Regresso. Os peludos estão de volta…

Para o bem e para o mal, somos animais peludos. Muito peludos. Uns mais que outros, mas todos cobertos de pelo, embora não tanto como os ursos, os burros e os macacos. Mas fazemos figuras de urso quanto baste, somos chamados de “burros” tantas vezes que até há quem chegue a pensar que é mesmo “burro” e fazemos muitas macacadas, o que só reforça a teoria de podermos ser “primos” deles. Por tudo isso, há quem já não questione se é verdade ou mentira essa questão das afinidades familiares … Em épocas passadas, um homem que se dissesse ser homem, tinha de ser peludo. Bem peludo. Porque se o não fosse, corria o risco de ser chamado de “maricas”. Mas, como esta vida é feita de mudança, ainda que seja para pior, já há muito homem a eliminar tudo o que é pelo nalgumas zonas do corpo. Modas. Sinais dos tempos …

A ciência provou que somos tão peludos como os chimpanzés, pois temos sensivelmente o mesmo número de pelos em cada centímetro quadrado. Só que o nosso é mais fino e curto. E ao pensar em nós como seres peludos, há uma coisa que me intriga: Se os pelos que temos na cabeça se chamam “cabelos”, porque é que os pelos dos braços não são “bracelos” e os das pernas “pernelos”? Já nem falo dos “peitelos”, dos “cuelos” e outros mais, conforme a zona do corpo onde floresçam …

Alguns pelos não dão trabalho. Em geral crescem pouco e quase nos esquecemos deles, apesar de nos cobrirem o corpo. Mas, todos os que estão do pescoço para cima, são motivo de preocupação constante tanto de homens como de mulheres. Se para nós os pelos da cara são os “que nos dão água pela barba”, rapando, aparando ou tratando, já para elas são os pelos da cabeça a sua maior preocupação e que as obriga a lavar, frisar, pintar, ondular, alisar, fazer madeixas e sei lá bem que mais, regularmente, porque são o fator essencial do visual que não pode ser desleixado nem sequer deixado ao acaso. Cabelos, são o remate que pode fazer toda a diferença nessa “montra” que é a cabeça das mulheres. São motivo para atrair ou afastar o sexo oposto (a presa), de inveja ou satisfação das outras (a concorrência), além de ser fator de autoconfiança ou insegurança. Se na mulher os cabelos são tidos como uma boa preocupação porque podem dar excelente contributo ao visual, todos os outros pelos com o decorrer dos anos e das modas passaram a “inimigo”, pelo que têm de ser exterminados, tal e qual as ervas daninhas nas culturas.

Daí as mulheres (e não só) se sujeitarem a depilações regulares e totais, muito sofridas quando através da cera quente (tecnicamente designadas por epilações) ou bastante menos dolorosas com os novos métodos a laser. Mas, umas ou outras, estão sempre entre as preocupações femininas, muito especialmente com o aproximar do verão pois não podem existir pelos a “espreitar” nas franjas dos biquínis, debaixo dos braços ou noutras partes do corpo que não na cabeça. Já lá vai o tempo das “mulheres de bigode”, havendo até algumas que chegavam a ser exibidas no circo como atração.

E os homens, que tinham no rapar da cara um trabalho diário, estão a seguir modas pouco ortodoxas ao deixar crescer a barba tipo “jihadista” e fazer cortes mais ou menos regulares do cabelo, agora com moda à “Kim Jong Um”. Um “modelo” estranho para ser copiado … mas gostos são gostos.

Ora, alguns homens, para copiarem figuras mediáticas que gostam de ser diferentes – e, como todo o mundo quer ser diferente como eles, acabam por ficar totalmente uniformizados – também começaram a eliminar os pelos, copiando o sexo feminino. Assim apareceram os “metrossexuais” que, pouco a pouco, foram passando a “mensagem” e “convertendo” o povo meio cá, meio lá e até machões, quase sempre por influência da parceira a quem convinha agradar, para estar na moda. “O Ronaldo também se depila e fica giro. Que peitorais”. Só que o namorado não faz exercício nenhum e tem os peitorais descaídos, mostrando um corpo que nada tem de escultura grega …

Mas as modas chegam cá sempre mais tarde e às vezes demoram a ser aceites. Ora, a depilação masculina, especialmente a íntima, ainda provoca caretas nelas e vergonha neles. E, entretanto, a oportunidade passa e a moda “já está noutra”. Foi assim que um conceituado jornal americano anunciou em título: “Coloquem as lâminas e a cera na prateleira. Depois da moda do metrossexual, do lumbersexual, das barbas e do rabo de cavalo, os homens querem-se peludos. Homem que é homem tem pelos no peito”. Algures, pelo caminho, a “pele de bebé” substituiu os pelos e os homens começaram a fazer a depilação para agradar às mulheres, mostrar o corpo, seguir a moda. Mas isso mudou e os pelos no peito estão de volta e recomendam-se, por mais que isso desagrade aos gigantes do mercado das laminas e máquinas depilatórias e às indústrias de cosmética. É essa a razão pela qual voltaram os modelos masculinos de camisa aberta e pelos no peito.

Curiosamente, o regresso dos pelos é o resultado de influência da cultura gay, dum grupo chamado “Bear”, que celebram os pelos no corpo masculino. E ainda das mulheres que gostam de homem e não de um “boneco de plástico”. Além de que os pelos retomam a sua função de proteger as zonas onde aparecem, especialmente as axilas e zona púbica, pois a sua eliminação traz alguns problemas de pele. Mas é bom lembrar que, quando se fala de manter os pelos, também estão em causa outros, só que aparados e cortados por forma a não saírem em tufos enormes do nariz, com ranhetas à mistura, ou das orelhas, embrulhados em cera …

Com a “cambalhota” da moda que exige o regresso dos pelos ao corpo dos homens, há uma vantagem: já ficam preparados para mudanças futuras da moda. É que nunca ninguém sabe se ela, de repente, exige que se façam “tranças” nos pelos das axilas ou doutra parte qualquer. Há que esperar tudo das vedetas, para serem diferentes …

mais que um dever, uma obrigação…

Tenho de reconhecer que já não sou o mesmo dos meus tempos de criança e adolescente. Há coisas que perdi, valores de que fui abrindo um pouco a mão, princípios e normas morais e sociais em que já não sou bem o mesmo. É o caso do cumprimentar, essa norma de cortesia que implica comunicação, educação e simpatia. Se quando novo não deixava de desejar um “bom dia”, “boa tarde” ou perguntar “como tem passado” a qualquer pessoa da aldeia, hoje passo pela grande maioria “como cão por vinha vindimada, calado como um rato”. A desculpa, se é que ainda me desculpo, é de que não as conheço e elas nem sequer dão oportunidade de as cumprimentar de tão fechadas que vão. Não serei eu que também estou fechado?

Quanto vale um cumprimento, um “olá”, um “passou bem?”, um olhar, um aperto de mão ou um sorriso? Custam tão pouco se é que têm custos, distribuem-se gratuitamente e não há dinheiro que os pague. Em contrapartida, são contagiantes, abrem portas, rostos, sorrisos, um mundo melhor. Não precisamos de ser todos amigos e andar por aí aos abraços e beijos a quem conhecemos ou não. Mas, a verdade é que ser agradável e educado é uma questão de cortesia e simpatia.

