Fique em casa e cuidado com o bolso

Fiquei em casa, cumprindo uma regra fundamental no combate ao “inimigo invisível” que nos ataca a todos. Aqui, na Europa, no mundo. Mas confesso que demorei um pouco mais do que devia a interiorizar que tinha de o fazer. Por mim, pela família e pelos outros. Porque só com o empenho de todos somos capazes de sair desta, mais depressa e com “menos baixas”. Sejamos francos: começamos por não levar isto a sério, por não acreditar que este vírus é um assunto grave e por pensarmos estar imunes e ser um problema “dos outros”. “Temos a nossa vida e não podemos parar”, pensamos. Até porque esse (mau) exemplo “veio de cima”, tal como veio de vários lideres mundiais que negaram as evidências. Só quando a “sua casa lhes começou a arder” acordaram para a realidade. Alguns até aconselharam os seus povos a enfrascarem-se com whisky e vodka para que o “bicho não pegue” e só agora estão a tomar (alguma) consciência desta dura realidade.

A viver na China como treinador adjunto de futebol no Shangai SIPG, Luís Miguel criticou o que se fez na Europa, em especial Portugal, e aconselhou os portugueses a mudarem alguns comportamentos. O técnico português afirma que a Europa não está a levar este vírus com a devida seriedade, tal como fizeram os chineses, “os únicos no mundo que estão a conseguir controlar a epidemia: “A China está a conseguir controlar bem o vírus, que é mortífero, porque tem muito respeito e disciplina. Tiveram muita paciência, fecharam-se em casa, a economia parou … mas ficaram em casa. Dói-me ver o que se passa na Europa. Tivemos três meses para aprender com a China, mas nós desvalorizamos o “inimigo”. Vê-se o que se passa na Itália, Espanha, Irão. Fiquei aterrorizado quando me desloquei para a China. No aeroporto de Lisboa ninguém estava protegido, não houve controle de temperatura. Zero. Aqui está tudo de quarentena. Há disciplina. Aconselho: parem, fiquem em casa com a família. Só uma pessoa deve ir às compras. Quando voltar, desinfete os sapatos, ponha a roupa para lavar e tome banho. Parem as caminhadas, as corridas fora de casa. É preciso muita disciplina, paciência e respeito por este vírus”. 

Será que percebemos bem esta mensagem e que a estamos a praticar em pleno? Ou achamos (e eu incluo-me no grupo) que não tem mal nenhum fazer uma caminhada ou corrida lá fora, que não é preciso esse rigor de ir só uma pessoa à rua e à chegada ter de desinfetar o calçado, deitar a roupa para lavar e tomar banho?

Sejamos realistas: não é fácil aceitar que temos de parar, deixando o negócio, a atividade, o lazer, os deveres lá de fora, em suma, a vida, com todas as consequências económicas e financeiras atuais e futuras que virão depois, quando não já. Está visto que esta batalha é ganha só com a “ausência”, o que só por si é um ato heroico, se bem que os verdadeiros heróis sejam os que lutam 24 horas por dia para nos salvarem. Mas será que vale a pena pôr em risco a saúde, quando não a nossa vida – e a dos outros que amamos e nos rodeiam – porque o futuro fica comprometido? Mas não está ele desde já comprometido? O nosso e de (quase) todos?

E digo “quase todos” e não “todos” porque, como em tudo na vida, há sempre quem se aproveite da situação, sem escrúpulos ou vergonha, para ter ganhos indevidos, especulando com os bens necessários ao combate contra o vírus, já para não falar de outros. Falo no caso dos produtos de prevenção contra a propagação do novo coronavírus – equipamentos de proteção individual e dispositivos médicos, como máscaras, luvas e fatos, e produtos biocidas como o álcool, gel e desinfetantes. Mais que nunca, a não serem gratuitos, deviam estar acessíveis a preços normais. Mas, apesar das notícias dizerem que as “entidades públicas responsáveis” não encontraram sinais de abusos de preços depois de “visitar alguns estabelecimentos”, todos sabemos que a realidade nada tem a ver com essa “ficção”. E, se precisamos de nos defender do maldito vírus que vai virar as nossas vidas de pernas para o ar, em momento tão difícil, infelizmente também temos de nos defender dessa cambada de especuladores e oportunistas que não respeitam nada nem ninguém. 

Para que se compreenda a dimensão dos “roubos” e o tamanho da pouca vergonha, vou só fornecer alguns números: até há pouco tempo compravam-se “máscaras cirúrgicas” às empresas fornecedoras a “4” cêntimos. Repito para que se perceba bem: 4 CÊNTIMOS. E, de repente, como por magia, o mesmo artigo no mesmo fornecedor passou a custar … 60 CÊNTIMOS. Cada uma. O que é isto senão um assalto sem arma, um roubo à descarada? E a falta de vergonha é tal que outro fornecedor teve o desplante de nos dizer que guardou uns milhares delas para nós, por consideração. E a que preço? Um euro e meio. CENTO E CINQUENTA CÊNTIMOS. Mais de trinta e cinco vezes. Que grande consideração!!! E há uma empresa na região que as fabrica em grandes quantidades, mas nenhuma para cá. Vão todas para fora. Dizem-me que a 5,00 € cada!!! Cento e vinte e cinco vezes mais caras … e não há requisição civil. Não estamos num “estado de emergência”? A especulação nestas máscaras acontece também com as máscaras “bico de pato”, gel de álcool, desinfetantes, álcool e tantos outros. As batas impermeáveis, que nada têm a ver com o vírus, subiram quase vinte vezes. E aqueles “pés cirúrgicos” que se enfiam nos pés, saltaram de 5 cêntimos para 2,00 €.

