Vemos o rosto da “idade” no espelho?

Concordo com Jeanson: “O meu sonho é morrer jovem, mas com uma idade muito avançada”. De tal forma que, quando ouvir dizer “olha o velho”, eu tenha de levantar a cabeça à procura de alguém a quem se estejam a referir, que não eu. É que, apesar do meu (agora) Cartão de Cidadão me acusar ter várias décadas de existência, a minha mente ainda pensa que aquela cabeça com pouco cabelo e todo “pintado de branco” que o espelho me devolve todas as manhãs, não pode ser a minha. Tem grande dificuldade em acreditar. Mas, ao ver os outros com a minha idade, quase sempre os acho “velhos”. Já lhe aconteceu alguma vez olhar para pessoas com a sua idade e pensar: – Não posso estar tão acabado como ele?!!! 

A este propósito, confessava uma mulher: “Estava sentada na sala de espera para a minha primeira consulta com o novo dentista, quando vi o seu diploma afixado na parede, perfeitamente encaixilhado. Ao ler o nome do dentista escrito em letra artística, de repente recordei-me de um jovem alto e moreno que se chamava assim. Era da minha turma do Liceu, há uns bons trinta anos atrás. Então, perguntei a mim própria: – Será que este rapaz é o mesmo por quem eu me apaixonei naquela época?

Quando fui chamada e entrei no consultório, afastei de imediato esse pensamento do meu espírito. Porque, aquele homem grisalho, quase calvo, gordo, com um rosto marcado e profundamente enrugado … era demasiado velho para ter sido a minha paixão secreta.

Depois de ele me ter examinado e tratado o dente, para descargo de consciência perguntei-lhe se tinha estudado no Colégio Sacré Coeur.

– Sim, estudei, respondeu-me.

– Quando se formou, continuei a indagar?

– Em 1965. Porque pergunta, quis ele saber?

– É que … bem … o senhor era da minha turma, consegui eu dizer!

E então, aquele velho horrível, cretino, careca, barrigudo, flácido, filho de uma … bezerra lazarenta, perguntou-me:

– “A senhora era professora de quê”?” 

Assim como, por norma, só vemos os defeitos dos outros e não os nossos, também é verdade que só damos conta do quanto os outros estão envelhecidos e não conseguimos “ver” a imagem no espelho. Para já, estou de acordo com todos aqueles que dizem: “não estou a envelhecer, estou a tornar-me um clássico”. E, com isto, não minto descaradamente a querer dizer que envelhecer é espetacular. Antes pelo contrário. Envelhecer é muito chato, aborrecido e deprimente para quem pensa nisso e fica a contar os dias a mais (ou a menos), porque não tem mais nada que fazer. E cansa muito. Mas, a verdade, é que é a única maneira de se viver mais. Não há outra, nem parece que se vá inventar nos próximos tempos … 

Está provado que “qualquer idiota consegue ser jovem e o difícil é ter talento quanto baste para chegar a velho e, mais ainda, a muito velho, especialmente com qualidade”. Ora, o envelhecimento é um processo, que cada um encara de maneira diferente. É ganhar cabelos brancos? Ficar com a cara enrugada e os músculos flácidos? É passar a subir a escada cada vez mais devagar? Ser resmungão e teimoso? Ou perder a vontade de viver e ficar à espera que “o ceifeiro” chegue? Para falar francamente, não tenho medo de envelhecer. Até agora, ainda não tive de pagar qualquer portagem significativa na estrada que nos leva até lá …

Tenho de me dar por muito feliz porque envelheci, já ganhei cabelos brancos e tenho as maleitas próprias de quem atinge a terceira idade. Não, ainda não entrei na quarta idade de que agora tanto se fala, mas não ficarei triste se chegar lá. Pelo contrário, ficarei desapontado se as pernas não me levarem para além dela, pois envelhecer é bom até porque a alternativa é bem menos agradável. Tal como acontece com o vinho, ao envelhecermos “amaciamos”. Neste caso, temos muitas atividades. Segundo estudo recente da Universidade de Harvard sobre as coisas a que mais se dedicam as pessoas idosas, há três que se destacam das outras: “O Banco, a Bolsa e a Investigação”. O Banco, porque é neles que passam a maior parte do dia sentados, seja nos centros comerciais, parques ou jardins. A Bolsa, porque a usam com frequência para ir às compras ao supermercado ou para levar artigos para reciclar ao Ecoponto. A Investigação, pois não passa um único dia que não investiguem: “Onde raio deixei as chaves?”; “Onde pus a carteira?”; “Onde larguei os óculos?”; “Como se chama este gajo?”; “De que estávamos a falar?”.  

Eu sei que ás vezes também já esqueço coisas, que nalgumas ocasiões tenho de voltar atrás para tentar recordar o que ia fazer, mas já não me martirizo quando acontece, porque encaro o esquecimento como natural. Tornei-me mais amigo de mim próprio, mais tolerante. Para quê preocupar-me com um esquecimento se um dia destes vou ter de “esquecer tudo”? Eu sinto-me abençoado porque a maioria dos meus amigos já não tem oportunidade de se esquecer ou lembrar. Eu ainda tenho e estou feliz por isso. Também ganhei o direito à liberdade de ficar acordado pela noite dentro a ver um filme ou a ler um livro. E depois? Se tiver de ficar a dormir até mais tarde, fico. O mundo lá fora continua a girar sem mim. Tal como se me apetecer comer alguma coisa às duas da manhã, mesmo que isso represente barrar umas tostas com compota feita de mirtilos colhidos em casa dum simpático casal antes de os abrir à passarada ou até comer alguns caramelos de café que o meu filho nos traz da Colômbia! Não me penalizo ao comer feijoada ou cozido à portuguesa e não fazer dieta. Que importa se vier a ganhar “barriguinha”? Estou errado? Também já tenho direito a estar errado, porque não? 

Estou a envelhecer, sem ainda me sentir velho e já trago a idade no rosto, sem reconhecer os seus traços. Mas estou a gostar. Vale a pena fazer este caminho, mesmo com rugas profundas, cabelos brancos e um pouco curvado … e confesso, cheguei sempre sem preparação a cada fase da vida. Até porque “em jovem, sabia tudo, na meia idade, suspeitava de tudo e agora, acredito em tudo” … 

Haja respeito e compreensão por eles …

O senhor Joaquim está no hospital. Foi internado ontem. Quando a enfermeira lhe perguntou a idade ele retorquiu em francês: “quatre-vingts”. Como não compreendeu, perguntou à colega: “O que disse ele”? Ela respondeu que o senhor Joaquim tinha oitenta anos. Foi ao dar-lhe banho que a segunda enfermeira ouviu parte da sua história de vida num francês que foi compreendendo a espaços, mas de onde percebeu que ele esteve quarenta e cinco anos como emigrante em França e só a doença da mulher o fez regressar à terra natal onde deixara duas das seis filhas que tem. Por lá trabalhou na construção civil todo esse tempo e ficou-lhe atravessado no pensamento e no instinto a língua francesa, apesar de adotada à força da necessidade. Quando a filha o foi visitar à tarde, ao saber que falara em francês berrou com ele: “Tem de falar em português porque o pai sabe”. E, voltada para as enfermeiras, pediu para o obrigarem a falar na nossa língua. Aquela filha, que viveu tantos anos longe do pai, fruto das circunstâncias, não percebia que na sua cabeça o pensamento estava estruturado em francês por força dos quarenta e cinco anos a ter de o ouvir, falar e sentir e que, para agora encontrar as palavras certas na sua língua materna, tinha de as procurar no seu registo mental uma a uma, a conta gotas. Pior ainda, permitiu-se criticá-lo de ânimo leve, sem perceber a sua extrema dificuldade para falar em português ao fim de quatro décadas e meia de ausência, durante a qual só cá veio três ou quatro vezes. 

