Onde é que a beleza está a mais num jogo de futebol?

Devia estar vaidoso (mas não estou) porque a FIFA, o organismo que superintende o futebol mundial, talvez com base numa das minhas crónicas (isto é presunção a mais …) decidiu proibir a filmagem de mulheres atraentes nas bancadas durante a transmissão dos jogos de futebol no Mundial. E só pode haver uma justificação: “São um perigo para a navegação”. Além de não aparecerem mais na televisão neste Mundial por imposição dos “manda-chuvas da bola”, não me admiro que um dia destes os restantes órgãos do futebol mundial e nacional proíbam também a sua entrada em todos os estádios, precisamente pelo perigo que continuam a representar. Sim, se uma mulher bonita, sensual e com vestido “atrevido” sai à rua e caminha junto à berma do passeio com “aquele andar que os gatos demoram anos a aprender”, é certo e sabido que alguns carros vão chegar a casa com a “lata amolgada”. Só pode. Algum condutor vai estar atento à luz de travagem do carro da frente, quando o seu olhar “está preso” naquela “bomba” sobre a berma do passeio? Claro que não, a não ser que seja cego ou a mulher lhe tenha posto umas palas para não ver os lados da rua. Ora, o que aqueles ditos senhores, que supostamente sabem o que é melhor para o futebol (há quem pense que só sabem o que é melhor para o negócio) viram nas imagens das caras coloridas e lindas que a televisão nos foi mostrando para dar alguma alegria à tristeza de alguns jogos do Mundial, foi somente uma “concorrência desleal” aos pontapés e cabeçadas na bola. Como são quase sempre velhos e chatos que estão nesses lugares, além de já não “tourearem”, provavelmente já nem sequer são “aficionados”. Daí o verem numa jovem loura enrolada na bandeira da Croácia, com a cara pintada com as cores do seu país, uma forte concorrente, que tira o protagonismo aos artistas da bola e vá-se lá saber porquê. E ainda não mostraram aquela morena de minissaia e com camisola da argentina de decote generoso, onde se podia ver tatuado um longo texto em letra miúda, parte do qual ainda ficava escondido por debaixo da camisola no bico do decote. Seria caso para perguntar, como é que um telespectador podia ter acesso à leitura do “texto integral”, para “ajuizar da sua valia”. Caso contrário, seria como ler um livro onde faltam algumas páginas …

A FIFA é uma entidade abstrata, de que só tenho a imagem da careca do presidente atual e a lembrança do custo absurdo da suite onde se encontrava instalado o presidente anterior durante um dos últimos Mundiais, um tal Blatter, que foi despedido sem honra nem glória.

Mas, voltando à proibição da filmagem de mulheres atraentes na bancada, é caso para perguntar: “E se elas estiverem num camarote ou na Tribuna presidencial? E se o presidente de um qualquer país for uma mulher, como é Kolinda, presidente da Croácia, com todos os “atributos” que devem constar no catálogo da “censura”, não pode ser filmada durante o jogo, nem mesmo quando toca o hino nacional do seu país e ela se levanta? Além disso, coloca-se uma questão muito intrigante: Não se podem mostrar mulheres atraentes. OK. Será que é distribuído um catálogo a mostrar quem são as mulheres atraentes e as que estão excluídas da categoria e que não estarão sujeitas ao veto FIFA? E se for uma daquelas que mete medo ao susto, pode aparecer nas filmagens televisivas a “ocupar tempos mortos” enquanto algum jogador finge que também está morto? Ou será que a partir de agora, nessas paragens do jogo vão-nos mostrar só os “cromos da bola” habituais, homens feios e barrigudos, em tronco nu e com a barba por fazer, de olhos esgazeados pelo fanatismo ou com fatiotas exóticas e chifres na cabeça, não sei bem a que título? Que raio de gosto …

É preciso bom senso e, se for caso disso, um grande movimento que faça aquela gente ponderar e ver que não tem pés nem cabeça tal diretiva. O futebol é um espetáculo no seu todo e a beleza faz parte dele. Mais ainda: Num Mundial de futebol, onde se juntam claques de todos os países participantes, dando um colorido e alegria que fazem do evento uma festa e um convívio universal, seria enorme estupidez esconder as imagens dessas claques, porque são parte essencial do espetáculo. Muitas vezes recordo o Euro 2004 e aquilo que vi nas ruas do Porto e no estádio do Dragão com a onda laranja da Holanda. Valeu a pena acompanhá-los na rua e foi excecional assistir ao belo espetáculo que foram dentro do espetáculo do jogo de futebol. E a partir de agora isso não pode ser mostrado porque no meio daquela onda laranja pode haver “curvas de fruta” que a FIFA considera “impróprias para consumo visual”, porque é disso que se trata.

Ao que nós chegamos com este “moralismo bacoco”, que mais não é senão uma deriva absurda do movimento contra o assédio sexual. Se fosse mulher, considerava-me discriminada por não estar em pé de igualdade com qualquer homem, por mais feio que Deus o tenha feito. Porque é que um brutamontes de cara mal pintada e com os dentes arreganhados pode aparecer na televisão no meio de um jogo de futebol, enquanto a uma mulher bonita, por mais puritana que se apresente, não lhe é concedido esse direito? Como diz o povo, “ou há moralidade ou comem todos”.

Resta-me uma consolação: O Mundial acabou e a nossa seleção já estava em casa quando “aquelas cabeças iluminadas pariram ideia tão brilhante”. Daí que, aquele interesse que me fazia estar colado ao televisor para ver o jogo do princípio ao fim, acabou quando acabou a nossa estadia na Rússia. “Perdi o apetite” pelo Mundial, com ou sem o enfeite das caras bonitas, se bem que continue a gostar de ver caras de mulheres atraentes, ou a natureza não estaria a funcionar no seu melhor …

Sem explicação. Mas emocionam…

É na natureza que encontramos as obras de arte mais perfeitas, a beleza no seu esplendor, sendo nela que os seres humanos vão beber conhecimentos e inspiração para realizarem as suas obras de arte que, quase sempre, não passam de imitações grotescas da natureza. Curiosamente, também são os animais que mais nos surpreendem, provando-nos frequentemente que estamos longe de saber tudo sobre eles, a começar pelos animais de estimação. Se em parte já se explica a sua perceção em detetar doenças como cancro, diabetes e hipertensão, a identificação do período de ovulação de uma mulher e até as emoções, o seu sexto sentido, que lhes permite muitas vezes antecipar uma situação que ainda não aconteceu, não tem explicação credível. O que é que lhes permite prever terramotos, tempestades, convulsões próximas em seres humanos e até a morte de humanos?

Ainda não há respostas para tais capacidades que vão para além do comum e que, a par de muitas outras, os tornam companheiros para uma vida, com factos que surpreendem e emocionam.

Sempre que posso e o tempo deixa, vou dar uma volta com a minha cadelita a “rebocar-me pela trela”. Para descansar da pressão que faz a puxar, logo que entro nas ruas calmas da Costa e depois no monte, solto-a e deixo-a correr à vontade. Faz exercício e abate a barriga da boa vida que nada tem de “vida de cão”. E ela corre atrás dos gatos, ladra a dois ou três cães habituais ignorando os outros e até quando vê alguma ave, dá-lhe uma corrida para a “espantar”, presumo eu. Depois de uma dessas deambulações, quando cheguei a casa larguei-a no jardim e só à hora do almoço me lembrei dela, pois habituou-se a ficar junto da mesa à espera de algum “aperitivo”. Como nesse dia não apareceu à hora habitual, fui procurá-la e dei com ela deitada e a cheirar a tralha que tenho sob a churrasqueira, como se houvesse ali caça. Só me ocorreu que pudesse ser algum rato. Por isso, coloquei estrategicamente três caixas para impedir a fuga, armei-me com a vassoura e fui tirando as botijas de gás e outras coisas mais ou menos inúteis que ali tenho guardadas. Quando saiu o último traste, vi qual era a causa da fixação da “Becas”: um filhote de melro aninhado no canto da churrasqueira, provavelmente caído do ninho. Peguei-lhe com cuidado e deixou que o colocasse numa caixa de sapatos sem tentar fugir, abrindo somente o bico de fome e sede. A “Becas”, que no dia a dia corre atrás da passarada, não mais saiu de junto da caixa onde permanecia aquela ave indefesa, umas vezes cheirando-a, mas quase sempre permanecendo deitada, de olhar fixo no pequeno melro e com as patas da frente cruzadas uma sobre a outra na expectativa. Levei a caixa para a sala, dei-lhe de comer e beber e nós almoçamos, mas a cadela manteve-se firme como se lhe tivesse sido incumbido o “serviço de guarda” daquele filhote órfão, ignorando-nos e até se esquecendo do seu “interesse” na refeição. E fez disso a sua vida o dia todo. Quando à noite chegou a Alice, com quem costuma brincar, contrariamente ao habitual fartou-se de ladrar, dando de vez em quando pequenas corridas em direção à caixa onde permanecia a avezinha, como que a querer dizer-lhe para ir ver o que estava lá. Só visto. Mas o que mais me emocionou foi aquela quase devoção na função de guarda ao indefeso filhote de melro, como se tivesse compreendido o seu drama e a sua fragilidade.

