pois ele sabia que você o encontraria, sabia que você não o esqueceria. Poderia ver o perdão nos olhos dele por todo sofrimento e dor que passara na interminável jornada à tua procura. Mas eu não era você. E apesar de minhas tentativas de convencê-lo a se aproximar, os olhos dele viam um estranho. Ele não confiava em mim. Ele não se aproximava.
Então ele se virou e seguiu seu caminho, pois tinha certeza de que o caminho o levaria a você. Ele não entendia porque você não o estava procurando. Ele só sabia que você não estava lá, sabia que precisa de te encontrar e que isso era mais importante do que comida, água ou o estranho que lhe poderia dar essas coisas.
Percebi que seria inútil tentar persuadi-lo ou segui-lo. Nem o nome dele, eu sabia! Fui para casa, enchi um balde com água, coloquei comida numa vasilha e voltei para o lugar em que o encontrara. Não havia nem sinal dele, mas deixei a água e a comida debaixo da árvore onde ele estivera descansando ao abrigo do sol. Veja bem, ele não é um cão selvagem. Ao domesticá-lo, você tirou dele o instinto de sobrevivência nas ruas. Ele só sabe que precisa caminhar o dia todo. Ele não sabe que o sol e o calor podem custar-lhe a vida. Ele só sabe que precisa de te encontrar.
Aguardei na esperança de que voltasse a buscar abrigo sob a árvore, na esperança de que a água e a comida fizessem com que confiasse em mim; assim poderia levá-lo para casa, cuidar do machucado da sua pata, dar-lhe um canto fresco para se deitar e ajudá-lo a entender que você não faria mais parte vida dele. Ele não voltou naquela manhã e a água e a comida permaneceram intocadas. Fiquei preocupada. Você deve saber que poucas pessoas tentariam ajudar teu cão. Algumas o enxotariam, outras chamariam a carrocinha que lhe daria o destino que você talvez achasse que o libertaria de todo o sofrimento pelo qual porventura estivesse passando.
Voltei ao mesmo lugar antes do anoitecer e não o encontrei. Na manhã seguinte, retornei e vi que a água e a comida continuavam intactas. Ah, se você estivesse aqui para chamá-lo pelo nome, tua voz lhe é tão familiar!
Comecei a caminhar na direção que ele havia tomado antes, mas sem muita esperança de encontrá-lo. Ele estava tão desesperado para te encontrar, que seria capaz de caminhar muito quilómetro em 24 horas.
Horas mais tarde e a uma boa distância do lugar onde o vira pela primeira vez, finalmente, encontrei o seu cão. A sede já não o atormentava, sua fome fora saciada, suas dores haviam passado, o machucado da pata não o atormentaria mais. Seu cão estava morto. Livrara-se do sofrimento. Ajoelhei-me ao lado dele e amaldiçoei você por não estar ali antes para que eu pudesse ter visto brilho naqueles olhos vazios, nem que só por um instante. Rezei, pedindo que sua jornada o tivesse levado ao lugar que imagino você esperava que ele encontrasse. Se você soubesse por quanta coisa ele passou para chegar lá… E sofri, sofri muito, pois sei que se ele acordasse agora e se eu fosse você, os olhos dele brilhariam ao vê-lo e ele abanaria o rabo perdoando-o por tê-lo abandonado”.