Nem no tempo da II Guerra Mundial os bens essenciais inflacionaram tanto em tão pouco tempo, o que só vem comprovar que estamos noutra Guerra, com consequências sanitárias e económicas incalculáveis. E é neste clima que os especuladores, qual “abutres” a aproveitar-se da necessidade e do sofrimento alheio, “medram a olhos vistos, sem que ninguém os ponha onde deveriam estar”. Como penso “que podemos esperar sentados”, tenhamos consciência que “estão mexendo no nosso bolso” de forma brutal, escandalosa, a raiar o obsceno, sem ter quem nos defenda …

Com máscara ou sem máscara, vou continuar por casa, tentando ser “chinês em quarentena” ou, pelo menos, a saber copiá-lo, para meu bem e daqueles que me são próximos. Estou a aproveitar para pôr as minhas coisas em ordem, fazer jardinagem, cuidar da pequena horta, ler, fazer passatempos e separar algum do muito “lixo” que tenho cá em casa para aliviar a carga. Para não ficar aborrecido, espero não ir contar quantos grãos tem um pacote de arroz e questionar porque é que o outro pacote, que pesa o mesmo, tem mais 6 ou 7 grãos …

E não preciso de estudar para, quando me disserem que a doença é respiratória, não correr disparatadamente por aí a comprar papel higiénico às carradas… 

“Discriminados”. Ouça, fique em casa

Há dois mil anos existia uma doença terrível que, nessa altura, não tinha cura: A lepra. Quando alguém tinha sintomas da doença, dirigia-se ao Templo e era o sacerdote a confirmar se era “leproso” ou não. Em caso afirmativo, era privado do convívio com as outras pessoas, tinha de viver num lugar isolado e informar os outros que sofria de lepra. Os leprosos deviam morar fora dos muros das cidades. Como a doença era incurável e contagiosa, os lideres religiosos judaicos criaram regras que dificultavam muito a vida dos doentes. Uma delas impunha a distância mínima entre um leproso e uma pessoa sadia em 2 metros, mas que, com vento, passava para 45 metros. Os leprosos acabavam por ter de viver em cavernas isolados da sociedade e, se quisessem contactar alguém, teriam de tocar o sino para se fazer anunciar, manter a distância de segurança e dar conta que ia passar um imundo, um contaminado pela lepra, arriscando ser corridos à pedrada pelo líder religioso. As regras a que os leprosos estavam sujeitos eram minuciosas. Não podiam entrar em casas, hospedarias e igrejas, nem tocar em objetos usados por todos, como corrimões de escadas, sem usar luvas. Tinham de usar uma veste especial e levar sinetas a anunciar a sua presença. Em suma, eram discriminados pela sociedade. A sua situação era humilhante e durante grande parte da História foram vítimas desse “estigma social”. 

Ora, não estando infetado por uma das bactérias que provoca a lepra – tanto quanto sei – nem tendo sido declarado pelo “sacerdote do Templo” como “leproso”, apesar de também não estar infetado com o covid-19, senti-me a modos que um “novo leproso” nos últimos dias só pelo facto de viver em Lousada. E, como eu, todos os que moram cá e em Felgueiras, estejam ou não infetados com o coronavírus. Será que vamos ter de avisar que chegamos ou até que vamos passar, para terem tempo de se afastarem e manter uma distância de segurança? Percebo que o medo do desconhecido cria o pânico e este conduz a comportamentos absurdos, até porque nenhuma autoridade impôs e nem sequer aconselhou a quarentena. Faz algum sentido que, numa paróquia de concelho vizinho, no limite com o nosso, se diga a uma criança “não vais fazer o Pai Nosso porque frequentas uma escola que está no concelho de Lousada”? Faz algum sentido que uma jovem que estuda num colégio privado de um outro concelho, quando lá chegou em transporte do colégio, tenha sido informada para recolher as suas coisas de imediato e regressar a casa como se fosse “leprosa”, sem lhe assegurarem transporte, sem dinheiro e sem respeito, entregue a si mesma, só porque … Estiveram bem os presidentes das câmaras de Lousada e Felgueiras ao denunciar as “pressões sofridas por alunos nas Universidades para não frequentarem as salas de aulas e demais espaços delas, alegadamente devido ao vírus, medidas consideradas discriminatórias, ilegais e lesivas das pessoas.

Claro que a forma como a informação passou e a imprensa explorou, ajudou a que esta “onda discriminatória” ganhasse velocidade, qual tsunami. Senti isso nalguns telefonemas que recebi de mais ou menos longe a perguntarem-me se estava bem e não tinha nenhum sintoma, como se por morar aqui fosse sinónimo de “infeção automática”; em encontros desmarcados à última hora porque “não me parece ser o momento oportuno”, “adoeceu-me o adjunto e já não posso sair” ou outra desculpa mais ou menos esfarrapada.

Entretanto, o vírus está a espalhar-se a um ritmo crescente a partir de várias origens, aumentando o número de infetados e já com um morto na estatística, o que tem levado as autoridades a tomar mais medidas, novas medidas, sendo que a atividade do país é reduzida. Instituições, empresas, estabelecimentos comerciais, desportivos, recreativos e muitos outros encerram ou quase. E o conselho geral das autoridades é um só: “Fique em casa”. Porque é preciso conter a disseminação do vírus. É que, ao estar com alguém, não sabemos se estamos ou não a correr riscos. Começamos a ter noção dos contactos cruzados, que A esteve com B e este com C que se soube agora estar infetado. A cabeleireira encerrou o salão ao saber que uma cliente esteve em contacto com familiares de outra a quem foi diagnosticada a infeção. E uma esteticista telefonou a todas as clientes cancelando as marcações, ao tomar conhecimento que a mãe fora confirmada como mais um caso. E quem se encontrou com alguém nesta situação pergunta-se: “Será que também já estou”? 

Por isso, custe o que custar, faça tudo o que puder para ficar em casa, ainda que isso não seja fácil. E como o humor continua a ser uma das formas de combater o medo, transcrevo a mensagem enviada por um amigo metido em casa, de autor desconhecido:

“Primeiro dia de isolamento- Isto do covid até tem as suas vantagens: não vou para o escritório aturar o pascácio do chefe e posso dormir até mais tarde. Vou aproveitar para ler aqueles livros que comprei na feira do livro em 1988 quando namorava com a minha mulher e a levei lá. E ver se desligo um bocado da net e do facebook e fortaleço laços com a patroa e os miúdos.

Segundo dia de isolamento- O meu apartamento até é bem fixe e acolhedor. Tenho uma família 5 estrelas: a minha mulher é meiga e os putos são porreiros. A vizinhança é do melhor.

Terceiro dia de isolamento- Os miúdos acordam muito cedo. A minha mulher ressona. Gostei muito do pequeno almoço feito por ela, mas não percebi muito bem o que ela quis dizer que isto não é nenhum hotel. Os vizinhos são um pouco estranhos.

