Não gosto de moda, nem de “apertos”…

“Parece impossível. Ainda usas esses calções velhos e rotos? Não tens vergonha”? É isto que ouço de vez em quando cá por casa sempre que me veem com os calções azul marinho, bastante puídos na parte dos “glúteos” (aquilo a que vulgarmente chamamos de “rabo”, “nádegas” ou “cu”), de tal forma que já começaram a romper. 

“Não vês que tem um buraco e parece mal”? Como sou dos que têm dificuldades em me separar de uma peça de roupa que uso regularmente e com que me sinto confortável, respondo: “O buraco é para deixar entrar o ar. É uma “área de serviço” que precisa de ser bem arejada. Também serve para se “esgueirarem” os gases que saem do “tubo de escape”. Já estou na fase da vida em que a capacidade de “produção de metano” está no máximo e não pode ser retida. Tem de sair por algum lado” … aliás, se estão na moda as calças rotas, algumas com tantos rasgões e tão grandes em que pergunto a mim mesmo se “as calças serão feitas de pano com buracos ou de buracos com pouco pano”. Ora, porque é que os meus calções não podem ser tidos como estando na moda, até porque não há grandes diferenças entre calças e calções, a não ser no tamanho das “pernas”? Assim, já não teria de ser chamado à atenção e, pelo contrário, talvez mesmo elogiado por “andar na moda”. É tudo uma questão de conceitos …  

Enfim, o que acontece com estes calções, repete-se ainda naquele par de sapatilhas – para quem não sabe o que são, devo esclarecer que há também quem as trate por “ténis” … – rotas de lado e com um grande buraco na sola que mais parece um olho de elefante; ou com o par de sapatos “vela” a que me habituei porque calçam tão bem, que tenho a sensação de andar descalços. Entre eles, que nunca os sinto quando caminho, e uns novos que me apertam os calos e fazem sofrer o dia todo, está bom de ver qual é a minha opção. A minha e a de muitos outros como eu, que trocam a apresentação pela comodidade. E nas calças de ganga, na camisa e no blusão tão coçado. É verdade, tenho mais roupa no armário, mas repito quase sempre as mesmas peças. “Coisa de homens”, dizem elas com ar crítico. “Mania de mulheres”, pensamos nós, já que não o podemos dizer … Admiro-me com a capacidade de sacrifício de muita gente, especialmente das mulheres, ao “aguentarem forte e feio” as dores nos pés com aqueles sapatos novos e com “ponta em bico”, que apertam de tal forma os dedos dos pés, que chegam a “encavalitar” porque o espaço não é suficiente para todos, num sofrimento continuado, e mesmo assim ficam com eles calçados até ao fim do casamento ou qualquer outra cerimónia, em nome do visual que eles lhe conferem. É obra. Cá por mim, prefiro usar sapatos velhos a ter de me submeter a tal sacrifício. Era o que faltava. Não há nada como andar calçado com a sensação de estar descalço …

Não sou um cliente de modas, muito menos fiel seguidor e escravo delas. No vestir e no calçar a minha prioridade vai para o confortável. E isso quer dizer “largo”, bem “à vontade”, por forma a não me sentir apertado em qualquer parte do corpo, da cabeça aos pés. É que, se há coisa que detesto é sentir-me “apertado”, seja a que título for. Não sei como é possível alguém “enfiar-se” numa daquelas calças tão justas, tão justas, que até se notam as “pregas da pele”. Devem fazer cá uma ginástica em cima da cama, com as pernas ao alto e a puxar bem para conseguir fazer entrar um corpo XL numas calças tamanho S. Tal só é possível pela elasticidade do tecido, que se sujeita a tudo. Se gosto de ver? Claro que sim … mas só nas mulheres. Especialmente naquelas em que as “ondulações do corpo merecem ser realçadas, pois é nelas que a palavra anatomia faz todo o sentido e (às vezes) dá gosto ver …  A moda é um dos instrumentos principais que a indústria usa para nos fazer consumir mais e mais. Por isso tem de mudar todos os anos por forma a “sermos obrigados” a trocar de roupa, calçado e muitas outras coisas com regularidade, mesmo que os artigos que possuímos ainda estejam novos. Para os “manipuladores” das nossas vidas (e do nosso bolso, porque tudo tem a ver com isso), de um dia para o outro tudo deixa de ser novo, apesar dos nossos olhos verem o contrário. Mudam rapidamente de estatuto e viram “desatualizados”. E nessas mudanças impostas pela ditadura da moda, umas veze as roupas alargam e outras apertam. Ora, como não me dou lá muito bem com os “apertos”, aproveito e vou usando as que me agradam (apesar de largas) e fico à espera, até porque, mais dia menos dia voltam a estar na moda … “Diz-se que na moda, só é novo o que já está esquecido” …

Sei que os que me estão próximos preocupam-se com o meu visual. E, como defendem o “estar na moda”, quando uso as calças mais largas nos ditos “glúteos” me vêm logo com uma crítica (intencionalmente boa), de algo como: “Já te viste ao espelho? Olha bem para as calças que trazes e diz-me lá se achas que é roupa que se use? Das duas uma: ou te falta rabo ou sobram calças” …

A indústria da moda mantem uma fórmula que combina consumo desenfreado com exploração de mão de obra. A roupa não fala, mas pode transmitir informações (certas ou erradas) de que quem a veste é alguém atualizado, com dinheiro, e dando a ideia de prestígio e até ascensão social. A moda tornou uma grande parte das pessoas suas escravas, fieis seguidoras, que se sentem infelizes se não puderem usar o que os estilistas ditaram como moda para aquela estação. E a moda não se fica pela roupa, pois estende-se ao calçado, acessórios, penteados, cortes de cabelo, relógios, telemóveis, óculos, automóveis e até casas para além de uma infinidade de produtos e serviços que crescem em número e variedade a cada minuto que passa. Mas o grande perigo da moda é o consumo exagerado e sem necessidade, puro consumismo por vaidade, quando não transformado em doença.

É que vivemos numa época em que o importante nem sempre é ter dinheiro, mas parecer rico …

Cuidado com o cão …

O primeiro cão que tive cá em casa foi um “Serra da Estrela”, grande e bonito, com um “vozeirão” que metia medo. Foi-me oferecido pela minha cunhada que vive junto à serra que lhe deu o nome a quando do nascimento do meu filho mais velho. Veio como cachorro pequeno e cresceu, cresceu, transformando-se num “canzarrão” peludo de que as visitas tinham medo. Ainda pensei colocar à entrada uma daquelas placas a avisar que tinha um cão, mas a verdade é que o bicho parecia mais um carneiro do que o canino guardador da casa de tão meigo e manso que era, apesar de, ao ouvir um ruído estranho lá ao fundo da rua, correr ao portão e ladrar feito trovão, o que poderia ser muito intimidador para quem ouvisse, mas não conhecesse. Pensando bem, desisti de a colocar porque seria enganar quem chegasse. 