É frequente assistirmos a comportamentos de animais, em especial cães, que nos deixam estupefactos, quando não emocionados. A sua perceção do estado emocional do dono e o seu comportamento com ele em função desse estado, é reveladora de capacidades que estão para além da nossa sensibilidade. Tal como em função do estado de saúde, quando não da morte. Foi o que aconteceu na casa de um amigo onde há vários cães. Um deles, sempre que alguma pessoa que não faça parte da rotina diária ali entra, ladra insistentemente. Nesse dia, de forma fulminante e inesperada, o dono caiu sem vida, sendo levado para um dos quartos. No choque da tragédia a notícia correu rapidamente, acorrendo ali algumas pessoas em solidariedade com a família. E aquele cão, que em circunstâncias normais se fartaria de ladrar, passou a acompanhar os visitantes até ao quarto onde estava o dono sem soltar um latido sequer, como que percebendo que algo de grave lhe acontecera, quem sabe mesmo, que ele falecera.

Durante algum tempo da minha vida tive residência profissional em Lamego. Um dos vizinhos da casa onde eu estava instalado, para se “desfazer” do cão que tinha, aproveitou uma ida a Vila Real para o levar e abandonar naquela cidade. Para sua surpresa, uma semana depois quando chegou a casa, o cão estava deitado à porta. Conheço outros casos semelhantes, mas o que considero mais extraordinário ocorreu em Paris. O dono de um cão, por razões de trabalho, teve de se mudar dos arredores daquela cidade para um apartamento numa cidade espanhola onde não tinha boas condições para ficar com ele. Apesar de contrariado, entregou-a a um vizinho e foi para Espanha. Alguns meses depois, fazendo mais de mil quilómetros sem se saber como, o cão apareceu-lhe à porta do apartamento para sua surpresa. Como é que ele descobriu a nova morada que não conhecia e onde nunca tinha estado? Ninguém sabe. E o dono compreendeu que esta demonstração de fidelidade era algo de extraordinário e o obrigava a fazer tudo para não mais o abandonar.

Em Moscovo, um grupo de cães abandonados que vive na periferia da cidade, todos os dias de manhã apanha o metro em direção ao centro da cidade, como quem vai para o trabalho. Como é que descobriram que o cento da capital russa é o local onde há mais probabilidades de arranjar comida e que a forma mais rápida de lá chegar é apanhando o metro? Os passageiros já se habituaram a estes companheiros de viagem, sendo vulgar ver-se alguns deles deitados nos bancos ao lado de utentes, quando não com a cabeça no colo de uma criança. Por norma, os cães procuram as carruagens com menos pessoas, onde é mais fácil encontrar bancos livres para se deitarem. E, ao fim do dia, voltam a apanhar o metro, desta vez para fazer a viagem em sentido contrário de regresso ao local da periferia de onde partiram pela manhã. É espantoso como estes animais sem dono conseguem comportar-se como humanos a caminho do trabalho, usando os transportes públicos naturalmente e sem erros. Será que são mesmo cães? Se muitos seres humanos têm dificuldade em viajar nos meios de transporte de uma grande cidade, como é possível que esses animais tidos por “irracionais” o conseguem? Não pude deixar de ficar fascinado com as capacidades deste grupo de cães.

Mas receio que, neste preciso momento, já façam parte da história de crueldade do ser humano: As autoridades russas antes de começar o Mundial de Futebol, deram ordem para se fazer a “limpeza” das ruas das cidades anfitriãs do Mundial, de todos os animais abandonados, de forma clara: “Eliminados”. E foram exterminados milhares e milhares de animais nas diversas cidades, com imagens chocantes do “massacre” que correram o mundo. Provavelmente, com essa matança sem dó nem piedade, os “passageiros caninos do metro” de Moscovo não serão mais atração da cidade. Em nome da “higiene ambiental” para turista ver … Apetece perguntar: E o que fizeram aos sem abrigo e indigentes da cidade, que “ficam tão mal” nas fotografias turísticas? Congelaram-nos na Sibéria ou “limparam-lhes o cebo”?

Os cães, esses cães que viajavam no metro, seriam incapazes de ser tão desumanos. E eu disse “desumanos” …

O fim do sonho. E a vida continua…

Acabou. Não há mais festa, mais esperança, mais sonho. A euforia deu lugar à desilusão, a alegria à tristeza, o elogio à maledicência. Há quem queira encontrar culpados pelo fim do sonho. A culpa não pode morrer solteira. É tempo de arrear bandeiras, arrumar os cachecóis e esperar pelo próximo campeonato, seja do Mundo ou da Europa. A seleção portuguesa de futebol veio para casa depois de cumprir os chamados “serviços mínimos”, que era passar a fase de grupos. Nos oitavos de final, o Uruguai fez a festa e os portugueses fizeram … as malas porque, no jogo das cadeiras, quando a música parou, ficamos apeados. É uma lei da vida, uns perdem outros ganham. Fica-nos um amargo na boca, agora que alguns dos principais candidatos a ganhar o campeonato já receberam “guia de marcha”. O jogo vai continuar com as mesmas regras, cada vez com menos cadeiras, até só restar uma que será disputada pelos dois que mais resistirem, com ou sem mérito, que importa.

Como não podia deixar de ser, sobram alguns comentários de café, muito mais emotivos e menos esclarecidos, onde não faltam os “Se” e os “Mas”. “Se o Bernardo Silva não tivesse falhado aquele golo” … ou “Se o Ronaldo marcasse o penalti ao Irão, conseguíamos aviar os russos” … Mas já não há volta a dar, nem vale a pena chover no molhado. Mesmo o treinador Fernando Santos, que nos levou ao topo da Europa na final de Paris há dois anos, passou de herói a vilão nas bocas de alguns “fregueses”. “Se tivesse metido o A em vez do B” ou “se tivesse jogado com dois pontas de lança desde o início” …

E nas redes sociais, onde há espaço para a criatividade e a originalidade, chovem críticas para todos os gostos. Uma delas diz: “Este rapaz chama-se Gonçalo Guedes. É natural de Benavente, tem vinte e um anos e representou Portugal no Mundial da Rússia, não tendo feito absolutamente nada. Se fosse um jogador de futebol, todos partilhavam. Mas, assim, ninguém quer saber” … Em conclusão, não faltam comentadores de sofá nas redes sociais, onde quase tudo, senão tudo, é permitido. E nisto da bola, como não se tem de provar que se é capaz de fazer melhor, pode-se dizer tudo porque não paga imposto.

Fico com saudades desta euforia lusitana que nos contagiou durante duas ou três semanas. Valeu por ser capaz de nos tirar o pessimismo em que habitualmente vivemos, mesmo ficando provado que somos especialistas a empatar. Ganhamos um, perdemos outro, o que, só por si, dá um empate. E empatamos dois. Mas se recuarmos no tempo e nos resultados, muito mais igualdades tivemos, tornando-nos um país de empatas. No futebol, como na vida, somos bons a empatar. Valeu porque nos alimentou o Ego e provou que podemos ser tão bons quanto os outros e que é preciso acreditar. E valeu porque em todo o português que vive em Portugal ou em qualquer recanto do mundo, houve entusiasmo, alegria, esperança e orgulho. Porque a nossa seleção tem-nos dado motivos para estarmos orgulhosos de ser portugueses.

