Trabalho de “todos e cada um” …

A provar que somos animais de hábitos, está o facto do confinamento me ter criado “habituação”, uma dependência como qualquer droga barata, mas viciante. É verdade. Agora quando tenho de ir à rua, não passo muito tempo sem me dar a vontade de regressar a casa, vestir as calças de ganga rotas (eu sei que estão na moda …) e uma T-shirt, calçar botas de cano alto e ir tratar no jardim/horta, para arranjar… uma dor de costas. É que eu faço batota no confinamento. Em vez de estar enfiado em casa como um eremita, “vou para fora, cá dentro” (como na publicidade que nos aconselha a fazer férias em Portugal) “dar cabo do canastro” e, estupidamente, fico feliz. Corro o risco de, se isto durar muito mais tempo, a habituação poder passar a “vício” e depois nem sequer querer sair à rua, muito menos ter de assumir responsabilidades lá fora. E, cá para nós que ninguém nos ouve, se calhar não perco nada. Se o novo coronavírus é um grande problema que não podemos ignorar nem esquecer, a verdade é que, através do confinamento, acabou por nos fazer refletir sobre a vida desenfreada que levamos e que há muito coisa importante que deixamos para trás no dia a dia da vida. Ora, nesta fase, houve tempo para dedicarmos à família, à leitura e à casa, nos conectarmos regularmente com aqueles de quem gostamos, além de tirar partido das curiosidades, anedotas e histórias sem fim que esta crise proporcionou, ajudando a amenizar o enorme problema sanitário, económico e social. 

Mas, pensando bem, quando houver uma vacina e isto acabar, vamos todos retomar a nossa vidinha, esquecer todas as reflexões sobre o consumismo, os problemas do degelo com o aquecimento global, as ilhas de plásticos e qualquer forma de poluição, o esgotamento dos recursos naturais, os desastres ecológicos, o stresse e a agitação do dia a dia. Voltaremos a “entrar de cabeça” na “vida antes do vírus” e seremos novamente “felizes” …

A questão do momento é o passo dado esta semana para o regresso à normalidade com a segunda fase do “desconfinamento”, palavra que não fazia parte do nosso vocabulário habitual, mas que passamos a conhecer desde que este vírus entrou nas nossas vidas, as virou de pernas para o ar e até nos obrigou a usar palavras novas. Abriram as creches, restaurantes, escolas e várias instituições e serviços, sendo certo que a preocupação é grande, porque é um processo de risco e, como tal, sujeito a recuos que ninguém deseja. Até o presidente da república, primeiro ministro e outras figuras da governação foram “almoçar fora”, num espetáculo desnecessário com a imprensa atrás, para nos mostrar que se come bem nalguns restaurantes da capital e que já se pode ir … vale a pena lá ir … se houver dinheiro para ir … 

É uma fase delicada, que exige responsabilidade de todos nós para não correr mal. É que não deixou de existir o risco de contágio e, por isso, podemos ter uma segunda onda de contágios que nos obrigue a “regressar a casa”, como em Singapura. O vírus não desapareceu por decreto, embora há quem acredite que sim. Relata a história que no caso da “gripe espanhola” ocorrido há cem anos, o grande desastre veio na segunda vaga, com a morte de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. O facilitismo de então foi tal que se chegou a criar a Liga Anti-máscara nos Estados Unidos para combater o seu uso e deu no que deu.

Se há quem tenha receio e tome precauções – muitos foram os pais que se recusaram a levar os filhos para a creche neste primeiro dia do pós-confinamento, com medo – também se encontra quem ache que tudo terminou e são horas de voltar a fazer a vida normal, numa “normalidade perigosa”. Hoje mesmo dizia-me uma senhora que entrou num café/restaurante de máscara e … teve de a tirar. Sentiu-se mal ao ver que, estando completamente cheio, ninguém usava e nem sequer mantinha qualquer “distanciamento”. “Parecia que estavam a festejar o fim da pandemia. Tomei o café e saí com medo”, disse ela.    

O segredo do sucesso desta fase está na responsabilidade de todos, o que parece não ser fácil. Haverá sempre riscos e temos de os correr, mas usando das cautelas e precauções aconselhadas, mesmo que por mais absurdas que possam parecer. Ao proteger-nos, estaremos a proteger também os outros. O texto que se segue, de autor anónimo, ajusta-se como uma luva ao momento presente: 

“Era uma vez quatro indivíduos que se chamavam TodosAlguémCada Um e Ninguém.

Havia um trabalho importante (o regresso à vida normal depois do tempo de confinamento em casa) que tinha de ser feito (com toda a segurança) e pediram a Todos para o executar. Todos tinha a certeza que Alguém o faria. E Cada Um poderia tê-lo feito, mas na realidade Ninguém o fez. Alguém se zangou pois era trabalho de TodosTodos pensaram que Cada Um poderia tê-lo feito e Ninguém tinha dúvidas que Alguém o ia fazer.

No fim de contas, Todos fizeram críticas a Cada Um porque Ninguém fez o que Alguém poderia ter feito.

Moral da história:

Sem querer recriminar a Todos, seria bom que Cada Um fizesse aquilo que deve fazer, sem alimentar a esperança de que Alguém vai fazê-lo em seu lugar …

A experiência mostra que lá onde se espera Alguém, geralmente não se encontra Ninguém”.

Hoje, todos somos chamados a fazer “o nosso trabalho”, que é “cuidar de proteger o outro”, com responsabilidade e segurança. E medo … como o fizeram muitos pais na abertura das creches. Se calhar, bem. Será preferível que se vá lentamente pois o processo é novo e tudo vai ser diferente. Nas creches, hospitais, restaurantes, praias e tudo o mais.

E é velho o ditado: “Mais vale devagar e bem que depressa e mal” … 

Faça uma lista de grandes amigos …

Gosto de música, uma terapia para os sentidos e um prazer que me provoca bem-estar. Gosto de músicas, embora não de todas, independentemente do gênero e estilo. Se há música clássica que ouço com prazer, há muitas que dispenso, o mesmo acontecendo com o jazz, blues, pop, rock e outras. Até com o folclore e música religiosa. Apesar de tudo, gosto sobretudo da música feita canção, com um bom texto, muito especialmente se tiver “mensagem”. Na maior parte dos casos, apesar da melodia ser agradável, a letra “não diz nada” e não passa de banalidades repetidas à exaustão. Daí que, apesar dos “ganchos” usados na letra para dar “ênfase” à canção, na maioria dos casos vale a composição musical e então é só usufruir dela, sem pensar. Muito raramente se conjuga uma harmonia musical boa com um texto inteligente, que também ele nos leve “na viagem”. Por tudo isso, eu como toda a gente, tenho as minhas canções preferidas, muitas delas já com décadas de caminho, porque são intemporais. Em quase todas é a harmonia da música que tem evidência e, em regra, fico indiferente à letra que nada acrescenta, tantas vezes em língua que nem entendo. Basta-me o som da melodia e as lembranças que a ela associo.

Há dias um amigo reencaminhou-me um vídeo, gravação de uma canção interpretada por dois cantores brasileiros de que nunca ouvira falar, de cabelos compridos já brancos. Música e letra são da autoria de um deles, Oswaldo Montenegro, lançada há mais de vinte anos e cantada nesta versão com Renato Teixeira. Uau!!! Que música e, sobretudo, que texto!!! Tocou-me de tal forma que já não sei dizer quantas vezes seguidas a ouvi!!! E quanto mais a ouvia, mais apetecia voltar a ouvir. A letra é fabulosa. Questiona-nos sobre a vida como nenhuma outra que conheça. E ao sentir as palavras numa melodia envolvente, com elas também viajei na minha história de vida, dos afetos presentes e passados, pessoas, sonhos de que desisti, convicções que deixaram de ser, certezas que já eram, princípios ignorados e contradições. Mas aquilo que a torna espantosa, é como foi possível em apenas seis quadras (já que as duas últimas são uma repetição) conseguir resumir um leque de questões essenciais da nossa vida, que são transversais a todos, apesar das nossas diferenças!!! 