O João, que está em Inglaterra há mais de dez anos, explicava isso bem ao contar que até os seus sonhos já são em inglês, muito longe dos quarenta e cinco anos do senhor Joaquim como emigrante … 

É recorrente. Criticamos os emigrantes quando falam noutra língua, dizendo que “ele está-se a armar”, tal como os criticamos quando aparecem “montados num carrão”, que quase sempre mais não é do que a necessidade de afirmação do seu sucesso lá fora, uma forma de dizer “eu venci na vida”, uma manifestação de orgulho pessoal, sabe-se lá a que preço. Mas não temos noção desse preço e, ao criticarmos essa sua “afirmação”, quantas vezes não o fazemos com o sentimento de inveja por ele ter aquilo que nós gostaríamos de ter?

Ser emigrante, aquele emigrante que se muda para outro país mais ou menos distante, à procura de uma vida melhor, não é fácil, por mais letrado que seja. E, logicamente, quanto menor for a formação, mais dificuldades tende a encontrar na sua adaptação a outro país, outra língua, outra cultura. Que o digam todos aqueles que trabalham na construção civil por essa Europa fora, olhados e tratados (quase) sempre como “estrangeiros”, gente “menor” na sua escala social ou, se preferir, de grandeza. E já nem falo de tudo aquilo que passaram os nossos concidadãos nos anos sessenta e setenta nas primeiras grandes “levas” de emigração para França, em que iam praticamente às escuras para um país de que nada conheciam, nada sabiam, onde se falava uma língua estranha de que nada compreendiam, a reboque de engajadores que os exploravam e, demasiadas vezes, deixaram entregues a si mesmos em terra estranha. Na nossa estupidez, ainda tendemos a criticar aqueles que se fizeram ao caminho e deixaram tudo para trás na busca de uma vida melhor, a começar pela casa, família e amigos. Um preço demasiado alto para quem quis levantar a cabeça e sonhar com outro futuro … 

Um desses que por lá labutava dignamente na ânsia de ter um futuro mais promissor do que tivera por estas bandas, numa das suas visitas à terra natal ouviu várias dessas críticas de uma das suas irmãs mais queridas. Nessa noite, chorando convulsivamente abraçado ao pai, desabafava sentido: “Se ela soubesse o que é estar longe da família? Se sonhasse o que é sentir-se sozinho em terra que não conhecemos e onde somos vistos como intrusos? Se sentisse o que é precisar de uma mão amiga, alguém a quem recorrer sempre que precise, ainda que seja só para desabafar um pouco e não ter com quem? Não tem noção nenhuma do quanto se sofre, do quanto nos privamos, das coisas simples de que tivemos de abdicar. Não sabe o que é perder o envelhecer dos pais e amigos, o crescer dos filhos, os aniversários, casamentos e até funerais de gente de quem gostamos” …

Desengane-se quem acha que ser emigrante não tem um preço. Oh se tem e como é elevado … porque é um ato de coragem sair da zona de conforto para ir em busca de uma vida melhor, deixando para trás mulher, filhos, pais, amigos, casa, a vida que conhece e que o conhece. Porque é disso que se trata. Ir à luta, se não se tem cá como. Um salto no desconhecido, tendo de se fazer forte por mais fraco que se sinta, porque não pode olhar para trás, desistir, falhar, fracassar. E quando a vida lá não é o “paraíso” sonhado, porque se encontrou um patrão que não paga e explora, quando não um compatriota que se aproveita da sua necessidade, ao comunicar para casa, diz-se sempre que “está tudo bem”, “isto aqui é um paraíso”, porque não se quer fazer sofrer aqueles que se amam e ficaram cá, pois já basta o seu drama. E isso é tão verdade para um emigrante português como para qualquer outro.

E a prová-lo está a Marta, cabo-verdiana que reside cá. Apesar de não ter uma condição económica desafogada, sempre que quer tirar fotos para enviar à família, veste-se bem para dar um ar de sucesso. Como vai enviando com regularidade algum do pouco dinheiro que ganha e lhe sobra à família que por lá ficou, para que eles “saibam que ela está bem”. “Porque eu vim para ter cá uma vida melhor e poder ajudá-los. E é isso que eles esperam de mim”, não se inibe de afirmar.

Apesar de ter passado ao lado duma oportunidade para o ser, não sou nem nunca fui emigrante, embora tenha estado afastado da família ao longo de dois anos como militar, em Moçambique, o que não é bem a mesma coisa. Em comum, só o afastamento e ausência. Por isso, tudo o que digo baseia-se no contacto direto com alguns deles, cá e lá fora e em variadas condições, mas sem ter vivido e sentido esse “carregar do fardo”, o estar só e doente no meio da multidão e “não ter quem nos faça um chá ou dê um pouco de atenção”, como dizia uma nossa conterrânea. Quantos homens estão lá enquanto a família está aqui, a milhares de quilómetros de distância? Não é o telefonema diário (se for possível) que substitui a presença de quem se ama, de quem falta para conversar, discutir, afagar, ajudar nas pequenas coisas da vida que precisam do contributo presencial do “outro”.

Indiscutivelmente, somos um país de emigrantes. De tal forma, que (quase) todos nós temos alguém, pai, mãe, filhos, netos, primos, tios, amigos e outros mais, que por lá andam, de quem sentimos ausência, saudade, falta. Saibamos estar à altura do seu sacrifício e respeitá-los sempre. Sem preconceitos, sem invejas, sem falsas superioridades …

Não TAP os olhos. “Porque o seu dinheiro voa” …

Andamos todos muito preocupados em “passar entre a chuva sem nos molhar”, isto é, ver se escapamos ao contágio por aquilo que os especialistas chamam de “novo coronavírus” ou “covid-19” e nem nos damos conta que o mundo continua a girar e os outros problemas da sociedade precisam de ser resolvidos, sendo que muitos deles nos dizem respeito de uma forma ou de outra. Distraídos e preocupados com a pandemia, nem percebemos que alguém vai tomando decisões importantes para todos nós, usando para o efeito precisamente o “nosso dinheiro”. E foi nesta (quase) apatia geral que fomos ouvindo notícias de que a “transportadora aérea nacional”, onde o estado já enterrou muito dinheiro para ser dono de metade, e estranhamente sem poder mandar em nada, precisava de mais uma injeção de mil e duzentos milhões de euros para não se afundar, ou melhor, para não deixar de “levantar voo”. E a quem veio pedir? Ao estado, claro está que, apesar de falido e com uma dívida que colocará um pesado jugo ao pescoço dos nossos filhos e passará de geração em geração muito para além dos seus trisnetos, arranjou maneira de ficar a dever mais. Os governantes defendem que o país não a pode deixar “ir ao charco”. Terão receio de que, na sua falta, vamos ficar apeados e só podemos andar de bicicleta? Provavelmente até dava jeito para acabar com a obesidade infantil …

O ministro das infraestruturas, no seu estilo “trauliteiro” de “ou vai, ou racha”, insiste que “é uma empresa indispensável para o país” e que “Portugal não pode perder esta companhia de bandeira”. E num tom bruto com tiques radicais, ameaçou com a nacionalização da empresa se não houvesse acordo com os privados. Porque, homem que é homem, é assim mesmo e não tem medo de arriscar (e perder) “o dinheiro dos contribuintes” para comprar mais uma boa parte da companhia falida. Aliás, os “pagadores do costume” nem reclamam … Não foi necessário nacionalizar, mas a alternativa não vá ficar muito mais barata. Para já, são mil e duzentos milhões de euros “a levantar voo” e “ainda a procissão vai no adro”. E depois? Logo se verá, porque “não há quem TAP este buraco”. Não tenhamos ilusões. Em 2019, no ano em que houve mais passageiros que o habitual, os resultados foram muito … negativos. E de que maneira! Mais de 100 milhões de prejuízo. Ora, se num ano bom deu no que deu, nos anos maus que aí vêm, vai ser o bom e o bonito, não? Talvez um “buracão” maior? E o povo? Que o TAP … O argumento do ministro, do governo e políticos de quase todos os quadrantes, perfeitamente alinhados, é de que “Portugal não pode perder a TAP”. Eu diria que “a TAP é que não pode perder Portugal”, porque é o seu principal financiador, seja para pagar viagens, seja para cobrir os prejuízos.