Com o regresso a casa da seleção, talvez já não tenhamos multidões entusiásticas a encher as principais praças do país, onde os autarcas mandaram instalar ecrãs gigantes para “ajuntar o povo”. E também o governo, os clubes de futebol que têm estado sob suspeita e todos os que eram notícia sem ser por bons motivos, estão tristes com este regresso prematuro da equipa das quinas. Enquanto toda a imprensa falava da seleção, informando-nos ao pormenor do que pensavam e faziam os nossos jogadores, esquecia-se deles por completo e já nem ouvíamos mais nada a não ser as notícias da bola, passando para segundo plano o aumento da dívida, as greves dos professores e da saúde, as buscas da PJ e do Ministério Público. É que, as notícias de impacto, são sempre as primeiras, as que abrem os telejornais.

Diz o ditado que “um mal nunca vem só”. E foi o que aconteceu. Com a derrota da seleção diante do Uruguai, acabou-se a festa e as notícias do Mundial centradas na equipa portuguesa. Mas, para desgosto dos que gostam de folhetins emocionantes, também já terminou (penso eu) a telenovela do Sporting, deixando-nos órfãos das surpresas diárias de cada episódio. Perante estas duas perdas, o que é que nós, cidadãos comuns, vamos “consumir” nos próximos dias? Sei que nos sobra ainda o “resto” do Mundial, mas já não tem piada. É como estar a assistir aos últimos capítulos de uma telenovela espetacular depois de morrer o herói, o protagonista principal de quem tanto gostamos. Perde toda a piada. Porque ainda gostamos muito de finais felizes.

Apesar da conquista do Campeonato do Mundo de Futebol ser um sonho para qualquer português, mesmo que não seja adepto da bola, temos de pensar que não passa de um jogo, um simples jogo, onde há emoção, irracionalidade, entusiasmo, tensão e uma gama imensa de sentimentos contraditórios. De tal forma, que a maioria até nem se importa que a sua equipa ganhe com lances ilegais. Mas que continua a ser um sonho, continua.

Deste Campeonato do Mundo, fica-me na memória a elevada nota artística no golo de Quaresma com aquele pontapé de “trivela”. Fica o golo de livre marcado por Ronaldo, com execução impossível de superar e repetir. Fica também uma defesa excecional do Rui Patrício contra a Espanha. E fica a alegria e entusiasmo de milhões de pessoas em Portugal e no mundo, apesar do sonho ter o fim antes do tempo para a maioria deles. E nós, portugueses, estamos nessa maioria. Mas, é só um jogo … e a vida continua.

Os rostos que nunca se esquecem…

A infância marcou-me para a vida com imagens perenes e não me saem da memória as memórias desses primeiros anos. Nasci numa aldeia onde cresci, brinquei, vivi. Palmilhei-a e conheci-lhe os cantos como conhecia a palma da minha mão. Por isso, tenho alma de aldeão e quando morrer, recuso ficar em prateleira de jazigo porque quero que a terra me “coma” e possa ser alimento para continuar a viver nas asas dum inseto ou nas folhas de uma oliveira. Quem sabe? Dessa vida de inocência e felicidade, acabada quando me arregimentaram para cumprir serviço militar, guardo recordações como se de um álbum de fotografias se tratasse. E as que mais retenho na memória (e no coração) são de pessoas simples e rudes feitas pelo sol e chuva a que não se podiam furtar, pois não tinham mais do que um simples chapéu de palha ou um saco de sarapilheira para se proteger. Ainda hoje vejo os seus rostos, secos e queimados com a pele ressequida, marcas de sofrimento e trabalho duro, sinais de vida difícil e parco alimento. E são muitos. Nas primeiras páginas desse “álbum” estão os pedreiros. O João “Trola”, o Santos “Ervilha”, os irmãos Tónio e Fernando “da Rosinha” e tantos outros. Vejo-os agarrados ao pico e à marreta, a trabalhar pedras enormes de onde conseguiam “tirar” blocos de esquadria perfeita para encaixarem na parede duma casa que se ia elevando lentamente, quais peças de Lego em mão de criança. O granito era a sua companhia, o seu ganha-pão, a sua fonte de vida, quando não de morte. Vê-los a lidar com pedras de centenas de quilos à força de braço, sem ajuda de equipamentos mecânicos como se nada fosse, ainda hoje me impressiona. Traziam no rosto as vidas difíceis de uma profissão dura que o tempo foi amaciando, hoje facilitada pelas muitas máquinas de apoio que a tecnologia pôs ao seu serviço.

Também me marcaram a infância os lavradores das Quintas da minha aldeia e arredores, desde a “Quinta” de S. João Velho à “Quinta” de Talhos”, da “Quinta do Campo” à “Quinta” do Eido. Todos eles eram “caseiros, todos pagavam renda ao senhorio. Muito cara, pois às vezes sobejava-lhes muito pouco, especialmente em anos fracos e quando os senhorios não perdoavam. Eles obrigavam-se a entregar o vinho, o “milhão” e o feijão da renda, às vezes tirado à boca da família que se tinha de contentar com o que sobejava. E a vida ficava difícil, até porque a família era a sua mão de obra gratuita. Daí, ter muitos filhos não era mais do que uma necessidade, uma ajuda no trabalho.

O senhor Moura sempre foi velho aos meus olhos de criança. Nunca o conheci de outro jeito. Trabalhava à jorna, querendo isso dizer que o salário era incerto. Ninguém o chamava em dias de chuva ou quando os dias eram mais curtos. Como trabalhava de “sol a sol”, não “rendia” o mesmo. Por isso, era pior ser jornaleiro do que lavrador.

Aparecia de manhã ao nascer do sol com as calças de cotim remendadas e os pés enfiados nos tamancos. Minha mãe usava os seus serviços para plantar batatas e cebolo, tratar das vides no quintal, rachar cavacos e arrumá-los no barraco. Descansava um pouco para meter um cigarro “Fortes” no canto da boca e dar duas “puxadelas”, encostado ao cabo da enxada. Ou para comer uma côdea de pão, às vezes “duro como o raio que o parta”, dizia ele. E uma malga de água-pé ou um copito de bagaço, que bebia dum trago. Eu era o “ajudante” na plantação das batatas e do cebolo, dando um contributo reduzido desde os três anos de idade. Quando alguém lhe punha dúvidas sobre a utilidade do meu trabalho, “pregava-lhes nas bentas” o provérbio: “o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é bem louco”. Nunca andava a correr, mas trabalhava certinho como o boi à volta da nora a tirar água. Ia almoçar a casa, que ficava ali perto, e comia uma grande malga de caldo e broa sentado no preguiceiro junto ao lar, onde ardia o lume que a mulher, a Aninhas Moura, ateava com lenha apanhada no monte. E apagou-se da vida, como se apagam os cigarros, o lume e as pegadas na areia em dia de chuva.

Era bom homem, trabalhador humilde que se fazia à vida nesses tempos difíceis. Tenho para com ele uma dívida muito grande enquanto meu “professor”, a quem devo algumas das melhores lições de vida. Com ele aprendi como usar a enxada, o jeito de rapar as ervas e metê-las ao rego, a levar a picola bem acima da cabeça para cavar a terra, a distribuir estrume no quintal com a forquilha, a pegar no machado, dar-lhe lanço e rachar roletes de eucalipto em cavacos, para além de alguns truques que não se ensinam nos livros, mas são importantes a quem cultiva a terra. Mostrou-me o valor da humildade e do trabalho e foi muito paciente e tolerante comigo, apesar de não saber ler nem escrever. Bem mais do que muitos outros ditos “professores” que encontrei ao longo da minha vida de aprendizagem, uma boa parte dela passada na escola e outra na vida profissional. Sim, porque quando se acaba um curso, seja ele qual for, engana-se quem pensa que já se sabe tudo. Quando se acaba, só se pode dizer: “estou preparado para aprender”.

