As maiores necessidades de hoje …

Para qualquer animal, a sua maior prioridade é conseguir alimento necessário para sobreviver e evitar ser comido pelos predadores que lhe estão acima na cadeia alimentar através da fuga. Para isso precisa de ser bom corredor, voar depressa, saber esconder-se, nadar bem e ter sempre um olho a vigiar os perigos. É o instinto de sobrevivência a determinar os comportamentos que favorecem a conservação da espécie, onde ainda se inclui o acasalamento e construção de ninhos. Mas para nós, seres humanos, depois de satisfeitas as necessidades básicas de sobrevivência, que são semelhantes às dos outros animais, temos necessidades complementares que são próprias da evolução mental, tais como ser reconhecido, valorizado e sentir-se importante. Diz-se mesmo que a necessidade humana de ser importante é mais forte do que qualquer das necessidades fisiológicas, como alimentar- se ou receber amor. Com os outros animais não há essa preocupação pois o instinto de sobrevivência é-lhes suficiente. Mas, já nos seres humanos, o “sentir-se importante” é uma necessidade que nasce e morre connosco. Foi esse desejo que levou um pobre iletrado que trabalhava num armazém, a estudar livros de direito que encontrou no fundo de um barril de coisas descartadas e que havia comprado por 50 centavos, por boas razões. Seu nome era Lincoln e tornou-se no maior presidente dos Estados Unidos da América. 

A história está repleta de pessoas que lutaram para ser importantes: George Washington queria ser chamado “O poderoso presidente dos Estados Unidos”; Cristóvão Colombo pediu o título de “Almirante do Oceano e Vice-Rei da Índia”; A rainha Catarina, a Grande, recusava-se a abrir cartas que não a referissem como “Sua Majestade Imperial”; e o escritor Vítor Hugo aspirava ver a cidade de Paris a receber o seu próprio nome, para o homenagear. 

Nos dias de hoje, a importância de “sentir-se importante” é o que, em geral, move as pessoas, define os objetivos e redefine o encanto dos relacionamentos. A importância passou a estar mais no “ter” do que no “ser”. Porque é que que ela precisa ter o telemóvel melhor do que o seu? E o carro mais novo e maior? De ter o filho mais inteligente e o marido mais bem-sucedido, rico e apaixonado? Porquê? Para você perceber o quanto ela é melhor que você? E para quê? Para que é que alguém está sempre à procura de provar a sua superioridade, quase sempre em coisas fúteis? Essa necessidade de sentir-se importante é o que faz com que as pessoas comprem artigos de luxo, carros de marcas consagradas e exclusivos, joias únicas e caras, telemóveis de última geração e casas de luxo com tanta divisão que uma boa parte não chega a ser utilizada. Tudo isso não passa de manifestação de superioridade e afirmação perante os outros, expressa nas roupas que vestem, nos sapatos que calçam, nos restaurantes onde comem (e no que comem), em tantas coisas onde pretendem ser exclusivos, únicos, com acesso a bens, serviços e locais de uso e entrada só para alguns. E há quem faça mesmo tudo e de tudo para ser um deles …

Todos querem receber atenção e, se possível, atenções especiais que os ponham em destaque em relação à multidão. Os estabelecimentos comerciais e industriais, dos restaurantes às lojas de roupa e calçado, dos standes de automóveis às perfumarias ou joalharias, para terem sucesso tratam os clientes pelo nome próprio, elogiam-lhe o gosto e as escolhas, fazem-no crer o cliente mais importante informando-o “em primeira mão” do novo modelo que chegou e sobre o qual ele vai ter prioridade na aquisição. O cliente que sai da loja a sorrir e com o ego em alta, nunca vai de mãos vazias. Quem pode ir embora vazia é a carteira, mas o “banho de autoestima” vale bem o preço que se paga. É que, o ser tratado como importante, reconhecido como pessoa de bom gosto e valorizado pelo que faz, usa ou diz não tem preço, pois satisfaz uma necessidade básica de (quase) todo o ser humano deste tempo.

Está provado que até para a formação de gangues de rua o principal fator de motivação é a necessidade de se sentir importante. E apesar de isso acontecer de forma negativa, não deixa de ser uma afirmação de quem quer ver-se reconhecido e valorizado, ainda que seja por ser o maior bandido do bairro ou da cidade, algo que é designado pelos especialistas como “reconhecimento negativo”. Já alguém dizia que, “bem ou mal, o que é preciso é que falem de mim”.

Provavelmente, é essa necessidade de querer ficar na História em grande ainda que por razões negativas, que move Putin.

Tanto a compra como a venda de reconhecimento estão disponíveis no mercado em milhentos produtos e formas de vida, mas cada um de nós tem o poder de escolher se quer entrar nessa corrida à fama (boa ou má) a qualquer preço, seja nas redes sociais ou através de colunistas sedutores, seja por se ter o automóvel mais exclusivo – e caro do mercado – ou a vivenda mais luxuosa, vista e badalada nas revistas da especialidade, seja no acesso ao poder que transforma rapidamente a pessoa humilde em convencida e arrogante e que lhe confere quase sempre uma “auréola de divindade” para viver uma notoriedade transitória, que tantas vezes tem um custo financeiro e emocional demasiado pesado. Mas, já alguém disse que “mais vale viver um dia governando do que toda uma vida servindo” e há quem aposte nisso a todo o custo.

Buda avisou-nos sobre tudo isso: “Um homem será tolo se alimentar desejos pelos privilégios, promoções, lucros ou pela honra, pois tais desejos nunca trazem felicidade e, pelo contrário, só podem trazer sofrimento”. Mas uma coisa são estes e outros conselhos de uma vida simples e desprendida e outra coisa é essa atração terrível de se ser o mais badalado do bairro, cidade ou país, adulado (e nem sempre com a melhor das intenções) e idolatrado pelo maior número de fãs como se isso fosse durar para sempre e possa colocar alguém num pedestal bem acima do cidadão comum, onde ganha o direito exclusivo e único de apanhar em cima umas “cagadelas dos pássaros”. E os cemitérios fazem o resto, “enterrando” toda essa importância com “o corpo do delito” …

Como tudo mudou na Festa Grande …

Ao pensar que está aí à porta a Festa Grande de Lousada, vem-me à memória lembranças de outras Festas passadas, tanto na infância como na adolescência, com maiores recordações destas. E não deixa de ser interessante olhar a forma como quase tudo mudou, evoluiu ou desapareceu para dar lugar a novos desenvolvimentos, atores e ações. E para quem como eu viveu a Festa Grande há mais de setenta anos, é fácil perceber as muitas alterações ao longo do tempo. A Festa Grande tornou-se cada vez “mais Grande” no número de dias em que decorre, no número de ruas, avenidas e praças que ocupa na Vila, na quantidade de eventos para atrair os “crentes” de outras “religiões” como é o caso do entretenimento”. Mas a vida é feita de mudança …

Mudou o equilíbrio entre festa religiosa e profana, tendo a segunda vindo a ganhar cada vez mais protagonismo, com programações que se vão alargando de ano para ano, integrando alguns dos cantores e grupos musicais mais credenciados da nossa praça, anunciados como isco para atrair mais e mais espectadores – que não romeiros – numa competição renhida entre sedes de concelho ou mesmo de freguesias vizinhas, que põe a “clientela” a classificar as organizações em função das suas preferências. Antigamente a banda de música era o centro das atenções musicais e mais se tornou quando passaram a ser duas, o que deu origem a duelos musicais muito apreciados com o público a assistir a um “combate cultural”. Hoje, a “clientela” da banda passou a ser reduzida, nada tendo a ver com a quantidade de espectadores que um qualquer cantor, pimba ou não, arrasta atrás de si, fazendo com que chegue a ver-se um autêntico “mar de gente” diante do palco, ou não seja “à borla” um concerto que, habitualmente, teria uma entrada a pagar …

Também os orçamentos da Festa foram subindo para dar satisfação à crescente necessidade de aumentar a “parada” no nível e quantidade de espetáculos, suportados em parte pela colaboração essencial das empresas, hoje em elevado número, além da contribuição municipal do erário público e individual da população concelhia. Outrora, esses orçamentos viviam muito da contribuição individual da população já que quase não existiam indústrias no concelho e as poucas que havia eram de muito pequena dimensão. Há quase seis décadas integrei a Comissão Organizadora da Festa em Honra do Senhor dos Aflitos, de um grupo alargado de trinta jovens, tendo a minha missão constado essencialmente em fazer o peditório na aldeia. Fiz-me acompanhar de mais dois conterrâneos e tive de dedicar vários dias à tarefa por dois motivos distintos: por um lado, nem sempre encontrava o dono da casa, até porque se trabalhava “de sol a sol”. E por outro, quando estava em casa, mandava-nos entrar, obrigava-nos a comer e beber um copo de vinho enquanto desfiava um rosário de queixas porque não lhe compunham o caminho, no lugar faltava a eletricidade ou outra coisa qualquer. Depois de parar numas quantas casas e ter de beber um copito de tinto aqui e outro ali e outro a seguir, um atrás do outro porque se não aceitássemos levavam a mal, a dada altura já não havia condições de “equilíbrio” para continuar a missão do dia. E era importante, porque esses contributos eram essenciais no orçamento. 