Receia que enjoem a “marmelada”…

A vida de há sessenta anos atrás era feita de privações, fome, frio, trabalho duro, quando havia. E necessidades. Havia muito pouco para ganhar, quase nada para distribuir, algum fruto para proteger. Havia fome de tudo, porque havia falta de tudo. Se faltava a broa (era o pão dos pobres, pois não havia “massa” para “moletes” nem sêmea), que era o mais elementar dos alimentos, muito mais difícil era ter acesso ao peixe, à carne, ao queijo, à manteiga e até à marmelada. Por falar em marmelada, em regra, fazia-se pouca por estas bandas, mesmo daquela em que está a pensar. Os marmeleiros, dispersos nas bordas dos campos e quase sempre junto aos regos de água, eram cultura marginal. Diria até que deles se aproveitavam mais as varas direitas e fortes para fazer os “paus de marmeleiro”, usados nas disputas do “jogo do pau” e para “aquecer” as costas dos incautos nas rixas de feira, como resultado de umas canecas de vinho a mais. Mas eram poucas as pessoas que faziam marmelada de marmelo para consumir em casa, até porque o açúcar (amarelo) era pouco para necessidades mais primárias. O meu tio vendia na loja marmelada em pequenas caixas de madeira, acessível só a alguns e, mesmo assim, às fatias. E, sendo natural que ainda esteja a pensar na “outra marmelada”, esses “marmelos” só se pressentiam pelo volume, de tão embrulhados em roupa. Nunca andavam à mostra. “Não faltava mais nada”, diriam as gentes dessa época. Nem dava para chegar perto, nem estavam assim à “mão de semear”. Eram mais sonhados que acariciados. E se a dona estivesse à conversa com um candidato a “cozinheiro ajudante” para fazer essa “doçura”, tal só acontecia à distância de três metros e com uma janela a separá-los, sendo certo e sabido que na janela ao lado e bem atenta às jogadas, estava a progenitora da moçoila, feita polícia de serviço. Não havia baldas. Nem sequer a “proprietária dos ditos”, por formação e educação, estava para aí virada. Até nas feiras de ano. Os lavradores iam com a família toda. Ele, mal chegava, ia direito à feira do gado para “apreçar” uma junta de bois de trabalho, enquanto a mulher e filhas percorriam os tendeiros para comprar um lenço da cabeça ou umas arrecadas no ourives. 

As filhas iam à frente, coradas das papas que comiam antes de sair de casa, todas aperaltadas e com o cordão de ouro sobre “eles”. À vista, só o cordão. E os “marmelos”? Nem vê-los. Só os volumes, bem embrulhados. Nada mais. Atrás, mas suficientemente perto para as controlar, ia a mãe, armada em guarda-costas. Os moços, de colete e chapéu, metiam conversa, mas não havia “avanços” para chegar “ao pé”. Só no dia a dia, em especial durante os trabalhos, surgiam as oportunidades. No campo, a segar erva, o “controle” era bem menos apertado. E aí, podia acontecer. 

Num desses dias, um garoto chegou a casa esbaforido e a gritar: “Oh mãe, o João das Quintãs estava a fazer “porcarias” com a nossa Mila “antr’omilho”. Houve consequências. A Mila não saiu de casa durante um mês. O João levou uma “coça” do pai com a correia dos bois e, apesar de ser jovem, teve de casar com a Mila, “sem tugir nem mugir”. E a criança nasceu “antes do tempo”. É que, “marmelada” a sério, só podia ser feita depois do “papel assinado” e mesmo assim, em bom recato. Em público, nem pensar. Já a Maria teve pior sorte. Também “engordou”. Quando os pais souberam da “maroteira”, puseram-na fora de casa, porque era “uma vergonha”, a desonra da família …

Hoje, na região, ainda se faz marmelada com marmelos que pendem do marmeleiro, se bem que a maior parte seja industrializada. Toda a gente sabe que é mais fácil “produzi-la” no supermercado. Dos outros “marmelos”, outrora quase “clandestinos”, já não há a preocupação de os manter fora dos olhares indiscretos dos mirones como segredo bem guardado. Pelo contrário, as modas mandam que sejam expostos (e bem), usados como arma de ataque e conquista, íman para atrair quem dê uma mão (ou duas) para fabricar o tal “produto”. São artigo para provocar a “concorrência”, com visual muitas vezes trabalhado “cirurgicamente”. Deve dizer-se que passaram a merecer um cuidado especial das donas, sendo sujeitos a tratamentos para melhorarem o “aspeto” e a “atitude”, devendo ser firmes e de “cabeça levantada”, às vezes “desafiantes” e “provocadores”. É que estão sujeitos todos os dias a serem “observados” e “avaliados”. Criou-se toda uma indústria de “suportes” especiais, diversificados, conforme as “necessidades” específicas de cada par, em tamanho, aproximação ou afastamento, maior ou menor elevação, para mostrar verdades ou criar ilusões e enganos. No mínimo, num “espírito humanitário” para “levantar os caídos” ou “dar vida aos mortos” … E a “marmelada” deixou de ser feita às escondidas, em recato, longe da vista e dos olhares gulosos dos “consumidores”. Saiu à rua, invadiu os espaços privados e até os públicos, “trabalhada” sem restrições, limites e inibições de local, tempo, presenças e preconceitos, como um direito de liberdade. Nem se sabe bem se às vezes é para “consumo próprio”, “exibicionismo” ou só “para inglês ver” …

Em termos gastronómicos, sempre ouvi dizer que, comer marmelada com queijo, sabe a casar. E ainda hoje há quem peça para sobremesa “um dueto” ou “Romeu e Julieta”, essa mistura de doce e amargo que dá gosto à vida.

