Máscaras, mascarados e os enganos

Nunca “corri o Entrudo” e nem sequer andei mascarado no Carnaval, apesar de me terem posto à disposição por diversas ocasiões vários modelos desse disfarce em épocas carnavalescas. O rosto à vista, a nu, é uma liberdade da nossa cultura de que não quis abdicar, ainda que por pouco tempo. O rosto não só é o que mais nos identifica, boa parte do “cartão de visita” de cada um, como o espelho das emoções, sentimentos, pensamentos, estados de alma. Tapado, é como um livro fechado que não se consegue ler. Ao olharmos um rosto atentamente, percebemos alegrias e medos, entusiasmo e tristeza, raiva ou ternura, porque tem comunicação direta com a alma e o coração.

Mas apesar do meu gosto pelo “rosto nu”, um “desconhecido” que não respeita países, fronteiras, sexos, raças, religiões, idades, riquezas ou limites, fez-me “ajoelhar” e pôr a máscara, transformando-me nesse “mascarado” que nunca quis ser, embora por razões sanitárias, mais para proteger os outros do que para me proteger do inimigo comum, esse desconhecido apelidado de covid-19. 

O uso de máscara começou por ser rejeitado tanto pela Organização Mundial de Saúde, Direção Geral de Saúde e ministra da Saúde como por Secretários de Estado, especialistas encartados e outros críticos do vírus, durante demasiado tempo, tido como perigoso, suscetível de provocar contágios, de uso não aconselhado e outros argumentos mais, que poderiam estar a esconder outras razões. E de repente, os “peritos” dão uma “cambalhota” e colocam-se na posição contrária. De veículo de transmissão passou a proteção principal, de produto de risco a uso aconselhado, de perigoso a obrigatório. Repentinamente, de rosto nu passamos a “mascarados”. De “namorada recusada” à “obrigação de casar” … mas não para todos. O presidente da AR Ferro Rodrigues recusou a ideia do uso de máscara em plena pandemia para as Comemorações da Revolução, afirmando: “Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril”? Mau exemplo de quem deveria dar o exemplo. E, coisa curiosa: uma semana depois o mesmo Presidente Ferro Rodrigues determinou ser obrigatório o uso de máscara dentro da Assembleia da República …

Ao mudar de paradigma, a máscara tornou-se objeto de “negócio da China”, tanto para os próprios chineses como para outros “chineses” disfarçados de portugueses, até nas feições, tal foi a especulação. E a moda entrou na “dança” com criatividade. Multiplicaram-se modelos, tecidos, cores, feitios, enfeites. Redondas, quadradas, retangulares, triangulares, com cores do país, símbolos de clubes, eventos, marcas. Descartáveis ou não, com filtro e sem, de elásticos ou alças a envolver a nuca. Até objetos de luxo ao condizerem o tecido com o vestido, as calças ou a blusa. Quando se pensava que a necessidade de tapar boca e nariz nos nivelaria, tornando-nos iguais, estávamos enganados pois tanto há máscara de pobre como de rico, de fabrico caseiro com resto de tecido ou em seda da Pierre Cardin ou Prada. É que há quem não se fique por uma máscara qualquer para ir sair com amigos, jantar fora, ir ao cabeleireiro ou um evento. Tem de condizer com a toilette, a pele, os acessórios. E ser “daquela marca” … sem importar o preço. Daí haver cartazes a promover máscaras para todos os gostos, bolsas e visuais, em pacote ou personalizadas com assinatura, grandes para encobrir misérias e manter anonimato ou pequenas para deixar que se veja a tonalidade da pele.

Se no início deste ano a máscara era sinónimo de risco de assalto, de quem esconde a cara para não ser reconhecido e um sinal de perigo, agora vemos o perigo vem precisamente dos que não a usam … o que me deixa uma pergunta no ar: “Será que nesta altura os assaltantes de bancos entram de cara descoberta para chamar a atenção e até se diferenciarem dos clientes ou com máscara especial onde se possa ler o aviso “Isto é um assalto”? É que antes havia bancos que fechavam no Carnaval por causa dos mascarados e atualmente não nos deixam entrar se não formos mascarados. Quem os entende?

Desde o princípio da pandemia, a questão central que se põe quanto ao uso ou não de máscara é sobre a sua utilidade. Já percebemos que as entidades sanitárias começaram por negar essa utilidade para vir depois dizer precisamente o contrário no que toca a proteger-nos e proteger os outros do risco de contágio do covid-19. No entanto, essa utilidade vai muito para além da contenção do vírus. Que o digam os feios (e feias), desdentados, narigudos e de verrugas estranhas no rosto, que podem encontrar no uso da máscara um meio excelente para passarem despercebidos e não se sentirem discriminados. Dizia-me um homem muito mais novo que eu: “Há dias ia uma senhora à minha frente com um perfil e visual tal, que me senti obrigado em continuar atrás dela no passeio para apreciar a sua beleza. O corpo, o balançar das ancas, o cabelo comprido e liso a cair-lhe nas costas, as pernas bem torneadas, tudo estava no sítio. Às tantas parou, virou-se de lado e não consegui ver o rosto porque usava uma grande máscara preta. Mas, de repente, deu um grande espirro e acabou por tirar a máscara. Foi então que apanhei um choque terrível: a cara não tinha nada a ver com o resto!!! Que desilusão”. Cá está, a máscara foi-lhe muito útil enquanto a usou. No entanto, uma mulher bonita já não pode dizer que a máscara a beneficia. Pelo contrário, ao esconder-lhe a “carinha laroca” retira-lhe protagonismo entre o mundo masculino, e não só …

Pergunta-se tantas vezes se a máscara é eficaz no combate ao vírus do nosso desassossego. Pode-se garantir que sim. Já viram máscaras colocadas no revisor do automóvel? Pois está provado que até agora nenhum retrovisor apareceu infetado!!! Aliás, o mesmo se pode dizer das máscaras postas no pescoço (tipo gola), penduradas na orelha e no braço (tal e qual as braçadeiras de capitão), além da cabeça (tipo óculos para a miopia cerebral). Já se conhece alguém infetado nestas partes do corpo? Claro que não, o que só comprova a sua eficiência …

E a máscara veio para ficar. Em definitivo. De tal forma se radicou entre nós que já a vemos com frequência nas valetas, caixotes do lixo e fora deles, regos de água, barracos, ruas, avenidas, praças, becos, rios e mares, enfim, por todo o lado. 

Apesar de tudo, as máscaras são para já a principal arma para conter a transmissão do coronavírus na falta de cura ou vacina. Cirúrgicas, bico de pato, sociais ou outras, só se exige que sejam usadas sempre que a situação o recomende e com responsabilidade, coisa que nem sempre acontece. Num restaurante com “serviço de refeições para fora”, para que serviam as máscaras de todos os colaboradores (4), tidos por responsáveis pelo “atendimento, cozinha e preparação da encomenda” se, durante os vinte ou trinta minutos que esperei, só serviram para “tapar e segurar o queixo”? Era para evitar os “queixos caídos”? Assim, não adianta ter ou não ter máscara, usar ou não usar. Mal por mal, é melhor não usarem nada, pois saberemos com o que podemos contar.

Deixemos de nos enganar. Ou somos responsáveis e rigorosos no uso da máscara para travar o contágio ou optamos por fingir que somos e fazemos dela um adereço incómodo que vamos mudando de um lado para o outro do corpo sem cumprir a função de tapar sempre o nariz e a boca.  E, quando esse vírus nos bater à porta – e anda mais perto do que pensamos conforme comprovam as notícias dos últimos dias – atiramos as culpas para cima de alguém, talvez o patrão, a empresa, o governo ou o inimigo mais à mão, um qualquer “bode expiatório” para que a “culpa não morra solteira”. Claro, mais um dos enganos do costume …

