As promessas para “encaixilhar” …

Quando o relógio universal empurrou “borda fora” o 31 de Dezembro para dar lugar ao 1 de Janeiro de um novo ano, a tradição e, vamos lá, um certo misticismo e superstição, fez com que se comessem as doze passas e se formulassem desejos e promessas para o 2021 que nascia carregado de incertezas e medos por uma pandemia teimosa que não dá tréguas. Mas a virada faz com que muita gente encare o novo ano como uma oportunidade de realizar os desejos que há muito espera que aconteçam, à mistura com outros novos que o momento exige. “É este ano que vou para o ginásio fazer exercício físico regularmente; tenho de começar já em Janeiro a dieta para emagrecer; este ano vou viajar mais e ficar menos stressado; vou voltar a estudar; vou ter de ser mais organizado e paciente; quero cuidar da minha saúde, comer melhor e tirar tempo para o meu hobby”. São inúmeras as promessas de uma vida melhor e mais equilibrada, as manifestações sonhadas de que tudo será fácil depois do bater das doze badaladas, como se no dia seguinte as pessoas tivessem mudado radicalmente e as muitas dificuldades desaparecessem por encanto. Mas se a força de vontade fosse tão grande quanto o tamanho do rol das promessas e desejos que cada um de nós faz a si mesmo, a taxa de sucesso certamente era bem maior do que aquela que vai acontecer à maioria. Porque é fácil prometer, sobretudo com uma taça de vinho ou champanhe na mão, e não estou a dizer que os “vapores da bebida” tenham influência nessa lista, seguramente bem-intencionada, mas muito pouco segura …

As promessas de Ano Novo que por regra fazemos a nós próprios não passam de um falso compromisso, como que uma mentira que vamos contando todos os anos para, “supostamente”, ficarmos convencidos de que as coisas vão mudar, ainda que por magia e sem esforço, o que nunca dá bom resultado. De facto, funcionam como uma carícia para a alma, mas que não passarão a ser realidade sem esforço, o que não deixa de ser importante porque os sonhos e desejos são um bálsamo para a nossa saúde mental. É que todos nós precisamos de encontrar um escape, um alívio, mesmo que não se perceba.

Gostamos do Ano Novo que desejamos sem perceber que desistimos do velho e não lembramos que no final de 2020 também festejamos, esperamos e recebemos o 2021 muito empolgados. E o que mudou? Nada! Continuamos os mesmos. Continuamos a fazer promessas sem agir para que as do ano passado se cumpram. Insistimos em esperar muito e fazer pouco ou nada. Teimamos em fazer da vida um desenho de algo que desejamos. Só. Ficamos pelo: “Um dia faço; amanhã vou”. Se é para viver, que seja fazendo e não prometendo.

Ouvimos muito dizer “é tão difícil fazer promessas de Ano Novo por estarmos no meio duma pandemia que não sabemos quando acaba”. Mas é caso para perguntar: “Não é sempre assim? Não é verdade que ao passar de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de qualquer ano, não muda rigorosamente nada? Adianta fazer promessas se não as vamos cumprir, com ou sem pandemia? Serve de alguma coisa dizer que se vai fazer exercício se não se levanta o cu da cadeira para o que quer que seja? Tal como acontece com muitas leis tidas por inúteis, essas promessas de fim de ano são meramente para “encaixilhar” e valem o que valem no meio do barulho do fogo de artifício, dos copos cheios e vazios, do calor e alegria da festa. E ninguém cobra o incumprimento. Se nem aos políticos o fazem!!!

Quando este ano expliquei à minha mãe que não iríamos jantar a casa do meu filho na passagem de ano porque ao todo seríamos mais de uma dezena de pessoas e nós deveríamos dar o exemplo em vez de passar a vida a criticar os outros, ela respondeu-me: “É só mais um jantar como num outro dia qualquer. E olha meu filho, há mais marés que marinheiros” … 

A Teresa escreveu um pequeno texto sobre o momento da mudança de ano, numa visão muito própria e com a qualidade da escrita que lhe é usual. Para fechar esta crónica, aqui a transcrevo com a devida vénia: 

Numa contagem decrescente, percorreram-se-me as imagens que não desejo ver repetidas e no mesmo tempo real senti a vibração dos bons momentos vividos neste ano que findou.

Brindou-se então ao Ano Novo e no interior dos pensamentos segredaram-se os votos e os desejos para um 2022 mais feliz, mais justo, sei lá …

Na realidade, não existe um fosso ou uma barreira a separar anos, existe apenas a alteração de mais um número, um número!

Importa continuar o caminho que se nos apresenta tantas vezes penoso e outras tantas fluído. É isto o que chamo de “caminhada de pinguim”, a adorável forma do marchar bamboleante de um pinguim que, a cada passo que dá, imagina-se a queda iminente que não acontece, ou seja, na realidade é uma caminhada harmoniosa e isso implica os perigos e as virtudes, as tristezas e as belezas do trilho da vida de cada um.

Nesta passagem de ano, voltou-se a contar e descontar desejos e ensejos e, depois dos brindes e sorvos generosos, ouviram-se os fogos-de-artifício lá fora. Nos jardins juntaram-se os sorrisos e olhares aos coloridos que crepitavam no céu escuro. Não vi. O meu colo foi mais importante para segurar o medo da Nina desses artifícios explosivos que lhe fazem despontar um batimento cardíaco indevidamente acelerado. Ficamos ali, a dançar a música que escolhi para nós” …

Sejamos dignos de ser seus donos …

No meu escritório há sempre um animal de estimação acolhido pela Teresa a passear-se entre a mobília e as tralhas ou a dormir no ninho. Desta feita é um gato, o “Mia”, que se rebola no chão quando alguém entra, talvez a querer conquistar-lhe o coração para o adotar e salta para o meu colo mal me sento na cadeira. Hoje quando brincava com ele, esticou a pata e as unhas riscaram-me ligeiramente a cara. Será que devia levar umas sapatadas ou duas vassouradas para aprender? Ou merecia mais? Refiro-me a mim, que o provoquei e ele reagiu … Cães e gatos foram retirados da natureza e tornaram-se totalmente dependentes dos humanos. Compramos alimentos e medicamentos, tratamos-lhes da saúde e higiene, decidimos qual os momentos de brincar ou passear e todas as regras da casa. Por isso, temos de ter a consciência que conviver com um animal de estimação custa caro e dá trabalho. Uns e outros precisam de rações especiais, objetos para brincar, distrair-se e descansar, consultas veterinárias regulares e os banhos necessários. Não têm de ser tratados como filhos, mas como companhias de casa e da vida. Exigem ter disponibilidade, atenção e afeto, ao partilharem a vida com os homens. Não são objetos, ocupam muito espaço e dão trabalho. E são seres vivos que têm direito à vida, à integridade física e a ser bem tratados pelo seu dono, sendo que a lei até já prevê pena de prisão ou multa para quem não o faça. Infelizmente, ainda há muitas pessoas que lhes atribuem o estatuto de “coisas” e acham-se com o direito de os maltratar, abandonar ou matar como se não estivessem a praticar um crime. Mas estão …

A Teresa adotou há anos uma cadelinha e ainda hoje, sempre que vê uma vassoura por perto foge e esconde-se num qualquer recanto. Porquê? Porque os seus primeiros donos a adotaram por impulso era ela ainda bebé. Sempre que saíam do apartamento para as suas vidas, prendiam-na numa pequena arrecadação onde ficava horas e horas seguidas, fechada e só. Como seria natural, quando os donos do cão chegavam a casa encontravam a arrecadação suja com urina e dejetos já que o pequeno animal não tinha como não o fazer ali. Para despejar a sua raiva, aquela gente batia no pequenino animal com a vassoura. Ao adotá-la, a Teresa acabaria por a libertar desse inferno, embora ainda mantenha o trauma da vassoura pelo seu significado, apesar de ser acarinhada pelos novos donos que lhe deram uma vida “digna de cão”, tendo ela retribuído em companhia, fidelidade e amor. 