No entanto, não posso deixar de me aperceber das placas colocadas por aí abaixo em paredes e portões de entrada de muitas casas, com o típico aviso: “Cuidado com o cão”. Encontro uma grande variedade de placas que tanto podem ser metálicas como compostas de um ou vários azulejos, mais ou menos artísticos, cravados no muro exterior junto à porteira ou portão, com letras vulgares ou rebuscadas e, quase sempre, tendo a pintura duma cabeça de cão, por norma com ar ameaçador. Sou um curioso deste tipo de avisos e até acho piada nalguns casos em tanto conheço os donos como os cães pois “a cara não bate com a careta”. É que os avisos são excessivos, ameaças falsas. Apesar do ar ameaçador da cabeça do cão utilizado para, de forma explícita, intimidar quem quer que se aproxime com boas ou más intenções, a mensagem pode ser real ou não passar de um enorme “bluff”. Por norma, a intenção é alertar para o facto de se ter um animal perigoso em casa, daqueles que, no mínimo, nos podem “agarrar pelos fundilhos das calças”. No entanto há quem se aproveite do cão e o “intitule” de perigoso para intimidar os intrusos quando, afinal, o cão que lá vive é igual à minha cadela Diana que só ladrava de “alegria”. A existir nessas casas algum “animal perigoso”, terá de ser outro e, para que faça sentido, há quem ache que a frase deve ser trocada por: “Cuidado com o dono do cão”. Recentemente, vi num desses avisos um acrescento pintado à mão, que me fez pensar ter sido escrito por alguém que, provavelmente, já teria sido ali “mordido” e que dizia: “Cuidado com a mulher do dono do cão” …

É verdade que, muitas vezes, quando entramos numa casa com o tal aviso pregado no muro da entrada onde o cão tem um ar ameaçador, acabamos por ser confrontados com um animal que mais parece um carneiro manso ou um gato que passa a vida a ronronar. Se ousarmos perguntar ao dono do bicho porque razão tem aquela placa no muro de entrada, ele vai pedir-nos para não dizermos nada a ninguém para não denunciarmos o embuste e ficar a “ameaça” de um cão perigoso, pois, como diz o ditado, “o medo guarda a vinha”. E basta constar que o animal é perigoso …

Mas há mais razões para se colocar o aviso. Ao entrar numa loja, o homem vê um cartaz pendurado na porta onde se lê: “Cuidado com o cão”. Enquanto faz as compras, olha para um lado e para o outro com receio, tentando precaver-se se o animal aparecer perto de si. Foi já quase a sair da loja que, para sua surpresa, encontrou um cão muito pequeno. Ao vê-lo, aproximou-se da senhora que estava na caixa e perguntou-lhe: “Este é o cachorro com que tenho de ter cuidado”? “Exatamente”, respondeu a empregada. “Mas não me parece que seja perigoso”, quis saber o cliente. “Na realidade, não é”, retorquiu a senhora. “Então, porque é que está ali o cartaz à entrada a dizer para termos cuidado com o cão?”, quis ele saber. E soube: “Porque antes, toda a gente o pisava” …

Os avisos entendem-se como preventivos para quem vai entrar numa propriedade onde o animal anda à solta, mas de nada servem para quem passa na rua, a não ser que, mal veja o cartaz à distância, “dê de frosques” que é como quem diz “se ponha a milhas”. E os que não têm cartaz? Há dias ao fazer a minha caminhada matinal atrás da Becas, ao passar junto de um grupo de vivendas, um cão de porte grande que estava na varanda do primeiro andar de uma das casas pregou-nos um susto ao atirar-se por cima da grade de varanda estatelando-se no passeio, para se levantar, atravessar o jardim e com outro salto passar o muro da rua. Num ápice, atacou e dominou a Becas. Estive tentado em dar-lhe um pontapé, mas acabei por o agarrar na parte de cima do pescoço e arrastar de cima dela, até aparecer um rapaz aflito para o levar. Qual deveria ser o cartaz desta casa?

Também já encontrei alguns em que o dono soube pôr uma pitada de humor para aligeirar o teor da mensagem. Pendurado no portão de ferro da entrada de uma quinta podia ler-se, numa letra irregular, o seguinte: “Cão – Cuidado. É proibida a entrada a doentes do coração, bêbados e cagões”. Naquela propriedade só podiam entrar “homens de barba rija”, que não ficassem com as calças molhadas ao primeiro sinal do cão … 

Se tivesse um desses locais onde se “encharca” gente com álcool, teria um letreiro igual a este: “Aqui não entra bêbedo … só sai. – Bar do Quim Latas”. Se tivesse um degrau perigoso, optaria por colocar um aviso igual àquele a que achei mais graça até hoje: “Cuidado com o degrau. O Joaquim quebrou o pé e o Manel t´á Manco”. Mas, como tenho uma cadela que se chama Becas, a colocar algum aviso no muro junto à entrada, seria assim: “Cuidado, com a Becas. Se ela fugir, você assusta. Deitando-se, coce-a. Se correr e ladrar, está feliz. De qualquer maneira, por favor, não a morda” …

Lembrar de quem nos diz muito …

Na pressa dos dias ficamos demasiado focados no (muito ou pouco) que temos para fazer e esquecemo-nos de muitas pessoas que fazem parte da nossa vida, amigos de longa data que deixamos escondidos pelo tempo que lhes não damos. E, longe ou perto, ausentes ou presentes, estando em contacto com regularidade ou muito esporadicamente, são parte de nós. Às vezes questiono-me como é possível deixar passar semanas, meses e até anos sem dizer um “Olá” sequer a familiares, amigos de infância, da escola, do liceu, da faculdade, do serviço militar, da comissão de serviço no ultramar, do trabalho ou mesmo do ginásio, alguns a viver na mesma rua ou localidade, mas que parecem tão “distantes”. Ocupados no corpo e na mente, deixamos que o tempo corra, voe e se nos escape das mãos ao ponto de ficarmos surpreendidos e muito admirados de como foi possível passar tanto tempo sem vermos este ou aquele de quem gostamos. Nesta estúpida corrida em que transformei a minha vida, lembrei-me há dias de um amigo com quem partilhei muito da minha adolescência e boa parte da vida de adulto. E, com quatro dias de atraso, telefonei-lhe para lhe dar os parabéns pelo seu aniversário, para lá dos oitenta anos. Não o vejo há alguns meses e por isso foi bom ouvi-lo. No entanto, apanhei um choque que me deixou triste e preocupado por sentir que ele começou a desistir de lutar para se conservar entre nós. É tramado ouvir alguém dizer que já “não ando cá a fazer nada” e que sente de forma avassaladora e terrível a solidão, apesar de ter mulher e filhos. Mas “não tem companhia”, diz ele. E as suas limitações físicas mais o deixam dependente e condicionado na mobilidade como refém solitário da disponibilidade, da vontade e querer dos que lhe estão por perto. Ou, pelo contrário, bem longe, apesar de ser “curta a distância que os separa. Aproveitei para falarmos desse “ontem” que já tem décadas, das festas e patuscadas, das alegrias e tristezas, dos convívios e ausências, dos sucessos e falhanços. Partilhamos memórias porque estamos naquela idade onde se vive muito de recordações, das histórias de vida. Sem querer, voltamos ao passado que vivemos juntos, olhando as aventuras da nossa juventude e falando das músicas desse tempo. Perguntamos pelos filhos e manifestamos as preocupações sobre eles que carregaremos sempre e de que não conseguimos libertar-nos.

Disse-me que, pior do que sentir-se doente, é estar com o sentimento de que já entrou num plano inclinado de onde não lhe parece ter escapatória, até porque nem forças tem para sair. Está a desistir de tudo, a começar de si mesmo, ele que adorava viver a vida, aproveitar cada momento como se fosse o último. Parece que já nada o motiva, que já não tem uma única razão para se levantar pela manhã. E nem o tempo triste e sombrio tem ajudado …

Não sei se é por estarmos no inverno, a estação do ano mais “inimiga” das pessoas de idade pela “ceifa” que faz em consequência do frio, das doenças da época ou da tristeza dos dias sem luz e sem companhia, mas é verdade que me falaram vários amigos “velhos” a quem a vida levou por outros “trilhos” e que se vão cruzando com o meu de vez em quando. E o filho de um desses “velhos amigos” fez-me chegar através de terceira pessoa uma daquelas mensagens que mexem connosco e não nos deixam indiferentes: o pai estava de cama muito doente e não parava de falar em mim, contando-lhe histórias com mais de seis décadas e manifestando o enorme desejo de me voltar a ver antes que o tempo lhe seja roubado e já não haja tempo para nos encontrarmos. Saber uma coisa destas provocou um misto de emoções e comoveu-me, especialmente porque se trata de alguém que é um pedaço da minha história e foi meu “professor” nessas pequenas coisas que a escola não ensina. 

