“Encontrei o seu cão …”

Tenho uma empresa, uma empregada e um escritório, onde se atendem clientes, fazem negócios e desenham projetos. Por mais estranho que pareça, também ali se promove a adoção de animais abandonados e até se dá abrigo a um ou outro. Por isso, passa lá gente sensível à causa, que ajuda a fazer este mundo um pouco melhor. Gente boa, discreta, humilde, atenta, que tantas vezes vai além do possível só para salvar um animal. Há histórias lindas de fazer chorar, lições de vida que ficam no anonimato, dedicação aos que não podem nem sabem reivindicar, não têm voz, apesar de terem direitos. Simples e preocupados, dos que passam na rua e veem o que a maioria não enxerga, e fica quando os outros têm pressa, que procura uma solução quando o normal é ignorar.

Se eu fosse aquele cão rafeiro que foi levado para o escritório pela Teresa, provavelmente contaria algo como isto: “… e então, cansado, ferido por dentro e por fora, com sede e fome, desisti de mim. Fiz um buraco na terra e lá me deitei enroscado para esperar o fim, como sempre o fazem os animais abandonados. Quando ouvi passos e vozes humanas, já não abri os olhos. Nem tinha forças, nem acreditava. Mas você parou, tocou-me e chamou por mim. Quis rosnar, arreganhar os dentes, porque só me enxotaram, mas você disse: “agora está tudo bem”. Cortou a corda que trazia ao pescoço, com que me amarraram à árvore e que eu roera. E pegou-me ao colo como se fosse um bebé. Deixei-me ir. Estava cansado de lutar. Deu-me banho, remédio, cuidou minhas feridas e mazelas, deu-me água e comida, sem um grito, um pontapé. E um espaço, um lugar, uma companhia. Quando já não acreditava, tirou-me da rua, lutou por mim. Não passou sem me ver e sentiu a minha solidão”. Sempre que olhava esse cão, não deixava de ter vergonha pelas nossas pequenas e grandes misérias … 

Como alguém partilhou comigo um lindo texto de autora anónima com o título “Encontrei o seu cão”, não posso deixar de o fazer também aqui. É um bom complemento ao tema em questão.

“Hoje encontrei seu cão. Não, ele não foi adotado por ninguém. Aqui por perto a maioria das pessoas já tem vários cães e quem não tem nenhum não quer um cão. Eu sei que você esperava que ele encontrasse um bom lar quando o deixou aqui, mas ele não encontrou. Quando o vi pela primeira vez ele estava bem longe da casa mais próxima, sozinho, com sede, magro e mancando por causa de um machucado na pata.
Eu queria tanto ser você no momento em que parei na frente dele! Então poderia ver sua cauda abanando e seus olhos brilhando ao pular em teus braços, pois ele sabia que você o encontraria, sabia que você não o esqueceria. Poderia ver o perdão nos olhos dele por todo sofrimento e dor que passara na interminável jornada à tua procura. Mas eu não era você. E apesar de minhas tentativas de convencê-lo a se aproximar, os olhos dele viam um estranho. Ele não confiava em mim. Ele não se aproximava.
Então ele se virou e seguiu seu caminho, pois tinha certeza de que o caminho o levaria a você. Ele não entendia porque você não o estava procurando. Ele só sabia que você não estava lá, sabia que precisa de te encontrar e que isso era mais importante do que comida, água ou o estranho que lhe poderia dar essas coisas.
Percebi que seria inútil tentar persuadi-lo ou segui-lo. Nem o nome dele, eu sabia! Fui para casa, enchi um balde com água, coloquei comida numa vasilha e voltei para o lugar em que o encontrara. Não havia nem sinal dele, mas deixei a água e a comida debaixo da árvore onde ele estivera descansando ao abrigo do sol. Veja bem, ele não é um cão selvagem. Ao domesticá-lo, você tirou dele o instinto de sobrevivência nas ruas. Ele só sabe que precisa caminhar o dia todo. Ele não sabe que o sol e o calor podem custar-lhe a vida. Ele só sabe que precisa de te encontrar.
Aguardei na esperança de que voltasse a buscar abrigo sob a árvore, na esperança de que a água e a comida fizessem com que confiasse em mim; assim poderia levá-lo para casa, cuidar do machucado da sua pata, dar-lhe um canto fresco para se deitar e ajudá-lo a entender que você não faria mais parte vida dele. Ele não voltou naquela manhã e a água e a comida permaneceram intocadas. Fiquei preocupada. Você deve saber que poucas pessoas tentariam ajudar teu cão. Algumas o enxotariam, outras chamariam a carrocinha que lhe daria o destino que você talvez achasse que o libertaria de todo o sofrimento pelo qual porventura estivesse passando.
Voltei ao mesmo lugar antes do anoitecer e não o encontrei. Na manhã seguinte, retornei e vi que a água e a comida continuavam intactas. Ah, se você estivesse aqui para chamá-lo pelo nome, tua voz lhe é tão familiar!
Comecei a caminhar na direção que ele havia tomado antes, mas sem muita esperança de encontrá-lo. Ele estava tão desesperado para te encontrar, que seria capaz de caminhar muito quilómetro em 24 horas.
Horas mais tarde e a uma boa distância do lugar onde o vira pela primeira vez, finalmente, encontrei o seu cão. A sede já não o atormentava, sua fome fora saciada, suas dores haviam passado, o machucado da pata não o atormentaria mais. Seu cão estava morto. Livrara-se do sofrimento. Ajoelhei-me ao lado dele e amaldiçoei você por não estar ali antes para que eu pudesse ter visto brilho naqueles olhos vazios, nem que só por um instante. Rezei, pedindo que sua jornada o tivesse levado ao lugar que imagino você esperava que ele encontrasse. Se você soubesse por quanta coisa ele passou para chegar lá… E sofri, sofri muito, pois sei que se ele acordasse agora e se eu fosse você, os olhos dele brilhariam ao vê-lo e ele abanaria o rabo perdoando-o por tê-lo abandonado”.

Receia que enjoem a “marmelada”…

A vida de há sessenta anos atrás era feita de privações, fome, frio, trabalho duro, quando havia. E necessidades. Havia muito pouco para ganhar, quase nada para distribuir, algum fruto para proteger. Havia fome de tudo, porque havia falta de tudo. Se faltava a broa (era o pão dos pobres, pois não havia “massa” para “moletes” nem sêmea), que era o mais elementar dos alimentos, muito mais difícil era ter acesso ao peixe, à carne, ao queijo, à manteiga e até à marmelada. Por falar em marmelada, em regra, fazia-se pouca por estas bandas, mesmo daquela em que está a pensar. Os marmeleiros, dispersos nas bordas dos campos e quase sempre junto aos regos de água, eram cultura marginal. Diria até que deles se aproveitavam mais as varas direitas e fortes para fazer os “paus de marmeleiro”, usados nas disputas do “jogo do pau” e para “aquecer” as costas dos incautos nas rixas de feira, como resultado de umas canecas de vinho a mais. Mas eram poucas as pessoas que faziam marmelada de marmelo para consumir em casa, até porque o açúcar (amarelo) era pouco para necessidades mais primárias. O meu tio vendia na loja marmelada em pequenas caixas de madeira, acessível só a alguns e, mesmo assim, às fatias. E, sendo natural que ainda esteja a pensar na “outra marmelada”, esses “marmelos” só se pressentiam pelo volume, de tão embrulhados em roupa. Nunca andavam à mostra. “Não faltava mais nada”, diriam as gentes dessa época. Nem dava para chegar perto, nem estavam assim à “mão de semear”. Eram mais sonhados que acariciados. E se a dona estivesse à conversa com um candidato a “cozinheiro ajudante” para fazer essa “doçura”, tal só acontecia à distância de três metros e com uma janela a separá-los, sendo certo e sabido que na janela ao lado e bem atenta às jogadas, estava a progenitora da moçoila, feita polícia de serviço. Não havia baldas. Nem sequer a “proprietária dos ditos”, por formação e educação, estava para aí virada. Até nas feiras de ano. Os lavradores iam com a família toda. Ele, mal chegava, ia direito à feira do gado para “apreçar” uma junta de bois de trabalho, enquanto a mulher e filhas percorriam os tendeiros para comprar um lenço da cabeça ou umas arrecadas no ourives. 