Lá vai o tempo em que eu cuidava de voar na companhia, mas não sei há quantos anos já não assento “o rabo num dos seus aviões e não é por isso que me vou sentir menos português. A concorrência hoje é grande e as agências de viagens selecionam em função do interesse dos clientes. É por serem melhores as propostas de outras empresas que com elas tenho viajado nos últimos anos. E vivo bem com essa “traição”. Ao ver um debate sobre esta “tomada” de mais uma parte da empresa pelo estado, que passa a ser dono de 72,5%, perguntava-me: – Qual é a minha vantagem em viajar na TAP? Tenho desconto pelo facto de ser português? Não! Tenho algum tratamento especial por ser português do norte (e contribuinte da empresa)? De maneira nenhuma. E há direito a uma bebida extra, a desconto nos aperitivos ou nas vendas a bordo? Zero, nada, nicles!!! Pelo contrário. Às vezes até me sinto discriminado quando a hospedeira de bordo me fala em inglês, como se eu tivesse cara de “beef” … Já me basta o Algarve …

Mas, sejamos positivos: nem tudo é mau. Com os privados reduzidos a uns míseros 27,5%, quem passa a mandar é o estado, se é que desta vez vai mesmo mandar! Então, existirão grandes oportunidades para “gestores públicos” a nomear pelo governo, seja este ou o que vem a seguir (ou até pelo partido que lá estiver no momento). E podem ser bancários, filósofos, médicos, escriturários, sindicalistas, atores ou artistas de circo de formação que, com toda a certeza, serão bons ou excelentes “gestores públicos”, altamente capacitados para gerir esta ou outra TAP qualquer, desde que sejam filiados ou simpatizantes …

Infelizmente, o historial de gestão das empresas onde o estado está metido não é nada bom, longe de outros exemplos que merecem ser copiados. Ainda hoje vi a notícia que anunciava a saída de um gestor português de topo, no próximo ano, do Lloyds Bank, em Inglaterra. A partir de 2008, durante a crise financeira, este banco sofreu grandes perdas, levando a que o estado inglês tivesse entrado no seu capital e injetado vinte e um mil milhões de libras. Sob a boa liderança desse português, seis anos depois o Lloyds Bank devolveu o total do valor ao estado e um adicional de novecentas mil libras, voltando a ser um banco privado. Estaria a aplaudir se o estado viesse a fazer o mesmo com a TAP, pois a sua missão não é gerir empresas de aviação, como não o é com bancos. E a que assistimos em relação ao BPN e ao Banco Espírito Santo? As injeções de capital foram reforçadas várias vezes, mas esse dinheiro dos contribuintes nunca foi nem será devolvido ao estado. Por incompetência? E à custa de quem? De nós, contribuintes. 

A TAP foi um sorvedouro de dinheiro e tudo indica que continuará a ser. Dizem que os mil e duzentos milhões de euros anunciados são só o início de uma injeção continuada e perdida para sempre (o próprio primeiro ministro já nos foi avisando para lhe dizermos adeus), como no Novo Banco, um buraco negro sem fundo que engole o dinheiro todo que lá se mete, sem devolver nada. Por isso lhe digo: “Não TAP os olhos, porque vamos todos pagar e voltar a pagar … já que não há dinheiro que o TAP” … 

Recebi hoje esta sugestão: “Com o investimento que os contribuintes portugueses fazem constantemente no Novo Banco, a ideia de tomar a maioria do capital ou nacionalizar a TAP fará sentido se a fundirem com aquele. E então, sim, haverá um grande slogan publicitário para pintar nos aviões, um argumento de peso para nos confortar: 

                NOVO AIR BANK – Porque o seu dinheiro voa”!!!

Curar um mal … e arranjar outro …

Algumas das recordações de criança e jovem adolescente que tenho prendem-se com as “mezinhas caseiras” com que o cidadão comum, especialmente as mulheres, tratavam algumas “maleitas”, doenças e indisposições. Era vulgar “talhar-se as dadas”, “coser o pulso” ou até “benzer um bijego”, comer hortelã com o caldo verde para combater as lombrigas e “levantar a espinhela” como me fez a minha avó no dia em que me queixei de uma dor “na boca do estômago”. Para aqueles que “bebessem acima da conta” ou “comessem até lhe chegar com o dedo”, o que quase só acontecia em almoços de casamentos – o “dia de tirar a barriga de misérias” –  mais hora menos minuto, o mal estar do estômago tornava-se insuportável. Era preciso aliviar a pressão na barriga e a forma mais comum de tirar o incómodo que isso ocasiona era provocar o chamado “vómito induzido”. Para isso, bastava “meter os dedos na goela” e, para a maioria das pessoas, funcionava de forma imediata. Dizem os técnicos que os dedos estimulam um nervo que percorre o pescoço e este, por puro reflexo, induz o vómito. Ainda vi isso em duas ocasiões com dois homens que comeram, comeram e comeram até não poder mais. Mas, como ainda não tinham saciado o seu desejo psicológico de comida, nesse tempo de difícil acesso, num canto do quintal esvaziaram o “depósito” naturalmente e, na verdade, depois de aliviados, voltaram ao repasto … e à luta. 

Confesso que nunca o consegui fazer, apesar de o ter tentado em dois momentos quando me parou a digestão. Acho que não sou capaz de chegar com os dedos ao ponto da goela onde está o tal “botão” que despoleta o vómito. Provavelmente engoli o meu “botão” e não tenho como o fazer ….

Entre os melhores tempos da minha vida estão sem dúvida os cerca de nove meses (e não foi para ter parto nenhum) que vivi em Angola, entre Luanda, Catete, Malange e a Baixa de Cassange. E foi por pouco que não me tornei um “retornado” … Depois de passar algum tempo em Malange em trabalho de campo, regressei a Luanda para efetuar algumas diligências no Instituto do Algodão de que dependia e fiquei alojado na Pensão Lusitânia, junto ao Mercado de S. Paulo, onde se hospedava também o meu colega Zé Teixeira e o amigo e conterrâneo Zé Duarte que ali estava a cumprir serviço militar. Um trio de Zés… Apesar de se comer bastante bem na Pensão, que servia sempre sopa, dois pratos e sobremesa com tudo à descrição, no final do jantar e sistematicamente, um de nós lançava o mote: “Vamos ao cinema”. E os três rumávamos em direção à casa de espetáculos mas, ao fim de dez ou vinte metros, também era certo e sabido que outro dava novo palpite: ”Sete escudos teus, sete escudos meus e sete escudos aqui do Zé, dão para muito camarão e muita cerveja. Vamos para a Baixa…” E o cinema passava à história dando lugar a uma noitada de cerveja e camarão numa esplanada no meio do jardim, ainda com o jantar por digerir… Loucuras de gente com pouco mais de vinte anos e, talvez por isso, com pouco menos juízo.