Se há coisas que me deixam saudades desses tempos de criança, era essa relação entre as pessoas da terra, essa impossibilidade de se passar por alguém sem dizer “boa tarde Sãozinha”, “como está o seu filho?” ou outra palavra qualquer como elo a ligar seres humanos, colocando-os em sintonia. Os homens, ao cumprimentar alguém tiravam o chapéu e faziam uma pequena vénia com a cabeça e o busto. Se estivessem a fumar, ficavam com o cigarro na mão. Os pobres, mais humildes, não punham o chapéu enquanto falavam com quem tivesse um pouco mais que eles, a não ser que lhe dissessem “ponha o chapéu”. Mas era impensável passar por alguém sem cumprimentar, sem perguntar pela família ou até por um animal doente. As mulheres personalizavam mais, tratando o outro pelo nome. “Olá Miquinhas, como está do reumatismo?” ou “boa tarde senhor João?”. Interessavam-se uns pelos outros no cumprimentar do dia a dia, como se fossem todos da mesma família. E eram …

Ao passarem os anos e com as mudanças profundas da sociedade, o aumento da população e a urbanização das massas, esse espírito de comunidade foi-se desgastando, como se gastam as roupas, os pneus do carro, as pedras da calçada e os “valores” (incluindo o dinheiro). Vivemos amontoados em aglomerados urbanos onde tantas vezes andamos tão perto uns dos outros, senão mesmo aos encontrões, mas tão distantes, que nem nos apercebemos de quem se cruza connosco. Por isso, “esquecemo-nos” de cumprimentar o vizinho da frente com quem nos cruzamos todos os dias, a senhora de baixo, o varredor da rua ou o empregado de café que nos atende com amabilidade. Entramos num autocarro apinhado de gente e que fazemos? Olhamos para a janela ou enfiamos a cabeça entre as páginas de uma revista sem esboçar um sorriso sequer para qualquer dos companheiros de viagem. Aliás, nem damos por eles, porque “são invisíveis”. Já nem sequer vemos as pessoas que partilham com nós um mesmo espaço em simultâneo. Andamos “sós no meio da multidão”. E o mais triste é que nos “sentimos sós”, o que é um paradoxo.

O cumprimento é uma forma de saudação amigável entre as pessoas, que normalmente é acompanhado de algum gesto ou fala. Varia de país para país e até de região para região dentro do mesmo país. Em França cumprimenta-se com um beijo em Brest, dois em Toulouse e quatro em Nantes, sem que os lábios toquem o rosto, mas façam o estalido. Entre nós, o cumprimento mais comum é o aperto de mão, sendo o beijo e o abraço reservado a familiares e amigos. Mas cada país tem os seus hábitos. Penso que se cumprimentasse alguém como o fazem os maoris da Nova Zelândia, encostando o nariz e a testa ao outro, chamavam-me maluco ou davam-me um murro. Confesso que não estou interessado numa coisa nem noutra. No cumprimento, o “toque” é importante, seja pelo aperto da mão, o toque do punho, o beijo, o abraço. Conseguimos comunicar e entender muito melhor através dum simples “toque” as manifestações de carinho, simpatia, solidariedade, alegria e muitas outras emoções. Como nos sentimos confortados e próximos quando nos colocam a mão no ombro?

O cumprimento representa muito mais que um gesto de cortesia. Com ele, procura-se também atrair simpatia e arranjar um clima de amabilidade e até cumplicidade, sendo verdadeiramente importante nas relações sociais. Um aperto de mão também pode revelar muito dos seus intervenientes, através da linguagem corporal, da firmeza, do contacto visual. Podem ir dos frouxos e com a mão mole como um polvo morto, que manifestam insegurança e baixa autoestima, aos “quebra ossos”, de quem controla a situação; dos que só dão a ponta dos dedos, sinal de manter distância, aos que agarram até o cotovelo e se aproximam, dizendo-se íntimos; ou do apressado, manifestando desconsideração e falta de tempo para o outro, ao de mão cheia, com a mão esquerda cobrindo as mãos, em sinal de carinho. Sem esquecer a importância do contacto visual, olhos nos olhos, e do sorriso, capaz de animar o coração de qualquer mortal.

Quanto vale um abraço a alguém que está assustado, perdido ou em baixo? Como se sente uma mãe quando alguém se preocupa com a saúde do seu filho doente? Que importância tem um aperto de mão ao porteiro, ao varredor e àqueles que são “invisíveis” para a maioria das pessoas que por eles passam? Ser cordial e dar atenção àqueles com quem nos cruzamos no dia a dia, só nos acrescenta e um simples sorriso, um olá ou um aceno pode fazer toda a diferença. Distraídos, absortos ou fechados não contribuímos rigorosamente com nada, nem para os outros, nem para nós. E cumprimentar custa tão pouco e pode valer tanto…

É preciso uma certa dose de loucura…

Pensando bem, só quem “está maluco” é que faz voluntariado neste país. Quando a alguém vier a vontade de ser voluntário, se estiver no seu perfeito juízo, deve deitar-se, dormir e esperar que passe. E estou à vontade para o dizer porque sou um que “está maluco” há uma data de anos. Porque, se um dia acordar “com o juizinho todo”, largo tudo e dedico-me à pesca e à família. Para o que me havia de dar!!! Dedicar parte da vida a causas sociais, culturais, desportivas e recreativas em regime de voluntariado, sem remuneração, em prol da comunidade, é de loucos! É só para quem tem “os fusíveis queimados. Há dias, dizia-me um dirigente e voluntário da Associação Lousada Animal: “Sabe, trabalhar na defesa e proteção dos animais não me custa nada e até é gratificante, apesar do muito que há para fazer. O que mais me custa é a hipocrisia de alguns que nada fazem e ainda por cima passam a vida a acusar-nos por não resolver o caso deste ou daquele animal abandonado à porta deles, como se tivéssemos a obrigação de “lhes resolver o incómodo que é ter um animal abandonado à porta de casa”. Acham que temos a “obrigação” de recolher todos os animais e dar-lhes um abrigo. Esta gente nem percebe que temos um emprego e vida como qualquer outra pessoa e só depois (e com sacrifício da vida pessoal e familiar) é que somos voluntários, fora de horas e ao fim de semana. Nem querem perceber que a Associação só vive dos contributos dos próprios voluntários e dos poucos associados. Está fora de questão ter um abrigo próprio, pois teria custos impensáveis. Já basta o quanto custa recuperar um animal em alimentos e fatura de farmácia e veterinário. Nem pensam nisso, pois “tudo deve cair-lhes do céu”. Estamos gratos àqueles que são os olhos e ouvidos da Associação, sem exigências, conscientes da capacidade limitada à nossa fraca condição económica – não temos apoios públicos – e às disponibilidades de voluntários e famílias de acolhimento. E animais abandonados são mais que muitos, infelizmente. Mas é fácil ver uma situação que exige intervenção, não dar um passo sequer para ajudar (talvez por falta de tempo …), mas ter tempo para criticar os outros por não fazerem. Porque não se calam”?

Cá está.

Como o voluntário está aí para ajudar, também tem de ouvir e “aturar” quem está perto do “problema”, mas “longe” de colaborar na solução, demitido das suas obrigações enquanto cidadão. Por isso, o voluntário “só pode estar maluco” para os aguentar. Os bombeiros voluntários sabem bem o que isso é com gente que vê arder os seus próprios bens e só fica preocupada em contar quantos minutos os carros de combate a incêndios demoram a chegar sem, entretanto, fazerem nada por si próprios …

Se aquele que faz voluntariado numa qualquer instituição é alguém que “está maluco”, o que se pode dizer de um voluntário com função de dirigente? Que “está maluco ao quadrado”? Que já não tem cura? Só pode …

No dia em que tal ideia lhe passasse pela “tola”, devia ser internado compulsivamente pela família e tratado à moda antiga com “choques elétricos” e “jatos de água”. Se pensarmos que na maioria das instituições, só o garantir a sua sustentabilidade já é tarefa árdua, capaz de roubar noites de sono, dar preocupações e muitas dores de cabeça, que fará ter ainda de ouvir, talvez “a título de compensação”, comentários “amáveis” feitos pelos críticos do costume como “está-se a governar”, “só lá mete os amigos” ou coisas bem mais “simpáticas”, para as quais tem de fazer “ouvidos de mercador” se não quer parar no manicómio? Como se não fosse suficiente, tem a “concorrência” de “falsos voluntários”, gente a correr por outros objetivos à sombra dum compromisso solidário. E por fim, se quer ser apolítico e manter a instituição que dirige “à distância” dos partidos, pode crer que vão tentar fazer o “assalto ao castelo” mais dia menos dia, para lá colocar um “peão” do seu xadrez. É a vida. Por isso, meu caro, se estás nisso como voluntário inocente sem segundas intenções, deixa-te de ilusões, pega na trouxa e põe-te a andar, pois isso não é vida para ti. Vais levar mais “caneladas” do que um saco de boxe leva de murros … E todos vão querer “chegar-te a roupa ao pelo” e “atirar-te borda fora”. Porque estás no sítio errado. É como estar atado e nu no meio de uma estrada de grande movimento em hora de ponta …