Quando a vindima era comunitária

Era na Festa de Sto. Ovídio, em Aveleda, a 8 de Agosto, que eu comia as primeiras uvas do ano, a prenda crónica dos meus pais. Nesse dia, queria sempre comer uvas … e saber se houve a pancadaria habitual! Nunca soube de onde vinham as uvas, nem me interessava. Voltava a comê-las uma semana depois, compradas na Festa da Sra. Aparecida. As de casa dos meus pais e avós, só muito mais tarde começavam a amadurecer. E eu sabia bem onde as havia boas, em casa e fora, às vezes pintadas com “roxo rei” para não lhe tocarmos. Por isso, nasci e cresci em comunhão com videiras e uvas, até quando só procurava o ninho de melro. Tenho excelentes recordações desse tempo, das uvas e vindimas, da alegria e prazer de viver. E as vindimas eram um hino à felicidade, próprio de bilhete postal. Por ser “véspera” de Outubro, lembrei-me das vindimas, tanto nos quintais de meus pais como no campo da minha avó. Neste, ainda vejo os homens a levantar escadas enormes de madeira de vinte e tal passais para ir colher as uvas das videiras que trepavam bem alto, agarradas às árvores, normalmente lodos, plátanos e mais raramente, castanheiros ou cerejeiras, no que chamavam “vinha de enforcado”. E era preciso ter um misto de força e equilíbrio para conseguir levantar uma dessas escadas compridas e encostá-la à árvore, como para a mudar para outra sem a deixar cair. À mínima distração ou pequeno desequilíbrio, a escada caía com estrondo, estendida no campo entre a erva e os “estrepes” dos pés de milho, às vezes desfeita em bocados. As vindimas eram sinónimo de festa e, sobretudo, de um dia em que se comia melhor. Participava a família, amigos e vizinhos, em colaboração comunitária sem qualquer pagamento, a não ser a comida. Armados de escadas de madeira, de abrir para colher nas ramadas, ou de passais para subir às árvores ou bardos altos. Geralmente eram os homens que colhiam para grandes cestas com gancho, enquanto as mulheres controlavam e carregavam os cestos à cabeça para o carro de bois ou diretamente para o lagar se fosse perto. 

Nós, miúdos, apanhávamos os bagos caídos na colheita, sob o olhar atento de uma mulher mais velha, que nos ia espevitando com a frase do costume: “conheço um homem que fez dez pipas de vinho só com bagos” …

A vindima era sinónimo de alegria e animação, misto de conversas, cantorias e começo de namoricos. De vez em quando, alegrada com um berro prolongado lá do alto da escada para chamar a atenção da mulher do cesto, sinal de que a cesta estava cheia, com um alegre “Oh cesteiraaaaaaaaa”!!!

À volta do campo onde a minha avó semeou durante muitos anos os melões “casca de carvalho”, existiam videiras a trepar pelas árvores acima, com alturas variadas, que davam um excelente vinho tinto no dizer dos “bebedores” que, nessa época, eram muitos. É que, “beber vinho era meia mantença” e desde tenra idade o vinho fazia parte da ração diária. Aliás, a miudagem era “iniciada” no consumo de álcool desde o berço, pois a forma de adormecer um bebé quando estava a berrar entre os trapos onde o embrulhavam , era meter-lhe na boca a “boneca”, um pano enrolado embebido em aguardente …

Vindimas também significavam sardinhas fritas sobre um bocado de broa, regadas a vinho tinto; mudar a escada de um lado para o outro; mulheres a carregarem os cestos de uvas à cabeça sobre a “rodilha”; e o arregaçar das calças, lavar (e mal) os pés no alguidar de barro para pisar uvas no lagar ou numa dorna. Nesse tempo, a quase totalidade das uvas eram tintas. É que, vinho, vinho, só era considerado o verde tinto. O verde branco, dizia-se, “era para senhoras”. E, como se vivia numa época de “machos”, sempre prontos a afirmar a sua condição, homem que se prezasse bebia verde tinto. Nem branco, nem maduro, nem cerveja. Só tinto. Era normal no final do dia de trabalho entrar-se na loja ou tasco, pedir um copo de vinho (tinto e de litro) e “virá-lo de tiro”, isto é, de uma vez só. As uvas brancas ou eram atiradas para o meio das tintas onde o “vinhão” compensava a falta de cor ou o caseiro da quinta fazia meia ou uma pipa de vinho branco para ser consumido pelo senhorio na parte que lhe tocava da renda. É que nas “lojas” ou “tascos” só se vendia verde tinto, que os apreciadores bebiam em canecas de porcelana depois de as agitarem duas ou três vezes para ver formar o “lasso”, sinónimo da qualidade da “pinga”.  

O vinho era muito importante para as pessoas desse tempo, porque fazia parte da sua alimentação, por mais pobre que fosse a casa. Em todas as refeições. E, como eram tempos difíceis, uma das formas de “esticar” a capacidade de transformar as uvas em vinho e aumentar a quantidade, era fazendo a “água-pé”. Depois de retirado o vinho do lagar para as vasilhas (pipas ou pipos), ao bagaço que ficava antes de espremido juntavam-se alguns almudes de água com vários quilos de açúcar. Depois de nova fermentação, obtinha-se a “água-pé”, aquilo que se poderia chamar de “vinho dos pobres”, com baixa graduação e pouco poder de conservação. 

Vieram-me à memória estas lembranças porque ontem um agricultor desabafava comigo sobre a grande dificuldade que tem de arranjar pessoal para a vindima. Dizia ele que tem de se desenrascar só com a mulher e duas filhas para vindimar toda a quinta, o que o obriga a prolongar a colheita por várias semanas. Da velha geração, recordava com muita saudade o tempo em que a vindima era um acontecimento comunitário, misto de trabalho e confraternização. E agora, mesmo pagando bem e alimentando melhor, não consegue arranjar gente para a vindima. “Sinal dos tempos”, dizia ele. 

Eu fiquei a pensar que é a “agricultura de sobrevivência” a dar lugar à “industrialização agrícola”. E, como diz o velho agricultor, “um sinal dos tempos” …

Melão? “Casca de Carvalho” é o Rei…

Diz o ditado que “em terra de banana qualquer melão é rei”. Ora, nós não estamos em terra de banana, nem estamos na Madeira (e nem chegamos à Madeira …). Por isso, aqui nesta terra onde nasci, para ser rei só há um melão: “casca de carvalho”. Pois não é um melão “pele de sapo” ou de Almeirim que tem direito a esse estatuto. Aqui, não!!! Fui educado assim e a minha avó materna incutiu-me os ensinamentos e o respeito por este fruto especial. Durante a minha infância e parte da adolescência passei longos dias nos seus meloais e acompanhei todas as fases da cultura, desde a preparação da terra à colheita; desde a abertura das covas com a largura de uma enxada que se enchiam de estrume da corte, bem curtido para fazer a “cama quente” (ideal para a semente germinar bem) ao “capar dos melões”, para produzir mais rebentos laterais; desde a “monda” de frutos, deixando crescer só um melão em cada haste, à rega feita com peso, conta e medida. A minha avó gostava muito de melão e percebia do assunto. Ainda me vem à memória a sua imagem a segurar o melão na mão esquerda e, com o dedo médio da mão direita, a tocá-lo para saber pelo toque se era bom ou não. E sabia. Porque um dos grandes problemas deste melão sempre foi haver “especialistas” capazes de saber se o melão é bom ou um grande fiasco. E nesse tempo de bons entendedores, também acontecia um fiasco de vez em quando, mesmo com os ditos … 

Comi muito melão casca de carvalho e a grande maioria era excelente pois até tinha “polpa dura, sabor doce e picante intenso”. E registei a máxima popular: “este melão tem dia e hora para ser comido”. Nem antes, nem depois. Sempre preferi os melões de polpa amarelada, se bem que também goste de avermelhados ou “gelados em verde”. E ao meter-lhes a faca gosto de os ouvir “bufar” e libertar o gás carbónico, requisito que indicia a qualidade. Isso não acontecia nos “rachados” ou “rebentados”, geralmente de excelente qualidade, mas que no pico do calor e do gás, acabavam por abrir, quase sempre ainda antes de estarem maduros. Apesar da idade, dei o meu contributo ao meloal, chegando mesmo a dar uso à casota onde se recolhia o Tónio para guardar os melões durante a noite. E até plantei pimentos para que saíssem mais “apimentados”, um mito popular que nada tem a ver com a qualidade dos frutos. Mas é a tradição …

Nesse tempo, “melão” queria dizer “casca de carvalho” que, diga-se, ou era bom ou só servia para os porcos, por ser pior que “botefa” (abóbora). Se alguém falasse no “melão de Almeirim”, era o mesmo que falar de “botefa”. A maioria dos agricultores que se dedicava à cultura do melão percebia da matéria. De tal forma que, fazendo uso somente da apalpação, toque, cheiro e peso, eram capazes de garantir e “afiançar” a qualidade do produto.