O título da música é “A Lista” e vale a pena “saborear” o texto e aprofundar todo o sentido da letra, porque ela desenterra-nos o passado, os desvios da estrada, os erros e fracassos. Mas será preferível, para acompanhar a leitura, ouvi-la com a música, de preferência na versão interpretada pelos dois músicos referidos e que pode ser encontrada com facilidade na internet. Aí vai a letra:       

“Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás … Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?

Faça uma lista dos sonhos que tinha … Quantos você desistiu de sonhar? Quantos amores jurados pra sempre … Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora? Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava, quantos você conseguiu entender? Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava, quantas você teve que cometer? Quantos defeitos sanados com o tempo, era o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver? Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?

Faça uma lista de grandes amigos … quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia … quantos você já não encontra mais.

Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber … Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?”

Esta música é oportuna para este período de “confinamento”, que pode muitíssimo bem ser de recolhimento, reflexão e introspeção. De forma clara e intencional, o autor faz apelo às lembranças de cada um de nós, numa “romagem” ao passado, e desafia-nos a ter a coragem de fazer uma Lista sobre vários aspetos do que foi a nossa vida tendo como ponto de partida há dez anos atrás, como podia ser de há vinte, trinta, quarenta ou cinquenta, e completá-la com a situação no momento presente. Questiona-nos sobre os relacionamentos, dos amores aos amigos, sobre os sonhos que sonhamos e dos que desistimos e o quanto nos pode ter afetado e, por tal, se nos revemos na imagem de agora no espelho ou na foto de outrora. De forma inteligente, faz-nos perceber que coisas havia a que dávamos muita importância e de que hoje “ninguém quer saber”, tal como aquilo que condenávamos por questões de princípio acabamos por cometer em função das contingências da vida.

Mas o mais extraordinário da música é que ela nos faz “viajar” no tempo, transportados nas asas da letra com o acompanhamento de uma melodia suave e muito bem interpretada, através desse passado que se faz presente. E percebemos o quanto mudamos, desistimos, esquecemos, perdemos e deixamos para trás, como humanos que somos …    

“Vamos (quase) todos ficar bem” …

Estou farto. Já não tenho pachorra para ouvir e ver os telejornais a falarem do “novo corona vírus”. É dose a mais. O assunto é grave? É, muito grave mesmo. E as consequências sanitárias e económicas vão ser de tal dimensão, que ninguém as consegue calcular. Nem mesmo os “adivinhadores” que nos vão atirando com projeções, estimativas, cálculos e todo o tipo de números, mas não passam disso. É certo que alguém vai acertar nas previsões, da mesma forma que “um relógio parado está sempre certo duas vezes ao dia”. Precisamos de notícias sobre a pandemia? Com certeza, mas não temos de assistir todos os dias a um noticiário onde, do princípio ao fim, não se fala de outra coisa. É a contabilidade dos infetados do dia e os totais, os mortos do dia e os totais, os hospitalizados do dia e os totais, os recuperados do dia e os totais, quando não vão ao pormenor por concelho ou ainda mais especificamente. Depois são os comentários dos especialistas mais variados, todos com voto na matéria: virologistas, matemáticos, infecciologistas, pneumologistas, investigadores e psicólogos, sempre acompanhados de muitos números, gráficos com curvas ascendentes e descendentes, picos, vales e planaltos. E as suas opiniões técnicas, muitas vezes discordantes entre si e até com a opinião oficial. E as estatísticas, nacionais e por regiões, mas onde os mais velhos têm “protagonismo”, a começar pelos utentes dos Lares. Só os “estragos” que essas notícias demasiado incisivas e pormenorizadas fazem a esse grupo etário, vivendo em instituições ou em suas casas, é caso para dizer, “basta, haja moderação”. O massacre noticioso acerca deles como maior grupo de risco tem-lhes provocado consequências psicológicas graves, como medos, confusões, ansiedade e stress, que os leva a achar mesmo que “já não têm chances de continuar a viver e que o coronavírus é a sua sentença de morte”. Como ficarão ao saber que, se morrerem com o Covid-19, não terão sequer a oportunidade de se despedirem da família, nem esta deles, e serão enfiados num saco com o letreiro de “contagioso”, que só os deixará de acompanhar se forem cremados? E já nem falo na “volta ao mundo” das notícias sobre o mesmo tema, de Espanha a Inglaterra, dos Estados Unidos ao Brasil …

Tenho de confessar que, ao fim de algumas semanas a ouvir noticiar, dia após dia, que “já há mais 252 infetados e 25 mortos”, “foram 28 os mortos nas últimas 24 horas” ou “subiu para 32” … não tenho reação. De certo modo, tornei-me insensível. Ouço falar de mortos aqui, nesta terra a que pertenço, mas parece-me que não é comigo. Só quando eu ouvir o nome de alguém que conheça possa acordar deste transe que me deixa alheado do que se passa. E não é só comigo, pois já falei com alguns amigos e estão igualmente apáticos. O Abel até dizia “que Deus me perdoe, mas ouvir falar de mais mortos ou de nada, é igual. Já não sinto, estou anestesiado”. Os mortos tornaram-se uma banalidade nas estatísticas diárias dos comunicados oficiais, embora nunca o sejam para os familiares e amigos de cada um deles, numa dor redobrada e ainda mais triste por não haver lugar a despedidas, homenagens ou tão só, velar o corpo …

Mas as conferências de imprensa das autoridades sanitárias, ou seja, do governo, onde pontificam a ministra da saúde, a diretora geral de saúde e um secretário de estado, são mais do mesmo. Todos os dias. Será por castigo? Percebo que a imprensa queira esses comunicados, perguntas e respostas e todas as pequenas questões à volta do tema. Mas não havia necessidade de ser em direto, pois os jornalistas são suficientemente inteligentes para nos fazerem a súmula daquilo que interessa e livrarem-nos da “seca”. Porque é uma grande “seca” … 

Mais do que explorar noticiosamente a pandemia, seria importante que as autoridades divulgassem orientações claras e precisas sobre o uso dos equipamentos de proteção individual, como as máscaras e os desinfetantes, para que tenham verdadeira utilidade. E estou a ver as imagens daquele homem a querer desinfetar as mãos usando para o efeito o extintor pendurado na parede …   

Apesar de todas as contradições, avanços e recuos do governo e seus mandatários, a coisa até tem corrido relativamente bem e muito se deve ao comportamento da população que respondeu positivamente ao isolamento social, salvo raras exceções. Mas tem faltado uma voz de comando única que não ande para trás e para a frente, seja isenta, faça com que as leis sejam iguais para todos e as regras não sejam meros conselhos, que tanto podem ser verdade como não o ser. Como é que num “estado de emergência”, em que não pudemos estar em grupo, impedidos de participar no funeral até de quem nos é muito próximo, de participar numa missa ou outra cerimónia religiosa, de assistir a um espetáculo ou qualquer ajuntamento social, os poderes instituídos se permitem subverter as regras e celebrarem o 25 de Abril ou deixar-se subjugar à CGTP e ao PCP, ao arrepio do “estado de emergência”, permitindo-lhes a manifestação do 1º. de Maio, como se estivessem acima da lei? Será mais importante essa manifestação ou a cerimónia de despedida de alguém que amamos e não voltaremos a ver mais? Porque se permite a primeira e se recusa a segunda sem justificação credível? De tal forma se “meteu a pata na poça” que, depois de dizerem que não havia lugar às celebrações de Maio em Fátima, agora dá-se o dito por não dito, recua-se e até parece que já são possíveis!!! Bem melhor estiveram os responsáveis religiosos. “Surpreendidos” com o recuo e agora abertura do governo, decidiram manter as Celebrações, sem peregrinos no local. Chama-se a isso, coerência e responsabilidade …