Assim como há a época de caça ao coelho ou à perdiz, já começou há muito a época de “caça ao voluntário”, em especial ao dirigente. E é como o casamento: “Quem casa, não pensa e quem pensa, não casa”. E o voluntário não pensa mesmo nada quando se mete nessa “loucura” de o ser porque, se pensasse, “punha-se a milhas” …

Mas, voltemos à razão. Bom seria que não houvesse necessidade do “voluntário”, nem sequer de associações sociais, culturais e outras ao redor das quais eles se mobilizam. Era um sinal de que os problemas da comunidade estavam solucionados pelo Estado Providência. Mas o sonho desse tipo de estado faliu há muito e não passou de um sonho de quem vive nas nuvens. A realidade diz-nos que, mesmo nos países mais ricos, a solidariedade e o voluntariado são fundamentais para colmatar as ineficiências do estado, seja ele qual for. Quanto mais num país pobre como o nosso, sem recursos naturais e com deficits crónicos nos últimos quarenta anos e uma dívida acumulada de que os nossos netos serão escravos. Daí que, apesar das “acrobacias dos governantes”, a realidade metida debaixo do “tapete” vem ao de cima nos hospitais, nos quarteis, nas escolas, na justiça, nos apoios sociais, nos salários baixos e em necessidades altas. Por isso, o voluntariado assente na gratuitidade, ação livre e no compromisso pelo bem estar da comunidade continuará a ser imprescindível e fundamental para suprir as ineficiências do estado, apesar da sua importância nem sempre ser reconhecida, tanto pelas estruturas do poder como por algumas camadas da população.

Talvez eu reconsidere e deixe de dizer que “só é voluntário quem está maluco”. Retiro mesmo o que disse. No entanto, que é preciso uma certa dose de loucura, é. Mas, para benefício da comunidade, ainda bem que há quem a tenha …

A sabedoria que um sofá nos dá…

Nos olhos, no pensamento e nas críticas dos outros, nós somos bons ou maus, simpáticos ou arrogantes, espertos ou inocentes, tímidos ou “destravados”, competentes ou “abaixo de zero”. Somos o que somos, tão iguais e tão diferentes, numa diversidade de personalidades tão grande quanto variada. Mas há um lugar especial que tem o poder e a capacidade de nos tornar “especiais”, porque ali nos transformamos e assumimos novos poderes, novos conhecimentos, novas identidades que ninguém imaginava que tivéssemos. Nem nós mesmos. Ali somos outro, raramente nós. Somos juízes, treinadores de futebol, atletas de alta competição, comentadores desportivos ou analistas de política nacional e internacional, ativistas e contestatários, revolucionários,

moralistas, homens de ciência sem ciência nenhuma. É um lugar mágico que nos transforma como nenhum outro e, por isso, no dia a dia, fazemos questão de o ocupar, por pouco tempo que seja. Quem não experimentou essa sensação ao ficar “sentado no sofá diante da televisão”? Quem nunca sofreu essa metamorfose e se viu feito outro “figurante”, quando não “figurão”?

“Sentados no sofá” a ver um jogo de futebol da equipa do coração, não paramos de gritar: “Ladrão, não vês que é penalti?” ou “aselha, essa até eu marcava”. Lá está, tão depressa somos um árbitro melhor do que “aquela viúva negra” que corre no campo de um lado para o outro, como de repente ganhamos qualidades de avançado com veia goleadora de que tanto está a precisar o nosso clube. Se a equipa está a perder, o treinador “é um nabo, devia estar a jogar com dois defesas e reforçar o ataque” ou “tem de jogar com dois extremos”, já para não falar das vezes em que nomeamos os jogadores que devem entrar ou sair, criticar a tática ou o estilo de jogo. Se a equipa está a ganhar, “aquele gajo já devia ter metido um médio defensivo”.

Comodamente “sentados no sofá” a ver um jogo de futebol, se possível com uma cerveja na mão para nos dar inspiração e transmitir confiança, somos os melhores treinadores, jogadores, árbitros, dirigentes, adeptos, comentadores e até arruaceiros ou gorilas. Comemoramos aos saltos e com gritos de euforia ou insultamos tudo e todos, desde o guarda-redes ao roupeiro. Espumamos de raiva com cara de “esgroviados” ou temos um sorriso aberto a toda a largura da cara, como a pessoa mais feliz deste mundo. Roemos as unhas como quem quer poupar na manicure ou falamos como papagaios sobre as virtudes dos nossos jogadores, como se eles fossem “nossos” e “virtuosos”.

“Sentados no sofá” ouvimos as notícias do telejornal em que se dá conta das buscas da polícia judiciária à casa e escritório do político A ou do dirigente desportivo B, como suspeitos de corrupção, desvio de fundos ou tráfico de influências, presos e levados a tribunal onde lhe é aplicada a prisão preventiva ou outra medida menos gravosa.

E nós, sem estarmos documentados, conhecermos o que se passa ou termos acedido ao processo, tomamos posição imediata: “Eu bem dizia que ele era um grande ladrão” ou “esse artista nunca me enganou”. Ou ainda, se o “artista” for do nosso partido político, da cor do clube do coração ou doutra associação à qual estejamos ligados, assumimos uma posição contrária, de defesa clara e inequívoca “daquele santo” que merece uma estátua: “Vejam lá o que a oposição anda a inventar” ou “coitado do homem, o que ele tem de aturar destes invejosos”. E, com o “rabo” comodamente enfiado no sofá, julgamos, condenamos e ilibamos conforme o nosso próprio interesse no assunto, a nossa ligação ao “artista” ou mera simpatia.Ás vezes dou comigo a tomar partido, a dizer “é impossível” ou “já se estava à espera”, porque o sofá “dá-nos sabedoria” e “independência” (muitíssimo duvidosa, por sinal) para julgar os outros, mas insuficiente para nos olharmos a nós próprios. Isso já não interessa…

Pensando bem, com a televisão sempre ligada nem precisamos de ir trabalhar. Já nos basta o trabalho difícil e cansativo de “corrigir” os “imbecis” que temos de ver e aturar no pequeno ecrã. “Vejam lá se aquilo são maneiras de aparecer na televisão…” Com este, vamos ter de ser “consultores de moda” ou de lhe ensinar o “manual das boas maneiras” e as “boas regras da etiqueta”. Só os concursos televisivos já nos ocupam o suficiente: “Essa é de caras. O campeão europeu de futebol é Portugal. Toda a gente sabe” ou “como é que um gajo destes se mete num concurso se não dá uma para a caixa”? “Este gajo é um nabo” …

O sofá é um sítio “maravilhoso” para se ver telenovelas. Se possível, “entalado” entre mulheres, para se entrar no espírito da “coisa”. E ali, no sofá, tão depressa nos revoltamos contra o mau da fita que anda a enganar a miúda e a roubar a patroa velhinha, como choramos “feitos Madalenas” por aquela cara bonita feita “gata borralheira” não ter que comer nem sequer um pouco de leite para dar ao bebé, entrando no espírito da “equipa feminina” que nos envolve. Num filme de ação, tanto podemos optar por estar ao lado do protagonista como assumir as dores por aquele malandro que tem jeito para a ladroagem e rouba só ricalhaços bem “encanados”, convencidos e presunçosos, que até parece um cavalheiro encantador, merecedor de acabar por ficar com a moça mais bonita do elenco.