Foi já adolescente que conheci os primeiros sinais da “mela”, doença que viria a afetar significativamente os meloais da região e que faz com que o meloeiro morra pouco antes dos frutos amadurecerem. No entanto, alguns indivíduos pouco escrupulosos metiam esses melões no forno aquecido para ganharem um tom amarelado de maturação, para os impingir a incautos que apanhavam uma desilusão quando os abriam. Anos mais tarde e já depois de cumprir o serviço militar, fui trabalhar para um organismo agrícola que, ingenuamente, eu achava que existia para apoiar os agricultores. Logo na primeira semana falei com o chefe do serviço de fitossanidade e expus-lhe o problema da doença que estava a dar cabo dos meloais na região. Como eu passara a ser o responsável de uma propriedade agrícola do estado onde se faziam ensaios e estudos agrícolas, propus-lhe que se estudasse tão grave problema para ajudar os agricultores. Mas ele não me deixou continuar: “Nem pense nisso, pois não há solução. O problema é dos solos graníticos. As raízes do meloeiro, ao crescerem, ferem-se nas asperezas do solo, abrindo porta à infeção por “fusarioses” e à morte das plantas”, disse-me ele com ar catedrático. Ao ver que ali “a porta estava fechada”, respondi-lhe com ar cínico: “É capaz de ter razão. O problema deve ser mesmo do solo. Mas fica-me uma dúvida: como é que durante tantos anos os lavradores tiveram bons meloais e sem doença, sendo o mesmo terreno? E “como terão feito os meloeiros” para fazer crescer as raízes no meio da “aspereza” do granito sem se “ferirem”, coisa que hoje “já não sabem fazer”? 

Gostando de melão, continuei a comê-los aqui e ali, se bem que nem sempre com a qualidade própria dum bom “casca de carvalho”, mas nunca abdicando a favor do “melão de Almeirim. Porém, um dia ia a entrar em Penafiel e estavam a descarregar melões de Almeirim. No impulso de momento e sem razão consciente, parei e entrei na loja. Pedi dois melões ao empregado e ele retirou-os dum pequeno lote, pesou-os e paguei. Quando já ia a sair, o dono da loja que estava na descarga entrou e perguntou ao rapaz de onde tirara os melões que eu já tinha na mão. ”Foi daqueles que estão separados”, respondeu-lhe. “Mas esses não eram para vender”, disse o homem irritado. Como já tinha pago, saí porta fora com os meus melões. Só quando abri o primeiro compreendi o que se passara: o dono da loja, na descarga, avaliava os melões um a um e selecionava aqueles que ele achava serem de qualidade e colocava-os no pequeno lote onde o rapaz os foi buscar. E não é que o raio dos melões de Almeirim eram excelentes e até tinham “a polpa dura, sabor doce e um picante intenso” como os nossos???!!! Confesso que, ao comer cada talhada, me senti como que a “trair” a causa dos melões “casca de carvalho” …

Muitos anos volvidos, continuo a apreciar um bom melão, sem ser tão fundamentalista pelo “casca de carvalho” como era. Porque o melão é diurético, calmante e laxante, para além de ter outros benefícios para a saúde. Às vezes servem-no com presunto, mas se ele for bom, basta o melão, com um bom vinho, até porque o ditado diz que “com melão, de vinho um tostão a cinco reis o almude”.

Não tem sido fácil encontrar um dos “tais melões” da região. Por isso, vou-me contentando com os do Alentejo, que agora dizem ser os mais doces, como se a doçura só por si fosse sinal de qualidade. Há dias fui comprar um. Quando estava debruçado sobre a caixa cheia de melões a tocar e avaliar ora um ora outro, um cliente abeirou-se e disse-me: “Deixe-me escolher-le um. Percebo disto, pois vendi melões durante muitos anos”. Aceitei a amabilidade do “entendido”, que depressa me separou um tido por muito bom. Agradeci e, quando já ia pagar, “deu-me na veneta” e voltei à caixa de onde retirei outro que me pareceu “pesado”. Pois agora que já comi os dois, sem serem nada parecidos com um bom casca de carvalho, posso dizer que a minha escolha saiu melhor, o que me deixa desconfiado sobre os “entendidos” de hoje. Provavelmente, se o amável senhor que me ajudou soubesse, “ficava com um grande melão” …

Talvez por essa dificuldade em escolher um bom melão C. Mermet dizia que “os amigos são como os melões: Para encontrar um bom, você precisa de provar cem” …

É como dizem: “A gente vai embora…”

Na “passagem” por este mundo, há gente com quem passamos muito ou pouco tempo, mas nos deixa uma marca, lições de vida, boas recordações. E, apesar da distância ou do tempo que nos separa, de vez em quando recordamos, trazemos aos dias de hoje o que ouvimos, aprendemos e sentimos. Foi assim que hoje pus no alto da pilha das recordações o senhor Enes. Homem simples, com a tranquilidade e a sabedoria da idade e da muita instrução, dedicado a uma Instituição da sua terra natal, cruzou-se comigo profissionalmente e por isso convivemos de perto. Nas muitas deslocações que fazíamos em serviço, ainda o vejo recostado no banco de trás da Renault 4L onde teimava ir, sempre com um livro a acompanhá-lo para ler com a viatura em andamento e enquanto nos deslocávamos de um lado para o outro, habilidade que eu não consigo fazer porque o enjoo não deixa. Com mais do dobro tanto da minha idade como de calma e ponderação, em muita situação me convidou a abrandar, “dizendo-me que uma chatice não é um problema” e que não a devia transformar num. E quando eu queria ir ao arrepio dos seus conselhos, deixava sair a sua frase lapidar: “Não corra muito, porque A GENTE VAI EMBORA. Para quê ter tanta pressa?”. A expressão que usava não era mais do que uma chamada de atenção para eu moderar o ímpeto, encarar os factos com tranquilidade, resolver as chatices pelo diálogo ainda que tivesse de ceder porque “um dia destes, A GENTE VAI EMBORA” e vai sobrar-nos arrependimento por não ter sabido aproveitar o tempo que tivemos enquanto andamos por cá.                               E lembrei-me dele porque me mandaram um poema do jornalista e professor brasileiro Sérgio Cursino titulado precisamente com a frase com que me brindava em momentos de agitação (minha): “A GENTE VAI EMBORA”. Não deixa de ser curioso que este poema não só usa em título as mesmas palavras que ele me dizia já lá vão umas décadas, como muito do seu conteúdo transmite ideias e frases com que o senhor Enes me brindava amiudadamente e que este poeta brasileiro passou a poema muitos anos mais tarde. Porque é uma homenagem a esse velho amigo e um convite à reflexão, acho que vale a pena partilhar o poema do jornalista e poeta brasileiro, um pouco das palavras de um amigo:                                                                              “A GENTE VAI EMBORA e fica tudo aqui: os planos a longo prazo e as tarefas de casa, as dívidas com o banco e as prestações do carro novo que a gente comprou p´ra ter status.                              A GENTE VAI EMBORA sem ter tempo de guardar a comida no frigorífico. Tudo vai apodrecer e até a roupa fica no estendal.                  A GENTE VAI EMBORA, se dissolve, a gente some, toda nossa importância se esvai, essa importância que pensávamos que tínhamos…, a vida continua, segue, as pessoas superam e vão seguindo suas rotinas.                                                                     A GENTE VAI EMBORA. As grosserias, impaciência, infidelidade, só serviram para nos afastar de quem nos trazia felicidade e amor.                                                                   A GENTE VAI EMBORA e o mundo continua assim, caótico, muito louco, como se a nossa presença ou ausência não fizesse a menor diferença. Aqui entre nós, não faz. Nós somos pequenos, mas somos arrogantes, prepotentes, feitos bestas.                        A GENTE VAI EMBORA. E é mesmo assim: num piscar de olhos, de repente, a vida vai. O cachorro que eu amo tanto, é doado. O cachorro se afeiçoa aos novos donos. Os viúvos casam de novo, andam de mãos dadas apaixonados e até vão ao cinema.                             A GENTE VAI EMBORA e rapidamente somos substituídos nesse cargo que ocupávamos na empresa. E somos substituídos no dia seguinte. As coisas que nós nem sequer emprestávamos são doadas, algumas até atiradas fora.                                                             Quando menos a gente espera, A GENTE VAI EMBORA. Aliás, quem é que espera morrer? Se a gente esperasse pela morte, talvez a gente vivesse mais. Talvez a gente colocasse a nossa melhor roupa hoje, talvez a gente comesse a sobremesa até antes do almoço. Talvez a gente esperasse menos dos outros. Talvez a gente risse mais, saísse à tarde para ver o pôr do sol, talvez a gente quisesse mais tempo e menos dinheiro.                           Hoje o tempo voa, amor. A partir do momento em que a gente nasce, começa essa viagem, essa jornada fantástica veloz com destino ao fim, rumo ao fim – e ainda tem aqueles que vivem com pressa! Eu ainda tenho pressa! O que é que eu estou fazendo agora com o tempo que me resta?                                             Que possamos ser cada dia melhores. Que saibamos reconhecer o que realmente importa nesta nossa breve passagem pela Terra. Só isso. Até porque, A GENTE VAI EMBORA. A GENTE VAI EMBORA”.                                                                                        Já o senhor Enes me aconselhava a preocupar-me só com aquilo que é verdadeiramente importante e para aproveitar o lado bom da vida, as pequenas coisas que nos dão prazer, partilhar todo o tempo possível com aqueles que amamos e … perdoar. Porque não vale a pena viver com rancores, ressentimentos ou ódios. Não ganhamos nada. Pelo contrário, só perdemos. Como ele tinha razão!!! E, fazendo ele já parte da GENTE QUE FOI EMBORA, apesar de não ter escrito o poema (que eu saiba), até parece que deixou o guião ao Sérgio Cursino …                                         Fiquei a pensar que, depois da GENTE IR EMBORA (e vamos quer queiramos ou não, quer pensemos que vamos ficar cá ou não, quer sejamos arrogantes e egoístas ou não …), as pessoas vão continuar suas vidas, o sol nasce e as ruas enchem de gente, o trânsito fica louco e desconhece o luto de quem quer que seja. 
As pessoas que choram nossa IDA EMBORA cabem na divisão pequena duma casa grande e o Festival de Música Rock dessa noite vai ser tão curtido como de costume. E a importância da GENTE QUE FOI EMBORA é tal, que um mês depois já quase não há rasto da sua passagem por estas bandas, até na memória da GENTE QUE NÃO FOI EMBORA.                                                                E a GENTE QUE FOI EMBORA já não vai ouvir a música Top do próximo verão que também não aproveita, nem conhecer a moda de inverno, o próximo governo e os seus escândalos. Nem saber dos avanços da tecnologia, da Inteligência Artificial, se dinheiro papel vai acabar ou a máquina do tempo vai ser real. E fica sem saber como acabou aquela telenovela que acompanhava todos os dias ou a série semanal que já vai na quinta temporada. Mas também já deixou de se preocupar com as contas da eletricidade, do gás, do telefone, internet, televisão e telemóvel, bem como todas as outras que não queríamos, mas vêm.                             Mas uma coisa ficou como certeza: “A GENTE VAI EMBORA” …

