Uma viagem acidentada…

Há viagens que nos ficam mais na memória, às vezes não pela beleza das paisagens, mas pelos insólito a que estivemos sujeitos. Dois anos depois da revolução em Portugal, vivia-se um clima difícil e muito tenso, sem sabermos se, ao sair de uma ditadura, iríamos cair noutra. Casados há pouco mais de um ano, eu e a Luísa decidimos ir visitar a Madeira, levando “à boleia” alguns familiares de um e outro lado. Ao todo, éramos meia dúzia de turistas. Como não havia voo direto do Porto para o Funchal, fomos apanhar o avião em Lisboa. Na hora do embarque, quando chegamos junto do avião deixei-me ficar para trás dando prioridade à família e aos outros, acabando mesmo por ser o último a entrar no avião. Como não havia lugares marcados, cada um dos passageiros foi procurando acomodar-se à medida que entrava. Então eu, que era o último, já tive de procurar lugar no avião todo, mas… nada, não havia lugar para mim. Fiquei de pé no corredor, junto à cadeira onde a Luísa estava sentada. Passaram as hospedeiras de bordo para trás e para diante, apercebendo-se que eu “estava a mais”. Por isso, o comandante veio ter comigo. Cumprimentou e disse: “Peço muita desculpa, mas é incompreensível que tenham vendido um bilhete a mais do que a capacidade do avião. Isto só acontece porque estamos a viver um período revolucionário na empresa, em que as pessoas se estão a preocupar mais com plenários, greves e outras manifestações, do que em cumprir as suas funções laborais com dignidade. A TAP nunca foi isto…” E, para minha surpresa, perguntou: “Não se importa de ir comigo na cabine do avião?” Claro que não ia perder a oportunidade que me era oferecida e aceitei de imediato. Daí a instantes, estava sentado junto do comandante e do co-piloto. Mas o avião continuou parado. Então, o comandante explicou-me: “Não vou levantar voo enquanto não vier a refeição que falta, já que temos uma pessoa a mais. Já avisei os serviços de terra”. Meia hora depois, com o meu “tacho” a bordo, levantamos voo rumo à Madeira levando a meu lado um comandante muito simpático que foi o tempo todo a explicar-me para que serviam todos os botões e alavancas. Sempre que mexia num, dava-me conta da sua função. A viagem foi espetacular, comigo ali sentado no “bico” do avião.

Já quase na Madeira, disse: “Vamos ter de regressar a Lisboa. Há muito nevoeiro no Funchal e não temos condições para aterrar”. Deu meia volta e regressamos à Portela. Ao aterrar, encaminharam-nos para uma sala de espera isolada, onde ficaríamos até haver condições de voltar a voar para o Funchal. Deixei entrar a família à minha frente e, no momento em que eu ia atravessar a porta de entrada, dei meia volta e fiquei cá fora a passear de um lado para o outro, enquanto os outros passageiros iam entrando. Porque recuei? Foi instintivo. No momento em que me aproximei da porta vi um polícia com um daqueles detetores de metais com que nos percorrem o corpo, usando-o em todos aqueles que entravam na sala. Lembrei-me então que não podia entrar. Era perigoso. Seria apanhado em flagrante e, na “febre revolucionária” que se vivia então, seria um problema grave. O que foi? A sede da empresa onde trabalhava ficava em Lisboa e, um dos empregados, como sabia que eu ia passar pela capital, tinha-me pedido para lhe arranjar seis balas para uma pistola pessoal. Nesses tempos conturbados, era conveniente não ter só a arma …  e foi fácil comprar as balas. Coloquei-as numa pequena caixa de plástico, daquelas onde vinham os rolos fotográficos. Só que, quando cheguei a Lisboa, nunca mais me lembrei de dizer ao Soares que tinha a sua “encomenda”. Entrara no avião com ela no bolso, fora até ao Funchal, regressara e ninguém detetara nada. Felizmente. 

Mas, ao ver o polícia a rastrear os passageiros, acordei. “Alto e para o baile, posso ser apanhado”, disse cá para mim. Enquanto pensava, só olhava para a forma como o polícia fazia o rastreio: passava o aparelho pelo corpo acima e abaixo, primeiro à frente e depois atrás. Os passageiros iam entrando e, às tantas, só estavam dois à minha frente. E depressa chegou a minha vez, não dando para fugir mais. Agarrei a pequena caixa na mão, fui direito ao polícia e, quando ele se preparava para me revistar com o aparelho, levantei os dois braços ao alto, por forma a que o sensor ficasse bem longe da minha mão. O sensor percorreu-me acima e abaixo toda a frente do corpo e depois repetiu a manobra nas costas. E o polícia, fez-me sinal para seguir. Lá dentro, a família estranhou o meu comportamento. Quando cheguei, perguntaram-me. “Estás tão amarelo. O que se passa?” Pedi para nos afastarmos da entrada e só depois contei o sucedido. E as balas? Despejei-as num vaso enorme que estava num canto da sala. Uma hora mais tarde, regressamos ao avião e instalei-me novamente na cabine junto do comandante que, dessa vez, conseguiu fazer-nos aterrar na Madeira. Apesar de estar a grande distância temporal, ainda me recordo que as férias foram excelentes. Mas, mesmo com toda a simpatia e boa vontade do comandante do avião, a “aula de pilotagem” não me habilitou para conduzir aviões …

Lições para o Caminho e… a vida

Estou de regresso a casa depois de me ter feito ao Caminho. Porque é a “casa” que o Caminho nos faz regressar, passado o sofrimento e as dores por que passa o caminhante de muita estrada. E, para quem sai do Porto de mochila às costas com o essencial (e algum supérfluo na falta de experiência), são duzentos e quarenta quilómetros a pé por estradas, avenidas, ruas, vielas, calçadas, carreiros e trilhos, feitos de subidas e descidas através de cidades, vilas e aldeias, por campos e montes, vinhas e carvalhais, seguindo as setas amarelas que indicam o norte, a direção e o destino. Nas vésperas, a incerteza de resistir ao desafio pela falta de preparação física para tão duro teste. Animava-me a força do querer e a última mensagem do “Peregrino Lider”, um alento a quem parte na motivação espiritual e que não resisto em divulgar (que me perdoe a inconfidência …). 

“Está declarada a “Ultreya y Suseya”, o mesmo que dizer: para a frente, na busca de uma meta de vida que, com fé, será sempre alcançada; para cima, na busca de uma realização espiritual. Era assim na Idade Média, será assim para um peregrino hoje e amanhã. Depois disto, só os fracos fenecem (e eu posso ser o primeiro deles…).

Quem está fica e faz o Caminho e quem não está seguirá no nosso pensamento. O destino é Santiago e o campo das estrelas. Em boa verdade o primeiro milagre do Santo já se operou comigo, quando me obrigou a sair de mim (da instalação da vida, do conforto, das coisas fáceis ou mais acessíveis, etc….). Às vezes é preciso isso: “sair” para “ver”. É como subir à montanha.

Levarei comigo os que partiram e os que, no reino dos vivos, gostariam de ir sem o poder fazer. Que cada um busque, pois, a sua âncora ou “leitmotiv” (motivo condutor) para o Caminho.

Levo no peso da minha bagagem a simbologia do ser pecador. Cada passo dado em direcção ao destino me recordará isso.

Levo nas noites mal dormidas nos albergues o teste necessário à certeza de que quero alcançar o destino.

