O vinho, para celebrar a amizade…

Alentejano, produtor de vinho da “talha” e médico, falava na televisão num apelo bem disposto: “Salvem a Terra, porque é o único planeta que tem vinho”. E, mais adiante, num conselho já na sua qualidade de médico, acrescentou: “O vinho pode ser um bom remédio. Mas, como remédio, tem de ser tomado à colher como qualquer outro remédio e não bebido pelo frasco”. Aliás, mesmo Platão já escrevera: “O vinho é medicamento que rejuvenesce os velhos, cura os enfermos, enriquece os pobres”, enquanto um dito popular diz que “o vinho é excelente, tanto para o sadio como para o doente”.

Cresci numa sociedade em que videiras e vinho faziam parte da nossa vida. E da ementa. Aliás, era mais fácil faltar alimento na maioria das casas humildes da terra, do que não haver vinho. E bebiam todos, dos adultos às crianças. À volta das casas, até das mais pobres, a primeira coisa que se fazia era … plantar videiras e fazer uma ramada. Pode-se dizer que era o “jardim da casa”. Porque jardim mesmo, só me lembro de haver em três ou quatro casas dos proprietários tidos por “os ricos da aldeia” e, mesmo esses, rodeados de … ramadas. Até Salazar dizia que “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”.

Daí me ter habituado a beber vinho às refeições … e fora delas, embora nunca tivesse passado tarde nenhuma a “jogar a malha”. Nas tardes de domingo, a cada jogo os perdedores pagavam um copo de litro. E eram muitos os jogos ao longo duma tarde, tal como os litros de vinho bebidos pelos quatro participantes em jogo “tão difícil”. É que esses “atletas” defendiam a tese de que “com bom ou mau comer, vinho sempre a valer.

Na região o vinho era praticamente vendido a granel, em pipas, por regra na “venda” (que se pronunciava como “benda”), misto de tasco e mercearia. Muito pouco era engarrafado pois mesmo nas casas onde havia ramadas, era conservado e consumido a partir da pipa. A estudar no Colégio Eça de Queirós, era um momento especial sempre que o Adriano me convidava com mais dois ou três, para ir a sua casa em Meinedo beber uma garrafa de vinho, claro está, com alguma coisa a acompanhar. Como sabia bem!!! Anos mais tarde, depois dos ensaios dos “Moscas”, em Bustelo, era na adega do senhor Belmiro Melo, tio de alguns elementos do grupo, que celebrávamos a vida com vinho tinto em caneca de porcelana, tirado diretamente da pipa.

O vinho era a bebida. Como dizia Alexandre Dumas, “o vinho é a parte intelectual da comida”. Não havia lugar para a cerveja, muito menos para a coca-cola que, dizia-se, Salazar proibiu de entrar no país. Nem sequer o uísque, um ilustre desconhecido de então. O que importava era a quantidade, não tanto a qualidade. Só com o passar dos anos, a exportação e as exigências qualitativas, o vinho verde tinto, que não ia além dos oito graus, deu lugar aos vinhos brancos cada vez mais graduados, ao ponto de quase se não diferenciarem dos maduros. E assim, “com o passar dos vinhos os anos ficaram melhores”, no dizer de um inteligente.

Os franceses, grandes produtores mundiais e, por isso mesmo, parte interessada no negócio, fizeram apurados estudos para chegarem a conclusões interessantes, reveladoras dos benefícios para quem bebe vinho. Dizem eles que o vinho “faz bem ao coração, evita algumas doenças, ajuda a emagrecer, melhora o sono e o humor, torna-nos mais inteligentes, ajuda na digestão, prolonga-nos a vida, é calmante natural, combina bem com a gastronomia e é bebida sociabilizante”. Não é necessário pôr os cientistas a investigar para chegar a algumas destas conclusões. Eu não tenho dúvidas que uma ou duas garrafas de vinho fazem qualquer um dormir melhor, dão audácia ao tímido, alegria aos tristes e bom humor ao sério. O calado torna-se indiscreto e é da tradição popular que o vinho (e o álcool) conserva os corpos.

A. Fleming, o homem que descobriu a penicilina, dizia que “esta cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes”. No entanto, Benjamim Franklin já foi mais cauteloso ao lembrar: “Toma conselhos com o vinho, mas toma decisões com a água”. Enquanto uns o aconselham sempre, como Napoleão Bonaparte quando escreveu que o vinho “nas vitórias é merecido e nas derrotas é necessário”, já Cícero se deu ao cuidado de escrever sobre a importância da idade: “Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram”.

Fernando Sabino lembra-nos que “Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola. Consagrou o pão e o vinho como alimento do corpo e do espírito”. E as Sagradas Escrituras referem que “o bom vinho alegra o coração dos homens”.

Eu acrescentaria que Cristo também não consagrou a cerveja e hoje, sobretudo entre os jovens, a cerveja destronou o vinho como fator “sociabilizante”, apesar deste combinar melhor com qualquer prato, tornando-se a “parte intelectual da comida”. O vinho sempre foi e é a minha bebida preferida. No entanto, como em minha casa era o único que bebia pois nem a Luísa nem os filhos estavam para aí virados, a partir de certa altura deixei de beber e só o fazia nas refeições fora. Até que, ao fim de alguns anos e para regularizar o intestino, fui bem aconselhado por um médico a beber à refeição um copo de vinho tinto. A verdade é que foi um sucesso e desde então faço do vinho, moderadamente, o complemento de uma refeição, alterando a antiga filosofia do “muito” para o “pouco, mas bom”. 

Já lá vai o tempo do vinho a granel. Hoje o bom vinho é engarrafado, dando sentido à afirmação de Pasteur: “Existe mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os livros”; e a Robert L. Stevenson, ao escrever: “Um bom vinho é poesia engarrafada”.

Estou como Silas S. quando diz “nunca fiz amigos bebendo leite. Por isso, bebo vinho”. Ou será que alguém faz algum convívio “com os pés debaixo da mesa” e celebra a amizade com água ou leite? Até porque amigos são comos os vinhos: quanto mais antigos, melhores. Por isso, conserve-os e celebre … 

Um transporte que passou à história

Às vezes penso que nasci na Idade da Pedra ou algo muito parecido, tais as diferenças entre esses tempos e os dias de hoje. Basta lembrar     que um dos irmãos da minha avó, meu tio avô, tinha a profissão de “carreteiro”. “O que é isso”, perguntaram-me há dias? “Carreteiro” era aquele que fazia transportes de mercadorias diversas em “carro de bois”. Eu ainda sou da era do carro de bois como meio de transporte mais usado nas zonas rurais, como era o caso da minha aldeia. Neles se carregavam os produtos agrícolas, das espigas de milho às pipas de vinho, da palha de centeio ou milho ao mato para “encher “cortes”, além de materiais de construção tais como pedras de perpianho de granito ou toros de madeira. 

E o mais impressionante em relação a esse meu tio-avô é que fazia o transporte de mercadorias de Lousada para o … Porto. Imaginemos a aventura que era fazer a viagem num desses carros, todo ele feito em madeira incluindo as rodas (que só eram revestidas por uma grossa chapa de ferro), sempre puxado por uma “junta de bois”, carregado com uma pipa de vinho de quinhentos litros ou mais (que queria dizer mais de meia tonelada) e enfrentar as estradas difíceis de então até à cidade do Porto para, depois de ali ter descarregado e arrumado a pipa no cliente, regressar a Lousada carregado com outras mercadorias!!! É preciso ter noção do que é um desses “carros” para avaliar corretamente o que era exigido a todos os níveis, tanto ao “carreteiro” como à “junta de bois” e ao “carro”, nessa viagem de ida e volta, que ele fazia com regularidade, porque era necessário transportar para a “cidade” produtos agrícolas como vinho, milho, batata, feijão, centeio, etc., além de madeiras e outros materiais.

Todos os lavradores tinham pelo menos um carro para seu serviço, fundamental nas lides do campo. E, para o puxar, pelo menos uma “junta de bois”, isto é, dois bois que tinham de ser emparelhados e treinados para puxarem solidariamente. Lavrador que não tivesse uma “junta”, não era lavrador. Andei muitas vezes de “carro”, ainda criança, ao ritmo do chiadoiro dos rodados, resultado do roçar de madeira contra madeira, mesmo quando eram untadas com azeite para facilitar a tração. Segurava-me nos “fueiros”, uns paus de altura variável “espetados” a toda a volta do carro para segurar as cargas, como no caso de mato, madeira, lenha e palhas diversas. Para poder transportar milho, espigas, melões, abóboras ou outros produtos do género, os “fueiros” eram trocados por taipais e percebe-se porquê.