Rojões com pardais? O que é isso?

Falava-se de pardais e eu meti a colherada: “Os pardais são bons com rojões”. Do outro lado da mesa a mulher mais nova não se conteve e perguntou admirada: “Rojões com pardais? Mas alguém come pardais pequenos que não têm nada que comer”? E eu tive de explicar, tintim por tintim, que há cinquenta anos a maioria das pessoas tinha muito pouco para comer e que tudo o que fosse capaz de servir de alimento, “marchava”. E os pardais eram “carne comestível”, por muito pouca carne que tivessem. “Mas como é que apanhavam os pardais”, pediu ela para lhe explicar. E eu pude contar-lhe como se fazia essa caçada noturna à passarada, pois participei em duas delas quando ainda era rapazote, como “ajudante de campo” de um grupo de homens, tendo como objetivo fazer uma patuscada onde os pássaros inocentes iam acrescentar à panela com alguns rojões. A caçada era à noite porque os pardais, para se protegerem do rigor do inverno, abrigavam-se nas medas de palha de milho. “E o que eram as medas de palha de milho”, perguntou ela mais uma vez. E lá tive de dizer que naquele tempo os lavradores semeavam milho para colher grão, pois era com grão que pagavam a renda ao senhorio. E as plantas, a que chamavam “pés de milho”, depois de colhidas e secas eram amarradas em molhos. Para se conservarem durante o inverno, esses molhos eram “encastelados” por uma árvore ou poste de madeira acima e amarrados a este, por forma a protegerem-se uns aos outros da chuva, como num telhado. Estas “medas” eram feitas quase sempre nas “bordas” dos campos. Era nelas que os pardais se enfiavam à noite no inverno, a sua “cama quente” contra o frio noturno. Tinham cinco a oito metros de altura e quase dois metros de diâmetro. Para apanhar os pardais arranjavam-se duas varas altas que serviam de suporte a cinco metros de “rede”, tipo rede de pesca, por forma a que, quando se encostassem as varas à meda, a rede a envolvesse a toda a altura. Dobrava no fundo para cima e dentro, formando um longo saco. Então, eles aproximavam-se sorrateiramente no adiantado da noite quando os pardais já estavam recolhidos, envolviam a meda com ela usando as varas, acendiam os “gasómetros” e batiam com paus na palha. Apanhados a descansar, os pardais saíam “meda fora” com o barulho, mas esbarravam contra a rede e resvalavam por esta abaixo, sendo apanhados no fundo pelo “saco”, de onde dificilmente saíam. Quando deixavam de sair aves da meda, enrolava-se a rede para depois tirar do “saco” os pardais um a um e enfiá-los num saco de pano. Eu só segurei no “gasómetro” para “dar luz à operação”, mas não tive direito à “rojoada com pardais”.

Depois ainda lhe disse que, pela mesma razão, quem tinha pombas costumava fazer “arroz de borrachos”, nome dado aos filhotes das pombas. “Pombas?”, perguntava ela muito chocada”. “É isso mesmo. Sabe porquê? Porque eram comida, melhor ainda, carne muito rara para a maioria das pessoas de então”.  

Estive em Angola há muitos anos andando entre Luanda e Malange a estagiar sobre a cultura do algodão. Quando estava pela capital era normal conviver com alguns amigos durante horas, com os dois pés debaixo da mesa de uma esplanada qualquer, a beber cerveja “Cuca”. Sempre que me lembro disso, o que me vem de imediato à memória é o facto de, ao pedirmos uma rodada de cerveja, a acompanhar vinha sempre um prato de camarões, de dobrada, moelas e até passarinhos fritos, tudo de graça, mas muito, muito picante, por forma a estimular o consumo de cerveja. E se resultava!!! Bastava ver a quantidade de vezes que cada um dos clientes ia à casa de banho … 

Ao pensar em tudo isso, hoje ponho-me a pensar no “caminho” que fiz na minha atitude perante as aves, entre muitas outras coisas. Nesse meu “caminho”, as aves significaram várias coisas à medida que fui crescendo e tomando consciência deste mundo de que faço parte. Em criança, eram um “hobby”. Conhecer-lhes todos os hábitos, descobrir-lhes os ninhos, tirar filhotes de melro para criar em gaiolas, tal como apanhar pintassilgos e pêgas nas mais diversas armadilhas. Alimentá-los e fazer deles “cantores”. E caçá-los à fisga, um acaso tão raro por falta de habilidade e pontaria. Nunca me tornei um caçador de espingarda de chumbo, se bem que tenha experimentado com a arma de um amigo. Desisti logo por achar que era uma matança sem utilidade em luta desigual. Com o passar dos anos, reconverti-me e passei a ver nelas uma das coisas mais belas da natureza, algo que temos de defender e proteger desse perigoso animal que é o homem. A caça, os pesticidas, todo o tipo de químicos e a destruição constante dos seus habitats naturais, fizeram desaparecer na região já muitas espécies de aves que foram as minhas companheiras em criança ou ficaram reduzidas a poucos exemplares, raros sobreviventes num ambiente que lhes passou a ser hostil. Hoje quase só se veem pardais e melros em quantidade significativa e passamos a ser “invadidos” por gaivotas que nunca pertenceram a esta região e só aqui vêm parar atrás da comida das lixeiras e aterros sanitários, por escassear o seu alimento natural no mar: o peixe.

Ao pensar nos “rojões com pardais” e nas duas caçadas noturnas em que participei, hoje já não fariam sentido e seriam condenáveis se existissem, se bem que as compreendo, aceito e não me atrevo sequer a condenar naquele tempo, pela vivência, necessidade, conhecimento e condicionantes dessa altura. Julgar os hábitos culturais de outrora à luz dos conceitos de hoje, seria de uma arrogância bacoca que ignora a evolução e o “caminho” que a sociedade teve de fazer para chegar até aqui e ser o que é. Mas só “vemos” hoje as coisas de “outra forma”, não aceitando que se façam caçadas de pardais em massa para comer com rojões como muitas outras coisas, conceitos e princípios porque, geração após geração, foi sendo “feito esse caminho”.   