Não demorei a ir visitá-lo no seu leito de doença e foi particularmente emotivo o reencontro, onde não faltou algum brilho de olhos húmidos. Naquela tarde deixei-me ali ficar sentado numa cadeira junto à cabeceira da cama onde passa os dias desde que veio do hospital, perdido no passado, ouvindo-o muito mais do que falando, porque ele estava muito entusiasmado e até orgulhoso de me ter ali. O momento era dele e não lho podia roubar. Precisava de desabafar e recordar as nossas vivências de crianças e adolescentes, aqueles tempos de pobreza e miséria porque foram muito duros. E, na verdade, tem nesse passado a difícil experiência de sobreviver. Porque, muito mais que viver, sobrevivia-se. Como eu e meu irmão tivemos a felicidade de termos um pouco mais, partilhávamos com ele e outros esse pouco que, nas palavras dele, era muito.

Falou muito, como se fosse uma necessidade. Recordou alguns dos seus trabalhos de “latoeiro”, a sua profissão de então e para a qual tinha jeito natural acima da média, que lhe permitia moldar a chapa como queria. E dos preços incríveis para os diversos tipos de vasilhas que fabricava na sua pequena oficina, dos regadores aos baldes, dos almudes aos cântaros e muitas outras. Mas, sobretudo, evocou esses tempos de miséria onde conseguir alguma coisa para comer era uma conquista, fosse o que fosse. E, para ajudar a suprir essa carência alimentar básica, na época da fruta recorria-se às cerejeiras, macieiras, castanheiros, pereiras e outras que bordejavam os campos feitas “tutores” das “videiras de enforcado” a par dos lodos e plátanos. Com ele aprendi que as melhores cerejas eram nas Cepas, as maçãs “Verdeal” só existiam na Quinta da Aldeia, os diospiros no Souto e os figos em casa da minha avó. Pensando bem, enquanto as aves comiam a fruta da extremidade dos ramos, nós éramos “as outras” que aproveitavam só aquelas onde podíamos chegar. Falou das incursões ao vinho doce da Quinta de Talhos “sugado” diretamente do lagar através de uma cana da Índia comprida que ele se deu ao trabalho de furar para usar como tubo de sucção. E recordou o grupo acantonado na mata por detrás da adega, “chupando” à vez através da gateira por cima do lagar … Lembrou ainda, sem compreender, como o meu irmão António tirou uma fotografia ao nosso grupo, usando para o efeito uma simples lata de óleo de litro com um furo no fundo, que abria e fechava imprimindo a película colocada previamente dentro da lata. Falou muito do passado, animado pela presença de alguém que vivera com ele muitos desses momentos, tendo de parar quando as dores eram mais fortes, até manifestar sinais de cansaço. 

Saí de lá com a convicção de que a visita ao meu amigo foi muitíssimo importante para ele por várias razões, mas especialmente por “validar” os relatos que costumava fazer aos seus sobre os tempos difíceis que passou, diria mesmo que a raiar a sobrevivência, e em que não é fácil acreditar, sobretudo por quem teve sempre comida na mesa à discrição, usufruiu dos comodismos e consumismos deste tempo e nunca passou fome nem privações …    

“Não tenho nada para calçar” …

Ao passar em frente à loja não pude deixar de ler o cartaz colocado na montra: “Todo o calçado a 1 Euro o par”. Durante a tarde o cartaz não me saiu da cabeça, não propriamente pelo preço insignificante que o mesmo pedia a quem quisesse levar um par de sapatos ou botas, mas porque o meu pensamento recuou no tempo e fez-me voltar à minha infância e à escola primária de Macieira. É que a quase totalidade dos meus colegas ia para a escola com os pés descalços, porque a família não tinha condições económicas para lhes comprar calçado e nesses tempos de miséria e privações, não havia saldos, promoções e outras formas de “despachar” artigos a qualquer preço, porque não existia indústria. Tudo era manual, nomeadamente o fabrico de calçado. Na minha aldeia era o senhor Pereira da Coutada (o lugar onde morava) quem fazia os sapatos e botas manualmente. Sempre o conheci como sapateiro e, apesar de ter um feitio especial, passei bastante tempo sentado junto dele a vê-lo cortar e coser o cabedal ajustado à fôrma até fazer surgir algo que se ajustasse ao pé. Gostava do cheiro a cera com que ele me deixava encerar o fio “norte” que usava para cozer o calçado, usando para o efeito a “sovela” e uma “cerda” de porco na ponta do fio. Numa ocasião, o meu pai aproveitou um pneu que tinha rebentado e levou-lho para dele tirar as solas com que depois fez um belíssimo par de botas para mim e outro ao meu irmão António.

À escala temporal, calçado a 1 Euro não era possível. Num tempo em que não se produzia riqueza, não havia riqueza para distribuir e nem sequer comprar bens de consumo tão essenciais como o calçado. Bem antes disso estava a comida, mais prioritária como se compreenderá. Depois, ainda vinha a roupa. E o calçado era dispensável, porque não se considerava prioritário. A maior parte do pessoal andava descalça, desde as crianças, aos adultos e velhos, que nunca eram muito velhos. E, apesar disso, nenhum deles dizia: “Não tenho nada para calçar”!!! Quem estivesse ligado à agricultura, usava socos. Eu tive “chancas”, com base de madeira. Quando jogava a bola (feita com meias velhas cheias de trapos) com os colegas de escola num qualquer caminho de terra, apesar de usar as minhas “chancas” e eles jogarem descalços, quem apanhava caneladas era eu. Andavam descalços todo o ano, de inverno e verão, ao sol e à chuva, com frio ou calor, de tal forma que a sola do pé parecia mais grossa que a sola dos sapatos. Só ao domingo, para ir à missa, havia calçado. Em 1926 saíra uma lei a proibir andar descalço nas cidades e resultou, pois mais de vinte anos depois era difícil ver alguém sem calçado numa cidade como o Porto. No meio rural como o nosso, tal não acontecia. Só em 1956 é que nova lei veio alargar a todo o território nacional, embora tivesse custado muito a pessoas habituadas a não usarem calçado. Poucos meses depois de sair a lei e com as autoridades a tentarem que fosse cumprida, deu-se por cá uma cena caricata. Uma mulher ia descalça por um caminho de terra até este se cruzar com a estrada nacional, continuando do outro lado. Quando ia a atravessá-la, foi surpreendida por dois elementos da GNR, que lhe disseram estar a infringir a lei por andar descalça e, por isso, teria de pagar multa de dois escudos e cinquenta centavos. Na sua ignorância e boa dose de “santa inocencia”, respondeu-lhes: “Desculpem-me, eu só vou atravessar deste lado para aquele e não rompo nada a estrada” …  

Nesse tempo, andar descalço era normal. Diria até que muita gente tinha dificuldade em andar calçada, pois era frequente vermos quem caminhasse descalço com as botas ou sapatos de atilhos amarrados e penduradas num pau que carregavam às costas. E fazia-se tudo sem calçado: tanto se ia descalço para a escola, como à “benda” ou à água; lavrava-se e sachava-se milho e batatas com os pés na terra, como se vindimava ou cortava erva. E até se ia ao monte “cortar mato” com os pés nus e sem nada calçado, apesar do mato (tojo) ser bravo e cheio de picos. Como se andava descalço, com facilidade se furava o pé, com pregos ou “estrepes”. O “calçado” mais comum dos homens eram os socos e nas mulheres as socas. Alguns homens usavam “solipas”, uma espécie de sandália com base de madeira a servir de sola, senda a tábua lisa com o feitio do pé e uma tira de cabedal a atravessar onde se enfiava os dedos. Já as “chancas”, um calçado grosseiro com base de madeira e cano de cabedal, eram mais usadas por crianças. Sendo o calçado utilizado somente por aqueles que tinham alguma condição económica, mesmo assim privilegiavam-se as botas, muitas vezes com sola de pneus usados para não serem tão caras. Já estudava no colégio quando o meu tio Peixoto me ofereceu um par de sapatos, sendo um muito diferente do outro. A verdade é que os usei sempre até ao fim, sem qualquer problema ou preconceito, porque eram … sapatos. E isso é que era importante …