Levarei no corpo, nas pernas e nos pés cansados, quiçá magoados, o derradeiro teste do meu querer e da alegria de conseguir chegar. 

Se “cair” no Caminho sei que seguirei. Retomo ali, nesta ou noutra vida. Para mim já não há mais regresso. Abraçarei Santiago.

Certezas? Sim, num grupo familiar que soube responder à chamada e se fez ao Caminho. Chegaremos? Claro que sim!”

Até parece que o número nove era um bom presságio. Foi num dia nove, às nove horas da manhã, que o grupo de nove pessoas se juntou frente à Sé do Porto como “Peregrinos por Santiago” (e nove foram os dias que demoramos a chegar e abraçar o Santo). Todos eles eram maridos/esposas, tios/sobrinhos e irmãos. Todos estavam em duas destas situações, pelo menos. Só eu era “o primo”. O “Peregrino Artesão” distribuiu os “bastões”, um seu trabalho manual em madeira natural. Com as “credenciais de peregrino” para carimbar ao longo do “Caminho”, as “vieiras” penduradas na mochila, símbolo de Santiago e já com mochilas às costas, instalados nas escadas laterais da Catedral fizemos pose ante a objetiva do Alcindo para documentar em imagem fotográfica a partida do Porto e o ritual do grito “Por Santiago”. E, a partir daí, “fizemo-nos à estrada”, por Santiago.

Seria maçudo fazer aqui o relato desses nove dias a caminhar e dizer que no final fiquei com a “credencial de peregrino” onde colecionei carimbos da minha passagem, a “vieira” como símbolo do Santo e do Caminho, o bastão personalizado pelo “Artesão” e a “Compostela”, o certificado em como fiz o Caminho a pé a partir do Porto, emitida pela “Oficina do Peregrino”. O significado do Caminho vai muito mais além disso. Estava preparado? Não, nem física, nem mentalmente. E essa consciência tomei-a ao longo da jornada, porque é importante que o caminhante conheça os seus limites, seja persistente e se dispa por completo do supérfluo. Mais importante que chegar ao destino, Santiago de Compostela, é a jornada que nos leva até lá e o caminho que cada um faz. Porque cada um faz a sua jornada, como tem a sua vida. E lida com as dificuldades do Caminho como as da própria vida, duas faces da mesma moeda. Reclamando ou aceitando, com má cara ou tranquila e pacientemente. 

A força mais importante não é a das pernas, que tantas vezes pedem clemência, mas da mente, na persistência, capacidade de superação e força de vontade. Em muitos momentos é preciso ignorar a dor para prosseguir, as irregularidades do piso para caminhar, os incómodos do tempo para não desistir. A maior lição desta peregrinação veio-me da mochila que carreguei às costas, como símbolo do que carregamos na vida. O “Lider” dizia que nela levamos “o peso dos pecados”. O seu peso foi decisão minha, com tudo o que lá meti, necessário ou não. Só quando tomei consciência que cada grama tornaria a caminhada mais penosa, fui capaz de me despojar do supérfluo, ainda que isso tenha significado ter de lavar roupa no fim da jornada para secar à noite ou no dia seguinte pendurada na mochila, “um estendal em movimento”. E é esse despojamento que precisamos de fazer na vida, libertando-nos do “excesso de carga” que carregamos no dia a dia. Seremos capazes? 

Que posso dizer sobre o Caminho? Mais do que uma peregrinação, o Caminho é uma lição para a vida, um compêndio da sabedoria que deixamos de lado por comodismo, arrogância, inveja e vaidade. O Caminho, faz-nos sair da nossa zona de conforto e do comodismo em que formatamos as nossas vidas, voltando às origens.

Caminhar é uma oportunidade para meditar e refletir sobre a vida e praticar o despojamento do que não é essencial, só com a ajuda do cajado e da mochila. E o cansaço da caminhada chega a ser relevado com a saudação frequente de outros peregrinos ou não com que nos cruzamos, desconhecidos, mas solidários, com a frase motivadora e generosa de “Buen Camino”.  

Um amigo perguntou-me se ainda me sinto peregrino. Respondi-lhe com uma frase feita bem conhecida, que expressa o meu sentimento: “Uma vez peregrino, é-se peregrino para sempre”. E, como peregrino que vou continuar a ser, espero conseguir aplicar a aprendizagem do Caminho no “caminho da minha vida” …  

Viver tomando banho… ou não

Numa casa de habitação de uma das aldeias de Lousada, mãe e filha conversavam sobre a necessidade de tomar banho a propósito de um vizinho pouco asseado. A filha, para além dos trinta anos, perguntava à mãe: “Será que uma pessoa que não toma banho há mais de quinze dias, não sente que cheira mal”? A mãe, num raciocínio mais lógico e inteligente, respondeu-lhe: “Provavelmente, não. Há medida que os dias vão passando e o odor corporal se deteriora, o sentido do olfato adapta-se e acompanha a alteração, considerando-a normal”. Quando soube desta troca de ideias, lembrei-me do como e quando as pessoas tomavam banho no meu tempo de criança e, na realidade, tenho a certeza que não sentiam qualquer mau cheiro. Estavam habituados. Quem tomava banho e quando? Com regularidade, ninguém. E uma vez por outra, que o mesmo é dizer de mês a mês, muito, mas muito poucos. É um erro observar esses tempos à luz das comodidades de hoje, em que basta rodar o manípulo da torneira ou da misturadora e temos água quente e fria quanta se queira, até para desperdiçar, com regulação automática, e não se concebe que alguém tenha desculpas para não tomar banho. 

Não sabem e nem imaginam que por estas bandas há sessenta anos, para não puxar o filme mais atrás, as casas não tinham água canalizada. Pior, muitas delas nem sequer tinham água. A maioria das habitações eram em pedra, térreas, com o chão em terra e já era uma sorte quando tinham poço, de onde podiam tirar água ao balde, com um sarilho, com que se enchia o cântaro, o “depósito” ambulante que servia a casa. Mas, como uma boa parte nem sequer tinha poço, as mulheres iam buscar a água à fonte (que por vezes ficava a grande distância de casa) num cântaro de barro feito na Fábrica do Barro, em Nogueira, que carregavam à cabeça em cima de uma “rodilha” num equilíbrio perfeito, sujeito a partir-se em cacos ao mínimo descuido. No meu lugar, muita gente ia buscar água à “fonte de Talhos”, um pouco distante para alguns. O cântaro ficava arrumado na cozinha e dele se tirava água para beber, cozinhar e … lavar. E a casa de banho? Se alguém fizesse a pergunta nesse tempo, a resposta viria noutra pergunta: “O que é isso”? Só nalguns solares era possível encontrar esse luxo, onde havia uma banheira de ferro que se enchia… a cântaro. Aí, a água era aquecida no fogão de lenha ou na lareira em grandes panelas e, mesmo assim, de longe a longe. 