Várias vezes acompanhei a minha avó paterna e o senhor Moura ao monte onde iam cortar mato. Começavam muito cedo, ao nascer o dia e a meio da manhã já tinham cortado mato mais que suficiente para carregar um carro. Eu também levava enxada, mais pequena que as deles de acordo com os meus sete ou oito anos de idade e ia fazendo a minha (pequena) parte. Como a minha avó não tinha carro de bois, encomendava o serviço ao caseiro de uma quinta, conhecido dela, e era interessante assistir ao carregar, com o “carreteiro” em cima e o senhor Moura em baixo a “chegar-lhe” o mato usando uma forquilha, fazendo com que a carga fosse subindo e subindo, até chegar a uma altura em que era preciso uma escada para subir ao alto da carga. Mas, no meio daquilo tudo, o que mais me impressionava era que, apesar do mato ser “bravo”, de picos aguçados, ninguém se picava, embora andassem calçados com “socos”, quando não descalços.

Quase todas as casas eram construídas em perpianho de granito, a pedra da região rachada ou mais ou menos trabalhada. Cortada nas pedreiras locais, era toda transportada em carros de bois. Ainda trago na mente as imagens dos homens a carregar pedras daquelas, algumas com dois metros de comprimento e mais, pesadíssimas, mas todas levadas para cima do carro de bois à força de braço porque não havia mecanismos para o fazer. Rachadas na pedreira também à mão, eram levadas até junto do carro aos tombos ao ritmo cantado de um “Upa! Upa! Upa” e subidas sobre duas traves de madeira de forma semelhante, até serem acondicionadas no carro. 

Recordo a história da mulher do caseiro duma das quintas de um proprietário abastado da região. Estava em construção a casa do senhorio na propriedade e este tinha convocado uns quantos “carreteiros” para levar as pedras da pedreira para junto da casa em construção. À mulher do caseiro coube a tarefa de fazer um cozido à portuguesa para alimentar todos os homens que participaram no transporte. Quando eles chegaram, o caseiro ficou muito preocupado pois, ao contá-los, verificou que eram quase o dobro do que lhe tinha dito o senhorio, tendo ido logo contar à mulher o que constatara. “E agora”, dizia ele, “não vai haver comida que para todos”. Mas a mulher não se apoquentou: “Não te preocupes que eu cá me arranjo. Vai à adega e traz presunto, azeitonas, algumas broas de milho e o pipo de vinho maior. Antes de virem almoçar vais pô-los a petiscar bem e a beber melhor e vais ver que a comida vai chegar e sobrar”. E assim fizeram. Os “carreteiros” e outro pessoal ajudante fartou-se de comer broa, presunto e azeitonas, regado com vinho tinto. E, quando foram almoçar, nesse tempo de dificuldades, já não foram capazes de dar conta do cozido que aquela mulher serviu com humildade, honra e sabedoria … 

O carro de bois, que serviu gerações e gerações ao ponto de deixar a sua marca bem vincada na rocha dos caminhos rurais da região pelo desgaste do ferro que cobria os rodados, ao moer a pedra no dia a dia ao longo de muitas décadas, talvez séculos, passou à história e hoje já não passa dum objeto de museus, substituído pelos tratores e outras máquinas que a evolução tecnológica impôs, sem que a sociedade se tenha apercebido verdadeiramente dessa transição, ignorada pelos mais novos e esquecida no tempo por muitos outros …     

Histórias de quem ensina … e educa

Ao longo da vida tive muitos professores a quem devo a maior parte daquilo que sou. Uns formais, com o “canudo” de um curso médio ou superior para dar aulas, e outros às vezes sem curso nenhum, quando não analfabetos, mas que me deram grandes lições de vida e moral. E fiquei devedor para uns e outros com uma conta tão grande, que não vou conseguir pagá-la nunca. Algo como a dívida do país que vai ficar connosco para sempre … 

Se há professores que se limitam a ministrar conhecimentos relativos à matéria da disciplina que lecionam, também existem outros que vão mais longe e ainda conseguem ser educadores, algo muito importante para a vida duma criança ou adolescente. Neste processo, a subtileza de alguns e os meios utilizados para educar sem ferir suscetibilidades às vezes chega a ser extraordinária. Circulam na internet algumas das histórias que nos fazem sorrir e pensar neles como “professores do catano”!!!  

“Num liceu no Porto estava a acontecer uma coisa muito fora do comum. Um “bando” de miúdas de 12 anos andava a pôr batom nos lábios, todos os dias, e para remover o excesso beijavam o espelho da casa de banho. A Direção andava muito preocupada porque a funcionária da limpeza tinha um trabalho enorme para limpar o espelho ao fim do dia e no dia seguinte lá estavam outra vez as marcas de batom.
Um dia, um professor juntou as miúdas e a funcionária na casa de banho e explicou que era muito complicado limpar o espelho com todas aquelas marcas que elas faziam. E, para demonstrar essa dificuldade, pediu à empregada para mostrar como é que ela fazia para limpar o espelho. A empregada pegou numa “esfregona”, molhou-a na sanita e passou-a repetidamente no espelho até as marcas desaparecerem.
Nunca mais houve marcas no espelho” …

Sem um sermão intimidante à turma, sem uma ameaça de castigo ou repreensão, sem o recurso à presença dos encarregados de educação e somente com uma estratégia bem pensada, aquele professor fez com que as garotas não mais quisessem colocar os lábios no espelho de jeito nenhum. A “demonstração”, valeu mais que mil palavras …

Numa dada noite, três estudantes universitários beberam até altas
horas e não estudaram para o teste do dia seguinte. Ao outro dia de manhã, desenharam um plano para se safarem. Sujaram-se da
pior maneira possível, com cinza, areia e lixo. Então, foram ter com o professor da cadeira e disseram que tinham ido a um casamento na noite anterior e no seu regresso um pneu do carro que conduziam rebentou e tiveram de empurrar o automóvel todo o caminho. Por isso, não estavam em condições de fazer aquele teste.
O professor, que era uma pessoa justa, disse-lhes que fariam um
teste-substituição dentro de três dias e que, para esse teste, não havia desculpas. Eles afirmaram que isso não seria problema e estariam preparados.
Ao terceiro dia apresentaram-se para o teste e o professor disse-lhes, com ar compenetrado que, como aquele era um teste sob condições especiais, eles teriam que o fazer em salas diferentes.
Os três, dado que tinham estudado bem e estavam preparados,
concordaram de imediato. O teste tinha 6 perguntas e a cotação era de 20 valores.
Pergunta 1. Escreva o seu nome —– ( 0.5 valor)
Pergunta 2. Escreva o nome da noiva e do noivo do casamento a que foste há quatro dias atrás — (5 valores )
Pregunta 3. Que tipo de carro conduziam cujo pneu rebentou.– ( 5 valores)
Pergunta 4 . Qual das 4 rodas rebentou ——- ( 5 valores )
Pergunta 5. Qual era a marca da roda que rebentou —- (2 valores)
Pergunta 6. Quem ia a conduzir? —— (2.5 valores)

Sem recorrer à confrontação, este professor começou por fazer com que aqueles alunos prevaricadores estudassem a matéria do teste, para depois os colocar diante de um outro bem diferente, que viria pôr a nu toda a falsidade da sua história sobre a ida ao casamento. O professor conseguiu com facilidade pôr em prática o provérbio de que “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo” …

Um professor encontrou um rapaz que dizia ter sido seu aluno. O jovem perguntou: – Lembra-se de mim? E ele disse que não. O jovem disse-lhe que foi aluno dele. E ele perguntou: – O que faz?

– Sou professor, respondeu o jovem.

– Ah que interessante. Como eu? – Sim. Virei professor porque o senhor me inspirou.

Curioso, o professor perguntou ao jovem qual foi o momento em que ele o inspirou a ser professor. E aí o aluno contou a história:

“Um dia um amigo meu, também estudante, chegou com o relógio novo, lindo, e eu decidi que o queria para mim. Por isso roubei-o do bolso dele. Quando o meu amigo se apercebeu do roubo, falou com o professor. E o senhor avisou a turma: “o relógio do vosso colega foi roubado e quem o roubou deve devolvê-lo”. Porém, eu não o devolvi porque o queria muito. Mas o senhor trancou a porta e avisou-nos para ficarmos de pé, pois iria revistar-nos, um a um, em todos os bolsos até encontrar o relógio. Depois, o senhor disse a todos para fecharem os olhos, pois faria isso com os alunos de olhos fechados…

Todos fecharam os olhos e você foi indo de bolso em bolso e, quando chegou ao meu, encontrou o relógio e tirou-o. Depois continuou a revistar os restantes. Quando terminou disse: “podem abrir os olhos. Já temos o relógio”. O professor nunca me disse nada e nunca mencionou o episódio nem denunciou quem o tinha roubado a ninguém. Nesse dia o senhor salvou a minha dignidade para sempre. Foi o dia mais vergonhoso da minha vida. Mas ao salvar a minha dignidade, salvou-me de me ter tornado um ladrão, uma pessoa má, etc…

O senhor nunca disse nada, nem me deu nenhuma lição de moral. E eu entendi a mensagem. Entendi que é isso que um verdadeiro educador deve fazer. O senhor não se lembra disso professor?