Quarto dia de isolamento- Os sacanas dos putos já levaram duas galhetas cada um. São dois terroristas. A gaja também já começou a desconversar. Fui lá abaixo pôr o lixo, alguém desinfetou o elevador com lixívia. Carreguei nos botões com os cotos.

Quinto dia de isolamento- Matem-me. Prefiro apanhar o vírus do que estar neste inferno. Acabou o álcool, o suicídio parece-me a melhor solução. A bruxa não me larga. Desconfio que os miúdos não sejam meus. Os vizinhos de cima não me dispensaram um rolo de papel higiénico. Forretas.

Décimo dia de isolamento- A privação de álcool e tabaco provoca-me alucinações. A minha mulher e eu estamos muito melhor desde que ela se barricou no quarto. Dei os putos para a adoção. Os vizinhos são uns filhos” …

Caso sério, que importa desanuviar…

“Estamos feitos ao bife”, diria um amigo meu que já não anda por cá. É que já ninguém fala da Operação Marquês, do Sócrates, do Salgado e companhia. Nada. Já ninguém fala do Benfica ter caído ao segundo lugar do campeonato. Nada. Também ninguém fala da novela sobre o novo aeroporto de Lisboa, agora a não poder “aterrar” no Montijo. Nada. Ninguém fala dos dez milhões de euros que o Varandas pagou por uma “cria de treinador” de futebol. Nada. Ninguém agora fala dos impostos altos, da vida cara, das loucuras do Trump, nem da Cristina e do Cláudio e da telenovela que os une ou separa. Nem tão pouco das “lindas canções” que a RTP nos ofereceu no Festival da Canção. Nada. Porque o que está a dar, é só o “coronavírus”. Basta ver os telejornais das televisões nacionais (não sei como são as outras).  Começam logo a abrir com as notícias mais impactantes sobre a epidemia e depois passam metade do tempo a venderem-nos o “coronavírus” como se nos fosse “limpar o sarampo” a todos, para não falar na contabilidade sobre casos suspeitos daqui à China, para além dos infetados curados e outros mais. “Já são dois os infetados”, “já são cinco”, “atingiram a dezena”. A imprensa vibra e mais parece um relato de futebol. Das duas uma: ou apanhamos o vírus (ou será ele que nos apanha?) ou apanhamos uma depressão. Não há meio termo. Dizia uma mãe num desabafo após um período de isolamento que a deixou desesperada: “Depois de uma semana fechada em casa com os meus filhos por causa das medidas impostas pelo governo, se eles não morrerem com o coronavírus, sou eu mesma que os mato” …

É um vírus muito contagioso? É. Tão perigoso para a saúde como uma gripe? Mais contagioso e, provavelmente, é mais letal. Temos de ter cuidados? Temos, mas não precisamos de alarmismo. O alarmismo leva-nos a comportamentos irrefletidos e estúpidos que não ajudam. Em nada. De um edifício de acesso público onde existem embalagens de produto para desinfetar as mãos têm desaparecido muitas delas. Será normal ou está tudo louco? É verdade que já temos infetados, é espectável que o número aumente muito ou um pouco menos e que pode haver mortos. O que é natural, como doença que pode agudizar. Vai chegar a nossa casa? Acredito bem que sim. Há essa possibilidade, mesmo que tome todas as medidas de prevenção aconselhadas pelas autoridades (e as outras que vizinhos e familiares defendem …). Mas corre menos riscos se adotar medidas preventivas. Claro, sabendo sempre que um dia destes tocam à porta e quando for atender “ouvirá” o coronavírus dizer: “Cheguei!!!  

Isto está a ficar muito estranho. Basta sair à rua, ver os sinais. Vamos cumprimentar alguém e puxa-se a mão atrás dizendo que “agora não se pode”. Vai-se dar um beijo e as cabeças ficam a vinte centímetros, não mais perto. Se possível, “não pode ser”. Pode-se dizer sem errar que é uma doença “anti-social”. Não se pode beijar, trocar um aperto de mão, fazer um afago, muito menos abraçar. Até a ministra pede para nos contermos nesses cumprimentos e manifestações diárias de sociabilidade e afeto. Por isso, mantenha a distância. Use fita métrica.

O humor é uma forma do ser humano vencer o medo. É um consolo de último recurso a que nos podemos agarrar. Porque todos temos medos, especialmente do que se não conhece, mesmo que não demos sinais nem o queiramos reconhecer. E o coronavírus é desconhecido. Por isso o ser humano tem usado humor para “combater” este medo manifestando-se por todo o mundo das mais variadíssimas formas, brincando com uma coisa séria, que se pode enfrentar com humor. Basta ver o que circula nas redes sociais e a criatividade imensa que nos faz sorrir. Satirizam as máscaras de proteção preconizando o uso de preservativos, seja só para a cabeça ou mesmo para o corpo todo;     

utilizam o simples garrafão de plástico da água recortado por forma a que a cabeça se encaixe dentro, com ventilação pelo gargalo; o copo de plástico seguro no focinho de um cão ou peças de roupa interior de senhora adaptadas como máscara numa crítica saudável à falta de material no mercado, esgotadas pelo açambarcamento.

Os chineses primeiro e agora os italianos fazem parte dos “bonecos”.  Um deles diz: “Meu Deus, com esta história do coronavírus os pobres não têm um dia de descanso. Sempre que veem um chinês a virar a esquina, põem-se logo a correr em sentido contrário” … Houve um que fez circular nas redes sociais algo como: “aluga-se chinês, que dá direito a quinze dias de férias em quarentena” … Ou então, há quem sugira que os turistas italianos e chineses devem ser aconselhados a visitar o Palácio de S. Bento, pois “é um belo edifício que vale a pena conhecer. E até quem ponha o vírus a “falar”, como no caso: Quando perguntaram ao coronavírus qual é uma das suas grandes paixões, respondeu: “Dar a volta ao mundo” …

Confesso que, de vez em quando, dou comigo a empurrar as portas com o ombro ou a puxar pela manga da camisola para me agarrar ao puxador, quando não usando outro estratagema qualquer para evitar pôr as mãos em contacto com algo que pode ser um transmissor do “bicho” por contágio. Paranoia ou precaução? A verdade é que é real em todos nós, com manifestações muito variadas. Para isso, o melhor texto é de um autor anónimo, que transcrevo:

“Hoje, no trabalho, empurrei a porta do WC com o joelho, acendi a luz com o ombro, levantei o tampo da sanita com o pé, acionei o botão do autoclismo com o cotovelo, abri e fechei a torneira da água com o antebraço, sequei as mãos sem tocar no secador, puxei a porta com a biqueira do sapato e atravessei os corredores sem tocar em nada. Uma hora depois, na pausa do café, avisado por uma colega bastante alarmada, reparei que me esquecera de arrumar o “instrumento” e de fechar a braguilha!…”.