A “festa profana” também mudou o seu grande “animador”. Se antes era debaixo de toldes improvisados, mesas compridas de madeira e bancos corridos que o “vinho” era rei e senhor, servido em canecas de porcelana cheias diretamente da pipa com iscas de bacalhau para acompanhar, hoje esse “rei da animação” que, no dizer do chefe do regime “dava de comer a um milhão de portugueses” foi destronado, totalmente esquecido e ignorado, para dar lugar à “cerveja”, tornada “rainha” da festa, servida em copos de plástico ao som duma música trepidante que agita os corpos e ajuda a consumir mais, tendo como damas de companhia uma variedade de “shots”, que a gente jovem e menos jovem usa para “aquecer a máquina” numa noite de animação que se prevê longa e onde pode acontecer de tudo …

Nos “comes e bebes”, as iscas de bacalhau, os “rosquilhos e cavacas” sob toldes improvisados, foram substituídas por tendas modernas onde as farturas se tornaram rainhas, para além das barracas de cachorros, sandes e outros “combustíveis” para alimentar a noite.      

Desapareceram os vendedores da banha da cobra, os jogadores da vermelhinha e carteiristas, além dos propagandistas, esses grandes precursores das promoções e do “pague um e leve três”, que podiam ser quatro ou até cinco peças por um preço único. Eles devem ter sido os professores de marketing onde os supermercados, os centros comerciais e outras “catedrais do consumo” de hoje aprenderam a arte de nos levar a comprar muito “lixo” que não precisamos. Em seu lugar multiplicaram-se as tendas de artesanato africano e não só, não se sabendo bem quem fabricou, nem onde, nem como, mas com gente nativa vestida num rigor tradicional para credenciar os artigos e toda uma gama de inutilidades.

Deixamos de poder andar às voltas no “carrocel oito” e de jogar uma ou mais vezes à malha na “corrida ao galo”. Mas além de se manterem os “carrinhos de choque”, ganhamos alguns equipamentos radicais à medida dos mais jovens e à necessidade de aumentarem a adrenalina do momento, em cadeirinhas voadoras, montanha-russa de frenético sobe e desce e outras diversões.

A descarga da tensão sexual, outrora escondida, clandestina e negada por todos, mas praticada, fazia-se entre o milho dos campos ao redor da Festa em cama improvisada, fila de espera e a pronto pagamento. A procura era muita, a oferta muito pouca. Hoje, libertada do pudor e preconceitos de outrora, acontece entre quem se conhece ou também não, sem qualquer contrapartida monetária, no recanto mais à mão e até mesmo num vão de porta, quando não entre a multidão a dançar e após uma desinibição a que muitas vezes o álcool não é alheio.

Se antes o foguetório se limitava aos foguetes normais e às bombas, com todo o tipo de estoiros para culminar na girândola que fazia com que “a barraca abanasse”, agora só quando a época não é incendiária podemos apreciar o colorido e beleza do fogo de artifício. “Bicheiros” e incêndios “mataram” esse espetáculo que era a “vaca de fogo”, que deixou saudades em muitos aficionados. Até o “mel”, essa luta tardia na noite com sacos de plástico cheios de água, veio e foi-se embora para tristeza dos praticantes, mas com satisfação das organizações e autoridades.

Foram muitas as mudanças que fizeram da Festa Grande de Lousada um evento mais grandioso e extenso, fazendo desta Vila uma enorme sala de espetáculos, goste-se ou não, incomodado ou não enquanto morador na área festiva, lesado e respeitado ou não nos seus direitos.  Diria que praticamente mudou tudo, a começar por nós mesmos. E muito. A Festa tornou-se mais profana para corresponder aos apelos deste nosso tempo. Só o protagonista deste acontecimento concelhio, a razão de ser do evento não mudou. Permanece igual ao que sempre foi: O Senhor dos Aflitos, O Cristo pregado na cruz, cuja imagem única encontramos todo o ano na Sua Capela no cimo do monte e que só sai à rua no domingo da Festa, no momento alto que é a Procissão, para abençoar os crentes, atrair a curiosidade dos mirones e ser honrado pelos devotos. Ele é o Senhor dos Aflitos, o refúgio dessa multidão de caminhantes que se move todos os dias, com ou sem destino, e que muitas vezes ainda não sabe que o é … 

Hoje, até já nem nos indignamos …

Vítor Cunha Rego dizia que “os italianos são imaginativos, os alemães determinados, os americanos pragmáticos, os suíços equilibrados, os ingleses cínicos, criativos e perfeccionistas”. E os portugueses? Somos desenrascados, conformados, resignados. Afinal um povo de brandos costumes. Berramos, gritamos, mas quando chega aquele momento da verdade, contentamo-nos com pouco e recuamos”. Rematava ele: “Na prática, a teoria é outra” …

Na verdade, somos um “povo de gajos porreiros”, conformados com “as migalhas que caem da mesa”, apesar de nos dizerem que o nosso lugar é “à mesa”. Aceitamos pacificamente fazer filas a meio da noite para ser um dos vinte primeiros com direito a receber senha e ter chances de vir a ser atendido na repartição pública, centro de saúde, hospital, loja do cidadão, enfim, num serviço público que o estado tem a obrigação de nos prestar. Mas “não presta”. Por negligência, incompetência ou a pensar no deficit, a verdade é que os governantes não são capazes de reformar o Estado e resolver a falta de capacidade de resposta dos serviços públicos. Por isso, se queremos mesmo ser atendidos, temos de madrugar ainda que passemos o tempo na fila a resmungar e a dizer mal de quem nos governa. Ou então, e não são muitos os cidadãos capazes de o fazer, quando não atendidos numa situação urgente e num qualquer serviço público, têm a coragem de exigir que o façam, caso contrário ameaçam chamar um desses canais de televisão que aparece na hora. A verdade é que resultou sempre nos casos que conheço. Mas não passamos disso. Na eleição seguinte estamos a votar nos mesmos e a dizer que “os outros são iguais e, mal por mal, é melhor que estes continuem pois, “como já encheram a mula pode ser que não queiram mamar mais”. E já nos habituamos às situações em que temos de mendigar “de chapéu na mão” um serviço, uma licença ou até uma simples certidão, feitos pedintes calados e humildes, por algo que nos é devido, para depois irmos para casa resmungar ou descarregar a revolta em quem não tem “culpas no cartório”.

Razão tinha (e continua a ter) Vítor Cunha Rego ao dizer que somos “desenrascados, conformados e resignados”. Até já perdemos a tal capacidade da indignação, esse sentimento de revolta provocado por uma circunstância injusta, indigna, ofensiva ou incorreta com que somos “brindados” enquanto povo e cada vez com mais frequência.

Já não nos indignamos ao saber que qualquer mulher grávida neste país na hora do parto corre o risco de “bater com o nariz na porta” do hospital onde deveria ver nascer o seu filho e tenha de fazer dezenas ou centenas de quilómetros até encontrar um hospital alternativo, com o risco de ter de “parir” numa ambulância, com um bombeiro a fazer de “médico obstetra”. Tem a vantagem de ser mais barato …

Já não nos indignamos ao ver as imagens dos principais aeroportos do país, especialmente no da capital, com milhares de passageiros de cabeça perdida pela perda do voo ou à espera da bagagem que não chega há semanas, porque os serviços aeroportuários não funcionam, semana após semana, numa manifesta incapacidade de resolver um problema crónico, que nos vai atingir quando formos passageiros e em que “a culpa morre solteira”. Será que se pode levar uma cama para o aeroporto? Porque a espera pode ser muito longa …

Já não nos indignamos por as juntas médicas estarem com mais de 2 anos de atraso, condicionando a vida de milhares de portugueses e sem uma solução que respeite tanta gente frágil e em necessidade. Sem o “papel” não há pensão e sem pensão … o mês é longo demais.