Sentados no sofá com “o nariz enfiado na televisão” e concentrados no “trabalho”, sofremos grandes transformações, passando de fracos a fortes, de estúpidos a inteligentes, de burros a sábios enquanto o “diabo esfrega um olho”. E somos capazes de alcançar os maiores “sucessos” sem termos de provar nada, sem fazer o mínimo esforço. Ali, o êxito é garantido. Pensando bem, se calhar, o melhor lugar para se “morar” …

Ena! O carro serve para tanta coisa!!!

Dizem os entendidos que o automóvel é o resultado de um processo evolutivo e não de uma invenção. Começou por ser um carro a vapor que foi evoluindo até aparecer a “lei da bandeira vermelha”, que fez parar esse desenvolvimento ao impor que “qualquer carro levasse à frente um homem a pé, acenando com uma bandeira vermelha e a tocar corneta”. Será que os ingleses eram assim tão inteligentes? Os carros a vapor deram lugar aos com motores que queimavam uma mistura de ar e gás de iluminação, só mais tarde substituída por álcool combustível, gasolina ou gás. E tudo isso, para transportar pessoas e bens, mais depressa, com mais comodidade, se bem que já Fernando Pessoa dizia que “nos movemos muito rapidamente de um ponto onde nada se faz, para outro onde não há nada para fazer…” Mas cedo se percebeu que os automóveis teriam muito mais funções para além de levar pessoas de um lado para o outro, como se pôde comprovar pouco tempo depois da chegada da primeira viatura a Portugal em 1895. Logo na viagem inicial de Lisboa para Santiago do Cacem, o automóvel fez uma vítima: um burro. Nada se sabe nesta história qual dos “burros” foi o culpado, se aquele que morreu ou se “o outro” que conduzia aquele veículo estranho… Reza a história que só quatro anos mais tarde foi “abatido” lá para os Estados Unidos o primeiro “pedestre”, inaugurando uma campanha de “caça ao peão” que veio sempre aumentando até aos dias de hoje. Já no Brasil, foi um conceituado poeta o primeiro condutor a acertar numa árvore, que ele nunca soube explicar, nem em prosa nem em versos, como é que ela foi parar ao meio da estrada …

A partir destas “habilidades”, os carros de quatro rodas passaram a substituir as guerras na “arte de matar gente”, mesmo em tempo de paz. Só nas estradas chinesas em 2010 “limparam o sebo” a 275.000 cidadãos, fora os feridos ligeiros e graves que foram de alguns milhões. Ainda nesse ano, nos dez países onde o automóvel foi mais mortal, a chacina andou muito perto das 800.000 pessoas. Só em dez países, além dos milhões de feridos … Por cá, no ano passado a matança passou de quinhentos mortos. Olhando pelo lado positivo, ainda sobrou a maioria do total de dez milhões de portugueses que somos. Mas, fica o aviso para nos cuidarmos. Senão, faremos parte das estatísticas nos próximos anos. No entanto, tenho de reconhecer que a cama (apesar de silenciosa) é mais “mortífera” do que o automóvel (apesar de barulhento). E é nela onde passamos mais tempo e onde morre mais gente …

Mas o automóvel serve também para coisas mais agradáveis. Que o digam os americanos, pois foi no banco de trás de um carro qualquer que a maioria deles fez a iniciação à vida sexual … Não há estatísticas conhecidas entre nós, mas todos sabemos serem mais usados do que os hotéis para tal “função”. São mais baratos, apesar do mau jeito que a alavanca de velocidades dá quando a pressa não deixa saltar para o banco de trás… E, nas “acrobacias” às escuras, tem de se evitar que a alavanca entre onde não é chamada. Até de dia “me esbarro” com os carritos escondidos à entrada dum terreno que tenho nas franjas da vila, o que não é mal pensado. Há melhor visibilidade para se desviar da tal alavanca e acertar no alvo. Para se perceber quanto o carrito é importante para a prática desta “atividade desportiva”, basta ver a quantidade de preservativos que cobrem os locais escondidos onde se acoitam os carros, feitos “despojos de guerra”. E é um desperdício, pois podiam ser aproveitados e ajudar à recuperação económica do país. Colocavam-se “preservatões” nesses locais para recolha das tão célebres “camisinhas” usadas. Eram enviadas às fábricas e, depois de esterilizadas, seriam recicladas como pastilha elástica para venda ao estrangeiro, num contributo importante para a redução do deficit pela via do aumento das exportações pedido pelo primeiro ministro António Costa …

Os automóveis funcionam ainda como sala para reuniões de família onde se conversa, discute, berra, grita, amua, come (quando o carro não é novo), canta, abraça, beija e se ama. Para fora do carro, acena-se aos amigos, insultam-se os que atrapalham o trânsito (“anda lá, morcão” ou “compraste a carta, imbecil”), buzina-se para reclamar, assobia-se quando a miúda é jeitosa ou atira-se-lhe um piropo agora feito assédio sexual. E, quando sala de refeições, atira-se o lixo e os restos janela fora, para esse contentor enorme que é a “berma da estrada”. Em certas ocasiões, especialmente nas estradas de muitas curvas, funciona bem como “sala de vómito” para enjoados, contra a vontade dum pai furioso ao volante. E é melhor que um soporífero para adormecer e dormir bem … ao tombar para o colo do vizinho.

Para satisfazer os seus sonhos e desejos o homem criou objetos e instrumentos como o automóvel, cujo valor e função vão muito para além da finalidade e uso. Como o carro, tornaram-se um símbolo de sucesso, nível social e felicidade. E foi por isso que a partir de certa altura as marcas passaram a criar modelos diferentes em tamanho, qualidade e preço, para servir e fomentar a ânsia de estratificação social, a mania de que se é melhor do que o outro. Nós assumimos o carro como o nosso espaço privativo, símbolo de liberdade e poder, onde somos reis e senhores. E, atrás do volante colhemos informação permanente sobre o seu comportamento e desempenho, bem como da reação dos outros à nossa passagem, nos olhares, nos cochichos. Porque o automóvel, muito para além de transportar pessoas, é um ícone da sociedade atual e tem várias representações atribuídas pelo nosso comportamento e estilo de vida. Ao tornar-se “diferenciador social”, as fábricas aproveitaram mudando regularmente os modelos e levando os clientes a trocar e consumir para estar na moda. E, como extensão do próprio corpo que é e da nossa cultura onde importa mais “parecer” do que “ser”, quanto mais caro é o automóvel maior é o “bom gosto”, melhor o “estatuto social” e mais o ego transborda de “felicidade” …

A invasão do ruído e morte do sono…

“Cócórócócó”!!! Acordo estremunhado ao cantar do galo. Mal consigo abrir os olhos. “Cócórócócó”, insiste ele, como despertador que não foi desligado e teima em cumprir a sua missão. Agarro no telemóvel, primo a tecla e o mostrador ilumina-se: “4H00”. É de madrugada e o galo tem um problema, pois está a “despertar” fora de horas, se bem que quem fica com o problema sou eu. Precisamente quando estava na fase daquele sono profundo que nos faz descansar, é que vem este bicho estúpido fazer barulho. E logo hoje, que deixei a janela aberta e a persiana meia corrida para entrar o ar fresco da noite e deixar o quarto mais suportável!!! Afinal, o que entrou foi o canto do galo, bem mais alto … É a fatura que pagamos por estarmos no limbo, no “nim”: nem no campo nem cidade. No campo, a natureza segue o seu curso e a noite só é rasgada pelo luar. Não há luz artificial para enganar a natureza e o galo e ele canta só ao romper da aurora. Na cidade há luz artificial toda a noite, mas não há galos nem outros bichos para nos interromper o sono. E aqui, que “nem somos carne nem peixe”, temos luz pública a iluminar caminhos, mas também temos galos e outros bichos que alteram as rotinas com os “enganos” da civilização …

Mas não é só o canto do galo em horas inapropriadas que nos entra casa dentro, quando só devia entrar o sono.