Eu pensava que já tinha visto de tudo, tanto para o bem como para o mal, mas estava muito enganado. E de que maneira. Se o ser humano é capaz de realizar grandes ações que nos sensibilizam e comovem, não deixa também de cometer maldades que julgava impensáveis no século XXI, reveladoras de mentes maquiavélicas, sádicas e doentias. Pensando bem, nós não conhecemos realmente as pessoas, porque o ser humano é o mais imprevisível dos animais. Mahatma Gandhi dizia que “a grandeza de um país e o seu progresso podem ser medidos pela maneira como trata os seus animais”. E, se olharmos como uma boa parte da nossa sociedade os trata, temos montes de razões para não acreditar na bondade humana … 

Aquela família já conhecia de vista o cachorro traçado de Labrador, com 4 a 5 meses que andava a deambular perto de casa. Porém, o animal era esquivo e só quando ficou sem forças o filho conseguiu aproximar-se e agarrá-lo. Puderam então ver a violência do que lhe haviam feito. Ao pegá-lo no colo ele gania de dor e sofrimento porque o pobre coitado estava esquelético, cravejado de pulgas e carraças e sem forças. O mais grave viram-no já no veterinário, ao observarem a brutalidade dos danos provocados por uma “besta humana” qualquer que torturara o cão indefeso de forma inimaginável. 

Num requinte de malvadez, começou por fazer do corpo do cachorro um cinzeiro onde apagou dúzas de vezes o cigarro deixando-o coberto de queimaduras, num ritual que ultrapassa todos os limites do racional. Esse monstro permitiu-se fazer-lhe uma fiada de queimaduras do alto da cabeça até à ponta do focinho, numa tatuagem gravada a fogo que não lembraria ao diabo, para além das muitas outras espalhadas em todo o corpo. E, ainda não satisfeito com tudo isso, regou o animal com um líquido inflamável, talvez gasolina, e chegou-lhe fogo, abandonando-o para ser consumido pelas chamas de um crime abominável. Por sorte, o fogo só lhe queimou parte das costas até ao rabo. Até custava ver e acreditar que alguém que se diz um ser humano descesse a um nível moral tão baixo. Só uma mente amoral, isto é, sem qualquer sinal de moralidade, seria capaz de um ato tão bárbaro. E para uma “besta” destas sentir minimamente a extensão do sofrimento que o seu ato causou ao cão, só podia haver uma pena: receber como “pagamento” em dobro tudo o que fez àquele animal inocente …

A família que resgatou o animal assegurou-lhe cuidados sanitários e acolheu-o em casa para uma recuperação de 6 meses, embora o cão nunca se tenha conseguido livrar dos traumas da maldade humana. Sendo a intenção cuidar dele até estar em condições de ser adotado, após a recuperação não foram capazes de o deixar ir e adotaram-no, pois Gipsy (o nome que lhe deram) conquistou o coração dos seus salvadores e integrou aquela família a quem retribui em dedicação e fidelidade, apesar de não ter voltado a ir à rua nem sequer sair do portão da casa, que passou a ser o seu refúgio e porto de abrigo. 

Está provado que os animais sentem medo, dor, sofrimento, emoções positivas, prazer e até vergonha, além de outros sentimentos. Não são coisas e, tal como nós, querem viver bem. São dotados de consciência e inteligência e capazes de vivenciar experiências que, até há pouco tempo, eram consideradas exclusivas dos seres humanos. Mais ainda, por força da lei, finalmente, já têm direitos e estão protegidos (se a lei não for daquelas que é só para encaixilhar). Mas sozinhos não podem fazer valer os seus direitos e interesses, cabendo assim aos humanos encontrar respostas às muitas questões que surgem quanto aos seus direitos e o mesmo é dizer, a cada um de nós assumir a sua defesa. Só assim poderemos continuar a evoluir como sociedade no respeito uns pelos outros, inclusive pelos nossos animais de estimação.         Ou então, não seremos dignos de ser seus donos … 

Ao encontro do verdadeiro espírito de Natal …

Máscaras, vacinas, confinamentos, distanciamento social, isolamento e perda de pessoas que amamos fazem deste 2021 um segundo ano difícil e desafiador para todos nós, adultos e crianças. Chegados aqui já perto do final de ano e num momento tão especial, seremos nós capazes de recuperar e manter o espírito de Natal, as suas tradições e nossas memórias do reencontro familiar, da alegria do convívio com os entes queridos, numa partilha de sentimentos e emoções? Cabe a todos e cada um de nós fazer tudo, mas mesmo tudo, para preservar aquela que é, provavelmente, a data mais universal da humanidade e, muito especialmente, do mundo ocidental. 

Natal é tempo de dar primazia à família sobre o trabalho, da partilha sobre o egoísmo, do amor sobre o ódio. É altura de dar expressão a valores como a gratidão, bondade, amizade e amor. É a oportunidade de agradecer tudo o que temos em vez de reclamar pelo que nos falta. Fazer sentir “ao outro” que nos importamos com “ele”. E, quem sabe, se vamos ter neste Natal mais motivos para comemorar e agradecer por estar com aqueles que realmente fazem parte da nossa vida. 

Charles Dickens escreveu que “o Natal é um tempo de benevolência, perdão, generosidade e alegria. A única época no calendário do ano, em que homens e mulheres parecem abrir livremente os corações de comum acordo”.

Há uma realidade que não podemos ignorar nestes nossos dias, fruto de um marketing e publicidade arrasadores: o Natal está demasiado capturado pelo materialismo e consumismo desenfreados capazes de fazer esquecer a muita gente a verdadeira mensagem e significado do Natal. Desde bem cedo as crianças aprendem a conhecer o velho de barbas brancas e fatiota vermelha e a árvore enfeitada de luzinhas e bonecos aos quais associam a visão de prendas, sejam brinquedos ou outras atrações infantis, além da “ideia” de Natal. E crescem, passam a adolescência e tornam-se adultos quase sem que os pais (católicos) lhes ensinem quem é o verdadeiro protagonista do Natal e qual o seu significado, hoje relegado para plano secundário pelos “produtos de marketing” que o mercado criou e vende em grande, à boleia de um “Menino nas palhas deitado” feito mensagem de amor. É certo que há Natal no palácio entre fogo de artifício, vestidos de seda e de prendas caras, nem sempre bem apreciadas. É Natal na casinha mais modesta, onde a mãe coloca em cada meia uma pequena lembrança. É Natal na avenida com o comércio a abarrotar de gente, tal como nos caminhos rurais enlameados. Mas o mais querido e verdadeiro está em cada um de nós, na consideração e bondade, na esperança renascida de novo para a paz e entendimento entre os homens e as nações, no calor que envolve o coração das pessoas, na generosidade de partilhá-la com os outros e a vontade de seguir em frente. E, sobretudo, no que somos capazes de fazer por alguém, mesmo que da forma mais simples.

Eu gosto muito da história real de Jack Canfield por ser um excelente exemplo de como encontrar o espírito natalício, naquilo a que chama com propriedade “o envelope na árvore”.

