Monthly Archives: October 2019

Será preciso um dia de reflexão?

Hoje é dia de reflexão e eu, como sou bem mandado, estou a refletir. Tenho vinte e quatro horas para o fazer, mas será difícil conseguir estar tanto tempo a refletir. É caso para perguntar: “Será que alguém aproveita este dia em véspera das eleições, para refletir”? Não creio. Se sair por aí a perguntar “está em reflexão?”, vão pensar que estou maluco, porque nem sabem ao que me refiro. E não é necessário um dia reflexão para nada, até porque já todos “conhecemos os políticos de ginjeira”. E “pela aragem, se vê quem vai na carruagem” …

“Conta-se a história de um homem que caminhava por uma estrada, quando se apercebeu de um balão a voar muito baixo. O balonista acenou-lhe desesperado. Conseguiu baixar o balão o mais possível e gritou: “Pode ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas horas da tarde e já são quatro e nem sei onde estou. Pode dizer-me onde me encontro”? O homem da estrada respondeu: “Sim. Você está a flutuar a cinco metros acima da estrada, a trinta e oito graus e quarenta e seis minutos de latitude norte e a nove graus e oito minutos de longitude oeste”. O balonista escutou e perguntou com um sorriso irónico: “Você é engenheiro”? “Sim, senhor! Como foi que descobriu?”, perguntou o homem. “Simples. O que você disse está tecnicamente correto. Porém, a sua informação não me é nada útil e continuo perdido. Será que consegue dar-me uma resposta mais satisfatória”? O engenheiro, depois de uma breve pausa, perguntou ao balonista: “E você é político”? E recebeu como resposta: “Sim, sou político filiado. Como descobriu”? Com ar sarcástico, o engenheiro satisfez-lhe a curiosidade: “Fácil. Você subiu sem se preparar e sem ter a mínima noção de orientação! Não sabe o que fazer, onde está e tão pouco para onde ir! Fez uma promessa e não tem a menor ideia de como conseguir cumpri-la! Ainda espera que outra pessoa resolva o seu problema, continua perdido e acha que a culpa disso passou a ser minha! É político nato!!!” 

Eu não preciso de refletir coisa nenhuma, pois estou decidido e mais que decidido. Claro que vou escolher quem prometeu reduzir muito os impostos, pôr os medicamentos gratuitos para idosos, além de não pagar mais nada na saúde. É o melhor cá para o Zé. E o que se passa comigo também acontece com os dez milhões de portugueses que têm direito a ir votar amanhã. Já escolheram há muito. O partido que propõe a legalização da canábis não conquistou já certo eleitorado, doa a quem doer? E quem promete que a semana de trabalho passa para as 30 horas e o salário mínimo para os oitocentos e cinquenta euros ou até novecentos euros tem ou não tem assegurados os votos de imensos eleitores? Será que algum deles precisa de refletir? 

Mas são muito mais as promessas dos partidos que arrebanharam os milhões de votos em disputa. A promessa de creches gratuitas vai ao encontro dos casais jovens em idade de procriação e com vontade de aproveitar. Passam a ter onde deixar os “pimpolhos” a custo zero. Daí, zero de necessidade de reflexão. Para quem está a precisar de habitação faz algum sentido escolher outro partido que não o que promete construir 100.000 casas com rendas baratuchas? 

E se os eleitores são de Lisboa ou Porto, vão fazer questão de estar à porta do local de voto às cinco da manhã para garantir lugar na fila (tal e qual como em muitas repartições públicas, centros de saúde, etc.) e ser dos primeiros a votar. Terão a certeza que ajudaram a colocar o partido “promitente” no poder. Como a criançada ainda não pode votar, os pais dos cábulas votam por eles no partido que promete acabar com os chumbos no ensino básico (já se fala também fazer o mesmo no secundário). Podem aproveitar também e votar em quem promete acabar com as propinas. Mesmo que os filhos ainda estejam na creche. É uma visão de futuro …

Para os que vivem nos centros urbanos e querem “regressar à terra” há um que lhes serve como uma luva, pois promete criar uma “Rede Nacional de Hortas Urbanas”. Não sei se são “hortas penduradas” ou não. Para quem acha que os políticos vivem à sua custa, votará com certeza no partido que vai reduzir os deputados para 100. Falta saber é se, para dar “emprego” aos outros, não vão aumentar o número de ministros, secretários de estado, etc. Mas há promessas para todos os gostos (e necessidades). Não quer que se pague a dívida pública? Quer que Portugal saia da União Europeia e da Nato? E os comboios devem chegar mais longe? ADSE para todos? Aulas de filosofia para crianças? Já nem falo nos eleitores que são “adeptos fanáticos” do seu “clube político”, pois não vale a pena refletirem porque só veem “uma coisa ao fundo”. Por tudo isto, não é preciso este dia de reflexão …  

Se os políticos vão cumprir ou não o que prometem é outra questão, que amanhã não importa. Nem sequer depois …