As filhas iam à frente, coradas das papas que comiam antes de sair de casa, todas aperaltadas e com o cordão de ouro sobre “eles”. À vista, só o cordão. E os “marmelos”? Nem vê-los. Só os volumes, bem embrulhados. Nada mais. Atrás, mas suficientemente perto para as controlar, ia a mãe, armada em guarda-costas. Os moços, de colete e chapéu, metiam conversa, mas não havia “avanços” para chegar “ao pé”. Só no dia a dia, em especial durante os trabalhos, surgiam as oportunidades. No campo, a segar erva, o “controle” era bem menos apertado. E aí, podia acontecer. 

Num desses dias, um garoto chegou a casa esbaforido e a gritar: “Oh mãe, o João das Quintãs estava a fazer “porcarias” com a nossa Mila “antr’omilho”. Houve consequências. A Mila não saiu de casa durante um mês. O João levou uma “coça” do pai com a correia dos bois e, apesar de ser jovem, teve de casar com a Mila, “sem tugir nem mugir”. E a criança nasceu “antes do tempo”. É que, “marmelada” a sério, só podia ser feita depois do “papel assinado” e mesmo assim, em bom recato. Em público, nem pensar. Já a Maria teve pior sorte. Também “engordou”. Quando os pais souberam da “maroteira”, puseram-na fora de casa, porque era “uma vergonha”, a desonra da família …

Hoje, na região, ainda se faz marmelada com marmelos que pendem do marmeleiro, se bem que a maior parte seja industrializada. Toda a gente sabe que é mais fácil “produzi-la” no supermercado. Dos outros “marmelos”, outrora quase “clandestinos”, já não há a preocupação de os manter fora dos olhares indiscretos dos mirones como segredo bem guardado. Pelo contrário, as modas mandam que sejam expostos (e bem), usados como arma de ataque e conquista, íman para atrair quem dê uma mão (ou duas) para fabricar o tal “produto”. São artigo para provocar a “concorrência”, com visual muitas vezes trabalhado “cirurgicamente”. Deve dizer-se que passaram a merecer um cuidado especial das donas, sendo sujeitos a tratamentos para melhorarem o “aspeto” e a “atitude”, devendo ser firmes e de “cabeça levantada”, às vezes “desafiantes” e “provocadores”. É que estão sujeitos todos os dias a serem “observados” e “avaliados”. Criou-se toda uma indústria de “suportes” especiais, diversificados, conforme as “necessidades” específicas de cada par, em tamanho, aproximação ou afastamento, maior ou menor elevação, para mostrar verdades ou criar ilusões e enganos. No mínimo, num “espírito humanitário” para “levantar os caídos” ou “dar vida aos mortos” … E a “marmelada” deixou de ser feita às escondidas, em recato, longe da vista e dos olhares gulosos dos “consumidores”. Saiu à rua, invadiu os espaços privados e até os públicos, “trabalhada” sem restrições, limites e inibições de local, tempo, presenças e preconceitos, como um direito de liberdade. Nem se sabe bem se às vezes é para “consumo próprio”, “exibicionismo” ou só “para inglês ver” …

Em termos gastronómicos, sempre ouvi dizer que, comer marmelada com queijo, sabe a casar. E ainda hoje há quem peça para sobremesa “um dueto” ou “Romeu e Julieta”, essa mistura de doce e amargo que dá gosto à vida.

Dizia-me um amigo que os seus filhos adolescentes, já andam fartos de bolos e doces e até já enjoaram a marmelada. Por isso, ao ver as facilidades que hoje têm para fazer da “outra marmelada”, podendo variar de “fruta” sempre que querem, ele anda muito preocupado e manifestou-me os seus receios. Tem um medo terrível que eles um dia destes também “enjoem” esse tipo de “marmelada” e queiram variar e experimentar “outras sobremesas”, menos ortodoxas e mais alternativas, mas para as quais ele não está nada mentalizado …

Com esta burocracia, não vamos lá…

Há anos comprei um automóvel em Espanha e, para o legalizar, tive de ir aos serviços aduaneiros perto do aeroporto, numa sexta feira à tarde. Quando perguntei a um funcionário onde poderia tratar desse processo, informou-me que voltasse às nove horas de segunda feira e fosse a um guichet que me indicou. E eu voltei na segunda-feira e, às nove, já esperava que abrisse o tal “buraco”. Mas, nada. Nove e meia e continuava fechado. Quando vi um homem perto, perguntei-lhe se o postigo não abria. Ao saber para quê, respondeu: “Ah, uma guia de circulação? Vá àquele balcão”, apontando para o extremo da sala. E lá fui eu ao balcão onde me atendeu um indivíduo com cara de poucos amigos. Expliquei-lhe o que pretendia e tive logo a resposta: “Ah, uma guia de circulação!!! Tem de comprar o impresso naquele guichet”. E apontou-o. E lá fui eu parar onde não estava ninguém e esperei até aparecer uma senhora que ainda vinha a comer. “Ah, quer uma guia de circulação? Preciso dos seus dados”. E sentou-se ao computador. Enquanto escrevia, foi-me perguntando o nome, morada, bilhete de identidade, contribuinte e muitas outras coisas. Esteve tanto tempo agarrada ao teclado que até fiquei com medo de não ter dinheiro que chegasse para pagar impresso tão “importante”. Por isso, fui verificar quanto tinha na carteira pois, “pela aragem”, imaginei que fosse caro. Quando ela parou de escrever, ordenou-me: “Vá pagar àquele guichet e traga-me a guia de pagamento”, enquanto apontava para o seu lado direito. Lá fui, à espera que me saísse uma “conta calada”. Esperava-me um funcionário já entrado na idade que, muito educadamente, me informou: “São vinte cêntimos”. “Vinte cêntimos” perguntei muito chocado? “Não era mais económico ao Estado colocarem impressos em cima do balcão, de graça”? ”Não podemos fazer isso. Têm que ser vendidos. São as normas”, respondeu conformado com o sistema. E, de impresso na mão, tive de fazer novamente a rota das “capelinhas”, em sentido contrário …

Estes são os caminhos da burocracia estatal com que me deparei (quase) sempre ao longo da vida, quer a nível central, regional ou local, que complicaram tudo aquilo que deveria ser simples, fazendo (quase) sempre das instituições públicas um empecilho, quando deveriam ser uma ajuda. Não se pode negar que ao longo dos anos houve alguma evolução – e mau seria se a não houvesse com todas as novas tecnologias ao seu serviço. Mas a verdade é que, mesmo com o “Simplex”, a nossa vida ficou mais “Complex”. Cada dia há mais e mais exigências, novas exigências, os processos são mais volumosos, agora “alegadamente” por se tratarem de normas impostas pela UE (leia-se, Um Empecilho). Para tudo são precisas documentações, informações, autorizações, inspeções, certificações e muitos outros “ões”, cada vez mais caros, cada vez mais demorados, que fazem da vida um suplício. E nem adianta ter os “ões” no sítio ,.. 