Já não nos indignamos com a arrogância de um ministro ao anunciar a construção do aeroporto de Lisboa, sem pareceres nem estudos e sem ouvir ninguém (a verdade talvez se saiba um dia) feito Tarzan, para ser desconsiderado e humilhado de forma vergonhosa no dia seguinte, ter de “meter o rabinho entre as pernas”, dar o dito por não dito numa “triste figura” e espetáculo indigno, só para manter o tacho e não ter um mínimo de dignidade para se demitir. Mas também não nos indignamos quando, sem qualquer sentido de ética nem respeito pelo povo português, vimos o primeiro-ministro, em vez de o “pôr no olho da rua” de imediato, conceder-lhe um perdão público como se aquilo fosse uma coutada partidária de um grupo de amigos, onde há um “poder sombra” a decidir “quem entra, quem fica e quem sai”. É caso para dizer, “perdoai-lhe Senhor que não sabem o que fazem” …

Já não nos indignamos ao saber que dois tribunais de duas cidades do grande Porto têm um único telemóvel para fazer chamadas oficiais. E, dizia-me um advogado que um dia destes teve de esperar que um táxi fosse buscar o telemóvel ao outro tribunal de outra cidade para se fazer uma chamada, porque é assim bem equipada que a justiça anda!

Já não nos indignamos, e até esquecemos, do chefe do governo usar como bandeira da descentralização o Infarmed e repetidamente dizer há 4 anos que vinha para o Porto. Mas o Porto só o vê por um canudo! 

Já não nos indignamos por aumentarem mais e mais os portugueses sem médico de família – fala-se já em 1,3 milhões – apesar de há 4 ou 5 anos o mesmo primeiro-ministro ter prometido acabar com a sina. Não faltam só médicos de família, mas também neurologistas pois o esquecimento das promessas é uma maldição dos governantes!

Já não nos indignamos ao ouvir o mesmo afirmar no Parlamento que a Saúde está mal e precisa de ser reformada e ao mesmo tempo dar o voto de confiança na ministra que levou o Serviço Nacional de Saúde a uma “doença grave”, com doentes nos corredores há vários dias (se é que há corredores que cheguem para todos), serviços de urgência fechados, falta de pessoal, listas de espera e de desespero …

Se a pandemia de 2020 serviu (e continua a servir) de desculpa para todos os males, a guerra tornou-se agora noutro bode expiatório que os governantes usam e abusam como desculpa para tudo o que não corre bem, pela incapacidade de organizar um estado tão caótico, desorganizado e do desenrasca, servido por clientelas partidárias que tantas vezes não percebem patavina de governação, gestão ou do que quer que seja e que se estão marimbando para os interesses das pessoas, mas não do partido a que prestam vassalagem. É um estado propício para os que vivem de dar “um jeitinho”, “meter a cunha” ou “desbloquear um problema”, tantas vezes criado para a dificuldade ser uma fonte de receita para aqueles que, dentro e à volta do poder, vivem (bem) à conta do “mendigar” a que mais que muitos cidadãos são obrigados dia a dia para ver o seu grande ou pequeno problema resolvido na instituição ou repartição pública de âmbito local ou nacional. São os chamados “influenciadores” que borboleteiam e vivem à volta do poder …

Estamos a caminho de nos tornarmos o país mais pobre desta União Europeia, ultrapassados pelos países que saíram da órbita da Rússia e com uma dívida que no seu todo, entre estado, empresas e privados já está quase a chegar aos oitocentos mil milhões de euros e continua a subir dia a dia, apesar de nos irem dizendo de vez em quando que a nossa dívida diminuiu. Mas também não deve ser coisa que preocupe os nossos governantes pois já tivemos um primeiro-ministro a dizer que a dívida não é para pagar, mas para ser gerida, e temos um atual ministro que até “ameaçou” os alemães para se porem “finos”, caso contrário não recebiam o que lhe devemos. Por isso, se governantes de ontem e hoje não levam a dívida a sério, se vendem esta ideia aos estrangeiros que Portugal é um país excelente para se viver (mas com as reformas deles) e temos dos salários mais baixos da União Europeia, que razões pode o povo português ter para se indignar? 

Lições que me teriam sido úteis …

Já lá vão quase cinquenta anos quando casei e, a esta distância, devo confessar que não tinha qualquer preparação teórica, muito menos prática, para ser pai. Se da tradição a educação dos filhos era coisa para as mulheres, também era um facto que havia pouca informação e literatura que nos orientasse nessa matéria. Por isso, considero ser algo fora do comum o que fez Abraham Lincoln em 1830, muito antes de se tornar Presidente dos Estados Unidos, ao escrever ao professor do seu filho uma carta que continua atual e devia servir de exemplo:  

“Caro professor, o meu filho terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas, por favor, diga-lhe que, para cada vilão há um herói, para cada egoísta há um líder dedicado.

Ensine-lhe por favor que para cada inimigo também há um amigo e ensine-lhe ainda que mais vale uma moeda ganha do que uma moeda encontrada.

Ensine-lhe a perder, mas também a saber gozar a vitória. Afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso. Faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais do que a vitória vergonhosa. Ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.

Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros. Ensine-o a nunca entrar num comboio simplesmente porque os outros também entraram.

Ensine-o a ouvir todos, mas na hora da verdade a decidir sozinho. Ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que, por vezes, os homens também choram.

Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a ter de lutar sozinho contra todos se ele achar que tem razão.

Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço. Deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso. Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.

Eu sei que estou pedindo muito, mas veja o que pode fazer, meu caro professor”.

Este apelo, através de uma simples carta, só podia vir de um homem com a estatura moral de Abraham Lincoln, considerado por muitos o presidente mais importante dos Estado Unidos, o Homem que acabou com a escravatura numa situação muito difícil, pois teve mesmo de enfrentar uma guerra civil contra os que se opunham a esse desígnio.

Maria Montessori, educadora, médica e pedagoga italiana, nascida em 1870, é outra personalidade cuja vida e método de ensino conheci só muito recentemente ao tomar contacto com uma rede de colégios existentes em parte da América do Sul com base no modelo de ensino que preconizou, assente num conjunto de princípios, também eles muito atuais sobre os quais vale a pena refletir. O Método Montessori é um conjunto de teorias, práticas e de materiais didáticos criados e idealizados por ela, para que a educação se desenvolva com base na evolução da criança e não o contrário. O Método assenta no conjunto de princípios que deveríamos ter presentes enquanto educadores: 

“As crianças aprendem com aquilo que está ao seu redor.

Se você criticar muito uma criança, ela aprenderá a julgar. Mas se você elogiar uma criança com frequência, ela aprenderá a valorizar.

Se a criança é tratada com hostilidade, ela aprenderá a brigar. Mas se você for justo com a criança, ela aprenderá a ser justa.

Se você ridicularizar a criança com frequência, ela transformar-se-á numa pessoa tímida. Mas se a criança crescer e se sentir segura, vai aprender a confiar nos outros.

Se você denegrir uma criança com frequência, ela vai desenvolver um sentimento de culpa que não é saudável. Mas se as ideias da criança são aceites regularmente, ela aprenderá a sentir-se bem consigo mesma.

Se for condescendente com a criança, ela aprenderá a ser paciente. E

se você elogiar o que a criança faz, ela conquistará autoconfiança. 

Se a criança vive em ambiente amigável, sentindo-se necessária, aprenderá a encontrar o amor no mundo. 

Não fale mal do seu filho (a), nem quando ele (a) estiver por perto, nem se estiver longe. Concentre-se em desenvolver o lado bom da criança, de maneira que não sobre espaço para o lado mau.

Escute sempre o seu filho e responda quando ele quiser fazer uma pergunta ou comentário.

Respeite o seu filho mesmo que ele tenha cometido um erro. Corrige-o depois. Esteja disposto a ajudar quando o seu filho procurar algo, mas esteja também disposto a passar despercebido se ele encontrou já o que procurava. Ajude a criança a assimilar o que ela ainda não conseguiu. Faça isso enchendo o espaço que o rodeia com cuidado, silêncio oportuno e amor. E quando se dirigir ao seu filho, faça-o da melhor maneira possível. Dê-lhe o melhor que há em você”.

Além disso, “nunca ajude uma criança numa tarefa que ela se sente capaz de fazer porque, qualquer ajuda desnecessária é um entrave na sua aprendizagem e no seu desenvolvimento.