E o professor respondeu: – Eu lembro-me da situação, do relógio roubado, de eu ter revistado todos, etc. … Mas não me lembrava de si. Porque eu também fechei os meus olhos ao revistar-vos …

Nesta história, de autor desconhecido, o professor dá-nos uma lição de como resolver um problema sério com subtileza e sem tocar na dignidade do prevaricador.

Como diz o final de um dos textos, “há professores do catano” …

São muitos anos … a virar frangos!!!

Afinal, ainda há quem me surpreenda …

Admiro a genialidade criativa, científica, artística, intelectual, etc. do ser humano, que ultrapassa tudo aquilo que eu poderia imaginar quando jovem adolescente. No entanto, nesta fase da vida já nada me surpreende e, muito menos, me espanta. Diria mesmo que, o que leio, ouço, vejo ao vivo e nos meios audiovisuais ou me é dado a conhecer de outra forma, tornou-se quase banal, não havendo lugar para abrir a boca de espanto pelo último invento, pelo desempenho ou proeza de um atleta de elite ou pela descoberta de um cientista genial. Se achei admirável comunicar pelo primeiro telemóvel a que tive acesso, a partir da Suécia, quase do tamanho dum tijolo, a chegada de novos modelos sofisticados, cada vez mais impressionantes em velocidade, na redução de tamanho e acréscimo da capacidade, multiplicidade de funções e fiabilidade, foi e é encarada com naturalidade, como sendo só “mais um novo modelo de telemóvel”, enfim, uma banalidade que já não surpreende. 

De igual forma admiro Albert Einstein, símbolo da genialidade, que representa o potencial e a capacidade de uma mente excecional, de alguém que foi mais longe que todos os outros, além de muitos mais cientistas responsáveis por novas descobertas, mas que já não me deixam de boca aberta. São o resultado da mistura de inteligência, persistência e muito, muito trabalho. Uma consequência lógica de quem se dedicou intensamente a uma causa e usou o seu cérebro em pleno. É que, nesta máquina muito complexa que é cada um de nós, o cérebro, além de ser o comando do corpo, molda tudo o que somos. Por essa razão houve um enorme interesse da comunidade científica no estudo do cérebro de Einstein após a sua morte, à procura de algo que fosse responsável pela sua genialidade. 

Até conhecer há poucos dias a história de Edgar Cayce eu podia dizer que nada me surpreendia, mas agora dou comigo a tentar encontrar explicações para o que ele fez e como foi possível. Surpreendam-se também!!!

 “O pequeno Edgar Cayce estava doente e o médico mantinha-se à sua cabeceira. Não havia nada a fazer para salvar o garoto do estado de coma. Mas bruscamente, enquanto dormia, a voz do miúdo elevou-se, clara e tranquila, dizendo: “Vou dizer-lhes o que tenho. Apanhei uma bolada de base-ball na coluna vertebral. É necessário fazer-me uma cataplasma especial e aplicá-la na base do pescoço”. E, com a mesma voz, o garoto ditou a lista das plantas que era necessário misturar e preparar. “Despachem-se, senão o cérebro arrisca-se a ser atingido”. Por descargo de consciência, obedeceram-lhe. Ao anoitecer, a febre descera. No dia seguinte, Edgar deixava a cama, tão fresco como uma alface. Não se lembrava de nada e desconhecia a maior parte das plantas que indicara”. Assim nascia uma das histórias mais incríveis da medicina. Como é que Edgar Cayce, camponês dos Estados Unidos, completamente ignorante, lamentando sempre não ser “como toda a gente”, tratará e curará em estado de sono hipnótico mais de quinze mil doentes, devidamente confirmados pelas autoridades? 

Foi muito contrariado que aceitou fazer uso dos seus poderes para ajudar os doentes, em especial os desenganados da medicina, tendo exigido como condição que alguns médicos assistissem às sessões e de não receber um tostão, nem sequer o mais pequeno presente. Foi assim que o secretário local do Sindicato dos Médicos reuniu uma comissão de três, para assistir a todas as sessões, com espanto. De tal forma que o Sindicato Geral lhe reconheceu as faculdades e autorizou oficialmente a dar “consultas psíquicas”.

Virou notícia quando um médico homeopata, Wesley Ketchum, com problemas de saúde que o próprio e seis médicos diagnosticaram ser apendicite, quis pôr à prova os poderes de Cayce. Este, que não sabia da cirurgia, disse-lhe que era um problema de coluna, o que se viria a confirmar na semana seguinte para grande surpresa de Ketchum que o elogiaria publicamente como “uma maravilha médica”. A partir daí limitou-se a fazer só duas sessões por dia. Os diagnósticos e receitas feitas em estado de hipnose eram de tal precisão e acuidade que os médicos desconfiavam ser um médico disfarçado de curandeiro. Mas ele continuou a ser fotógrafo, recusou-se a ganhar conhecimentos de medicina, nada lia e continuou filho de camponeses com certificado de estudos correspondente à 4ª. classe. Quando se insurgiu contra a estranha faculdade que possuía e quis desistir, ficou mudo.

James Andrews, magnata americano, foi consultá-lo e, entre outras drogas, prescreveu-lhe “água de salva”. Não conseguindo encontrar o medicamento, Andrews publicou anúncios nos jornais e em revistas médicas do mundo à procura da “água de salva”, mas sem resultado. Não conseguindo, Cayce ditou-lhe a sua composição, muito complexa. Dias depois, Andrews recebeu a informação dum médico parisiense: fora o seu pai, médico, que elaborara a água de salva, mas deixara de a fazer 50 anos atrás. A composição é igual à sonhada pelo fotógrafo!

Cayce casou, teve um filho. Este, ao brincar com fósforos, fez explodir um depósito de magnésio. Os especialistas disseram que a cegueira era total e propuseram extrair um olho. Cayce mergulhou na hipnose, recusou a extração e prescreveu a aplicação de pensos embebidos em ácido tânico durante 15 dias. Os especialistas acharam uma loucura, mas Cayce não cedeu e 15 dias depois o filho estava curado.

São inúmeras as prescrições dele que deixavam todos estupefactos, inclusive Cayce, como a receita de Codirom, um medicamento que não existia nas farmácias. Mas ele indicou a direção do laboratório, em Chicago. Ao telefonarem, receberam um: “Como é que ouviram falar do Codirom se ainda não está à venda, acabamos de elaborar a fórmula e de lhe dar o nome”?

Mas ele ficaria na história pela sua capacidade de prever o futuro. Foi assim ao prever a 1ª. e 2ª. Guerras Mundiais, a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, o surgimento do nazismo, os conflitos raciais nos Estados Unidos, a morte de dois presidentes americanos a até a localização de poços de petróleo, enriquecendo alguns fulanos que o consultaram, sem ele nada beneficiar. Tendo todas as sessões sido registadas por uma estenógrafa, veio-se a verificar que das 14.246 leituras, só 200 estavam erradas. Até viria a acertar em cheio no dia e hora da sua morte …  

Interrogado no estado de hipnose sobre a sua forma de proceder, ele declarou, para não se lembrar de nada ao acordar, que podia entrar em contacto com qualquer cérebro humano vivo e de utilizar todas as informações contidas nesse cérebro ou cérebros, para o diagnóstico e tratamento de cada caso. Como é possível um fotógrafo da aldeia sem curiosidade científica poder funcionar como um médico de génio ou o espírito de todos os médicos do mundo, em simultâneo e no instante?