É com gente como o senhor Moura, os pedreiros e caseiros lá da terra e muitas outras pessoas, que tenho uma elevada dívida. Uma dívida de gratidão, por terem sido mestres e mentores da minha formação como ser humano. É por isso que guardo os seus rostos numa galeria particular, entre os melhores tesouros que a vida me deu… Aqueles que não se compram nem se vendem. Porque não têm preço…

Mais uma, no mundo de fingimento…

Quando tinha decidido fazer uma confissão pública de que era mais uma vítima, perdi a vontade ao saber que, tanto a Catarina Furtado como o escritor Lobo Antunes se tinham antecipado, revelando que haviam sido assediados sexualmente, a primeira por autor que não quis revelar e o segundo por um professor de moral. Que raio de moral … Ora, com as declarações de figuras públicas tão mediáticas, as minhas palavras passariam despercebidas e seriam atiradas para o rol do esquecimento. Assim, apesar de querer muito juntar-me ao movimento e ver o meu nome publicitado na imprensa – se é que alguém se daria a esse trabalho – acabei por não divulgar que o meu urologista me havia enfiado o dedo num certo “sítio”, alegadamente com o intuito de observar a próstata (disse ele), já para não falar na médica que me meteu um tubo pelo mesmo buraco, dizendo que era para fazer uma colonoscopia. Argumentos … Enfim, agora que toda a gente confessa essas coisas, talvez tivesse sido uma oportunidade perdida. Paciência. Na próxima, tenho de ser mais lesto. Mas isso leva-me ao concurso de beleza Miss América, que nos últimos dias tem sido motivo de notícia e gozo. A organização anunciou que “as concorrentes vão deixar de ter de desfilar em biquínis reduzidos …”. A presidente do concurso até declarou “não vos vamos julgar pela aparência exterior” (coisa difícil). E, continuou: “o que nos interessa, será o que dizem quando falam do impacto social de suas iniciativas”. Agora já não é preciso andar de fato de banho e saltos altos, pois o júri vai estar de “olho” noutros “talentos” (que não aqueles para onde todos olhamos). Estas revelações mostram que o movimento relativo ao assédio sexual já se infiltrou no concurso de beleza, levando à tomada de decisões algo polémicas. Melhor, de pura hipocrisia.

Sendo um concurso de beleza feminina, não deixa de ser interessante e até curioso que já não conte para nada a curva das ancas, o busto ou a simetria da cara. Ao que parece, só passa a valer “o que sai da boca das concorrentes”, aquelas baboseiras que costumam “debitar” um pouco antes da decisão final, de que “vão trabalhar pela paz mundial e combater a fome no planeta”, “salvar as baleias e os golfinhos” ou “proteger as formigas de África”. As linhas do corpo, especialmente as curvas, tantas vezes conseguidas à custa de trabalho duro no ginásio e de sacrifícios em dietas macrobióticas rigorosas, serão tapadas por “burkas” para igualizar as candidatas em termos corporais, evitando assim a tentação de se valorizar “patrimónios sensuais” em prejuízo dos outros agora exclusivos. A beleza estética de um rosto luminoso e bem cuidado, ainda que à custa de cosmética cara, será esquecida e, provavelmente, tapada com um saco, para que os juízes não possam ser influenciados por esse “perigoso” aspeto exterior, que desperta os instintos da natureza no “animal” que há em cada um de nós.

Sabe-se que muitas concorrentes, desiludidas porque os seus reais “atributos” já não vão ser avaliados e, por isso, deixarão de ser trunfo com que estavam a contar, reagiram negativamente a tal nova moda, chegando algumas a afirmar que se trata de inveja das “mulheres de bigode”. Dizem ainda que, “num concurso de beleza as mulheres não serem julgadas pelo seu visual, é como num concurso de força os homens não serem avaliados pelos músculos e seus feitos”.

Não me admirava nada que esta “onda” da Miss América vire moda e tenhamos estas e outras aberrações que tais a viver à custa de falsos princípios. Todos sabemos que na nossa cultura quando se fala num concurso de beleza de mulheres só há uma interpretação porque, o resto, é fingimento. Com isto, não há dúvida que atingimos um nível de hipocrisia e fingimento como nunca se viu. Ainda por cima, esta gente finge mal, mas continua a fingir sempre. Às vezes até parece que acreditam naquilo em que fingem acreditar ou então, são mesmo as “mulheres de bigode” a quem já nada salva.

A natureza segue o seu curso normal, mas há quem teime em querer alterá-lo. Será que os homens vão passar a fingir que na rua ou em qualquer lugar a primeira avaliação das mulheres não é feita pelo seu visual? Será que isso nunca é tido em conta nas relações entre esses dois mundos opostos? E as mulheres, vão-se matar umas às outras para fingir que não têm cuidados acrescidos e constantes com o seu corpo, que as leva a fazer sacrifícios e privações inimagináveis, numa competição entre si que não dá tréguas? Vai-se fingir que dieta é boa? Que aquela mistela de folhas verdes, legumes crus diversos e alguns frutos estranhos passados pela batedeira e transformados numa paparoca nojenta, é a refeição mais saborosa? E fingir que viver no ginásio horas e horas a “malhar” para derreter as gramas de gordura excedentes, a suar “como cavalos”, é a melhor coisa do mundo e não um desígnio em nome de um corpo saudável, mas, sobretudo, belo, atraente e sensual?

Se prosseguíssemos o caminho dos mentores desta nova conceção do concurso Miss América, os homens e mulheres deste mundo teriam de mudar a mentalidade, mudança em que não acredito porque o primeiro impacto visual incide na apresentação estética do corpo, algo que é tão natural como a nossa sede, instinto inato de qualquer animal.

Vamos lá ser realistas: uma Miss América ou outra Miss qualquer, tem que ter “atributos” de beleza exterior que marquem a diferença e façam um homem virar a cabeça. Porque é isso que elas querem e é disso que eles gostam. Tudo o mais, não passa de “balelas” das tais “mulheres de bigode”, sem “argumentos” para apresentar a concurso e com inveja quanto baste para o desvirtuar, tal e qual a raposa da fábula de La Fontaine:

– Contam que certa raposa, andando muito esfaimada,

Viu roxos cachos maduros, pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria, mas sem lhes poder chegar,

disse: “Estão verdes, não prestam, só os cães os podem tragar”.

Olhar o mundo através da “janela”…

As janelas sempre foram um local privilegiado para se olhar o mundo, especialmente quando esse mundo é circunscrito ao nosso lugar, ao nosso “quintal”. Por essa razão, num e-mail que circulou por aí a propósito de segurança, se apontavam três exemplos. Num deles, citava-se a China como possuindo milhões de câmeras de filmar na via pública, que lhes permite visualizar um acidente ou identificar uma pessoa em curto espaço de tempo. Também era referido o caso de Londres, que dispõe igualmente de um elevado número de “olhos públicos” para garantir a segurança dos cidadãos. Por fim, como não podia deixar de ser, para contrapor o “sistema” que o nosso país tem em alternativa às câmeras de filmar, mostrava-se uma mulher idosa, debruçada à janela a olhar a rua …

Das janelas da minha casa não vejo a rua, muito menos o mundo. Mas da “janela virtual” sobre a qual às vezes me “debruço”, e não convém que seja muito assiduamente porque cansa, vou assistindo ao desfile do mundo a que pertenço e ao qual não me posso furtar, uma parada alegre ou triste, interessante ou absurda, saudável ou louca, que até dou comigo a interrogar-me: “Como é possível”?