O preocupante é que nos andaram a dizer que estávamos preparados e, afinal, não estávamos, apesar do tempo que o vírus nos “concedeu”. Mas, talvez nos valha a nossa capacidade de improviso … ou O Senhor dos Aflitos … 

O valor duma simples bola de trapos

Precisei de falar com um amigo e, sabendo que estava a assistir ao treino de futebol do seu filho ainda muito novo, fui lá procurá-lo. Achei interessante ver parte do treino e, em especial, o entusiasmo com que alguns pais vivem tão intensamente a evolução do seu rebento e o sonho lindo de uma carreira a dar chutos na bola. Mas, quando vi aqueles sacos cheios de bolas não pude deixar de sentir uma ponta de inveja porque, quando eu era criança, não havia sacos de bolas de futebol, não havia sequer bola de futebol. O que nós tínhamos para jogar era … uma bola de trapos E para isso, algum de nós tinha de conseguir arranjar lá por casa uma meia velha. As melhores meias para fazer a bola de trapos eram as “de vidro”, porque conseguia-se que a bola fosse maior. Mas, na sua falta, qualquer uma servia, sendo cheia com trapos velhos ou mesmo folhas de jornal amarrotadas, que se comprimiam o mais possível enquanto se lhe dava uma forma arredondada. 

Jogávamos a bola nos caminhos de terra (eram todos) com mais ou menos buracos, sendo as balizas delimitadas por duas pedras. Não havia treinador nem lugar a táticas e as fintas eram difíceis, até porque jogar com uma bola de trapos dava para o que dava. Como era “tudo ao molho e fé em Deus”, valia mais o pontapé para a frente e direto à baliza, se possível, defendida pelo miúdo descalço e de calças rotas, na tentativa de marcar golo. E lembro-me que se jogava com entusiasmo e alegria natural. O resultado era menos preocupante do que o raspanete da mãe quando chegasse a casa por ir todo sujo, quando não com mais um rasgão nas calças. Não havia bolas de “couro” p’rá malta. Eram inacessíveis.

Só para se ter uma ideia, assisti a jogos do Lousada no velho campo junto à feira, em que só havia uma bola de cada equipa. Se durante o jogo um chuto mais forte e torto a atirasse para o campo de milho para lá da vedação, havia sempre alguém do lado de fora para ir atrás dela. Houve ocasiões em que o jogo teve de ficar parado, à espera que a bola fosse devolvida ao terreno de jogo … por não haver outra.

Nós, miúdos, quando recebíamos alguns tostões como nos funerais por integrar a “cruzada”, íamos logo investi-los a comprar rebuçados de fraca qualidade, mas que traziam a embrulhá-los fotografias de jogadores de futebol, ídolos do nosso tempo, parte da coleção de cromos que se colava numa caderneta, com a vã esperança de a poder completar e ganhar aquela linda bola de futebol, tida como feita em cabedal, mas que muitas vezes mais parecia do tipo cartão prensado. Havia sempre um cromo único de um jogador que o fabricante desse negócio colocava bem no fundo da caixa para se venderem os rebuçados até ao fim, pois caso contrário, mal alguém completasse a caderneta e levasse a bola, acabava-se o negócio. O miúdo que a ganhasse era o felizardo, muito invejado por todos os outros que queriam muito poder dizer que “jogaram com uma bola de couro”. Ficavam pendentes dele para começar ou acabar um jogo. É que ele era o “dono da bola”. Bastava que a sua equipa estivesse a perder ou não o deixassem marcar o penalti, agarrava na bola meio amuado, dava o jogo por terminado e caminhava para casa …

Já adolescente, joguei pela equipa lá da terra, o Macieira, contra outras freguesias dos arredores. Os jogos e treinos eram realizados no terreno do adro de S. Gonçalo e a bola, já em couro, cosida à mão e com câmara de ar, de vez em quando furava ou rompia-se pelos pontos da cosedura. Um dia um dos remates foi forte e direitinho … a uma lança da grade que havia na capela e a bola “morreu” de repente. Quando isso acontecia, acabava o jogo por não haver bola substituta …

Ao ver que hoje bolas de cabedal não são problema, nem em qualidade nem em quantidade e ao olhar para essa infância distante, fico dividido: Se ter inveja pelo muito que hoje há comparado com o nada de “ontem” ou ficar feliz pelo entusiasmo, alegria, gosto e entrega ao jogo pelo jogo desse “ontem” – porque era só um jogo de bola que estava em causa – sem ilusões do vedetismo que hoje se persegue e que, quase sempre, termina em frustração dos miúdos, quando não bem mais dos próprios pais. 

Na minha infância as brincadeiras de miúdos eram na rua, saudáveis e alegres, de forma despreocupada e segura. A grande preocupação dos pais era arranjar-nos forma de nos instruirmos e evoluir na educação e ensino. Ao contrário, hoje a preocupação é conseguir tirá-los de casa, afastá-los dos jogos informáticos e do computador para brincarem ao ar livre. O que será mais saudável? 

Nos dois últimos dias perdi dois amigos, quando recordo com nostalgia e emoção esses jogos usando uma simples “bola de trapos” num qualquer caminho da aldeia. De um deles que jogava descalço, levei caneladas “quanto baste”, apesar de eu estar “munido” de botas ou “chancas”. Mas a alegria, entusiasmo e vida desses convívios, com ou sem “caneladas”, marcando ou sofrendo mais golos e apesar da “bola de trapos” nem sempre aguentar inteira até ao fim, ficaram como boas recordações, memórias que um deles fez questão de relembrar e partilhar comigo poucos dias antes de “partir”, porque são “pedaços de felicidade” que dão cor à vida … e que nos unem. 

“Obrigado”. “Gosto de ti”. É tão fácil!