“É somente um pequeno envelope branco pendurado na árvore de Natal, sem nome, sem identificação, sem dizeres. Esconde-se entre os galhos da árvore há cerca de dez anos e tudo começou porque o seu marido Mike odiava o Natal, não o verdadeiro sentido de Natal, mas a mercantilização da data: gastos excessivos, compra de inutilidades, a corrida frenética de última hora para comprar uma gravata para o tio Harry, o talco da avó, os presentes dados com ansiedade desesperada por não terem pensado em nada melhor. Sabendo como ele detestava esse consumismo inútil, um ano pôs de lado as tradicionais camisas, casacos, gravatas e coisas do gênero e procurou algo especial só para o Mike. A inspiração veio de forma invulgar. O filho Kevin, de 12 anos, fazia parte da equipa de luta livre da sua escola. Pouco antes do Natal, houve um torneio contra uma equipa patrocinada por uma igreja da zona pobre da cidade, a sua maioria formada por negros que usavam tênis muito velhos em contraste com os tênis especiais e uniformes azuis novinhos em folha da equipa do filho. Quando o jogo começou, Jack ficou preocupada ao ver que os miúdos da outra equipa estavam a lutar sem o capacete de segurança para proteção dos ouvidos, um luxo a que os “pés-descalços” não se podiam dar. No final, a equipa da escola de Kevin ganhou em todas as categorias, apesar do empenho demonstrado pelos derrotados. Mike ficou triste por eles não terem vencido pelo menos uma vez para manterem o ânimo e manifestou à mulher a sua preocupação pela desilusão das crianças, pois tinha sido técnico de muitas delas. Foi aí que Jack teve a ideia para o presente dele. Nessa tarde foi a uma loja de artigos desportivos e comprou capacetes de proteção e tênis especiais que enviou, sem se identificar, à igreja que patrocinava a equipa adversária e, na véspera de Natal, colocou um envelope na árvore com um bilhete dentro, contando a Mike o que tinha feito e que esse era o seu presente para ele. Quando leu a mensagem de Jack, o rosto de Mike iluminou-se com o mais belo sorriso pela generosidade da sua mulher, enquanto as lágrimas saíam sorrateiramente dos olhos. Nos anos seguintes, a cada Natal Jack fez da dádiva uma tradição como prenda natalícia do marido: comprou bilhetes para o jogo de futebol que enviou a um grupo de jovens com problemas mentais; noutra vez enviou um cheque para dois irmãos que tinham perdido a casa num incêndio na semana antes do Natal; e em outros anos ajudou mais pessoas que precisavam. O tal envelope passou a ser o momento alto do Natal daquela família. Era sempre o último presente a ser aberto na manhã do dia de Natal. Os filhos já deixavam de lado os seus brinquedos e esperam ansiosamente que o pai tirasse o envelope da árvore e revelasse o que havia dentro. As crianças foram crescendo, os brinquedos foram sendo substituídos por presentes para a sua idade, mas o envelope nunca perdeu o seu encanto. Porém, um dia o pai Mike perdeu a luta contra um cancro, deixando Jack e os três filhos de repente. Quando chegou o Natal ela ainda fazia o luto e mal conseguiu montar a árvore. Mas, na véspera de Natal, não deixou de colocar o tradicional envelope na árvore. Qual não foi a sua surpresa quando ao outro dia encontrou mais três envelopes pendurados na árvore. Cada um dos filhos, sem os outros saber, tinha colocado um envelope na árvore com a sua prenda para o pai que, estando longe, estava sempre presente” … Como ela disse, “vamos todos lembrar Jesus, que é o motivo desta comemoração e o verdadeiro espírito de Natal, este ano e sempre” …

Entre ser rico ou feliz, o que escolhia?

O desejo principal da maioria das pessoas é ser rico e famoso. É por isso que passamos a maior parte do nosso tempo útil a trabalhar, se bem que o tenhamos de fazer para sobreviver. No entanto, deixamos que nos impinjam montes de bens sem os quais viveríamos melhor, porque não nos damos ao trabalho de parar para ver e reconhecer que não passam de inutilidades e que nos obrigam a trabalhar mais para as comprar. E sonhamos ser muito ricos e ter muito dinheiro para comprar e comprar coisas de que tantas vezes nem usufruímos e que acabam por ficar encostadas, pois a “felicidade estará sempre naquilo que ainda não temos”. Quantos da minha geração e seguinte se iludiram ao construir casas enormes com todas as modernices da moda e que hoje se confessam arrependidos ao verem-se sozinhos num casarão porque os filhos se foram, sem conforto, de manutenção cara e insustentável para a qual têm de consumir “tempo de vida”, já que dinheiro é “tempo de vida a trabalhar”. Todos dizem o mesmo: “Foi uma estupidez”. No entanto continuamos a educar os filhos para “serem ricos, em vez de os educar para serem felizes”.  

Costumo dizer que “não nascemos para trabalhar, mas sim para viver e, sobretudo, para ser felizes”. O trabalho é só uma necessidade, mas não pode ser o objetivo. No entanto, confundimos demasiadas vezes trabalhar com viver. Será que vivemos em pleno? E seremos felizes? Não me parece ser essa a regra, porque viver é um dom dos que, além de respirar, sabem aproveitar a vida. E não são a maioria …

Hoje encontrei um amigo de longa data, um pouco mais velho do que eu a quem a doença roubou a companheira. Toda a vida foi homem de trabalho e construiu a situação económica que lhe permite viver o resto dos seus dias sem grandes preocupações. Mas manifestou-me a mágoa de se ver abandonado pelos filhos de quem não recebe visitas nem afeto. E um grande arrependimento por ter passado a vida quase só a trabalhar, sem férias, sem lazer e sem chegar a viver de verdade. “Se pudesse voltar atrás teria feito tudo de forma diferente porque o dinheiro, afinal, não é tudo. Vivi a vida pela metade”, concluiu ele. O meu amigo “Joaquim” acordou muito tarde. Quando agora quer gozar “a viagem”, merecidamente, já não tem saúde nem companhia …

Lembro-me muitas vezes do “Canica”, já ele homem quando eu ainda era criança e com quem me cruzava muitas vezes. Só lhe conhecia o apelido e, pelo que me diziam, era pobre e com vários filhos quando ser pobre queria dizer isso mesmo. Sempre o vi alegre, entusiasmado e com ar de quem vende felicidade, ainda que a vida não lhe deva ter dado razões para a ter. Mas tinha. Deixou uma lição que Ana M. Braga traduziu em poucas palavras: “Não espere ter tudo para aproveitar a vida, se você já tem a vida para aproveitar tudo”. Até porque “o maior sucesso na vida é ser feliz”. Aliás, é um direito que todos temos.

Há dias num concurso televisivo, uma mulher de 30 anos apresentou-se para cantar e mostrar o seu talento. Muito magra, mas com olhos brilhantes e um enorme sorriso, quando lhe perguntaram o que fazia na vida, respondeu que há três anos vivia a combater um cancro que já se estendera a vários órgãos do corpo. A seguir cantou e encantou a todos com uma música da sua autoria alusiva à sua história de vida que fez levantar o público e o júri. Depois dos comentários de quatro jurados soube-se que ela já só tinha 2% de probabilidades de viver: “2% é melhor que 0%” argumentou, com um sorriso convicto de que esses 2% valiam muito. Quando lhe perguntaram pela razão de estar ali, disse: “Não podemos esperar que a vida deixe de ser difícil para decidirmos ser felizes”. As suas palavras calaram o público, deixaram os jurados sem palavras e são uma lição para todos nós que fazemos da pequena chatice um grande problema capaz de nos impedir de gozar a vida …

Charles Chaplin dizia que “não existe coisa melhor no mundo do que viver, curtir e gozar a vida, que passa rápido e daqui não levaremos nada, a não ser toda a experiência e as amizades”. Receio que não nos sirva de nada a “experiência” quando formos “embora”. Mas já aceito que devemos gozar a vida enquanto estamos vivos, pois vamos estar mortos durante demasiado tempo. Porque, “que adianta estar vivo, se ficarmos em casa fingindo que estamos mortos”?

O espanhol Júlio Iglésias tinha quase tudo para fazer uma carreira de sucesso como jogador de futebol, pois sempre teve aptidões especiais para o desporto, tendo chegado a jogar durante cerca de cinco anos no Real de Madrid na posição de guarda-redes. No entanto terminou de forma abrupta a carreira futebolística quando sofreu um acidente terrível de viação ao conduzir com excesso de álcool, devido a lesões graves nas pernas e braços, das quais nunca recuperou totalmente, apesar de ter escapado às previsões mais pessimistas que o davam como tetraplégico. Mas, como “quando se fecha uma porta Deus abre uma janela” e assim “uma tragédia pode ser transformada numa boa oportunidade”, durante o longo período de convalescença começou a escrever poemas românticos. A enfermeira que o tratava achou-os tão bons que acabou por lhe arranjar uma viola para ele os musicar, dando início a uma carreira de cantor e compositor excecional que o levou a ter mais de 250 milhões de discos vendidos, 2.600 discos de ouro e platina e com milhares de espetáculos por todo o mundo, além de lhe terem sido atribuídos numerosos prémios, tornando-se o mais bem-sucedido cantor sul-americano de sempre.