Na casa dos meus pais existiam lavatórios em ferro esmaltado para lavarmos a cara e as mãos, “à gato”. A água estava no jarro ali ao lado… Para tomar banho, usávamos um alguidar de barro e, está bom de ver que ninguém se metia lá dentro… não dava para isso. Era na “retrete” que se punha o alguidar para nos podermos “lavar”. Sim, na “retrete”, aquele espaço onde havia um “caixote de madeira com um buraco redondo” para assentar a “padaria” e fazer as “necessidades” sobre uma fossa cheia de mato, onde moscas e moscardos “zoavam” como pequenos aviões em constante movimento. Mal se “largava a carga”, tapava-se à pressa com a tampa de madeira munida com pega, que se ajustava perfeitamente. Ao tapar o buraco, não passavam os insetos, mas aquele “odor selvagem” subia pelas frinchas e “aromatizava” o espaço. Mas a maior parte das casas nem sequer tinha “retrete” nem lavatórios, quanto mais lugar para tomar banho. Por isso, passavam-se dias, semanas e normalmente meses, sem um banho. Pensando bem, só o rio Sousa proporcionava aos homens o luxo de um banho durante o verão e poucas vezes com um pedaço de “sabão macaco” a ensaboar o corpo depois de um mergulho. As mulheres? Não tinham essa sorte. Ao falar com a filha sobre isto, questionou-me como era possível viver assim, sem tomar banho durante dias e dias. “Muito fácil”, respondi-lhe. “Como não havia condições nem existia o hábito de tomar banho diário, não se sentiam nem a necessidade nem os odores corporais ou o mau cheiro”. Faziam parte da natureza …

Nos anos sessenta estive no interior norte de Angola e trabalhei com muitas pessoas de raça negra. A maioria eram pequenos agricultores que cultivava algodão. Todas elas tinham um odor corporal intenso, forte, que se dizia ser o “cheiro a catinga”. Não posso afirmar se era uma característica da raça negra ou se tal seria o resultado da falta de higiene. Certo é que, quando comentava isso com algum deles e lhes dizia que “cheiravam a catinga”, a resposta nunca mudava: “E vocês, brancos, cheiram a morto” …

Durante o meu serviço militar, depois de uma longa marcha forçada de um dos pelotões da nossa companhia, o furriel de serviço mandou todos os recrutas tomar banho quando chegaram ao quartel. Estava-se em Julho e, embora não houvesse água quente, o banho sabia bem. Às tantas, o furriel apercebeu-se que um dos recrutas ficou para trás e deu sinais de que não ia tomar banho. Então deu-lhe a ordem para se juntar aos outros, tendo ouvido como resposta: “Tomar banho outra vez? Eu ainda tomei banho pelo Natal …”  

Hoje, o banho é uma conquista civilizacional e está enraizado nos nossos hábitos de higiene, contribuindo com a sua quota parte para o aumento da nossa longevidade. No entanto, estamos a exagerar ao tomar demasiados banhos. Estudos revelam que mais de dois banhos com sabonete ou similar prejudicam o equilíbrio natural da gordura e bactérias que são benéficas e protegem a pele, como que a “barreira protetora”. Conheço alguém que chega a tomar quatro e cinco banhos por dia. A brincar, diz-me, que gasta o sabonete, o shampoo, a água, a reserva de toalhas, o tempo e … a pele. Vejam quanto economizaria se tivesse vivido setenta anos atrás, tomando banho de meio em meio ano …

“Entrem pela porta principal” …

A vida está muito difícil para os ladrões. Corrigindo: para a maioria dos ladrões. Quando leio o aumento de assaltos aos entregadores de pizas, é sinal de que estão mesmo “na mó de baixo”. Assim, só “para a côdea” … O distrito do Porto é aquele onde há mais assaltos a casas, mas, em regra, muitas vezes mal sucedidos. Nalguns casos, roubam os trocos que encontram na cozinha para comprar o pão e é se querem levar algum dinheiro, o objetivo principal dos “amigos do alheio”. Em regra, estão pouco interessados em roubar a cama de casal, a velha televisão da sala ou o frigorífico cheio de ferrugem que está no canto da cozinha. Dão muito trabalho a carregar, não valem o que pesam e não são coisas que se ofereçam à namorada.

Conta-se que um homem acordou a meio da noite com um barulho vindo da sala. Levantou-se e, pé ante pé, entrou sorrateiramente, encontrando um encapuçado a abrir e fechar gavetas da mobília. “O que é que está a fazer”, perguntou firme e decidido. “Ando à procura de dinheiro”, respondeu o ladrão. Então, o dono da casa dirigiu-se ao outro móvel da sala e pôs-se a abrir gavetas. “Já agora, vou aproveitar para ver se encontro algum” … o que só confirma que assaltar casas já não é bom negócio. Dá muito trabalho arrombar a porta ou procurar uma janela mal fechada. E, à entrada pode-se levar com a vassoura ou ser corrido a tiros de caçadeira. E há para aí muitos caçadores que, não encontrando caça nos montes, aproveitam para treinar quando lhes entra um “pato” pela janela … É evidente que só podem treinar sem acertar. Caso contrário, o “pato” pode queixar-se na justiça e quem passa a “pato” é o dono, obrigado a indemnizar a “vítima”. Se o ladrão encontrar alguma nota de quinhentos euros é melhor não lhe tocar porque, se a levar, arrisca-se a ser identificado no momento em que a for trocar. É que as notas de quinhentos euros são raras, muito raras mesmo. São objeto de colecionadores. Conheço alguém que já tem três, mas registou logo os dados de cada uma. Tem os números de série e até lhes tirou fotografias, precisamente para o caso de lhes darem sumiço. Bom, também há aqueles que têm muitas, mas esses quase sempre pertencem à família profissional do assaltante, embora com outro estatuto social e outro currículo.

Cá por mim, dava um conselho aos ladrões ou candidatos a ladrão: modernizem-se. Os ladrões de sucesso dos nossos dias já não entram pela janela, mas pela porta principal. Não se escondem nem andam de cara tapada para não serem reconhecidos. Isso já é passado. Agora o ladrão a sério veste-se com fato italiano como homem de negócios que é e não pensa em roubar tostões, mas milhões. É mais fácil. Assim como a mentira, “quanto maior é, mais fácil é acreditar nela”, também o “golpe” tem de ser em grande e para isso tem de ser “assessorado” por profissionais qualificados, que o orientem nos pormenores.

Hoje somos “assaltados” em permanência, que já nem ligamos ou não damos conta. É o governo, pela mão dos políticos, que nos mete a mão no bolso sempre que compramos automóvel ou lhe enchemos o depósito, compramos tabaco, bebidas alcoólicas ou milhentos artigos de consumo corrente. São os tribunais que andam anos e anos para não resolverem e, quando resolvem, tantas vezes “validam os roubos” e “beneficiam o infrator”. São as taxas e taxinhas, as coimas, sanções, juros de mora e licenças para tudo e mais alguma coisa. É a fatura da água, da eletricidade e do gás que tem mais “custos escondidos” que a minha cadela tem de pelos. Ora, todos esses “assaltos” são efetuados por gente estudada, que mede bem a forma como “dourar a pílula” e para não “sentirmos” que “nos foram ao … bolso”. Por isso, o ladrão de hoje tem de aprender com essa gente.