Vivemos a correr e não tomamos consciência sequer do quanto esta vida é transitória, “uma passagem para a outra margem”. Por isso, já nem damos tempo ao tempo, perdemos a paciência porque temos pressa e esquecemos a “arte de esperar”. Queremos tudo para ontem e, qualquer contrariedade, grande ou pequena, “é o fim do mundo”. Ficamos tristes com pequenas coisas e acabamos por perder tempo com o nada. Por nada. E não damos o abraço que desejamos e que o olhar do outro pede. Não nos aproximamos o quanto baste para não expor a nossa fragilidade emocional e nem sequer fazemos aquele carinho que tanto nos apetece, porque não estamos acostumados e nos sentimos retraídos. Nem dizemos vezes suficientes “gosto de ti”, porque achamos sempre que o outro sabe quanto isso é verdade. Mas reclamamos muito do que não temos, do que não é suficiente, do que chegou tarde, do que os outros têm a mais e nós não temos. Também consumimo-nos fazendo cobranças dos amigos, da família, dos que nos são alguma coisa ou coisa nenhuma, enfim, da vida. E, por fim, até de nós. Fazemos comparações, demasiadas comparações com outros, mas só com quem tem mais para nos podermos lamentar, achando injusto. Mas nunca nos comparamos com quem tem menos que nós, porque com esses deixamos de ter argumentos para reclamar.

A Luísa tinha muita vida e alegria de viver, saúde e relações, trabalho e preocupações. E perdeu (quase) tudo de um momento para o outro ao ficar presa a uma cadeira de rodas e a um mundo psíquico que é só seu e ao qual não temos acesso. A sua saúde virou-se por completo e deixou-a dependente da ajuda dos outros, do levantar ao deitar, para se vestir, cuidar, movimentar e tudo o mais. Mas, apesar da ausência e desorientação no espaço e no tempo, manifesta de onde em onde o seu sentido de humor oportuno e incisivo, como aconteceu depois da minha caminhada matinal com a Becas. Ao passar pelo barbeiro aqui perto de casa, vi que ele estava disponível. Por isso, disse à Luísa logo que cheguei cá: “Vou cortar o cabelo”. E ela, numa reação instantânea que lhe é tão característica e atrás dum sorriso irónico, questionou-me: “Que cabelo”? 

Mas o que é extraordinário e mais me impressiona e sensibiliza é que, no seu maior ou menor mutismo a que a falta de saúde a remete e na dificuldade que em certos momentos tem em expressar por palavras o que lhe vai na mente e no coração, há uma coisa de que raramente se esquece: “Agradecer”. Quando a ajudamos a levantar, agradece. Se a formos vestir, volta a agradecer. Se a ajudarmos a cuidar de si, claro que agradece. Se lhe servimos a refeição, lhe chegamos alguma coisa, a levamos de um lado para o outro ou o que quer que se lhe faça, a Luísa não deixa de manifestar a sua gratidão e da sua boca ouvimos muitas vezes ao dia um “muito obrigado”, independentemente de ser da família ou de alguma das pessoas que aqui trabalha. Mas não se fica pelo agradecimento. Não lhe é suficiente. E por isso, manifesta os seus sentimentos por cada um de nós, individualmente e com muita frequência, com um abraço, um beijo e, mais vezes ainda, com “gosto muito de ti”. Apesar dos seus diversos condicionamentos, a Luísa usa o coração para expressar em palavras de gratidão os sentimentos que nutre por nós, sem filtros, sem constrangimentos e sem inibições. E o quanto somos importantes para ela e por fazermos parte da sua vida, pelo abraço, pelo carinho, pela ajuda, pela atenção, pela companhia, pelo apoio, pela companhia. Até chega a expressar, com alegria e boa disposição, o “obrigado por existires, senão tinhas de ser inventado”.

A doença remete-a muitas vezes ao silêncio, parecendo estar ausente e fechada no seu mundo, como na noite em que no canal 1 da RTP decorria um programa do “Prós e Contras” dedicado à questão da redução do IVA que o governo propôs no orçamento de estado para uma parte dos espetáculos culturais assentando a discussão se essa redução devia ser também alargada aos espetáculos de tauromaquia, sob o tema de “Touradas – Cultura ou Tortura”. A Luísa quis assistir ao debate que acompanhou desde o princípio com muita atenção, até porque a discussão estava muito acalorada entre os dois lados em confronto. Quando o programa foi interrompido pela apresentadora e nos mandou para intervalo, impingindo a publicidade do costume, ela deu uma gargalhada e disse com ar de gozo: “Está visto que não vão chegar a conclusão nenhuma porque o maior interessado nesta discussão, nem está lá”. Como estava meio distraído, com um olho na televisão e outro no computador, acabei por fazer aquela pergunta inocente: “Quem”? E ela respondeu, como se já estivesse à espera da pergunta: “O Touro”.

Por norma, somos mal agradecidos pela vida que temos e que foi feita (quase) sempre por nós. Até no seio da família reclamamos do copo fora do sítio, das botas sujas, dos pelos que o cão larga, da luz acesa e de milhentas ninharias, as pequenas chatices que fazemos questão de transformar em problemas. Só quando temos problemas de verdade como as doenças é que esses nadas com que andamos entretidos são esquecidos para focarmos o olhar no que importa. Deixamos pouco por reclamar e muito por agradecer, de tal forma que W. Shakespeare dizia: “Aprendi que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo o que lhe pedimos”. 

Ora, não sei se pela doença, se pela sua índole, a Luísa agradece por todas as pequenas coisas e lembra-nos do quanto gosta de nós. Sempre. Estou longe de estar ao seu nível. Já para não falar no humor subtil. Já perto do Natal, o país foi assolado pela tempestade “Elsa”, com vento e chuva forte que provocou muitas inundações. Enquanto a minha cunhada lamentava a situação dos casos mais dramáticos, a Luísa tinha os olhos postos na televisão onde se sucediam imagens atrás de imagens, com inundações em prédios, ruas que até pareciam rios e rios saídos fora de margens que mais pareciam lagos. Depois de ver aqueles cenários de tragédia em que havia água por todo o lado como se fosse um mal geral, sem mais nem menos a Luísa comentou: “Estou a ver que tenho de comprar umas barbatanas” …

Não gosto de moda, nem de “apertos”…

“Parece impossível. Ainda usas esses calções velhos e rotos? Não tens vergonha”? É isto que ouço de vez em quando cá por casa sempre que me veem com os calções azul marinho, bastante puídos na parte dos “glúteos” (aquilo a que vulgarmente chamamos de “rabo”, “nádegas” ou “cu”), de tal forma que já começaram a romper. 