Foi por essa “janela” que vi passar o cortejo de figurantes na tentativa frustrada de legalização da eutanásia, com uma “suposta discussão” que nada teve de aberta nem de participativa, muito menos de séria. Como se fosse um assunto que só a eles dizia respeito e sem respeito por cada um de nós. Porque é a cada um de nós que cabe, no seu foro íntimo, uma posição pessoal da qual não pode nem deve abdicar, nem sequer delegar. Mas eles, esses tais figurões, acham que têm poderes que nós não lhe delegamos. Esse, eu não deleguei …

É por esse “retângulo virtual” que me deixo alienar, tornando-me em mais um “mirone” da comédia trágica que se passa numa instituição centenária como o Sporting Clube de Portugal. Fico “futebolizado” e a curiosidade atrai-me para as “cenas dos próximos capítulos”, cada dia mais surpreendentes que no dia anterior, próprias de uma telenovela da Globo ou de um filme policial. Não sei, e julgo que ninguém sabe, como é que este “filme” vai acabar. Mas não augura nada de bom para aquela instituição que devia estar acima de agendas pessoais. Somos um país onde o futebol esteve sempre acima dos governos, regulado por leis próprias porque os responsáveis públicos se demitiram de impor as leis comuns. Basta ver as célebres “claques” que sempre andaram em roda livre, impunes a todo o tipo de crimes, porque são a “guarda pretoriana” de presidentes a quem os governantes tecem loas e de quem se servem nas campanhas eleitorais para angariar votos. Por isso, depois não têm moral para impor a lei. Neste caso em concreto, não há telenovela que o bata, tanto em audiências como nas cenas imprevistas que nunca mais têm fim. Infelizmente, quem pode ter um fim triste é a Instituição …  

Mas, pela minha “janela”, também ouvi o primeiro ministro dizer aos professores que “não há dinheiro”. Coisa espantosa!!! Pensava eu que a austeridade acabou quando este governo começou. Pensava eu que havia dinheiro para todas as suas promessas, incluindo as que foram feitas aos professores apesar do perigo de abrir a “caixa de pandora”, até porque atingimos o maior nível de impostos da era democrática. E, afinal, a austeridade continua e aos professores só resta, para memória futura, mandar “encaixilhar” aquele tempo de serviço que pensavam trazer-lhes mais alguns euros que tanto jeito davam para compensar os sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis. Não ouvi nada do primeiro ministro a propósito do aumento constante da dívida pública. É que, para o cidadão mais distraído, as artimanhas da comunicação de quem nos governa são tão bem feitas e a estratégia da ilusão tão bem pintada, que até dão a entender que tem havido um abatimento naquela “conta calada” que temos para com os credores e que bateu novo record máximo. São 250.000.000.000 em números, que podem ser lidos como duzentos e cinquenta mil milhões de euros ou duzentos e cinquenta triliões de euros ou ainda um quarto de um quatrilião de euros. Presumo que a esperança dos nossos governos, deste e de outros, seja de que um dia as cheias, os temporais ou até um incêndio possam apagar o número no seu todo ou, pelo menos, fazer desaparecer os zeros. Porque, com os 250 euros podíamos nós bem …

Olhando pela “vidraça”, já vi que vamos ter “nova injeção de bola”. Os “rapazes” ainda não tinham voado para a Rússia e já lhes tinha sido dado tempo de antena quanto baste. Que me importa onde estão, o que comem, como dormem, o que fazem e todas aquelas minudências que cada ser humano passa no dia a dia. O que nós queremos é vê-los jogar (bem) a bola e ganhar. O resto, é para nos entreter e dar tempo de emissão barato às televisões, especialmente ao canal um. O que me vale é que tenho um comando que ainda funciona e uma mulher que aguenta mal um jogo de futebol. A ver. Valha-me isso, quando o massacre for em demasia. É que um homem tem limites …

Como já nada me surpreende nesta vida, vi sem espanto o professor marroquino de uma região próspera, que foi consultar um urologista por ter uma lesão semelhante à provocada por varicela. Depois de realizar os exames e análises, o diagnóstico foi perentório: ele foi estéril toda a vida, em resultado de um quisto testicular. Para quem lê isto, não há problema de maior, é natural. Mas não era natural para o professor, porque era pai de nove filhos … ou pensava que era, até saber o resultado dos exames e das análises. E foram nove(s) … fora nada … Vida de enganos? O que se vê e sabe através de uma simples “janela” virada para o mundo …

Temos de desconfiar até da sombra…

Com uma irregularidade quase mensal, integro um pequeno grupo de “jovens da minha idade” que passaram por uma vivência comum tão intensa e tão forte que, sempre que se encontram, têm de … almoçar e conviver. Pois é, isto de celebrar a amizade implica sempre “meter os pés debaixo da mesa”. E, para falar, é preciso “molhar a palavra”. Dentro do grupo temos o Toni, nascido e criado numa das zonas mais típicas do Porto, figura peculiar cuja vida daria para escrever “não um, mas vinte livros”. Do nada, se fez um dos maiores industriais na sua área de atividade; de família humilde, alcançou excelente posição económica e financeira; de jovem imberbe, tornou-se grande boémio e frequentador da noite; de homem de muitas mulheres, passou a ter uma vida de família como homem de uma só; para depois, “cair aos trambolhões” e num curto espaço de tempo, em alucinante derrocada profissional, económica e familiar, ao ponto de viver à conta de uma pensão de miséria. Fez de (quase) tudo na vida, começando logo em criança a saltar do tabuleiro inferior da ponte D. Luís para apanhar moedas de “cinco coroas” ou cinco escudos que atiravam ao rio Douro ou a recolher carvão caído dos comboios entre as Estações de S. Bento e Campanhã para vender a um candongueiro e ter dinheiro para pão com chouriço. Entre as muitas atividades de uma vida tão multifacetada, trabalhou anos a fio em feiras e romarias no negócio de tômbolas da família, barraca de matraquilhos, poço da morte e outros, fazendo de palhaço, motociclista, vendedor de rifas, jogador de matraquilhos (era “fora de série”. O pai apostava nele e ganhava sempre, apesar de precisar de uma grade de cerveja para ficar à altura da mesa de jogo) e outras funções.

Como já são longínquos esses tempos, revelou o segredo da tômbola onde a escolha do número da rifa premiada era feita pelo ratinho que largavam no meio da grande mesa redonda. Após alguma indecisão, o ratinho dirigia-se para um dos numerosos buracos na periferia da mesa, cada um deles assinalado com um número, tantos quantas as rifas vendidas. O prémio atribuído era variável em função do número “escolhido” pelo ratinho, indo de um simples chupa-chupa, a um jogo completo de tachos e panelas. Com prémios de valor tão diverso, a credibilidade do “sorteio” era muito importante.

Sendo um “ratinho inocente” a fazer essa escolha, ninguém duvidava da seriedade do sorteio decidido pelo pequeno roedor e da sua preferência. Nem eu … até ouvir o Toni. Depois de vendidas todas as rifas e quando chegava a hora do sorteio, ele era uma “peça” importante do negócio. Metia-se debaixo da mesa, escondido dos olhares indiscretos pela “saia” que tinha à volta e aguardava o anúncio da largada do ratinho no meio da mesa. Então, para atrair o roedor a um buraco com prémio de baixo valor, mas bom para o negócio, enfiava ali um pincel “barrado” de manteiga, fazendo com que o ratinho depois de farejar algumas vezes se deixasse tentar e entrasse lá.

Às vezes, para dar maior suspense à “lotaria”, durante um bocado alternava o pincel entre um buraco de prémio bom e outro de prémio mau, fazendo com que o rato oscilasse e desse uns passitos ora para um, ora para o outro, mas terminando sempre no que era bom para o negócio. Só que, um dia, cansado do trabalho e da folia, adormeceu quando o rato ia fazer a sua escolha. E, não estando condicionado pelo aroma agradável do pincel, escolheu um buraco ao acaso. Mas, azar, onde o prémio era bom (embora mau para o negócio). Foi assim que nesse dia o feliz contemplado levou para casa uma excelente prenda para toda a família, enquanto o Toni levou … um “arraial de porrada para aprender” a não voltar a dormir em momento tão importante … para o negócio.

As tômbolas do ratinho são do meu tempo de juventude e nunca me passou pela cabeça a mínima suspeita da credibilidade na escolha. Mas, afinal, havia. Sem sabermos, “comiam-nos por lorpas”, como nos continuam a “comer”.