Dizia-me um amigo que os seus filhos adolescentes, já andam fartos de bolos e doces e até já enjoaram a marmelada. Por isso, ao ver as facilidades que hoje têm para fazer da “outra marmelada”, podendo variar de “fruta” sempre que querem, ele anda muito preocupado e manifestou-me os seus receios. Tem um medo terrível que eles um dia destes também “enjoem” esse tipo de “marmelada” e queiram variar e experimentar “outras sobremesas”, menos ortodoxas e mais alternativas, mas para as quais ele não está nada mentalizado …

Com esta burocracia, não vamos lá…

Há anos comprei um automóvel em Espanha e, para o legalizar, tive de ir aos serviços aduaneiros perto do aeroporto, numa sexta feira à tarde. Quando perguntei a um funcionário onde poderia tratar desse processo, informou-me que voltasse às nove horas de segunda feira e fosse a um guichet que me indicou. E eu voltei na segunda-feira e, às nove, já esperava que abrisse o tal “buraco”. Mas, nada. Nove e meia e continuava fechado. Quando vi um homem perto, perguntei-lhe se o postigo não abria. Ao saber para quê, respondeu: “Ah, uma guia de circulação? Vá àquele balcão”, apontando para o extremo da sala. E lá fui eu ao balcão onde me atendeu um indivíduo com cara de poucos amigos. Expliquei-lhe o que pretendia e tive logo a resposta: “Ah, uma guia de circulação!!! Tem de comprar o impresso naquele guichet”. E apontou-o. E lá fui eu parar onde não estava ninguém e esperei até aparecer uma senhora que ainda vinha a comer. “Ah, quer uma guia de circulação? Preciso dos seus dados”. E sentou-se ao computador. Enquanto escrevia, foi-me perguntando o nome, morada, bilhete de identidade, contribuinte e muitas outras coisas. Esteve tanto tempo agarrada ao teclado que até fiquei com medo de não ter dinheiro que chegasse para pagar impresso tão “importante”. Por isso, fui verificar quanto tinha na carteira pois, “pela aragem”, imaginei que fosse caro. Quando ela parou de escrever, ordenou-me: “Vá pagar àquele guichet e traga-me a guia de pagamento”, enquanto apontava para o seu lado direito. Lá fui, à espera que me saísse uma “conta calada”. Esperava-me um funcionário já entrado na idade que, muito educadamente, me informou: “São vinte cêntimos”. “Vinte cêntimos” perguntei muito chocado? “Não era mais económico ao Estado colocarem impressos em cima do balcão, de graça”? ”Não podemos fazer isso. Têm que ser vendidos. São as normas”, respondeu conformado com o sistema. E, de impresso na mão, tive de fazer novamente a rota das “capelinhas”, em sentido contrário …

Estes são os caminhos da burocracia estatal com que me deparei (quase) sempre ao longo da vida, quer a nível central, regional ou local, que complicaram tudo aquilo que deveria ser simples, fazendo (quase) sempre das instituições públicas um empecilho, quando deveriam ser uma ajuda. Não se pode negar que ao longo dos anos houve alguma evolução – e mau seria se a não houvesse com todas as novas tecnologias ao seu serviço. Mas a verdade é que, mesmo com o “Simplex”, a nossa vida ficou mais “Complex”. Cada dia há mais e mais exigências, novas exigências, os processos são mais volumosos, agora “alegadamente” por se tratarem de normas impostas pela UE (leia-se, Um Empecilho). Para tudo são precisas documentações, informações, autorizações, inspeções, certificações e muitos outros “ões”, cada vez mais caros, cada vez mais demorados, que fazem da vida um suplício. E nem adianta ter os “ões” no sítio ,.. 