As contradições da diretora da DGS a propósito do uso das máscaras mereceram forte discordância da classe médica, pois começou por dizer que não serviam para nada, só os contagiados deviam usar por puro “altruísmo” com os outros. Só os resultados do seu uso noutros países e as pressões da classe médica fizeram mudar o discurso, com avanços, recuos e contradições. Isso mereceu críticas, caricaturas e comentários jocosos, como a mensagem seguinte: “as máscaras não servem para nada, mas até servem. Se puderes, usa-as. Mas, se calhar, não é nada preciso, porque só servem se estiveres contagiado. Mas podes estar contagiado e não saber. Por isso, será melhor usar. Não tens? Então não uses” … Veja-se que uma norma da DGS diz que “as máscaras cirúrgicas não protegem quem as usa” e, ao mesmo tempo, aconselha a quem está frágil a usá-las!!!   

Mas, toca a ter esperança e a acreditar nas frases de motivação que mais ouvimos, vemos e lemos neste tempo difícil, em especial nesta: “vamos todos ficar bem”. Acredito que isso venha a acontecer, mais dia, menos dia, mais ano, menos ano. Mas, por muito que me custe dizê-lo, “já não seremos todos” … 

Somos tema mediático, mas de baixa cotação…

Na corrida dos dias e na estranha pressa de viver o amanhã à espera de que seja bem melhor que hoje, não chegamos a usufruir de tudo aquilo que temos no presente, no agora. E a prova disso é que não nos demos conta do quanto nós éramos felizes até há somente dois meses atrás, um passado tão recente e que todos nós, sem exceção, queríamos ter de volta. Como não nos apercebemos de muitas outras coisas que são parte da nossa vida, mas que os dias de pressa deixam ficar para trás, esquecidas ou abandonadas, enquanto o nosso tempo se perde. E nessa pressa, aqueles que têm mais idade seguramente são os primeiros a ser descartados, ignorados, abandonados à sua sorte. Numa pequena frase, Domingos Lopes disse mais que muitos num grande tratado: “num mundo dominado pela implacável mão justiceira do mercado, o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para inventário”. Por isso, é marginalizado, contentado com pouco, deixado preso a um qualquer lugar onde não incomode e não seja visto, para sossego de consciências. Mas às vezes alguém olha para o mundo que o rodeia com olhos de ver e levanta a voz. Aconteceu com o economista Jorge Silveira Botelho no momento em que o seu olhar atento se fixou naqueles a quem o tempo já não cede muito tempo: 

“Só um imbecil é que é indiferente ao sofrimento dos outros, mas não é por isso mesmo, uma maior prioridade, defendermos como maior princípio procurar dar condições dignas aos que são abandonados pela sorte e que querem viver, mas não têm como? Não é por esses idosos que se amontoam nos sítios mais inóspitos, que devemos lutar pelo seu direito também a terem uma vida decente e não a continuar a fingir que não existem? Se calhar andamos a esfregar as mãos há demasiado tempo, desviando as atenções para causas que se fecham em si mesmas e ignorando deliberadamente o flagelo oculto que está a assombrar a terceira idade. Porque a continuar assim, a pobreza envergonhada que se esconde por detrás do envelhecimento desta sociedade, vai ter como destino uma paragem obrigatória na “Boa Morte”.

É bom que tenhamos consciência que vamos ser o fardo de amanhã e que corremos o risco de que também ninguém queira pegar em nós, nesta sociedade envelhecida, endividada, desigual e profundamente egoísta. Somos os próximos a querer ocupar o tempo que os outros não têm para nos dar e que nos vão querer fazer sentir que estamos a mais, porque somos uma fonte enorme de desperdício de recursos …

Talvez nem nos vamos aperceber, mas podemos ser os próximos a sentirmo-nos envergonhados, simplesmente por querer reivindicar o direito de viver!”

Sejamos realistas, usando o chavão “este país não é para velhos”. É a sociedade que criamos e temos, política, económica e culturalmente. Salvo em momentos pontuais, como é o caso dos períodos eleitorais em que são muito requisitados, adulados, distinguidos, considerados, reconhecidos, elogiados e, sei lá, objeto de inúmeras promessas (que não passam disso mesmo, de promessas), por regra são ignorados e esquecidos pelos poderes públicos, quando não pela família. Se houve um tempo em que eram respeitados na família e na sociedade pela sabedoria, experiência e história de vida, os ventos da sociedade do século XXI e o aumento da longevidade fizeram deles um peso morto para o estado e família (salvo muitas e boas exceções), condenados ao canto do esquecimento como trastes inúteis e descartáveis. E nem sequer o facto de viverem com familiar é garantia de serem tratados com respeito e consideração e de estarem protegidos de maus tratos físicos e psicológicos.

Ora, estes mais de dois milhões de portugueses (é, ainda continuam a ser portugueses!), como se não lhes bastasse os problemas referidos, são agora o alvo privilegiado para essa “coisinha” que anda por aí e não se vê. Um alvo em função do “bilhete de identidade”, agora feito cartão de cidadão, por terem nascido há muitos anos. Pelo que dizem, o vírus discrimina os velhos, ataca-os e leva-os à morte antes daquele tempo que eles julgavam ser o seu. Nada a que os velhos não estejam habituados, pois a sociedade de mercado em que vivemos, onde vale só quem produz, também os discrimina, pois além de não produzir, ainda ocupam espaço necessário, consomem grande quantidade de recursos à sociedade, são um empecilho e não se sabe bem que fazer com eles. E, com franqueza, isso é cá uma grande chatice …

O aparecimento desta pandemia, trouxe à ribalta “esta faixa etária da população” (como agora se diz), deu-lhes visibilidade e até são muito falados, coisa que não acontecia há muito tempo. Esse pequeno vírus 

deu-lhes protagonismo, fez deles o tema principal das notícias, pois todos os dias aparecem na imprensa como “objeto de estatísticas” na contabilidade dos números apresentada nos telejornais à hora das refeições. “Morreram 15 idosos num Lar em …” ou “60% dos mortos tinham mais de 70 anos”, relatam os apresentadores. O vírus dá-lhes a prioridade nos noticiários que nunca tiveram e agora “compõem” os números, fazendo com que as estatísticas tenham dimensão, diria até, grandeza. Mas, não tenhamos ilusões. Quando esta crise passar e tudo voltar ao normal, os que por cá ficarem voltarão à sua condição de ignorados, esquecidos e abandonados, o lugar que tem sido o seu.

Na impossibilidade, verdadeira ou não, da família ser o seu “porto de abrigo”, os Lares são a alternativa, o mal menor para quem não pode nem deve estar só. E tem sido precisamente nestes locais que o vírus tem provocado a maior razia, qual “raposa em galinheiro”, quando o contágio não consegue ser contido. Sinto o drama, a incapacidade, o desespero e o medo daqueles que nesses lugares têm de travar uma batalha continuada e difícil, numa missão quase impossível “para salvar os seus velhinhos” de uma doença que lhes pode ser fatal. 