Alguns dias antes da data prevista para o embarque, durante o jantar disse aos dois: “No regresso ao continente vou levar uma coisa que não trouxe… “E o que é que vais levar”, perguntou um deles? “Uma grande constipação”, respondi. “Nem de propósito”, disse o Zé Duarte. “Tenho um remédio que te tira a constipação num instante. Mandaram-me de casa uma garrafa de aguardente e vai ser a tua cura”. E ficou logo ali combinado efetuar o “tratamento” depois de regressarmos da habitual ronda do camarão e cerveja. Assim, quando voltamos, vestimos os pijamas e sentámo-nos na cama. O Zé Duarte tirou a garrafa da mala, abriu-a e pô-la a girar, de mão em mão, de golada em golada. A conversa, intercalada com goles de aguardente, fez com que a garrafa chegasse ao fundo. Já preparados, fácil foi entrar na cama e adormecer. Porque será que foi tão fácil???…

Quando acordei na manhã seguinte, a constipação tinha desaparecido por completo, mas, em contrapartida, parecia que tinha o estômago a arder como se tivesse engolido fogo. Tive de me agarrar à barriga e apertar, para dar algum aconchego. Foi nessa figura que apareci no Instituto, com um ar sofredor e a segurar o estômago. Um dos funcionários ao ver-me naquele estado quis saber o que se passava e tive de lhe contar a história do dia anterior. Quando acabei, disse-me que tinha uma receita para resolver o problema “enquanto o diabo esfrega um olho”: “Duas aspirinas tomadas com uma Quick gelada (a Quick era uma espécie de Seven-up angolana). Mas, atenção, precisa ter a casa de banho por perto” …

Como estava atrapalhado e com aquele fogo que não parava de me queimar, não perdi tempo. Saí do Instituto, fui à farmácia comprar as aspirinas e entrei no café mais próximo. Antes de pedir a Quick, fui ver onde ficavam as casas de banho por precaução, pois não queria “chamar pelo Gregório” ali no meio do café. Depois, mal engoli os comprimidos com uns goles da Quick, fui andando para o WC. E ainda bem, pois já tive de correr para não “lançar a carga ao mar” antes de chegar ao lavatório… Na realidade, a lavagem foi rápida e completa. De tal forma que, minutos depois, já tomava o pequeno almoço ali mesmo no café, como se nenhum mau estar me tivesse afetado… 

Nunca mais estive em situação de precisar desta “receita milagrosa” e só sei o que o funcionário do Instituto me disse e o resultado da única vez que a pus em prática sendo eu a cobaia. Pela experiência vivida, resultou muito bem e recomendo-a a quem está indisposto por falta de controle nos comes e bebes ou por “algo que lhe caiu mal” e está a precisar de “deitar a carga ao mar”. É uma receita a ter em conta por ser fácil, rápida e eficaz. E não tem de pagar consulta …  

Vivemos fora de horas …

São duas da manhã. Estou com a televisão e o computador ligados e ora deito o olho a uma como o sentido ao outro. A Luísa, hipnotizada pelas imagens que passam na televisão, não olha para o lado. Paro e penso que, em criança, neste momento, já teria dormido, pelo menos, cinco horas. Eu e a família. Depois de brincar na rua e da minha mãe conversar com os vizinhos à porta de casa, às dez da noite já estava na cama. Aliás, no inverno ainda ia mais cedo. Não havia televisão. Só no quarto dos meus pais é que “morava” um rádio grande, mas já não era hora de ouvir a Emissora Nacional nem o Rádio Clube Português. E até a eletricidade (nas casas que a tinham) àquela hora baixava de potência, dando uma luz fraca e trémula, quando não ia abaixo de vez. Em muitas ocasiões, tínhamos de recorrer às velas ou então aos candeeiros a petróleo. Dormíamos em sintonia e ao ritmo do relógio natural, noites de sono profundo e repousantes. 

Assim foi anos a fio, até o pai trazer para casa uma caixa de cartão pesada e de grande dimensão, onde vinha essa inovação tecnológica, sonhada e desejada: um aparelho de televisão. Foi um momento de euforia para toda a família porque já não tínhamos de ir ao Café Avenida, em Lousada. Só não sabia nesse momento que a “fatura” a pagar viria depois. A partir de então, deixei de ter o sono em sintonia com a natureza e o relógio interno, sendo todos os dias retardado até ao final das transmissões. Nos primeiros tempos a programação terminava relativamente cedo, por volta das onze da noite e, por isso, nem se notava muito, apesar de ficarmos “agarrados” e de olhos fixos no ecrã para ver tudo, desde o telejornal aos programas de variedades, das noites de teatro (em direto) às “Charlas Linguísticas” e mesmo às “Conversas em Família” do Marcelo Caetano. A televisão dominava a nossa atenção de forma avassaladora. “Consumíamos” tudo. Até a publicidade, com anúncios mais ou menos originais. 

Mas, pouco a pouco, os horários foram-se alterando, no princípio alongados até à meia noite e uma da manhã, para descambarem nas atuais emissões contínuas com uma vasta e variada gama de canais, programas e tentações, que incentivam constantemente a que façamos parte das audiências, (quase) não nos deixando tempo para dormir. E para isso, inventam os programas mais incríveis, usando criatividade, originalidade e talento, às vezes até, estupidez e burrice. Porque vale tudo para conquistar a atenção de todos. E nós, acomodados no sofá, alinhamos (quase) sempre, se bem que alguns programas mais não são do que uma boa forma de nos chamar “idiotas”. Se antigamente as sessões ou noites de cinema na televisão começavam e terminavam entre as 21 e as 23 horas, hoje quase nunca se iniciam antes da meia noite, normalmente até bem mais tarde, para terminar às tantas da madrugada. Para quem gosta de cinema, é uma tentação enorme que se paga com uma noitada. 

E as consequências? É claro, transformaram-nos em “corujões” e os especialistas clínicos dizem que temos chances de morrer mais cedo do que os “madrugadores”. Tantas são as noitadas que, muitas vezes, sinto que “ando a tirar o curso de vampiro” …

Os seres humanos são animais diurnos desde o tempo das cavernas: trabalham de dia e descansam de noite. Daí que, aquilo a que alguns cientistas em linguagem simples chamam de “relógio biológico”, que existe em todos nós, faz com que ao acordarmos depois de uma boa noite de sono tenhamos mais energia e, quando desaparece o sol e a noite cai, tendemos a ter sono, o que vem de encontro ao facto do sono noturno ser o mais reparador. Afirma-se ser importante esse respeito pelo “relógio biológico”, pois há uma relação direta com o sol e a importância da quantidade de tempo que se passa sob a ação da luz natural. Dizem até que o nosso “relógio” foi feito para “conversar com ele …  

No entanto, com a evolução da sociedade, a natureza foi contrariada. Ao inventar a lâmpada elétrica, Thomas Edison mudou por completo a relação da espécie humana com a noite e o sono. Ao fazer da noite dia, trocou-nos os horários de sono e passamos a andar desajustados, porque continuamos programados para descansar de noite. É o que dá os muitos milhares de anos de evolução da espécie …

Mas, pela necessidade crescente de trabalhar e viver “fora de horas”, foi necessário refazer horários, alterando muitas vezes essa ordem natural, para ajustar as coisas por forma a que o “relógio biológico” fosse ficando em sintonia com o “relógio social”. E foi acontecendo gradualmente. A noite, que era quase só para descanso do homem, foi sendo aproveitada de forma contínua e continuada para trabalho, entretenimento, estudo e outras atividades do ser humano, fazendo com que este tenha, em função das suas atividades, ajustado o seu “relógio interno” ao seu “relógio social”. Assim, muitos de nós fomos “reprogramados” e passamos a estar divididos em três grupos: os madrugadores, os notívagos e os mistos (a maioria). 

Posso dizer que, nesse aspeto, fui feliz, por ter vivido ainda de acordo com o meu “relógio biológico”, deitando-me à hora que ele dizia ser de sono e acordando quando o determinava, em regra ao nascer o dia para usufruir o mais possível da luz solar. E, não tenhamos dúvidas, que as pessoas que (ainda) podem respeitar os seus ritmos internos, dormindo ou estando acordados, são mais felizes, se bem que já não há muita gente que se possa gabar disso. É que, quem comanda e dá “corda” ao nosso “relógio”, é (quase) sempre a sociedade.