Na época em que se fala tanto de descentralização, nunca vi na minha vida um estado tão centralista. De tal forma que, recentemente, tive de submeter um processo a uma entidade estatal no Porto. Apesar de terem técnicos qualificados, o processo foi enviado a Lisboa. Depois de registado, para minha surpresa, foi remetido para informação aos técnicos do …  Porto. Quando estes o informaram, o processo voltou a viajar até à capital, provavelmente porque se esqueceram “de lhe dar uma volta pela cidade”. E então, quando começou a estorvar em cima de alguma secretária, “fizeram o favor” de o remeter ao Porto, para a resposta vir a ser entregue ao interessado. Só foram nove meses de espera, o tempo habitual para uma gestação normal. E no que deu o “parto”? Uma informação igualzinha a … zero. Nove meses de tempo perdido nos longos caminhos de um estado enrolado em burocracia e de que nenhum partido, governo ou entidade se consegue livrar, para mal dos nossos pecados. 

Parece-me que, esta gente que nos tem governado, nem sequer tem a perceção dos enormes prejuízos que causa às pessoas, às empresas, à economia deste país e a quem precisa de trabalhar. Ou, se calhar, tem. Mas, como diz o ditado, “pimenta no c. dos outros é refresco…”. Por isso, estão-se borrifando. 

Quando me dizem que um processo meu tem de ir para uma entidade no Porto ou, especialmente, para Lisboa, vem-me sempre à memória a minha infância. Nessa época distante em que as comunicações e os transportes eram escassos e demorados, quando alguém dizia que ia a Espanha, toda a família se despedia dele porque não se sabia ao fim de quanto tempo se voltaria a vê-lo. E é isso que imagino quando um processo tem de ir a uma entidade no Porto. Mas, quando alguém ia para o Brasil, como o Zé da tia Quina, não era só a família, mas toda a aldeia a despedir-se dele, num “adeus até sempre” (verdade seja dita, nunca mais o vi), como se fosse a enterrar. Ora, é algo semelhante ao que acontece quando um processo tem de ir para Lisboa, essa Lisboa que para estas coisas parece estar mais distante do que o Brasil, esse Brasil para onde o Zé da tia Quina foi e nunca mais o vi. E então, se resolvem enviar o processo de uma entidade para outra e dessa para outra e assim sucessivamente, num carrocel sem fim onde ninguém decide coisa nenhuma, é perder a esperança de conseguir que algum dia lhe deem despacho. Fico com a sensação que é uma chatice muito grande o ter de assumir a responsabilidade de tomar uma decisão. 

Conta-se numa velha história militar que dois coronéis tinham o seu gabinete voltado um para o outro, apesar de estarem em edifícios separados e, como os gabinetes eram envidraçados, de um via-se o que se passava no outro. Um dos coronéis tinha a secretária coberta com rimas e rimas de processos, que se amontoavam também nas estantes à volta do gabinete. Pelo contrário, outro coronel tinha o seu gabinete sempre arrumado e livre de processos pois, em poucos minutos, despachava-os todos, independentemente da quantidade. Como não se conheciam pessoalmente, aquele que tinha o gabinete atulhado de papelada andava intrigado como é que o outro resolvia tudo tão depressa. Um dia ocorreu uma reunião militar no quartel e os dois coronéis acabaram por se conhecer. Então, o primeiro coronel aproveitou para perguntar ao seu camarada de armas como é que ele fazia para aviar a papelada e ter a secretária limpa e tempo para ler o jornal e sair antes da hora, enquanto ele fazia horas extraordinárias e nem assim se via livre dos processos. O outro coronel respondeu-lhe: “É simples. Em todos os processos que me chegam, eu despacho logo “ao cuidado do coronel Silva”. “Ah, agora percebo qual a razão porque me estão sempre a chegar montes de processos. É que, o coronel Silva, sou eu” …

Os governantes pedem aos portugueses aumento da produtividade para ajudar o país a sair da crise. Mas, um dos maiores empecilhos para se atingir a produtividade desejável é o próprio estado, apesar do anúncio de todas as reformas da administração pública de que já ouvimos falar há décadas e que nos trouxeram até aqui. Se o estado não é capaz de simplificar os procedimentos e ser uma ajuda para atingir tal objetivo em vez der ser um obstáculo, dá-me ganas de me tornar anarquista e pedir para nos libertarem desse fardo que é o controle estatal e assim acabar com as “burro…cracias”. Que saia do caminho e “nos deixe trabalhar”. Porque, na sua sabedoria, o povo diz que “não há nada mais prejudicial a quem trabalha do que aqueles que nada fazem” …

Só o miúdo diz a verdade: o rei vai nu…

Sendo uma noite em que punha um olho no computador e o outro na televisão, não pude deixar de ver o visual excêntrico de Conan Osiris, o nome artístico de Tiago Miranda, mais marcante pela originalidade do artefacto dourado que trazia na cara e que lhe conferia um ar de extraterrestre, no apuramento da canção que representará Portugal no Festival da Eurovisão. E ainda, aquela canção “estranha”, para não lhe chamar algum nome “estranho”, que veio a arrebatar, quase por unanimidade, os votos do júri e do público. Perante essa vitória esmagadora dos “telemóveis” e o entusiasmo gerado com a canção, que já acreditam ser das candidatas a vencer em Israel, confesso-me estupidificado, insensível e ultrapassado no que à música diz respeito e aos intérpretes. Ainda sou dos que pensam que a primeira coisa que uma música deve ter é “melodia”. E, como a não vi, provavelmente, confirma-se que estou mesmo surdo. Mas eu devo ser a exceção, pois todo o mundo achou que a canção “é o máximo”. Um comentador da ocasião diz que “é música do mundo, fruto da globalização acasalada com despudor em falar do que lhe vai na alma”. E mais: “é Bollyood, canto cigano, pimba, metal em simulador de instrumentos musicais para PC, é fado, quizomba e funaná”. É obra, conseguir ver tudo isto quando o autor diz “vou partir o telemóvel”. Radicalmente inovador. Acho muito curioso que a Simone Oliveira nem se quis pronunciar sobre a música. Só conseguiu dizer, muito diplomaticamente, isto: “Gostava de dizer que gostei, mas não posso falar de algo que não entendo”. Para ela, como para mim, esta canção “está muito à frente”. É preciso estar noutro “nível sensorial” para a entender. E, como é “diferente”, dizem ser “futurista”. Se é disto que o futuro nos reserva, eu quero ficar no presente …

Ouvi também alguns intelectuais da nossa praça “com credenciais”, a dizerem que “sentem coisas” que mais ninguém consegue sentir ao ouvir a música. Fico na dúvida quanto ao “sentir coisas”. A música, ou se gosta ou não gosta, ou fica no ouvido ou não fica. Um comentador mais tradicional, não se coibiu de dizer que, “se a música não for do gosto dos velhos, dizem que é boa; se é diferente (seja isso o que for) do resto do panorama da música pop, é boa; e se causa polémica, é perfeita”. Estamos a resvalar na escala do superficial e considera-se que tudo é “artisticamente justificável”, por mais absurdo que seja.

 Não sei se o Tiago vem de Israel com uma surpresa estampada no rosto, tal como a surpresa que teve ao ganhar na final lisboeta. Disse que era a coisa mais improvável que ele esperava que acontecesse. Tal como eu. Provavelmente, só os inteligentes a compreendem. Mas, na verdade, toda a gente (ou, pelo menos, muita gente) “diz” que a adorou. Ou se traz de lá uma mão cheia de nada com uma música que, a meu ver, depressa será varrida para o caixote do esquecimento.

É um sinal dos tempos, onde o que importa, é ser diferente. Gosto de ler um bom livro, com uma história, um enredo, um objetivo. Bem escrito. Já li uns quantos, sendo que há alguns de que gostei mais que outros. É natural, é o meu gosto pessoal a funcionar. Mas agora, tenho dado comigo a deixar livros a meio, por não contarem uma história ou não dizerem nada. Assim como um monte pedras nem sempre é uma casa, um amontoado de palavras também não é garantia de ser um bom livro. E isso também se passa no cinema, pois já se fazem filmes sem enredo, sendo o filme negro de João César Monteiro o exemplo máximo que conheço do “não filme”. Curiosamente, até foi financiado pelo Ministério da Cultura … será isso cinema?