A verdadeira educação é aquela que vai ao encontro da criança para realizar a sua libertação. E nenhuma descrição, nenhuma imagem de nenhum livro podem substituir a vista real das árvores num bosque com toda a vida que acontece em volta delas. Ajude-as a fazer tudo sozinhas. É importante que a criança aprenda a ter independência e desde bem cedo possa explorar, sem medo, o ambiente em que vive. Por fim, e não menos importante, lembre-se sempre que a pessoa que é servida, ao contrário de ser ajudada, está impedida de desenvolver a própria independência”. 

Para quem projeta ou está a iniciar-se nessa difícil tarefa de ser pai e educador, vale a pena debruçar-se sobre a vida e obra destas duas personalidades, uma ajuda preciosa na escolha do caminho … 

São precisos dentes para ferrar … e sorrir

Dizem que o rosto, para além de ser o espelho da alma, é o nosso cartão de visita. Mas, sem uns dentes saudáveis e sorriso bonito, não há um bom cartão. Por isso, temos de ter diariamente uma boa saúde oral para manter o “corta-palha” saudável e bonito. Caso contrário, a saúde dentária pode complicar-se e podemos ter de “botar fora” uns dentes que tanta falta nos fazem. Antigamente, era em casa que se tirava o dente, amarrado a uma porta que se fechava com força. Hoje, já são os especialistas com técnicas avançadas para os arrancar sem dor, às vezes um a um até se ficar totalmente desdentado. Depois, é preciso dar resposta à necessidade funcional, estética, psicológica e de saúde, o que tem solução nas chamadas próteses dentárias, a que normalmente chamamos dentaduras.  

Sabe-se que o uso de dentaduras já vem desde há cerca de 3.000 anos segundo os historiadores, sendo feitas de uma grande variedade de materiais, a começar por dentes roubados de cadáveres. Ao longo da história usou-se a madeira, o marfim, a porcelana, o ouro e diversos materiais sintéticos. Os egípcios ficaram para a história como os precursores no uso de dentaduras, que eram feitas amarrando um dente ao outro ou nas gengivas com ouro ou arames. Já os maias esculpiam dentes em pedra, conchas ou ossos e colocavam-nos no vazio dos dentes. No Japão, esculpiam as dentaduras em madeira e na Europa Central usavam dentes de animais. E em França, começaram por as fazer com marfim de hipopótamos, elefantes e morsas e mais tarde em porcelana. Foi em 1820 que um ourives, para evitar que as dentaduras apodrecessem, fez a primeira em ouro. 

É óbvio que as dentaduras mais famosas da história foram as utilizadas por George Washington, o primeiro presidente americano. Perdeu cedo todos os seus dentes e a partir dos 49 anos de idade passou a usar dentaduras feitas de latão e ouro, de marfim de hipopótamos, elefantes e até dentes humanos, chegando a ter mais de meia dúzia de dentaduras. Mas também ficaram célebres os “dentes de Waterloo”, uma célebre batalha em 1815 onde morreram mais de 50.000 soldados, quase todos jovens e com dentes excelentes. Ora, os “catadores de dentes” que seguiam os exércitos e avançavam sobre os cadáveres para lhes arrancar os dentes saudáveis, tiveram ali muita “matéria-prima” que despacharam em barris para a Europa e Estados Unidos. 

Mas os materiais para o fabrico das próteses dentárias (dentaduras) e a tecnologia de fabrico evoluíram muito, para além da qualidade técnica dos especialistas e é por isso que hoje temos uma variedade grande que permite a alguém que não tenha um único dente poder recuperar o visual. Para isso existe a dentadura total, parcial fixa, parcial removível, semiflexível, implante dentário e outras mais.

Mas as dentaduras têm proporcionado histórias muito diversas, que vale a pena explorar neste pequeno artigo. 

E começo por o advogado conceituado cá da terra que discursava em plena campanha eleitoral para umas eleições autárquicas, quando viu a placa dentária saltar-lhe da boca e voar até junto da primeira fila daqueles que assistiam à sessão de esclarecimento. Sem se atrapalhar, interrompeu o discurso, apanhou a placa, limpou-a e, exibindo-a perante a plateia, disse com um sorriso nos lábios: “Terceira dentição”!

Também são muitos os casos de pessoas que ao tomarem banho no mar, quando atingidas por uma onda, caem e engolem água e ao abrir a boca para respirar, a placa dentária escapa-se e cai na água do mar sem hipóteses de recuperação, deixando-as expostas com a ausência total ou parcial da dentição, um incómodo para quem acontece, uma cena cómica para quem assiste pois é a dentadura dos outros. Maria ficou sem a dentadura assim, numa onda inesperada e ficou a chorar com a mão a tapar a boca. A amiga animou-a e fez com que fossem ao longo da praia para ver se o mar lhe devolvia o que lhe roubara. Foi com um certo entusiasmo que ouviram dois jovens dizer: “Olha uma dentadura”! Disfarçando, desviaram a atenção dos jovens, agarraram a dentadura e saíram dali. Quando já no autocarro, ao tentar colocá-la na boca, Maria descobriu que não era a sua. Afinal fora um idoso que a deixara na praia de prevenção para o mar não lha roubar, coisa que elas fizeram …

Um casal de idosos pobres entrou num café e pediu um cachorro, que dividiu ao meio quando chegou. Enquanto o velhinho comia, a mulher só olhava. O empregado condoído com a cena, foi junto deles e disse: “Se quiser, eu trago outra sanduiche para a senhora”. E ela respondeu logo: “Não, obrigado, não se incomode. Eu só estou à espera que ele acabe para comer a minha metade, mas preciso da dentadura dele. Nós usamos tudo a meias”!

Mas a história mais complexa por causa de uma dentadura aconteceu em Israel. Em 1948 Israel tornou-se independente, mas os árabes moveram-lhe uma guerra que acabaria anos mais tarde com a divisão de Jerusalém. Porém, ao fazerem a divisão no mapa, houve alguns metros que ficaram como terra de ninguém, onde nem os israelitas, nem os jordanos podiam entrar. No limite do lado de Israel havia um mosteiro e um dia quando uma freira estava à janela, começou a tossir. Num acesso mais forte de tosse, acabou por cuspir a placa para a “terra de ninguém”. Querendo recuperá-la pela falta que lhe fazia, foi ao ministério e disseram-lhe ser impossível entrar lá. Mas, depois de muita insistência, comovidos com o caso, entraram em contacto com os representantes da ONU e estes com a Jordânia. Só depois de muitas conversações acabaram por chegar a acordo, tendo-se reunido junto ao local um representante da ONU, outro de Israel e mais um da Jordânia, para entrar na “terra de ninguém” e conseguir recuperar a dentadura da freira, num registo fotográfico histórico. Dizem que as dentaduras são falsidades expostas sempre que saem do lugar, mas a verdade é que em grande parte dos casos resolvem com eficácia um problema múltiplo. E, não conseguindo ser o mesmo que a dentadura natural, conseguem recuperar o visual da pessoa e o lado psicológico de quem está parcial ou totalmente desdentado, o que às vezes é muito mais importante que tudo o resto …

E, se pensarmos bem, o uso de dentadura tem a grande vantagem de podermos escovar os dentes e cantar ao mesmo tempo!!!  

A barba dá um sinal de respeito?

Se eu usasse barbas, em certas ocasiões bem as podia “pôr de molho”, por questões de precaução. Mas não é o caso porque, desde que estes pelos que trago no queixo e face começaram a crescer, tive sempre por princípio não lhes dar tréguas e cortá-los em um ou dois dias. Só em três ocasiões tiveram possibilidades de aumentar um pouco mais, mas o máximo foram cinco dias para logo serem rapados rente. 