Eu sinto-o profundamente porque, na grande maioria, as Instituições não têm recursos adequados para este combate, que exige espaços, colaboradores substitutos para as “baixas em combate” e todos os equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade. E o Estado, a quem cabe a responsabilidade de cuidar dos idosos, “passa a bola” às instituições a troco de uma comparticipação ridícula que as deixa “em maus lençóis” para a gestão do dia a dia, quanto mais para travar um combate como este para o qual não têm “nem armas nem munições”. O Estado comparticipa os custos duma pensão rasca, mas exige hotel de cinco estrelas. E sinto muito as críticas que têm sido feitas a instituições que fizeram o seu melhor, com os (poucos) meios que o (pouco) dinheiro lhes permite. Seria muito mais justo que o Estado relevasse o trabalho excecional das Instituições, em vez de salientar nas conferências de imprensa a contabilidade de mortos em Lares, como se estes fossem local de “condenados à morte”. Uma luta inglória que, essa sim, é bem injusta …

E nem na hora da verdade o Estado assume a responsabilidade dos idosos ainda infetados, empurrando-os à pressa de volta aos Lares como se estes fossem aquilo que não são: hospitais … E não tenhamos ilusões: para um Estado pobre e demasiado endividado, quando tiver de deliberar sobre onde fazer o investimento, seguramente os velhos vão ser esquecidos, como o foram noutros países quando, por falta de ventiladores, foi preciso decidir quem vivia e quem morria. É, já não compensa “ligá-los à máquina”, porque são “Velhos” …   

Homens, estou solidário convosco …

Este tempo de “isolamento social” pode ser “delicado”, senão mesmo perigoso, ao alterar profundamente as horas de “convivência” entre marido e mulher, companheiro e companheira. Em situação normal só estão juntos à noite (a maior parte do tempo a dormir) e ao fim de semana. Mas agora, o “fim de semana” é permanente e convivem dia após dia. Sejamos realistas, não é fácil. Sobretudo para os homens. É que todos nós sabemos quem é lá em casa o “homem” da relação! Mas há que ter cuidado com o sorriso da mulher. Se ela for capaz de sorrir quando tudo está mal … é porque já pensou em quem deitar a culpa.

Pela minha condição e vivência, estou solidário com os homens (elas que me desculpem), permitindo-me fazer-lhes algumas sugestões.  Quando perguntamos à mulher “o que se passa?” e ela responde “não é nada” ou, num tom seco e ríspido diz “naaaaaada”, de cara amuada, (que em gíria popular se traduz “de trombas” ou “de quem está com o toco”), é precisamente o contrário. Ela sabe, e nós sabemos, que algo não lhe caiu bem, que alguma coisa a incomoda. O quê? Se julgarmos que vai ser fácil descobrir “que mosca lhe mordeu”, estamos muito enganados. Em regra, não é nada fácil perceber ou só será possível depois dela “fazer muitas fitas”. E vai ser precisa uma grande dose de paciência, num jogo de (falsa?) preocupação, porque é isso que ela quer. Que fiquemos preocupados. Porque gosta de sentir essa nossa preocupação (real ou falsa). Dá-lhe um enorme prazer “assistir” ao “sofrimento” do “escravo”, como se aí esteja a sua redenção.

Se ela perguntar “este vestido faz-me gorda?”, é preciso ter cuidado a responder, porque “podemos ser presos por ter cão e presos por não ter”. A pergunta tem rasteira, porque ela tem consciência que aquele vestido a faz gorda. Assim, como já conhece a verdade, mas não quer ouvi-la da nossa boca, precisa de arranjar um “bode expiatório” pelo facto de o ter comprado e sentir-se desapontada por lhe ficar justo demais, fazendo realçar aqueles pequenos pneus à volta da cintura. Atenção, não lhe podemos dizer que a faz gorda, porque é disso que ela está à espera, para nos cair em cima dizendo que “não gostas de mim” ou “achas mesmo que sou gorda?”. Mas se cairmos também na patetice de lhe esconder a verdade, que é evidente, a reação poderá ser ainda pior com um acalorado “estás a mentir” ou “não é isso que estás a pensar”. Entre uma resposta e outra, há que escolher terceira via, uma alternativa e optar por não responder, porque nestes casos ela não quer ouvir resposta nenhuma da nossa parte. É uma pergunta somente para se ouvir, um desabafo atirado ao “vento”, que somos nós. E o vento nunca lhe responde, porque é mais inteligente do que nós. Ainda podemos optar pela fuga, inventando uma desculpa bem conseguida e fundamentada, para não dar azo a sermos “apanhados a mentir”. O argumento de que “temos de ir urgentemente à casa de banho” ou outro bem consistente, não pode deixar dúvidas para que a saída seja airosa. Lembremo-nos sempre que “a esposa é a mulher que está ao nosso lado para nos ajudar a resolver os problemas … que não teríamos se não estivéssemos casados”.

Por norma nunca estão satisfeitas, nada lhes agrada. Senão, vejamos: foi inaugurada em Nova Iorque The Husband Store (Loja do Marido), uma loja moderna e incrível onde as mulheres podem ir escolher um marido. Na entrada, as clientes recebem instruções de como a loja funciona: podem visitá-la APENAS UMA VEZ! São seis andares e os atributos dos maridos à venda melhoram à medida que vão subindo os andares. Mas há uma regra: podem comprar o marido escolhido num andar ou optar por subir mais um. MAS NÃO PODEM DESCER, a não ser para sair da loja diretamente para a rua. 

Foi assim que a mulher entrou na loja para escolher um marido. No primeiro andar havia um cartaz na porta: “1º Andar – Aqui todos os homens têm bons empregos”. Não quis ficar por ali e subiu mais um andar …

No andar seguinte o cartaz dizia: “2º Andar – Aqui os homens têm bons empregos e gostam de crianças”. Mas ela não ficou satisfeita e subiu ao seguinte …

No terceiro andar, o aviso dizia: “3º Andar – Neste piso, os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças e são bonitões”. “Uau!”, disse ela, mas achou que no andar de cima seriam melhores.

No andar seguinte o cartaz anunciava: “4º Andar – Aqui os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças, são bonitos e gostam de ajudar nos trabalhos domésticos”. “Ai meu Deus”, disse a mulher. Mas não resistiu à tentação e continuou a subir …

No piso seguinte lia-se no letreiro: “5º Andar – Aqui os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças, são bonitões, gostam de ajudar nos trabalhos domésticos e ainda são extremamente românticos”. Mas, como ainda não estava satisfeita, subiu até ao sexto andar, onde encontrou o letreiro seguinte: “6º Andar – Você é a visitante número 31.456.012 deste andar. Cá não existem homens à venda. Este andar existe apenas para provar que as mulheres nunca estão satisfeitas e é impossível agradar-lhes!!!” Obrigado por visitar a Loja dos Maridos.

Anos mais tarde abriu uma loja do outro lado da rua, a Loja das Esposas, também com seis andares e idêntico regulamento para os compradores masculinos. O primeiro andar anunciava mulheres que adoram sexo. No segundo andar, propunham-se mulheres que, além de gostarem de sexo, gostam de cerveja. Sabe-se que os andares três, quatro, cinco e seis nunca foram visitados. Caso para dizer: “que tipo de gente é esta, que se contenta com tão pouco!!!”