“Não vês que tem um buraco e parece mal”? Como sou dos que têm dificuldades em me separar de uma peça de roupa que uso regularmente e com que me sinto confortável, respondo: “O buraco é para deixar entrar o ar. É uma “área de serviço” que precisa de ser bem arejada. Também serve para se “esgueirarem” os gases que saem do “tubo de escape”. Já estou na fase da vida em que a capacidade de “produção de metano” está no máximo e não pode ser retida. Tem de sair por algum lado” … aliás, se estão na moda as calças rotas, algumas com tantos rasgões e tão grandes em que pergunto a mim mesmo se “as calças serão feitas de pano com buracos ou de buracos com pouco pano”. Ora, porque é que os meus calções não podem ser tidos como estando na moda, até porque não há grandes diferenças entre calças e calções, a não ser no tamanho das “pernas”? Assim, já não teria de ser chamado à atenção e, pelo contrário, talvez mesmo elogiado por “andar na moda”. É tudo uma questão de conceitos …  

Enfim, o que acontece com estes calções, repete-se ainda naquele par de sapatilhas – para quem não sabe o que são, devo esclarecer que há também quem as trate por “ténis” … – rotas de lado e com um grande buraco na sola que mais parece um olho de elefante; ou com o par de sapatos “vela” a que me habituei porque calçam tão bem, que tenho a sensação de andar descalços. Entre eles, que nunca os sinto quando caminho, e uns novos que me apertam os calos e fazem sofrer o dia todo, está bom de ver qual é a minha opção. A minha e a de muitos outros como eu, que trocam a apresentação pela comodidade. E nas calças de ganga, na camisa e no blusão tão coçado. É verdade, tenho mais roupa no armário, mas repito quase sempre as mesmas peças. “Coisa de homens”, dizem elas com ar crítico. “Mania de mulheres”, pensamos nós, já que não o podemos dizer … Admiro-me com a capacidade de sacrifício de muita gente, especialmente das mulheres, ao “aguentarem forte e feio” as dores nos pés com aqueles sapatos novos e com “ponta em bico”, que apertam de tal forma os dedos dos pés, que chegam a “encavalitar” porque o espaço não é suficiente para todos, num sofrimento continuado, e mesmo assim ficam com eles calçados até ao fim do casamento ou qualquer outra cerimónia, em nome do visual que eles lhe conferem. É obra. Cá por mim, prefiro usar sapatos velhos a ter de me submeter a tal sacrifício. Era o que faltava. Não há nada como andar calçado com a sensação de estar descalço …

Não sou um cliente de modas, muito menos fiel seguidor e escravo delas. No vestir e no calçar a minha prioridade vai para o confortável. E isso quer dizer “largo”, bem “à vontade”, por forma a não me sentir apertado em qualquer parte do corpo, da cabeça aos pés. É que, se há coisa que detesto é sentir-me “apertado”, seja a que título for. Não sei como é possível alguém “enfiar-se” numa daquelas calças tão justas, tão justas, que até se notam as “pregas da pele”. Devem fazer cá uma ginástica em cima da cama, com as pernas ao alto e a puxar bem para conseguir fazer entrar um corpo XL numas calças tamanho S. Tal só é possível pela elasticidade do tecido, que se sujeita a tudo. Se gosto de ver? Claro que sim … mas só nas mulheres. Especialmente naquelas em que as “ondulações do corpo merecem ser realçadas, pois é nelas que a palavra anatomia faz todo o sentido e (às vezes) dá gosto ver …  A moda é um dos instrumentos principais que a indústria usa para nos fazer consumir mais e mais. Por isso tem de mudar todos os anos por forma a “sermos obrigados” a trocar de roupa, calçado e muitas outras coisas com regularidade, mesmo que os artigos que possuímos ainda estejam novos. Para os “manipuladores” das nossas vidas (e do nosso bolso, porque tudo tem a ver com isso), de um dia para o outro tudo deixa de ser novo, apesar dos nossos olhos verem o contrário. Mudam rapidamente de estatuto e viram “desatualizados”. E nessas mudanças impostas pela ditadura da moda, umas veze as roupas alargam e outras apertam. Ora, como não me dou lá muito bem com os “apertos”, aproveito e vou usando as que me agradam (apesar de largas) e fico à espera, até porque, mais dia menos dia voltam a estar na moda … “Diz-se que na moda, só é novo o que já está esquecido” …

Sei que os que me estão próximos preocupam-se com o meu visual. E, como defendem o “estar na moda”, quando uso as calças mais largas nos ditos “glúteos” me vêm logo com uma crítica (intencionalmente boa), de algo como: “Já te viste ao espelho? Olha bem para as calças que trazes e diz-me lá se achas que é roupa que se use? Das duas uma: ou te falta rabo ou sobram calças” …

A indústria da moda mantem uma fórmula que combina consumo desenfreado com exploração de mão de obra. A roupa não fala, mas pode transmitir informações (certas ou erradas) de que quem a veste é alguém atualizado, com dinheiro, e dando a ideia de prestígio e até ascensão social. A moda tornou uma grande parte das pessoas suas escravas, fieis seguidoras, que se sentem infelizes se não puderem usar o que os estilistas ditaram como moda para aquela estação. E a moda não se fica pela roupa, pois estende-se ao calçado, acessórios, penteados, cortes de cabelo, relógios, telemóveis, óculos, automóveis e até casas para além de uma infinidade de produtos e serviços que crescem em número e variedade a cada minuto que passa. Mas o grande perigo da moda é o consumo exagerado e sem necessidade, puro consumismo por vaidade, quando não transformado em doença.