Entregámo-nos confiantes e inocentes aos políticos (governantes) e não percebemos (ou não queremos perceber …) que para eles, “não mentir”, não significa “dizer a verdade”. São duas coisas distintas. Basta lembrar o que se passou com o “arremedo de descentralização” anunciado pelo ministro da saúde (que “já foi de vela”) e confirmado depois pelo primeiro ministro no Parlamento em tom agreste e muito cínico, de que o Infarmed vinha para o Porto, quando estava visto que a “montanha ia parir um rato”. E aconteceu. O Porto “ficou a ver o Infarmed por um canudo” e já ninguém se lembra da “garantia que era a sério” e do nosso primeiro ter “a lata” de afirmar “que já o tinha repetido perante os deputados da nação e do país por cinco vezes”, como se tratasse de uma verdade definitiva. Com todas as repetições, conseguiu um feito histórico ao “afirmar” uma mentira duas vezes mais do que o apóstolo Pedro quando negou Jesus Cristo … 

Aliás, foi o que fizeram os políticos de cento e oitenta e nove países no ano 2000, como diz o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Nesses dias do ano 2.000, 189 países assinaram a Declaração do Milénio e comprometeram-se a resolver todos os dramas do mundo. O único objetivo alcançado não apareceu na lista: conseguir multiplicar-se a quantidade de “especialistas” necessários para levar adiante tarefas difíceis. 

Pelo que ouvi, em S. Domingos um dos especialistas estava a percorrer os arredores da cidade, quando parou diante do galinheiro da dona Maria de las Mercedes Holmes e lhe perguntou: “Se eu disser exatamente quantas galinhas tem, a senhora dá-me uma? E ligou o computador tablet com tela “touch screen”, ativou o GPS, conectou-se através do seu telefone celular 3G com o sistema de fotos de satélite, pôs o contador de pixels a funcionar: “A senhora tem 132 galinhas”. E pegou uma. Dona Maria de las Mercedes não ficou calada: “Se disser ao senhor qual é o seu trabalho, devolve-me a galinha? Pois então eu digo: o senhor é um especialista”. “Como sabe”, questionou ele. Ela respondeu: “O senhor é um especialista internacional. Notei porque veio sem ninguém o chamar, entrou no galinheiro sem pedir licença, contou-me uma coisa que eu já sabia e cobrou-me por isso” …

Da esquerda à direita, as promessas eleitorais têm mais ofertas que um propagandista em feira de ano, com benesses para todo o tipo de clientela. A verdade é que a maioria delas não passa de fogachos. Os que decidem em muitas dessas matérias têm os “rabos” sentados em Bruxelas e Estrasburgo e não em Lisboa. E, que se saiba, as eleições de amanhã deixarão os eleitos sentados na nossa capital …

Moscas, mosquitos e outras “melgas” …

Havíamos chegado a Luanda há alguns dias e, instalados na pensão bem perto do mercado de S. Paulo, conseguira convencer o Zé, meu colega e amigo, a comer o bife que lhe serviram ao jantar porque, como estava habituado à “comida da mamá”, já andava a passar fome desde que saímos do continente. Meteu a primeira garfada à boca e, quando se preparava para cortar mais um bocado de carne, naquela sala onde as moscas eram mais que muitas, duas delas “abraçaram-se” em pleno voo e, incapazes de controlar a aterragem, caíram aos trambolhões dentro do prato dele. E com um ar de desgraçado e de quem não sabe o que fazer, perguntou-me: “E que faço agora”? Sem pensar muito, disse-lhe o que pensava: “Empurra-as para o lado e acaba o bife”. Era um tempo em que não havia lugar ao desperdício …

Como é que um pequeno inseto, seja mosca ou o mosquito, nos pode estragar a refeição ou dar-nos cabo do juízo ao pôr-nos a fazer figura de estúpidos dando “sapatadas” na cara, na cabeça ou no corpo, na tentativa de lhes acertar sem que levemos a melhor na maior parte das vezes? Chega a ser desesperante travar luta tão inglória. Ainda hoje andava cá por casa a “jardinar” e suei bastante. A certa altura, as moscas começaram a voar à minha volta tentando pousar na cabeça, nas orelhas e no nariz, atacando e fugindo logo numa estratégia de “guerrilha” que fazia “moça” pelo incómodo. Uma chatice. Mas o pior foi quando uma delas ficou às voltas dentro da orelha, obrigando-me a dar uma palmada na cara com mais força que a desejada. Raio de mosca. Mas são rápidas, bem mais rápidas do que nós. Dificilmente lhes acertamos. E tudo está nos olhos e na velocidade de perceção das imagens, um sem número de vezes mais rápida do que nós, que lhes permite perceberem o nosso movimento muito cedo, mal o comecemos a fazer e que lhes dá tempo para se “porem ao fresco”. Sempre que vou fazer a minha caminhada matinal atrás da Becas, sim, porque é ela que me leva a reboque, numa parte do percurso é habitual ser atacado por umas moscas pequenitas, mas chatas, que me obrigam a tentar sacudi-las agitando as mãos dos dois lados da cabeça ou abanando com o boné. Ontem, quando ia a chegar ao cimo duma subida a fazer tal figura de parvo, de tão desesperado, ao agitar as mãos acertei nas hastes dos óculos escuros que uso nos dias mais luminosos, indo estes parar ao asfalto da rua com alguma força. Como que de forma automática, fecharam-se e, com as lentes arredondadas voltadas para baixo, começaram a deslizar pelo asfalto ladeira abaixo. De repente, vi-me a correr atrás dos óculos na descida, mas quanto mais corria, mais os óculos aceleravam qual “skate” e não os consegui apanhar senão quando pararam lá no fundo. Se alguém ali ao lado estivesse a ver a cena pensaria que era o programa dos “apanhados”. Claro que as lentes ao deslizarem sobre o asfalto áspero, foram bem “esmeriladas” sem eu pedir. E tudo por culpa de uma mosquinha, a que nem sequer se podia chamar de mosca …   