Ainda há dias, às três da manhã, pelas frinchas entreabertas dos estores e sem pedir licença, infiltrou-se a voz rouca dum cantor africano para me acordar ao som da “quizomba”. Presumo que estivesse nalguma romaria da região onde eu não quis ir e achou por bem incluir-me no concerto, apesar de eu não estar interessado. Esta coisa de tocarem para quem está junto ao palco e para quem está em casa a quilómetros de distância merece uma pergunta: “E temos mesmo de gramar com aquilo que não pedimos”? Ainda se fossem “Cantigas ao Desafio” por cantadores populares ou mesmo o Quim Barreiros, apesar de me interromper o sono teria motivos para sorrir com a brejeirice das letras … para compensar a insónia. Agora “quizomba”!!! Como dizia o Flávio, só se for para dançar com “pele roçando a pele”, no mais importante movimento feminino que se conhece: “O movimento de quadris”. Não sei de onde vinha a música nem ninguém me perguntou se podiam incomodar o meu descanso num dia de semana. Também não estava à espera pois com certeza tinham licença, esse “papelinho mágico” que legaliza a possibilidade de poderem “chatear” os outros, mesmo que estejam a descansar, a troco duns euritos que não vão parar ao bolso dos lesados, mas ao “saco” que não dorme nem tem insónias.

E tudo isto para dizer que o sono, esse bálsamo reparador do nosso corpo, devia ser mais protegido, protegendo-se o silêncio nas horas de repouso natural. Os países mais evoluídos fazem-no, preservando a saúde física e mental de quem trabalha, porque sabem que só assim estão a defender a produtividade. Quem não dorme e não descansa, não pode produzir aquilo de que é capaz. Há três décadas atrás estive na Suíça integrado num grupo e dormimos em casa dum conterrâneo que fez questão disso. A sua maior preocupação connosco foi a de não fazermos qualquer barulho que pudesse ser ouvido no apartamento de baixo, pois seria motivo para lhe aparecer a polícia à porta e ter problemas. Ora, para quem ia de um país onde cada um achava que tinha o direito de fazer o “chinfrim” que quisesse sem “ter de dar cavaco a ninguém”, aquilo era ridículo. Mas, acabamos por cumprir as regras, como acabamos por fazer outras coisas muito bem quando estamos lá fora …

Trinta anos depois, apesar de termos um Ministério do Ambiente e montes de leis muito avançadas a que ninguém liga, a verdade é que estamos pouco ou nada melhor do que nessa altura. Na época de festas, que dura pelo menos seis meses, somos “assaltados” em casa pelo foguetório a horas impróprias, pelos berros bem amplificados e mais ou menos ritmados de todo o tipo de artistas, pela batida forte da música “tecno” dos bares de rua até ao nascer do sol e todo o tipo de ruídos festivos em dias que já extravasaram há muito os do fim de semana. E é o roncar de camiões a trabalhar de madrugada, dizem que para aquecer, mais parecendo que os motores estão dentro das nossas cabeças; são as conversas de clientes saídos de restaurantes, tascos e cafés após o fecho, parados na rua debaixo da varanda, que até parecem estar a falar dentro do quarto; são todos aqueles que, por razões diversas, se levantam de madrugada para viajar e falam alto, chamam, insultam, gritam e fazem acordar a vizinhança toda; e são os geradores, compressores e todo o tipo de aparelhos, feitos a pensar resolver um problema funcional sem pensar que criam um problema auditivo; são os “corredores de rua” montados em carro ou moto com os decibéis no máximo, como se fosse sinal de serem mais velozes.

Por norma, durmo com a janela e estores fechados, além dos cortinados, tentando não ser “violado” nem violentado pelo ruído que vem de fora. À Luísa, já lhe basta o suplício de aguentar o ruído dos meus “motores” feito “ressonar”. E a mim, ouvir pela manhã as rolas e os melros ao desafio, é “música” bem mais agradável para os meus ouvidos …    
O Agostinho espera realizar o sonho de poder gozar das delícias de uma reforma antecipada em casa térrea isolada na encosta de um rio Douro qualquer, longe do ruído artificial da civilização, poder “deitar-se com as galinhas” e acordar com o chilrear matinal das aves. Sonha viver em harmonia e ao ritmo da natureza, afastado da civilização que nos trouxe noites mal dormidas, insónias, stress, medicamentos às carradas para combater esse flagelo de não dormir e, pior, não descansar. Já não nos “deitamos com as galinhas. Estamos mais perto da hora dos morcegos e tem fatura que estamos a pagar com juros. Respeitamos pouco o silêncio noturno e, consequentemente, todo o direito ao descanso dos outros.

Pois eu, como não tenho a sorte do Agostinho, vou continuar a deitar-me depois da Luísa adormecer, o que me afasta do “deitar-me com as galinhas”. Assim, dorme tranquila e fica livre de ouvir o meu “ronco”. Vou continuar a fechar muito bem as janelas e persianas pois, apesar de insistirem, não quero ouvir mais “concertos” na cama sem querer e sem sequer ver os “atributos da artista”. E vou rezar para que o galo mais próximo não acorde com os lampiões a acender e cante só ao nascer do sol.

Se conseguir, vou sentir-me mais perto da natureza, dormirei melhor e deixarei de ser um “zombie” pela manhã, feito “barata tonta”.

Um pinguim no meio de papagaios…

Em Portugal, associamos o luto à cor preta. Foram os nossos reis que começaram a adotar essa cor para fazer o luto, embora só no reinado de D. Manuel I se tenha generalizado no país. E, a partir daí, quando alguém se vestia de preto podia querer dizer que estava de luto, tal como na maior parte das culturas ocidentais, onde o vestir de negro podia revelar esses sentimentos de perda e respeito pela morte de alguém. Mas, noutras culturas, optaram por cores diferentes para manifestar esse sentimento. Assim, na África do Sul usam o vermelho para chorar a morte de alguém, mas na Tailândia é o roxo, na Índia o castanho ou branco, no Irão o azul e no Egipto o amarelo. Um amigo questionava-me, muito admirado: “O amarelo”? Porque não? A cor símbolo do luto é uma opção cultural, muito variada, mas as mais comuns são o branco nos países orientais e o preto nos países cristãos. Embora o luto não seja uma questão de cor da roupa a usar, de qualquer aspeto visual, de assumir um ar triste ou alegre, de manifestar o sentimento de perda do ente querido durante mais ou menos tempo. O luto é um estado de espírito, algo muito íntimo que depende e varia de pessoa para pessoa. É algo que se faz sozinho, de acordo com a forma de aceitação ou revolta pela perda, cabendo aos mais próximos dar espaço, tempo, compreensão e respeitar. Não é pelo facto de alguém se vestir de azul que sofre menos pela morte de uma pessoa do que outro que vive “fardado” de preto. Nada disso. Uma coisa é senti-lo e não o exibir e outra coisa é exibi-lo e não o sentir. Já nem falo do luto violento da Idade Média, em que os homens arrancavam cabelos e barbas e as mulheres arranhavam a cara …

A memória mais distante que possuo sobre manifestações de luto já tem várias décadas. Tinha quatro anos e ia a pé para a Carreira da Areia quando ouvi gritos estridentes e choro convulsivo. À entrada de uma casa térrea estavam várias mulheres vestidas de preto, de alto a baixo, com ar desesperado e aos gritos. A imagem foi tão forte que, a esta distância temporal, ainda hoje “vejo” aquela cena com gente a entrar e sair num movimento desusado, mas “pintado” de negro, a cor do nosso luto. Ainda me lembro das “carpideiras”, as mulheres que eram contratadas para chorar de forma “desalmada”, em prantos e lamentos continuados. Toda a família tinha de vestir-se de preto cerrado durante um certo tempo, variando esse tempo em função do grau de parentesco com o(a) falecido(a). Quanto ao viúvo(a), tinha o destino marcado: andar de preto no resto da sua vida.