Continuam a vender-nos imagem de seriedade, honestidade e integridade nos mais diversos aspetos da vida em sociedade e, como tendemos e temos de confiar nalguma coisa e em alguém, somos sempre “comidos de cebolada”. Basta olhar para a nossa história recente e ver no que deu confiar nos tão “impolutos” banqueiros e bancos, políticos e partidos, gestores de todo o tipo de empresas e as próprias empresas, gente com mediatismo, mas sem olhar a meios para atingir os fins, alguns disfarçados de altruístas, de espírito solidário. Até em supermercados acreditados verifiquei, por mero acaso, que se não pode confiar. Como diz o provérbio, “temos de ter um olho no cigano e outro no burro”. Ao descobrir que aquele inocente ratinho fazia parte do esquema para enganar o “Zé Pagode”, já nem sei em quem devo acreditar. Começo até a desconfiar de mim mesmo …

Mas, voltando às rifas, espero que o Agostinho não se zangue comigo por me “apropriar” da história real que me contou, onde a verdade também não deixou de ser manipulada, apesar das boas intenções. Quando há muitos anos uma companhia de circo montou a tenda em Lousada, foram pedir autorização à dona de um poço que ficava ali perto para deixar tirar a água que precisassem. A simpática senhora deixou-os à vontade para irem à água sempre que quisessem. Como permaneceram lá bastantes dias, o dono do circo mandou oferecer-lhe bilhetes para ver o espetáculo, mas ela não aceitou, alegando que a oferta da água não era motivo para se aproveitar e entrar à borla no circo. Um dia decidiu ir ver uma sessão, mas fez questão de comprar o bilhete. Durante o evento, o dono anunciou a venda de rifas para sortear um objeto – estes sorteios são uma forma de melhorarem um pouco a receita que, em regra, é baixa. A senhora ajudou, comprando algumas rifas e, quando ele retirou de um saco o papel com o número premiado, desembrulhou-o e anunciou-o ao microfone. Para surpresa e alegria da senhora, era uma das rifas que comprara. “Vejam lá”, dizia ela, “é a primeira vez na minha vida que me sai alguma coisa”. O que ela não sabia era que o dono do circo, quando a viu entre os espectadores, deu indicações à vendedora das rifas para tomar nota dos números que ela, eventualmente, viesse a comprar, como viria a acontecer. Depois, quando retirou do saco o papel com o número premiado, desembrulhou-o e, independentemente do número que lá estava escrito, só teve de anunciar como vencedor um dos números que ela comprara. Esta “desonestidade”, foi a forma encontrada pelo dono do circo para a recompensar. Mas, na realidade, não passou de uma manipulação da verdade, ludibriando todos os que compraram rifas e confiaram num sorteio honesto. Acabaram enganados, como nós o somos vezes sem conta, sem sequer imaginarmos que tal seja possível. Mas é …

Porreiros, condescendentes, fracos…

“Portugal está na moda”, dizem os políticos, os agentes turísticos, os comerciantes, os carteiristas, os arrumadores. E os turistas vêm aos magotes, inundando as cidades e cansando os residentes. A pergunta impõe-se: afinal, qual a razão porque vem tanta gente visitar-nos? Os governantes dizem que o mérito é todo deles e só deles; os autarcas, afirmam que o país está mais bonito pelo seu trabalho; os hoteleiros realçam o facto de terem uma excelente oferta; os donos das casas de “comes e bebes”, acham que os atraem com os sabores; outros há que referem a segurança, que a vida é barata (para eles), o sol brilhante, os pasteis de nata doces e outras banalidades. Mas, cá para mim, a principal razão somos nós, gente deste país à beira mar plantado, herdeiros de Egas Moniz. Não o Egas Moniz médico, premiado com um prémio Nobel por ter “cortado a consciência” a doentes mentais. Mas o outro Egas Moniz mais velho, o aio que, segundo reza a lenda, foi descalço e de “baraço” ao pescoço até Toledo, com a mulher e os filhos e colocou-se ao dispor do imperador da Hispânia, já que D. Afonso Henriques não cumprira o acordado por ele. Hoje somos como esse Egas Moniz: andamos de “baraço ao pescoço”. E, por andar de “baraço o pescoço”, somos ainda mais uns “gajos porreiros” com os estrangeiros (de fora). Temos até tradição na arte de bem receber. Veja-se o caso do Zezé Camarinha, que levantou bem alto o orgulho algarvio. Para quem esteve atento, somos tão simpáticos a receber que, como bons anfitriões, deixamos que os concorrentes do Festival da Eurovisão “passassem” todos à nossa frente. Todos, sem exceção. Foi só por isso que ficamos no fim da lista. Porque, a canção, era “um jardim” … Que país conseguiu atirar-se do primeiro lugar do ano anterior para o último? Nenhum. “Somos o primeiro” …

Mas sempre fomos assim, pondo os outros em primeiro lugar, mesmo que nos tenham feito as maiores patifarias. Veja-.se o Isaltino Morais que “foi dentro” por “meter a mão no prato”. Que melhor exemplo de tolerância e condescendência? Que maior gesto de “inclusão social” se pode dar ao eleger um homem com o seu “currículo”, como quem confia na raposa para tomar conta do galinheiro??? Mas, como este, temos muitos outros exemplos de gente que “fez tudo pela vida” nos cargos públicos que ocupou e, apesar de enriquecer de forma rápida e estranha, “afundando” ministérios, empresas, bancos, instituições e outras “minas” que lhes foram confiadas, acabaram sempre por ser “castigados” com a atribuição de um outro “poleiro” ainda mais rentável ou de voltarem a ser eleitos. Quantos Valentin Loureiros, Sócrates, Pinhos, Armando Varas, Dias Loureiros, Duarte Limas e outros que tais não estaremos dispostos a “carregar às costas” até ao palanque do poder, apesar do que se sabe e do resto que se imagina? Todos eles, sem exceção. Estejam eles dispostos a voltar ao palco. Nós damos-lhe a mão, sem reservas, como nossos líderes queridos. Somos assim. Temos os braços abertos e mãos largas para os nossos maiores inimigos. Damos a face direita a quem nos der um murro na esquerda e confiamos o cartão de crédito a quem nos meter a mão no bolso para sacar a carteira. Porque não? Se já estão habituados a “gamar” e são “bons profissionais”, porque arriscar num “principiante”? Seria um desastre total, não tinha “jeito para a coisa” …

O Brasil leva-nos vantagem: há “homens do gamanço” que assumem sê-lo e o povo aceita. Mal por mal, sempre têm de escolher um!!! “Eu roubo, mas faço”, foi o slogan de Adhemar de Barros, ex-governador de S. Paulo. Não me lembro de ouvir um só político português a fazer tal confissão, ainda que se prove que rouba. São sempre inocentes, tal como são mentirosos. Mas nós, como permissivos que somos, os tais “gajos porreiros”, sempre que um “pilhador de dinheiro público” aparece no boletim de voto, acabamos por lhe pôr a cruz. Porquê? É mais forte do que se pensa. Só o consciente acha “indigesto” engolir o corrupto. O comum dos eleitores pensa nos benefícios conquistados e esquece tudo o resto. “Que se lixe. Ele é que é um gajo esperto“ …