Eu disse que “fui” feliz ao viver ao ritmo da natureza … quando era jovem. Mas esse ritmo foi sendo trocado sem que o meu organismo acompanhasse totalmente essa mudança. E hoje, mais que nunca, ao deitar-me diariamente entre a uma e as três da manhã por “força das circunstâncias”, sinto o meu velho “relógio” reclamar por não estar a viver em sintonia com ele, num “atraso” que chega a ser de horas. Se eu chegasse assim atrasado quando ia trabalhar e tinha patrão, não tenho dúvidas: era despedido. Por isso, já me convenci que um dia este “relógio biológico” cansa-se dos meus “atrasos” e vai mesmo despedir-me e “pôr-me no olho da rua” …   

Não conheces nem sabes? Não julgues

Não nascemos juízes nem somos juízes. Mas julgamos os outros sem os conhecer. Tal como não sendo réus, tantas vezes somos julgados por quem não nos conhece. Quando não, condenados. Já julguei quem não conhecia de lado nenhum, tal como já fui julgado por quem nunca me tinha visto. Está errado, mas é vulgar entre os seres humanos …

Agora que tem os filhos praticamente “arrumados”, a doutora Isabel, médica amiga, deu numa de fazer caminhadas. Sente-se bem com isso e os “médicos” recomendam, normalmente aos outros. Mas ela optou por dar o exemplo. Uma das últimas e mais marcantes caminhadas, foi como peregrina a Fátima, integrada num grupo numeroso onde as pessoas são tratadas pelo nome próprio, nada mais. Não há títulos, profissões, classes sociais. Fez-se à estrada e lá foi cumprindo o seu papel nessa longa viagem até à Capelinha das Aparições. Um dos elementos desse grande grupo era um jovem coberto de tatuagens sinistras, com cobras, dragões, caveiras e outras imagens radicais. As partes do corpo livres de pintura, só mesmo a cabeça e as mãos. Tudo o resto estava tatuado ao milímetro. Para além da “decoração”, usava “piercings” e “extensores” nas orelhas, que lhe deixavam abertos dois grandes buracos. “Tem um ar de vagabundo e drogado”, pensava ela. E ao longo do caminho evitou-o, imaginando o pior. Era alguém com quem não gostaria de se cruzar à noite…

No último dia e já na parte final da caminhada, desgastada e diante de uma longa e acentuada subida, parou e anunciou aos companheiros de viagem: “Para mim, acabou. Já não consigo subir isto”. E sentou-se. A notícia correu o grupo e o rapaz das tatuagens aproximou-se e disse em tom imperativo: “Não, agora que estás tão perto, não vais desistir. Vais conseguir como os outros, ainda que eu tenha de te levar às costas”. Ajudou-a a levantar-se e, com o auxílio de outro elemento do grupo, empurrou-a lentamente ladeira acima até alcançarem o alto. Ali chegados, ela agradeceu-lhe, mas ele declinou o agradecimento dizendo: “Já me agradeceste”. “Como é que eu te agradeci?”, quis ela saber. “Conseguindo chegar aqui”. A partir daí, compreendeu que se equivocara e julgara-o sem o conhecer. E quis “conhecê-lo”. Finalmente. Então, a surpresa ainda foi maior quando ele lhe disse que gostava muito de três coisas: Tatuagens, música “metálica” e… Deus. Sim, DEUS. Além de católico praticante, até era… catequista. Só então se apercebeu de quem ele realmente era, ao vê-lo na sua disponibilidade para os outros, na solidariedade, numa alegria sem limites. Errara por completo no juízo prévio que fizera, baseada somente no aspeto. Como todos nós erramos tantas vezes…

Em garoto alguém me disse para “não falar sem conhecer e não julgar sem saber”. Já adolescente, levei uma reprimenda, sendo aconselhado a “não falar, criticar ou fazer juízos prévios sem estar bem informado, para saber daquilo de que se fala e de poder ter opinião. Mas nunca o poder de julgar”. É um facto, porque não somos juízes e nem temos mandato. Vai-se enganar (quase) de certeza aquele que julga pela aparência, pelo nome, pela roupa ou porque sim. Mas existe em cada um de nós essa veia para o ser, uma tendência para condenar sem ouvir, discriminar sem pensar, em função de alguns estereótipos que criamos ou nos incutiram e condicionam. Em linguagem futebolística, temos o hábito de ser “treinadores de bancada” …. 

De autor desconhecido, não quero deixar de partilhar esta história:

“Eram dois vizinhos. Um deles comprou um coelho para os filhos. Os filhos do outro vizinho também quiseram um animal de estimação e os pais compraram-lhes um filhote de “pastor alemão”. Então, começou uma conversa entre os dois vizinhos: – Ele vai comer o meu coelho! – De jeito nenhum. O meu pastor é filhote. Vão crescer juntos e “fazer amizade”!!! E, parece que o dono do cão tinha razão. Cresceram juntos e tornaram-se amigos. Era normal ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa. E as crianças, felizes com os dois animais. Até que um dia o dono do coelho foi viajar no fim de semana com a família e não levou o coelho. No domingo à tarde, o dono do cachorro e a família lanchavam tranquilamente quando, de repente, entrou o pastor alemão com o coelho entre os dentes, imundo, sujo de terra e morto. O cão levou uma tremenda surra! Quase mataram o cachorro de tanto o agredirem. Dizia o homem: – O vizinho estava certo. Só podia dar nisto!

Mais algumas horas e os vizinhos iam chegar. E agora? Todos se olhavam. O cachorro, coitado, gania lá fora lambendo os ferimentos.   – Já pensaram como vão ficar as crianças? Não se sabe exatamente quem teve a ideia, mas parecia infalível: – Vamos lavar o coelho e deixá-lo limpinho. Depois vamos secá-lo com o secador e colocá-lo na sua casinha. E assim fizeram. Até perfume puseram no animalzinho. Ficou lindo. – Parecia vivo, diziam as crianças. Pouco depois, ouvem os vizinhos chegar e os gritos das crianças. – Descobriram! Ainda não tinham passado cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma. – O que foi? Que cara é essa? – O coelho, o coelho … – O que tem o coelho? – Morreu! – Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem. – Morreu na sexta-feira! – Na sexta-feira?!!! – Foi. Antes de viajarmos, as crianças enterraram-no no fundo do quintal. E, agora, ele reapareceu!!!

A história termina aqui. O que aconteceu depois fica à imaginação de cada um de nós. Mas a grande personagem desta história, sem dúvida alguma, é o cachorro. Imagine o coitado, desde sexta-feira a procurar em vão o seu amigo de infância. Depois de muito farejar, descobre o seu amigo coelho, morto e enterrado. O que faz ele? Provavelmente com o coração partido, desenterra o amigo e vai mostrá-lo aos seus donos, imaginando que o fizessem ressuscitar. E o ser humano fez o que fez? Continuando a julgar, sem saber, deu-lhe “porrada” …

Este (mau) hábito de nos precipitamos a tirar conclusões, costuma dar asneira, mas temos dificuldade em aprender, em aceitar que não o podemos nem devemos fazer. Histórias como esta aconselham-nos a pensar bem nas atitudes que tomamos. Porque, demasiadas vezes nos colocamos do lado errado …” 