No funeral vestia-se de forma formal – homem com fato e gravata e mulher de vestido – por norma em preto ou, quando muito, de cor escura. Não havia exceções, nem mesmo nas crianças. Até os velórios, que “atravessavam” a noite na casa da família com broa e aguardente a acompanhar, impunham vestes conservadoras. Este ritual na cor da noite tinha um aspeto positivo: toda a gente sabia como se devia vestir nessas ocasiões …

Lembrei-me disto porque nos últimos tempos, sempre que vou a um funeral fico na dúvida sobre o que devo usar. E há dias, em conversa com um amigo, conservador nos costumes e tradições, dizia-me que, nalguns deles dá consigo a olhar à volta, sentindo-se uma espécie de “ave rara” por estar em contraciclo com a maioria dos participantes. E que, como vai de fato ou calça e casaco clássicos, camisa e gravata, os outros “convivas” devem perguntar: “Este vem armado em quê”? Às vezes ainda aparecem outros “encasacados”, mas em regra, faz parte da minoria. Na realidade, hoje as roupas são muito variadas no funeral, indo do clássico ao informal de calça e camisa, quando não com roupa desportiva de qualquer cor. Até se chega a ver gente com calças de ganga “convenientemente rasgadas” conforme os ditames da moda, além de um ou outro vestido com decote ousado o que, no meu ponto de vista, até está correto, pois pode ajudar a “levantar o morto”. Penso que cada um é livre de se vestir da forma que entende e que não é isso que define o sentimento de perda, o respeito, o pesar e o luto por quem partiu. Já lá vai o tempo da “viúva negra”. Deu lugar à “viúva alegre”. Mais do que na cor da roupa ou no estilo, no funeral, a cerimónia onde nos despedimos de um familiar ou amigo com um “até breve”, o que importa é respeitar o momento e, especialmente, quem “partiu”. Esse amigo dizia-me que se está a acabar com as tradições e a quebrar regras sociais. E esta é uma delas.

E daí não ficar surpreendido que, um dia destes, a família do morto contrate barracas de cerveja como existem nas Festas e tenha “bar aberto” acompanhado de “música tecno” com batida forte, onde se possam “afogar” mágoas, “anestesiar” a dor da perda e arranjar “speed” para animar o momento. Pensando bem, seria uma boa solução para atrair “clientela” jovem que, sempre que pode, evita estas cerimónias.  Só o morto não poderá “enfrascar-se”, se bem que não viria nenhum mal ao mundo, pois não tem de “soprar ao balão” na última viagem e até seria excelente para a sua “saúde”, já que o álcool é excecional a conservar corpos … Tanto em África como num país europeu, já vi algo de semelhante, onde a morte é celebrada com festa, alegria e álcool. Muito álcool. Se pensarmos que quando morrermos deixamos este mundo de sofrimento e vamos para o paraíso celeste, porque havemos de chorar em vez de celebrar? Porque temos de ficar tristes quando devíamos alegrar-nos? Ou será puro egoísmo?

Já são poucos e, em regra, mais velhos, aqueles que veem no funeral um momento solene que é preciso respeitar. E que, na solenidade desse momento único, se impõe roupa escura e conservadora, tal como num casamento ou noutra cerimónia similar. E argumenta-se que, se as pessoas se vestem para um casamento com roupa formal, clássica, apesar de alegre, celebrando uma “união passageira” para “viagem” de períodos cada vez mais curtos, porque não devem vestir-se formalmente na “cerimónia de despedida” de alguém que também vai fazer uma “viagem”, a “última”, mas que não tem retorno? Será por no casamento, que mais não é que uma “despedida de solteiro” dos noivos, se celebra a felicidade e a vida mesmo que se preveja de curta duração, enquanto no funeral, que é a “despedida” do morto, a única coisa que se pode celebrar é a certeza do “eterno descanso” e sabendo-se que é de duração “longa” e “para sempre”? Será porque os primeiros vão passar à “atividade plena”, apesar de esmorecer com o stress e a rotina, enquanto o segundo fica “sem atividade nenhuma” e a título definitivo?

Com todo isto, continuo “como o tolo no meio da ponte” quando me tenho de vestir para ir a um funeral. E, para acabar com esse grande “problema”, que deve ser só meu, das duas uma: Ou a Paula Bobone, professora de Imagem e Etiqueta “Vestimentária” e figura mediática da nossa praça, escreve um novo capítulo no seu “Dicionário da Etiqueta” destinado a “orientar-me” nesta matéria ou salvem-me o governo e o parlamento e ponham a casa em ordem “parindo” mais uma daquelas leis inúteis que não serve para coisa nenhuma, mas que venha “regular” matéria tão importante para a nossa felicidade. Senão, eu que até nem gosto de andar “engravatado”, um dia destes num qualquer funeral vou sentir-me como “pinguim solitário” no meio dum bando de “papagaios” …

Cá entre nós, será que o luto ainda tem cor?

Agora,sim, já há assunto. E vida…

Até que enfim”, dizem eles. “Já não era sem tempo”. É que as semanas haviam perdido a graça, os encontros com companheiros de trabalho ou amigos já não tinham assunto para conversa e faltava-lhes aquela adrenalina duma época. As mulheres desabafavam em desespero: “Eu já não aturo o meu marido. Bem lhe digo para ir até ao café falar com os amigos ou jogar as cartas e não adianta”. Mas, finalmente, acabou-se o sofrimento pela ausência. Voltou o “Futebol”. Acabou-se o tempo de férias, as semanas sem assunto e os fins de semana sem jogos. Já tudo voltou à normalidade. Começa-se a semana a ler e comentar os jornais desportivos, o jogo da nossa equipa, exaltando as vitórias, arranjando culpados para as derrotas. Os árbitros são corruptos, os adversários trapaceiros e nós fomos os melhores. Até quarta-feira fala-se do jogo que passou. Revive-se o passado. A partir do meio da semana já só se fala no próximo jogo, a espectativa do futuro. É no café e no tasco, no emprego e fora dele. Veem-se todos os programas televisivos dedicados à bola, com adeptos ferrenhos disfarçados de comentadores “encartados”, onde o mais sábio é o que nos defende. Sim porque, ao defender a nossa equipa, está a defender-nos a nós. Ganha-se ânimo quando se juntam as hostes, os correligionários, quando não se desanimam uns aos outros com “estamos sem ponta de lança” ou “com este treinador não vamos lá”. “Aferroam-se” os adeptos adversários para espantar medos, criar a ilusão de que já ganhamos.

Começou o campeonato, agora chamado de Liga, se bem que de liga não tem nada. Estão todos desligados, de costas voltadas. Mas a bola já rola e há assunto para as conversas de café. Os adeptos (dos três chamados de “grandes”), embora possam ver os jogos na televisão bem instalados em casa, com copo de cerveja na mão e o comando na outra para, no caso de começar a correr mal mudar de canal para não ver o desastre, sempre que podem preferem ir ao “templo” do clube, em “peregrinação” assistir no local ao “cerimonial” que é um jogo de futebol. Porque lá é que se vive com a adrenalina no máximo, no meio dos “crentes”, irmãos daquela “religião”, solidários tanto na alegria da vitória como no “melão” com que ficam se a “coisa” correr mal.

E não há nada como estar integrado em “comunhão” com aquela multidão de “fieis”, vivendo intensamente cada momento e participando no “coro” de gritos, insultos, incitamentos e apelos ao linchamento do árbitro. “Matem esse ladrão”, “és o maior”, “vai para…” e mandam-no ir ter com a mãe que não tem nada a ver com o jogo. Quando há um golo, parece que levaram uma picadela no traseiro em simultâneo, pois todo o mundo se levanta do lugar ao mesmo tempo e salta feito canguru, de braços no ar e punho cerrado. Abraça-se o vizinho que se não conhece, alarga-se o sorriso, agitam-se bandeiras, cachecóis e todo o tipo de adereços. No canto dos adeptos contrários reina um silêncio de morte, à espera da vingança. Quando o golo é da outra equipa, invertem-se as posições e o alegre vira triste, o silencioso eufórico e o herói bandido.