Como “submissos” que somos, somos “fortes com os fracos e fracos com os fortes”. Por isso, “baixamos as calças” se for preciso, até nos verem o tal buraco ao fundo das costas, quando um “homem grande” nos bate o pé. Ou não foi isso que aconteceu com o caso conhecido por “Manuel Vicente”? Como este “senhor” não é um “pilha galinhas” nem um gajo a quem se possa dar um pontapé no traseiro por “dá cá aquela palha”, quando quisemos empertigarmo-nos, deixando de ser uns “porreiros” para querer que a justiça funcionasse sem olhar a quem, quem levou um enorme pontapé no fundo das costas fomos nós. Que raio de estupidez querer julgar aqui em Portugal um tipo que cometeu (supostamente) um crime em Portugal! Isso não é de “gente fixe”. Fomos uns imbecis ao insistir nessa tecla durante tanto tempo e logo contra “uns gajos fortes” que nos têm na mão. Andamos a fazer birras, recusando enviar o processo do “Manuel” para Angola e o que ganhamos? Uns puxões de orelhas, de castigo contra a parede e ficamos a falar sozinhos até aprendermos. E “aprendemos mesmo”, ao ponto de mandar o tal processo judicial para Angola. Ora, eles até tinham razão: o homem é de lá, já o conhecem de ginjeira (e ele sabe e conhece os que o vão julgar …), falam a mesma língua (que não é bem a nossa), o homem não tem de ir ao estrangeiro para ser julgado e, seja qual for o resultado final do processo, que já não é importante, fica tudo em família e nós somos novamente uns “gajos porreiros”. Não é isso que interessa? Claro. Assim, até já fomos recebidos pelo “rei” que andava a dizer não nos conhecer de “urinol” nenhum. Agora, bué de fixe. “Está tudo no seu lugar, graças a Deus” e até já voltamos à condição de “país irmão” … Somos ou não somos um país tolerante, condescendente, permissivo, liberal e … fraco? Quando digo “fraco” quero dizer que, apesar da “diarreia verbal” dos governantes em que parecemos (e só parecemos) fortes, tivemos falta de força na “coluna vertebral” e não conseguimos manter a “espinha” direita. E acabamos com “o rabinho entre as pernas”, feitos “cavaleiros de triste figura” …

 

Carro novo ou velho? A pé, é pior…

O mecânico não conseguia descobrir a origem daquele ruído anormal que se ouvia na parte inferior do automóvel. Para tentar identificá-la, decidiu levar o carro à estrada nacional, em direção a Sequeiros. E lá foi pela estrada, acelerando e travando ou fazendo-o passar em pisos mais ou menos irregulares, até que parou junto à berma. Então, com o motor a trabalhar e a porta aberta, deitou-se debaixo da traseira do automóvel, porque lhe pareceu que o tal barulho incomodativo vinha dali. E, quando se encontrava deitado na estrada a tentar identificar a chave do problema, viu o carro arrancar de repente e a sair-lhe de cima, deixando-o “com cara de parvo” e os olhos postos no céu, sem saber o que se estava a passar. “Só pode ser brincadeira de algum amigo”, pensou com os seus botões. E ficou à espera que o autor da partida voltasse para o gozar. Mas ninguém apareceu nem mandou recado. O carro “voara” mesmo nas suas barbas e ele ficou apeado, tendo de regressar a pé à oficina para contar o insólito… E não deixava de pensar no sucedido e como é que o acaso o havia feito parar precisamente junto do ladrão, deixando-lhe a porta aberta e o motor a trabalhar, facilitando a vida do “artista” que não vira e só podia estar ali por coincidência. Que raio de coincidência … O carro até podia ter um barulho, mas era melhor do que ter de andar a pé.

Velho ou novo, o automóvel é “ferramenta” indispensável de trabalho e lazer a que nos habituamos ou, quando não, estamos dependentes. E são mais que muitas as peripécias bizarras que acontecem a quem usa (e abusa) deste tipo de veículo. Eu próprio tenho algumas dessas histórias com estas “sucatas ambulantes” que sobrevalorizamos para além do que o bom senso recomendaria. A esse propósito, lembro-me de uma frase de autor brasileiro desconhecido, que diz tudo: “Eu me achava lindo. Agora que tenho um automóvel, tenho a certeza disso”. Eram onze e meia da manhã de um lindo dia de sol. Vindo do hospital de Lousada, quis ir ao escritório que tenho no centro da vila. Quando vi um lugar de estacionamento livre, apesar de ser do lado esquerdo da rua, aparquei. Com calma, saí para o passeio com as chaves na mão e, quando ia fechar a porta, ouvi atrás de mim uma voz autoritária: “As chaves”. Parei o movimento e olhei de lado. Tinha uma “shotgun” (caçadeira de canos serrados) encostada à cabeça, mas apontada ao céu, empunhada por um encapuzado. Pensando ser brincadeira ou garotice, esqueci o “pistolão” e olhei de novo para a minha carrinha. Vi então um carro parado no meio da rua ao lado do meu e, com a mão na porta do outro lado da carrinha, um segundo assaltante de cara tapada. “Pum”, ouvi um tiro junto ao ouvido, que ficou a zoar. O “meu vizinho” queria apressar-me e voltou a repetir: “As chaves” … Virei-me com as chaves na mão. Ele agarrou-as e ainda com a porta aberta, atirou-se para dentro da carrinha, enquanto do outro lado entrava o assaltante que estava à espera. O terceiro ladrão, condutor do outro carro, arrancou e logo atrás dele a minha carrinha. Fiquei ali “plantado” no passeio, como que a sair de um sonho e a pensar: “Roubaram-me a carrinha”. Não cheguei a ter medo, nem sequer tive tempo de apanhar um susto. Apareceu alguém que vira a cena duma varanda muito preocupado, mas agradeci e disse-lhe que estava bem, só não tinha a viatura. Depois, tranquilamente fui para o escritório. Só contei a história ao meu filho e à Teresa ao fim de alguns minutos. O Luís levou-me ao posto da GNR para participar a ocorrência e segui para casa. Era hora de almoço. Ao terminar, telefonou-me um amigo: “O meu empregado acaba de me contar que lhe roubaram a carrinha. Ora, estou a ir para o Porto. Entrei agora na autoestrada e, logo na primeira subida à saída de Paredes, está uma carrinha na berma. A matrícula da sua não começa por SI”, perguntou ele? Quinze minutos depois parava junto dela. Estava intacta, mas não andava. No esforço da fuga, depois de roubarem outro carro em Paredes, deram-lhe cabo da junta de colaça e abandonaram-na. A avaria veio na hora certa. O ditado “há males que vêm por bem” não podia ter melhor aplicação … Ou então, teria de ser mais um a andar a pé …

Mas não é só por nos roubarem o carro que ficamos apeados. Há mais formas. A noiva do meu amigo Guilherme vivia num apartamento em Gaia, na rua que vai direita à estação das Devesas. A noite já caíra e o Guilherme estava sentado dentro do carro à espera dela, encostado ao passeio e com a estação das Devesas nas suas costas. E, como é habitual nas senhoras, já passara quase uma hora sem que ela desse sinal de vida. Para ocupar o tempo e tentar conter a impaciência, o meu amigo travava e destravava o carro, acendia e apagava os faróis e mexia na alavanca de velocidades. Já farto de tanto esperar, saiu do carro e foi tocar à campainha da porta de entrada do prédio. Atendeu a mãe dela: “Já não demora”. O Guilherme virou-se para o automóvel e ficou de boca aberta: “Desapareceu”. Sem um bater de portas, sem o barulho do motor a trabalhar e sem acelerações, o carro esfumara-se. Incrédulo, olhou rua acima e abanou a cabeça. Por ali, não. Tinha de ser para o outro lado. Então, correu rua abaixo até encontrar um dos poucos transeuntes àquela hora e perguntou-lhe se vira o seu Toyota. Nada. Continuou a correr feito tolo em direção à estação. Ao dobrar a curva da estrada, viu três homens a segurá-lo e a perguntarem: “De quem é este carro? De quem é”? Descobriu depois que, ao mexer no travão e na alavanca de velocidades, acabou por deixar o carro destravado e desengatado. Quando saiu e foi tocar à campainha do prédio, como a rua tem certa inclinação em direção à estação, o carro começou a andar lentamente em marcha atrás e, como que conduzido por mão invisível, foi junto ao passeio e fez mesmo a curva ligeira antes de chegar à estação. Os três homens estavam ali parados a conversar e aperceberam-se do movimento do carro em marcha atrás, até darem conta de que não tinha condutor. Foi assim que decidiram evitar que fosse embater na estação, travando o avanço até o fazer parar. E logo a seguir chegou o Guilherme, que assim se livrou de ter de andar a pé …

Real ou ficcionado, narrador anónimo conta a sua história: “Pela primeira vez na vida, na semana passada, fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal e participei das práticas e orações dos presentes. De repente, o Pastor aproximou-se do lugar onde eu estava. Olhou-me fixamente e apontou-me o dedo. Piedosamente, ajoelhei-me e ele colocou as mãos na minha cabeça e clamou em voz alta: – Você vai caminhar! Eu, respondi-lhe baixinho: – Mas, eu não tenho nenhum problema de locomoção. Ele ignorou a minha resposta e, quase gritando, voltou a exclamar: – Irmão, você vai caminhar! Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a bradar: – Você vai caminhar! Mais uma vez, tentei explicar que não tinha problema com meus membros inferiores, mas foi em vão… Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu: -Você vai caminhar! Enquanto a Assembleia, em transe, gritava ainda mais forte: – Irmão, você vai caminhar! Optei por me calar e não dizer mais nada… Quando o ato acabou, deixei a Assembleia e, acreditem ou não, o maldito Pastor tinha razão: TINHAM-ME ROUBADO O CARRO!!!”