A partir de certa altura da sua vida Júlio Iglésias passou a valorizar e desfrutar mais da sua vida pessoal e familiar, o que se veio a refletir nalguns temas dos seus discos, com mensagens diretas no sentido de que a vida deve viver-se em pleno, porque não basta andar por cá, ser mais ou menos famoso, acumular mais ou menos dinheiro, sendo que o mais importante é gozar a vida. Transcrevo a letra de uma das suas canções traduzida para português, pela mensagem que nos dirige:

“Deixa que te conte um pouco/ pois sei que vais gostar.

Eu já nasci tantas vezes/que não quero morrer mais.

Eu salvei-me em tantas guerras/estou cansado de chorar

E agora que estou de volta/quero viver mais.

Uns, nascem com tudo/e outros, quase sem nada,

Mas todos trazemos um bilhete, que diz/princípio e final, cavalheiro.

Cavalheiro, há que gozar a vida/que depressa o tempo se vai,

Desfruta do que tens/que quando te fores não levas nada, cavalheiro.

Há amigos para sempre/outros vêm e vão.

Mas todos vivemos numa roleta/que não para mais, cavalheiro.

Caminha p’ra diante/e não tenhas medo,

Que os que criticam/criticam-se a eles.

Busca a tua sorte/pois nada está escrito/e não olhes para trás.

Cavalheiro, goza-te da vida/cavalheiro, e não penses mais.

E vive o que podes/cavalheiro goza/vive até ao final.

Cavalheiro, há que gozar a vida/que depressa o tempo se vai,

Desfruta do que tens/que quando te fores não levas nada, cavalheiro”.

Neste mundo louco de correrias é caso para perguntar se cada um de nós alguma vez parou para pensar e fazer uma escolha. E, afinal, qual seria a sua opção se pudesse escolher entre ser rico ou ser feliz?

Quem não chora, não mama …

Diz a experiência que chorar é a primeira manifestação de qualquer ser humano quando vem a este mundo. Provavelmente isso acontece porque, depois de terem vivido durante meses num “meio protegido” onde nada lhes falta, ao “darem de caras” com a realidade do local onde vieram parar, choram e berram como querendo dizer “deixem-me voltar lá para dentro” … Se a maioria soubesse antecipadamente ao que vem, recusava-se a nascer, “fincava” os pés nos bordos antes da saída só para continuar a viver no “bem bom” … É por isso que há os defensores da teoria que devemos chorar quando a pessoa nasce e não quando morre porque, mau, mau, é andar aqui neste mundo. Já William Shakespeare dizia: “choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes” … 

Desde bem cedo o choro faz parte da nossa condição humana e serve para revelar sentimentos distintos como alegria e tristeza, emoção e raiva, riso e medo, depressão e saudade, aflição ou … que estamos a cortar uma cebola crua. Também é um meio muito usado como forma de chantagem, de atingir determinados objetivos simulando falsos sentimentos, algo em que se tornaram especialistas as crianças e … as mulheres, embora alguns homens também o usem esporadicamente, mas com interesses bem diferentes daquelas!!!

Chorar não é só a primeira forma de manifestarmos uma emoção, mas também a mais elementar. Enquanto crianças, choramos por alguma dor física, por falta de segurança ou para chamar a atenção. Daí o choro quando se está com fome, em sofrimento ou sozinho. E, sendo a primeira forma de expressão, a criança quando está com fome chora, percebendo depressa e por instinto que “se não chorar, não mama”. Nada de anormal, pois acontece com todos os mamíferos. E isso só passa a ser um problema quando essa atitude se prolonga ao longo da vida toda. Aí, algo está errado. Não deixa de ser curiosa a forma como os bebés aprendem rapidamente a fazer do choro uma arma terrível que disparam de forma infalível contra os progenitores nos momentos críticos. Quando a mãe está a meio do cozinhado que não pode largar, com o pé na porta para ir à rua ou a abrir a torneira do duche, o bebé solta bem lá do fundo aquele choro estridente que andou a ensaiar durante nove meses na barriga da progenitora, em registo esganiçado que a faz largar tudo e correr para a criança como se ela estivesse a morrer. A verdade é que, com essa arma que nada tem de secreta, conseguem (quase) sempre o que querem e criam o hábito de a usar à medida que vão crescendo, com exigências tolas e imperiosas de que não abdicam, transformando-se bem cedo nuns pequenos ditadores impossíveis de calar, contrariar e pôr na ordem. E os paizinhos rendem-se incondicionalmente, passando de chefes da manada a súbditos apeados do poder …  

Fui educado numa sociedade em que se dizia às crianças do meu sexo que “um homem não chora” e mais ainda, “chorar é para as meninas”. Por isso, os homens continham as lágrimas nos momentos de estado emocional alterado como no medo, na tristeza, na raiva, na saudade, na alegria intensa ou na depressão, naquelas ocasiões em que as emoções fazem com que as lágrimas escapem dos olhos sem pedir autorização. Houve uma época em que entre as classes abastadas o choro passou a ser contido e efetuado em áreas restritas à intimidade de cada um. Criou-se o hábito de não verter lágrimas publicamente. Foi por essa razão que apareceram as “carpideiras”, as choradeiras profissionais substitutas dos fidalgos para quem não era de bom tom chorar em público, mesmo que fosse no enterro de um filho. 

Nos dias de hoje ainda são as mulheres e as crianças quem chora com mais frequência, as primeiras por emoção quando não por estratégia e as outras para revindicar o que precisam ou desejam. No entanto, já é comum ver homens a deixarem correr as lágrimas livremente sem as conter, ao contrário dos meus tempos de infância. E à medida que envelhecemos ficamos mais sensíveis a histórias de vida ou imagens e, quando damos por isso, as lágrimas correm-nos no rosto. Por isso, já acho normal sentir os olhos húmidos diante de alguma coisa que vejo, ouço, me sensibiliza e emociona. Até a ler tenho sido obrigado a parar com os olhos marejados de lágrimas como uma “madalena”. Dizem que as lágrimas aliviam a alma e um bom choro vale mais que doses de tranquilizantes. Não quer isto dizer que desatemos a chorar a torto e a direito sempre que tivermos um problema ou preocupação pois, se fosse assim, havia de ser lindo …

O provérbio “quem não chora não mama” faz todo o sentido para as crianças, porque é a forma de chamarem a atenção da família de que querem mamar para se alimentar. Continua a fazer sentido com os jovens adolescentes, se bem que em muitos casos já nem precisam de “chorar” para “mamar” um smartphone, computador ou quando não um automóvel para ir “trabalhar”. É especialmente importante para quem trabalha por conta dum patrão pois se não “chorar” da forma adequada para ser ouvido por quem de direito, muitas vezes não vê o seu mérito reconhecido e assim “mamar” mais um pouco no fim do mês. Como o é na prática para os compradores se não “marralharem” os preços; municípios se não “chorarem” junto do governo central tal como juntas de freguesia perante os municípios; os sindicatos se não reivindicarem melhores salários e regalias para os seus filiados; além de muitas outras instituições que não chegam a “mamar” se ficarem caladas perante quem tem a obrigação de as apoiar

Todos eles têm necessidade de “chorar” para serem ouvidos por quem governa seja lá qual for o nível, de maneira a poder “mamar” a sua parte, quando não uma parte maior do bolo que há para distribuir. O problema para todos eles, desde as crianças aos municípios, das pessoas às regiões, é se aqueles que querem sensibilizar com o seu choro “fazem ouvidos de mercador” por não pertencerem à mesma “família” seja ela qual for vendo assim o seu “choro cair em saco roto”. E, se é esse o caso, não valerá a pena insistir porque, por muito que eles choraminguem, chorem ou se desfaçam em lágrimas, baba e ranho, vão ter de ficar a “chuchar no dedo” ainda que façam birra, enquanto veem os outros “mamar” à grande …  