Para começar, deve pensar em grande: roubar milhões. Custa bem menos que roubar um perfume no supermercado. E onde é que estão os milhões? Nos bancos, claro. Apesar da crise, de muito boa gente ter enterrado o dinheiro no jardim ou tê-lo metido num buraco da casa, a verdade é que a maioria ainda o coloca religiosamente nessas casas que se julgam ser os “cofres-fortes” à prova de tudo. E são, à prova de quase … tudo. E por esse “quase” é que entram os ladrões a sério, até porque roubar dez milhões a um banco nem se nota. Quem vai pagar? O “Zé” do costume. Ora, como somos dez milhões, toca um euro a cada português. E alguém vai dar conta que lhe sacaram um euro do bolso por essa via? De maneira nenhuma. Pelo contrário. Se estiver numa sardinhada de S. João paga pela Junta de Freguesia (com o dinheiro do povo, diga-se), embora esteja a “ser comido” de duas maneiras, nunca vai notar nada, até porque já estará animado pelos copitos que bebeu e das “bifanas” que se abanam em cima do palco. Da mesma forma, quando o governo “injeta” mais uns largos milhões no banco onde o ladrão deu o golpe, quem é que verdadeiramente sente que algum lhe saiu do bolso? Ninguém, a não ser os “chatos” do costume. E esses “têm a mania” que dizem verdades …

Já reparou que nos maiores “assaltos” a bancos dos últimos anos no país os “ladrões” entraram sempre pela porta da frente, vestidos de fato e gravata, de sorriso nos lábios, sem se fazerem acompanhar de um “brutamontes” armado até aos dentes? E acha que iam armados? Já vi que está a dizer: “Claro que não”. Pois aí é que está enganado. Os grandes “ladrões” iam “armados” e bem. Não com metralhadoras ou

espingardas de repetição, mas com uma estratégia de roubo bem planeada, eventuais cúmplices e, provavelmente, excelentes técnicos na arte de “como roubar legalmente” e não abrir a boca para dizer asneiras. 

Se quisesse e fosse menos pedante, o Joe abria uma “escola” e fazia fortuna sem ter de “roubar” mais, só a dar dicas de como se “rouba” um país, com direito a gozação …     

Longe vá o agoiro…

A coruja é uma ave fascinante, de grande beleza, se bem que, para muita gente, ainda seja tida como de “mau agoiro”. Simboliza a sabedoria, o misticismo, o mistério, talvez por ser uma ave da noite que tem a capacidade de ver no escuro (há para aí muitas “aves da noite”, que têm outras “capacidades”, tanto na escuridão como à luz do dia …). Mas, quando eu era miúdo, ninguém gostava de ouvi-la piar à noite. É que, na tradição popular, o piar da coruja era tido como um sinal de mau agoiro, o pronúncio de que algo de ruim ia acontecer. Acreditava-se mesmo que, sempre que piava três vezes, alguém da terra ia morrer. Era como se, entre os seus predicados, estivesse o de adivinhar a morte de quem quer que seja. E, à distância de décadas, tenho de reconhecer que às vezes até tinham razão todos aqueles que acreditavam em tal presságio. Pela mesma razão que até um relógio parado está certo duas vezes ao dia, também qualquer coruja que pie todas as noites, algum dia vai acertar na morte de alguém. Pela certa. E então, todos aqueles que têm a convicção, só se vão lembrar do dia em que a coruja piou e algo de ruim aconteceu ou alguém morreu, ignorando todos os outros dias em que piou em vão…

As superstições são crenças populares, resultado do encontro entre o Homem e o sobrenatural, o que não tem explicação. As forças ocultas são vistas como capazes de interferir na vida humana. O pensamento científico e lógico e todo o conhecimento, não foi capaz de eliminar esta agonia perante certos fenómenos e encontraram-se respostas que se acreditam verdadeiras, por mais estranhas que pareçam. E o curioso é que praticamente toda a gente, mais ou menos informada, acaba condicionada por uma ou outra superstição, mesmo sem se aperceber. Entrar com o pé direito, fazer figas, não passar debaixo de um escadote, ver um gato preto, não abrir um guarda chuva dentro de casa ou não sentar treze pessoas à mesa. Quem não cedeu a uma destas crendices? Quase todas as pessoas dizem que isso não passa de superstições e até fazem chacota. 

Mas, apesar de dizerem não acreditar, quando são confrontadas com as situações, pelo sim, pelo não, não arriscam e fazem como os outros. É o futuro que está em causa e mais vale prevenir que remediar …

Ora vejamos: num casamento, a tradição (e a crendice) ainda é o que era. A noiva deve usar uma coisa nova, outra coisa velha, outra ainda emprestada e uma azul. Para quê? Para ter sorte. E, para atrair o dinheiro, deve colocar uma moeda no sapato. Ao que parece, pelo número de divórcios e gente endividada, a receita não resulta lá muito bem. Além disso, os noivos só se devem ver na cerimónia e o noivo não pode ver a sua prometida com o vestido de noiva antes do casamento. Dá azar!!! Vendo ou não vendo, o “azar” é cada vez mais frequente … O número de crendices aumentou em relação ao enlace, mas “os desastres” não são culpa das superstições …

Assim como se acredita que certas ações tais como feitiços, conjuras, rezas, maldições e outros rituais podem influenciar a nossa e a vida dos outros, também se crê que, se a orelha esquerda estiver quente e vermelha, alguém está a dizer mal de nós e se for a direita, estão a dizer bem. Para parar essa vermelhidão, temos de ir dizendo nomes de pessoas até acertarmos. Se quisermos contra-atacar, mordemos o dedo mendinho da mão esquerda e aquele que está a falar mal de nós, morderá a própria língua … 

As superstições continuam a existir em todas as sociedades e cada povo tem as suas crenças e costumes. Se os americanos temem o número treze e o mau olhado, para os chineses o número quatro é azar, enquanto na Lituánia assobiar em casa atrai os demónios. Mas são tantas as crendices, que vão de gatos pretos ao sal, de aranhas a vassouras e suas posições, de trevo de quatro folhas a atirar moedas para uma fonte, de ferraduras ao cruzar de dedos e muitas outras mais, que levadas a sério, tornariam a nossa vida insuportável.

Também acabo por ter as minhas. Sem querer, raramente deixo o volume da televisão com 13 de intensidade. Eu, para quem o treze é um número igual aos outros …

De manhã, a alergia matinal faz-me espirar meia dúzia de vezes ou mais, sem ter ninguém para me dizer “santinho”. Ora, a acreditar na crença popular, a minha alma já se separou do meu corpo. Quer isso dizer que me tornei “um desalmado”. Vejam lá no que dá espirrar … 

A beleza útil e a utilidade bela …

Sou um amante da natureza, até porque vivi a infância dividindo o tempo entre a escola, as matas e campos da aldeia. Sou defensor da criação de zonas verdes nos meios urbanos e, sobretudo, de árvores espalhadas pelos jardins, parques, praças, ruas e avenidas. Nunca são demais. E há tanta árvore bonita. Muitas delas fazem-me parar e ficar a contemplar a sua beleza. Quando em floração, algumas são um espetáculo único, como que uma pintura colorida saída da mão de Deus. Embora não sendo correto, revelador de como desvalorizamos o nosso património natural, temos tendência para “ajardinarmos” com árvores exóticas que nada têm a ver com a nossa realidade, mas, “o que é diferente, é bonito por natureza”. Quanto mais não seja, só porque são diferentes, raras ou únicas. E se formos nós a ter uma bem diferente, achamos que é o máximo. Ai a vaidade … 

Pessoalmente, gosto de carvalhos, especialmente do “carvalho-roble” ou “carvalho-vermelho” que (ainda) existe na nossa região onde é nativo e que cobriu o norte do país. Infelizmente, foi autenticamente dizimado ao longo dos tempos. Vi desaparecerem exemplares únicos na região, que hoje seriam considerados com facilidade “de interesse nacional”, abatidos por serem “velhos”, porque “só serviriam para cavacos” … quando afinal eram árvores únicas, de uma beleza ímpar. Entretanto, devo dizer que eu sou um utilitarista, apreciando tudo o que é belo, mas sempre que possível com o seu lado útil. Como diz o povo, “juntando o útil ao agradável”. E, talvez pelas vivências dessa infância distante, em que nas bordas dos campos havia árvores de fruto para servirem de “tutores” (suporte) aos “bardos” de videiras, quase sempre muito altos, mas que, ao mesmo tempo, produziam praticamente a única fruta que havia nessa época na minha aldeia. E dessa fruta se alimentava o dono da “Quinta”, o “caseiro da Quinta” que a cultivava, a garotada da aldeia em arremetidas clandestinas e as aves e os insetos que são parte da natureza, dessa natureza de que também só somos uma pequena parte, por mais importantes que nos julguemos. 