Mas os tempos mudaram. Inicialmente, devagar, mas a partir de uma certa altura, de forma acelerada, à medida que a indústria evoluiu e se foi desenvolvendo, criando riqueza, produzindo produtos cada vez mais baratos, que passaram a ser acessíveis à maioria da população. E entre esses produtos estava e continua a estar o calçado, com uma gama de modelos e tipos impressionante que nos meus tempos de juventude jamais imaginaria. Daí que hoje a capacidade produtiva das empresas é quase infinita e a única dificuldade é somente a do escoamento dos produtos, tal é a concorrência. E assim há os sapatos de luxo, os modelos exclusivos e com assinatura, os convites àqueles clientes que as lojas têm referenciados como “importantes” (“tenho um par lindo e único que condiz com o seu vestido …”), as promoções, saldos, rebaixas, “stock-off”, “outlets” e toda uma série de invenções que o marketing e a publicidade criaram para “impingir” produto e mais produto, muito para além das nossas necessidades reais. E por isso temos as casas atafulhadas com todo o género de calçado, muito dele que nem sequer chegou a ser “estriado” ou só foi usado uma vez, para andarmos quase sempre com o mesmo. Mas o curioso é que há para aí muito boa gente que, quando abre a porta do quarto e olha as dúzias e dúzias de pares bem alinhados, como soldados à espera de serem convocados para o serviço, ainda tem “lata” para mostrar uma cara de “desgraçado”(a) e murmurar ou gritar: “Não tenho nada para calçar”, como também dizem “não tenho nada que vestir” perante um roupeiro enorme atafulhado de “trapos” até à porta … Uma terrível ofensa para aqueles que não tinham mesmo!!! Deveria ser possível recambiá-los por uns tempos a essa época do “pé descalço” para receberem um “tratamento” de humildade e talvez passassem a agradecer e valorizar tudo o que têm a mais em vez de derramarem “lágrimas de crocodilo”, num insulto vergonhoso aos que realmente precisam … 

Será que também sou judeu?

Se somasse todos os minutos que passei na vida em frente ao espelho a cuidar da “caixa dos pirolitos”, diariamente, correspondia a cerca de cem dias seguidos. Ora, estar 100 dias a olhar esta cara que é a minha para nunca ter descoberto que “sou descendente de judeus”, das duas uma: ou estive sempre a dormir ou sou um descendente degenerado, que perdeu os traços característicos desse povo, como o nariz grande e curvo, testa alta, olhos redondos e escuros, além das clássicas boca e orelhas judaicas. 

Dizem os estudiosos que nos meus antepassados há judeus. E já agora, não se surpreenda porque o mesmo acontece consigo, tal como a grande maioria dos portugueses. Surpreendido? Também eu. Se calhar, talvez mal informado. Se o seu sobrenome é Almeida, Cardoso, Carvalho, Teixeira, Castro, Marques, Fonseca, Melo, Nunes, Pereira, Rodrigues e muitos outros de uma extensa lista, pode crer: “Tem costela de judeu”. O meu Machado no sobrenome também faz parte da lista, tal como o Lousada. Reza a história que a Península Ibérica no ano de 1.400 foi o centro do judaísmo no mundo. Quando perto do final desse século os judeus espanhóis tiveram de fugir da Inquisição no país para salvarem “a pele”, entraram cá em Portugal cerca de 100.000 que, ao juntarem-se aos outros 100.000 judeus que cá estavam instalados há muitos anos, passaram a constituir vinte por cento da população. É por essa razão que os historiadores dos “judeus sefardistas”, nome pelo qual são conhecidos os judeus com origem na Península Ibérica, dizem que a maioria dos portugueses tem raízes judaicas, e percebe-se porquê. Eu e você incluídos.

Vale a pena ler a história dos judeus sefardistas que aqui viveram e de quem, eventualmente, somos descendentes. Porque também aqui em Portugal a intolerância religiosa os obrigou a fugir por medo da Inquisição ou a converterem-se ao cristianismo (e chamados cristãos novos), numa altura em que encarnavam o mais alto nível cultural, estético e moral da Europa. Não deixa de ser curioso que, apesar de perseguidos, de queimados e mortos aos milhares como foi o caso do massacre de Lisboa em 1506, Portugal e Espanha permaneceram e permanecem ainda no imaginário das famílias dos seus descendentes mais de 500 anos depois, como Terra da Esperança e Prometida. Para muitos desses judeus, que nasceram e viveram as suas vidas fora e nunca puseram os pés em Portugal, o fim da história e o seu é cá, não em Jerusalém. Os descendentes daqueles que fugiram e se encontram espalhados pelo mundo, ainda hoje possuem chaves medievais das casas dos seus antepassados que viveram em Portugal, apesar das casas já não existirem. Após as muitas perseguições de que foram alvo, a cultura sefardista continuou ao longo de séculos conservando orações em português. Vendo bem, foram humilhações, perseguições, expulsões, conversões forçadas e massacres a mais para um povo só. Mesmo assim, sobreviveram a egípcios, babilónicos, romanos, persas, soviéticos, gregos, alemães, enfim, a todo o mundo e a saga continua. 

Mas, se for verdade que tenho uma parcela de judeu, também posso estar feliz por “fazer parte do povo escolhido por Deus”. Até porque, Jesus e os doze Apóstolos eram judeus, tal como Abraão e os muitos cientistas, historiadores e outros ilustres cidadãos do mundo que, em elevado número, ganharam o Prémio Nobel. Terá sido por acaso ou sinal de que são mesmo “um povo escolhido”, ao menos pelo júri que o atribui?

Se eu for judeu – e vou procurar uma empresas certificada que ateste isso em documento oficial, ainda que tenha de meter uma cunha ou dar um dinheirito por fora – passarei a pertencer ao povo de Albert Einstein a Ralph Lauren e Calvin Klein, de Anne Frank aos criadores do Google Larry Page e Sergey Brin, de Karl Marx, um dos homens mais influentes da humanidade, ao criador da Marvel e dos “heróis” Homem-Aranha e os Vingadores. Mesmo que não tenha sangue 100% judeu, pode ser o suficiente para ser um psicólogo como Sigmund Freud, talvez um criador como Levi Strauss (calças Levis), maestro como Leonard Bernstein ou filósofo como Milton Friedman, todos eles judeus retintos. E se tivesse o tal nariz grande e curvo, diria que era igual ao da Bárbara Streisand, do Dustin Hoffman, Harrison Ford, Jessica Parker e tantas outras estrelas de cinema, podendo vir a ser escolhido pelo tamanho da “penca” para fazer uma “fita qualquer”.

A verdade é que, podendo ter ou não algum sangue judeu, para além do tal “nariz adunco ou aquilino”, falta-me mais alguma coisa porque o sucesso, seja nos negócios, na criatividade, na investigação ou nas artes, não se alcança sem uma boa preparação e muito trabalho. E não é por acaso que são o país com a maior média de universitários por habitante no mundo e que produz em média maior número de documentos científicos.

Mas tudo isto para dizer que não sei se em mim corre sangue judeu, apesar de haver fortes probabilidades dado que eles chegaram a ser um quinto da população portuguesa, portanto, muitos de nós. E isso incomoda-me? De jeito nenhum, pois não é essa possibilidade que faz de mim um judeu. Tendo sido educado com a palavra “judeu” a ter uma certa carga negativa – e as razões dessa “sina” foram mudando ao longo dos tempos – aquilo que tenho lido sobre esse povo errante, sofrido e resiliente leva-me a ter por ele um enorme respeito. Diria até, certa admiração porque, apesar dos muitos condicionamentos, geraram entre os seus sem número de pessoas ilustres, muitíssimo acima de qualquer outro país em termos proporcionais, que deram um enorme contributo para o desenvolvimento económico, social, tecnológico e cultural da Humanidade e a quem se deve muito do nosso bem estar. 

Por isso, fica-me a curiosidade: “Será que também sou judeu”?