O árbitro, a eterna “viúva” de que ninguém gosta, já nem se veste de preto para não ser tão sinistro. Mal entra em campo recebe um coro de assobios como saudação. Contava-me um antigo árbitro que, para ficar imune aos insultos, antes de entrar em campo olhava os adeptos espalhados pelas bancadas e pensava para si: “Ena tanto filho da …” a partir daí, dizia ele, já tinham razões para lhe chamarem de tudo. Não sei qual é o gozo de andar de apito na boca, a correr o campo todo do princípio ao fim durante o tempo de jogo e nem sequer dar um chuto na bola. Mas é preciso gente para tudo, inclusive para bode expiatório dos adeptos. É nele que descarregam as suas frustrações em primeiro lugar. Por isso, um árbitro precisa de muito “poder de encaixe”…

Futebol e política sempre andaram de braço dado, porque se servem um do outro. Ambos têm um interesse comum: ganhar com o adepto, porque é este o palerma que os alimenta. O futebol sobrevive do seu contributo financeiro e os políticos do seu voto. Daí que se casem os interesses, sem concorrerem um com o outro. Chama-se “casamento perfeito”, que devia servir de “modelo” para outros casamentos …

O adepto vive da emoção, daquele sentimento único do “ganhamos” se bem que isso não passe de um carinho psicológico. Ele até acha que pertence à equipa. Daí o “nós ganhamos”. Contenta-se com pouco e nem repara que o futebol se tornou um negócio e uma das maiores indústrias mundiais, de que ele é um mero consumidor. Porém, os jogadores, treinadores, dirigentes de clubes, associações, federações e confederações nacionais e internacionais, empresários e todo um leque de empresas de interesses cruzados vivem da bolsa de valores que se gera em negócio de tamanha envergadura, nem sempre clara e transparente. Daí os “assaltos” e “apegos ao lugar” a que de vez em quando assistimos pelos lugares “maiores”, em espetáculos tristes e com pouca dignidade, de que nem sempre temos conhecimento.

Já lá vai o tempo em que o futebol era um prazer, uma diversão. Não esqueço os jogos que fazíamos no caminho de Recemonde depois de sairmos da escola, com uma bola feita de uma meia velha cheia de trapos ou folhelho. Uma dúzia de garotos acabavam suados, mas felizes, depois de dar uns quantos chutos na bola improvisada. Era só um jogo de futebol. Hoje já não é só um jogo de futebol …

E com o regresso do campeonato, ou melhor, da Liga, os adeptos voltam a ter jornais desportivos com matéria quanto baste para ler, programas televisivos para ver e rever se o seu clube ganhar (se o clube perder, esqueçam), informação preciosa para argumentar com amigos e colegas de trabalho. E ainda têm a possibilidade de estar em “celebrações” no estádio para “desopilar” e soltar o “animal” que há dentro de cada um. Liberta tensões acumuladas e é muito melhor que ir ao psiquiatra ou “descarregar” na mulher e no cão …

Afinal, quem é a “vaca leiteira”?

Todos nós sabemos que, na natureza, a vaca produz leite suficiente para alimentar as crias, os bezerros. No entanto, como o ser humano fez do leite uma base da nossa alimentação, para conseguir obter produções que possam suprir as nossas necessidades usou a seleção e manipulação genética para obter animais com mais capacidade produtiva. É assim que hoje há vacas a produzir dez vezes mais leite por dia que há cem anos. Com isso, a vaca leiteira transformou-se literalmente numa máquina de produção de leite em quantidades industriais, usada e abusada como mera indústria produtiva. E foi por isso que a “vaca leiteira” passou a ser o termo de comparação quando nos queremos referir a algo onde todos querem “mamar”. E vimos isso à pouco com o ex-ministro Manuel Pinho ao ser interpelado no parlamento (que mais me pareceu um “para lamento”), sem dizer nada aos deputados sobre os seus “ganhos adicionais” que o “dono disto tudo” de então lhe pagava enquanto foi ministro.

Ora, para desviar a conversa e “fugir com o rabo à seringa” das perguntas dos deputados, acabou por “revelar” o que todos já sabiam: “A fatura de eletricidade é uma vaca leiteira”. “Porque”, diz ele, “cobra-se tudo através da fatura da eletricidade”. Traduzido isto em miúdos e para a gente perceber, quis ele dizer que os políticos feitos Estado, usam a fatura de eletricidade para “sugar” mais e mais impostos. Seguindo a sua lógica, os políticos (onde ele está incluído) criaram não uma, mas muitas “vacas leiteiras”, sendo as faturas de eletricidade, gás natural e combustíveis algumas delas, que “alimentam” um “Estado mamão” difícil de satisfazer. Mas há mais, muito mais. Ora, como Manuel Pinho nos chamou a atenção para a “vaca” da fatura de eletricidade – e sem esquecer que ele esteve lá e não fez nada para evitar que ela fosse “usada e abusada” – fui ver com atenção a quem o seu “leitinho” alimenta e engorda. Se pensava que estava preparado para o que ia ficar a saber, confesso que nunca me passou pela cabeça que fossem tantos os “vitelos” que vivem à conta dela. E, pior, não se sabe ao certo quantos são.

Na fatura da eletricidade, além da “energia consumida” ainda nos fazem pagar pela “potência contratada” e até pelo “serviço urgências elétricas” (nem sabia que existia e era pago, usando-o ou não). Mas também estão lá uma data de taxas e impostos, tantos, que é preciso tirar um curso para os identificar. Começam logo com o “Imposto Especial de Consumo”, tão especial que não consegui saber para que é. Depois, aplicam-nos a “Taxa de Exploração DGEG”, dizendo-nos que é para financiar a Direção Geral de Energia e Geologia. Para que a conta não fique por aí, a taxa de IVA é a máxima que a lei permite ou seja, vinte e três por cento, apesar de se tratar dum bem de consumo essencial. E a lista de taxas vai mais além com a “Contribuição para o Audiovisual”, que foi a forma que os políticos encontraram para financiar o serviço público de rádio e televisão, mesmo que o cliente não use nenhum deles. Mas paga. É a justiça … estatal. Podemos sorrir um pouco, embora com “sorriso amarelo”, porque a “Contribuição do Audiovisual” só é onerada com IVA a seis por cento. Nada mau … Como ainda a procissão vai no adro, a fatura inclui a “Tarifa de Acesso às Redes Elétricas”, que é uma taxa paga pelo uso das redes (transporte e distribuição) e uso geral do sistema. E inclui ainda os CIEG, que são os “Custos de Interesse Económico Geral”, que nada têm a ver com eletricidade e servem para pagar custos de natureza ambiental, autoridade e concorrência, rendas de concessão pela distribuição em baixa tensão, ajustamentos comerciais de último recurso e muitos outros custos com descrições obscuras e complexas. Em suma, está lá tudo metido. Só a sobrecarga de impostos e taxas no setor elétrico representa quarenta por cento da fatura da luz – e não vemos luz ao fundo do túnel que nos tire deste “sugadouro” …

Mas este aproveitamento que o Estado tem dos nossos consumos para nos “sacar” mais e mais dinheiro, usando como argumentos principais a “sustentabilidade do Estado Social”, que diminui a olhos vistos, e a “redução da Dívida Pública”, que aumenta mais do que bolo no forno, não se limita à fatura de eletricidade. Estende-se à fatura de gás natural (com o imposto especial de consumo, taxa de ocupação de subsolo e IVA a vinte e três por cento), ao preço dos combustíveis onde o desaforro já ultrapassa, e muito, os cinquenta por cento em impostos, ao consumo de tabaco (que bate o record de impostos a rondar os oitenta por cento), à indispensável água (com a tarifa de saneamento, a taxa de recursos hídricos, a taxa de resíduos sólidos urbanos e, claro, o IVA), bebidas alcoólicas e açucaradas e um sem fim de bens que usamos no nosso dia a dia, como se fosse pecado capital ser consumidor.

Agora que “está fora do poleiro” e para “dar tanga” aos deputados que estavam lá para saber outras coisas, Manuel Pinho “batizou” a fatura da eletricidade como uma “vaca leiteira”, com a intensão de desvalorizar as chamadas “rendas da edp” a que ele está associado e passando o ónus da energia cara para quem “mama” na dita “vaca”.