Bom. Mas tudo isto para dizer que esse meu lado utilitário já há muitos anos me faz sonhar com uma miscelânea de árvores de fruta e árvores ornamentais nas ruas, avenidas, praças, parques e jardins públicos. Imagino-me a fazer uma caminhada pela manhã e a parar no parque público para descansar, colher uma laranja que está ali à mão, comê-la no local e continuar o exercício matinal. Será que uma laranjeira carregada de laranjas “fica mal” na estética do parque municipal? E o mesmo se pode dizer de cerejeiras ou outras fruteiras de caroço, cuja floração, só por si, é um espetáculo de cor e beleza. Porque não essa “integração” das árvores de fruto no espaço público urbano, com a vantagem de serem uteis à sociedade ao produzirem fruta comestível? 

Algumas cidades brasileiras já fizeram a adoção desse conceito, a que chamam “Pomares Urbanos”, instalados em parques públicos, como pude constatar em Maringá, a cidade que tem o maior pomar urbano do Brasil. São a prova que é pertinente a plantação de árvores produtivas nos jardins e ruas de vilas e cidades, porque há benefícios estéticos, políticos, culturais e sociais. Aliás, a introdução das árvores de fruto nos parques e jardins também visa o resgate das aves que delas se alimentam e que de outra forma têm mais dificuldades em vingar nas zonas urbanas, ajudando a equilibrar a fauna e trazer-lhes nova vida.

Se perguntarmos a uma criança da cidade para identificar as árvores de onde vêm as maçãs ou as cerejas, os figos e as ameixas, não sabem nem conhecem, tal como não sabem em que época do ano florescem ou produzem os frutos. Com a sua introdução nos espaços públicos, a sua função também seria didática, o que nunca é demais.

Sendo múltiplas os benefícios da introdução das fruteiras nas urbes, considero que a mais interessante seria, sem dúvida, a produção de fruta, que estaria acessível e à disposição de todo o cidadão, embora mediante algumas regras para evitar abusos e que os objetivos não fossem desvirtuados. A primeira e principal seria que só se poderia colher fruta para comer no local. O “açambarcamento” seria proibido e estava sujeito a penalidade pesada, que desencorajasse tal prática. Alguém que fosse apanhado com uma quantidade anormal de fruta ali colhida, seria obrigado a ficar junto da árvore, distribuindo uma a uma a cada pessoa que por lá passasse. Seria uma humilhação, mas também uma aula de humildade. O desperdício seria proibido. Para facilitar a colheita, junto de cada árvore haveria uma “roca”, vara comprida com um sistema na ponta para colher os frutos mais altos sem ter de subir à árvore. Claro que o tipo de fruteiras teria de ser escolhido em função do local, variando da rua ou avenida, de parque ou jardim.

Por cá, existem algumas ameixieiras plantadas ao longo dos passeios. A cor das folhas e a floração tornam-nas bonitas e dão beleza à rua. No entanto, o tipo de frutos não será o mais aconselhado ao local pois em regra, acabam por cair de maduros e ficam “esborrachados” nos passeios ao caírem como granadas, deixando-os sujos e com mau aspeto.    

Para melhor divulgação e facilidade de encontrar as árvores de fruta, poderia mesmo fazer-se um mapa ou aplicação com a localização virtual de cada árvore, como acontece nalgumas cidades brasileiras, indicando ainda o tipo de fruta e época de maturação. Já estou a ver alguns “clientes”, de mapa na mão a darem a sua voltinha pelo parque depois do almoço para comerem a sobremesa, com a família atrás. Fomentava o exercício, uma melhor digestão, além de contribuir para uma alimentação saudável com tal suplemento alimentar. E para que a função didática fosse mais além, uma placa de identificação em cada árvore seria importante, com as informações mais relevantes sobre a árvore e a fruta. Julgo que só os pássaros dispensariam a leitura do “cardápio” antes de meterem o bico na sobremesa … 

A beleza é indispensável na nossa vida, tal como os alimentos e, neste caso, a fruta. Com a associação de árvores frutícolas e ornamentais, teríamos “uma beleza útil e uma utilidade bela”. Ou seja, o melhor dos dois mundos …

O “Caminho” faz-se caminhando …

O que faz alguém pegar numa mochila às costas com meia dúzia de coisas essenciais para o seu dia a dia e “fazer-se à estrada” sem mais, tendo um objetivo que está a duzentos e quarenta quilómetros de distância? Sempre são duzentos e quarenta mil metros que, “à pata”, correspondem a mais de quatrocentos mil passos … como se fosse já ali. Há muita gente que o faz. Muito mais gente do que nós podemos imaginar. E os motivos são muito diversos. Há os que o fazem porque são desportistas, amadores ou profissionais, amantes do exercício físico. Visam a melhoria da condição física e, eventualmente, alguma competição. Nunca fui um desses. 

Depois temos os que gostam de fazer caminhadas, uma forma de conhecer zonas inacessíveis e que os municípios têm promovido com a criação de trilhos mais ou menos bem tratados. Arrastado pelo casal Teresa e Agostinho, já fui um deles (e de vez em quando ainda sou) pelo prazer da descoberta, do encontro com a natureza, de trocar o tradicional circuito turístico no conforto dum automóvel pelo trilho de terra, às vezes muito mal assinalado, percorrido passo a passo. Foi assim que “vi com outros olhos” a ilha da Madeira em dose dupla, as ilhas do Pico e S. Jorge nos Açores e alguns locais isolados cá no continente. 

Muito pouco, se comparado com aquilo que aqueles dois felizardos já percorreram enquanto caminhantes pela caminhada, pela beleza da natureza que defendem, pelo gosto de conhecer. E há os outros, na sua maioria amadores sem a prática diária de andar muitos quilómetros, que se põem a caminho pela sua religiosidade para cumprir uma promessa, como é o caso de Fátima, um ponto de destino para imensa gente.

Na semana anterior ao dia doze dos meses de Maio a Outubro, pelas estradas e caminhos do país é comum verem-se homens e mulheres de coletes refletores, tendo Fátima como destino. Movidos pela fé, para cumprir uma promessa ou pela simples devoção a Maria, novos e velhos partem dos quatro cantos do país, engolindo quilómetros e vencendo o cansaço. Rezam o terço, sofrem, cantam, animam-se uns aos outros e carregam os seus males e os dos seus, na esperança da Senhora de Fátima os ajudar. Se há quem caminhe dez quilómetros ou menos, há também quem passe dos trezentos. A Luísa já cumpriu a sua promessa e foi peregrina de Lousada a Fátima. 