Na pintura aprecio um quadro figurativo, que tenha como referencial a realidade. Não sendo um especialista na matéria, permite-me dizer se está bem ou mal pintado ao compará-lo com a realidade que pretende mostrar. Mas hoje, a maioria dos quadros são um jogo de cores, quando não pretos e brancos, onde cada um “vê” o que quer ver. Às vezes, parecem trabalhos de crianças em jardim escola. Não sei dizer se são bons ou não. Nem quero. São novas experiências, a rejeição do tradicional a favor do experimental, só porque sim.

Hoje as sociedades ditas civilizadas chegaram a um ponto em que já é difícil descobrir algo de novo, capaz de despertar interesse. Por isso, usa-se o absurdo para chocar, o ridículo para entreter, o anormal para atrair atenções. Basta ver os novos programas de televisão para percebermos até onde se caiu só para conquistar audiências. Verdade seja dita, há sempre quem alinhe, quem se submeta a ser exposto qual macaco em jaula, sem privacidade, dignidade e muito mais, em nome do mediatismo instantâneo e das audiências. É o vale tudo.

A história é antiga, mas adapta-se bem à realidade de hoje. Havia um rei muito vaidoso, que gostava de andar sempre bem arranjado e com vestimentas únicas e tidas como maravilhosas. Sabendo disso, dois aldrabões foram ter com ele e disseram-lhe: “Majestade, sabemos que gostais de andar vestido como ninguém e bem o mereceis! Por acaso, descobrimos um tecido muito belo, tão belo, que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato desse tecido, Vossa Majestade saberá distinguir os inteligentes dos tolos, dos parvos e dos estúpidos que não servem para a vossa corte”. “Oh, tragam lá esse tecido e façam-me um fato, para eu saber quem me serve”, responde-lhes o rei. Os dois aldrabões tiraram-lhe de imediato as medidas e semanas depois apresentaram-se ao rei: “Aqui está o fato de Vossa Majestade”. O rei não via nada, mas como não queria passar por estúpido, respondeu: “Como é belo!!!”. Então, os aldrabões fizeram de conta que vestiam o rei e elogiaram a sua beleza: “Oh que elegante. Sereis invejados por todos”. A notícia correu pela cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver. 

Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo com o novo fato e toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido. Até que, uma criança que estava pendurada na árvore, gritou: “O rei vai nu! O rei vai nu!”. 

Foi o espanto e a gargalhada geral …

Ao ouvir a canção de Conan Osiris e escutar cada palavra, fico com a sensação de que só pessoas muito inteligentes a conseguem “sentir” e compreender. Porque eu, estou como aquela criança pendurada na árvore. E também só me apetece gritar: “o rei vai nu”!!!

Gases com som e odor. Só falta a cor…

Pré-aviso: se é sensível a gases mal cheirosos, que é o mesmo que falar de flatulência, pare de ler e mude de página. É que este é um artigo de m. (para quem ainda não sabe, o m. é a forma recatada de dizer merda). Vire para as páginas da política ou do futebol, embora não seja garantido que o cheiro seja melhor …

Gosto de caminhar e faço-o por prazer, sem me sentir obrigado pelos benefícios que traz à saúde física e mental. E hoje, ao fazer o caminho do costume, dei comigo a observar-me e a sentir um alívio da pressão intestinal pela saída de gases através do “tubo de escape”, ao mexer o corpo à medida que caminhava. É que, como cada um de nós, carrego dia e noite uma “fossa séptica e uma rede de esgotos” de que não me consigo separar, nem a dormir. Assim, todos os homens ou mulheres, ricos ou pobres, feios e bonitos, pretos e brancos, altos e baixos, não conseguem fugir e cada um transporta a sua fossa para todo o lado, onde processa os alimentos que come, com muito ar à mistura, além de produzir outros gases através do metabolismo bacteriano desses alimentos no intestino. É por essa razão que temos necessidade de “largar umas farpas” diariamente, para aliviar a “pressão na tripa”. Faz parte da natureza humana e do animal que não deixamos de ser. Os “puns”, popularmente chamados de “peidos”, “farpas”, “traques”, “ameixas”, “bombas”, “tiros” e outros nomes mais ou menos ousados, são a “manifestação pública” do estado do nosso corpo. E, embora não sejam tidos por convenientes, são normais e necessários, um sinal do bom funcionamento do nosso organismo. 

Consideram os entendidos que cada pessoa dá em média vinte “disparos” por dia. Por isso, não se sinta mal e “dispare” também. É natural. Sabemos que é um tabu e a sociedade reprime aqueles que “soltam o escape” e deixam sair livremente os gases. Não é bonito e as mais elementares regras de educação mandam conter o “aperto” e fazer com que se dissipe no interior do intestino ou sorrateiramente se escape sem ruido e, se possível, sem odor. Por isso, na caminhada estamos à vontade para soltar o “foguetório” livremente, sem ter de olhar para o lado. Somos livres para nos vermos livres do “ar a mais”.

No Malawi, o parlamento criminalizou as manifestações públicas de flatulência através do “traque”, com o argumento de que “o governo tem a obrigação de garantir a decência pública e introduzir ordem no país”, tendo “as pessoas de controlar a natureza. Foi um hábito que só apareceu com a democracia, quando sentiram que podiam libertar gases em qualquer lugar”. Será que noutro regime não se podiam “peidar”? Assim, a flatulência virou ilegalidade e passou a ser crime. Só se pratica na “clandestinidade” … Vá lá. Aqui ainda não é crime!!!

Para quem é mais velho e tem algumas complicações, a produção de gases é maior e a dificuldade de “contenção” um problema acrescido. Um homem que sofria de flatulência e tinha de a “descarregar” com frequência, teve de fazer uma viagem de comboio. Para se precaver, escolheu uma carruagem vazia. No entanto, já com o comboio em andamento, entrou outro passageiro, que o deixou preocupado. Foi a medo que, quando lhe chegou a vontade, deixou escapar um “traque” silencioso e depois um outro em “tom baixo”. Como o tal passageiro não reagiu, ele apercebeu-se que devia ser surdo. Assim, à vontade, foi dando liberdade aos gases, contendo-se na intensidade sonora sem que o companheiro de viagem reagisse. Às tantas, o “traque” saiu qual “tiro de canhão”. O passageiro estremeceu e perguntou: “O que foi isto”? O autor do “morteiro” levantou-se de imediato, foi até à janela para disfarçar e respondeu: “Há trovoada. Foi um raio”. Muito intrigado, o passageiro levantou a cabeça, fez sinal de quem estava a cheirar o ar e retorquiu: “Então, deve ter caído em m. …

Se alguma universidade fizesse um estudo sobre os “peidos”, dividia-os em várias categorias e classes, a começar pelos “p. silenciosos” e os “p. sonoros”. Nos “p. silenciosos” consideram-se os “p. clandestinos”, de que ninguém se apercebe por saírem “à socapa” e sem qualquer odor para dizer “estou aqui” e os “p. anónimos”, também largados sub-repticiamente, sem aviso prévio, mas que descobrimos estarem à nossa volta pelo cheiro que nos invade o nariz. Nos “p. sonoros” há uma variedade maior. Começando pelos “p. musicais” que, conforme o maior ou menor aperto da “boca de saída” e do grau de intensidade na pressão interior do ar, podem ser mais agudos – daí os toques a “flauta” ou “clarinete” – ou mais graves, podendo ir do “saxofone”, ao “trombone” e à “tuba”, aquele som profundo que faz tremer a sala. Seguem-se depois os “p. militares”, que não passam de uma imitação barata do disparo de armas. O mais simples é o “p. tiro”, uma cópia do disparo de uma arma. Outro, é o “p. canhão”, fácil de reconhecer pelo estrondo. Além do “Bum” do “p. morteiro”, há o “p. metralhadora”, uma reprodução perfeita da rajada desta arma. Há ainda outros como os “motorizados”, pois o ruído que fazem quando “saem à rua” mais parece o de uma “moto” potente ou uma “motorizada” de 50cc …