Aliás, seria natural e compreensível que, mais de meio século depois, o ser humano protegesse com maior cuidado as aves, tal como o meio ambiente, do que no meu tempo de criança. Mas, as caçadas noturnas de pardais e outras aves para alimentação ou a apanha de outras para criar em cativeiro, foram bem menos prejudiciais para essa classe de animais do que agora são os efeitos causados pela poluição em geral, e os pesticidas em particular, bem como pela destruição dos habitats, até pelo elevado nível de informação que possuímos e pelo cuidado e (in)consciência que todos nós deveríamos ter. Mas que não temos …

Tal como não temos desculpas …              

Homens e automóveis. O que os une …

É vulgar na gíria comum, mais entre homens que mulheres, utilizar-se uma linguagem “mecânica” para referir algumas partes do nosso corpo, com sentido crítico, estético, sensual, pejorativo ou elogioso. E isso já vem de longe.: “No tempo em que as adolescentes ainda eram inocentes, uma jovem virou-se para o pai, pedindo ajuda: – Pai, não percebo o que o meu namorado me quis dizer quando referiu que eu tinha um belo “chassi”, dois excelentes “airbags” e um “para-choques” fenomenal. O pai, vivido e conhecedor dos homens e suas intenções, respondeu-lhe de imediato: – Vais dizer ao teu namorado que, se ele tentar abrir o “capot” para meter a” vareta” a medir o óleo, dou-lhe uma tareia tal que lhe “gripa o motor” para sempre. Como é natural, a jovem não percebeu patavina, mas o namorado terá sabido traduzir a “linguagem mecânica” e ler nas entrelinhas do “roncar” do pai dela…

Nessa linguagem, como que uma espécie de “calão automobilístico”, comparam-se peças dos automóveis a órgãos do corpo humano com base na função estética ou funcional. Nuns e noutros ouvimos falar em “carroçaria”, na “coluna ou longarina”, em “motor”, “computador”, “amortecedores”, “faróis”, etc. Muitas vezes se pergunta “como anda essa máquina”, para saber da saúde de uma pessoa. É que, até nesta questão, as palavras são usadas com duplo sentido. À “nascença”, enquanto são “novos”, ambos “funcionam bem, a não ser que exista um “defeito de fabrico”. Mas depois, o desgaste natural provocado pela dureza dos dias e dos “quilómetros andados”, são obrigados a recorrer à “oficina”, que o mesmo é dizer ao “hospital. Hoje, ambos têm tanto no “livro de manutenção” como no “ficheiro clínico” todos os registos das “intervenções” efetuadas num e noutro, como datas ou quilometragem em que devem voltar à revisão, especialmente quando sofrem de “avaria crónica” que os obriga a fazer “vistorias periódicas”. 

Nos primeiros anos de vida é só meter “combustível” para alimentar a “máquina” e, com alguma regularidade, passar pela “manutenção” para verificar a “afinação” do “motor” e se precisa de algum “ajuste”. Diria mesmo que nesse período, a frequência da visita “à oficina” é maior nos homens, porque são mais frágeis e necessitam de maior acompanhamento. Não acontece tanto nos automóveis porque já “nascem adultos” e agora livres da limitação de outrora, que era o “período de rodagem”. A evolução técnica suprimiu essa necessidade que impunha um “andamento” mais moderado, sem excessos, bem como manutenções mais assíduas nos primeiros “tempos de vida”.

A adolescência e a “passagem a adulto” são os melhores períodos, pois só precisam de efetuar “revisões” com regularidade, assegurar que têm “combustível” e substituir os “consumíveis” conforme o prescrito. É “sempre a andar”. Nesta fase das suas vidas, os grandes problemas surgem dos “acidentes”, porque podem pôr em causa a “saúde” quer da “carroçaria”, quer de alguns dos “órgãos” essenciais. E, conforme a dimensão dos estragos e as “peças” afetadas, homens e automóveis têm de baixar à “oficina” por períodos mais ou menos demorados, onde estarão sujeitos a “reparações” que podem ir da “carroçaria” ao “motor”, do “sistema de alimentação” às “rodas”. Se antigamente só era possível proceder à substituição de “órgãos” nos automóveis, com os avanços da “engenharia médica” já acontece o mesmo com muitas “peças” nos humanos, ainda longe dos primeiros onde todas as “peças” são passíveis de serem trocadas.

Os problemas da “manutenção humana” começam verdadeiramente na “meia idade”, quando têm de esticar o braço para conseguir ler o jornal ou o livro. Dizem que não é sinal que estejam com problemas de “faróis”, mas do braço ser curto, porque não dá para esticar mais. A mulher insiste com o marido para ir ao “mecânico dos faróis”, que coincide mais ou menos com a ida ao “mecânico do tubo de escape” para fazer um “exame pela porta dos fundos”, a que todos os homens se têm de submeter, embora (quase) sempre contrariados (mas não me vou alongar nos pormenores pois pode ser constrangedor). É aí que os homens sabem ter problemas nos “faróis” e estão a caminho de perder a visão, coisa que não acontece com o “escape”, o tal outro “olho”, que continua “cego” mesmo que a saúde seja boa. Os carros nesta fase começam a dar os primeiros “sinais de perda” e têm de ir ao “hospital” reparar ou substituir alguns “órgãos”, além de fazerem as “manutenções de rotina”, tal e qual os “doentes crónicos”.

Mas os grandes problemas de saúde surgem depois, quando passam a ser chamados de “velhos”. Talvez para não sofrerem do estigma pelo termo “velho”, colocam-lhes novos rótulos que podem ir do “idoso”, “sénior” ou “sessenta mais”, enquanto nos automóveis passam a ser chamados de “antigos” ou até de “clássicos”. Com o “peso da idade” e o “desgaste” natural pelos “quilómetros rodados”, ambos ficam mais debilitados e a “saúde” vai-se agravando. As “idas à oficina”, para além de serem mais frequentes e exigentes, implicam “intervenções” complicadas e caras, que muitas vezes os deixam no “estaleiro” por vários dias. 

Ambos podem “ficar carecas”, uns pela “falta de cobertura” e outros pelo desgaste dos “sapatos”; todos trocam “válvulas”, “rótulas” e “canalizações” diversas; enquanto num se  “substitui o coração”, o “motor dos homens”, no outro “troca-se o motor”, o “coração dos automóveis”; elementos comum são as “admissões de ar”, vitais para as suas vidas, e o “tubo de escape”, por onde saem “gases poluentes” e de sonoridade de gosto duvidoso feitos “rateres”; ambos podem ser “descapotáveis”, “consomem” mais ou menos conforme a “cilindrada” e gastam “combustíveis” diferentes; os “lubrificantes”, “combustíveis” e “pinturas” são comuns aos dois. 

Quando a “ferrugem” ataca os “órgãos principais” e o “coração” deixa de trabalhar, são tidos como “sucata” e entregues aos “Centros de Abate” e às “Capelas Mortuárias”. E vão parar aos “cemitérios” onde são enterrados debaixo de cinco palmos de terra ou prensados em fardos para reciclagem, embora antes se aproveitem as “peças” que estejam em “bom estado” para “salvar” e “dar nova vida” a alguma “máquina” avariada. 

Confesso que já não sou a versão original completa. Agora “funciono” com duas “peças” a menos, retiradas por “operações” em “oficinas” especializadas, mas não substituídas, o que até parece mistério. Já troquei as “lentes” dos dois “faróis” com sucesso, pois consigo ver ao longe e ao perto sem dificuldade. O “motor” tem pequenas “falhas”, mas dizem-me que ainda “não está gripado”. E já sou “descapotável” há um bom par de anos. Como já tenho muito “uso”, tento que não me mandem para a sucata e me valorizem como “clássico”, o que talvez me permite fazer mais uns “quilómetros” se os “órgãos” principais não “derem de si” na “primeira curva” ou na “subida mais íngreme” da “estrada da vida”. E então, sim, já não haverá “reparação” que me valha. Será aí que o povo vai dizer: “o motor dele pifou”!!!   

Vemos o rosto da “idade” no espelho?