A vida ensina-nos a desconfiar …

Tenho saudades de quando era ingénuo, crédulo e inocente. De só ouvir sem necessidade de ter opinião. De acreditar que era o Menino Jesus que punha as prendas de Natal no sapatinho. De sonhar com príncipes, princesas, castelos, histórias de encantar, sempre com final feliz. De jogar ao peão, ao espeto, à cabra-cega e arrancar os botões da roupa para jogar ao “pica”. Só que, à medida que os anos passam, tendemos a ficar empedernidos, de coração duro, frio e desconfiado. Dizem que são os pontapés que se apanham ao longo da vida que nos vão mudando, transformando o ingénuo em malicioso, o sonhador no realista, o puro num libertino e o inocente em mau caráter. Claro que os anos nos fazem desconfiados e ficamos com dúvidas demasiadas vezes porque, diz o ditado, “gato escaldado de água fria tem medo”. Da adolescência aos primeiros anos de adulto comecei a perceber que tinha de ajustar a minha visão à realidade porque a pureza de intenções não tem cabimento no mundo dos homens, já que fazem tudo, mas mesmo tudo, para acumular dinheiro e isso e muito mais para alcançar o poder. Se no início comecei por selar negócios com um simples aperto de mão e confiar na “palavra de honra” como boa garantia, com o tempo e conselho do meu pai reduzi ao mínimo os contratos orais para os passar a escrito. E, mesmo assim, encontrei gente que não cumpriu. Mas nunca me tornei totalmente cético, pois sempre fui fazendo alguns acordos verbais e tive, sobretudo dos mais pobres, quem nunca faltasse à palavra. Por isso acredito que ainda há esperança, embora os maiores sinais nos obriguem a desconfiar … 

Os supermercados são hoje locais de frequência obrigatória para todas as pessoas, goste-se ou não, pois vieram para tomar conta do setor de distribuição alimentar, mas já vão muito para além disso abarcando cada vez mais áreas de comércio, do têxtil às ferramentas, dos eletrodomésticos aos artigos para o lar, da cosmética aos artigos para animais, plantas de jardim e uma variedade enorme de todo o tipo de inutilidades que carregamos para casa como acumuladores de lixo que somos. Desde o início souberam como nos fazer consumir mais do que realmente precisamos, mas hoje atingiram o cúmulo da eficiência comercial ao associaram a tecnologia ao marketing além da publicidade, para nos controlar e induzir os impulsos consumistas que lhes sejam mais convenientes. Não bastavam os folhetos, cartões de descontos, selos de coleção com direito a produto, valor de crédito em talões com prazo, ilusão de preço mais baixo ao retirar um único cêntimo no preço para ele terminar em …,99 €, embalagens de pesos variados que nada têm a ver com o kg e que enganam muitas vezes o consumidor ao dar a ilusão de preço mais baixo, mas que às vezes nem meio quilo têm e todo o tipo de promoções e descontos variados. Um supermercado desenvolvido hoje controla os nossos hábitos de consumo, os produtos mais comprados e quais as prateleiras onde vamos, para selecionarem os artigos dos talões de descontos que nos enviam. Enfim, controlando e orientando-nos só para consumir mais.

Tirando as estratégias comerciais que muitas vezes são lesivas dos interesses dos clientes e induzem ao consumo desnecessário, sempre considerei os supermercados corretos no que cobram e, por isso, não controlava à saída o valor da fatura nem o preço dos produtos. Nunca pus em causa a seriedade dessas “catedrais de consumo” no que diz respeito ao objetivo deles, “a conta”. Até um dia …

Depois de passar pela caixa de um supermercado local com os artigos comprados a quererem fugir-me da mão (recuso-me a comprar saco), dirigi-me ao carro enquanto enfiava a conta no bolso sem a verificar, apesar de me ter parecido algo exagerada para o que trazia. Quando abri o carro vi o cliente que passou a caixa antes de mim a acabar de arrumar as suas compras, fechar o carro e voltar ao supermercado a olhar a fatura das compras na mão como quem não concorda com alguma coisa. Então fiz o mesmo: arrumei as minhas, tirei a fatura do bolso e pus-me a verificar parcela a parcela. E lá estava um produto de que comprara 10 unidades debitado ao preço normal embora na prateleira estivesse como uma boa promoção. E fiz o mesmo que o outro cliente: voltei à loja e à caixa onde ele ainda estava a reclamar. Quando acabou, foi a minha vez de colocar a questão à funcionária que, depois de mandar verificar o preço do produto na prateleira, pediu desculpa e devolveu-me pouco mais de treze euros que, se o acaso não me tivesse feito olhar para o outro cliente, bem ficaria sem eles em benefício de quem precisa menos do que eu …

Nas idas seguintes aos supermercados continuei a confiar, mas, por precaução, passei a fazer um cálculo aproximado da conta à medida que colocava os artigos no cesto. Até que noutro supermercado cá da terra aconteceu um erro semelhante ao anterior em prejuízo também do meu bolso. Foi assim que a vida me deu nova lição e me ensinou a desconfiar dos supermercados e da fatura. Foi assim que evitei já por mais duas vezes erros – e vou chamar-lhe isso para ser simpático – mas sempre contra mim. Quando em casa falei nestas “anomalias” a Ana Maria contou-me logo vários casos passados com ela pois desde há muito passou a escrutinar rigorosamente a fatura e foram muitas as vezes em que sairia prejudicada se o não fizesse. E os erros que ela tem detetado são os mais diversos, ao contrário dos que aconteceram comigo. Havia uma coisa comum a todos os “erros” que aconteceram comigo e com ela: o prejuízo era sempre do cliente …

A vida ensina-nos que, mesmo que alguns dos nossos pensamentos pareçam tontos, não podemos ignorá-los, pois são alertas de que há algo de estranho e alguém pode querer “passar-nos a perna”. Sem ter medo de desconfiar de quem quer que seja, devemos comprovar as suspeitas, até porque é melhor desconfiar do que vir a ser enganado. E pelo que me tem acontecido ultimamente, bem posso dizer que os supermercados não estão acima de suspeita ainda que, por alguma questão de bondade, lhes chamemos “erros” …

Pen drives, Gigas, USB, Bluethooth …

Os avanços da tecnologia trouxeram com eles numerosos termos novos em inglês que os jovens apreendem cedo e com facilidade, mas que as pessoas da minha geração têm alguma dificuldade em “encaixar” na mona e, sobretudo, a perceberem o seu significado.  A conversa podia ter acontecido comigo ou com qualquer outro “maduro” como eu, para quem o computador pouco mais é que uma máquina de escrever. 

Circula pela internet este texto que um amigo me fez chegar há dias: “Numa loja de material informático o senhor Belmiro tirou um papel do bolso, leu as suas anotações e perguntou ao funcionário: – Por favor, tem uma “pen drive”? E o jovem respondeu prontamente: – Temos sim. – Pode-me dizer o que é uma “pen drive”? É que o meu filho pediu para lhe comprar uma! – Bom, a “pen drive” é um pequeno aparelho onde pode salvar tudo o que tem no computador. – Ah, é como uma disquete? – Não. Com a “pen drive” o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. Com a disquete, que já não há, o senhor só salva texto.

– Está bem, já percebi. Quero uma. – Está bem. De quantos gigas? 

– Como? E o funcionário: – De quantos gigas quer a “pen drive”? 

– O que são gigas? diz ele. E o funcionário: – É o tamanho da “pen”. 

– Ah, estou a ver. Quero uma pequena que dê para levar no bolso sem fazer grande volume. E o rapaz – São todas pequenas, senhor. O tamanho é a quantidade de coisas que ela pode arquivar.

– E quantos tamanhos tem? E ele: Dois, quatro, oito, dezasseis …

– Hum, meu filho não disse quantos gigas queria. – Nesse caso, o melhor é levar a maior. Dá para tudo. – Acho que tem razão. Quanto custa? – Bem, o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada é USB? – Como? – Para acoplar a “pen” ao computador a entrada tem de ser compatível. E o senhor Belmiro: – USB não é a potência do ar condicionado? – Não, isso é BTU. – Ah, é isso mesmo. Confundi as iniciais. Bom, eu sei lá se a minha entrada é USB! E o rapaz: USB tem dentinhos que encaixam nos buracos do seu computador. O outro tipo é este, o P2, mais tradicional e o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é P2. – Acho que o meu tem uns dois anos. O antigo era com disquete. – Hoje não têm entrada para disquete. Ou é CD ou “pen drive”. – Pois, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho. – Pode telefonar-lhe?    – Eu queria, mas o telemóvel é novo e tem tantas coisas que ainda nem sequer sei funcionar com ele.