Há ainda outros sem categoria definida, começando por aquele som que mais parece o “rasgar de calças”. Aliás, é a desculpa comum de quem deixa fugir um destes e é apanhado em flagrante. Agarra as calças pelo traseiro e, fingindo que se rasgaram, sai a correr da sala. Temos também o “p. fole”, aquele som que se assemelha ao soprar da forja e o “p. às prestações”, porque vai saindo aos bocados. Entre os “sentimentais” quero dar grande realce aos “sofredores”. Ao ouvi-los, sentimos o sofrimento e a dor, como quem está a parir … um “peido” doloroso. As lágrimas até ameaçam chegar-lhe aos olhos, se bem que os gases se escapam por outro “olho” …

Na disputa entre homens e mulheres para ver quem “fabrica” mais “gases”, ninguém pode dizer que ganha. Há um “empate técnico”. Uns e outros produzem o mesmo, embora as mulheres têm mais recato quando toca a pô-los cá fora. Aqui, devo fazer um ponto de ordem e recomendar que tenham cuidado com a utilização de qualquer chama quando está para se soltar um “traque”. É que, na sua composição há metano, esse gás poluente com elevado efeito de estufa e que é muito inflamável. Se a chama estiver na “saída do tubo de escape”, funciona como “lança chamas”, podendo o traseiro acabar tostado.

Lembro-me do Tónio acender um fósforo quando quis espreitar para dentro de uma fossa séptica. Tirou a tampa e ao meter o fósforo aceso dentro, incendiou o metano e deu-se uma explosão. Com o cabelo queimado, além da cara e pescoço, parecia saído da guerra. É o mesmo gás que a “fossa séptica” individual de cada um de nós produz …

Segundo o estudo de uma universidade inglesa, cheirar o sulfureto de hidrogénio, o gás que dá o cheiro a ovos podres nos “puns”, tem um efeito benéfico na nossa saúde, especialmente na prevenção de AVCs, artrite, doenças cardíacas e outras. A ser assim, em breve deveremos ver milhares de cabines espalhadas pelo país, alimentadas por gases de pessoas idosas. Ao comerem feijoada e dose reforçada de cebola, produzem gás suficiente para “inundar” as cabines onde o povo vai com regularidade cheirar os seus “puns”, em quinze sessões de vinte minutos, como quem vai à fisioterapia. E podem ir descansados para casa, porque não haverá AVC que lhes pegue. É um negócio de futuro … Será que a moda pega e vamos todos passar a cheirar os “traques” uns dos outros? Será que podem ser coloridos?  

“Estou contra. Mas quero ser um …”

Um velho amigo, dotado de uma filosofia muito própria, dizia-me que “por mais rico que fosse, a sua capacidade de comer estava sempre condicionada ao tamanho do seu estômago e não da conta bancária”. Queria ele dizer que não lhe adiantava ser muito rico, porque não era por isso que conseguia comer mais. E tinha razão. Com mais dinheiro come-se menos, mas paga-se mais. E alimenta-se muitos “comensais”. No entanto, assistimos a uma aceleração da concentração da riqueza de ano para ano e nada a parece travar. Os sistemas políticos em vigor são incapazes de implementar medidas sérias para evitar que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, até porque não se entendem na tributação, são “manipuláveis” e acabam por concorrer entre si para captar capitais, concedendo-lhes mais e maiores facilidades. Veja-se o que acontece na União Europeia, onde a fiscalidade deveria ser igual para todos os países que dela fazem parte. No entanto, cada país aplica benefícios fiscais melhores que os seus companheiros de UE, para lhes “apanhar a clientela”. E, não satisfeitos com isso, até têm dentro das suas fronteiras paraísos fiscais onde não cobram qualquer imposto ou somente uma taxa ridícula. Em contrapartida, oferecem garantias de sigilo absoluto a todo aquele que pretenda ficar anónimo, protegido dos sistemas fiscais nacionais. Não há hipóteses! A economia vai ter sempre uma “saída de emergência” por onde os tubarões escapam ao fisco.

Vi as pequenas mercearias da minha infância serem “engolidas” pelas cadeias de supermercados, algumas feitas multinacionais de muitos milhões, que controlam o mercado da distribuição e esmagam bem os produtores. Vi as alfaiatarias de outrora virarem fábricas de confeção para depois passarem a depender de grandes empórios comerciais que nada fabricam, mas tudo vendem sob a capa de uma marca feita a peso de ouro. E pagando quando, como e o que querem, submetendo a legião de fabricantes que para si trabalha. Vi falirem bancos e deles nascerem golpistas milionários. Vi colapsar sistemas políticos que diziam defender as classes trabalhadoras e surgir “empresários” de ocasião que tomaram de assalto empresas estatais que se diziam “ao serviço do proletariado”. E fizeram-se novos ricos à pressa. E, tal como acontece no mar onde os tubarões “engolem” todos os peixes pequenos, em múltiplos setores de atividade as grandes empresas fizeram o mesmo. E “secaram” tudo à sua volta com base no poderio económico, na golpada, quando não no domínio sobre governos de países ditos soberanos. E assim foi acontecendo a concentração da riqueza, atingindo números absurdos. 

Quando lemos que no Brasil, cinco milionários têm tanta riqueza como mais de cem milhões de brasileiros, é sinal de que está muita coisa errada no país do “pica pau amarelo”. Mas pior está a nível mundial quando as estatísticas dizem que menos de trinta multimilionários têm tanto como 3,8 mil milhões de pessoas. Como é possível? Está tudo louco …

Após a crise, o crescimento económico foi parar ao bolso dos mais ricos. Houve mais concentração de riqueza e menos distribuição. O paradoxo é que nunca se produziu tanta riqueza e, ao mesmo tempo, nunca houve tantos pobres. E cada cidadão bem formado só pode estar contra esta aberração da sociedade que ajudamos a criar.

Perante esta realidade, a grande maioria das pessoas considera esta situação absurda e nem compreende como foi possível chegarmos lá, apesar dos políticos, de governos ditos democráticos, de reguladores e outros controladores que nada controlam. Somos todos do contra. É um escândalo mundial que ninguém devia ignorar, mas ignoramos.

Se calhar, apesar de não concordarmos por a riqueza estar tão mal distribuída (Francis Bacon durante o Renascimento, já dizia entre outras coisas, que …  “o dinheiro é como o adubo. Não é bom a não ser que seja espalhado …”), também não estamos muito preocupados com isso. Estamos nós empenhados em impedir que estes absurdos se tornem cada vez maiores ou, melhor ainda, vão diminuindo para números de razoabilidade e bom senso? Penso que não. Aliás, diria mesmo que a nossa preocupação é outra e isso pude observá-lo há alguns dias atrás. Ia a passar numa rua do Porto quando me deparei com uma longa fila de pessoas no passeio, à espera para entrarem numa determinada casa comercial. Como ia distraído, “feito parolo a olhar p’ró boneco”, não me apercebi do que se passava. Mas depressa percebi a razão daquela espera de pacientes para entrar na loja. E foi então que me veio à cabeça um pensamento revelador de que estava perante um contrassenso. É que, se perguntasse a todos as pessoas da fila se concordavam com a concentração de tanta riqueza em tão pouca população, de certeza que estariam radicalmente contra. Mas, todos eles estavam ali, naquela fila, para arriscar uns “euritos” com a esperança de que o “Jackpot” de mais de 160 milhões de euros desse prémio especial do “Euromilhões” pudesse vir a engordar a sua conta bancária e fazer deles mais um dos “nababos” que agora criticam, mas que, lá bem no fundo, anseiam ser. E alguém acredita que se essa “pipa de massa” saísse a qualquer um deles, iria ficar somente com o aceitável para ser remediado e distribuía o resto do bolo irmãmente entre os familiares e amigos, instituições sociais e humanitárias? Balelas. Basta vê-los quando sai um prémio taludo. O dinheiro faz com que briguem homens, mulheres, noivos e namorados. Escondem a identidade para que se não saiba a quem saiu, pagam para guardar segredo e até vão diretamente a Lisboa movimentar o “cacau” para conta privativa. Assim, fogem aos pedidos de esmola, empréstimos ou doações, pois tudo é pouco para a ganância que há em cada um de nós. 