É que vivemos numa época em que o importante nem sempre é ter dinheiro, mas parecer rico …

Cuidado com o cão …

O primeiro cão que tive cá em casa foi um “Serra da Estrela”, grande e bonito, com um “vozeirão” que metia medo. Foi-me oferecido pela minha cunhada que vive junto à serra que lhe deu o nome a quando do nascimento do meu filho mais velho. Veio como cachorro pequeno e cresceu, cresceu, transformando-se num “canzarrão” peludo de que as visitas tinham medo. Ainda pensei colocar à entrada uma daquelas placas a avisar que tinha um cão, mas a verdade é que o bicho parecia mais um carneiro do que o canino guardador da casa de tão meigo e manso que era, apesar de, ao ouvir um ruído estranho lá ao fundo da rua, correr ao portão e ladrar feito trovão, o que poderia ser muito intimidador para quem ouvisse, mas não conhecesse. Pensando bem, desisti de a colocar porque seria enganar quem chegasse. 

No entanto, não posso deixar de me aperceber das placas colocadas por aí abaixo em paredes e portões de entrada de muitas casas, com o típico aviso: “Cuidado com o cão”. Encontro uma grande variedade de placas que tanto podem ser metálicas como compostas de um ou vários azulejos, mais ou menos artísticos, cravados no muro exterior junto à porteira ou portão, com letras vulgares ou rebuscadas e, quase sempre, tendo a pintura duma cabeça de cão, por norma com ar ameaçador. Sou um curioso deste tipo de avisos e até acho piada nalguns casos em tanto conheço os donos como os cães pois “a cara não bate com a careta”. É que os avisos são excessivos, ameaças falsas. Apesar do ar ameaçador da cabeça do cão utilizado para, de forma explícita, intimidar quem quer que se aproxime com boas ou más intenções, a mensagem pode ser real ou não passar de um enorme “bluff”. Por norma, a intenção é alertar para o facto de se ter um animal perigoso em casa, daqueles que, no mínimo, nos podem “agarrar pelos fundilhos das calças”. No entanto há quem se aproveite do cão e o “intitule” de perigoso para intimidar os intrusos quando, afinal, o cão que lá vive é igual à minha cadela Diana que só ladrava de “alegria”. A existir nessas casas algum “animal perigoso”, terá de ser outro e, para que faça sentido, há quem ache que a frase deve ser trocada por: “Cuidado com o dono do cão”. Recentemente, vi num desses avisos um acrescento pintado à mão, que me fez pensar ter sido escrito por alguém que, provavelmente, já teria sido ali “mordido” e que dizia: “Cuidado com a mulher do dono do cão” …

É verdade que, muitas vezes, quando entramos numa casa com o tal aviso pregado no muro da entrada onde o cão tem um ar ameaçador, acabamos por ser confrontados com um animal que mais parece um carneiro manso ou um gato que passa a vida a ronronar. Se ousarmos perguntar ao dono do bicho porque razão tem aquela placa no muro de entrada, ele vai pedir-nos para não dizermos nada a ninguém para não denunciarmos o embuste e ficar a “ameaça” de um cão perigoso, pois, como diz o ditado, “o medo guarda a vinha”. E basta constar que o animal é perigoso …

Mas há mais razões para se colocar o aviso. Ao entrar numa loja, o homem vê um cartaz pendurado na porta onde se lê: “Cuidado com o cão”. Enquanto faz as compras, olha para um lado e para o outro com receio, tentando precaver-se se o animal aparecer perto de si. Foi já quase a sair da loja que, para sua surpresa, encontrou um cão muito pequeno. Ao vê-lo, aproximou-se da senhora que estava na caixa e perguntou-lhe: “Este é o cachorro com que tenho de ter cuidado”? “Exatamente”, respondeu a empregada. “Mas não me parece que seja perigoso”, quis saber o cliente. “Na realidade, não é”, retorquiu a senhora. “Então, porque é que está ali o cartaz à entrada a dizer para termos cuidado com o cão?”, quis ele saber. E soube: “Porque antes, toda a gente o pisava” …

Os avisos entendem-se como preventivos para quem vai entrar numa propriedade onde o animal anda à solta, mas de nada servem para quem passa na rua, a não ser que, mal veja o cartaz à distância, “dê de frosques” que é como quem diz “se ponha a milhas”. E os que não têm cartaz? Há dias ao fazer a minha caminhada matinal atrás da Becas, ao passar junto de um grupo de vivendas, um cão de porte grande que estava na varanda do primeiro andar de uma das casas pregou-nos um susto ao atirar-se por cima da grade de varanda estatelando-se no passeio, para se levantar, atravessar o jardim e com outro salto passar o muro da rua. Num ápice, atacou e dominou a Becas. Estive tentado em dar-lhe um pontapé, mas acabei por o agarrar na parte de cima do pescoço e arrastar de cima dela, até aparecer um rapaz aflito para o levar. Qual deveria ser o cartaz desta casa?

Também já encontrei alguns em que o dono soube pôr uma pitada de humor para aligeirar o teor da mensagem. Pendurado no portão de ferro da entrada de uma quinta podia ler-se, numa letra irregular, o seguinte: “Cão – Cuidado. É proibida a entrada a doentes do coração, bêbados e cagões”. Naquela propriedade só podiam entrar “homens de barba rija”, que não ficassem com as calças molhadas ao primeiro sinal do cão … 

Se tivesse um desses locais onde se “encharca” gente com álcool, teria um letreiro igual a este: “Aqui não entra bêbedo … só sai. – Bar do Quim Latas”. Se tivesse um degrau perigoso, optaria por colocar um aviso igual àquele a que achei mais graça até hoje: “Cuidado com o degrau. O Joaquim quebrou o pé e o Manel t´á Manco”. Mas, como tenho uma cadela que se chama Becas, a colocar algum aviso no muro junto à entrada, seria assim: “Cuidado, com a Becas. Se ela fugir, você assusta. Deitando-se, coce-a. Se correr e ladrar, está feliz. De qualquer maneira, por favor, não a morda” …