Uma luta inglória. Ou talvez não…

O jovem autista teve um ataque de pânico. Agitado e descontrolado, batia com as mãos no peito e na cabeça. Porém, o seu cão envolveu-o, puxou-o com as patas fazendo com que se sentasse. E não o largou um segundo. Enrolados um no outro, lambendo-o e acariciando-o, pouco a pouco conseguiu fazer parar a crise, com os dois abraçados numa sintonia incrível. Fica a pergunta: “Este cão tem sentimentos”? Há dois meses que o João não ia a casa. Quando chegou, Pateta, o seu cão, correu para ele, saltou-lhe para o colo numa agitação frenética e lambeu-o no pescoço, na cara, em todo o lado, como que a desforrar-se do tempo de ausência. Fica a pergunta: “Este cão teve saudades? E gosta do dono”? Como estes, são inúmeros os momentos de cães e outros animais a revelarem em plenitude o medo, a tristeza, a alegria, o frio, o calor, a raiva, o amor e tantos outros estados de espírito. Ou não será bem assim? Quando a Becas espera pacientemente atrás da porta de vidro pela manhã até que eu apareça no corredor e entra em euforia quando a abro e lhe faço os mimos obrigatórios, será que não sente alguma coisa? Quando se deita aos meus pés, não está a sentir- se segura e protegida? Sempre que a Diana, a minha anterior cadela, se encostava a mim e roçava com a cabeça ou me chamava a atenção com a pata na minha perna como quem diz “estou aqui”, era sinal de quê? E sei bem que todos eles são animais tidos por “irracionais”!!! Não deixa de ser curioso e elucidativo que, burros e elefantes, podem sofrer depressões. Ora, para ficar deprimido não é preciso sentir e ter sentimentos? Em comparação, o pai de Valentina, a menina de 9 anos que morreu assassinada, é o quê? Um “animal racional”? A amostra de ser humano, capaz de matar a própria filha, aquilo que nenhum animal dito “irracional” faz? Terá “essa besta” sentimentos de amor paternal, bondade, compaixão e outros, tidos como exclusivos do ser humano? Onde guarda ele o sentimento de proteção dum filho que é devido a um pai, seja ele o “animal” que for? 

Não é preciso ser muito letrado para perceber que os animais não são coisas. São alguém. Como nós, têm medo, prazer, emoções. E sofrem, coisa que muita gente ainda não aceitou. Merecem ser tratados com respeito, até porque são capazes de nos entender. É nossa obrigação moral fazê-lo, com dignidade, garantindo o seu bem-estar. Fomos nós que os domesticamos e colocamos à nossa guarda. Por isso, cabe-nos a sua responsabilidade. E o que fazemos?

Avisaram a Associação Lousada Animal que um cão de grande porte se encontrava ferido no monte. Lançado o alerta, em pouco tempo os voluntários procuraram e localizaram o animal. Mas, ao encontrá-lo, o horror estampou-se nos seus rostos: no dorso traseiro, por cima do rabo, uma chaga feita de várias pústulas ocupando mais de 30 cm de diâmetro, com um intenso corrimento de pus com cheiro pestilento, onde medravam vermes, dava-lhe um aspeto horrível. Aquele animal estava num sofrimento tremendo e fugiu do voluntário, sinal de que temia os homens. Só se aproximou quando viu uma jovem, aceitou a segurança da sua proteção e acabou por repousar a cabeça nas suas pernas para receber mimos de que tanto carecia. Permanecera lá, no lugar onde o “seu dono” o abandonara e ali ficara à espera que viesse buscá-lo. Mas a sua fidelidade não teve recompensa, pois o seu dono traiu-o. Magro, esfomeado, sedento e doente, comeu e bebeu o que lhe ofereceram, retribuindo tudo com extrema docilidade. E agora? O caso era muito grave e a Associação precisava de meios que não tinha para tentar salvá-lo e libertá-lo do martírio. Para isso, lançou o apelo dramático nas redes sociais, expondo o horror a que a negligência de alguém deixou chegar o animal que, entretanto, seguira diretamente para a clínica, entregue aos cuidados do corpo técnico.     

A partir daí, os voluntários da Associação viveram numa roda viva de emoções, alimentada pela solidariedade expressa no contributo dos anónimos tocados com o drama e o sofrimento daquele cachorro que fez correr tantas lágrimas e pela esperança de conseguirem curá-lo e dar-lhe um lar onde pudesse sentir que o ser humano também tinha um lado bom. Na clínica a luta continuava. A desidratação e magreza extrema do “Menino” não ajudavam à recuperação, apesar de bem cuidado, posto a soro e medicado para conter a infeção. Fez análises, RX, ecografias e, logo que foi possível, citologia, TAC e biópsias, para se chegar a uma conclusão não desejada: o tumor era maligno. Ficou ainda uma interrogação: “E a possibilidade da intervenção cirúrgica para remover aquela massa”? Agora não podia ser, pois além de duas bactérias multirresistentes diagnosticadas na citologia, o seu estado físico piorara e o corpo definhara. Era o princípio do fim. Mas ficavam intactas a dedicação, empenho, disponibilidade e amor pelos animais do grupo de pessoas envolvidas, de uma generosidade incrível, além da onda de solidariedade dos cidadãos anónimos sensibilizados pelo drama deste cão, em cujo destino se centrou a atenção e ajudas de tanta gente, o que é um sinal de esperança no ser humano.

Mas os voluntários, apesar de impotentes para o salvarem, quiseram dar-lhe mais uns dias de vida, num gesto que surpreendeu o próprio corpo clínico, onde pudesse usufruir provavelmente do que nunca teve: companhia humana, guloseimas e mimos, na última recordação e se calhar única, da “humanidade” dos seres humanos. E, revezando-se, fizeram desses dias um tributo invulgar de dedicação, compaixão e amor por um animal maltratado, abandonado e traído pelo homem e que, seguramente, sofreu muito. Porque, e nunca o esqueçamos, os animais também sofrem … como nós …

A Teresa foi a voluntária da última caminhada, da última guloseima, dos últimos mimos, dos últimos minutos. E fez questão de o ser ainda do último suspiro, exalado no seu colo, num adormecer suave. É que, no momento final, os cães precisam de um carinho e procuram um rosto familiar. Como os humanos, não querem morrer sozinhos. E é precisa uma grande coragem e muito amor para estar ali, presente. Por isso, ninguém melhor que ela para assegurar que aquele animal sentiu muita dor, sofreu, teve medo, fome, sede, tristeza e carência afetiva. Como (quase) todos nós! Mas ainda foi muito amado por esse grupo de pessoas, que se entregou por completo, sem reservas nem condições. 

Uma luta inglória? Seguramente que não … porque sentiu tudo o que fizeram por ele. E agradeceu mais no silêncio e doçura do olhar, do que se o tivesse feito com mil palavras …

Como se alguém pudesse ainda ter dúvidas …

Trabalho de “todos e cada um” …

A provar que somos animais de hábitos, está o facto do confinamento me ter criado “habituação”, uma dependência como qualquer droga barata, mas viciante. É verdade. Agora quando tenho de ir à rua, não passo muito tempo sem me dar a vontade de regressar a casa, vestir as calças de ganga rotas (eu sei que estão na moda …) e uma T-shirt, calçar botas de cano alto e ir tratar no jardim/horta, para arranjar… uma dor de costas. É que eu faço batota no confinamento. Em vez de estar enfiado em casa como um eremita, “vou para fora, cá dentro” (como na publicidade que nos aconselha a fazer férias em Portugal) “dar cabo do canastro” e, estupidamente, fico feliz. Corro o risco de, se isto durar muito mais tempo, a habituação poder passar a “vício” e depois nem sequer querer sair à rua, muito menos ter de assumir responsabilidades lá fora. E, cá para nós que ninguém nos ouve, se calhar não perco nada. Se o novo coronavírus é um grande problema que não podemos ignorar nem esquecer, a verdade é que, através do confinamento, acabou por nos fazer refletir sobre a vida desenfreada que levamos e que há muito coisa importante que deixamos para trás no dia a dia da vida. Ora, nesta fase, houve tempo para dedicarmos à família, à leitura e à casa, nos conectarmos regularmente com aqueles de quem gostamos, além de tirar partido das curiosidades, anedotas e histórias sem fim que esta crise proporcionou, ajudando a amenizar o enorme problema sanitário, económico e social. 