E, cuidado com o telemóvel. Não sei se já conhece aquela nova loja de tecnologia, com um grande cartaz na porta a anunciar: “Conseguimos recuperar as mensagens apagadas do telemóvel do seu marido”. Se for lá espreitar, encontrará sempre quatro filas ao longo do passeio que até dão a volta ao quarteirão, todas de mulheres a querer entrar na loja …

Falta o Cristo na minha cruz de flores

A campainha da rua tocou. Era o senhor José que queria falar comigo. Abri-lhe a porta, mandei-o entrar e dirigi-me a ele de mão estendida. De imediato, ele deu dois passos atrás e olhou-me muito admirado, como se eu tivesse cometido o maior sacrilégio. Só então me lembrei que já não há lugar a cumprimentos, muito menos a beijos e abraços. Temos de ficar à distância uns dos outros, afastados, até daqueles de quem gostamos … 

Este é mesmo um tempo único, algo que nunca vi, nem imaginei ver. Se me falassem em algo do gênero, diria que só acontecia nos filmes de ficção científica. No entanto, há cinco anos atrás o multimilionário Bill Gates já fazia palestras a alertar que isto viria a acontecer mais dia menos dia e que os países se deveriam preparar para quando esse momento chegasse. Por alguma razão se tornou no homem mais rico do mundo … por muitas razões ninguém o quis ouvir … 

Ora, sendo este um tempo único, veem-se as coisas mais invulgares, originais, estranhas e absurdas, tal como os comportamentos de uns e outros: algum dia pensei ver mais de dois mil milhões de pessoas enclausuradas em casa, naquilo a que chamam “isolamento social”, caso único na história da humanidade? Como é possível um mundo parado, com milhões e milhões de fábricas e todo o tipo de recintos desportivos, recreativos e culturais encerrados? Algum dia imaginei ver missas e todo o tipo de celebrações religiosas sem fieis? De ver as lojas, ginásios e estabelecimentos de ensino diversos sem a atividade que os caracteriza, sem dia nem hora para reabrir? Não é no mínimo estranho ver uma fila em que as pessoas estão dois metros ou mais separadas umas das outras? Que se passa para que, das pequenas vilas às cidades de milhões e milhões de habitantes, as ruas, praças e avenidas estejam desertas, como se os seres humanos tivessem ido para nenhures? Se há gente a cumprir religiosamente os cuidados recomendados na prevenção contra o vírus, há também quem nem sequer acredite que ele existe (como houve e ainda há, quem não se convença que há cinquenta anos Neil Armstrong foi à Lua).

Se há quem respeite e cumpra o isolamento social para conter a pandemia, por acreditar ser a melhor forma de cuidar de si, além dos outros, também sabemos existir demasiada gente que não tem qualquer respeito pelo aconselhamento das autoridades, nem sequer das leis que os obrigam a ficar em casa. Viu-se nas longas filas das estradas e autoestradas deste país, como se fosse um tempo de férias. A par do açambarcamento de alguns, há a partilha de outros. Contrariando a especulação vergonhosa de oportunistas, vimos dádivas solidárias de gente bondosa. Ao lado dos profissionais de saúde entregues à nobre tarefa de salvar vidas cuidando dos outros até à exaustão, há quem não esteja disponível para colaborar nas coisas mais básicas, como se não fosse nada com eles. Enfim, um mundo parado, feito de heróis e do seu oposto, sem atividade, mas com esperança … 

Nunca se viu um dia de Páscoa assim, em que não pudemos celebrar juntos a Ressurreição de Cristo. Ficamos privados da visita pascal, de receber o Senhor em casa, pela mesma razão pela qual a ela estamos confinados. Para compensar a perda e afirmar a condição de crente,

durante a manhã apanhei algumas camélias, abri a porta da rua e fiz uma pequena cruz florida à entrada. Depois, fiquei ali a olhar aquela cruz colorida onde faltava um Cristo que lhe desse sentido e lembrei-me dum texto escrito por Graça Alves, que se ajusta perfeitamente à minha cruz de flores, simples, mas colorida. Como ela, fiquei a pensar que o Cristo que falta na minha cruz, está de Serviço. Mas é preferível deixar que as suas palavras, que reproduzo, emocionem os leitores como me emocionaram a mim:

 “Tenho a cruz à porta. Vazia. Ok. O Cristo da minha cruz foi cuidar de quem cuida, vestiu a bata e anda pelos hospitais do mundo inteiro a segurar a vida que anda suspensa nos beirais da História.

O Cristo da minha cruz vai dentro das ambulâncias que correm pelas cidades desertas, em lutas contra o tempo e contra a morte e foi percorrer o mundo inteiro, evitando os desesperos de quem não sabe como vai ser a vida a seguir.

O Cristo da minha cruz foi suster o ânimo dos que criam as vacinas, os medicamentos, um meio seguro de nos salvar a vida. Foi ajudar quem trabalha na terra, quem foi pescar, quem faz o pão e mo entrega em casa.

O Cristo da minha cruz foi abraçar os braços vazios de abraços, foi dar a mão a quem morre sozinho, foi limpar as lágrimas dos que não podem dizer adeus a quem amam, dos que andam nas ruas vazias a recolher o lixo, a desinfetar as praças, a limpar o medo e a acompanhar as solidões que espreitam as esquinas.

A minha cruz está vazia. E eu sei (sabemos todos) que esta Semana Santa será Maior do que tantas Semanas Santas das nossas vidas: Cristo lavará os pés a todos os que, exaustos, não desistem de lutar pela vida e beijá-los-á, certamente, porque são esses os pés que, nos nossos dias, anunciam a esperança e fará com eles a Ceia de Quinta-Feira; estará à beira dos que sofrem e morrem, ajudando-os a percorrer o caminho que une o chão ao infinito e consolando os que, à beira das cruzes que se erguem no mundo inteiro, têm o coração em frangalhos.

O Cristo da minha cruz (vazia, minha cruz) está vivo. É o rosto cansado dos que não veem os filhos há muitos dias, porque têm de os proteger. Está nas mãos dos que enfrentam o medo (todos têm medo) para ajudar quem precisa. Enxuga as lágrimas dos que estão sós. Está nos que têm de tomar decisões (difíceis, as decisões). Está nos que nos mantêm informados e nos dão esperança no meio do povo. E não o deixa cair na tentação de desanimar, apesar de todos os cansaços, apesar de tudo.

Tenho a cruz à porta. Vazia. O Cristo mudou-se para dentro de cada um”.

“A vida é hoje. Não deixes para depois”

Sem sequer o imaginar, a jornalista da RTP Sandra Felgueiras já me tramou com uma parte do seu trabalho no último programa “Sexta às 9”. E porquê? Porque andei eu a escrever uma crónica durante esta semana a propósito do uso ou não de máscaras de proteção por toda a gente quando sai à rua a exemplo do que fazem os orientais e ela, ao tratar do mesmo assunto, com outros dados que não aqueles a que eu tenho acesso, retirou-me o “protagonismo que tanta falta me faz para a minha vaidade pessoal e o meu Ego”. Paciência, tenho de arranjar outra conversa para esta crónica semanal, senão a direção do TVS corre comigo sem “direito a indemnização. Agora, o artigo já pecaria por tardio, correndo mesmo o risco de ser acusado de copiar algumas informações que ali deu. 

Não sendo médico nem sequer especialista em questões de saúde, ao ler e ouvir diversas opiniões, estatísticas e dados cronológicos da evolução do novo vírus no mundo e usando o senso comum, nesse esboço defendia o uso de máscara por todos nós sempre que vamos à rua porque, boa ou má, certificada ou de fabrico caseiro, tem de reduzir drasticamente o contágio. Se eu usar e o outro com quem falo usar também, há uma dupla proteção por mais fraco que seja o tecido. Já o tinha lido, mas a jornalista desenvolveu bem a comparação entre a República Checa e Portugal, países com a mesma população. Lá, o primeiro infetado surgiu a um de Março, enquanto aqui apareceu no dia seguinte. E se nas duas primeiras semanas a evolução da doença foi em tudo semelhante nos dois países, a partir do momento em que lá foi decretado o uso obrigatório de máscara, o aumento de mortos e infetados disparou em Portugal enquanto por lá foi subindo lentamente, ao ponto de hoje, com pouco mais de uma semana, a perda de vidas na República Checa ser quatro vezes menos do que em Portugal com esta doença. 