Há muitos anos, quando estudava em Coimbra, fiz o caminho a partir dali e regressei à boleia na caixa de carga de uma camioneta, entre melões e melancias. Em regra, quem se mete à estrada a caminho de Fátima é devoto e é a fé o seu alento. E que alento …

Há ainda o caso especial dos Caminhos de Santiago, que move todos os anos inúmeros peregrinos, numa multiplicidade de motivações única que vão das religiosas às espirituais, das de simples caminheiro a retiro místico, de turista da natureza a encontro consigo mesmo. Já há muitos anos ouço falar nos Caminhos de Santiago, mas nunca senti “o chamamento”, nem sequer curiosidade de conhecer o mito que os envolve, a transformação que provocam em tanta gente que, por uma ou outra razão, se aventurou a partir de um ponto mais ou menos distante de Compostela. No entanto, de há um ano a esta parte, tenho “tropeçado” com bastantes pessoas que já fizeram “o Caminho” e com muitíssimas mais que sonham vir a fazê-lo. O denominador comum nos relatos é que todos dizem ter sido o “Caminho da sua vida”. Mais: sonham poder voltar. Foi desta forma que o meu interesse despertou e passei a ler histórias, relatos, conselhos e reportagens de quem se fez à estrada e passou por essa “experiência redentora”, nas palavras dos peregrinos. Muitos deles são profundos e emocionantes, fazendo com que, aqui e ali, tivesse de parar para limpar as lágrimas. É certo, fiquei “agarrado”. Decidi que tinha de fazer “o Caminho”. A partir de onde e como, haveria de pensar nisso. E quando? O mais depressa possível. Não podia perder tempo, porque já não tenho tempo para esperar muito tempo.

Para quem acredita em “sinais”, aconteceu. Pouco depois de tomar a decisão, recebi uma mensagem vinda dos Açores: o meu primo Nuno desafiava-me a partir para Compostela, fazendo “o Caminho” a partir do Porto. Coincidência? Sinal? Cada um acredita naquilo em que quer acreditar. Para mim, era o Sinal, com significado. O aviso de que devia “fazer-me à estrada”. Todos aqueles com quem falei são unânimes ao dizerem que, tal como na vida, cada um “faz o seu Caminho”, feito de solidariedade e solidão, de sofrimento e descoberta, de reflexão e partilha. E encontrei entre eles religiosos e devotos no cumprimento de alguma promessa ou devoção a Santiago, outros cujo objetivo foi uma vivência espiritual, mística, num encontro consigo mesmo e até quem foi na onda por curiosidade e chegou transformado. Mas não é algo que se possa fazer de ânimo leve, sem um preço … 

Não fiz promessa a Santiago, mas vou partir como peregrino, sem a pressão de ter de lá chegar em data certa, nem sequer de lá chegar já. Vamos ver até onde a “máquina” aguenta e logo se verá. Se ficar em qualquer ponto da estrada por qualquer imponderável, ou porque o físico não aguentou, voltarei para o retomar e levar até ao fim. E não será isso que me vai tirar o sono. Mas que vou lá chegar, vou …

Com menos preparação do que seria aconselhável e de mochila às costas, farei do “Caminho” um tempo de paragem na “corrida de cada dia”, sem a pressão e a pressa diária de chegar seja lá onde for. Serei mais um peregrino a ter Santiago como patrono nesta peregrinação a terras de Espanha. 

O que espero? Mais do que conseguir carregar-me até Santiago, ser capaz de refletir e meditar sobre o “meu Caminho”, o que ainda posso fazer neste “entardecer” para aligeirar o de outros e ser capaz de fazer a “aceitação” dos “percalços” que vou encontrar no resto do “trilho” que me falta percorrer, sem culpas, sem revolta … E, se o conseguir, serei “um milagre de Santiago” … 

A cabeça da pescada

Hoje comi uma cabeça de pescada cozida “com todos”, um dos meus pratos favoritos, se bem que, para tirar o maior partido do repasto, obrigo-me a dispor do tempo que for preciso para cumprir todo o ritual. Tudo começou ontem quando fui ao supermercado. Aquelas pescadas frescas (pensamos nós e dizem-nos eles, até porque estão no gelo …) e grandes, foram uma tentação a que não resisti (deixem-me ser sincero: como qualquer bom português, a maior tentação foi a excelente promoção, pois estavam a pouco mais de metade do preço). Pedi para a prepararem logo ali e para cortarem a cabeça “com gola”, um “pescoço comprido” como se lhe viesse agarrada uma boa posta. Dá imponência à cabeça e desafia-me o apetite, além de fornecer uns bons pedaços do lombo, bem precisos para não ficar com fome. É que, as espinhas, não enchem pança. Para começar a função do meu ritual começo por tirar a gema dum ovo cozido, esmaga-la no prato e fazer o molho amarelo com muito azeite, vinagre tinto caseiro, alho e sal. É com esse molho que vou temperando batatas, pedaços de pescada, couve, cenoura e cebola, para lhes dar o meu “gostinho especial”. Então, com muita calma e paciência, vou comendo um pouco de cada um dos componentes e usufruindo da cabeça da pescada, espinha a espinha, “à unha” (como o Zé da Cunha) sem cerimónias, para poder “chuchá-las” bem. Em regra, acabam todos de almoçar muito antes de mim, mas já sabem que eu continuo até porque a demora faz parte do ritual. 

Não sei a que se deve este meu gosto, mas penso que é pelo facto de ter nascido ainda no decorrer da segunda guerra mundial e ter sido marcado pela falta de alimentos, o que me obrigou a valorizar cada bocado de comida, muito especialmente se se trata de carne ou peixe, por serem raros. E era por isso que se fazia o aproveitamento integral do peixe, de que sobravam somente as espinhas, depois de estarem “limpas”. Aliás, o que se passava com a pescada também acontecia com a carne. Prefiro as partes com ossos, como é o caso das costelas ou dos “ossos de assuã”.

Enquanto comia a cabeça de pescada, dei comigo a pensar que não conheço nenhum jovem que tenha este prazer, tal como não encontro um que goste da carne com osso ou gordura. Será que os excessos a que estão habituados os levaram a escolher o mais fácil de comer – a febra de carne, sem nada de osso? Será por terem sido “formatados” pela “macdonald’s” e “pizza hut” através de publicidade agressiva e continuada? Será porque cedo impuseram aos seus aquilo que só queriam comer sem que os pais fossem capazes de os educar com “boa boca” e a comer de tudo? 

Contra mim falo, que cedi, como toda a gente. É assim que os “nossos meninos” hoje só comem alguns pratos do cardápio, alegando que “não gosto de peixe porque tem espinhas”, apesar da mamã se dispor a retirá-las uma a uma, ou “não gosto de rojões porque têm gordura” ou “não gosto de sopa porque…”

Há dias, uma senhora contava-me muito chocada que, no infantário da sua aldeia, onde trabalha, uma grande parte dos “paizinhos” vai buscar os filhos à hora do almoço para irem comer a casa. E não ficam para almoçar no infantário por uma única razão: as criancinhas não querem comer sopa e até dizem porquê. ”É enjoativa”, desculpam-se elas. “Porque… é sopa”. Ora, como é que “aquelas” crianças, apesar de ainda andarem no infantário, já têm idade para saber o que querem e o que não querem e o que é melhor para elas? É surpreendente que, com tão tenra idade, já tenham adquirido personalidade suficiente para se imporem ao pessoal que trabalha no infantário. E os papás e as mamás, como submissos que são ante o “quero, posso e mando desses pequenos ditadores”, acatam e fazem com que a sua vontade seja cumprida. É que os pais não querem, não podem e não as sabem contrariar. “Deus me livre” dizia um paizinho. “Ficam traumatizadas para o resto da vida”. Dizer-lhes “Não” ou “Vais ter de comer a sopa”, está fora de questão. “É uma violência que não é educativa”, dizem.