Ao conhecer a história deste homem, sobre o qual há documentação abundante e até instituições a tentar explicar tal fenómeno, tenho de me confessar surpreendido e até espantado. É caso para perguntar: “Como era possível”? E fica-me uma grande pena pela falta que neste momento faz, não a mim em especial, mas a toda a humanidade. Com a sua capacidade de utilizar todos os conhecimentos que circulam no mundo da mesma forma que alguém usa uma monumental biblioteca, quase instantaneamente ou à velocidade da luz, talvez fosse capaz de prescrever um remédio adequado para combater o Covid-19 e salvar milhões de pessoas deste flagelo que já virou pesadelo, para surpresa e espanto de todos, eu incluído … 

Estamos todos no mesmo barco …

A minha mãe está a dois anos e meio de completar um século de vida e, para nossa alegria, mantem uma boa saúde física e mental que lhe assegura qualidade de vida. Sempre que a tenho visitado nos meses de pandemia ela está sentada na salinha junto à cozinha, espécie de marquise aquecida pelo sol de verão e pela “salamandra” no inverno, tendo a minha irmã e a televisão por companhia, pois não abdica de “ver o Telejornal para se manter informada”. Quando lhe dizem que o Telejornal só apresenta desgraças e calamidades e que muito do que ali se diz não é verdade, responde tranquilamente: “Não há problema, pois eu só acredito no que quero”. Nesta segunda vaga de Covid-19 só sai para ir ao jardim e à missa, contida nos contactos com vizinhos e amigas, num novo confinamento voluntário para se proteger. 

Quase em todas as visitas me põe a par das suas preocupações, sendo uma delas recorrente: “Eu tinha uma consulta marcada no mês de Março na minha médica de família, mas foi cancelada por causa do vírus. Fiquei à espera que me voltassem a marcar a consulta, mas até agora não me disseram nada”. Depois de desabafar sobre essa ausência de notícias relativamente à sua consulta desmarcada, acaba sempre por dizer: “Também não me faz falta nenhuma. Não me dói nada, não me posso queixar de nada. E se algum dia me doer alguma coisa, sei bem o que fazer. Vou a Lousada ao Hospital porque sou logo atendida e não tenho de ficar tanto tempo à espera”.

Duas coisas me deixam feliz na sua atitude. A primeira, é o facto de “não lhe doer nada” e de “não se queixar de nada”, o que é admirável, algo que eu, uns bons anos mais novo, já não posso dizer. A segunda, é o sentido prático de “saber o que fazer se lhe doer alguma coisa”!!!

A pandemia colocou um enorme desafio à humanidade e Portugal não foi exceção. E a resposta que o serviço público deu, com os altos e baixos, avanços e recuos, certezas e contradições, ações eficientes e exibicionismos patéticos, tem nos profissionais de saúde um trabalho heroico que deve ser reconhecido por todos sem exceção. Mas nesta luta que obrigou à mobilização geral dos recursos humanos centrada na pandemia, é um facto o grande esquecimento dos outros doentes, muitos deles em situação dramática e que foram deixados à sua sorte como é reconhecido por gente muito mais qualificada que eu, tendo um fim antes do tempo que lhes era devido e de quem a estatística Covid-19 nunca falará. Exemplo disso foi uma mensagem que recebi há dias de um colega e amigo. Dizia: “A Teresa deixou-nos”. Percebi logo que a sua mulher tinha falecido. Na impossibilidade de lhe ir dar um abraço a Coimbra, telefonei ao Carlos para saber o que se passara. Depois de alguns desabafos, falou-me da mulher, que era uma doente cancerosa estabilizada, com uma ida mensal ao Hospital. No entanto, a consulta de Março foi-lhe cancelada. Passou o Abril e Maio sem que fosse remarcada e, apesar da insistência, veio o Junho e Julho e nada aconteceu. Por muita insistência, só em finais de Agosto voltaria ao Hospital, onde fez um longo tratamento de oito horas. Quando entrou em casa desabafou com o marido: “Carlos, prepara-te porque não vou durar uma semana. Hoje mataram-me com o tratamento”. E só teve mesmo mais uma semana de vida … A Teresa, como muitos outros doentes que já partiram neste período difícil, seguramente não fará parte das estatísticas Covid-19 que a imprensa nos dá todos os dias. 

Percebe-se que a capacidade de resposta não dá para tudo, mas não se explica convenientemente e as pessoas não entendem alguma falta de resposta, sobretudo dos cuidados de saúde primários. Nalgumas unidades, mais parecem que estão encerrados num castelo, onde se atende com um distanciamento social que não se limita à distância dos 2 metros da praxe, mas também fazendo questão de falar “de cima da burra”, com arrogância e desrespeito por aqueles que sofrem ou que vão procurar alívio para os seus que lá não podem ir. 

Há dias contava-me a mãe de um amigo que vive num concelho vizinho, ter sido tratada como se tivesse “lepra”, apesar de estar devidamente protegida. Fora ao seu Centro de Saúde para entregar um documento e a senhora que a atendeu, mesmo atrás dum balcão, deu dois passos atrás, recusou-se a tocar-lhe e tomar conta dele, informando-a com muito maus modos: “Vá para casa e mande isso pela internet”. E a mãe do meu amigo, uma velhinha muito simpática, rematou a sua história: “Nem sequer me deu tempo para lhe dizer que não tenho internet e, se tivesse, não sabia como a usar” …

O combate a esta pandemia é a prioridade, não tenhamos dúvidas, e temos de estar todos envolvidos. Cada um de nós tem de fazer a sua parte. Percebe-se que o novo coronavírus é encarado de formas mais diversas. Uns com visão obsessiva, doentia, que leva à depressão e ao sofrimento permanente como se o vírus fosse já o fim. Outros, olham-no despreocupadamente, desvalorizando os riscos, o que se sabe e o que se diz, de forma leviana. Há os dogmáticos, que cumprem todas as instruções das autoridades, os conselhos da família, do amigo, dos vizinhos, da imprensa escrita e falada, às vezes contraditórias, mas achando que o último conselho é o melhor. E há os racionais, que se protegem usando o bom senso e fazendo a triagem da informação que lhes chega. E se a maioria tem o sentido da responsabilidade, da necessidade de se proteger e assim proteger os outros, há muitos que facilitam, pensando que por estarem em família já podem festejar um aniversário, a despedida do amigo, a chegada de alguém, Há dias uma senhora desabafava: “A minha comadre convidou-me para ir lá a casa no primeiro aniversário da minha afilhada. Já tinha 23 convidados e contava comigo. Perante a gravidade da situação da pandemia aqui na região, pedi-lhe desculpa, mas não iria porque o risco era muito grande. Ficou zangada dizendo que eram todos da família e eu tinha de ir, não havia problema. Bem quis chamá-la à realidade, mas ela só vê o aniversário da filha, como se a festa fosse muito importante para quem tem só um ano de idade” … 

A verdade é que temos mesmo de nos “proteger” dos familiares que não vivem connosco todos os dias para não cairmos no risco do contágio inocente, porque de estranhos sabemos nós proteger-nos. Algo parecido com “que Deus me defenda dos meus amigos, que dos inimigos me defendo eu” …

Sejamos realistas. Estamos todos metidos no mesmo barco, no mar encapelado da pandemia e a enfrentar a segunda vaga, com o pessoal de saúde ao leme. Mas todos nós, sem exceções, somos chamados e temos um papel fundamental para “levar este barco a bom porto” e o mesmo é dizer, para nos salvar-nos. Se cada um fizer a sua parte no “combate” a este vírus e travar ao máximo a sua transmissão, vamos chegar a bom porto, seguramente, conscientes de que, mesmo assim, haverá uma fatura pesada a pagar. Em vidas, condição económica e segurança. 

Antes de nos demitirmos de cumprir o papel que cabe a todos e cada um, lembremo-nos que podemos vir a fazer parte da estatística …

Temos barriga de pobre e boca de rico…

Sou do tempo em que a grande maioria das pessoas da minha aldeia tinha “barriga de pobre e boca de pobre”. A boca era solidária com o estatuto da barriga. Estava ao mesmo nível. Não sei quantas casas tinha a minha terra quando era miúdo e nem tenho ideia de quantas pessoas éramos. De uma coisa sei: usando a escala de riqueza atual, (quase) todos eram pobres. Bem pior: muito pobres. Tão pobres, tão pobres, que a quase totalidade dos portugueses que nasceu neste século e final do anterior não faz uma pálida ideia do que era ser pobre até aos anos sessenta e setenta do século passado. De jeito nenhum. Só quem atravessou esses tempos e “comeu o pão que o diabo amassou”, sabe o que isso significava: passar fome e frio, viver com muito pouco. Comia-se broa, cozida a cada quinze dias, às vezes dura e com bolor, a acompanhar uma grande malga de caldo, também ele bem pobre. E mais nada. Algumas vezes, havia “presigo”. Tinha-se “barriga de pobre” e, como ninguém se podia dar ao luxo de recusar comida, fosse ela qual fosse, também se possuía uma “boca de pobre”, porque nada se recusava e nada se exigia. “Tudo o que viesse à rede era peixe”. Sobrevivia-se. Não havia lugar a “não gosto disto” ou “não me apetece comer” pois comia-se tudo e de tudo o que fosse comida. Todos tinham a tal “boa boca”, chamada “boca de pobre”. Até mesmo aqueles (poucos) que tinham melhor condição económica estavam na mesma onda de “barriga de pobre”. Tanto assim que, quando havia lugar a alguma fartura de comida como era o caso dos casamentos, comia-se até não poder mais na ânsia incontida de “tirar a barriga de misérias”, confirmando esse velho ditado de “barriga de pobre, antes rebente que sobre”. Mas, no essencial, quem tinha “barriga de pobre” (ou seja, fome), tinha boca coerente com essa condição, a tal “boca de pobre”, não se dando ao luxo de ter “boca de rico”, de ser exigente, de só comer determinadas refeições. 