O papel passou à história? Não …

Mal acabei de nascer, os meus pais foram obrigados a juntar papel à minha existência: a “cédula pessoal”. Nela inscreveram o meu nome, o deles e registaram o dia em que vim a este mundo. Ainda a guardo “para memória futura”, embora “esteja fora de moda”. Já não se usa. Não me acompanhará até ao fim dos meus dias porque, entretanto, deu lugar ao “bilhete de identidade”, que também já passou à história e faz parte daqueles papeis inúteis que guardo zelosamente numa gaveta e que um dia alguém mandará para o lixo. Ora, recentemente, também este abdicou a favor do “cartão de cidadão”. Sim esse mesmo que, inicialmente, esteve para se chamar “cartão único”, cujo símbolo abreviado seria (CU). No entanto, o nome viria a ser alterado para cartão de cidadão (CC) pelo desconforto que seria ir ao banco ou a uma repartição pública qualquer e ouvir dizer: “mostre-me o seu CU”. Presumo que ficaríamos muito indecisos sobre qual deles mostrar… E o papel continuou a seguir-me no registo e assento de batismo, onde o meu nome ficou gravado, para o caso de vir a esquecer. A partir daí, nunca mais deixei de ter o papel nas suas múltiplas formas ligado à minha vida, numa parceria comprometida e muito empenhada. Basta ver os quilos e quilos que tenho espalhados pelos quatro cantos da casa, como “acumulador de lixo” que sou. Não posso deixar de dizer que uma boa parte do que tenho já devia ter ido para o “Papelão”, pois nem sequer dá para usar na casa de banho. Seria tão útil noutro tempo …

Na escola primária (no papel agora diz-se “básica”), aumentei o meu relacionamento com o papel, por ter de andar com cadernos de uma e duas linhas, sebentas e livros às costas, dentro de uma saca de pano feita pela minha mãe, numa grande proximidade. Fora da escola, não lhes dava “confiança” nem o uso necessário. E nem sequer lhes fazia companhia. Tinha até uma certa alergia ao “papel” … Aproveitava o papel do jornal “O Comércio do Porto” que o meu pai comprava ao domingo, cortado aos bocados, para “serviço de limpeza” …

À medida que fui avançando nos estudos, maior era a carga de papel que eu carregava às costas, porque maiores eram os livros, cadernos e apontamentos, para além de mais numerosos. E vieram os testes, as cartas, as revistas e os livros. E até o papel higiénico (em substituição dos jornais), num aumento crescente desse “casamento” invisível do papel comigo, nas suas variadíssimas formas. Tornei-me dependente deste material, tal como a maioria das pessoas, que se foi infiltrando na minha vida de forma continuada e cada dia mais intensa, como na vida de todos nós. Mais ainda, tem sido em papeis mais ou menos elaborados, que tenho recebido certificações, diplomas, atestados, cartões de identificação e outras inutilidades semelhantes que nós teimamos em multiplicar como se fossem importantes. 

Ao entrar na vida profissional passei a fazer parte da legião de consumidores de papel em tantas e tantas finalidades, que seria impossível descrevê-las na totalidade. Das simples instruções aos relatórios, dos folhetos publicitários aos cadernos de encomenda, dos bilhetes e manuais aos inquéritos, quantas vezes de forma quase obsessiva, indiferentes ao que é necessário “destruir” para se poder produzir o papel. Durante muitos anos foi através do papel, em carta ou postal, que as pessoas comunicavam entre si para tratar de negócios e em cartas amorosas, longas e ternas. E vejo uma pequena fração desse uso e abuso nos montes de livros que se arrumam cá por casa, a par das numerosas pastas, revistas, registos médicos, bancários, fiscais e contabilísticos, para além das caixas e gavetas de todo o tipo de recibos da água à eletricidade, do calçado à roupa, do supermercado ao combustível e tantos outros. 

Mas a tecnologia, mais do que as lutas em defesa do meio ambiente e dos recursos naturais, deu o pontapé de saída com vista à redução do consumo de papel através daquilo que se chama a “desmaterialização dos processos administrativos”, fazendo substituir o registo em papel por registos informáticos a partir de moderníssimos computadores com capacidade de armazenagem incrível, que permitem “guardar” grande quantidade de dados em pouco espaço que, se fosse em papel, exigiria grandes áreas de arquivos, muito mais caras e de consulta muitíssimo mais difícil. Essa tecnologia vem eliminando de variadas formas a utilização de papel, desde as agendas agora substituídas pelos telemóveis, os livros impressos trocados pelo formato digital, os projetos de construção tanto na sua apresentação às entidades licenciadoras, concursos e tudo o mais. Até as enciclopédias, de que tenho cá em casa uma de vinte e tal volumes que me ocupa a fiada do meio de uma grande estante e está “novinha em folha”, já deixaram de ser vendidas porta a porta por vendedores aguerridos porque o acesso à internet permite fazer todo o tipo de consultas sem que tenha de se investir “uma pipa de massa” e ter uma estante ocupada, se bem que continua a ser “um bom elemento decorativo” na sala (é para isso que muitas servem). Com a chegada dos “livros digitais”, que dizem ser o futuro, qual será o futuro dos livros de papel? Será que é mais um alívio para o consumo de papel, como o é nos jornais “on line”?

Ainda não acompanho os meus filhos na dispensa do papel em coisas triviais. Quando precisam de registar a marca de um produto ou tipo de embalagem, “sacam” do telemóvel, tiram uma fotografia e enviam-na de imediato por mail para a loja com a encomenda respetiva, sem perda de tempo nem consumo de um bocadinho de papel sequer. Já eu, que estou formatado noutro registo, tenho de agarrar na agenda ou num bocado de papel e tomar nota do produto, referência, quando não de dados sobre a cor da embalagem. Na realidade eles são mais práticos, mais eficientes e muito mais ecológicos nisto de poupar o recurso natural de que se faz o papel. 

“O papel passou à história”? Não, nada disso. O papel é importante nas nossas vidas e continuará a ser, embora seja preciso reduzir o seu consumo. Apesar da tecnologia dar uma excelente ajuda, ainda há um longo caminho a percorrer …

O silêncio do dia um e as promessas…

Está visto. No primeiro dia do ano não há madrugadores. E percebe-se porquê: todos querem prolongar o mais possível o Ano Velho como se tivesse sido o melhor das suas vidas, adiando dessa forma a “verdadeira” entrada no Ano Novo. Ninguém quer confrontar-se com a dura realidade de que nada muda senão o dia e a data. Por isso, fica-se a festejar (alegadamente) até às tantas a partida de um ano onde todos sabem o que aconteceu e dão-se as boas vindas ao que chega, esperando-se generosidade, o que é sempre uma incógnita. 

Pensando eu que seria um dos últimos a levantar-me, fiz questão de “madrugar” saindo da cama às 10H00 da manhã. Aliás, já não aguentava mais com o barulho dos foguetes que teimaram e insistiram em lançar a partir das oito horas da manhã, num carrocel sonoro pouco agradável para quem tentava dormir, vindo ora de um lado, ora de outro. Calculo eu que devem ser “as sobras do Natal”, porque ninguém no seu perfeito juízo pode contribuir com um cêntimo sequer para o foguetório que lhe vai atazanar a paciência e acordá-lo quando só quer dormir. E o pior é que os responsáveis por esse “massacre” não são capazes de se juntar e concertarem a hora para, em uníssono, despacharem todas as “sobras” de uma assentada. Cá por mim, podia muito bem ser às cinco da tarde, a hora decente pois já ninguém deve estar a dormir, embora todas as horas são más para acordar o Zé. Mas não. O fogo começou cedo vindo do lado onde nasce o sol e, depois de meia dúzia de “bombas”, acabou-se. Alguns minutos depois houve uma descarga vinda do “sol posto” e parou depressa. O “material de fogo” devia ser pouco. Do Norte soaram os primeiros disparos vinte minutos depois e assim sucessivamente, de um lado e do outro, mais longe ou mais perto, para melhor nos “moerem o juízo”.