Já me tenho visto na cozinha de algumas pessoas onde, quase por norma, é preciso fazer quase diariamente um prato diferente para o menino ou a menina, porque “não gostam”, “não querem”, “isso faz engordar” ou uma outra desculpa esfarrapada qualquer. É que comer a refeição normal de casa é um castigo e está fora de questão. Todos os dias se pergunta ao “pequeno ditador” o que é que ele quer comer. “Um bife com batatas fritas”, quando não um hambúrguer. “Sopa”? Nem pensar … E já agora, porque não ir ao Macdonald’s ou à Pizza Hut satisfazer o desejo de “quem manda”? E já nem falo na comida que fica no prato, como desperdício de um bem valioso que falta a muita gente, com a bênção dos papás. Incapazes de se imporem aos “infantes”, o que se pode esperar deles quando tiverem de os educar quando já adultos?

No Japão, num restaurante de “sel-service”, cada um só se serve com aquilo que vai comer. Só. E comem tudo, sem deixar comida no prato à boa maneira portuguesa. Nenhum alimento pode ser desperdiçado. E não é. Aliás, na educação japonesa, as crianças limpam as suas escolas todos os dias durante quinze minutos, juntamente com os professores, que levou ao aparecimento de uma geração de japoneses entusiasta da limpeza. Se por cá pusessem os meninos (e meninas) a limpar a escola, “caíam-lhes os parentes na lama” e os professores “estavam feitos ao bife” com as crianças, mas muito pior, com os familiares … Por isso, vamos criando a “ganapada” sem regras nem respeito pelas pessoas, pelos alimentos, pelo meio ambiente, pela lei e por tantas outras coisas. E depois queremos adultos responsáveis …

Vida de melros e do “Macaco Nu” …

Os melros já há muitos anos se instalaram nos terrenos cá de casa sem sequer me pedir autorização. E, por mim, ainda bem. Ora, alguns foram tomando conta do jardim e fizeram dele o seu território onde são reis e senhores e se impõem aos outros da sua espécie. Fico feliz por escolherem o meu jardim, até porque o melro-preto faz parte da minha infância e, diga-se, da minha cultura. Conhecia-lhe os hábitos, descobria-lhes os ninhos para retirar algum filhote pois, nesse tempo distante, na aldeia era comum ter-se um melro em casa, numa gaiola mais ou menos improvisada. E alguns cantavam maravilhosamente. Recordo-me especialmente de um que o Tónio, empregado da minha avó, criara desde muito pequeno e que reproduzia com perfeição tudo aquilo que ele lhe assobiava, inclusive a música do “Avé Maria” cantada nas celebrações de Fátima. Aqui, todos os anos fazem o ninho numa das sebes ou entre a hera da palmeira, para abrigar os filhotes, garantir a reprodução e assegurar as futuras gerações. É para isso que acasalam e copulam.

Quando hoje estava a olhar o jardim, vi um lindo macho de bico amarelo a fazer a corte à fêmea. O melro eriçava as penas do corpo, fazia uma curta corrida sobre o muro de vedação e parava. E voltava a repetir a cena novamente, à espera de um sinal da sua “namorada”. Entretanto, a jovem fêmea permanecia imóvel no ramo duma árvore ali próxima e assistia às exibições de conquista do candidato a acasalar. E, às tantas, levantou a cabeça e a cauda em sinal de aceitação do pretendente, permitindo que este avançasse para a cópula. A conquista estava feita e a relação foi consumada em poucos segundos.

A evolução humana é entusiasmante, levando o homem a fazer coisas julgadas impossíveis há poucos anos. No entanto, este corre um sério risco de se deslumbrar com tudo o que conseguiu. E, na ilusão desse deslumbramento, esquecer-se que, na sua essência, não passa de um animal. E, apesar de animal especial, tem as necessidades básicas de qualquer outro, precisando também de urinar e coçar-se como outro animal qualquer. Vendo os melros no jardim na fase de acasalamento, lembrei-me de Desmond Morris ao analisar o homem como animal, para ele um “símio nu”. Quando este zoólogo descreve os rituais de acasalamento do homem, divide esse período em três fases: formação de par, pré-copulatória e copulatória. A primeira fase é aquela a que vulgarmente chamamos “namoro”, a segunda é a fase do noivado e a terceira o casamento propriamente dito. No entanto, temos de nos situar no tempo pois o seu livro foi escrito há mais de cinquenta anos e com um contexto social bem diferente dos dias de hoje. Vivi esse tempo em que as regras de cada fase eram bastante rígidas e formais, de tal forma que, sempre que eram ultrapassadas, aguentava-se com as consequências.

Ora, nestes cinquentas anos ou mais, já o mundo deu muitas voltas, aconteceram demasiadas revoluções e até já se discute com vigor o que é um casal e, em consequência, o que é o acasalamento. E, à luz do que é a prática de acasalamento do tal “Macaco Nu” nos nossos dias, inverteram-se completamente as fases em que Desmond Morris dividiu esse período. Os relacionamentos de hoje já começam pela “cópula”, aquela que seria a última fase. Esse passou a ser “o objetivo” imediato do primeiro encontro. Haverá continuidade e segunda fase? Depois se verá. No caso de haver segundo encontro, talvez resolvam tentar a fase “pré copulatória”, que de “pré” já não terá nada, despida de compromissos, “na desportiva”. E se as coisas se proporcionarem, pode ser que, alguns anos mais tarde, passem à “formação do par” … Este é o “novo normal”.  

E tudo isto vem a propósito de algumas imagens que correram pelo mundo das redes sociais, recolhidas “nas noites de farra” da Queima das Fitas do Porto. Nas palavras do jovem universitário que filmou e me mostrou no visor do seu telemóvel algumas cenas “bem pouco edificantes”, aquilo era uma pequena amostra do que se podia ver “ao vivo e a cores” no recinto da festa ao longo da noite e à medida que o álcool “encharcava” por completo os corpos dos “festivaleiros” que, naquele estado, não tinham sequer noção do que era ou não diversão. Segundo o relato, o cúmulo acontecia numa das barracas de bebidas onde a malta que por ali passava se deixava “corromper” com a oferta de um ou dois “shots”, desde que aceitassem fazer uma “cena sexual” provocatória e anormal. E, segundo rezam as crónicas, as “exibições” eram todas filmadas, não só por aqueles que “armaram a barraca” como por qualquer mirone com um simples telemóvel, podendo lançá-las nas redes sociais com toda a naturalidade, como foi o caso. E, de repente, alguns jovens “acordaram expostos a nu” em situações degradantes, nalguns casos sem terem nenhuma recordação do que se passou por estarem completamente inconscientes à beira do coma alcoólico, como atores péssimos de um filme pornográfico ordinário, mas muito mediatizado e fazendo passar para o exterior a sensação de que aquela festa é uma orgia coletiva que, penso eu, não é. 

Não sei qual será a reação dos pais de hoje ao verem no Instagram a sua filha estendida sobre o balcão de um bar, “em pelo” como veio a este mundo, com os “buracos naturais” a servir de “copo” onde um e outros jovens ébrios “bebem um shot à borla”, dividido “boca a boca” com a “dona do copo”. Será um choque? Ou, pelo contrário, motivo de orgulho por a filha ter virado “artista de cinema”? E que reação terá aquela jovem ao ver-se olhada de lado pelos outros, entre sorrisinhos escondidos sem saber porquê, até que “uma alma caridosa” a avise e faça ver as imagens divulgadas pelas tais redes sociais mundo fora, filmada de “vários ângulos” naquela “triste figura”? Será que vê nisso motivo de orgulho, para melhorar o “currículo pessoal” e a sua vida de libertinagem ou “cai na real” e percebe a vergonha da exposição pública em situação pouco abonatória, o que pode levá-la à depressão e ao isolamento por vergonha?