Na época em que se fala tanto de descentralização, nunca vi na minha vida um estado tão centralista. De tal forma que, recentemente, tive de submeter um processo a uma entidade estatal no Porto. Apesar de terem técnicos qualificados, o processo foi enviado a Lisboa. Depois de registado, para minha surpresa, foi remetido para informação aos técnicos do …  Porto. Quando estes o informaram, o processo voltou a viajar até à capital, provavelmente porque se esqueceram “de lhe dar uma volta pela cidade”. E então, quando começou a estorvar em cima de alguma secretária, “fizeram o favor” de o remeter ao Porto, para a resposta vir a ser entregue ao interessado. Só foram nove meses de espera, o tempo habitual para uma gestação normal. E no que deu o “parto”? Uma informação igualzinha a … zero. Nove meses de tempo perdido nos longos caminhos de um estado enrolado em burocracia e de que nenhum partido, governo ou entidade se consegue livrar, para mal dos nossos pecados. 

Parece-me que, esta gente que nos tem governado, nem sequer tem a perceção dos enormes prejuízos que causa às pessoas, às empresas, à economia deste país e a quem precisa de trabalhar. Ou, se calhar, tem. Mas, como diz o ditado, “pimenta no c. dos outros é refresco…”. Por isso, estão-se borrifando. 

Quando me dizem que um processo meu tem de ir para uma entidade no Porto ou, especialmente, para Lisboa, vem-me sempre à memória a minha infância. Nessa época distante em que as comunicações e os transportes eram escassos e demorados, quando alguém dizia que ia a Espanha, toda a família se despedia dele porque não se sabia ao fim de quanto tempo se voltaria a vê-lo. E é isso que imagino quando um processo tem de ir a uma entidade no Porto. Mas, quando alguém ia para o Brasil, como o Zé da tia Quina, não era só a família, mas toda a aldeia a despedir-se dele, num “adeus até sempre” (verdade seja dita, nunca mais o vi), como se fosse a enterrar. Ora, é algo semelhante ao que acontece quando um processo tem de ir para Lisboa, essa Lisboa que para estas coisas parece estar mais distante do que o Brasil, esse Brasil para onde o Zé da tia Quina foi e nunca mais o vi. E então, se resolvem enviar o processo de uma entidade para outra e dessa para outra e assim sucessivamente, num carrocel sem fim onde ninguém decide coisa nenhuma, é perder a esperança de conseguir que algum dia lhe deem despacho. Fico com a sensação que é uma chatice muito grande o ter de assumir a responsabilidade de tomar uma decisão. 

Conta-se numa velha história militar que dois coronéis tinham o seu gabinete voltado um para o outro, apesar de estarem em edifícios separados e, como os gabinetes eram envidraçados, de um via-se o que se passava no outro. Um dos coronéis tinha a secretária coberta com rimas e rimas de processos, que se amontoavam também nas estantes à volta do gabinete. Pelo contrário, outro coronel tinha o seu gabinete sempre arrumado e livre de processos pois, em poucos minutos, despachava-os todos, independentemente da quantidade. Como não se conheciam pessoalmente, aquele que tinha o gabinete atulhado de papelada andava intrigado como é que o outro resolvia tudo tão depressa. Um dia ocorreu uma reunião militar no quartel e os dois coronéis acabaram por se conhecer. Então, o primeiro coronel aproveitou para perguntar ao seu camarada de armas como é que ele fazia para aviar a papelada e ter a secretária limpa e tempo para ler o jornal e sair antes da hora, enquanto ele fazia horas extraordinárias e nem assim se via livre dos processos. O outro coronel respondeu-lhe: “É simples. Em todos os processos que me chegam, eu despacho logo “ao cuidado do coronel Silva”. “Ah, agora percebo qual a razão porque me estão sempre a chegar montes de processos. É que, o coronel Silva, sou eu” …

Os governantes pedem aos portugueses aumento da produtividade para ajudar o país a sair da crise. Mas, um dos maiores empecilhos para se atingir a produtividade desejável é o próprio estado, apesar do anúncio de todas as reformas da administração pública de que já ouvimos falar há décadas e que nos trouxeram até aqui. Se o estado não é capaz de simplificar os procedimentos e ser uma ajuda para atingir tal objetivo em vez der ser um obstáculo, dá-me ganas de me tornar anarquista e pedir para nos libertarem desse fardo que é o controle estatal e assim acabar com as “burro…cracias”. Que saia do caminho e “nos deixe trabalhar”. Porque, na sua sabedoria, o povo diz que “não há nada mais prejudicial a quem trabalha do que aqueles que nada fazem” …