Passava das dez da manhã quando, bem agasalhado porque o tempo não estava para brincadeiras, saí porta fora, desci a ladeira e fiz-me à estrada no circuito do costume, “tropeçando” num silêncio de morte. Parecia que estava sozinho cá na terra, num silêncio geral. As casas, de persianas descidas e portas cerradas, sem gente à vista nem sinais de vida, mais pareciam jazigos. Nem sequer os cães do habituais nos vieram “saudar” com alguns latidos. Também terão feito noitada? As ruas estavam desertas de carros e pessoas, e até os habituais “atletas de fim de semana” com que me costumo cruzar, “fizeram gazeta”. Em todo o trajeto cruzei-me somente com meia dúzia de “madrugadores” e automóveis. Fora isso, silêncio. A maioria das pessoas preferiu ficar em casa para recuperar da noitada e não quis “mergulhar” logo no ano dos dois vintes. Noutros tempos, eu estaria em retoma após uma noite a cantar as Janeiras de porta em porta, de petisco em petisco, de copo em copo. Mas isso foi no tempo em que o frio não me pegava …. 

Nesse dia fui almoçar ao Porto. A anormalidade continuou no trânsito reduzido na autoestrada, nos acessos à cidade (não me lembro de ver tão pouco movimento) e dentro desta, dando a entender que grande parte das pessoas estavam a ganhar coragem para enfrentar o Ano Novo. E o dia era tão estranho, que até os “supermercados”, aqueles bastiões do consumismo que raramente “dão baldas”, fecharam (sem ser para balanço). Estão a “prometer mudar” ou é só “fogo de vista”?

Tenho de reconhecer que a época natalícia é muito perigosa para nós, porque dura muito tempo. São dez dias de festa, convívio, encontros de família, rever amigos e matança do porco. Dizia-me uma senhora que o pai, emigrante em França, veio cá passar o Natal com a família tendo chegado pouco antes da consoada. Durante os dias esses dias de férias, foi almoço atrás de almoço, jantar atrás de jantar, rodando de sua casa para a casa da cunhada e desta para a outra filha, sem interregnos.

E todas as refeições eram uma celebração. Foi a noite de consoada, o almoço de Natal que continuou noite dentro em jornada contínua, o almoço da Feira de Ano e muitos outros porque além da Noite de Fim de Ano, houve ainda o primeiro dia de Ano Novo, a Noite de Reis, a matança do porco lá em casa, a “desfazedura” do porco, a feitura dos rojões e dos enchidos, tudo isto repetido em três casas, em “viagem” gastronómica contínua que deu cabo das dietas. Claro que, com este “tratamento”, não há quem resista, muito menos numa noite quase sempre longa, onde os “usos e abusos” são normais e “perdoáveis”.

Por isso, promete-se mudanr nos dias que se seguem na alimentação, no exercício físico, nas relações, nos gastos, como em muitos aspetos da nossa vida. Mas a verdade é que o dia de amanhã é muito semelhante ao de ontem, tal como ao de hoje. Todos têm vinte e quatro horas e a vontade não se mexe ao ritmo dos nossos desejos. Exige bem mais esforço do que estamos dispostos a dar. Promete-se mudar de vida, embora já se tenha dito isso nos anos anteriores. E sei como é porque, depois de três meses a fazer exercício regularmente num ginásio, parei em Junho com a desculpa de ir fazer o “Caminho de Santiago”. No entanto, quando regressei fiquei em casa com nova desculpa: precisava ainda de recuperar até ao fim do mês. No mês seguinte, achei que “não tinha recuperado” do esforço e prometi a mim mesmo regressar aos exercícios antes de Agosto. Certo é que já estamos em Janeiro do ano seguinte e farto de renovar a promessa de regressar ao ginásio onde, devo dizê-lo, me senti muito bem. Ainda não fui, mas uma coisa é verdade: continuo a prometer que um dia destes vou regressar … da mesma maneira que continuo a prometer que vou fazer dieta e, a partir de agora, só comer comida saudável. Onde é que eu já ouvi isto?

“Sopas de cavalo cansado” e outras …

Ainda hoje tenho saudades da comida da minha mãe, apesar dos muitos anos que já me separam da infância. Retenho memórias dos seus cheiros e dos sabores que lhe são característicos e que o tempo não esbateu. De tal forma que, quando a vida me fez sair de casa e tomar outro rumo, custou-me bastante a adaptação a novos aromas e paladares bem diferentes daqueles a que estava habituado, que eram as minhas referências gastronómicas. Numa cozinha simples, com um fogão a lenha que eu gostava de alimentar metendo cavaco atrás de cavaco, mas com todas as cautelas para não me chamuscar, dotada somente de dois tachos e outras tantas panelas, não havia máquinas nem apetrechos de cozinha como hoje. No entanto, a comida sabia tão bem, que não esqueci nunca. E nem eram os cozinhados mais complicados que me atraíam e que eram muito raros, mas as coisas simples desse tempo em que não havia margem para escolher: era aquilo ou então, “aquilo”. A “escolha” estava feita por natureza. Mas a comida da minha mãe tinha um paladar tão próprio!!! …

Em casa dos meus pais a carne de porco era a eleita porque o pai não gostava de carne de vaca. Por isso, seguia-se a tradição matando um porco no inverno segundo os usos e costumes da região, que acabava guardado na salgadeira, a forma tradicional de conservar a carne, até porque não havia frigoríficos nem arcas. E tinha der ser gordo, muito gordo mesmo, pois na aldeia havia uma espécie de competição para ver quem tinha o porco mais pesado. Era normal matarem-se porcos com mais de quinze arrobas. Dali saíam os presuntos, pás e “calubas” para serem dependuradas na cozinha tradicional em casa da minha avó, juntamente com os enchidos, salpicões e chouriças de sangue, e tudo o mais “rendia” ao longo do ano. Do porco, entre outros, ficou-me o gosto pelos ossos de assuã (ou de assuão) no caldo verde. Os ossos são cozidos no próprio “caldo” e a sua gordura dá-lhe um sabor especial. Assim preparado, o caldo verde era servido em prato ou numa enorme “malga”, regado com um fio de azeite e muitas vezes coberto com folhas de hortelã (dizia-se que eram boas para combater as “bichas”). 

Em simultâneo com o caldo, ia-se rapando dos ossos, pacientemente, a pouca carne que lhes estava agarrada, ficando o “tutano” para o final. Certo é que, agarrado ao osso, não ficava um bocadinho de carne sequer. Quem não gostava desse “excesso de zelo” era o cão… 

No dia da “desfazedura do porco” também se preparavam os rojões num grande tacho, usando para o efeito quase só carne da barriga porque os rojões entremeados eram (e são) os melhores. No meio deles havia uns especiais, os “rojões do redenho”. Para quem não conhece – e ainda há um ou outro restaurante de comida tradicional que os tem na sua ementa – são feitos com a gordura que envolve os intestinos e que, posta a “regir” juntamente com a carne dos rojões normais, dá esse produto saboroso, desaconselhado por médicos e excluído da dieta alimentar pelos nutricionistas dado o seu elevado teor em gordura. Mas que são saborosos, não há dúvida.

Como a comida era escassa, sempre que era possível deitar a mão a alguma coisa que se “trincasse”, não se perdia a oportunidade, muito especialmente à tarde. Bastava uma fatia de carne gorda defumada sobre um pedaço de broa para me parecer um grande manjar ou até uma cebola crua. Talvez por a ter comido com frequência, ainda hoje me sinto atraído por cebola crua e não consigo disfarçar, embora também goste dela assada, frita ou até cozida. É normal nos assados, cozidos, saladas ou noutro prato qualquer em que venha envolvida, dar sempre comigo a tirar dose reforçada, mesmo que tenha de ouvir frequentemente um “vais ficar a cheirar a cebola”. Continuo a gostar mais dela crua, em natureza. E há duas maneiras de a consumir que vêm desses tempos de infância e que já tinha posto de lado há muitos anos. Uma delas só é possível pouco tempo depois da plantação do “cebolo”, depois dos bolbos se começarem a formar e ao atingirem a grossura de um dedo. Arrancam-se com rama, limpam-se as folhas velhas, corta-se a ponta da rama e passam-se por água. Prepara-se numa malga o molho, com azeite, vinagre tinto e sal grosso. Cortam-se as pequenas cabeças da cebola em quatro e vão-se molhando à medida que se vão comendo. São sempre boas, tanto a acompanhar a refeição como numa petiscada. Agora, voltaram a fazer parte do meu “cardápio gastronómico” a partir do momento em que cá em casa se começaram a plantar no pequeno “quintal” ou quando pessoa amiga se lembra de mim. 