No acasalamento dos melros o que era normal há cinquenta ou cem anos, continua a sê-lo, com os mesmos rituais, os mesmos objetivos. Pelo contrário, com o “Macaco Nu”, na sua permanente insatisfação, tudo o que era normal ficou fora de moda, o que era comum passou a ser “ultrapassado” e só o que é chocante vende. As orgias desceram à praça pública e a libertinagem ganha asas e voa. Já nem se trata de uma questão de imoralidade, mas de total ausência dela …    

“Dou a minha palavra de honra …

Nas palavras do brasileiro Anderson Senna, “a confiança é igual a virgindade. Só se perde uma vez”. Por isso, para se ser merecedor de confiança, é preciso saber honrar os compromissos, as promessas e ações. Era isso que faziam aqueles a quem outrora o povo chamava “Homens de Honra”. Da infância à adolescência, convivi com alguns homens de negócio e assisti a acordos verbais, “selados” com um simples aperto de mão. E os dois ficavam “presos” à sua “palavra”, porque era tida como “palavra de honra”. E a “honra”, esse princípio do ser humano que age com base em valores como a honestidade, dignidade e outros socialmente virtuosos, era coisa que ninguém queria perder. Como a virgindade.  Acompanhei um negócio que, algumas horas depois, se revelaria desastroso para o comprador. Mas ele quis honrar a palavra dada e cumpriu o acordado sem sequer solicitar ao vendedor qualquer alteração à transação. E, apesar de ter argumentos para o fazer … tinha dado a sua “palavra de honra”.

Os meus primeiros negócios de compra e venda de propriedades foram concluídos e selados com o tradicional aperto de mão, sem qualquer contrato escrito. Seguia o princípio em que fui formatado e tudo correu bem, pois sempre cumpri e cumpriram o acordado. Quando nos anos setenta começaram a surgir em Portugal os perfis de alumínio para caixilharias, através de um familiar meu conheci um grande importador de então que estava sediado em Lisboa e que me convenceu a abrir um armazém desse material em Lousada, numa oportunidade única. Decidido a avançar, procurei terreno adequado para construir o pavilhão e encontrei-o em local bem situado na vila. O vendedor, o homem que à época mais terrenos comprava e vendia na zona, marcou encontro comigo no local. Numa grande área de que era proprietário, marcamos uma parcela com a dimensão necessária, acertamos o preço e passei-lhe logo um cheque. Apertei-lhe a mão e, quando estava a virar-me para ir embora, ouvi-o dizer: “Espere um instante que vou dar-lhe um cartão a dizer que recebi este dinheiro”. E, enquanto tirava da carteira um cartão, respondi-lhe que não. Não era necessário. Mas ele insistiu e, nas costas do cartão de visita com o seu nome, escreveu: “Recebi duzentos contos pela compra de um terreno”. Assinou e entregou-mo. Para minha surpresa, ao outro dia, sofreu um AVC e foi a enterrar poucos dias depois. Aquele pequeno cartão foi a minha tábua de salvação, perante um familiar ranhoso e desconfiado, que questionou tudo e mais alguma coisa, insinuando e pondo em dúvida o teor do negócio. Só quando lhe disse que, não tendo eu querido aquele cartão, a verdade é que nele estava explícito que lhe comprara um terreno e lhe entregara duzentos contos. E, das duas uma: ou confiava em mim para saber qual o terreno e os termos do negócio ou me devolvia o dinheiro. Era um problema dele. Foi o meu primeiro sinal de que as coisas estavam a mudar. O aperto de mão já não era suficiente … 

Um pouco antes de falecer, o meu pai teve uma boa conversa comigo. Entre outras coisas, aconselhou-me a documentar-me bem sempre que efetuasse um negócio. Para não acreditar só na palavra. Já não era suficiente. E contou-me alguns casos em que o enganaram e teve prejuízos consideráveis, com “amigos” em quem confiara. Um deles, a quem vendera um negócio no início que viria a revelar-se altamente rentável, e que até era tido como seu “amigo”, nunca lhe pagou nada do acordado. Nem quando atingiu o estatuto de rico …

A partir de certa altura passei a formalizar os contratos promessa de compra e venda a partir duma minuta preparada pelo advogado e, sempre que fazia um acordo verbal selado com aperto de mão, nunca aceitava a entrega de sinal, em dinheiro ou cheque, sem preparar e assinar o respetivo contrato e onde constava o valor recebido. Dizia como argumento, com base no que me acontecera, que “há o viver e o morrer” … Já eram contratos formais, se bem que nem sempre com o rigor dos pormenores em que só os juristas são entendidos.

Passaram os anos, atravessamos o “deserto” de uma crise violenta e a realidade de hoje já nada tem a ver com os tempos da minha infância. De tal maneira, que me traz à memória o filósofo da Grécia Antiga Diógenes de Sinope, mais conhecido por Diógenes, o Cínico. Andava pelas ruas carregando uma lamparina acesa durante o dia, alegando estar à procura de “um homem honesto”. E o meu desencanto com a extinção quase total da “palavra de honra” como valor importante da sociedade, num desprezo por compromissos assumidos, já não é só apanágio dos contratos verbais selados com o aperto de mão, mas de todo o tipo de contratos. Hoje, mais do que nunca, tem uma enorme atualidade a velha máxima de que qualquer contrato deve ser feito “como se os intervenientes fossem inimigos, para virem a ficar amigos”. É que, basearmos a nossa confiança no velho aperto de mão ou mesmo num contrato simples, é correr um risco sério de, mais dia menos dia, virmos a “ser comidos por lorpas”. E sei do que falo por experiência (má) própria, com gente de quem nunca me passou pela cabeça que pudesse ser tão desonesta, no verdadeiro sentido literal da palavra e de quem não me acautelei em devido tempo.

Não deixa de ser curioso que, ao fim destes anos de vida, tenha sido entre pessoas com muito dinheiro ou tidas por ricas e até alguns a quem o povo ainda chama “fidalgos” (se bem que essa dita fidalguia deve ter caído na lama, para não dizer na m. há muito tempo), que encontrei os maiores vigaristas e desonestos. Confiar nalguns deles sem me precaver convenientemente, foi um erro que me custou e continua a custar, muito dinheiro e consumições. Pelo contrário, tendo efetuado muitas transações com pessoas simples e humildes, nunca me trouxeram qualquer dissabor. Foi com muitos desses que selei acordos com um simples aperto de mão, à moda antiga, sem nunca faltarem ao prometido. 

Por isso, se tem algum contrato para fazer, arranje um bom advogado e previna-se porque, mesmo assim, está sujeito a encontrar um vigarista encartado pela frente por mais engravatado que esteja e acaba esfolado como um pato. Se não quer acreditar, veja o caso do Joe Berardo, que tem “a lata” de dizer em público que não deve nada aos bancos … E, se calhar, sem ter razão nenhuma, a justiça vai ter de lhe dar razão …

Não deixa de ser curioso que para as pessoas humildes a “palavra de honra” ainda continua a contar. Só que não é para toda a gente …