Felizmente, esse tempo deu lugar a outro tempo e a atitude perante a vida mudou radicalmente. Com o aparecimento e o desenvolvimento da indústria, passou a criar-se riqueza com grande facilidade. Os bens de consumo corrente passaram a ser produzidos maciçamente e com preços tão acessíveis, que o desperdício enorme de agora é maior do que aquilo que os ricos de outrora tinham para si. A falta deu lugar à fartura e esta ao desperdício. E o mais curioso desta premissa é que, até muitos dos que continuam a ter falta (a tal barriga de pobre), dão-se agora ao luxo de exigir e até mesmo de só aceitar aquilo que lhes agrada e apetece, mostrando ter boca de rico. Pobres, mas com uma atitude displicente, arrogante, não valorizadora dos bens essenciais que recebem da sociedade. Tornaram-se seletivos, nalguns casos até se “sentem ofendidos” se o que lhes é oferecido de boa vontade não está ao nível das suas espectativas. Por isso recusam e, pior, chegam a mandar diretamente para o lixo bens que seriam muito uteis a outras pessoas que ainda tenham “boca de pobre”. Já vi muitos mais casos desses do que gostaria de ter visto, além de ouvir vários relatos que não abonam em nada tais comportamentos … 

Mas a expressão “ter barriga de pobre e boca de rico” generalizou-se e ganhou atualidade nos tempos que vivemos, passando a ser usada em múltiplas situações, muito além da questão alimentar. A “barriga de pobre”, sinónimo de necessidade, pobreza, falta de dinheiro, baixa condição económica, de que se está a precisar, está em contradição com as exigências que se fazem nas mais diversas situações, apesar de tantas vezes “nem se ter onde cair morto”. É como se alguém que está cheio de fome por não comer há vários dias só aceite refeição de “trufas com caviar” ou uma pessoa que não tenha roupa para vestir exija trapos com o rótulo da Prada. 

Este absurdo é muito comum nos nossos dias, talvez bem maior do que aquilo que podemos imaginar e atravessa uma certa parte da nossa sociedade. Confrontou-se com ele a minha mãe, dias depois de entregar vários artigos na casa de um casal com manifestações claras de “estar a passar mal”, quando foi levar o lixo ao contentor ali perto de casa. Lá dentro estava tudo o que lhes levara, parte ainda dentro da embalagem aberta!!! Confrontou-se com ele o pai de um conhecido meu que oferecera um automóvel de gama média ao filho por saber que ele nem tinha economias, nem ganhava o necessário para sequer se aventurar a comprá-lo, quando soube que, dias depois, ele o trocou por um outro de gama alta e gastos elevados. Confrontou-se com ele um homem que deu ao filho um terreno e dinheiro suficiente para ele construir uma boa casa, quando descobriu que o filho hipotecou tudo para lá construir uma enorme mansão para a qual não tinha meios. Confrontam-se as instituições a quem são exigidas condições e regras muito caras, como imposições da Comunidade Europeia, mas a quem não são concedidos, nem de perto nem de longe, os meios financeiros dessa Comunidade.  

Vem isto a propósito das notícias diárias sobre infeções covid-19 em Lares de Idosos, agora rebatizados de “Estruturas Residenciais Para Idosos (ERPI)”, dizem “o maior foco de preocupação das autoridades sanitárias do país”, seguramente a maior preocupação dos seus dirigentes. Sobre cada um dos Lares atingidos por surtos e de que a

comunicação social faz eco, paira a sombra do estigma de má gestão e falta de condições, tanto ao nível de instalações como das equipas de colaboradores, como se os gestores fossem paraquedistas caídos ao acaso e os colaboradores gente que “não percebe um corno do que faz”. Mais ainda, permitem-se alguns especialistas criticar instalações por serem antigas, que há necessidade de mais enfermeiros, médicos, nutricionistas e outros técnicos, numa manifestação clara de que não percebem nada do que estão a falar e não passam de irresponsáveis com “boca de rico” a mandar palpites baratos. Esquece-se essa gente que “a barriga é de pobre”, isto é, as instituições estão subfinanciadas por um estado que também tem “barriga de pobre”? E são elas que têm de inventar recursos para suprir o deficit e não têm como pagar mais pessoal, mais obras, mais especialistas. Qual a instituição que não gostaria de ter instalações de luxo? Qual não deseja ter a melhor e mais completa equipa de pessoal? E já agora, onde está o dinheiro para tudo isso? 

Bom, duas coisas são certas: os políticos só se lembram dos idosos durante as campanhas eleitorais (e percebe-se porquê), enquanto uma boa parte de familiares só se lembra dos idosos até conseguir “metê-los no Lar” (e também se percebe porquê) depois de os terem “aliviado” dos poucos ou muitos bens que possuíam. Porém, quando toca a fazer exigências, um e outros não têm vergonha nenhuma em mostrar a tal “boca de rico”, com arrogância para as instituições que cuidam de quem eles não cuidaram, talvez para tentarem aliviar o peso de consciência …

Obrigado, senhor Pinto “da Adega”…

Há algumas décadas a Luísa sofreu um acidente de automóvel grave e foi transportada para o Hospital de S. João, onde permaneceu durante alguns dias e sujeita a intervenção cirúrgica. Quando a visitávamos, queixava-se de uma dor no peito, sintoma que também foi referindo ao médico que a acompanhava. Face à continuação dessas dores, no dia em que lhe deu alta o médico deu-nos um conselho: “Se querem a minha opinião pessoal, recomendo-lhes que a senhora vá fazer uma nova radiografia no Dr. Pinto Leite”, nessa altura uma referência na área de Imagiologia. Mal saímos do S. João, seguimos diretos à baixa do Porto onde ficavam as instalações do radiologista. A Luísa foi logo atendida, fez o exame e pouco depois tínhamos o diagnóstico: “Duas costelas partidas”. Perante a situação, lembrei-me de um ortopedista nosso conhecido com consultório no Porto, para onde seguimos logo. Atendeu-nos muito bem e depois de ver a Luísa e os exames, colocou-lhe uma ligadura bem apertada à volta do tronco, na zona do peito.

Quando regressamos a casa a Luísa continuava a gemer e satisfez-se com a possibilidade de “estar pisada”. No entanto, passou a semana a queixar-se do mesmo. Ao fim de oito dias, disse-me: “E se eu fosse ao sr. Pinto”? Admirado, respondi-lhe: “Já estive para te falar nele, mas como tu normalmente pões em dúvida as suas capacidades” … E, sem lhe dar tempo a arrepender-se, lá fomos a casa do senhor Pinto, que nos recebeu com a cordialidade e simpatia do costume. Informado do que se passou, tirou a ligadura, colocou-se em posição e percorreu as costelas uma a uma com os dedos até parar concentrado. Então disse: “A senhora tem razão continuar a ter dores, pois as costelas estão a soldar sobrepostas quando deviam soldar de topo”, enquanto usava os dedos para mostrar a posição. “E agora”, perguntou a Luísa? “Já começaram a soldar”, respondeu. “Por isso, pode ser um pouco mais doloroso”. Enquanto as mãos seguiam as costelas afetadas, ia falando sem parar, para a distrair. De repente, deu um esticão forte com os dois braços e ela reagiu com um grito de dor, seguido de um suspiro de alívio, enquanto dizia: “Ai, agora já não me dói”!!! E o certo é que não se voltou a queixar mais …

O senhor Pinto trabalhava na Adega Cooperativa de Lousada (daí ser conhecido por “Pinto, da Adega”) onde as nossas vidas se cruzaram quando ali prestei serviço durante duas ou três vindimas e foi fácil tornar-me seu amigo, porque era impossível não se gostar da sua humanidade, simpatia, disponibilidade e humildade genuína. O seu ar tímido e tranquilo, o respeito com que recebia e tratava quem dele se socorria e o dom que possuía na habilidade de mãos e sensibilidade dos dedos escondiam um homem com um enorme coração. Só soube dos seus dotes de “Endireita” durante esse tempo de vivência comum na Adega Cooperativa, embora já fossem muito conhecidos entre a população local pois era normal quando saía do serviço ter sempre à espera gente a precisar da sua capacidade para aliviar sofrimentos. E, depois de um dia de trabalho pesado na Adega, ele estava disponível para atender a todos com o mesmo sorriso tímido nos lábios. Conheci muitas pessoas a quem aliviou o sofrimento, desde simples entorses do tornozelo ao músculo da perna fora do sítio ou ao braço partido. Eu próprio recorri aos seus serviços bastantes vezes, especialmente ao longo dos muitos anos em que joguei futebol e hóquei em campo. E era ele que me aliviava das “medalhas” crónicas deste mau jogador amador, quer fosse no tornozelo, pescoço, dedos, mãos ou ombros. A verdade é que, fazendo uso somente das mãos para manipular ossos, músculos e tendões, conseguiu sempre endireitar-me o “esqueleto”, corrigir posturas e recolocar no sítio os elementos, fazendo com que a dor desaparecesse.