Bem vistas as coisas, todos queremos ser um desses acumuladores de riqueza, que quase sempre só criticamos. Por … inveja. Tudo o resto, é conversa …   

As cataratas que ninguém quer ver…

Nasci e cresci na aldeia e o mesmo é dizer no meio da natureza. Não seria a mesma pessoa se tivesse sido num meio urbano. Ficou-me a atração pela liberdade, pelos grandes espaços e belezas naturais que ainda pululam por este nosso mundo. Entre elas, estão as cataratas. Uma catarata, é uma queda de água de grande caudal, em cortina. Por regra, proporciona imagens espetaculares. Há mais de cinquenta anos tive a oportunidade de conhecer a segunda maior catarata de África. O acaso levou-me a fazer o estágio em Angola sobre a cultura do algodão e, depois de três meses em Luanda, fui “despachado” para Malanje, cidade onde se encontrava sediada a delegação do Instituto do Algodão para a Baixa de Cassanje. A partir dali, com um velho jeep Land Rover e um nativo que era “homem para todo o serviço”, desde cozinheiro a mecânico, lavador de roupa a guia, percorri extensas áreas dessa parte de Angola. Um dia o meu colega e amigo Zé lançou-me o desafio para irmos visitar as Quedas do Duque de Bragança – já batizadas após a independência de Angola de Quedas de Kalandula – e que ficavam a oitenta quilómetros de Malanje. Aceitei e de repente vi-me a grande velocidade numa “picada” (estrada em terra batida) ladeada de capim com dois metros de altura, como que voando num túnel e sujeitos a ver surgir um carro em sentido contrário e no mesmo trilho único. Mas não aconteceu nada. Minto. Aconteceu que descobri então uma imponente catarata com mais de quatrocentos metros de comprimento e cem de altura, num cenário selvagem fantástico, com imagens de uma beleza que só lá, e naquele estado virgem, se podiam encontrar. Foi o meu primeiro êxtase perante uma “queda de água”, uma obra prima da natureza.

Já neste século, devo ter feito as minhas duas últimas grandes viagens com os dois filhos, ambas aos Estados Unidos. E tinha consciência que assim seria. Por isso, quis aproveitar esses momentos, ainda antes deles “levantarem voo” e passarem a voar na companhia de outras “aves”. 

Numa dessas aventuras, quando estávamos em Nova Iorque, decidimos ir conhecer talvez as mais célebres cataratas do mundo, que ficam na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá e que são conhecidas por Cataratas do Niagara, no rio com o mesmo nome. Metemo-nos numa dessas viagens turísticas, um misto de avião e autocarro e, na realidade, valeu bem a pena. Tudo o que se possa dizer sobre essa maravilha da natureza é pouco, apesar de hoje estar “metida” entre dois núcleos urbanos que se desenvolveram à custa do turismo que tal atração gera. É que são “só” vinte milhões de turistas ao ano que por ali passam … E é preciso dar-lhes guarida, comida e todos os bens de consumo de que tal gente se alimenta, incluindo “recordações para a família”. Nos seus sessenta metros de altura e mais de mil e cem metros de comprimento nos dois países, não se pode ficar indiferente a essa obra prima da natureza. Como diz a publicidade, é uma das mais belas do mundo.

Um feliz desafio efetuado por um casal amigo também me levou a outro local onde as imensas massas de água e o terreno montanhoso do país fizeram com que ali existam muitas, grandes e belas quedas de água. Todos os rios da Islândia recebem água a partir de enormes glaciares e do clima atlântico que gera grandes quantidades de chuva e neve. A Islândia é um dos mais belos países do mundo para se ver quedas de água. E há muitas. Mas tem de se ir preparado para fazer longas caminhadas pois, nalguns casos, o carro não chega perto. E são indispensáveis agasalhos e mais agasalhos, porque faz frio a sério, muito especialmente quando o vento polar sopra com intensidade e nos trespassa os ossos …

Mais recentemente, ainda na companhia do mesmo casal amigo, tive a felicidade de me deixar maravilhar por aquela que se tornou para mim a catarata das cataratas. Fica no rio Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e a Argentina. A sua beleza ainda é mais extraordinária porque as Cataratas estão integradas em dois Parques Nacionais, o brasileiro e o argentino, com uma dimensão enorme, numa demonstração séria de como proteger a natureza e a sua joia. Só lá se toma verdadeira consciência da sua dimensão, em tamanho e beleza. Por isso, os dois Parques Nacionais foram classificados de Património da Humanidade e o do Brasil escolhido como uma das sete maravilhas do mundo. Para termos noção da sua grandiosidade, trata-se de um conjunto de 275 quedas de água com o comprimento total de 2,7 quilómetros, encastradas na mata atlântica. Um assombro. O ponto alto desse conjunto é a chamada “Garganta do Diabo”, em forma de U, onde o visitante se sente no meio de uma enorme catarata com água a jorrar por todos os lados.

Mas, se adoro ver cataratas como estas que tive o privilégio de visitar e conhecer, cada uma com a sua beleza natural própria, há outras de que não gosto mesmo nada e “nem pintadas” as gostava de ver, muito menos nos meus olhos. Fazem com que a paisagem não tenha beleza, as letras não façam sentido, as pessoas tenham um rosto difuso. Pões óculos, tiras óculos, limpas as lentes para ver se o problema acaba, mas a “neblina” continua e vês tudo enevoado. Não adianta esfregar os olhos. Estás acordado, não é esse o problema. Piscas os olhos para ver se a imagem regressa ao normal, mas ela continua nublada, quase como se estivesses atrás de uma fina cortina de tule. Até que vamos ao oftalmologista e, depois de nos espreitar a alma através dos olhos, descobre algo e dá a sentença: “Você tem cataratas”. E, quando algum vos disser isto, não vale a pena sonhar com o que vos contei lá atrás, porque não vão precisar de viajar para chegar a elas, porque “elas” estão em vós, nos vossos olhos. É o cristalino, essa lente natural do olho, que ficou turvo. “Deu o berro”. E o cirurgião pode retirá-lo e substitui-lo por uma lente artificial, para regressar à normalidade.

Eu já esfreguei os olhos quanto baste, mas não passou. Nem passará. Já não tenho mais alibi para adiar o inadiável, se quero voltar a ver com nitidez as verdadeiras cataratas … E quero.      

Vozes de burro não chegam ao céu…

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixe de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (…)”. Foram palavras de Guerra Junqueiro no ano distante de 1896, mas tão atuais, incluindo para o que aqui me traz.

Para quem não sabe, um provérbio é um dito de tradição popular que resume um conceito ou uma norma social. É curto, de autor anónimo e baseia-se no senso comum ou no conhecimento empírico. Por uma questão de princípio, devo confessar que gosto muito de provérbios e até comecei a fazer uma recolha há muitos anos. Esse rol dorme entre a anarquia dos meus papeis. Por isso escrevo, não só na condição de “fã incondicional” dos ditados e frases populares, mas também pelo respeito da tradição que passou de geração em geração e faz parte da cultura do povo que somos. E ainda como defensor dos direitos dos animais, se bem que já se estarão a perguntar “o que é que a cara tem a ver com a careta”. Mas tem. Já lá irei.