Concordo com Jeanson: “O meu sonho é morrer jovem, mas com uma idade muito avançada”. De tal forma que, quando ouvir dizer “olha o velho”, eu tenha de levantar a cabeça à procura de alguém a quem se estejam a referir, que não eu. É que, apesar do meu (agora) Cartão de Cidadão me acusar ter várias décadas de existência, a minha mente ainda pensa que aquela cabeça com pouco cabelo e todo “pintado de branco” que o espelho me devolve todas as manhãs, não pode ser a minha. Tem grande dificuldade em acreditar. Mas, ao ver os outros com a minha idade, quase sempre os acho “velhos”. Já lhe aconteceu alguma vez olhar para pessoas com a sua idade e pensar: – Não posso estar tão acabado como ele?!!! 

A este propósito, confessava uma mulher: “Estava sentada na sala de espera para a minha primeira consulta com o novo dentista, quando vi o seu diploma afixado na parede, perfeitamente encaixilhado. Ao ler o nome do dentista escrito em letra artística, de repente recordei-me de um jovem alto e moreno que se chamava assim. Era da minha turma do Liceu, há uns bons trinta anos atrás. Então, perguntei a mim própria: – Será que este rapaz é o mesmo por quem eu me apaixonei naquela época?

Quando fui chamada e entrei no consultório, afastei de imediato esse pensamento do meu espírito. Porque, aquele homem grisalho, quase calvo, gordo, com um rosto marcado e profundamente enrugado … era demasiado velho para ter sido a minha paixão secreta.

Depois de ele me ter examinado e tratado o dente, para descargo de consciência perguntei-lhe se tinha estudado no Colégio Sacré Coeur.

– Sim, estudei, respondeu-me.

– Quando se formou, continuei a indagar?

– Em 1965. Porque pergunta, quis ele saber?

– É que … bem … o senhor era da minha turma, consegui eu dizer!

E então, aquele velho horrível, cretino, careca, barrigudo, flácido, filho de uma … bezerra lazarenta, perguntou-me:

– “A senhora era professora de quê”?” 

Assim como, por norma, só vemos os defeitos dos outros e não os nossos, também é verdade que só damos conta do quanto os outros estão envelhecidos e não conseguimos “ver” a imagem no espelho. Para já, estou de acordo com todos aqueles que dizem: “não estou a envelhecer, estou a tornar-me um clássico”. E, com isto, não minto descaradamente a querer dizer que envelhecer é espetacular. Antes pelo contrário. Envelhecer é muito chato, aborrecido e deprimente para quem pensa nisso e fica a contar os dias a mais (ou a menos), porque não tem mais nada que fazer. E cansa muito. Mas, a verdade, é que é a única maneira de se viver mais. Não há outra, nem parece que se vá inventar nos próximos tempos … 

Está provado que “qualquer idiota consegue ser jovem e o difícil é ter talento quanto baste para chegar a velho e, mais ainda, a muito velho, especialmente com qualidade”. Ora, o envelhecimento é um processo, que cada um encara de maneira diferente. É ganhar cabelos brancos? Ficar com a cara enrugada e os músculos flácidos? É passar a subir a escada cada vez mais devagar? Ser resmungão e teimoso? Ou perder a vontade de viver e ficar à espera que “o ceifeiro” chegue? Para falar francamente, não tenho medo de envelhecer. Até agora, ainda não tive de pagar qualquer portagem significativa na estrada que nos leva até lá …

Tenho de me dar por muito feliz porque envelheci, já ganhei cabelos brancos e tenho as maleitas próprias de quem atinge a terceira idade. Não, ainda não entrei na quarta idade de que agora tanto se fala, mas não ficarei triste se chegar lá. Pelo contrário, ficarei desapontado se as pernas não me levarem para além dela, pois envelhecer é bom até porque a alternativa é bem menos agradável. Tal como acontece com o vinho, ao envelhecermos “amaciamos”. Neste caso, temos muitas atividades. Segundo estudo recente da Universidade de Harvard sobre as coisas a que mais se dedicam as pessoas idosas, há três que se destacam das outras: “O Banco, a Bolsa e a Investigação”. O Banco, porque é neles que passam a maior parte do dia sentados, seja nos centros comerciais, parques ou jardins. A Bolsa, porque a usam com frequência para ir às compras ao supermercado ou para levar artigos para reciclar ao Ecoponto. A Investigação, pois não passa um único dia que não investiguem: “Onde raio deixei as chaves?”; “Onde pus a carteira?”; “Onde larguei os óculos?”; “Como se chama este gajo?”; “De que estávamos a falar?”.  

Eu sei que ás vezes também já esqueço coisas, que nalgumas ocasiões tenho de voltar atrás para tentar recordar o que ia fazer, mas já não me martirizo quando acontece, porque encaro o esquecimento como natural. Tornei-me mais amigo de mim próprio, mais tolerante. Para quê preocupar-me com um esquecimento se um dia destes vou ter de “esquecer tudo”? Eu sinto-me abençoado porque a maioria dos meus amigos já não tem oportunidade de se esquecer ou lembrar. Eu ainda tenho e estou feliz por isso. Também ganhei o direito à liberdade de ficar acordado pela noite dentro a ver um filme ou a ler um livro. E depois? Se tiver de ficar a dormir até mais tarde, fico. O mundo lá fora continua a girar sem mim. Tal como se me apetecer comer alguma coisa às duas da manhã, mesmo que isso represente barrar umas tostas com compota feita de mirtilos colhidos em casa dum simpático casal antes de os abrir à passarada ou até comer alguns caramelos de café que o meu filho nos traz da Colômbia! Não me penalizo ao comer feijoada ou cozido à portuguesa e não fazer dieta. Que importa se vier a ganhar “barriguinha”? Estou errado? Também já tenho direito a estar errado, porque não? 

Estou a envelhecer, sem ainda me sentir velho e já trago a idade no rosto, sem reconhecer os seus traços. Mas estou a gostar. Vale a pena fazer este caminho, mesmo com rugas profundas, cabelos brancos e um pouco curvado … e confesso, cheguei sempre sem preparação a cada fase da vida. Até porque “em jovem, sabia tudo, na meia idade, suspeitava de tudo e agora, acredito em tudo” … 

Haja respeito e compreensão por eles …

O senhor Joaquim está no hospital. Foi internado ontem. Quando a enfermeira lhe perguntou a idade ele retorquiu em francês: “quatre-vingts”. Como não compreendeu, perguntou à colega: “O que disse ele”? Ela respondeu que o senhor Joaquim tinha oitenta anos. Foi ao dar-lhe banho que a segunda enfermeira ouviu parte da sua história de vida num francês que foi compreendendo a espaços, mas de onde percebeu que ele esteve quarenta e cinco anos como emigrante em França e só a doença da mulher o fez regressar à terra natal onde deixara duas das seis filhas que tem. Por lá trabalhou na construção civil todo esse tempo e ficou-lhe atravessado no pensamento e no instinto a língua francesa, apesar de adotada à força da necessidade. Quando a filha o foi visitar à tarde, ao saber que falara em francês berrou com ele: “Tem de falar em português porque o pai sabe”. E, voltada para as enfermeiras, pediu para o obrigarem a falar na nossa língua. Aquela filha, que viveu tantos anos longe do pai, fruto das circunstâncias, não percebia que na sua cabeça o pensamento estava estruturado em francês por força dos quarenta e cinco anos a ter de o ouvir, falar e sentir e que, para agora encontrar as palavras certas na sua língua materna, tinha de as procurar no seu registo mental uma a uma, a conta gotas. Pior ainda, permitiu-se criticá-lo de ânimo leve, sem perceber a sua extrema dificuldade para falar em português ao fim de quatro décadas e meia de ausência, durante a qual só cá veio três ou quatro vezes. 

O João, que está em Inglaterra há mais de dez anos, explicava isso bem ao contar que até os seus sonhos já são em inglês, muito longe dos quarenta e cinco anos do senhor Joaquim como emigrante … 

É recorrente. Criticamos os emigrantes quando falam noutra língua, dizendo que “ele está-se a armar”, tal como os criticamos quando aparecem “montados num carrão”, que quase sempre mais não é do que a necessidade de afirmação do seu sucesso lá fora, uma forma de dizer “eu venci na vida”, uma manifestação de orgulho pessoal, sabe-se lá a que preço. Mas não temos noção desse preço e, ao criticarmos essa sua “afirmação”, quantas vezes não o fazemos com o sentimento de inveja por ele ter aquilo que nós gostaríamos de ter?