E isso deve-se à época em que vivi a minha adolescência, quando vigorava o visual do homem barbeado e higiénico surgido no princípio do século passado com a invenção das lâminas de barbear descartáveis, pela Gillette. Até então, e ainda vi muito disso, a barba era “desfeita” com “navalha de barbear” e era precisa uma certa arte para o fazer. Eu já comecei a fazer a barba com as tais lâminas descartáveis, muito finas e em aço, de dupla face, mas os mais velhos continuaram a manter a navalha tradicional. Já havia alguns homens que deixavam crescer a barba, mas nem todos tinham os cuidados higiénicos devidos pelo que de vez em quando, viam-se algumas “secreções” ou até restos de comida embrulhados no emaranhado de pelos e não era bonito de se ver. Nessas ocasiões lembrava-me de um provérbio árabe: “Se cuspo para baixo, cai na barba, se cuspo para cima, cai no bigode”.                                                                                         Ao longo da história e em diferentes culturas no mundo, aos homens com barba mais ou menos comprida, atribuíram-se qualidades como sabedoria, potência sexual e importância. Mas em determinadas eras e culturas, atribuiu-se a ela muita falta de higiene e ser própria dos excêntricos e preguiçosos. Mas, fisiologicamente, a função da barba é aquecer e proteger o rosto e filtrar o ar quando respiramos.                                                                                  São muitos os apelos ao uso de barba, tais como honra, sofisticação, independência, poder, afirmação e até para esconder a timidez. De artistas a ditadores, muitas foram as grandes personalidades que construíram a sua imagem com a ajuda dos pelos faciais. Daí que muitos tipos de barba foram batizados com o nome daqueles que tornaram um certo estilo popular. O cavanhaque longo é conhecido até hoje como barba à Van Dyck, em homenagem ao pintor holandês, tal como o bigode volumoso conhecido por Kaiser, em homenagem ao último imperador da Alemanha.                                                                                                              As barbas sempre foram usadas pelos povos árabes e religiões como o islamismo e o judaísmo ortodoxo, havendo alguns homens que envelheceram sem nunca as terem cortado sequer uma vez. Alguns (poucos), exibem-se levantando pesos pendurados nos pelos da barba. Como curiosidade, Charles Darwin acreditava que a barba evoluiu como um ornamento para atrair as fêmeas, como aconteceu com a plumagem dos pavões, o que me permite perguntar: “Será que os homens com barba atraem mais mulheres que os de cara rapada”? Há quem apresente estudos afirmando ser verdade, embora também existe quem defende o contrário. Certo é que a tradição espelhou a sua “sabedoria das barbas” nalguns ditados populares como: “Se a barba fosse sinal de sabedoria, o bode era profeta” ou até “homem barbado, homem honrado”. Como conselho avisado, ouvia eu: “Na barba do tolo aprende o barbeiro novo”. Enquanto o provérbio árabe previne: “Não apares a barba diante de duas pessoas, pois uma dirá que ainda está comprida, enquanto para a outra ficou curta demais”. As teorias sobre as barbas conferirem dotes especiais àqueles que as usam assentam em meras questões psicológicas ao argumentar que os homens com barba são considerados mais masculinos e saudáveis do que os totalmente barbeados. E até há quem seja mais específico e diga que “as barbas de 10 dias fazem com que os homens se tornem mais atraentes para as mulheres”, enquanto outros defendem que “as pessoas barbeadas têm menos atributos de masculinidade e são mais dóceis”. Além disso, os defensores dos barbados atribuem-lhes um ar de “respeito e poder”, de lhes conferir “maturidade” e até um sinal de “boa saúde”, dado que, historicamente, o pelo facial era terreno fértil para os parasitas e as consequentes infeções, pelo que, desafiar esses perigos usando barba era uma forma de demonstrar força e saúde, o que não deixa de ser estranhamente curioso. Claro que os opositores dizem que o uso de barba é a forma de disfarçar as imperfeições da pele, as marcas de acne, um rosto feio. Pessoalmente, nunca, mas mesmo nunca, senti necessidade de deixar crescer a barba para ser respeitado (nem nunca ouvi dizer que o tamanho do respeito era proporcional ao tamanho das barbas) ou afirmar a masculinidade e até gosto de ver certo tipo de barbas ou não as tivesse cá por casa …                       Historicamente, se houve civilizações, como no Império Romano, em que deixavam crescer longas barbas, também houve outras como os egípcios que consideravam os pelos do corpo e rosto desagradáveis. As barbas completas fizeram parte do homem na sua versão inicial e primitiva, pois nem tinha meios para rapar pelos e as preocupações eram outras. E nos últimos tempos, como tantas coisas na sociedade, estão em uso ou não em função dos “ditadores da moda”, em geral figuras mediáticas que, neste caso, resolvem ou não deixar crescer os pelos da cara e aos quais conferem um estilo e tipo de barba que será copiada rapidamente por milhões de “seguidores”. 

A partir de 2008, depois da crise financeira, notou-se uma mudança significativa na aparência do homem. As incertezas na ordem mundial pediam um homem com H maiúsculo. Essa volta trouxe consigo o uso das barbas como afirmação de masculinidade. A evidência mais óbvia viu-se nas celebridades de Hollywood, “mãe” de muitos modismos. De 2009 em diante assistiu-se a uma parada de atores usando barbas grandes e volumosas, como aconteceu com os tão badalados George Clooney e Brad Pitt, não demorando a virar moda graças ao fenómeno viral da internet. O rosto adolescente dos modelos depressa foi substituído por homens mais peludos e viris. Daí assistirmos hoje a um regresso das barbas, expressas numa enorme multiplicidade de estilos e tipos em função do gosto pessoal ou do seguidismo incondicional, até que as marcas de lâminas de barbear voltem à carga com a promoção da “cara lavada” e invertam o sentido da moda em prol do negócio…

Jô Soares diz que “um gordo, quando está a fazer dieta, faz sempre a barba antes de se pesar”, como se fizesse a diferença, enquanto Millôr Fernandes questiona: “Em 50 anos de vida, os homens gastam 80 a 100 dias a fazer a barba. Ignora-se o que as mulheres fazem com esse tempo” … Mas uma coisa diz o povo que nunca devemos esquecer, se não queremos ser apanhados “à falsa fé”: “Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, bota as tuas de molho”. 

Já agora, coitado daquele que impõe respeito só porque tem barbas grandes …                                                                                    

A Luísa, para lá dos seus silêncios …

Quase sempre escrevo esta crónica com a Luísa a meu lado de olhos fixos na televisão, qual hipnótico, sem dizer uma só palavra a não ser que “puxe” por ela. E mesmo assim, a muitas perguntas a resposta é dada pelo acenar da cabeça, numa espécie de “preguiça mental” que certa medicação induziu e que só melhorou quando reduzida a dose. Mas, em muitas ocasiões sai do seu silêncio para nos surpreender. 

Na televisão decorria um desses concursos com perguntas de cultura geral. Para “puxar” por ela, nas respostas com escolha múltipla fazia questão de lhe perguntar qual delas achava que era. Como na maior parte das vezes nunca se decidia, eu ia respondendo a algumas. Para insistir na conversação, e como acertei nalgumas respostas seguidas, a senhora que a cuida depois do jantar, sugeriu que eu concorresse e que elas as duas iriam comigo ao concurso. Apesar de dar um ar de distraída, a Luísa encerrou a conversa: “Só que eu não sei assobiar”!!! 

Já lá vão quase catorze anos sobre o dia em que sofreu o primeiro AVC, que se viria a repetir quinze dias depois de forma mais violenta e com consequências graves na sua saúde futura. Apesar das grandes limitações, tem vindo a manter uma certa estabilidade nas rotinas às quais já há muito estamos adaptados. Mas, na perda da memória de curto prazo, na desorientação no espaço e no tempo e de uma quase ausência da realidade, não deixa de ser curioso, agradável e muito animador a conservação da capacidade de resposta pronta, mesmo quando aparenta estar recolhida nos seus silêncios, uma qualidade que sempre foi “uma das suas imagens de marca”. 

A Becas, a nossa cadela, estava deitada no ninho na posição em que costuma dormir, isto é, de barriga para o ar e com as patas dobradas, que é um sinal de que se sente em segurança no dizer de entendidos. A Alice quando a viu, disse: “Olá Becas. Tu estás muito à vontade …” E a Luísa acrescentou: “É a sua posição pornográfica” … Uns dias depois a Alice chegou junto de nós a queixar-se da garganta. “É catarro”, digo eu. E a Luísa, num sorriso: “Dou-lhe um conselho: não a deite fora” … 

Até de noite, quando tenho a certeza de que está a dormir, responde e não percebo como: Acordei e senti a Luísa a dormir profundamente a meu lado. Como precisava de um lenço de papel que estava no lado mais distante da mesinha de cabeceira e não querendo acender a luz do candeeiro para não a acordar, mesmo às escuras estiquei o braço com o intuito de chegar à caixa quando senti que toquei noutra coisa. Logo de seguida ouvi o barulho de um objeto a cair no chão. Era a garrafa de água que se encontrava no local errado. Mal ela caiu no chão com estrondo, a Luísa perguntou-me: “Estás a ver se consegues deitar a casa abaixo”? E no momento seguinte retomou a respiração ritmada e profunda, sinal de quem está a dormir muito bem … Ainda fiquei à espera para ver se dizia mais alguma coisa, mas continuou a dormir como se nada fosse.