Mas estes dados já vinham da China e outros países orientais onde, até por razões culturais, o uso de máscara é normal nestas e outras situações semelhantes, pois as perdas de vidas por milhão de habitantes são muito inferiores ao que se passa no ocidente, onde teimamos em andar na rua ou às compras sem proteção, como se fôssemos imunes ao vírus. Verdade é que até Trump e Bolsonaro já se converteram à realidade, embora à custa de muitas mortes talvez desnecessárias. Por cá, apesar da mudança do discurso oficial, ainda andamos “a ver no que param as modas” … 

Já que me “mataram” o tema que tinha para esta edição, substituo-o pela morte do “depois” provocada por uma razão qualquer, agora até pelo Covid-19. Todos aqueles que andaram a atirar para “depois” uma viagem, encontro de colegas de curso, reunião de amigos, ida à Festa do Fumeiro, das Fogaceiras, dos Tabuleiros ou qualquer festa emblemática que há muito tempo gostariam de fazer mais longe ou mais perto, mas se foi deixando para o “depois”, agora não sabem quando, como, nem sequer se o vão poder fazer. Isso e muitas outras coisas que teimamos em “postergar”, isto é, deixar para depois. Sobre tal, nada melhor (e mais fácil para mim) do que transcrever um texto de autor anónimo que acho encantador.   

“O tempo não pode ser segurado: a vida é uma tarefa a ser feita e que levamos para casa

Quando vemos, já são 6 horas da tarde

Quando vemos, já é sexta-feira

Quando vemos, já terminou o mês

Quando vemos, já terminou um ano

Quando vemos, já passaram 50 ou 60 anos

Quando vemos, nos damos conta de ter perdido um amigo

Quando vemos, o amor da nossa vida parte e nos damos conta que é  tarde para voltar atrás …

Não pares de fazer alguma coisa que te dá prazer por falta de tempo

Não pares de ter alguém a teu lado ou de ter prazer na solidão

Porque os teus filhos subitamente não serão mais teus e deverás 

 fazer alguma coisa com o tempo que sobrar

Tenta eliminar o “depois” …

Depois te ligo …

Depois eu faço …

Depois eu falo …

Depois eu mudo …

Penso nisso depois …

Deixamos tudo para depois, como se o depois fosse melhor, por que não entendes que: 

Depois, o café esfria …

Depois, a prioridade muda …

Depois, o encanto se perde …

Depois, o cedo se transforma em tarde …

Depois, a melancolia passa …

Depois, as coisas mudam …

Depois, os filhos crescem …

Depois, a gente envelhece …

Depois, as promessas são esquecidas …

Depois, o dia vira noite …

Depois, a vida acaba …

Não deixes nada para depois, porque na espera do depois se podem perder os melhores momentos, as melhores experiências, os melhores amigos, os melhores amores …

Lembra-te que depois pode ser tarde

O dia é hoje, não estamos mais na idade em que é permitido

postergar.

Talvez tenhas tempo para ler, compartilhar ou talvez deixes para depois …”

Nada na vida é dado por adquirido…

Devo ter medo. Devemos ter muito medo, porque o mundo à nossa volta está inseguro, perigoso, eventualmente letal. Nalguns países, descontrolado, a caminho do caos. Se folhearmos jornais dos últimos dias, em Itália e Espanha a secção de óbitos tem mais de uma dúzia de páginas. E tudo por causa do novo “coronavírus” que, no dizer de quem sabe, nem sequer é um organismo vivo, mas “uma molécula de proteína coberta por uma camada protetora de gordura”. Invisível a olho nu? Certamente, mas só é “invisível” para quem não quer vê-lo, tal é a velocidade de propagação e a dimensão das consequências. Um vírus, um simples vírus anónimo, desconhecido e microscópico. Já nos tirou muito, mas pode tirar-nos muito mais. Para começar, já nos tirou a segurança, a certeza de um amanhã tranquilo e saudável. Tirou-nos salários, rendimentos, trabalho, além da possibilidade de exprimirmos os afetos através dum abraço, dum beijo, duma carícia ou de um simples cumprimento. Colocou-nos à distância dos outros, alegadamente para não o espalharmos por aí, mas sem certezas pois não o vemos e nem sabemos se o temos ou o tem aquele com quem falamos. É um jogo de “cabra-cega”, jogado às escuras e de olhos bem vendados. Devemos ter medo? Claro, sem entrar em pânico, tomando as cautelas que todas as entidades sanitárias aconselham. Com rigor, o máximo rigor. Disso depende a sua evolução e a segurança, nossa e dos outros, porque todos estamos no mesmo barco.

Pode-se dizer que esta pandemia é democrática, já que nos nivelou a todos, porque todos estamos expostos ao contágio. Ricos ou pobres, famosos ou anónimos, altos ou baixos, homens ou mulheres, pretos ou brancos, justos ou pecadores, intelectuais ou ignorantes. Ele não exclui ninguém, independentemente da classe, gênero, religião ou raça. Mas não é tão linear quanto isso, pois certamente estará mais protegido aquele que se meteu no seu avião privado e voou para uma ilha isolada onde há poucas possibilidades de contágio, do que aquele morador duma barraca nas favelas de Rio de Janeiro ou da África do Sul. Veja-se o caso do rei da Tailândia: só está em “isolamento” num hotel de luxo na Alemanha, com 20 concubinas …

Também se pode dizer que o novo coronavírus fez de nós exilados na nossa própria casa, obrigando-nos a regressar ao convívio da família. E devemos tirar partido disso, dando aos nossos o tempo que não concedíamos antes da sua chegada. Será que vamos aproveitar ou cansamo-nos depressa uns dos outros? Será que isto nos vai servir de lição para o futuro?

Esta terrível pandemia fez-nos descobrir o melhor e o pior que há no ser humano. Ao sermos confrontados com ela, tanto encontramos a solidariedade de quem partilha o que tem com os outros como damos de caras com o egoísmo de quem só pensa em si, açambarcando e ignorando as necessidades de quem lhe está próximo. E tanto vemos atitudes de generosidade e dedicação aos mais frágeis, como o fazem as senhoras que cuidam dos idosos nos dois Lares da Misericórdia de Lousada, em períodos contínuos de sete dias, noite e dia dentro das instalações com os idosos, sacrificando as famílias e as suas vidas, como vemos os “bem instalados” que não querem, nem se sujeitam a estender a mão a quem precisa, especialmente nos dias que correm, ainda que seja somente para o ajudar a levantar-se.  E tanto vemos os profissionais de saúde numa luta constante e aturada até à exaustão, alvos privilegiados do mal que combatem por nem sempre estarem devidamente protegidos, como topamos negligentes a “fazer turismo em dia de sol”, sem respeitar instruções das autoridades no combate à pandemia. Não devo deixar de citar o contraste entre fornecedores da Instituição a que estou ligado, em que uns ofereceram o que lhes foi possível dos produtos de proteção, enquanto outros apareceram … com propostas vergonhosas de tão especulativas e oportunistas. Uns abutres. Da solidariedade ao egoísmo, da dedicação à indiferença, da generosidade à maldade, do trabalho ao absentismo, são múltiplos os exemplos que nos sensibilizam e fazem acreditar na humanidade, tal como existem os que chocam e nos tornam descrentes. 