Também gosto de cebolas grandes cruas, com sal grosso, daquele que é usado para salgar os porcos. Descascadas e abertas em quatro, com o sal metido no meio e apertadas para entrar bem, são uma delícia. Mas não posso abusar. Não que a cebola me faça mal, mas pelo mal que o excesso de sal faz à minha tensão arterial. Acompanhada com um naco de broa e, claro, regada com bom vinho tinto, diz o povo que “sabe a galinha”. E vá-se lá saber porquê…

Nesse tempo distante em que a comida era pouca e havia “deficit” de calorias na alimentação, rigorosamente ao contrário de hoje em que os excessos alimentares são mais que muitos, nalguns dias quentes de verão a minha mãe fazia o favor de me preparar “sopas de cavalo cansado” a meio da tarde. O nome deste “reforço alimentar” parece resultar de alguém, com ou sem intenção, ter recuperado as forças do seu cavalo com este alimento. A minha mãe usava uma grande malga (agora chamada de tigela) onde misturava broa desfeita, vinho tinto e açúcar amarelo e estavam feitas as sopas, que comia com prazer. Por isso, ainda agora quando me lembro delas na época estival, vou até à cozinha e preparo essa “velha receita” a que alguém deu o nome de “sopas de cavalo cansado” e acompanho com uma tira de “bacalhau da peça” para contrastar o doce com o salgado. E, embora já não sejam necessárias como fonte energética como o eram antigamente, continuam a ser uteis, quanto mais não seja para aplacar a saudade …  

Uma “sociedade” de equilíbrio difícil …

Tenho plena consciência de ter vivido em criança numa sociedade de homens em que as mulheres só obedeciam. O homem “caçava”, isto é, tinha o encargo de trabalhar e de angariar os meios para sustentar a família, enquanto a mulher tomava conta da casa e da prole. Por isso, era o homem quem mandava e quando dizia “é para ali”, era mesmo. Bom, não era bem assim porque, para as mulheres que “soubessem dizer-lhe para onde deveria ir”, ele ia. Mas, para fora, era ele a decidir. Com a passagem dos anos e a crescente emancipação da mulher, esta passou a estar em pé de igualdade (em teoria) com o homem, embora a prática nos viesse a mostrar em muitos casos uma outra realidade, fruto de causas que os sociólogos sabem identificar melhor do que eu. Daí as vítimas de “violência doméstica” em que a mulher domina nas estatísticas. No entanto, também lá estão homens como vítimas, embora (quase) ninguém fale deles, sendo ignorados pela imprensa, ausentes dos debates televisivos, esquecidos na legislação e excluídos dos sistemas de proteção. É verdade que a emancipação delas alterou a relação homem/mulher tornando-a menos submissa por parte do “sexo fraco”, mais competitiva, dura e combativa. E nesse processo, algumas mulheres “libertaram” a sua veia de “mandonas”, acabando por fazer dos homens “gato sapato”. O curioso é que isso agradou a muitos e foi de encontro ao seu comodismo, tendo eles sabido tirar proveito para terem mais espaço, tempo e até tranquilidade nas suas vidas pessoais, numa relação de interesse que não é saudável. Enfim, estrategicamente, tornaram-se uns “paus mandados”. No entanto há os que se sentem atingidos na dignidade pessoal, no seu “Ego” de macho latino e nesse caso, quando aguentam, “a pressão na panela” aumenta podendo tornar-se insustentável, quando não estoirar …

O cenário real é uma habitação da região. Gracinda (nome fictício), pega no telemóvel, marca um número e, quando atendem, pergunta: “Onde estás”? Do lado de lá responde-lhe o marido. Ela não desarma e ordena: “Vem já para casa”. Mas ele recusa-se a fazê-lo no imediato alegando que está a jogar o dominó com os amigos. Sem esperar mais e com modos rudes, desliga o telemóvel, vai à sala, pega nas chaves do carro e sai disparada porta fora. Em dez minutos chega ao tasco e entra de rompante sem cumprimentar, direta ao reservado onde se encontra o homem. “Vamos embora”, ordena-lhe ela, indiferente à presença dos amigos dele. E aquele “homenzinho”, envergonhado à frente dos seus pares, mas sem querer fazer escândalo, despede-se pedindo desculpa e sai vermelho de raiva com ela colada atrás. Mal arrancam, ele encosta-lhe o punho fechado à cara e, com voz rouca, ameaça: “Não voltes a fazer-me isto”. Mas ela não o teme e provoca-o: “Queres-me bater? Bate!!! Ou não és homem suficiente”? E indo ainda mais longe: “Não tens os t… no sítio para me bater”. Essa provocação acabou por lhe correr mal como contou mais tarde, embora convicta que tinha agido bem, afirmando solenemente que “ele vai acabar por fazer tudo aquilo que eu quero” … (em abono da verdade, já começou a “educá-lo”, ao ponto de afirmar que “ele já faz xixi sentado” …). 

A falta de respeito pela individualidade do outro, que é frequente dos dois lados do problema, leva a que se queira moldar o conjugue à sua “imagem e semelhança”, não aceitando as diferenças, embora todos sejamos diferentes. E é essa vontade de querer “anular” a maneira de ser do seu par e “recriá-lo” à medida dos seus gostos pessoais que faz com que a relação esteja condenada a prazo ou seja uma hipocrisia. 

“A mulher entrou no oculista, dirigiu-se ao empregado e enquanto lhe entregava uns óculos disse sem rodeios: “Venho-lhe cá devolver os óculos que comprei para o meu marido, pois ele continua a não “ver” as coisas à minha maneira” … Esta anedota que me enviaram há dias, é bem o reflexo duma realidade escondida em muitas relações, umas vezes em pequenas coisas que o homem nem sequer valoriza ou até lhe é conveniente, mas noutras onde tem tudo para que corra mal. É dos livros que “homem e mulher são muito diferentes” e têm muita dificuldade em comunicar e entenderem-se. Assim se conta que “um arqueólogo descobriu numas escavações uma velha lâmpada. Quando a esfregou para lhe limpar o pó, surgiu um génio a dizer: – Por você me libertar, pode pedir um desejo. O arqueólogo pensou, pensou e lá pediu: – Quero uma autoestrada com duas pistas da Suécia a Portugal. O génio abanou a cabeça: – Acabo de chegar, estou cansado e faz-me um pedido tão grande e tão difícil? Peça outra coisa. Ele pensou um instante e disse: – Gostava de poder comunicar com as mulheres. O génio arregalou os olhos, abanou a cabeça e respondeu: – Voltemos à autoestrada. Quantas pistas quer”? 

Como hoje faço o papel de “advogado do diabo”, acho que conviver com uma mulher que não admite ser contrariada, vive estabelecendo regras e controla cada passo do seu “mais que tudo”, pode ser um grande problema. E mais difícil ainda é quando exige que ele cumpra as regras que ela impõe. Muitos são os que, para não se “chatearem”, “deixam correr o marfim”, acomodando-se. Mas quando o “espírito de mandona” cresce e fica fora de controle, a “chatice” pode passar a problema e o “caldo fica entornado”, nunca se sabendo quando e como vai terminar. 