Já num amanhecer, ao sentir que ela tinha acordado, acendi a luz do candeeiro, levantei-me e abri a persiana para deixar entrar a luz do dia. Sem mais nem menos, ouvi-a interrogar: “Vais sair pela janela”?

A minha cunhada Teresa vem cá a casa diariamente e é também uma das suas “cuidadoras informais”. Um dia cheguei a casa e soube que ela tinha levado a Luísa a passear durante a tarde, indo até Paredes. Para me meter com a Luísa, perguntei: “E viste muitas paredes”? Com resposta imediata, calou-me num instante: “Vi as que lá havia”!!!

Há ocasiões em que parece até que nem está a dar atenção nenhuma ao que se passa à sua volta nem ao que se diz, mas no momento certo intervém. Foi assim que ao mudar de canal, vi que o F. C. Porto estava a jogar com o Benfica para a Taça de Portugal. A Teresa apercebeu-se disso e perguntou qual era o resultado. Respondi-lhe: “Ao intervalo, o Porto está a ganhar por três a zero, mas vai jogar na segunda parte com menos um jogador”. E ela quis saber: “O que lhe aconteceu”? A Luísa, que se encontrava ao nosso lado e aparentando estar ausente da conversa, antecipou-se na resposta: “Foi à casa de banho” …

Uma cuidadora que nos ajuda em função das suas disponibilidades é a Alice e que tem por hábito tentar estimular a Luísa falando bastante com ela para a motivar e fazer sair do mutismo que lhe é habitual. No momento falava-lhe dum primo, bebé com dois meses e dele passar as noites a berrar. “E berra assim tanto?”, perguntou-lhe a Luísa. “Ai berra, berra”, respondeu-lhe ela, que mora a alguns quilómetros da nossa casa. E a Luísa não hesitou: “É que eu não o ouço” …

Numa dessas ocasiões, já cansada de a ouvir falar e sem vontade de participar na conversa, a Luísa mandou-a calar. No entanto, a Alice insistiu em provocá-la, mas ela voltou a dizer-lhe: “Cale-se”. Perante esta nova ordem a Alice perguntou: “Então quando é que eu posso falar”? E recebeu a resposta: “Quando se for deitar”!

Às vezes interrogo-me sobre esta sua capacidade de responder muito assertivamente quando nem sequer se esperava que estivesse a ouvir e fica-me a dúvida se o faz por instinto, num ato reflexo ou é mesmo o dom de ter sempre uma boa resposta na ponta da língua. Ainda hoje, enquanto falava com uma pessoa amiga junto da Luísa, usei o ditado “porque o seguro morreu de velho” e logo ela rematou: “mas morreu na mesma”. E desligou.

A meio da noite despertei ao ouvir a Luísa a perguntar-me: “Oh Zé, estás acordado”? Ainda bem ensonado respondi que sim. E veio nova pergunta: “E estás bem”? Respondi-lhe dizendo que sim e perguntei se ela também estava. Respondeu-me com um “sim, também estou”. Mas acrescentou: “Como dizia o meu pai, se não for mais, que seja sempre assim”. E em menos de um minuto a sua respiração voltou a ser o sinal de que já estava “virada para o lado que dorme melhor” …

Seis horas da manhã. Sinto a Luísa mexer-se e depois começa a falar: “Estão a doer-me os pés”. Levanto-me, acendo a luz e vou massajar-lhe os pés depois de aliviar a pressão da roupa naquela zona. E então ela concluiu: “Se calhar andei a correr à noite e não me lembro”! 

Para mim é surpreendente esta forma espontânea de dar respostas que eu não conseguiria, nem na forma nem no conteúdo, de alguém que permanece a maior parte do dia alheada do que se passa à sua volta. E mais ainda, quando está literalmente a dormir e é capaz de dizer algo ajustado ao momento, sem acordar, como um sonâmbulo. Mas sobretudo uma lição de que não podemos nem devemos desistir de ninguém na doença, por mais grave que seja a situação. Muitos médicos acham que os doentes em estado de ausência ou mesmo de coma, podem ouvir e perceber o mundo ao seu redor. Por isso é tão importante que haja alguém a cuidar, comunicar ainda que sem ter respostas, decifrar e interpretar as sensações e reações. Porque por mais “distantes” que estejam, as palavras sentidas de uma pessoa querida são um estímulo para continuar e um sinal de que não estão sozinhos nesta jornada terrena … 

Os homens já não engravidam como dantes …

Não tenham dúvidas e nem sequer fiquem chocados quando digo que “os homens já não engravidam como dantes” … Não estejam, pois é uma verdade comprovada, não por mim que sou um leigo na matéria, mas por reputados especialistas de diversos países. Todos eles são unânimes ao afirmarem que os homens têm vindo a perder, pouco a pouco, a capacidade de engravidar, tendo esse potencial caído para níveis preocupantes no mundo ocidental por razões que estão muito bem identificadas. (Faço aqui parênteses para clarificar aquilo que pode ser um mal-entendido pois, ao mostrar o rascunho do artigo a uma pessoa amiga, mal leu o título e o primeiro parágrafo, disparou logo: “Mas quando é que houve homens grávidos”? Tive de lhe dizer que o título ficou incompleto intencionalmente, pois falta-lhe a parte final: “Os homens já não engravidam como dantes … as mulheres”).

Presumo estarem a pensar que iria defender uma teoria mirabolante de que outrora havia muitos homens “grávidos” e que agora seriam casos raros. Ora não é o caso até porque, quando era adolescente, já corria o boato ou mito que o primeiro homem a ficar “grávido” iria ganhar “mil contos” por ser caso único – só não se dizia nem sabia quem pagaria tal importância ao primeiro “homem-mãe”. 

Mas voltando à questão, os especialistas dizem que há necessidade urgente de enfrentar o problema da quebra de fertilidade masculina e de se questionar a prática, cada vez mais comum, de submeter as mulheres a tratamentos caros e invasivos para tentar contornar a eventual falta de espermatozoides do homem. É um problema que nem sempre é fácil de encarar, dentro (e fora) de casa. É que, para o homem, descobrir que não é fértil pode ser uma revelação arrasadora ao fazer sentir a sua masculinidade abalada. Temos de concordar que há falta de sensibilização junto da população masculina para serem educados sobre a sua saúde reprodutiva, pois podem, por equívoco, considerá-la como um dado adquirido. E, homem com problema de fertilidade, é tabu, algo que fica encoberto pois põe em causa a sua virilidade. E é muito difícil para ele conseguir aceitar que não é capaz de dar um filho à sua esposa, isto é, engravidar … a mulher, mesmo nos tempos que correm, quanto mais quando o lema era “homem que é homem, é macho”. Estava fora de questão que a culpa de não terem filhos fosse dele. Era só o que faltava!!! Ainda hoje, quando o médico diz a um homem “você não está a produzir espermatozoides e não pode ter filhos”, é um choque brutal que pode até pôr em causa a relação.  

Nos Estados Unidos considera-se que um casal não é fértil depois de andar um ano a tentar sem uso de nenhum método anticoncecional e não conseguir engravidar. Estimam eles que, no país, 30% dos casos de infertilidade são apenas por fatores relacionados com o homem, outros 30% com fatores da mulher e os restantes dos dois. No mundo ocidental a qualidade e quantidade do esperma masculino estão num crescente declínio e pouco se sabe como melhorá-las.

Mas, afinal, quais são as causas principais desta considerável quebra tanto na qualidade como na quantidade do sémen humano sobretudo no ocidente, razão para os especialistas dizerem que, se não houver uma mudança nos hábitos, não entraremos em extinção, mas teremos cada vez mais “homens a não engravidar … as suas mulheres”? Todas as doenças sexualmente transmissíveis, o peso excessivo, a radiação celular provocada pelo contacto diário do telemóvel no bolso, alguns produtos químicos que se usam no dia a dia como detergentes, sabão e tantos outros, o consumo de umas quantas drogas como a cocaína, heroína e maconha, os efeitos maléficos do cigarro, do álcool ou ainda uma ou outra pancada mais violenta nos genitais, são fatores de peso responsáveis pela considerável diminuição dos espermatozoides no sémen, em número e qualidade.