Uma das grandes lições que temos obrigação de tirar desta crise que nos afeta a todos e de consequências sanitárias e económicas ainda não mensuráveis, é que “nesta vida, nunca podemos dar nada como adquirido”. Se pensarmos que há pouco mais de um mês fazíamos a vida normal, trabalhando e produzindo riqueza, planeando com a família sobre qual o destino para as próximas férias, eventualmente numa viagem há muito sonhada, programando a conclusão de um negócio, a abertura de mais uma loja, andando por aí livremente sem restrições e sem limitações, podendo “ir à bola”, ao shopping ou ao cinema, jantar com os amigos ou viajar livremente em qualquer meio de transporte, com a certeza de que o amanhã seria risonho, que sentimento nos domina volvidos que são pouco mais de trinta dias e o que poderemos esperar dum amanhã que é uma grande incógnita e em que a maior parte do que estava dado como certo já não o é? 

De repente, deixamos de poder falar de liberdade quando estamos confinados a quatro paredes por tempo indefinido, condicionados a saídas esporádicas e breves; deixamos de poder falar de segurança já que até temos medo da proximidade dos outros, medo de perder o trabalho, medo da doença; deixamos de poder projetar o futuro que estará condicionado, quando não hipotecado por muitas incógnitas; deixamos de poder fazer a vida normal, porque tudo à nossa volta perdeu a normalidade. Refugiados em casa como meros prisioneiros, temos medo do vírus como se de um fantasma se trate, sem saber por onde anda, quando chega, se nos vai assaltar e o que nos vai roubar: é a carteira? O emprego? A saúde? Ou a vida? De repente, perdemos as certezas e só ganhamos dúvidas e medos. Enfim, “não podemos dar nada por adquirido”, pois tudo o que existe na nossa vida pode deixar de existir de um momento para o outro. O sinal que tudo é transitório e nada é nosso … embora haja sempre um amanhã.

Fique em casa e cuidado com o bolso

Fiquei em casa, cumprindo uma regra fundamental no combate ao “inimigo invisível” que nos ataca a todos. Aqui, na Europa, no mundo. Mas confesso que demorei um pouco mais do que devia a interiorizar que tinha de o fazer. Por mim, pela família e pelos outros. Porque só com o empenho de todos somos capazes de sair desta, mais depressa e com “menos baixas”. Sejamos francos: começamos por não levar isto a sério, por não acreditar que este vírus é um assunto grave e por pensarmos estar imunes e ser um problema “dos outros”. “Temos a nossa vida e não podemos parar”, pensamos. Até porque esse (mau) exemplo “veio de cima”, tal como veio de vários lideres mundiais que negaram as evidências. Só quando a “sua casa lhes começou a arder” acordaram para a realidade. Alguns até aconselharam os seus povos a enfrascarem-se com whisky e vodka para que o “bicho não pegue” e só agora estão a tomar (alguma) consciência desta dura realidade.

A viver na China como treinador adjunto de futebol no Shangai SIPG, Luís Miguel criticou o que se fez na Europa, em especial Portugal, e aconselhou os portugueses a mudarem alguns comportamentos. O técnico português afirma que a Europa não está a levar este vírus com a devida seriedade, tal como fizeram os chineses, “os únicos no mundo que estão a conseguir controlar a epidemia: “A China está a conseguir controlar bem o vírus, que é mortífero, porque tem muito respeito e disciplina. Tiveram muita paciência, fecharam-se em casa, a economia parou … mas ficaram em casa. Dói-me ver o que se passa na Europa. Tivemos três meses para aprender com a China, mas nós desvalorizamos o “inimigo”. Vê-se o que se passa na Itália, Espanha, Irão. Fiquei aterrorizado quando me desloquei para a China. No aeroporto de Lisboa ninguém estava protegido, não houve controle de temperatura. Zero. Aqui está tudo de quarentena. Há disciplina. Aconselho: parem, fiquem em casa com a família. Só uma pessoa deve ir às compras. Quando voltar, desinfete os sapatos, ponha a roupa para lavar e tome banho. Parem as caminhadas, as corridas fora de casa. É preciso muita disciplina, paciência e respeito por este vírus”. 

Será que percebemos bem esta mensagem e que a estamos a praticar em pleno? Ou achamos (e eu incluo-me no grupo) que não tem mal nenhum fazer uma caminhada ou corrida lá fora, que não é preciso esse rigor de ir só uma pessoa à rua e à chegada ter de desinfetar o calçado, deitar a roupa para lavar e tomar banho?

Sejamos realistas: não é fácil aceitar que temos de parar, deixando o negócio, a atividade, o lazer, os deveres lá de fora, em suma, a vida, com todas as consequências económicas e financeiras atuais e futuras que virão depois, quando não já. Está visto que esta batalha é ganha só com a “ausência”, o que só por si é um ato heroico, se bem que os verdadeiros heróis sejam os que lutam 24 horas por dia para nos salvarem. Mas será que vale a pena pôr em risco a saúde, quando não a nossa vida – e a dos outros que amamos e nos rodeiam – porque o futuro fica comprometido? Mas não está ele desde já comprometido? O nosso e de (quase) todos?

E digo “quase todos” e não “todos” porque, como em tudo na vida, há sempre quem se aproveite da situação, sem escrúpulos ou vergonha, para ter ganhos indevidos, especulando com os bens necessários ao combate contra o vírus, já para não falar de outros. Falo no caso dos produtos de prevenção contra a propagação do novo coronavírus – equipamentos de proteção individual e dispositivos médicos, como máscaras, luvas e fatos, e produtos biocidas como o álcool, gel e desinfetantes. Mais que nunca, a não serem gratuitos, deviam estar acessíveis a preços normais. Mas, apesar das notícias dizerem que as “entidades públicas responsáveis” não encontraram sinais de abusos de preços depois de “visitar alguns estabelecimentos”, todos sabemos que a realidade nada tem a ver com essa “ficção”. E, se precisamos de nos defender do maldito vírus que vai virar as nossas vidas de pernas para o ar, em momento tão difícil, infelizmente também temos de nos defender dessa cambada de especuladores e oportunistas que não respeitam nada nem ninguém. 

Para que se compreenda a dimensão dos “roubos” e o tamanho da pouca vergonha, vou só fornecer alguns números: até há pouco tempo compravam-se “máscaras cirúrgicas” às empresas fornecedoras a “4” cêntimos. Repito para que se perceba bem: 4 CÊNTIMOS. E, de repente, como por magia, o mesmo artigo no mesmo fornecedor passou a custar … 60 CÊNTIMOS. Cada uma. O que é isto senão um assalto sem arma, um roubo à descarada? E a falta de vergonha é tal que outro fornecedor teve o desplante de nos dizer que guardou uns milhares delas para nós, por consideração. E a que preço? Um euro e meio. CENTO E CINQUENTA CÊNTIMOS. Mais de trinta e cinco vezes. Que grande consideração!!! E há uma empresa na região que as fabrica em grandes quantidades, mas nenhuma para cá. Vão todas para fora. Dizem-me que a 5,00 € cada!!! Cento e vinte e cinco vezes mais caras … e não há requisição civil. Não estamos num “estado de emergência”? A especulação nestas máscaras acontece também com as máscaras “bico de pato”, gel de álcool, desinfetantes, álcool e tantos outros. As batas impermeáveis, que nada têm a ver com o vírus, subiram quase vinte vezes. E aqueles “pés cirúrgicos” que se enfiam nos pés, saltaram de 5 cêntimos para 2,00 €.