– Deixe-me ver. Puxa, que Smartphone! Tem Bluetooth, câmara fotográfica, TV digital, enviar e receber e-mail, micro-ondas …

– Blu… Blu… Blutufe? E micro-ondas? Dá para cozinhar com ele?

– Não, não. Funciona no sub-padrão. Por isso é mais rápido. 

– E para que serve esse tal Blutufe? – Para um telemóvel comunicar com outro, sem fios. ­Que maravilha! É uma grande novidade!   – Mas os telemóveis já não se comunicam com os outros sem fio? Nunca precisei de fio para ligar para outro telemóvel. Fio em telemóvel, que eu saiba, é apenas para carregar bateria… -Não, já vi que o senhor não entende nada. Com o Bluetooth o senhor passa os dados do seu telemóvel para outro sem usar fio. A lista de telefones, por exemplo. ­Ah, e antes precisava de fio? – Não, tinha que trocar o chip. ­ Ah, sim, o chip. E hoje não precisa mais de chip… precisa, mas o Bluetooth é bem melhor. ­Interessante o negócio do chip. O meu telemóvel tem chip? Um momento … deixe ver… Sim, tem chip. ­E faço o quê com o chip? – Se o senhor quiser trocar de operadora, a portabilidade, o senhor sabe. ­Sei, sim, portabilidade, não é? Claro que sei. Não ia saber uma coisa dessas, tão simples? – Imagino que para ligar tudo isso no meu telemóvel, depois de fazer um curso de dois meses, só preciso clicar nuns duzentos botões… – Não! É tudo muito simples, o senhor apreende logo. Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele. Isso. Agora é só teclar, um momentinho, e apertar no botão verde… pronto, está a chamar.

Osvaldo segura o telemóvel com a ponta dos dedos temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta: Olá filho, é o pai. Diz-me filho, a tua pen drive é de quantos… Como é o nome? Ah, obrigado, quantos gigas? Quatro gigas está bom? Ótimo. E tem outra coisa, o que era? A conexão é USB? É? Que loucura.

Filho, comprei a tua pen drive. À noite levo-a para casa.           – Que idade tem o filho? ­Vai fazer dez em Março. – Curioso…

É isso, vou levar uma de quatro gigas, com conexão USB.

– Certo, senhor.

Mais tarde, no escritório, examinou a pen drive, um minúsculo objeto menor do que um isqueiro e capaz de gravar filmes!!! Onde iremos parar? Então olha com receio para o telemóvel sobre a mesa. “Máquina infernal”, pensa. Tudo o que ele quer é um telefone só para fazer e receber chamadas. E tem nas mãos um equipamento sofisticado, tão complexo que só um especialista ou quem tenha menos de quarenta anos saberá compreender.

Em casa ele entrega a pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O miúdo insere-a no computador e no monitor abre-se uma janela. Em seguida, com o rato abre uma página da internet em inglês. Seleciona umas palavras e um ‘havy metal’ infernal invade o quarto e os ouvidos de Osvaldo. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz: – Pronto, pai, baixei a música. Agora levo a pen drive para qualquer lugar e posso ouvir a música onde tiver entrada USB. No telemóvel, por exemplo. ­O teu telemóvel tem entrada USB? – É claro, o teu também tem. ­ É? Quer dizer que eu posso gravar músicas na pen drive e ouvir pelo telemóvel? Se não quiser tirar direto da internet…

Naquela noite, antes de dormir, deu um beijo na Clarinha e disse: ­Sabes que eu tenho Blutufe? – O que é isso? ­ Blutufe. Não me vais dizer que não sabes o que é o Blutufe? – Não me chateies, Osvaldo, deixa-me dormir. ­Meu amor, lembras como era boa a vida quando telefone era telefone, gravador era só gravador, gira-discos tocava discos e só tínhamos carregar num botão para as coisas funcionar? Claro que me lembro, Osvaldo. – Hoje é bem melhor, não? Várias coisas numa só e até Blutufe tem. E conexão USB também. – Que bom, Osvaldo, os meus parabéns. ­ Clarinha, com tanta tecnologia a gente envelhece cada vez mais depressa. Fico doente só de pensar quantas coisas existem por aí que nunca vou usar. – Ai sim? Porquê? ­ Porque aprendi a usar o computador e o telemóvel e tudo o que sei já está ultrapassado. Por falar nisso temos que trocar de televisão.- Como? A nossa avariou? – Não. Mas não tem HD nem tecla SAP, slowmotion e reset. ­Tudo isso?… – Tudo. ­ A nova vai ter blutufe?

Boa noite, Osvaldo, vai dormir que eu não aguento mais” …

Este é o diálogo possível entre duas gerações separadas por um mundo tecnológico que não para de nos surpreender, com uma linguagem própria que os jovens apreendem facilmente, mas que para a minha geração é uma confusão danada …

Feliz de quem recebe “flores” em vida

O senhor Joaquim vive há cem anos na mesma aldeia de um concelho vizinho, de onde quase nunca saiu para ver o mundo, mesmo que o mundo fosse só o Porto ou Lisboa. Passou fome, viveu com inúmeras dificuldades, atravessou uma Guerra Mundial, uma Guerra Colonial e conseguiu que os seus cinco filhos e filhas sobrevivessem, ganhassem asas e tivessem (e ainda tenham) uma vida boa apesar de, para tal, terem emigrado para França, por onde se mantêm. E tudo isso foi conseguido somente com o fruto do seu trabalho de jornaleiro e com a ajuda da senhora Maria, sua mulher, que governou a casinha onde moravam na aldeia e cuidou dos filhos enquanto não “voaram” para a “estranja”, para além de cultivar o pequeno quintal de onde tirava as hortaliças para o “caldo”, até ser “levada pelo Senhor” já lá vai “um bom par de anos”. Ainda com a cabeça completamente coberta de cabelo, mas a quem o tempo pintou de branco como um sinónimo de experiência e sabedoria, todos os dias depois do almoço vai até ao ponto de convívio da aldeia, uma antiga “tasca” que os proprietários teimaram em “modernizar” batizando-a de “Café da Aldeia” apesar de quase só lhe acrescentarem meia dúzia de mesas e nenhumas obras, por onde fica quase toda a tarde em conversa com quem está por ali. E ele, como bom contador das muitas histórias de uma vida longa e intensa, alimenta com facilidade as tertúlias com amigos e vizinhos. Há dias recebeu a visita de um velho amigo, “rapaz” mais novo que ele, emigrante em França, mas que nos últimos anos tem vivido entre cá e lá, que não deixa de o visitar sempre que vem a Portugal nem de convidar e acompanhar ao tal “café” da aldeia onde passam horas a fazer o que melhor sabem: falar. Naquele dia sentou-se à mesa um dos filhos do senhor Joaquim, também ele emigrante em França, que assistia mais à conversa do que participava e ouvia o pai repetir com frequência “aqui o Manel é o meu maior amigo”. E, volta e meia, lá vinha mais um novo “aqui o Manel é o meu maior amigo”. 