Ora cá está mais um que teve de “ir à pata” para casa. Por isso, com carro velho ou novo, sempre é melhor do que andar a pé …

Mês de Maio, mês de “peregrinações”…

Enquanto esperava sentado no carro que chegasse a hora da reunião, dei comigo a observar para lá das montras de uma loja de vestidos de noiva e comunhões numa tarde soalheira. Foi quando vi entrar três mulheres e uma criança que me pareceram ser mãe, filhas e neta, com um objetivo: arranjar o vestido para a comunhão da mais nova. Pela idade, seria a comunhão solene. Através dos vidros pude então ver o desfilar de alguns “vestidos de noiva” em ponto pequeno, provocando sorrisos ou acenos discordantes com a cabeça durante mais de uma hora, até eu ter de me retirar de cena. É cada vez mais assim nestes meses de comunhões (primeira e solene), com toda a excitação que isso provoca, principalmente entre as progenitoras das crianças que entram na cerimónia. É um ato solene na vida da criança que está em causa? Nada disso. O que está em jogo é a “competição” entre as mulheres da terra. O resto, é o motivo …

Nalgumas paróquias da região os padres conseguiram impor uma veste comum para todas as crianças, evitando dessa maneira que a “competição” pelo melhor vestido e melhor fato – e mais caro – se estendesse a elas. Foi a forma encontrada para travar desvarios, evitar gastos supérfluos e retirar as pequenas estrelas da cerimónia ao “circo de vaidades” – o “acessório” – focando-as no essencial – a cerimónia. Mas em muitas outras, apesar das tentativas do pároco local, não foi possível chegar a consenso com os pais das crianças (melhor dizendo, com as mães…) que exigiram liberdade de escolha na vestimenta. A vaidade colocada no pedestal, acima do bom senso… A “peregrinação” com a mãe levando a reboque a criança e mais uma mulher da família (os homens, se forem na “procissão”, só são uteis como motoristas. De resto, não lhes é permitido emitir opinião ou, se o fazem, é por mera formalidade pois não conta para nada…), começa cedo e consome algumas tardes. Em cada dia visitam duas ou três casas da especialidade e já é preciso andar depressa porque, entrar numa loja, dizer ao que vão e virar o stock de alto a baixo à procura “daquele modelo especial e único”, não é coisa fácil. Num dia, correm as lojas de Penafiel, Lousada e Longra e noutro, uma casa de Lordelo, outra em Paredes e a estilista da Lixa. Para o Porto, uma tarde nunca é suficiente. E a criança veste e despe modelo atrás de modelo, num ataque continuado à paciência. É preciso gostar do vestido ou fato e poucos são os que condicionam o preço. Por um vestido dito modelo único (provavelmente repetido inúmeras vezes!), paga-se sempre de seiscentos euros para cima, conforme o número de lantejoulas e mais ou menos enfeites. Mas não se pode poupar numa competição destas senão, “fica-se mal na fotografia”. Ao fim de alguns dias, a veste para a criança está escolhida, ficando pendente dos ajustes finais. Mas a tal “peregrinação” continua até se encontrar vestido para a mãe e a avó, que em regra só serve para este tipo de cerimónias. E os vestidos para as outras mulheres da família? Isto não é fácil. São mais umas quantas tardes no “põe e tira” até descobrir o vestido certo, aquele que “cai a matar”.

Na aldeia o padre reuniu com os pais para preparar os pormenores da comunhão e dar algumas indicações. Entre outras recomendações, com algum cuidado por saber o “terreno” que pisava, apelou ao bom senso e contenção nas vestes, tanto das crianças como dos familiares. Enquanto falava com as mães, algumas cochichavam entre si dando a entender que não era para levar a sério pois a “competição” estava acesa e a maioria já tinha concluído a “peregrinação”, que é como quem diz, já havia comprado as “toilettes”. Era corrida que não tinha retorno e o “recado” viera a destempo. Nem elas estavam para aí viradas …

E há mais uma escolha. Quando a mulher diz ao marido que tem de comprar um fato, a resposta é a do costume: “Mas eu tenho o armário cheio de roupa” … “Pois tens”, diz-lhe ela, “mas já foi usada noutras cerimónias”. E ele não tem outro remédio senão deixar que ela lhe compre “qualquer coisa”, porque é ela quem escolhe. Daí que, entre arranjar roupa para a criança, pai, mãe e avós, é tarefa gigantesca que implica dias e dias de “peregrinação” pelas casas da especialidade, já para não falar no calçado, acessórios, almoço na Quinta da moda e tudo o mais. Nessa procura, por vezes frenética, encontram-se outras pessoas com problemas comuns, gente “solidária no sofrimento”.

Com a neta (que vai comungar) já “despachada”, depois de mais de uma semanada de “peregrinação” pelas lojas da região, mãe e filha voltaram à “capelinha” por onde já haviam passado para comprar novo vestido, porque o que a mãe havia adquirido “não era o tal”. Enquanto reviam as opções, entrou um casal de meia idade. A mulher começou logo a percorrer a loja revirando o stock, “à caça” do modelo de vestido ideal. Ele, cansado de servir de ama seca, perguntou: “Oh mulher, será que é desta vez que encontras alguma coisa”? E ela, que já repetia a passagem por aquela loja, resmungou com ar de “poucos amigos”: “Vamos ver, vamos ver” … Mãe e filha sorriram em sinal de solidariedade e ele aproveitou a deixa: “A senhora está-se a rir? Nem imagina o que já corri com ela. Olhe que até a Fafe fomos. Estivemos em Guimarães, em Felgueiras, em Lousada, Longra, Porto e sei lá bem que mais”. A esposa interrompeu-o para dizer: “É que eu sou a mãe do noivo” … Ele não a deixou continuar e cortou: “E eu sou o pai e não demorei nada disto a arranjar fato”. A senhora, com simpatia, tentou acalmá-lo: “O senhor tem de compreender que estas coisas não são simples”. Agastado, ele desabafou: “Isto não há homem que aguente. Ando para aqui feito Boby. “Oh Boby para aqui. Oh Boby para ali”. E não encontra nada!!! Como é possível”?

A vaidade é natural e desejável enquanto reforço da autoestima e gera competição salutar, desde que não vire obsessão. Quem pensa que a preocupação das mulheres com o seu visual tem como objetivo encantar o olhar dos homens, está enganado. Porque ao homem basta que a mulher use peças que realcem os “predicados naturais” e nem sequer repara se sapato combina com cinto, se o vestido já foi usado noutro evento. O que verdadeiramente atormenta mulher é a opinião das outras. Porque elas sabem que o mundo feminino é um circo de feras, de olhar atento para condenar vestidos imperfeitos e errados, sapatos mal escolhidos, maquilhagens desastrosas e outros deslizes da concorrência. E as comunhões, tal como os casamentos, batizados e outros atos religiosos ou não, são “palco” onde o olhar inquisidor e crítico das outras está em alerta total e perante o qual todas querem passar incólumes. Isso faz com que a procura normal de um simples vestido vire obsessão, fazendo dela uma autêntica “peregrinação” sem ser a local sagrado ou de devoção, mas esperando encontrar o “tal”, capaz de fazer o “milagre” e merecer a aprovação, ao enfrentar esse “tribunal implacável” que é a opinião feminina local …