Nem no tempo da II Guerra Mundial os bens essenciais inflacionaram tanto em tão pouco tempo, o que só vem comprovar que estamos noutra Guerra, com consequências sanitárias e económicas incalculáveis. E é neste clima que os especuladores, qual “abutres” a aproveitar-se da necessidade e do sofrimento alheio, “medram a olhos vistos, sem que ninguém os ponha onde deveriam estar”. Como penso “que podemos esperar sentados”, tenhamos consciência que “estão mexendo no nosso bolso” de forma brutal, escandalosa, a raiar o obsceno, sem ter quem nos defenda …

Com máscara ou sem máscara, vou continuar por casa, tentando ser “chinês em quarentena” ou, pelo menos, a saber copiá-lo, para meu bem e daqueles que me são próximos. Estou a aproveitar para pôr as minhas coisas em ordem, fazer jardinagem, cuidar da pequena horta, ler, fazer passatempos e separar algum do muito “lixo” que tenho cá em casa para aliviar a carga. Para não ficar aborrecido, espero não ir contar quantos grãos tem um pacote de arroz e questionar porque é que o outro pacote, que pesa o mesmo, tem mais 6 ou 7 grãos …

E não preciso de estudar para, quando me disserem que a doença é respiratória, não correr disparatadamente por aí a comprar papel higiénico às carradas… 

“Discriminados”. Ouça, fique em casa

Há dois mil anos existia uma doença terrível que, nessa altura, não tinha cura: A lepra. Quando alguém tinha sintomas da doença, dirigia-se ao Templo e era o sacerdote a confirmar se era “leproso” ou não. Em caso afirmativo, era privado do convívio com as outras pessoas, tinha de viver num lugar isolado e informar os outros que sofria de lepra. Os leprosos deviam morar fora dos muros das cidades. Como a doença era incurável e contagiosa, os lideres religiosos judaicos criaram regras que dificultavam muito a vida dos doentes. Uma delas impunha a distância mínima entre um leproso e uma pessoa sadia em 2 metros, mas que, com vento, passava para 45 metros. Os leprosos acabavam por ter de viver em cavernas isolados da sociedade e, se quisessem contactar alguém, teriam de tocar o sino para se fazer anunciar, manter a distância de segurança e dar conta que ia passar um imundo, um contaminado pela lepra, arriscando ser corridos à pedrada pelo líder religioso. As regras a que os leprosos estavam sujeitos eram minuciosas. Não podiam entrar em casas, hospedarias e igrejas, nem tocar em objetos usados por todos, como corrimões de escadas, sem usar luvas. Tinham de usar uma veste especial e levar sinetas a anunciar a sua presença. Em suma, eram discriminados pela sociedade. A sua situação era humilhante e durante grande parte da História foram vítimas desse “estigma social”. 

Ora, não estando infetado por uma das bactérias que provoca a lepra – tanto quanto sei – nem tendo sido declarado pelo “sacerdote do Templo” como “leproso”, apesar de também não estar infetado com o covid-19, senti-me a modos que um “novo leproso” nos últimos dias só pelo facto de viver em Lousada. E, como eu, todos os que moram cá e em Felgueiras, estejam ou não infetados com o coronavírus. Será que vamos ter de avisar que chegamos ou até que vamos passar, para terem tempo de se afastarem e manter uma distância de segurança? Percebo que o medo do desconhecido cria o pânico e este conduz a comportamentos absurdos, até porque nenhuma autoridade impôs e nem sequer aconselhou a quarentena. Faz algum sentido que, numa paróquia de concelho vizinho, no limite com o nosso, se diga a uma criança “não vais fazer o Pai Nosso porque frequentas uma escola que está no concelho de Lousada”? Faz algum sentido que uma jovem que estuda num colégio privado de um outro concelho, quando lá chegou em transporte do colégio, tenha sido informada para recolher as suas coisas de imediato e regressar a casa como se fosse “leprosa”, sem lhe assegurarem transporte, sem dinheiro e sem respeito, entregue a si mesma, só porque … Estiveram bem os presidentes das câmaras de Lousada e Felgueiras ao denunciar as “pressões sofridas por alunos nas Universidades para não frequentarem as salas de aulas e demais espaços delas, alegadamente devido ao vírus, medidas consideradas discriminatórias, ilegais e lesivas das pessoas.

Claro que a forma como a informação passou e a imprensa explorou, ajudou a que esta “onda discriminatória” ganhasse velocidade, qual tsunami. Senti isso nalguns telefonemas que recebi de mais ou menos longe a perguntarem-me se estava bem e não tinha nenhum sintoma, como se por morar aqui fosse sinónimo de “infeção automática”; em encontros desmarcados à última hora porque “não me parece ser o momento oportuno”, “adoeceu-me o adjunto e já não posso sair” ou outra desculpa mais ou menos esfarrapada.

Entretanto, o vírus está a espalhar-se a um ritmo crescente a partir de várias origens, aumentando o número de infetados e já com um morto na estatística, o que tem levado as autoridades a tomar mais medidas, novas medidas, sendo que a atividade do país é reduzida. Instituições, empresas, estabelecimentos comerciais, desportivos, recreativos e muitos outros encerram ou quase. E o conselho geral das autoridades é um só: “Fique em casa”. Porque é preciso conter a disseminação do vírus. É que, ao estar com alguém, não sabemos se estamos ou não a correr riscos. Começamos a ter noção dos contactos cruzados, que A esteve com B e este com C que se soube agora estar infetado. A cabeleireira encerrou o salão ao saber que uma cliente esteve em contacto com familiares de outra a quem foi diagnosticada a infeção. E uma esteticista telefonou a todas as clientes cancelando as marcações, ao tomar conhecimento que a mãe fora confirmada como mais um caso. E quem se encontrou com alguém nesta situação pergunta-se: “Será que também já estou”? 

Por isso, custe o que custar, faça tudo o que puder para ficar em casa, ainda que isso não seja fácil. E como o humor continua a ser uma das formas de combater o medo, transcrevo a mensagem enviada por um amigo metido em casa, de autor desconhecido:

“Primeiro dia de isolamento- Isto do covid até tem as suas vantagens: não vou para o escritório aturar o pascácio do chefe e posso dormir até mais tarde. Vou aproveitar para ler aqueles livros que comprei na feira do livro em 1988 quando namorava com a minha mulher e a levei lá. E ver se desligo um bocado da net e do facebook e fortaleço laços com a patroa e os miúdos.

Segundo dia de isolamento- O meu apartamento até é bem fixe e acolhedor. Tenho uma família 5 estrelas: a minha mulher é meiga e os putos são porreiros. A vizinhança é do melhor.

Terceiro dia de isolamento- Os miúdos acordam muito cedo. A minha mulher ressona. Gostei muito do pequeno almoço feito por ela, mas não percebi muito bem o que ela quis dizer que isto não é nenhum hotel. Os vizinhos são um pouco estranhos.

Quarto dia de isolamento- Os sacanas dos putos já levaram duas galhetas cada um. São dois terroristas. A gaja também já começou a desconversar. Fui lá abaixo pôr o lixo, alguém desinfetou o elevador com lixívia. Carreguei nos botões com os cotos.

Quinto dia de isolamento- Matem-me. Prefiro apanhar o vírus do que estar neste inferno. Acabou o álcool, o suicídio parece-me a melhor solução. A bruxa não me larga. Desconfio que os miúdos não sejam meus. Os vizinhos de cima não me dispensaram um rolo de papel higiénico. Forretas.

Décimo dia de isolamento- A privação de álcool e tabaco provoca-me alucinações. A minha mulher e eu estamos muito melhor desde que ela se barricou no quarto. Dei os putos para a adoção. Os vizinhos são uns filhos” …