“Depois de chegar do emprego, Ana (nome fictício) “preocupa-se” com os filhos e as refeições de família, adotando “táticas” próprias. Para os filhos, telefona a diversos familiares até encontrar alguém que “tome conta” deles. Quanto às refeições, “salta” da mãe para a sogra e desta para a mãe, apanhando “boleia” ora numa, ora noutra. Quando não consegue, espera que o marido chegue de um dia longo de trabalho e diz-lhe em tom autoritário: “Vamos comer fora”. E vão. Mas não lhe basta isso, pois toda ela é exigências sem reticências, despesas sem se preocupar de onde vem o dinheiro, imposições sem permitir recusas ou hesitações. E ele, frustrado e incapaz de se impor talvez a pensar nos filhos, vive recalcado, remoído e vai confessando por aí a sua desdita, especialmente quando bebe uma pinguita a mais. Até um dia. Mas, pior ainda, é a frequência com que ela o vai procurar ao café ou a outro local e, sem qualquer tipo de recato, ordena: “Já à minha frente para casa”!!! E ele, pobre coitado, de “rabinho entre as pernas”, com ela “a morder-lhe os calcanhares”, lá vai, revoltado e impotente. Até um dia” …

Qualquer relação séria começa pelo respeito de um para o outro. Se não for assim, está condenada a prazo. E, porque a tradição tem muito peso e ainda diz que “quem veste calças em casa é o homem” (se bem que lá dentro é ela que manda), envergonhá-lo em público é um ato perigoso de desrespeito e humilhação, com consequências imprevisíveis.  

Para estas duas mulheres que aqui trago à cena, tal como para muitos outros homens e mulheres capazes destas indignidades, apetece-me citar-lhes um pequeno trecho de Balzac: “Estas pequenas misérias, repetidas por várias vezes, ensina-os a viver sozinhos no seio do seu lar, a não dizer tudo em casa, a não se confessar senão a si próprios e passar a pôr muitas vezes em dúvida que as vantagens de ter um leito nupcial sejam superiores aos seus inconvenientes” …

O “reverso” da medalha de guerra …

Participei na guerra do ultramar ao serviço do país, como a maioria dos jovens da minha geração, e não me sinto menorizado por o ter feito, mas isso não é a razão desta crónica. Fui parar a Moçambique com mais de dois mil militares a bordo do superlotado NIASSA, numa viagem épica de quase um mês, lembrando um pouco o tempo das caravelas. Desembarcamos em Nacala e rumamos para o interior com destino à zona que tem o nome do barco que nos levou, começando a viagem de comboio, para continuar em camião com ferry pelo meio. Embora o comando do batalhão tenha ficado em Mecula, a minha companhia seria colocada em Nantuego, onde praticamente não vi sinais de guerra. Alguns meses depois mudamo-nos para o Kandulo, terra que não vem no mapa porque, para além do aquartelamento situado no meio de nenhures, não havia mais nada. E caímos no meio “deles”, terroristas de então, “amigos” de agora.

Uma noite sofremos um ataque violento, com metralhadoras, armas ligeiras e morteiros. Dormia num beliche na cama de cima e acordei deitado no chão ao som dum tiroteio infernal, vendo as balas de rasto tracejante passarem-me por cima da cabeça, pensando então que estariam a atravessar a parede de adobe, quando afinal só estavam a perfurar a cobertura de chapa. 

O meu conterrâneo Agostinho era o responsável do morteiro, localizado no centro do aquartelamento e foi ele e os seus subordinados que rechaçaram o ataque com algumas morteiradas, pondo o inimigo em fuga, o que lhe valeu uma medalha de cruz de guerra, o direito a umas férias no continente e … a inveja de todos nós.

No meio do tiroteio um soldado saiu a correr da caserna em direção ao abrigo, mas não se apercebendo de um arame para secar a roupa, foi apanhado pelo pescoço dando um trambolhão. “Ai Jesus que já me acertaram”, gritou ele. Mas, apalpando-se e vendo não ter sido ferido, voltou a gritar, retomando o caminho para o abrigo: “Afinal, não me acertaram, não, não me acertaram não.”  

A nossa companhia ainda seria transferida por algum tempo para a sede do batalhão em Mecula, antes deste ser deslocada para Tete, onde ficamos os últimos meses da comissão, para uma espécie de “repouso do guerreiro” antes do regresso a casa. Enquanto a sede do batalhão ficou em Tete, a nossa companhia foi colocada do outro lado do rio Zambeze, em Moatize, região mineira já explorada nessa época, hoje um polo de exploração importante… por estrangeiros E aí a vida era outra. A localidade era minimamente organizada e até tinha uma piscina. A partir do momento em que o nosso capitão adoeceu e teve de regressar, passamos a ser comandados pelo alferes Carvalho. Era quase como se estivéssemos de férias.

Um dia recebemos no aquartelamento o batalhão acabado de chegar de Portugal continental sob o comando de um tenente coronel, em trânsito para a zona de Cabora Bassa onde havia “pancada”. Nesse dia tivemos uma sardinhada na messe com uma caixa sardinhas ida de cá e oferecida pela Força Aérea. No final, o Agostinho embrulhou duas sardinhas num guardanapo de papel e meteu-as no bolso, para o que desse e viesse. Bem comidos e bebidos e sem qualquer preocupação de estar bem ou mal fardados e à vontade, fomos a pé até ao pequeno café que havia à saída do quartel, ocupando a maior parte das mesas. Depressa a conversa ficou animada e percebia-se o porquê. Às tantas, entrou o tenente coronel que comandava o batalhão recém chegado. Os militares que estavam junto da porta levantaram-se e fizeram-lhe a continência, mas a maioria ou não o viu ou fingiu que não o viu. Ele aproximou-se de uma das mesas onde ninguém o cumprimentara e bateu nas costas de um furriel dizendo com ar cínico: “Não se levante, nosso furriel…”. Este levantou-se, pediu desculpa e fez a continência militar. 

Ele foi de mesa em mesa, até àquela onde estava o Agostinho. Quando este se apercebeu disso e sentiu que o tenente coronel lhe tocava nas costas, sem se voltar, disse: “Não me bata nas costas, pois quem me bate nas costas é o meu pai quando eu lhe peço dinheiro e ele me diz: “tem paciência, mas não pode ser”. O tenente coronel, apanhado de surpresa, ficou parado e estupefacto, sem saber o que fazer, enquanto os outros militares que estavam por perto, pensando que não sabia quem estava atrás dele, avisaram-no: “Oh Agostinho, olha que é o nosso tenente coronel”. Então, lentamente, o Agostinho levantou-se, virou-se para o comandante e disse: “Não me interessa quem é”. E sem mais, meteu a mão no bolso, tirou o embrulho, abriu-o e colocou-o em cima da mesa: “Olhe, eu vou comer sardinhas. É servido?” O comandante não conseguiu reagir e o Agostinho sentou-se a comer sardinhas, dando o assunto por encerrado, enquanto ele, meio estupefacto, se retirava para um canto à procura de uma mesa vazia, já sem incomodar mais ninguém. 

Ao outro dia o tenente coronel foi apresentar queixa ao comandante do nosso batalhão. No entanto, já o alferes Carvalho se antecipara com uma boa desculpa: “O meu comandante lembra-se do Agostinho, aquele furriel que foi condecorado”? “Ah, sim, claro que me lembro bem. O que se passa com ele?”, questionou o comandante. O alferes já improvisara uma história: “Meu comandante, quando o Agostinho veio para cá deixou noiva lá na terra de quem gostava muito. Agora, recebeu a notícia que ela se casara com outro homem, o que o deixou muito transtornado. Foi por isso que, quando ontem foi questionado pelo comandante do batalhão que está no nosso quartel em trânsito, respondeu-lhe de forma menos simpática, mas só por isso”. “Coitado do rapaz”, exclamou o comandante. “Deve andar desorientado!!! Deixe que eu resolvo o problema com o nosso tenente coronel”. Foi assim que o Agostinho se safou de um “imbróglio” com a ajuda da medalha de guerra e de uma “mentira piedosa” do alferes Carvalho. No entanto, “não se livrou” de comer as sardinhas sozinho, porque o tenente coronel, apesar de convidado, “não alinhou na patuscada” …