A sua fama passou muito para além das fronteiras de Lousada e do distrito do Porto, passada de “boca em boca”, somente à custa dos resultados do seu trabalho num tempo em que não existiam redes sociais nem as notícias circulavam à velocidade de hoje. Ao longo de mais de seis décadas ajudou muitos milhares de pessoas no rés do chão de sua casa, que faziam fila desde madrugada vindos dos quatro cantos do norte, quando não de outras regiões do país. Cheguei a ver à sua porta um homem curvado por um “mau jeito” na coluna e que veio propositadamente de França, crente de que ele seria capaz de resolver-lhe o problema. E resolveu …

A sua atividade não era bem vista por parte da classe médica, o que é natural, pois não se gosta de “concorrência”, ainda por cima alguém sem habilitações e com “resultados”, embora tivesse muitos médicos que recorriam ao seu serviço pessoal, para si e para toda a família. 

Um dia levaram-lhe um homem que caíra abaixo dum carro de bois carregado e em andamento, tendo-lhe uma roda passado por cima do peito. Com paciência, colocou-lhe no sítio todas as costelas partidas e, depois de ligado, recomendou-lhe o habitual repouso e a aplicação de álcool na ligadura. Viria a saber dele já depois de recuperado, porque o homem embebedou-se e foi para a frente da casa do médico que o havia visto depois do acidente, gritando-lhe que era incompetente e exaltando as competências do senhor Pinto … 

Além de usar os seus serviços para tratar as maleitas, acompanhei familiares e amigos e assisti a autênticos “milagres”, de resultados imediatos. Com os dedos conseguia “ver” o que os entendidos só viam através de exames radiológicos. E mais. Manipulava ossos, tendões e músculos, recolocando-os na posição correta, eliminando a dor e as consequências futuras, sem intervenção invasiva. Um primo meu que era descrente das suas capacidades, evitou a cirurgia já marcada à coluna ao aceitar entregar-se durante dez minutos nas suas mãos. Só! Manteve sempre a sua humildade e discrição, como se tudo isso fosse natural, evitando falar dos muitos casos que resolvera. Numa das últimas visitas que lhe fiz mostrou-me as pernas cheias de pisaduras negras, resultado de ter atendido dois meliantes durante a noite que lhe tocaram à campainha queixando-se um deles de estar muito mal. Na sua disponibilidade permanente, ao abrir-lhes a porta foi atacado pelos dois que julgaram ser fácil dominá-lo. Porém, esqueceram-se que, apesar de estar a caminho dos noventa anos, aqueles braços e mãos faziam muito exercício diário. Agarrou um pelo pescoço com a mão esquerda enquanto esmurrava o outro. O que estava preso pelo pescoço foi-lhe dando pontapés nas pernas (daí as nódoas negras) enquanto não lhe faltou o ar e o outro, quando conseguiu libertar-se, fugiu. Só largou o primeiro ladrão já fora da porta de casa, inanimado, tendo desaparecido durante a noite sem desejo de voltar. 

Não pude acompanhar o senhor Pinto na sua última viagem, mas ele sabe que só algo de imperioso me impediu de o fazer. Mas, enquanto não nos voltarmos a encontrar, fica-me a lembrança de um homem bom, discreto, humilde, apaixonado por Lousada e sem vaidades, que adorava cuidar dos cães e ir à caça, um dia de “descanso” para quem estava sempre disponível a acudir ao sofrimento dos outros. 

Tenho uma dívida que não lhe paguei: quando abriu a porta do fundo da Adega Cooperativa para eu entrar no Arraial Minhoto que ali se realizava, satisfazendo o desejo de um jovem adolescente, mas sem dinheiro para pagar a entrada … 

Em nome de todos aqueles milhares de pessoas que tiveram a sorte de beneficiar dos seus cuidados e do alívio de sofrimento que a todos trouxe, entre os quais me incluo, um MUITO OBRIGADO. E, em nome pessoal, um grande OBRIGADO por o ter como amigo … e pela borla.   

Máscaras, mascarados e os enganos

Nunca “corri o Entrudo” e nem sequer andei mascarado no Carnaval, apesar de me terem posto à disposição por diversas ocasiões vários modelos desse disfarce em épocas carnavalescas. O rosto à vista, a nu, é uma liberdade da nossa cultura de que não quis abdicar, ainda que por pouco tempo. O rosto não só é o que mais nos identifica, boa parte do “cartão de visita” de cada um, como o espelho das emoções, sentimentos, pensamentos, estados de alma. Tapado, é como um livro fechado que não se consegue ler. Ao olharmos um rosto atentamente, percebemos alegrias e medos, entusiasmo e tristeza, raiva ou ternura, porque tem comunicação direta com a alma e o coração.

Mas apesar do meu gosto pelo “rosto nu”, um “desconhecido” que não respeita países, fronteiras, sexos, raças, religiões, idades, riquezas ou limites, fez-me “ajoelhar” e pôr a máscara, transformando-me nesse “mascarado” que nunca quis ser, embora por razões sanitárias, mais para proteger os outros do que para me proteger do inimigo comum, esse desconhecido apelidado de covid-19. 

O uso de máscara começou por ser rejeitado tanto pela Organização Mundial de Saúde, Direção Geral de Saúde e ministra da Saúde como por Secretários de Estado, especialistas encartados e outros críticos do vírus, durante demasiado tempo, tido como perigoso, suscetível de provocar contágios, de uso não aconselhado e outros argumentos mais, que poderiam estar a esconder outras razões. E de repente, os “peritos” dão uma “cambalhota” e colocam-se na posição contrária. De veículo de transmissão passou a proteção principal, de produto de risco a uso aconselhado, de perigoso a obrigatório. Repentinamente, de rosto nu passamos a “mascarados”. De “namorada recusada” à “obrigação de casar” … mas não para todos. O presidente da AR Ferro Rodrigues recusou a ideia do uso de máscara em plena pandemia para as Comemorações da Revolução, afirmando: “Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril”? Mau exemplo de quem deveria dar o exemplo. E, coisa curiosa: uma semana depois o mesmo Presidente Ferro Rodrigues determinou ser obrigatório o uso de máscara dentro da Assembleia da República …

Ao mudar de paradigma, a máscara tornou-se objeto de “negócio da China”, tanto para os próprios chineses como para outros “chineses” disfarçados de portugueses, até nas feições, tal foi a especulação. E a moda entrou na “dança” com criatividade. Multiplicaram-se modelos, tecidos, cores, feitios, enfeites. Redondas, quadradas, retangulares, triangulares, com cores do país, símbolos de clubes, eventos, marcas. Descartáveis ou não, com filtro e sem, de elásticos ou alças a envolver a nuca. Até objetos de luxo ao condizerem o tecido com o vestido, as calças ou a blusa. Quando se pensava que a necessidade de tapar boca e nariz nos nivelaria, tornando-nos iguais, estávamos enganados pois tanto há máscara de pobre como de rico, de fabrico caseiro com resto de tecido ou em seda da Pierre Cardin ou Prada. É que há quem não se fique por uma máscara qualquer para ir sair com amigos, jantar fora, ir ao cabeleireiro ou um evento. Tem de condizer com a toilette, a pele, os acessórios. E ser “daquela marca” … sem importar o preço. Daí haver cartazes a promover máscaras para todos os gostos, bolsas e visuais, em pacote ou personalizadas com assinatura, grandes para encobrir misérias e manter anonimato ou pequenas para deixar que se veja a tonalidade da pele.

Se no início deste ano a máscara era sinónimo de risco de assalto, de quem esconde a cara para não ser reconhecido e um sinal de perigo, agora vemos o perigo vem precisamente dos que não a usam … o que me deixa uma pergunta no ar: “Será que nesta altura os assaltantes de bancos entram de cara descoberta para chamar a atenção e até se diferenciarem dos clientes ou com máscara especial onde se possa ler o aviso “Isto é um assalto”? É que antes havia bancos que fechavam no Carnaval por causa dos mascarados e atualmente não nos deixam entrar se não formos mascarados. Quem os entende?