No entanto, há mais, algo que nunca me passaria pela cabeça. Hoje, sabe-se que os órgãos produtores de espermatozoides necessitam de estar 3 a 4 graus centígrados abaixo da temperatura do corpo. Ora, enquanto o corpo se encontra a 36 graus numa situação normal, os testículos deverão manter-se nos 32. Assim, usar cuecas justas por razões de moda, sejam elas do tipo slip, boxer, sunga, samba canção ou outra ou permanecer longos períodos sentado, faz com que a temperatura dessa zona seja mais alta do que o recomendável, fazendo com que a produção dos espermatozoides seja afetada de forma irreversível. Ao que parece, sábios ou fruto das circunstâncias, eram os homens na minha infância e de antes, porque usavam cuecas largas de popelina, que permitiam um extraordinário arejamento da zona genital com o abaixamento da temperatura nas duas “unidades fabris”, permitindo que elas cumprissem a sua função de produzir espermatozoides, em quantidade e qualidade. Nos dias de hoje, este problema pode ser uma oportunidade de negócio para a indústria, se conseguir criar um “equipamento de climatização” capaz de conciliar a temperatura ideal para as duas “unidades fabris” com as exigências da moda no que diz respeito à sensualidade do visual das cuecas “justinhas”.

Será bom lembrar que, quando um casal tenta ter filhos e a “cegonha” não vem, ano após ano, chegou a altura de ouvir um especialista. E não existe culpa de ninguém quando o assunto é fertilidade. Se antes as atenções se viravam logo para a esposa, hoje a procura das causas centra-se no casal, pois cada vez mais o homem é afetado por várias condicionantes que o impedem de engravidar a sua mulher. Seria errado e injusto submeter a mulher a exames e tratamentos inúteis caso o problema esteja do lado do homem.

Claro que existem outros problemas a começar pelo adiamento para cada vez mais tarde da encomenda do serviço à “cegonha”, mas não vou aqui levar o assunto à exaustão, nem tenho pretensões para tal. E em jeito de remate, deixo o alerta aos homens que queiram ir para lá da “diversão” e passar à “fase reprodutiva”: Tenham atenção especial à temperatura do saco onde têm guardadas as “joias da família“. Não se esqueçam que deve ser bem arejado permanentemente – e não se pede para as pendurar à vista de todos – evitando roupa demasiado justa imposta pela moda. Caso contrário, podem correr o risco de ir parar à lista dos “homens que já não engravidam como dantes … as suas mulheres”!!!      

“Adoro Boatos. Descubro coisas sobre mim que nem eu próprio sabia”!

Um dia estava num grupo de amigos em amena cavaqueira quando chegou um outro e, sem mais, disse: “Acabo de saber que morreu o Afonso”. Fez-se silêncio para, logo de seguida se fazerem os comentários habituais: “Era tão bom rapaz”, “ainda há dias o encontrei e parecia vender saúde” e outros que tais. Como o conhecia bem e à família e nem sequer tinha ouvido dizer que ele estava doente, afastei-me um pouco e liguei para o número do Afonso a ver se alguém atendia. Atendeu-me ele. “Estás a falar do reino dos vivos ou já estás do lado de lá”, perguntei eu ao ouvir a sua voz? Era mais um a ser “morto” por um boato que veio não se sabe de onde, lançado por não sei quem, nem com que intenção.

Dizia Machado de Assis que “o boato é um ente invisível e impalpável, que fala como um homem, está em toda a parte e em nenhuma, que ninguém vê de onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a célebre lanterna dos contos arábicos, a favor da qual se avantaja em poder e prestígio, a tudo o que é prestigioso e poderoso”.

O boato, não passa de um comportamento infantil e de satisfazer um único propósito de alimentar o nada, num “diz que disse” sem nunca se saber quem foi que “disse” e sem saber o que dizia ou se falou só pelo prazer de inventar uma história para falar e gerar burburinho para ter assunto de conversa, regra geral sem “ter paternidade”. Pode ser também a forma de dizer alguma coisa sobre aquilo que não se conhece ou criar uma trama rebuscada e intrigante que desperte a curiosidade de quem ouve, se possível envolvendo alguém conhecido ou, melhor ainda, importante na sociedade. Para que tenha mais hipóteses de ser bem-sucedido, deve conter alguns elementos verdadeiros. Já António Aleixo dizia: “P’ra mentira ser segura/ e atingir profundidade/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade”. Ora, com a chegada das redes sociais e a coberto da liberdade e do direito à informação, o boato ganhou nova dimensão pela velocidade supersónica com que se propaga, aumentando mais ainda o interesse, perversão e até a maldade das mesmas.

Na lista dos maiores boatos, nem as figuras históricas escapam. Enquanto se dizia que “Adolf Hitler, supostamente, só tinha um testículo, também circulou que “a imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande, morreu quando mantinha relações com um cavalo”. Nem a família real inglesa escapou aos boatos, ao dizerem que “o príncipe Harry, não é filho do príncipe Carlos, mas sim de um oficial do exército, James Hewitt, com quem a princesa Diana teve um affair”. Entre os mais caricatos está o de que “a artista Jeniffer Lopez fez um seguro do seu famoso traseiro”, enquanto “Michael Jackson dormia dentro de uma câmara de oxigénio para viver até aos 150 anos” (ficaria bem longe). Mas a verdade é que, verdadeiros ou falsos, estes boatos espalharam-se por todo o mundo, a uma velocidade incrível.

Um boato, verdadeiro ou falso, fica para sempre na memória das pessoas e, mesmo quando acaba por ser desmentido como uma mentira comprovada, há sempre quem garanta que a história é verdadeira. Nesses casos, muitas vezes as pessoas visadas podem sofrer ao longo de muito tempo, como aconteceu com Laura, a cantora do grupo musical as “Doce”, com o boato que teria ido às urgências de um hospital de Lisboa depois de ter tido sexo anal com um jogador do Benfica.

Em Portugal, até a história está cheia de rumores, de que o mais célebre e duradouro foi o de D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer Quibir, mas que se esperava ver regressar numa manhã de nevoeiro para salvar Portugal! Já de Carlos Paião, que nos deixou muitas músicas que ainda continuam a ser ouvidas com prazer, vítima de um acidente automóvel brutal, correu o boato que foi enterrado vivo porque “ao levantar as ossadas encontraram o caixão arranhado por dentro”, o que viria a ser desmentido pela mulher do cantor.

Vem isto a propósito do que me aconteceu recentemente. Logo pela manhã a senhora Ana desabafou: “Fiquei muito triste por saber que vai abandonar a Misericórdia e que até já lhe fizeram um jantar de despedida”. Como já nada me surpreende, levei o assunto para a brincadeira e respondi-lhe: “Sabe que eu ando a esquecer-me de algumas coisas de vez em quando. Se calhar, até me fizeram um jantar de despedida, mas confesso que não me lembro nada disso. Tenho de ir ao neurologista porque é um esquecimento muito grave”. No mesmo dia e passadas poucas horas, encontro um amigo que me disse algo parecido: “Então já deixaste a Misericórdia sem acabares os projetos que tinhas? Soube que já te fizeram um jantar de despedida. Não estava à espera que deixasses assim de repente o lugar”. Acabei por o remeter para os meus esquecimentos como o tinha feito da parte da manhã, mas fiquei intrigado como é que duas pessoas de freguesias distantes, que não se conhecem, ouviram falar de uma demissão que não aconteceu e ainda de um jantar de despedida em que ninguém participou, em que o ator principal era eu, sem que eu saiba de nada. Até me apetece utilizar uma frase conhecida: “Adoro boatos. Descubro coisas sobre mim que nem eu próprio conhecia”!

Boatos causam problemas há séculos. A questão é que antigamente não havia internet e outros meios para comprovar se era verdadeiro ou falso. No entanto, o problema atual é precisamente a internet, pois hoje, com as redes sociais, uma notícia pode espalhar-se muito rapidamente e tornar-se numa verdade sem nunca o ter sido. E, tal como naquela frase bem conhecida, a verdade é que “o … visado é sempre o último a saber”.

Há um velho ditado que diz: “Deves comprar o boato e vender as notícias”. E isso quer dizer, hoje mais do que nunca e fruto do elevado poder de difusão do boato ou aquilo a que chamam de “falsas notícias”, que temos a obrigação de escrutinar bem as “histórias que ouvimos ou lemos, tentando distinguir o que é verdade do que não passa de mentira.