Mas, pensando bem, quando houver uma vacina e isto acabar, vamos todos retomar a nossa vidinha, esquecer todas as reflexões sobre o consumismo, os problemas do degelo com o aquecimento global, as ilhas de plásticos e qualquer forma de poluição, o esgotamento dos recursos naturais, os desastres ecológicos, o stresse e a agitação do dia a dia. Voltaremos a “entrar de cabeça” na “vida antes do vírus” e seremos novamente “felizes” …

A questão do momento é o passo dado esta semana para o regresso à normalidade com a segunda fase do “desconfinamento”, palavra que não fazia parte do nosso vocabulário habitual, mas que passamos a conhecer desde que este vírus entrou nas nossas vidas, as virou de pernas para o ar e até nos obrigou a usar palavras novas. Abriram as creches, restaurantes, escolas e várias instituições e serviços, sendo certo que a preocupação é grande, porque é um processo de risco e, como tal, sujeito a recuos que ninguém deseja. Até o presidente da república, primeiro ministro e outras figuras da governação foram “almoçar fora”, num espetáculo desnecessário com a imprensa atrás, para nos mostrar que se come bem nalguns restaurantes da capital e que já se pode ir … vale a pena lá ir … se houver dinheiro para ir … 

É uma fase delicada, que exige responsabilidade de todos nós para não correr mal. É que não deixou de existir o risco de contágio e, por isso, podemos ter uma segunda onda de contágios que nos obrigue a “regressar a casa”, como em Singapura. O vírus não desapareceu por decreto, embora há quem acredite que sim. Relata a história que no caso da “gripe espanhola” ocorrido há cem anos, o grande desastre veio na segunda vaga, com a morte de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. O facilitismo de então foi tal que se chegou a criar a Liga Anti-máscara nos Estados Unidos para combater o seu uso e deu no que deu.

Se há quem tenha receio e tome precauções – muitos foram os pais que se recusaram a levar os filhos para a creche neste primeiro dia do pós-confinamento, com medo – também se encontra quem ache que tudo terminou e são horas de voltar a fazer a vida normal, numa “normalidade perigosa”. Hoje mesmo dizia-me uma senhora que entrou num café/restaurante de máscara e … teve de a tirar. Sentiu-se mal ao ver que, estando completamente cheio, ninguém usava e nem sequer mantinha qualquer “distanciamento”. “Parecia que estavam a festejar o fim da pandemia. Tomei o café e saí com medo”, disse ela.    

O segredo do sucesso desta fase está na responsabilidade de todos, o que parece não ser fácil. Haverá sempre riscos e temos de os correr, mas usando das cautelas e precauções aconselhadas, mesmo que por mais absurdas que possam parecer. Ao proteger-nos, estaremos a proteger também os outros. O texto que se segue, de autor anónimo, ajusta-se como uma luva ao momento presente: 

“Era uma vez quatro indivíduos que se chamavam TodosAlguémCada Um e Ninguém.

Havia um trabalho importante (o regresso à vida normal depois do tempo de confinamento em casa) que tinha de ser feito (com toda a segurança) e pediram a Todos para o executar. Todos tinha a certeza que Alguém o faria. E Cada Um poderia tê-lo feito, mas na realidade Ninguém o fez. Alguém se zangou pois era trabalho de TodosTodos pensaram que Cada Um poderia tê-lo feito e Ninguém tinha dúvidas que Alguém o ia fazer.

No fim de contas, Todos fizeram críticas a Cada Um porque Ninguém fez o que Alguém poderia ter feito.

Moral da história:

Sem querer recriminar a Todos, seria bom que Cada Um fizesse aquilo que deve fazer, sem alimentar a esperança de que Alguém vai fazê-lo em seu lugar …

A experiência mostra que lá onde se espera Alguém, geralmente não se encontra Ninguém”.

Hoje, todos somos chamados a fazer “o nosso trabalho”, que é “cuidar de proteger o outro”, com responsabilidade e segurança. E medo … como o fizeram muitos pais na abertura das creches. Se calhar, bem. Será preferível que se vá lentamente pois o processo é novo e tudo vai ser diferente. Nas creches, hospitais, restaurantes, praias e tudo o mais.

E é velho o ditado: “Mais vale devagar e bem que depressa e mal” … 

Faça uma lista de grandes amigos …

Gosto de música, uma terapia para os sentidos e um prazer que me provoca bem-estar. Gosto de músicas, embora não de todas, independentemente do gênero e estilo. Se há música clássica que ouço com prazer, há muitas que dispenso, o mesmo acontecendo com o jazz, blues, pop, rock e outras. Até com o folclore e música religiosa. Apesar de tudo, gosto sobretudo da música feita canção, com um bom texto, muito especialmente se tiver “mensagem”. Na maior parte dos casos, apesar da melodia ser agradável, a letra “não diz nada” e não passa de banalidades repetidas à exaustão. Daí que, apesar dos “ganchos” usados na letra para dar “ênfase” à canção, na maioria dos casos vale a composição musical e então é só usufruir dela, sem pensar. Muito raramente se conjuga uma harmonia musical boa com um texto inteligente, que também ele nos leve “na viagem”. Por tudo isso, eu como toda a gente, tenho as minhas canções preferidas, muitas delas já com décadas de caminho, porque são intemporais. Em quase todas é a harmonia da música que tem evidência e, em regra, fico indiferente à letra que nada acrescenta, tantas vezes em língua que nem entendo. Basta-me o som da melodia e as lembranças que a ela associo.

Há dias um amigo reencaminhou-me um vídeo, gravação de uma canção interpretada por dois cantores brasileiros de que nunca ouvira falar, de cabelos compridos já brancos. Música e letra são da autoria de um deles, Oswaldo Montenegro, lançada há mais de vinte anos e cantada nesta versão com Renato Teixeira. Uau!!! Que música e, sobretudo, que texto!!! Tocou-me de tal forma que já não sei dizer quantas vezes seguidas a ouvi!!! E quanto mais a ouvia, mais apetecia voltar a ouvir. A letra é fabulosa. Questiona-nos sobre a vida como nenhuma outra que conheça. E ao sentir as palavras numa melodia envolvente, com elas também viajei na minha história de vida, dos afetos presentes e passados, pessoas, sonhos de que desisti, convicções que deixaram de ser, certezas que já eram, princípios ignorados e contradições. Mas aquilo que a torna espantosa, é como foi possível em apenas seis quadras (já que as duas últimas são uma repetição) conseguir resumir um leque de questões essenciais da nossa vida, que são transversais a todos, apesar das nossas diferenças!!! 

O título da música é “A Lista” e vale a pena “saborear” o texto e aprofundar todo o sentido da letra, porque ela desenterra-nos o passado, os desvios da estrada, os erros e fracassos. Mas será preferível, para acompanhar a leitura, ouvi-la com a música, de preferência na versão interpretada pelos dois músicos referidos e que pode ser encontrada com facilidade na internet. Aí vai a letra:       

“Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás … Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?

Faça uma lista dos sonhos que tinha … Quantos você desistiu de sonhar? Quantos amores jurados pra sempre … Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora? Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava, quantos você conseguiu entender? Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava, quantas você teve que cometer? Quantos defeitos sanados com o tempo, era o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver? Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?

Faça uma lista de grandes amigos … quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia … quantos você já não encontra mais.

Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber … Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?”