Desde o princípio da pandemia, a questão central que se põe quanto ao uso ou não de máscara é sobre a sua utilidade. Já percebemos que as entidades sanitárias começaram por negar essa utilidade para vir depois dizer precisamente o contrário no que toca a proteger-nos e proteger os outros do risco de contágio do covid-19. No entanto, essa utilidade vai muito para além da contenção do vírus. Que o digam os feios (e feias), desdentados, narigudos e de verrugas estranhas no rosto, que podem encontrar no uso da máscara um meio excelente para passarem despercebidos e não se sentirem discriminados. Dizia-me um homem muito mais novo que eu: “Há dias ia uma senhora à minha frente com um perfil e visual tal, que me senti obrigado em continuar atrás dela no passeio para apreciar a sua beleza. O corpo, o balançar das ancas, o cabelo comprido e liso a cair-lhe nas costas, as pernas bem torneadas, tudo estava no sítio. Às tantas parou, virou-se de lado e não consegui ver o rosto porque usava uma grande máscara preta. Mas, de repente, deu um grande espirro e acabou por tirar a máscara. Foi então que apanhei um choque terrível: a cara não tinha nada a ver com o resto!!! Que desilusão”. Cá está, a máscara foi-lhe muito útil enquanto a usou. No entanto, uma mulher bonita já não pode dizer que a máscara a beneficia. Pelo contrário, ao esconder-lhe a “carinha laroca” retira-lhe protagonismo entre o mundo masculino, e não só …

Pergunta-se tantas vezes se a máscara é eficaz no combate ao vírus do nosso desassossego. Pode-se garantir que sim. Já viram máscaras colocadas no revisor do automóvel? Pois está provado que até agora nenhum retrovisor apareceu infetado!!! Aliás, o mesmo se pode dizer das máscaras postas no pescoço (tipo gola), penduradas na orelha e no braço (tal e qual as braçadeiras de capitão), além da cabeça (tipo óculos para a miopia cerebral). Já se conhece alguém infetado nestas partes do corpo? Claro que não, o que só comprova a sua eficiência …

E a máscara veio para ficar. Em definitivo. De tal forma se radicou entre nós que já a vemos com frequência nas valetas, caixotes do lixo e fora deles, regos de água, barracos, ruas, avenidas, praças, becos, rios e mares, enfim, por todo o lado. 

Apesar de tudo, as máscaras são para já a principal arma para conter a transmissão do coronavírus na falta de cura ou vacina. Cirúrgicas, bico de pato, sociais ou outras, só se exige que sejam usadas sempre que a situação o recomende e com responsabilidade, coisa que nem sempre acontece. Num restaurante com “serviço de refeições para fora”, para que serviam as máscaras de todos os colaboradores (4), tidos por responsáveis pelo “atendimento, cozinha e preparação da encomenda” se, durante os vinte ou trinta minutos que esperei, só serviram para “tapar e segurar o queixo”? Era para evitar os “queixos caídos”? Assim, não adianta ter ou não ter máscara, usar ou não usar. Mal por mal, é melhor não usarem nada, pois saberemos com o que podemos contar.

Deixemos de nos enganar. Ou somos responsáveis e rigorosos no uso da máscara para travar o contágio ou optamos por fingir que somos e fazemos dela um adereço incómodo que vamos mudando de um lado para o outro do corpo sem cumprir a função de tapar sempre o nariz e a boca.  E, quando esse vírus nos bater à porta – e anda mais perto do que pensamos conforme comprovam as notícias dos últimos dias – atiramos as culpas para cima de alguém, talvez o patrão, a empresa, o governo ou o inimigo mais à mão, um qualquer “bode expiatório” para que a “culpa não morra solteira”. Claro, mais um dos enganos do costume …

Quando a vindima era comunitária

Era na Festa de Sto. Ovídio, em Aveleda, a 8 de Agosto, que eu comia as primeiras uvas do ano, a prenda crónica dos meus pais. Nesse dia, queria sempre comer uvas … e saber se houve a pancadaria habitual! Nunca soube de onde vinham as uvas, nem me interessava. Voltava a comê-las uma semana depois, compradas na Festa da Sra. Aparecida. As de casa dos meus pais e avós, só muito mais tarde começavam a amadurecer. E eu sabia bem onde as havia boas, em casa e fora, às vezes pintadas com “roxo rei” para não lhe tocarmos. Por isso, nasci e cresci em comunhão com videiras e uvas, até quando só procurava o ninho de melro. Tenho excelentes recordações desse tempo, das uvas e vindimas, da alegria e prazer de viver. E as vindimas eram um hino à felicidade, próprio de bilhete postal. Por ser “véspera” de Outubro, lembrei-me das vindimas, tanto nos quintais de meus pais como no campo da minha avó. Neste, ainda vejo os homens a levantar escadas enormes de madeira de vinte e tal passais para ir colher as uvas das videiras que trepavam bem alto, agarradas às árvores, normalmente lodos, plátanos e mais raramente, castanheiros ou cerejeiras, no que chamavam “vinha de enforcado”. E era preciso ter um misto de força e equilíbrio para conseguir levantar uma dessas escadas compridas e encostá-la à árvore, como para a mudar para outra sem a deixar cair. À mínima distração ou pequeno desequilíbrio, a escada caía com estrondo, estendida no campo entre a erva e os “estrepes” dos pés de milho, às vezes desfeita em bocados. As vindimas eram sinónimo de festa e, sobretudo, de um dia em que se comia melhor. Participava a família, amigos e vizinhos, em colaboração comunitária sem qualquer pagamento, a não ser a comida. Armados de escadas de madeira, de abrir para colher nas ramadas, ou de passais para subir às árvores ou bardos altos. Geralmente eram os homens que colhiam para grandes cestas com gancho, enquanto as mulheres controlavam e carregavam os cestos à cabeça para o carro de bois ou diretamente para o lagar se fosse perto. 

Nós, miúdos, apanhávamos os bagos caídos na colheita, sob o olhar atento de uma mulher mais velha, que nos ia espevitando com a frase do costume: “conheço um homem que fez dez pipas de vinho só com bagos” …

A vindima era sinónimo de alegria e animação, misto de conversas, cantorias e começo de namoricos. De vez em quando, alegrada com um berro prolongado lá do alto da escada para chamar a atenção da mulher do cesto, sinal de que a cesta estava cheia, com um alegre “Oh cesteiraaaaaaaaa”!!!

À volta do campo onde a minha avó semeou durante muitos anos os melões “casca de carvalho”, existiam videiras a trepar pelas árvores acima, com alturas variadas, que davam um excelente vinho tinto no dizer dos “bebedores” que, nessa época, eram muitos. É que, “beber vinho era meia mantença” e desde tenra idade o vinho fazia parte da ração diária. Aliás, a miudagem era “iniciada” no consumo de álcool desde o berço, pois a forma de adormecer um bebé quando estava a berrar entre os trapos onde o embrulhavam , era meter-lhe na boca a “boneca”, um pano enrolado embebido em aguardente …

Vindimas também significavam sardinhas fritas sobre um bocado de broa, regadas a vinho tinto; mudar a escada de um lado para o outro; mulheres a carregarem os cestos de uvas à cabeça sobre a “rodilha”; e o arregaçar das calças, lavar (e mal) os pés no alguidar de barro para pisar uvas no lagar ou numa dorna. Nesse tempo, a quase totalidade das uvas eram tintas. É que, vinho, vinho, só era considerado o verde tinto. O verde branco, dizia-se, “era para senhoras”. E, como se vivia numa época de “machos”, sempre prontos a afirmar a sua condição, homem que se prezasse bebia verde tinto. Nem branco, nem maduro, nem cerveja. Só tinto. Era normal no final do dia de trabalho entrar-se na loja ou tasco, pedir um copo de vinho (tinto e de litro) e “virá-lo de tiro”, isto é, de uma vez só. As uvas brancas ou eram atiradas para o meio das tintas onde o “vinhão” compensava a falta de cor ou o caseiro da quinta fazia meia ou uma pipa de vinho branco para ser consumido pelo senhorio na parte que lhe tocava da renda. É que nas “lojas” ou “tascos” só se vendia verde tinto, que os apreciadores bebiam em canecas de porcelana depois de as agitarem duas ou três vezes para ver formar o “lasso”, sinónimo da qualidade da “pinga”.  