Ser emigrante, aquele emigrante que se muda para outro país mais ou menos distante, à procura de uma vida melhor, não é fácil, por mais letrado que seja. E, logicamente, quanto menor for a formação, mais dificuldades tende a encontrar na sua adaptação a outro país, outra língua, outra cultura. Que o digam todos aqueles que trabalham na construção civil por essa Europa fora, olhados e tratados (quase) sempre como “estrangeiros”, gente “menor” na sua escala social ou, se preferir, de grandeza. E já nem falo de tudo aquilo que passaram os nossos concidadãos nos anos sessenta e setenta nas primeiras grandes “levas” de emigração para França, em que iam praticamente às escuras para um país de que nada conheciam, nada sabiam, onde se falava uma língua estranha de que nada compreendiam, a reboque de engajadores que os exploravam e, demasiadas vezes, deixaram entregues a si mesmos em terra estranha. Na nossa estupidez, ainda tendemos a criticar aqueles que se fizeram ao caminho e deixaram tudo para trás na busca de uma vida melhor, a começar pela casa, família e amigos. Um preço demasiado alto para quem quis levantar a cabeça e sonhar com outro futuro … 

Um desses que por lá labutava dignamente na ânsia de ter um futuro mais promissor do que tivera por estas bandas, numa das suas visitas à terra natal ouviu várias dessas críticas de uma das suas irmãs mais queridas. Nessa noite, chorando convulsivamente abraçado ao pai, desabafava sentido: “Se ela soubesse o que é estar longe da família? Se sonhasse o que é sentir-se sozinho em terra que não conhecemos e onde somos vistos como intrusos? Se sentisse o que é precisar de uma mão amiga, alguém a quem recorrer sempre que precise, ainda que seja só para desabafar um pouco e não ter com quem? Não tem noção nenhuma do quanto se sofre, do quanto nos privamos, das coisas simples de que tivemos de abdicar. Não sabe o que é perder o envelhecer dos pais e amigos, o crescer dos filhos, os aniversários, casamentos e até funerais de gente de quem gostamos” …

Desengane-se quem acha que ser emigrante não tem um preço. Oh se tem e como é elevado … porque é um ato de coragem sair da zona de conforto para ir em busca de uma vida melhor, deixando para trás mulher, filhos, pais, amigos, casa, a vida que conhece e que o conhece. Porque é disso que se trata. Ir à luta, se não se tem cá como. Um salto no desconhecido, tendo de se fazer forte por mais fraco que se sinta, porque não pode olhar para trás, desistir, falhar, fracassar. E quando a vida lá não é o “paraíso” sonhado, porque se encontrou um patrão que não paga e explora, quando não um compatriota que se aproveita da sua necessidade, ao comunicar para casa, diz-se sempre que “está tudo bem”, “isto aqui é um paraíso”, porque não se quer fazer sofrer aqueles que se amam e ficaram cá, pois já basta o seu drama. E isso é tão verdade para um emigrante português como para qualquer outro.

E a prová-lo está a Marta, cabo-verdiana que reside cá. Apesar de não ter uma condição económica desafogada, sempre que quer tirar fotos para enviar à família, veste-se bem para dar um ar de sucesso. Como vai enviando com regularidade algum do pouco dinheiro que ganha e lhe sobra à família que por lá ficou, para que eles “saibam que ela está bem”. “Porque eu vim para ter cá uma vida melhor e poder ajudá-los. E é isso que eles esperam de mim”, não se inibe de afirmar.

Apesar de ter passado ao lado duma oportunidade para o ser, não sou nem nunca fui emigrante, embora tenha estado afastado da família ao longo de dois anos como militar, em Moçambique, o que não é bem a mesma coisa. Em comum, só o afastamento e ausência. Por isso, tudo o que digo baseia-se no contacto direto com alguns deles, cá e lá fora e em variadas condições, mas sem ter vivido e sentido esse “carregar do fardo”, o estar só e doente no meio da multidão e “não ter quem nos faça um chá ou dê um pouco de atenção”, como dizia uma nossa conterrânea. Quantos homens estão lá enquanto a família está aqui, a milhares de quilómetros de distância? Não é o telefonema diário (se for possível) que substitui a presença de quem se ama, de quem falta para conversar, discutir, afagar, ajudar nas pequenas coisas da vida que precisam do contributo presencial do “outro”.

Indiscutivelmente, somos um país de emigrantes. De tal forma, que (quase) todos nós temos alguém, pai, mãe, filhos, netos, primos, tios, amigos e outros mais, que por lá andam, de quem sentimos ausência, saudade, falta. Saibamos estar à altura do seu sacrifício e respeitá-los sempre. Sem preconceitos, sem invejas, sem falsas superioridades …

Não TAP os olhos. “Porque o seu dinheiro voa” …

Andamos todos muito preocupados em “passar entre a chuva sem nos molhar”, isto é, ver se escapamos ao contágio por aquilo que os especialistas chamam de “novo coronavírus” ou “covid-19” e nem nos damos conta que o mundo continua a girar e os outros problemas da sociedade precisam de ser resolvidos, sendo que muitos deles nos dizem respeito de uma forma ou de outra. Distraídos e preocupados com a pandemia, nem percebemos que alguém vai tomando decisões importantes para todos nós, usando para o efeito precisamente o “nosso dinheiro”. E foi nesta (quase) apatia geral que fomos ouvindo notícias de que a “transportadora aérea nacional”, onde o estado já enterrou muito dinheiro para ser dono de metade, e estranhamente sem poder mandar em nada, precisava de mais uma injeção de mil e duzentos milhões de euros para não se afundar, ou melhor, para não deixar de “levantar voo”. E a quem veio pedir? Ao estado, claro está que, apesar de falido e com uma dívida que colocará um pesado jugo ao pescoço dos nossos filhos e passará de geração em geração muito para além dos seus trisnetos, arranjou maneira de ficar a dever mais. Os governantes defendem que o país não a pode deixar “ir ao charco”. Terão receio de que, na sua falta, vamos ficar apeados e só podemos andar de bicicleta? Provavelmente até dava jeito para acabar com a obesidade infantil …

O ministro das infraestruturas, no seu estilo “trauliteiro” de “ou vai, ou racha”, insiste que “é uma empresa indispensável para o país” e que “Portugal não pode perder esta companhia de bandeira”. E num tom bruto com tiques radicais, ameaçou com a nacionalização da empresa se não houvesse acordo com os privados. Porque, homem que é homem, é assim mesmo e não tem medo de arriscar (e perder) “o dinheiro dos contribuintes” para comprar mais uma boa parte da companhia falida. Aliás, os “pagadores do costume” nem reclamam … Não foi necessário nacionalizar, mas a alternativa não vá ficar muito mais barata. Para já, são mil e duzentos milhões de euros “a levantar voo” e “ainda a procissão vai no adro”. E depois? Logo se verá, porque “não há quem TAP este buraco”. Não tenhamos ilusões. Em 2019, no ano em que houve mais passageiros que o habitual, os resultados foram muito … negativos. E de que maneira! Mais de 100 milhões de prejuízo. Ora, se num ano bom deu no que deu, nos anos maus que aí vêm, vai ser o bom e o bonito, não? Talvez um “buracão” maior? E o povo? Que o TAP … O argumento do ministro, do governo e políticos de quase todos os quadrantes, perfeitamente alinhados, é de que “Portugal não pode perder a TAP”. Eu diria que “a TAP é que não pode perder Portugal”, porque é o seu principal financiador, seja para pagar viagens, seja para cobrir os prejuízos.