Não gosto de moscas nem de mosquitos por muito ecologista que seja e não espero vir a ser convencido do contrário. Nem mesmo quando nos dizem que a “mosca soldado negra” pode ser uma solução para o problema da alimentação humana. Já há criadores de larvas desta espécie de mosca pois, diz quem sabe, elas conseguem transformar qualquer resíduo orgânico em proteína de altíssima qualidade. Mas nem assim. É que “as moscas tanto pousam no mel como no estrume” e, quando me tentam chatear, nunca sei de “onde é que elas vieram”.

Já decidi que não inicio nenhuma viagem por mais curta que seja com uma mosca “a bordo”. São um perigo à condução porque, quando se poem a voar à nossa volta podem ser tão chatas que nos obrigam a tentar abatê-las o que, para quem vai a conduzir, pode ser um problema sério … 

Mas, muito mais incomodativo que a mosca, é a melga. A melga é um mosquito, embora nem todos os mosquitos são melgas. Só as fêmeas, pois os machos não nos picam nem chateiam. Só mesmo elas têm o péssimo hábito de nos darem cabo do juízo e do corpo. Diria que é uma característica inata de “género” … Mas, voltando à melga, para além de duas asas está também munida de uma tromba especializada em picar a pele e sugar sangue. Mas se há alguma coisa de que não gosto (nem ninguém penso eu …) é ser acordado a meio da noite com um “bzzzzzz”, “bzzzzzz” a entrar pelos ouvidos, do tipo berbequim a furar, voando à volta da cabeça num vai e vem sem parar, diminuindo ou aumentando de intensidade conforme se afasta ou aproxima. Quando acordado ao “toque de ataque” desse “inimigo invisível”, sem pensar e de forma instintiva, cubro a cabeça com o lençol e tapo-me todo para impedir que tenha acesso à minha pele. Mas o “bzzzzzz” não para, pois ela sabe que tem sangue fresco ali à mão. Às vezes, quando mais acordado, acendo a luz, mas desaparece como por encanto. Mal apago o candeeiro, o som volta. Só me resta sujeitar-me ao castigo para lhe montar a armadilha. Ponho o braço esquerdo de fora dando-lhe “campo” para ela aterrar e picar. E deixo que enterre a tromba e comece a sugar sangue, para se distrair da palmada que a mão direita tem preparada. Só assim será possível abater esse “inimigo”.

As melgas atacam-nos porque somos como que um “camião cisterna” do alimento necessário para a maturação dos seus ovos: o sangue. E conseguem facilmente descobrir-nos pois emitimos odores especiais que elas detetam, como “letreiro em supermercado”. Já me aconteceu estar com outras pessoas em quem elas não “tocam”. Será que é gente com o sangue envenenado e, se picarem, morrem? Ou terão o sangue estragado e com sabor a ranço? A acreditar nos estudiosos, há alguns humanos que emitem algo parecido com um repelente, que as afasta. Infelizmente, não é o meu caso. Chego a pensar que o meu tem mel …

Já agora que estou a pensar no muito que “fui mordido” ao longo da vida, não há dúvida que as maiores “picadelas” que levei foram dadas por “melgas” bem maiores e que não têm tromba, mas “trombas”. A alguns, bem me apetecia “parti-las”. Verdade seja dita que nunca me acordaram a meio da noite nem tão pouco fizeram “bzzzzzz” à minha volta a avisar que estavam prestes a picar-me. Nisso, as verdadeiras melgas são honestas porque avisam quando vão atacar, ao contrário das “melgas grandes”, que são traiçoeiras e enganadoras.

Há muitas recomendações para afastar as melgas e evitar as picadas dolorosas, desde usar roupa clara, “fazer de morto”, andar com uma ventoinha e outros mais ou menos curiosos. Além disso há os meios técnicos expressos numa grande variedade de aparelhos feitos para matar ou repelir. Para não ser “picado” pelas outras “melgas”, tenho alguma dificuldade em dar conselhos, porque preciso de alguns. Em teoria, é fácil. Para resistir ao “canto da sereia”, lembra-te bem: “nos negócios, não existem amigos, apenas clientes” e “não emprestes dinheiro a um amigo, porque perderás os dois”. Se formos capazes de seguir estes dois princípios, não precisaremos de nenhum outro “repelente” …