Às tantas, o filho do senhor Joaquim perguntou-lhe: “Ó pai, porque é que está sempre a dizer que o Manel é o seu maior amigo”? E ele, sem desviar o olhar, respondeu: “Porque o Manel já me levou a França e trouxe duas vezes, deu-me cama e mesa em sua casa e levou-me a passear por aquelas terras que eu nunca vira, para além de me visitar e fazer companhia sempre que cá vem, coisa que nenhum dos meus filhos fez apesar de virem cá todos os anos nuns “brutos carrões” e mostrarem que “puxam bem” e a vida lhes corre de feição. Mas só o meu amigo Manel se lembrou de mim” …

Encontrei-me há dias com esse tal Manel e estivemos à conversa, embora não tenha sido tão prolongada como as que ele tem com o seu amigo. Vinha muito incomodado pelo comportamento da mulher de um seu familiar porque, enquanto no funeral fizera um espetáculo de dor e sofrimento, chorando e gritando desalmadamente em plena igreja, já na missa de sétimo dia apareceu feita “viúva alegre”, sem sinal de dor pela perda do marido, permitindo-se até contar anedotas nada adequadas à sua condição, quanto mais ao momento. “E eu sei bem como é que ela o tratou em vida”, acrescentou. “Já preparou um espetáculo de viúva cheia de saudades do marido para o Dia de Fiéis e Defuntos. É por isso que, apesar de respeitar a tradição, nesse dia não vou ao cemitério colocar flores na campa dos meus familiares. As “flores” dou-as às pessoas em vida” …

É no Dia de Finados que milhões de pessoas vão ao cemitério levar flores, rezar e acender velas ou lamparinas pelos seus entes queridos que morreram, numa romagem anual que faz viajar de muito longe quem não se esquece, sentida para muitos, uma mera formalidade a “cumprir calendário” para outros. Podia ser o “Dia da Memória” por levar a que muita gente não se esqueça por completo dos familiares e amigos que partiram nesta vida tão atarefada e de pressa, obrigando-os a recordar ainda que uma só vez por ano, porque há quem ali vá com mais ou menos regularidade prestar homenagem e cuidar do espaço e para quem o dia 1 de Novembro é só mais um dia. No meio rural como o nosso, também há quem “vire o bico ao prego” e veja no momento uma oportunidade para “fiscalizar” todos os túmulos do cemitério, julgar e condenar a família que não cuidou e alindou o seu, além de avaliar enquanto “jurados num suposto concurso de arranjos florais” quem teve os ramos de flores mais valiosos e de maior beleza, motivo de rivalidades e competições entre familiares, vizinhos ou conhecidos e matéria de comentários na aldeia durante a semana seguinte. 

Parece muito estranho ver algumas viúvas que foram tão maltratadas pelos seus homens e que neste dia não deixam de lhes levar arranjos florais vistosos. Será que é mesmo para homenagear o defunto, para lhes dar o seu perdão ou, pelo contrário, para agradecer a Deus o ter-lhes concedido a liberdade e o fim do martírio? Fica a dúvida …

O Papa Francisco não deixa de nos enviar numa das suas mensagens estas considerações: “O ser humano é estranho. Briga com os vivos e leva flores para os mortos. Lança os vivos na sarjeta e pede “um bom lugar para os mortos”. Afasta-se dos vivos e agarra-se desesperado a eles quando morrem. Fica anos sem conversar com o vivo e desculpa-se e faz homenagens se ele morre. Não tem tempo para visitar o vivo, mas tem o dia todo para ir ao velório do morto. Critica, fala muito mal e ofende o vivo, mas santifica quando ele morre. Não liga, não abraça e não se importa com os vivos, mas se autoflagela quando morrem. Aos olhos cegos do homem, o valor do ser humano está na sua morte e não na sua vida” … 

Será preciso perder para valorizar? Porque é que se passa a ser uma excelente pessoa e os elogios só aparecem depois de morto? Qual a razão por que só se recebem muitas flores já quando se não podem cheirar, olhar e apreciar? Estamos demasiado ocupados com a vida para “dar flores” aos vivos e só nos lembramos de o fazer quando eles já estão do lado de lá? Considero importante e indispensável a tradição do Dia de Finados como Dia da Memória que é para todos nós e a homenagem sincera que cada um faz aos entes queridos diante da campa ou jazigo onde estão depositados os seus restos mortais, expressa das mais diversas formas, seja através de um simples ramo de flores do campo, de uma vela ou lamparina acesa, de uma oração em silêncio ainda que diante da campa despida de enfeites para além da cruz, como um despertar de consciências para aqueles que se esqueceram deles, de tão presos e entregues à pressa dos dias. Pelo contrário, os arranjos e enfeites de flores e artefactos caros, mais não são do que vaidades expressas na arrogância do dinheiro ou na tentativa de aliviar as consciências pelas “flores” que se não ofereceram ao morto em vida. É notável como a jovem Anne Frank, com menos de 15 anos, percebeu bem a natureza humana ao escrever um desabafo no seu célebre Diário: “Os mortos recebem mais flores que os vivos porque o remorso é mais forte que a gratidão”.   
Razão tem o Manel quando diz que “as “flores” devem dar-se em vida às pessoas de quem gostamos, pela presença e companhia, a forma como as tratamos, lhe dizemos que as amamos e saberem que podem contar connosco”. Essas “flores”, sim, temos a certeza de que chegam diretas aos seus destinatários e os ajudam a suportar melhor esta vida terrena…

Seremos nós os animais mais especiais?

Como é que o urso-cinzento consegue farejar a presa a cerca de 32 Kms de distância? Como é que a sépia (peixe) muda de cor, textura e padrão completamente num segundo? E os cães como conseguem detetar cancros e ataques epiléticos? Veja-se a medusa, praticamente imortal, quando atinge a maturidade sexual regressa a pólipo vezes sem conta? Porque será que nas horas ou dias antes de uma catástrofe como um terramoto, os animais fogem para longe da área ou região que será afetada? A antecipação dos terramotos é comum a muitas espécies de animais, desde sapos a fugir do habitat, cobras a saírem dos locais onde estão a hibernar e ainda antes do seu fim, aves a voarem para longe tal como outros animais mais a retirarem-se antecipadamente das zonas de risco. Foi especialmente noticiada a disparada de elefantes asiáticos para terras altas por ocasião do terramoto seguido de um tsunami em 26 de Dezembro de 2004. Muitas vidas foram salvas graças a isso.

E qual é a nossa capacidade de previsão destes fenómenos? Zero. 

Sendo nós um animal como outros, ao afastarmo-nos da natureza fomos perdendo algumas capacidades e, neste caso, o “instinto de sobrevivência” deixou de funcionar. Vamos agora correr atrás do prejuízo usando animais para nos servirem de “alarme de catástrofes”. Eles têm capacidades extraordinárias que ultrapassam a nossa compreensão …

Lawrence Anthony tinha uma carreira bem-sucedida no ramo de seguros e comércio de imóveis. Porém, trocou tudo para dedicar a sua vida às espécies em vias de extinção.                                                                                                  Em 1999 este homem abriu os portões da Thula Thula Game Reserve, na África do Sul, para elefantes selvagens, embora não fosse esse o plano original da reserva. No entanto, deu um salto de fé e aceitou os elefantes agressivos e em risco, porque se não os acolhesse seriam mortos. Segundo ele, nunca foram fáceis de lidar já que eram conhecidos por escapar de outros recintos e agir sem controle. “Eram um grupo complicado, mas eu vi que tiveram uma vida difícil e estavam com muito medo”. Lawrence arriscou ao tomar conta destes animais majestosos e tratou-os como crianças. Usou certas palavras para os incitar e alguns gestos para mostrar que estavam muito seguros com ele. Além disso, concentrou-se principalmente na matriarca Nana para se conectar com o resto dos elefantes. Lawrence descia a cerca e implorava a Nana para não a quebrar na sua tentativa de fuga. Ele sabia que Nana não entendia o inglês, mas conseguia perceber a linguagem corporal.                                                                                             Um dia deu-se um novo começo quando Nana estendeu a tromba a Lawrence. Percebeu então que ela queria que a acariciasse e isso significava o início de um belo relacionamento. Os elefantes passaram a gostar muito de Lawrence, bem como de sua esposa François. Na verdade, tornaram-se tão próximos que os elefantes até pensavam que a casa de Lawrence também era a sua casa. Eram a família e os melhores amigos.                                      Durante anos as manadas e Lawrence estabeleceram uma grande relação entre si, mas, infelizmente, o conservacionista morreu em 2 de Março de 2012. De acordo com o New York Times, Lawrence morreu devido a um ataque cardíaco e deixou para trás a esposa e dois filhos. O homem que abandonou uma carreira em seguros e imóveis, salvara todo o tipo de animais além das manadas de Nana. Lawrence até conseguiu convencer os rebeldes africanos – que eram todos procurados como criminosos de guerra – a cuidar dos rinocerontes brancos restantes no norte. No entanto, nada se compara ao relacionamento e vínculo sagrado que ele tinha com Nana e as suas manadas.                                                                   O mais inexplicável e emocionante desta relação deu-se após o falecimento de Lawrence. Dois dias após a morte, esses animais majestosos que já não iam a casa do seu amigo há mais de ano e meio, apareceram depois de 12 horas a caminhar desde Zululand, para lhe prestarem a sua homenagem. E ficaram de vigília durante dois dias à volta da casa antes de voltarem às suas vidas lá longe, no mato. 