Esta música é oportuna para este período de “confinamento”, que pode muitíssimo bem ser de recolhimento, reflexão e introspeção. De forma clara e intencional, o autor faz apelo às lembranças de cada um de nós, numa “romagem” ao passado, e desafia-nos a ter a coragem de fazer uma Lista sobre vários aspetos do que foi a nossa vida tendo como ponto de partida há dez anos atrás, como podia ser de há vinte, trinta, quarenta ou cinquenta, e completá-la com a situação no momento presente. Questiona-nos sobre os relacionamentos, dos amores aos amigos, sobre os sonhos que sonhamos e dos que desistimos e o quanto nos pode ter afetado e, por tal, se nos revemos na imagem de agora no espelho ou na foto de outrora. De forma inteligente, faz-nos perceber que coisas havia a que dávamos muita importância e de que hoje “ninguém quer saber”, tal como aquilo que condenávamos por questões de princípio acabamos por cometer em função das contingências da vida.

Mas o mais extraordinário da música é que ela nos faz “viajar” no tempo, transportados nas asas da letra com o acompanhamento de uma melodia suave e muito bem interpretada, através desse passado que se faz presente. E percebemos o quanto mudamos, desistimos, esquecemos, perdemos e deixamos para trás, como humanos que somos …    

“Vamos (quase) todos ficar bem” …

Estou farto. Já não tenho pachorra para ouvir e ver os telejornais a falarem do “novo corona vírus”. É dose a mais. O assunto é grave? É, muito grave mesmo. E as consequências sanitárias e económicas vão ser de tal dimensão, que ninguém as consegue calcular. Nem mesmo os “adivinhadores” que nos vão atirando com projeções, estimativas, cálculos e todo o tipo de números, mas não passam disso. É certo que alguém vai acertar nas previsões, da mesma forma que “um relógio parado está sempre certo duas vezes ao dia”. Precisamos de notícias sobre a pandemia? Com certeza, mas não temos de assistir todos os dias a um noticiário onde, do princípio ao fim, não se fala de outra coisa. É a contabilidade dos infetados do dia e os totais, os mortos do dia e os totais, os hospitalizados do dia e os totais, os recuperados do dia e os totais, quando não vão ao pormenor por concelho ou ainda mais especificamente. Depois são os comentários dos especialistas mais variados, todos com voto na matéria: virologistas, matemáticos, infecciologistas, pneumologistas, investigadores e psicólogos, sempre acompanhados de muitos números, gráficos com curvas ascendentes e descendentes, picos, vales e planaltos. E as suas opiniões técnicas, muitas vezes discordantes entre si e até com a opinião oficial. E as estatísticas, nacionais e por regiões, mas onde os mais velhos têm “protagonismo”, a começar pelos utentes dos Lares. Só os “estragos” que essas notícias demasiado incisivas e pormenorizadas fazem a esse grupo etário, vivendo em instituições ou em suas casas, é caso para dizer, “basta, haja moderação”. O massacre noticioso acerca deles como maior grupo de risco tem-lhes provocado consequências psicológicas graves, como medos, confusões, ansiedade e stress, que os leva a achar mesmo que “já não têm chances de continuar a viver e que o coronavírus é a sua sentença de morte”. Como ficarão ao saber que, se morrerem com o Covid-19, não terão sequer a oportunidade de se despedirem da família, nem esta deles, e serão enfiados num saco com o letreiro de “contagioso”, que só os deixará de acompanhar se forem cremados? E já nem falo na “volta ao mundo” das notícias sobre o mesmo tema, de Espanha a Inglaterra, dos Estados Unidos ao Brasil …

Tenho de confessar que, ao fim de algumas semanas a ouvir noticiar, dia após dia, que “já há mais 252 infetados e 25 mortos”, “foram 28 os mortos nas últimas 24 horas” ou “subiu para 32” … não tenho reação. De certo modo, tornei-me insensível. Ouço falar de mortos aqui, nesta terra a que pertenço, mas parece-me que não é comigo. Só quando eu ouvir o nome de alguém que conheça possa acordar deste transe que me deixa alheado do que se passa. E não é só comigo, pois já falei com alguns amigos e estão igualmente apáticos. O Abel até dizia “que Deus me perdoe, mas ouvir falar de mais mortos ou de nada, é igual. Já não sinto, estou anestesiado”. Os mortos tornaram-se uma banalidade nas estatísticas diárias dos comunicados oficiais, embora nunca o sejam para os familiares e amigos de cada um deles, numa dor redobrada e ainda mais triste por não haver lugar a despedidas, homenagens ou tão só, velar o corpo …

Mas as conferências de imprensa das autoridades sanitárias, ou seja, do governo, onde pontificam a ministra da saúde, a diretora geral de saúde e um secretário de estado, são mais do mesmo. Todos os dias. Será por castigo? Percebo que a imprensa queira esses comunicados, perguntas e respostas e todas as pequenas questões à volta do tema. Mas não havia necessidade de ser em direto, pois os jornalistas são suficientemente inteligentes para nos fazerem a súmula daquilo que interessa e livrarem-nos da “seca”. Porque é uma grande “seca” … 

Mais do que explorar noticiosamente a pandemia, seria importante que as autoridades divulgassem orientações claras e precisas sobre o uso dos equipamentos de proteção individual, como as máscaras e os desinfetantes, para que tenham verdadeira utilidade. E estou a ver as imagens daquele homem a querer desinfetar as mãos usando para o efeito o extintor pendurado na parede …   

Apesar de todas as contradições, avanços e recuos do governo e seus mandatários, a coisa até tem corrido relativamente bem e muito se deve ao comportamento da população que respondeu positivamente ao isolamento social, salvo raras exceções. Mas tem faltado uma voz de comando única que não ande para trás e para a frente, seja isenta, faça com que as leis sejam iguais para todos e as regras não sejam meros conselhos, que tanto podem ser verdade como não o ser. Como é que num “estado de emergência”, em que não pudemos estar em grupo, impedidos de participar no funeral até de quem nos é muito próximo, de participar numa missa ou outra cerimónia religiosa, de assistir a um espetáculo ou qualquer ajuntamento social, os poderes instituídos se permitem subverter as regras e celebrarem o 25 de Abril ou deixar-se subjugar à CGTP e ao PCP, ao arrepio do “estado de emergência”, permitindo-lhes a manifestação do 1º. de Maio, como se estivessem acima da lei? Será mais importante essa manifestação ou a cerimónia de despedida de alguém que amamos e não voltaremos a ver mais? Porque se permite a primeira e se recusa a segunda sem justificação credível? De tal forma se “meteu a pata na poça” que, depois de dizerem que não havia lugar às celebrações de Maio em Fátima, agora dá-se o dito por não dito, recua-se e até parece que já são possíveis!!! Bem melhor estiveram os responsáveis religiosos. “Surpreendidos” com o recuo e agora abertura do governo, decidiram manter as Celebrações, sem peregrinos no local. Chama-se a isso, coerência e responsabilidade …

As contradições da diretora da DGS a propósito do uso das máscaras mereceram forte discordância da classe médica, pois começou por dizer que não serviam para nada, só os contagiados deviam usar por puro “altruísmo” com os outros. Só os resultados do seu uso noutros países e as pressões da classe médica fizeram mudar o discurso, com avanços, recuos e contradições. Isso mereceu críticas, caricaturas e comentários jocosos, como a mensagem seguinte: “as máscaras não servem para nada, mas até servem. Se puderes, usa-as. Mas, se calhar, não é nada preciso, porque só servem se estiveres contagiado. Mas podes estar contagiado e não saber. Por isso, será melhor usar. Não tens? Então não uses” … Veja-se que uma norma da DGS diz que “as máscaras cirúrgicas não protegem quem as usa” e, ao mesmo tempo, aconselha a quem está frágil a usá-las!!!   

Mas, toca a ter esperança e a acreditar nas frases de motivação que mais ouvimos, vemos e lemos neste tempo difícil, em especial nesta: “vamos todos ficar bem”. Acredito que isso venha a acontecer, mais dia, menos dia, mais ano, menos ano. Mas, por muito que me custe dizê-lo, “já não seremos todos” …