O PAN, partido dos animais, aderiu à campanha da PETA, organização com sede nos Estados Unidos, para alterar expressões que “reforcem comportamentos negativos contra os animais”, entre as quais alguns provérbios. Tiveram o desplante de propor “alternativas” para meia dúzia deles, quando ali “não vejo mata de onde saia coelho”. 

Sugerem que o ditado popular “matar dois coelhos de uma só cajada” deva ser alterado para “pregar dois pregos de uma só martelada” e ainda que “pegar o touro pelos cornos” deva ser substituído por “pegar uma flor pelos espinhos”. Diria o povo que é preciso ter cá uma “cabeçorra” !!! É que não é qualquer um que tem “inteligência” suficiente para tão arrojadas propostas. Trocar o “touro” por uma “flor”, é “genial. Será que perguntaram aos coelhos e aos touros se se sentem ofendidos por se verem nomeados na frase de um conceito? E mudar “cajada” para “martelada” – e cada um dá-lhe o sentido que quer – deu muito que pensar. Esta deve ter sido muito difícil …

Muita imprensa classificou este “devaneio absurdo” de autêntica “palhaçada”. Será que um deputado da nação não tem mais que fazer?Não sei se estas ideias peregrinas lhe surgem enquanto dorme no parlamento “embalado” pelos discursos desenxabidos e maçudos dos seus pares ou para ganhar protagonismo (que não tem). Há uns anos atrás um “pseudo intelectual” da nossa praça também propôs que se alterasse a letra do Hino Nacional. Dizia esse “iluminado” que já não fazia sentido a expressão “contra os canhões, marchar, marchar”. Foi ignorado e bem. Agora, estamos perante novo “iluminado”, com lugar de responsabilidade no Parlamento ao ser eleito pelos portugueses como deputado. É mais um assalariado do povo português. Ora, como não consegue resolver questões centrais do seu programa eleitoral – acabar com o abandono e maus tratos a animais – entretém-se com estes devaneios de fanatismo ridículo. Aprendeu depressa o jogo da política ao falar do acessório e esquecer o essencial, por ser incapaz de o resolver. Um absurdo. E assumindo as posições da PETA como suas causas, fez dos provérbios e frases populares que atravessaram séculos e passaram de geração em geração, um alvo a abater. Melhor, a adulterar, tal como o outro intelectual o queria fazer com o Hino Nacional. Devo ser “burro” – e espero que o digníssimo deputado não venha sugerir alterações à minha hipotética afirmação – pois não vejo no que as suas propostas possam ajudar a defesa dos direitos dos animais, se é nisso que está interessado.

A ser assim, se um “pato bravo” pode propor adulterar provérbios, porque não exerço eu também o meu direito de mudar alguns que já são “mais velhos do que a Sé de Braga”? Pode ser que a minha veia artística não lhe fique atrás, nem “no engenho nem na arte” e mais adiante, num próximo ato eleitoral, possa ser também candidato a um “tachito” na capital, com direito a dormir na hora do trabalho.

Considero desde já que o provérbio que serve de título a esta crónica deve sofrer uma pequena mudança para “Vozes de deputado não chegam ao Céu”, que é como quem diz, que ninguém está interessado nas suas propostas. Ou será mais adequado ser “vozes de burro…”? Afinal, voto pela manutenção do “burro”. Ajusta-se melhor à voz do proponente … Também, ao olhar para o ditado “pela boca morre o peixe”, acho que se pode substituir este pelo “político”, pois o que lhes sai da boca nem sempre lhes garante o futuro. Tal como “grão a grão, alguns (e todos sabemos quem) enchem o papo”.

Desde criança, sempre ouvi dos mais velhos variados provérbios que haviam aprendido com os mais velhos e assim sucessivamente, não se sabendo a idade de cada um deles. Mas, que são muito antigos, parece não existirem dúvidas. E, que se saiba, nenhum “inteligente” questionou de forma significativa o seu teor numa ótica de ofensa, estímulo à agressividade, ao mau comportamento ou ainda à boa saúde mental de quem quer que seja. Nomeadamente dos animais. Ou será que, afinal, quem está em causa são outros “animais”?

Provavelmente, também desistia…

Não fui, não sou, nem gostaria de ser professor, especialmente nos dias de hoje. Julgo que não teria paciência suficiente nem capacidade de encaixe. Por isso, admiro muito todos aqueles que se dedicam a essa nobre arte de ensinar, muitas vezes a quem nem sequer quer ser ensinado. E essa admiração é renovada sempre que ouço ou conheço testemunhos daquilo a que um professor está sujeito nos nossos dias. O jornalista e escritor Leonardo Haberkom era professor numa das universidades de Montevideu e escreveu um texto emotivo no seu blog pessoal, mas que um jornalista publicou e a internet fez chegar aos quatro cantos do mundo e que certamente tocou e toca muito a quem exerce a profissão de educador. Esse professor uruguaio atira a toalha ao chão e diz não poder mais com seus alunos e suas extensões tecnológicas, do twitter ao facebook. E que já não pode captar a sua atenção, nem alterar a sua profunda ignorância. Com o título “Me cansé … me rindo …”, declara o porquê de deixar o ensino, a profissão que antes o apaixonava. Diz ele:

“Depois de muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade. Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.

Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam, perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel, que não para de receber selfies. Claro que nem todos são assim. Mas, cada vez há mais.

Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante noventa minutos, ainda que fosse só para não serem mal educados, tinha algum efeito. Agora, não. Pode ser que seja eu que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal. Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem veem sentido em estar informadas.

Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só um estudante entre vinte conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto, não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (…) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à esquerda nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim! Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém!

Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel. Nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo, é complicado. É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revistas na rua.

Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho. E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados e a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles. Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta baixamos a guarda. E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim. O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula terminasse. Eu, também.”

Talvez o pior de tudo seja o facto daqueles alunos irem ser amanhã Adultos, sem terem crescido nem amadurecido, cheios de Direitos, sem Deveres nem Responsabilidades … alguns até Políticos ou Governantes …

Tinha escrito esta parte da crónica há uns dias atrás e acabei agora de a mostrar a uma jovem que estuda enfermagem. Depois de ler este desabafo, contou-me o que hoje mesmo se havia passado numa das aulas. O professor lecionava num auditório que não estava cheio e, em dado momento, enquanto ia debitando a matéria, saiu do lugar na tribuna e foi andando entre a plateia até parar junto de um aluno que nem se apercebeu da sua chegada, de tão concentrado no que estava a fazer. “Você já está agarrado ao telemóvel há mais de quarenta minutos”, começou ele na abordagem ao aluno. “Você não consegue, desligar-se, pois não? É muito importante estar a par do que se está a passar nas redes sociais”? O aluno não ficou atrapalhado, mas fez menção de desligar o telemóvel. O professor interveio: “Não desligue se não quiser. Não é isso que conta. Aliás, se preferir, tem ali a porta e pode ir lá para fora para ter mais privacidade”. E, voltando-se para a turma que os olhava em silêncio, continuou: “Vocês já alguma vez se interrogaram qual a razão porque querem tirar este curso? Já algum dia se perguntaram se a razão principal é por quererem cuidar de pessoas? Ou se, pelo contrário, é porque o pai ou a mãe querem que vocês tirem um curso, seja ele qual for? Mas é isso mesmo que vocês querem? Se pensam que eu fico preocupado, estão enganados. Tenho a minha vida organizada, atingi todos os objetivos a que me propus. Para isso, tive de trabalhar, tirar um curso, ser bom para poder tratar pessoas de carne e osso. Sinto-me realizado. 