Luto de Elefantes - World Of Buzz 1

Fonte: instagram

O incrível é que, não tendo ninguém “avisado” as duas manadas lideradas pela matriarca Nana da morte de Lawrence, como é que elas “souberam” disso? Ninguém sabe dizer como. Isto só vem confirmar que os animais podem sentir coisas que nós, humanos, não podemos. Mas desengane-se quem pensar que foi a única vez que Nana e as suas manadas fizeram vigília a Lawrence. Todos os anos, no dia 2 de Março, os elefantes viajam 12 horas para homenagear o seu camarada caído na esperança de que ele volte …  

Em 2009, Lawrence publicou o livro “The Elephant Whisperer” ou “O Encantador de Elefantes”, que descreve com caráter testemunhal o período em que conviveu com os elefantes na savana africana, despertando assim no leitor uma perceção diferente e sensível em relação aos animais. Numa das suas passagens, Anthony declara: “Talvez a lição mais importante que aprendi é que não há muros entre seres humanos e os elefantes, exceto aqueles que nós construímos. E, enquanto não permitimos que não apenas os elefantes, mas todas as criaturas vivas tenham um lugar ao sol, nunca poderemos sentir-nos completos” …              

A cozinha da minha avó …

A casa da minha avó materna ficava (e fica) do outro lado do caminho mesmo em frente à casa dos meus pais e era frequente eu aparecer por “aquelas bandas” quando era criança, fosse para ir aos figos na figueira que pendia um pouco sobre a casa da Emilinha “Séria”, fosse para ir aos “ameixos de aparta caroço” que pendiam sobre a mata traseira, fosse por muitas outras razões. Mas as saudades ficaram-me mais da cozinha rústica com o lar de pedra onde o lume ardia quase todo o dia. Na lareira estava sempre uma grande panela de ferro de “três pés”, a “caldeira de água quente” daquele tempo, que já era um luxo. Dali tirava-se água quente para tudo pois não havia cilindros elétricos, esquentadores ou outras modernices para aquecer água e que só viriam a chegar à aldeia muitos anos mais tarde. Aliás, nem sequer havia água canalizada, pois na casa da minha avó, como na nossa, era tirada do poço, a princípio a balde puxado com sarilho e anos mais tarde tirada a motor elétrico, outra modernice, tal como a eletricidade, fraca e com muitas falhas, que nos obrigava a usar com frequência os candeeiros a petróleo, velas e candeias. 

Na cozinha da minha avó todos os netos gostavam muito de se sentar no “preguiceiro”, uma peça de mobília fundamental numa cozinha tradicional, espécie de banco comprido com “costas” altas onde nos recostávamos com os pés no “lar” bem perto do lume. Em madeira de pinho, para além das costas o “preguiceiro” tinha “braços” para apoio e, na zona central um pequeno tampo de madeira que fazia de mesa quando se baixava e apoiava numa haste de madeira, servindo para comer, jogar ou outra coisa qualquer. Ali sentados, gozávamos dos prazeres do fogo e ficávamos a ver as mulheres cozinhar. No meio da fogueira e ao lado da panela grande de três pés havia uma “trempe” feita em ferro onde colocavam panelas e tachos para cozinhar, fosse o caldo que nos era servido em grandes “malgas” de barro, fossem as batatas cozidas com casca que muitas vezes não tinham nada para acompanhar além de um fio de azeite já que o azeite era caro, com um pouco de vinagre tinto feito num grande garrafão com vinho do quintal e uma “tripa” que mais não era senão um aglomerado de bactérias acéticas necessárias à acidificação do vinho. No tempo das castanhas aproveitava-se a fogueira para as assar, depois de cortar um canto a todas elas para não rebentarem, atiradas para o meio do fogo onde ficavam enterradas na cinza. Ao ajudar a cortar os cantos das castanhas, de malandrice deixava ir algumas inteiras para depois ver as mulheres a assustarem-se (ou a fingir) com os rebentamentos no meio da fogueira, espalhando pequenos pedaços de carvão.

No inverno era crónico ver as mulheres com “murras” nas pernas como resultado de andarem muito tempo junto do lume com elas à mostra. As murras são manchas pouco persistentes causadas pelo calor do fogo e que causam algum desconforto. Como nós, homens, andávamos de calças, não tínhamos esse problema.

O canto da cozinha por detrás do preguiceiro era o espaço onde se “fabricava” o pão, mais concretamente a broa de milho. Ali estava o forno de barro aquecido a lenha e, ao lado, a “amassadeira”. O milho era de produção própria no Campo dos Morgadinhos ou noutro mais abaixo e moído pelo moleiro dos Moinhos. Gostava de ver a minha avó misturar a farinha com água quanto baste, fermento e um pouco de sal e amassar. Às vezes ela deixava-me “meter a mão na massa” e seguia com atenção as fases seguintes, desde o aquecer do forno, o retirar das brasas e cinza, o meter o pão a cozer e o tapar da porta do forno com fezes de boi. Mas a parte mais interessante era sempre a abertura do forno e a retirada das broas já cozidas. Tinha logo direito a um naco de broa quente que me “sabia pela vida”. 

No inverno, depois da matança do porco, a base do saco da chaminé ficava atravessada por três varas carregadas de salpicões e chouriças de sangue, além de presuntos e outras partes do porco a precisarem de ser defumadas depois de salgadas, para se conservarem. Às vezes tínhamos direito a provar para saber se estavam em condições de ser consumidas. Por nós, estavam sempre.

No Natal, com a “mesa” do preguiceiro montada, eu sentava-me de um lado e o meu irmão do outro e jogávamos o jogo do “rapa” usando um pequeno pião de quatro lados. Em cada lado havia uma letra: R (Rapa), T (Tira), D (Deixa) e P (Põe). Jogávamos a pinhões com casca que conseguíamos num pinheiro manso grande na mata atrás da casa da minha avó. Eu era perito a subir pelo tronco do pinheiro, agarrado à casca (nalguns, como só conseguia abraçar metade da árvore, era agarrado à casca rugosa que trepava) e apanhava as pinhas de onde extraía posteriormente os pinhões. Para começar o jogo, eu e o meu irmão colocávamos em cima da mesa do preguiceiro um pinhão cada e fazíamos rodopiar à vez o “Rapa”, o pequeno pião. Quando saía o R, “rapava” os pinhões sobre a mesa. O T dava direito a tirar um pinhão. O D era para deixar tudo como estava. E o P queria dizer que éramos obrigados a pôr lá um pinhão. E ali ficávamos horas seguidas a jogar, alternando com mais “jogadores” interessados. Quando fora de jogo, aproveitávamos para comer os pinhões ganhos a jogar, partindo-os com uma pedra sobre o lar. A Noite de Natal “convidava-nos” a ficar por ali logo a partir do almoço porque durante a tarde faziam-se as rabanadas de mel e os formigos, uma coisa fora do comum pelo que aguardávamos pacientemente para ver e “provar” aquelas doçuras que eram de “comer e chorar por mais”. E a espera valia a pena …

Estas memórias vieram-me à cabeça enquanto observava algumas crianças insatisfeitas com os diversos jogos que tinham para brincar e, mais tarde, resmungando diante de um lanche muito bem aviado. Fiquei a pensar que hoje valorizam pouco ou nada o muito que lhes é dado, grande parte das vezes sem terem necessidade sequer de pedir. É que os pais, no seu desejo de darem aos filhos tudo e mais alguma coisa do bom e do melhor, numa competição implacável com outros pais, sejam familiares, amigos, vizinhos ou simples conhecidos, fazem do brinquedo mais caro à gulodice mais sofisticada uma coisa comum e comum, que faz passar a mensagem errada aos “beneficiários” de que são coisas sem valor. E, para quem nem sequer teve de pedir, são mesmo. Pelo contrário, num outro tempo em que havia muito pouco, dava-se importância a tudo, nada se desperdiçava e ficava-se grato pelo que se recebia e tinha, fosse para comer ou brincar …