Lá vai o tempo em que eu cuidava de voar na companhia, mas não sei há quantos anos já não assento “o rabo num dos seus aviões e não é por isso que me vou sentir menos português. A concorrência hoje é grande e as agências de viagens selecionam em função do interesse dos clientes. É por serem melhores as propostas de outras empresas que com elas tenho viajado nos últimos anos. E vivo bem com essa “traição”. Ao ver um debate sobre esta “tomada” de mais uma parte da empresa pelo estado, que passa a ser dono de 72,5%, perguntava-me: – Qual é a minha vantagem em viajar na TAP? Tenho desconto pelo facto de ser português? Não! Tenho algum tratamento especial por ser português do norte (e contribuinte da empresa)? De maneira nenhuma. E há direito a uma bebida extra, a desconto nos aperitivos ou nas vendas a bordo? Zero, nada, nicles!!! Pelo contrário. Às vezes até me sinto discriminado quando a hospedeira de bordo me fala em inglês, como se eu tivesse cara de “beef” … Já me basta o Algarve …

Mas, sejamos positivos: nem tudo é mau. Com os privados reduzidos a uns míseros 27,5%, quem passa a mandar é o estado, se é que desta vez vai mesmo mandar! Então, existirão grandes oportunidades para “gestores públicos” a nomear pelo governo, seja este ou o que vem a seguir (ou até pelo partido que lá estiver no momento). E podem ser bancários, filósofos, médicos, escriturários, sindicalistas, atores ou artistas de circo de formação que, com toda a certeza, serão bons ou excelentes “gestores públicos”, altamente capacitados para gerir esta ou outra TAP qualquer, desde que sejam filiados ou simpatizantes …

Infelizmente, o historial de gestão das empresas onde o estado está metido não é nada bom, longe de outros exemplos que merecem ser copiados. Ainda hoje vi a notícia que anunciava a saída de um gestor português de topo, no próximo ano, do Lloyds Bank, em Inglaterra. A partir de 2008, durante a crise financeira, este banco sofreu grandes perdas, levando a que o estado inglês tivesse entrado no seu capital e injetado vinte e um mil milhões de libras. Sob a boa liderança desse português, seis anos depois o Lloyds Bank devolveu o total do valor ao estado e um adicional de novecentas mil libras, voltando a ser um banco privado. Estaria a aplaudir se o estado viesse a fazer o mesmo com a TAP, pois a sua missão não é gerir empresas de aviação, como não o é com bancos. E a que assistimos em relação ao BPN e ao Banco Espírito Santo? As injeções de capital foram reforçadas várias vezes, mas esse dinheiro dos contribuintes nunca foi nem será devolvido ao estado. Por incompetência? E à custa de quem? De nós, contribuintes. 

A TAP foi um sorvedouro de dinheiro e tudo indica que continuará a ser. Dizem que os mil e duzentos milhões de euros anunciados são só o início de uma injeção continuada e perdida para sempre (o próprio primeiro ministro já nos foi avisando para lhe dizermos adeus), como no Novo Banco, um buraco negro sem fundo que engole o dinheiro todo que lá se mete, sem devolver nada. Por isso lhe digo: “Não TAP os olhos, porque vamos todos pagar e voltar a pagar … já que não há dinheiro que o TAP” … 

Recebi hoje esta sugestão: “Com o investimento que os contribuintes portugueses fazem constantemente no Novo Banco, a ideia de tomar a maioria do capital ou nacionalizar a TAP fará sentido se a fundirem com aquele. E então, sim, haverá um grande slogan publicitário para pintar nos aviões, um argumento de peso para nos confortar: 

                NOVO AIR BANK – Porque o seu dinheiro voa”!!!

Curar um mal … e arranjar outro …

Algumas das recordações de criança e jovem adolescente que tenho prendem-se com as “mezinhas caseiras” com que o cidadão comum, especialmente as mulheres, tratavam algumas “maleitas”, doenças e indisposições. Era vulgar “talhar-se as dadas”, “coser o pulso” ou até “benzer um bijego”, comer hortelã com o caldo verde para combater as lombrigas e “levantar a espinhela” como me fez a minha avó no dia em que me queixei de uma dor “na boca do estômago”. Para aqueles que “bebessem acima da conta” ou “comessem até lhe chegar com o dedo”, o que quase só acontecia em almoços de casamentos – o “dia de tirar a barriga de misérias” –  mais hora menos minuto, o mal estar do estômago tornava-se insuportável. Era preciso aliviar a pressão na barriga e a forma mais comum de tirar o incómodo que isso ocasiona era provocar o chamado “vómito induzido”. Para isso, bastava “meter os dedos na goela” e, para a maioria das pessoas, funcionava de forma imediata. Dizem os técnicos que os dedos estimulam um nervo que percorre o pescoço e este, por puro reflexo, induz o vómito. Ainda vi isso em duas ocasiões com dois homens que comeram, comeram e comeram até não poder mais. Mas, como ainda não tinham saciado o seu desejo psicológico de comida, nesse tempo de difícil acesso, num canto do quintal esvaziaram o “depósito” naturalmente e, na verdade, depois de aliviados, voltaram ao repasto … e à luta. 

Confesso que nunca o consegui fazer, apesar de o ter tentado em dois momentos quando me parou a digestão. Acho que não sou capaz de chegar com os dedos ao ponto da goela onde está o tal “botão” que despoleta o vómito. Provavelmente engoli o meu “botão” e não tenho como o fazer ….

Entre os melhores tempos da minha vida estão sem dúvida os cerca de nove meses (e não foi para ter parto nenhum) que vivi em Angola, entre Luanda, Catete, Malange e a Baixa de Cassange. E foi por pouco que não me tornei um “retornado” … Depois de passar algum tempo em Malange em trabalho de campo, regressei a Luanda para efetuar algumas diligências no Instituto do Algodão de que dependia e fiquei alojado na Pensão Lusitânia, junto ao Mercado de S. Paulo, onde se hospedava também o meu colega Zé Teixeira e o amigo e conterrâneo Zé Duarte que ali estava a cumprir serviço militar. Um trio de Zés… Apesar de se comer bastante bem na Pensão, que servia sempre sopa, dois pratos e sobremesa com tudo à descrição, no final do jantar e sistematicamente, um de nós lançava o mote: “Vamos ao cinema”. E os três rumávamos em direção à casa de espetáculos mas, ao fim de dez ou vinte metros, também era certo e sabido que outro dava novo palpite: ”Sete escudos teus, sete escudos meus e sete escudos aqui do Zé, dão para muito camarão e muita cerveja. Vamos para a Baixa…” E o cinema passava à história dando lugar a uma noitada de cerveja e camarão numa esplanada no meio do jardim, ainda com o jantar por digerir… Loucuras de gente com pouco mais de vinte anos e, talvez por isso, com pouco menos juízo.

Alguns dias antes da data prevista para o embarque, durante o jantar disse aos dois: “No regresso ao continente vou levar uma coisa que não trouxe… “E o que é que vais levar”, perguntou um deles? “Uma grande constipação”, respondi. “Nem de propósito”, disse o Zé Duarte. “Tenho um remédio que te tira a constipação num instante. Mandaram-me de casa uma garrafa de aguardente e vai ser a tua cura”. E ficou logo ali combinado efetuar o “tratamento” depois de regressarmos da habitual ronda do camarão e cerveja. Assim, quando voltamos, vestimos os pijamas e sentámo-nos na cama. O Zé Duarte tirou a garrafa da mala, abriu-a e pô-la a girar, de mão em mão, de golada em golada. A conversa, intercalada com goles de aguardente, fez com que a garrafa chegasse ao fundo. Já preparados, fácil foi entrar na cama e adormecer. Porque será que foi tão fácil???…

Quando acordei na manhã seguinte, a constipação tinha desaparecido por completo, mas, em contrapartida, parecia que tinha o estômago a arder como se tivesse engolido fogo. Tive de me agarrar à barriga e apertar, para dar algum aconchego. Foi nessa figura que apareci no Instituto, com um ar sofredor e a segurar o estômago. Um dos funcionários ao ver-me naquele estado quis saber o que se passava e tive de lhe contar a história do dia anterior. Quando acabei, disse-me que tinha uma receita para resolver o problema “enquanto o diabo esfrega um olho”: “Duas aspirinas tomadas com uma Quick gelada (a Quick era uma espécie de Seven-up angolana). Mas, atenção, precisa ter a casa de banho por perto” …

Como estava atrapalhado e com aquele fogo que não parava de me queimar, não perdi tempo. Saí do Instituto, fui à farmácia comprar as aspirinas e entrei no café mais próximo. Antes de pedir a Quick, fui ver onde ficavam as casas de banho por precaução, pois não queria “chamar pelo Gregório” ali no meio do café. Depois, mal engoli os comprimidos com uns goles da Quick, fui andando para o WC. E ainda bem, pois já tive de correr para não “lançar a carga ao mar” antes de chegar ao lavatório… Na realidade, a lavagem foi rápida e completa. De tal forma que, minutos depois, já tomava o pequeno almoço ali mesmo no café, como se nenhum mau estar me tivesse afetado… 

Nunca mais estive em situação de precisar desta “receita milagrosa” e só sei o que o funcionário do Instituto me disse e o resultado da única vez que a pus em prática sendo eu a cobaia. Pela experiência vivida, resultou muito bem e recomendo-a a quem está indisposto por falta de controle nos comes e bebes ou por “algo que lhe caiu mal” e está a precisar de “deitar a carga ao mar”. É uma receita a ter em conta por ser fácil, rápida e eficaz. E não tem de pagar consulta …