Quando somos confrontados com uma informação nova e com impacto, tendemos a funcionar como uma “caixa de ressonância”, isto é, passando-a de imediato para outra ou outras pessoas, seja num “boca a boca”, seja no simples carregar de uma tecla para a fazer replicar não sei quantas vezes à velocidade da luz. Mesmo quando a informação parece exagerada ou estranha, nem sempre refletimos um pouco e paramos para pensar no que pode ou não ter de verdade e acabamos por ser agentes disseminadores de boatos, quase sempre sem consciência de o ser. Quanto menos questionarmos a informação e mais a passarmos para a frente, maior proporção ela ganhará. E é fácil, até porque nada se espalha com maior rapidez do que um boato. Já Winston Churchill dizia que “uma mentira roda meio mundo antes da verdade ter tempo de vestir as calças”.

Mas há momentos em que o boato não deve ser contestado, como é o caso: “Se correr o boato de que morreste, aceita-o bem, porque doi menos” … 

Casamento, essa sociedade difícil …

No casamento, a promessa de “até que a morte nos separe” é cada vez mais uma promessa que não vai ser cumprida pelos casais, pois está claro que o número de divórcios em Portugal continua a aumentar de ano para ano ao ponto de ter sido quase igual ao dos casamentos em 2020. Até parece que estão a dar ouvidos a Erasmo de Roterdão por ele um dia ter dito que se “deve respeitar o casamento enquanto é um purgatório e dissolvê-lo quando se tornar um inferno”. Este estado de coisas confirma a opinião de Albert Einstein quando nos dizia que “o casamento é a tentativa malsucedida de extrair algo duradouro de um acidente”. Porém, se alguém quiser ter mais chances de alcançar a felicidade, deve seguir o conselho de F. Nietzsche: “Se os esposos não vivessem juntos, haveria mais matrimónios felizes”.

No casamento enquanto as mulheres procuram uma relação de amor, os homens querem constituir uma família. Elas encaram a separação como consequência do fim do amor, enquanto eles, apesar da relação não ser um mar de rosas, acham que o divórcio não se justifica já que, bem ou mal, têm uma família. E estas diferenças, causa principal dos divórcios, provam que o sexo oposto é isso mesmo – “oposto”. Mudou a relação com os tempos: A fidelidade incondicional virou “enquanto se ama” e o juramento solene a “consciência do provisório”. Os álbuns de fotografias ganharam novos atores: padrastos, madrastas, meios-irmãos e outros que tais. Parte dos lares têm um dos pais ausentes e os avós criam e educam os netos e financiam os filhos. Na intimidade, a sexualidade libertou-se da reprodução graças aos anticoncetivos. A sexologia, antes uma perversão e até anormalidade, virou ciência. O prazer (ou sua promessa) passou a ser grande negócio, o imaginário sexual uma máquina de vendas. A sexualidade tornou-se pública e fez exibir o sexo através das redes sociais e meios de comunicação social. Homens e mulheres, se antes eram malcheirosos e sujos, hoje já são perfumados. No passado, muito castos, agora, nus e exibicionistas.

Será que Leonard da Vinci tinha razão ao dizer que “o casamento é como enfiar a mão num saco de serpentes na esperança de apanhar uma enguia”? Ou Arnaldo Jabor com: “O primeiro ano é o mais difícil. Os restantes, são impossíveis”? 

A democratização do divórcio, apesar de caro, tornou o casamento muito mais transitório. É que, ao fim de 3 a 4 anos, um e outro, dão o casamento por garantido: preferem dormir a ter sexo, passam horas a ver futebol ou telenovelas na televisão sem ter tempo para falar ou dizer sequer “amo-te”. Entram no modo “rotina”. Até a porta da casa de banho deixam aberta enquanto a usam. Então aos 5 a 7 anos, como já sabem tudo um sobre o outro e a atração sexual “cai em desgraça”, pensam ter um filho para salvar o matrimónio, se bem que a criança é um ser e não um “dispositivo de resgate”. Já dizia um humorista que “quando um casal de recém-casados sorri, toda a gente sabe porquê. Quando um casal com mais de 10 anos de casamento sorri, toda a gente pergunta porquê”!!!

Os humoristas brasileiros são sarcásticos sobre o casamento. Juca Chaves diz que “quando um homem abre a porta do carro à esposa, podemos estar certos de uma coisa: ou o carro é novo ou é o amante”. Chico Anísio defende que os “solteiros deviam pagar mais impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes do que os outros”. Já Tom Jobim: “Quando me casei, descobri a felicidade. Mas aí, já era tarde demais”. Também Nelson Rodrigues disse que “na Antiguidade, os sacrifícios faziam-se no altar. Atualmente, esse costume perdura”! 

Mas, o casamento é uma das maiores instituições da Humanidade. E,

apesar do aumento constante do número de divórcios, a maioria das pessoas continua a querer casar-se, ter filhos, uma família e manter uma relação heterossexual, monogâmica, estável e permanente. Ora, isso é tão verdade que, para muita gente, quando o casamento falha tenta de novo acreditando que ainda é possível. Dizia Pablo Neruda: “Casar segunda vez, é o triunfo da esperança sobre a experiência”. 

No entanto, hoje tudo conspira contra o casamento, sendo a própria sociedade que o deseja a criar condições antagónicas que “batem de frente” com a vontade de quem quer casar, a começar pela promoção do espírito individualista. Ora, é um “quebra-cabeças” querer fazer estimular o espírito de família quando se exalta o elogio do indivíduo e assim, os apelos à realização pessoal “chocam” com os sacrifícios necessários à vida a dois e criam expectativas incompatíveis entre si. O casamento significa obrigações, renúncia de objetivos pessoais em função da família, filhos, parentes, etc. … E é aí que, às vezes, “a porca torce o rabo”. Por isso compara-se o matrimónio a um submarino: Às vezes consegue flutuar, mas a tendência é afundar …  

Mas há mais dificuldades. A tradição fez do sexo algo pecaminoso e impuro, mas isso foi alterado para um liberalismo com o aumento de sexo pré-marital, vida sexual mais livre (em especial nas mulheres), menos preconceitos e maior exigência numa relação satisfatória. Este clima é promovido pelos meios de comunicação social, redes sociais e artes. Hoje não se compra um carro, assiste a telenovela, filme ou até programa de televisão para crianças sem que o apelo sexual esteja presente, tal como está no dia a dia a sensualidade e erotização e se vende a imagem de “festa” ausente de compromissos. É a contradição clara entre o casamento monogâmico indissolúvel e uma atordoante liberdade sexual, que torna difícil cumprir as regras da monogamia. Há também a emancipação feminina que procura igualdade entre homens e mulheres quanto à livre expressão sexual e à diminuição da chamada “dupla moral” que conferia ao homem amplas liberdades e muito poucas à mulher, o que significa uma crescente diminuição na diferença no número de relações extramaritais entre os homens e as mulheres. 

Além disso, vivemos na “era do descartável”: roupa, copos, refeições, eletrodomésticos, carros, ritmos de vida e moda, vêm e vão numa sucessão de “compra, usa e deita fora”. Esse conceito não ficou pelas coisas materiais e estendeu-se às relações pessoais. Assim, logo ao primeiro sinal de “defeito”, “todas” elas, indiscriminadamente, são consideradas “sem conserto” e têm de ser trocadas. É assim que a promessa feita diante do altar esbarra na atração para gozar sempre “novas paixões arrebatadoras” e torna-se igual à promessa eleitoral dum político que, quando é eleito, sabe que dificilmente consegue cumpri-la.

É claro que o casamento é uma sociedade muito difícil e exige amor, compreensão, cedências, sacrifícios, paciência e inteligência. Ela não deve pensar que ele é nojento só porque se “peida” e tem de conviver com isso porque vai acontecer muito. Aliás, antes de casar com ele devia ouvi-lo mastigar e, se vir que consegue aguentar esse barulho, vá em frente com o casamento. E ele não a deve considerar patética só porque é obcecada pelas cores da pele, tinta das unhas, manicure, esteticista, cabeleireira, dietas, além de milhentos produtos de beleza que ocupam quase toda a casa de banho. É que, homens e mulheres, são assim mesmo. O resto, é conversa. Quer um conselho? Case e vai ver que “o casamento consegue fazer de duas pessoas uma só. Mas o difícil é determinar qual delas será” … 

Por isso, dirigido aos homens vai um conselho do “outro” Sócrates: “Certamente, casa-te. Se conseguires uma boa esposa, serás feliz; se apanhares uma ruim, tornar-te-ás um filósofo”.