O vinho era muito importante para as pessoas desse tempo, porque fazia parte da sua alimentação, por mais pobre que fosse a casa. Em todas as refeições. E, como eram tempos difíceis, uma das formas de “esticar” a capacidade de transformar as uvas em vinho e aumentar a quantidade, era fazendo a “água-pé”. Depois de retirado o vinho do lagar para as vasilhas (pipas ou pipos), ao bagaço que ficava antes de espremido juntavam-se alguns almudes de água com vários quilos de açúcar. Depois de nova fermentação, obtinha-se a “água-pé”, aquilo que se poderia chamar de “vinho dos pobres”, com baixa graduação e pouco poder de conservação. 

Vieram-me à memória estas lembranças porque ontem um agricultor desabafava comigo sobre a grande dificuldade que tem de arranjar pessoal para a vindima. Dizia ele que tem de se desenrascar só com a mulher e duas filhas para vindimar toda a quinta, o que o obriga a prolongar a colheita por várias semanas. Da velha geração, recordava com muita saudade o tempo em que a vindima era um acontecimento comunitário, misto de trabalho e confraternização. E agora, mesmo pagando bem e alimentando melhor, não consegue arranjar gente para a vindima. “Sinal dos tempos”, dizia ele. 

Eu fiquei a pensar que é a “agricultura de sobrevivência” a dar lugar à “industrialização agrícola”. E, como diz o velho agricultor, “um sinal dos tempos” …

Melão? “Casca de Carvalho” é o Rei…

Diz o ditado que “em terra de banana qualquer melão é rei”. Ora, nós não estamos em terra de banana, nem estamos na Madeira (e nem chegamos à Madeira …). Por isso, aqui nesta terra onde nasci, para ser rei só há um melão: “casca de carvalho”. Pois não é um melão “pele de sapo” ou de Almeirim que tem direito a esse estatuto. Aqui, não!!! Fui educado assim e a minha avó materna incutiu-me os ensinamentos e o respeito por este fruto especial. Durante a minha infância e parte da adolescência passei longos dias nos seus meloais e acompanhei todas as fases da cultura, desde a preparação da terra à colheita; desde a abertura das covas com a largura de uma enxada que se enchiam de estrume da corte, bem curtido para fazer a “cama quente” (ideal para a semente germinar bem) ao “capar dos melões”, para produzir mais rebentos laterais; desde a “monda” de frutos, deixando crescer só um melão em cada haste, à rega feita com peso, conta e medida. A minha avó gostava muito de melão e percebia do assunto. Ainda me vem à memória a sua imagem a segurar o melão na mão esquerda e, com o dedo médio da mão direita, a tocá-lo para saber pelo toque se era bom ou não. E sabia. Porque um dos grandes problemas deste melão sempre foi haver “especialistas” capazes de saber se o melão é bom ou um grande fiasco. E nesse tempo de bons entendedores, também acontecia um fiasco de vez em quando, mesmo com os ditos … 

Comi muito melão casca de carvalho e a grande maioria era excelente pois até tinha “polpa dura, sabor doce e picante intenso”. E registei a máxima popular: “este melão tem dia e hora para ser comido”. Nem antes, nem depois. Sempre preferi os melões de polpa amarelada, se bem que também goste de avermelhados ou “gelados em verde”. E ao meter-lhes a faca gosto de os ouvir “bufar” e libertar o gás carbónico, requisito que indicia a qualidade. Isso não acontecia nos “rachados” ou “rebentados”, geralmente de excelente qualidade, mas que no pico do calor e do gás, acabavam por abrir, quase sempre ainda antes de estarem maduros. Apesar da idade, dei o meu contributo ao meloal, chegando mesmo a dar uso à casota onde se recolhia o Tónio para guardar os melões durante a noite. E até plantei pimentos para que saíssem mais “apimentados”, um mito popular que nada tem a ver com a qualidade dos frutos. Mas é a tradição …

Nesse tempo, “melão” queria dizer “casca de carvalho” que, diga-se, ou era bom ou só servia para os porcos, por ser pior que “botefa” (abóbora). Se alguém falasse no “melão de Almeirim”, era o mesmo que falar de “botefa”. A maioria dos agricultores que se dedicava à cultura do melão percebia da matéria. De tal forma que, fazendo uso somente da apalpação, toque, cheiro e peso, eram capazes de garantir e “afiançar” a qualidade do produto.

Foi já adolescente que conheci os primeiros sinais da “mela”, doença que viria a afetar significativamente os meloais da região e que faz com que o meloeiro morra pouco antes dos frutos amadurecerem. No entanto, alguns indivíduos pouco escrupulosos metiam esses melões no forno aquecido para ganharem um tom amarelado de maturação, para os impingir a incautos que apanhavam uma desilusão quando os abriam. Anos mais tarde e já depois de cumprir o serviço militar, fui trabalhar para um organismo agrícola que, ingenuamente, eu achava que existia para apoiar os agricultores. Logo na primeira semana falei com o chefe do serviço de fitossanidade e expus-lhe o problema da doença que estava a dar cabo dos meloais na região. Como eu passara a ser o responsável de uma propriedade agrícola do estado onde se faziam ensaios e estudos agrícolas, propus-lhe que se estudasse tão grave problema para ajudar os agricultores. Mas ele não me deixou continuar: “Nem pense nisso, pois não há solução. O problema é dos solos graníticos. As raízes do meloeiro, ao crescerem, ferem-se nas asperezas do solo, abrindo porta à infeção por “fusarioses” e à morte das plantas”, disse-me ele com ar catedrático. Ao ver que ali “a porta estava fechada”, respondi-lhe com ar cínico: “É capaz de ter razão. O problema deve ser mesmo do solo. Mas fica-me uma dúvida: como é que durante tantos anos os lavradores tiveram bons meloais e sem doença, sendo o mesmo terreno? E “como terão feito os meloeiros” para fazer crescer as raízes no meio da “aspereza” do granito sem se “ferirem”, coisa que hoje “já não sabem fazer”? 

Gostando de melão, continuei a comê-los aqui e ali, se bem que nem sempre com a qualidade própria dum bom “casca de carvalho”, mas nunca abdicando a favor do “melão de Almeirim. Porém, um dia ia a entrar em Penafiel e estavam a descarregar melões de Almeirim. No impulso de momento e sem razão consciente, parei e entrei na loja. Pedi dois melões ao empregado e ele retirou-os dum pequeno lote, pesou-os e paguei. Quando já ia a sair, o dono da loja que estava na descarga entrou e perguntou ao rapaz de onde tirara os melões que eu já tinha na mão. ”Foi daqueles que estão separados”, respondeu-lhe. “Mas esses não eram para vender”, disse o homem irritado. Como já tinha pago, saí porta fora com os meus melões. Só quando abri o primeiro compreendi o que se passara: o dono da loja, na descarga, avaliava os melões um a um e selecionava aqueles que ele achava serem de qualidade e colocava-os no pequeno lote onde o rapaz os foi buscar. E não é que o raio dos melões de Almeirim eram excelentes e até tinham “a polpa dura, sabor doce e um picante intenso” como os nossos???!!! Confesso que, ao comer cada talhada, me senti como que a “trair” a causa dos melões “casca de carvalho” …

Muitos anos volvidos, continuo a apreciar um bom melão, sem ser tão fundamentalista pelo “casca de carvalho” como era. Porque o melão é diurético, calmante e laxante, para além de ter outros benefícios para a saúde. Às vezes servem-no com presunto, mas se ele for bom, basta o melão, com um bom vinho, até porque o ditado diz que “com melão, de vinho um tostão a cinco reis o almude”.

Não tem sido fácil encontrar um dos “tais melões” da região. Por isso, vou-me contentando com os do Alentejo, que agora dizem ser os mais doces, como se a doçura só por si fosse sinal de qualidade. Há dias fui comprar um. Quando estava debruçado sobre a caixa cheia de melões a tocar e avaliar ora um ora outro, um cliente abeirou-se e disse-me: “Deixe-me escolher-le um. Percebo disto, pois vendi melões durante muitos anos”. Aceitei a amabilidade do “entendido”, que depressa me separou um tido por muito bom. Agradeci e, quando já ia pagar, “deu-me na veneta” e voltei à caixa de onde retirei outro que me pareceu “pesado”. Pois agora que já comi os dois, sem serem nada parecidos com um bom casca de carvalho, posso dizer que a minha escolha saiu melhor, o que me deixa desconfiado sobre os “entendidos” de hoje. Provavelmente, se o amável senhor que me ajudou soubesse, “ficava com um grande melão” …

Talvez por essa dificuldade em escolher um bom melão C. Mermet dizia que “os amigos são como os melões: Para encontrar um bom, você precisa de provar cem” …