O ex-ministro da economia errou ao tomar a “parte pelo todo” ou não quis dizer a verdade aos deputados, como não lhes havia dito nada daquilo que eles queriam saber. A “fatura da eletricidade”, tal como a “fatura do gás natural”, o “preço dos combustíveis” e outras faturas, não são nenhuma “vaca leiteira”. Longe disso. Para mim, mais não são do que simples “tetas” onde os políticos puseram a “boca” do Estado a “mamar”, muito mais do que seria aceitável, escandalosamente, sem respeito pela verdadeira “vaca”. Porque, afinal, a verdadeira “vaca leiteira” que tem de sustentar este Estado, “faminto e insaciável”, é o desgraçado do “Contribuinte”. E “Contribuintes” somos todos nós que consumimos, trabalhamos e produzimos, mas que nem sempre temos consciência que, para os políticos, não passamos de “vacas leiteiras” … E, das duas uma: Ou damos um coice em quem “mama demais” ou a maioria destas “vacas” vai morrer “seca como um carapau” …

Além de Festa, “ponto de encontro”…

Acabou a festa. Agora, é o desmontar das barracas, o carregar dos contentores, o retirar de cabos elétricos e arcos de iluminação, o desfazer do palco em peças, o mudá-lo para o próximo local. E vão-se os carroceis, os carrinhos de choque, o “canguru” e outras diversões mais ou menos radicais dum parque improvisado com curta duração. Há gruas, camiões grandes e pequenos, furgões, carrinhas, caravanas e gente a carregar as tralhas feitas entretenimento e negócio nas Festas Grandes de Lousada. Só ficou a barraca das farturas para nos empanturrar de frituras de farinha e água, polvilhadas com açúcar e canela, feitos pedaços de tentação que nutricionistas desaconselham. Durante os dias de festa a Vila acordou atapetada de lixo espalhado pelo chão em tudo quanto é sítio, menos nos locais onde devia ser colocado. É curioso como ninguém conseguiu acertar com os copos de plástico nos “ecopontos” nem com o lixo nos contentores. Devia haver algum problema, pois muito desse lixo foi parar ao chão pela mão de gente civilizada, mas que estava afetada pela “síndrome da manada” – fazer o que a manada faz. O trabalho ficou para o pessoal da câmara e da empresa de recolha. E foi muito para lá do razoável. Além do lixo as Festas também “pariram” dejetos humanos em cada canto mais ou menos escondido, odor intenso a urina em cada porta como se a rua fosse uma latrina coletiva (as portas de madeira que sofreram tal “tratamento” estarão protegidas dos ataques do bicho da madeira durante o próximo século porque, se aproximar, morre com o pivete), preservativos, moradores com sono e mal humorados por noites em branco e jovens adolescentes a deambular, anestesiados a álcool e pensando que a noitada ainda não terminara e com cara de aparvalhados, enquanto os paizinhos dormiam na “paz do Senhor … dos Aflitos”.

Elogia-se ou critica-se a organização pelos artistas contratados para dar espetáculo e animar as noites de acordo com o gosto de cada um, se o fogo de artifício foi bonito de se ver e fazem-se comparações com as Festas de Paredes e, especialmente, as de Freamunde, porque se mantem essa rivalidade absurda, de um bairrismo da Idade da Pedra.

As Festas Grandes são cada vez “mais grandes”. Porque tem que ser.  Não se pode ficar atrás da concorrência nem das outras comissões de festas. Quando era criança, a Festa Grande era “Grande”, mas “curta”. Vi-a crescer no número de dias que ocupa a vila, anima forasteiros e desanima moradores. No estender da iluminação a mais avenidas, ruas, praças e vielas da vila. Na crescente quantidade e, às vezes, qualidade, de artistas “cabeça de cartaz”, cuja escolha nem sempre é consensual. As Festas já se estendem por vários dias seguidos, sem falar dos “preliminares” que acontecem ao longo do mês de Julho. Se a intensão é atrair cada vez mais forasteiros, não me parece que o paradigma escolhido com a introdução das “barracas de cerveja” seja o caminho certo. Pelo contrário, a venda sem controle de bebidas alcoólicas associada à música em ambiente de “discoteca de rua” tipo “rave” é um erro que já outros cometeram há muitos anos. E nós não quisemos aprender a devida lição e teimamos em repeti-lo e insistir nele, em nome de uma receita adicional tida como importante para o orçamento da organização. Haverá mais recursos para prolongar os dias festivos, recrutar mais cantores do top nacional ou consumir em “foguetório”, coisa em que a minha cadela, se tivesse voto na matéria, estaria contra. Detesta foguetes. Mas o acréscimo de forasteiros nas Festas não pode nem deve ser conseguido à custa do sacrifício dos adolescentes, queimados em lume brando no consumo de álcool sem limites, sem idades, sem razões sérias de interesse público. Se Aquele que é o Patrono das Festas viesse a tomar posição sobre o que estão a fazer em Seu Nome, tenho a certeza que voltaria a correr com os “vendilhões do Templo”, a chicote …

Sempre fui um entusiasta das Festas Grandes. Enquanto criança e até adolescente, pelos doces que os meus pais compravam, pelo “jantar” depois da procissão junto aos “tanques”, pela diversão nos carroceis e carrinhos de choque, pelo “picadeiro”, pela “cascata de luz” que era o monte do Senhor dos Aflitos nas tigelinhas, pelas vacas de fogo que eu via protegido no carro do meu pai, na Avenida Senhor dos Aflitos. Com a passagem à idade adulta as Festas Grandes, para além da festa e do entretenimento, passaram a funcionar como verdadeiro “ponto de encontro” onde ia reencontrar familiares, amigos e condiscípulos que a vida conduzira para outras paragens, mais ou menos distantes, mas sempre perto de nós. E era ali que a cada ano revia uns quantos, relembrava histórias, recebia informações de outros que estavam ausentes e se aplacava a saudade. Seguramente, a cada ano as Festas traziam-me novidades enquanto “ponto de encontro”. E era como voltar às nossas origens, ao encontro do passado, selado num abraço. Há dez anos que me marcam falta nesse “ponto de encontro”, mas os amigos sabem porquê. Apesar da lista de “participantes” diminuir a cada ano que passa, sei que alguns são resilientes e marcam o ponto, porque é dos últimos locais onde ainda nos encontramos, além dos casamentos e funerais.

Fiquei feliz quando perguntei à Teresa se tinha gostado das Festas e ela me disse: “Foram excelentes. Divertimo-nos imenso. Encontramos vários amigos que já não víamos há muito tempo e que vivem fora. Veja lá, que nem sequer reconheci um deles porque está barrigudo e de barbas. Teve de ser ele a vir cumprimentar-nos. Foi um excelente “ponto de encontro”, instalados numa esplanada a rever amigos”. E fiquei a pensar que ela já chegou à fase seguinte, de olhar as Festas também como “ponto de encontro” que são.

E o João, jovem adolescente que os pais “soltaram” à meia-noite, foi com um colega até às barracas de bebidas onde, para “aquecer os motores”, começou com dois “shots” e depois “foi sempre a abrir”. É preciso “molhar os pés” para ganhar asas e desinibir-se, agarrar-se ao copo para estar integrado e parecer um homem, “abanar o capacete” ao som da música. Também para ele as Festas serviram de “ponto de encontro” com a miúda loura de copo na mão que não conhecia. E ainda hoje não sabe quem é, como se chama, nem de onde veio. Sabe que se “colou” a ela grande parte da noite e que “despertou” sozinho já o sol se levantara, deitado junto a um portão de garagem quando este começou a abrir. Foi também um “encontro”, mas não sabe “de que falaram”, que parte do corpo usou para “comunicar” ou até mesmo se chegou a “entrar em contacto”. Os vapores do álcool “apagaram” o registo. Valerá a pena insistir na “fórmula” – e no erro – para termos mais “forasteiros” destes? Em nome de quê?