E vocês? O que é que já alcançaram? Nada. Eu tinha de andar todos os dias cerca de uma hora de comboio e autocarro até chegar à universidade. Vocês, na maioria, vêm no carro que o papá vos deu e, se o destruírem, irão ter outro. Se calhar, melhor. Sem esforço, sem trabalho vosso. Será que vão acabar o curso? Talvez. Mas, será ele uma ferramenta de trabalho ou só um título para encaixilhar? É que, se pensam que saem daqui a saber o suficiente para exercer, estão enganados. Vai ser preciso trabalhar muito para se tornarem bons profissionais. O curso é uma ferramenta que os prepara para aprenderem. Mas precisam de ter a humildade e a força de vontade para o fazer. Aqui podem aprender mais ou menos conforme estejam disponíveis ou não e absorver o que vos ensinam. A escolha é vossa, entre isso ou atender prioritariamente ao que se passa nas redes sociais, como o vosso colega … e muitos outros”.

O silêncio foi a resposta. O mesmo silêncio a que nos remetemos tantas vezes enquanto pais, enquanto educadores … 

Heróis do meu dia a dia: Como se deve viver e morrer…

Quando morre um “Homem Bom”, todos perdem e o mundo fica mais pobre. Perde a família, perdem os amigos, perdem aqueles com quem se relaciona, perde a sociedade. Enfim, perdemos todos. Porque não é todos os dias que se encontra um “Homem Bom” (e com este título quero referir-me aos dois sexos para não ser acusado de descriminar a mulher). Rico ou pobre, um “Homem Bom” é raro, algo que quase já não se fabrica. Tem que conter em si um misto de genes da bondade e educação a condizer, respaldada pelo bom exemplo de vida dos pais, porque é fundamental. A principal característica que o “Homem Bom” transporta consigo é a de querer sempre o melhor para os que estão à sua volta, para estar de bem consigo. A bondade deriva do amor ao próximo. Daí a sua permanente preocupação com os outros, mesmo antes de se preocupar consigo. Por isso, nele esse egoísmo não existe porque dá prioridade às necessidades dos que o rodeiam. Diz o Salmo que “os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor … ainda que caia, não ficará prostrado” …

Paulo foi um jovem que não quis concluir o seu curso universitário e preferiu ir trabalhar com o pai, proprietário e principal responsável de uma empresa de média dimensão. Durante anos fez da empresa a sua escola para a vida e com o pai aprendeu tudo o que precisava aprender para o poder substituir no dia em que tomou a decisão de se reformar e entregar-lhe “o leme do barco”. Por isso, foi com toda a naturalidade que assumiu essa pesada responsabilidade, sendo que depressa ganhou o respeito e a amizade dos colaboradores. A sua juventude e dinamismo fizeram com que a empresa alargasse os seus horizontes a novos mercados, o seu humanismo fê-lo ganhar todo o respeito dos trabalhadores. 

Mas a globalização e a crise, associadas a perdas muito grandes com a falta de pagamento de clientes angolanos e espanhóis, arrastaram a sua empresa para a insolvência, apesar de todos os esforços para a salvar. E então, a sua maior preocupação passou a ser os trabalhadores, porque a empresa ficou sem meios para pagar os direitos que lhes eram devidos. Aí chegado, rejeitou a ideia de ficar a dever-lhes um cêntimo sequer. Podia fazer como a maioria faz nestas situações, escondendo os bens em nome de outros. Mas recusou-se e nem sequer deu ouvidos aos apelos de familiares e amigos para salvaguardar a casa e o carro. Não, tinha de cumprir com aqueles que o serviram e não podia ser de outra forma. Para isso, vendeu um a um todos os bens pessoais que tinha, desde a casa da família, o carro, terrenos (incluindo um onde projetava construir a nova residência), o mobiliário, a moto, as pratas e até as joias pessoais da mulher. Foi tudo. Só ficou a roupa de cada membro da família. Aos insistentes apelos de quem lhe era mais próximo disse sempre que não, com um argumento de peso: “Eu tenho capacidades e conhecimentos para me defender que a maioria das pessoas que trabalhava comigo não tem”. E aceitou, com naturalidade, ficar sem nada.

Recomeçou a vida do zero no Brasil por conta de um empresário que lhe prometeu salário e compensação pelos resultados. Mas viria a não cumprir. Regressou a Portugal para trabalhar, restabelecendo a vida profissional, económica e familiar baseado nos princípios que sempre o nortearam da retidão, verticalidade e preocupação pelo próximo. Mas o futuro nem sempre é justo para os justos. Quando tudo parecia voltar a sorrir, uma doença maligna atirou-o para as rotinas dos hospitais, sujeito a tratamentos intensos e agressivos, bem como aos avanços e recuos da doença. À quimioterapia, fez uma reação alérgica brutal que lhe deixou o corpo em ferida, num sofrimento horrível. Mas aceitou-o sem revolta nem desânimo. No final, só perguntou ao médico: “E agora? O que me resta”? Manteve a esperança intacta ou, pelo menos, soube transmitir essa esperança a familiares e amigos. Só quando quiseram extrair-lhe o tumor para lhe darem mais algum tempo de vida, recusou dizendo que, a partir daí, era uma questão de calendário, numa aceitação do fim sem queixas, apesar da violência das dores. Um ciclo duro, onde colheu alguns frutos do muito amor e generosidade que plantou na vida, ao ficar rodeado por familiares e amigos incondicionais que nunca o deixaram só. Até o patrão e amigo não deixou de lhe pagar o vencimento por inteiro ao longo de mais de dois anos, pela sua capacidade profissional e técnica, mas sobretudo, pela sua afabilidade e humanidade.

Sabendo que ia morrer a curto prazo, a sua preocupação foi sempre para a mulher, a filha e o irmão que padecia de doença semelhante, a ponto de comemorar com grande alegria a redução das metástases dele. O seu respeito pelos outros era tal que, quando o cunhado lhe fez uma adaptação para o sofá, sempre que ele estava presente tinha a preocupação de ficar ali sentado e só o abandonava já depois dele sair. Apesar daquela posição lhe ser muito mais dolorosa …

Nos últimos meses permaneceu na sua residência, mas quando sentiu que estava a ficar sem tempo, quis ir para o hospital para a sua filha não ficar com a imagem do pai a morrer em casa. Despediu-se da sua irmã, com quem tinha uma grande cumplicidade, com um “Obrigado por tudo. Um dia destes encontramo-nos outra vez” e pediu para lhe prometer “que à mulher e à filha não faltasse nada. E não falava de dinheiro”. Despediu-se daqueles de quem mais gostava, até pedir à irmã: “Por favor, não deixes vir mais ninguém, porque já não tenho força para mais despedidas”.

Mas a mais notável das suas ações, aquela que revela uma nobreza de caráter invulgar só acessível a alguns Homens, foi a vontade expressa de se despedir daqueles que o prejudicaram de uma ou outra forma, para lhes conceder o seu perdão. E fez questão de pedir ao padre celebrante para, na cerimónia do seu funeral, nessa hora de adeus, lhes dizer: “Àqueles de quem não me despedi, àqueles que me prejudicaram, às pessoas de quem a vida me afastou, eu quero dizer-lhes para não viverem mais com remorsos. Eu quero dizer-lhes que estão perdoadas. E não vale a pena viverem com ressentimentos, porque o que mais conta é o perdão. Que sejam muito felizes e não se deixem dominar pelas mágoas”. E ele sabia que estariam lá alguns … 

Em vida semeou amor e amizade, reunindo regularmente ao longo de anos com um grupo de familiares e amigos, para confraternizar. E a sua memória permanece viva nesse grupo, que continua a reunir com a mesma regularidade, a mesma alegria, o mesmo entusiasmo como ele gostaria que vivessem, tirando fotos que colocam no Facebook com uma dedicatória muito especial: “Para ti, Paulo” … 

Porque sabem que ele está lá para as receber …