Lembrar de quem nos diz muito …

Na pressa dos dias ficamos demasiado focados no (muito ou pouco) que temos para fazer e esquecemo-nos de muitas pessoas que fazem parte da nossa vida, amigos de longa data que deixamos escondidos pelo tempo que lhes não damos. E, longe ou perto, ausentes ou presentes, estando em contacto com regularidade ou muito esporadicamente, são parte de nós. Às vezes questiono-me como é possível deixar passar semanas, meses e até anos sem dizer um “Olá” sequer a familiares, amigos de infância, da escola, do liceu, da faculdade, do serviço militar, da comissão de serviço no ultramar, do trabalho ou mesmo do ginásio, alguns a viver na mesma rua ou localidade, mas que parecem tão “distantes”. Ocupados no corpo e na mente, deixamos que o tempo corra, voe e se nos escape das mãos ao ponto de ficarmos surpreendidos e muito admirados de como foi possível passar tanto tempo sem vermos este ou aquele de quem gostamos. Nesta estúpida corrida em que transformei a minha vida, lembrei-me há dias de um amigo com quem partilhei muito da minha adolescência e boa parte da vida de adulto. E, com quatro dias de atraso, telefonei-lhe para lhe dar os parabéns pelo seu aniversário, para lá dos oitenta anos. Não o vejo há alguns meses e por isso foi bom ouvi-lo. No entanto, apanhei um choque que me deixou triste e preocupado por sentir que ele começou a desistir de lutar para se conservar entre nós. É tramado ouvir alguém dizer que já “não ando cá a fazer nada” e que sente de forma avassaladora e terrível a solidão, apesar de ter mulher e filhos. Mas “não tem companhia”, diz ele. E as suas limitações físicas mais o deixam dependente e condicionado na mobilidade como refém solitário da disponibilidade, da vontade e querer dos que lhe estão por perto. Ou, pelo contrário, bem longe, apesar de ser “curta a distância que os separa. Aproveitei para falarmos desse “ontem” que já tem décadas, das festas e patuscadas, das alegrias e tristezas, dos convívios e ausências, dos sucessos e falhanços. Partilhamos memórias porque estamos naquela idade onde se vive muito de recordações, das histórias de vida. Sem querer, voltamos ao passado que vivemos juntos, olhando as aventuras da nossa juventude e falando das músicas desse tempo. Perguntamos pelos filhos e manifestamos as preocupações sobre eles que carregaremos sempre e de que não conseguimos libertar-nos.

Disse-me que, pior do que sentir-se doente, é estar com o sentimento de que já entrou num plano inclinado de onde não lhe parece ter escapatória, até porque nem forças tem para sair. Está a desistir de tudo, a começar de si mesmo, ele que adorava viver a vida, aproveitar cada momento como se fosse o último. Parece que já nada o motiva, que já não tem uma única razão para se levantar pela manhã. E nem o tempo triste e sombrio tem ajudado …

Não sei se é por estarmos no inverno, a estação do ano mais “inimiga” das pessoas de idade pela “ceifa” que faz em consequência do frio, das doenças da época ou da tristeza dos dias sem luz e sem companhia, mas é verdade que me falaram vários amigos “velhos” a quem a vida levou por outros “trilhos” e que se vão cruzando com o meu de vez em quando. E o filho de um desses “velhos amigos” fez-me chegar através de terceira pessoa uma daquelas mensagens que mexem connosco e não nos deixam indiferentes: o pai estava de cama muito doente e não parava de falar em mim, contando-lhe histórias com mais de seis décadas e manifestando o enorme desejo de me voltar a ver antes que o tempo lhe seja roubado e já não haja tempo para nos encontrarmos. Saber uma coisa destas provocou um misto de emoções e comoveu-me, especialmente porque se trata de alguém que é um pedaço da minha história e foi meu “professor” nessas pequenas coisas que a escola não ensina. 

Não demorei a ir visitá-lo no seu leito de doença e foi particularmente emotivo o reencontro, onde não faltou algum brilho de olhos húmidos. Naquela tarde deixei-me ali ficar sentado numa cadeira junto à cabeceira da cama onde passa os dias desde que veio do hospital, perdido no passado, ouvindo-o muito mais do que falando, porque ele estava muito entusiasmado e até orgulhoso de me ter ali. O momento era dele e não lho podia roubar. Precisava de desabafar e recordar as nossas vivências de crianças e adolescentes, aqueles tempos de pobreza e miséria porque foram muito duros. E, na verdade, tem nesse passado a difícil experiência de sobreviver. Porque, muito mais que viver, sobrevivia-se. Como eu e meu irmão tivemos a felicidade de termos um pouco mais, partilhávamos com ele e outros esse pouco que, nas palavras dele, era muito.

Falou muito, como se fosse uma necessidade. Recordou alguns dos seus trabalhos de “latoeiro”, a sua profissão de então e para a qual tinha jeito natural acima da média, que lhe permitia moldar a chapa como queria. E dos preços incríveis para os diversos tipos de vasilhas que fabricava na sua pequena oficina, dos regadores aos baldes, dos almudes aos cântaros e muitas outras. Mas, sobretudo, evocou esses tempos de miséria onde conseguir alguma coisa para comer era uma conquista, fosse o que fosse. E, para ajudar a suprir essa carência alimentar básica, na época da fruta recorria-se às cerejeiras, macieiras, castanheiros, pereiras e outras que bordejavam os campos feitas “tutores” das “videiras de enforcado” a par dos lodos e plátanos. Com ele aprendi que as melhores cerejas eram nas Cepas, as maçãs “Verdeal” só existiam na Quinta da Aldeia, os diospiros no Souto e os figos em casa da minha avó. Pensando bem, enquanto as aves comiam a fruta da extremidade dos ramos, nós éramos “as outras” que aproveitavam só aquelas onde podíamos chegar. Falou das incursões ao vinho doce da Quinta de Talhos “sugado” diretamente do lagar através de uma cana da Índia comprida que ele se deu ao trabalho de furar para usar como tubo de sucção. E recordou o grupo acantonado na mata por detrás da adega, “chupando” à vez através da gateira por cima do lagar … Lembrou ainda, sem compreender, como o meu irmão António tirou uma fotografia ao nosso grupo, usando para o efeito uma simples lata de óleo de litro com um furo no fundo, que abria e fechava imprimindo a película colocada previamente dentro da lata. Falou muito do passado, animado pela presença de alguém que vivera com ele muitos desses momentos, tendo de parar quando as dores eram mais fortes, até manifestar sinais de cansaço. 

Saí de lá com a convicção de que a visita ao meu amigo foi muitíssimo importante para ele por várias razões, mas especialmente por “validar” os relatos que costumava fazer aos seus sobre os tempos difíceis que passou, diria mesmo que a raiar a sobrevivência, e em que não é fácil acreditar, sobretudo por quem teve sempre comida na mesa à discrição, usufruiu dos comodismos e consumismos deste tempo e nunca passou fome nem privações …    

“Não tenho nada para calçar” …

Ao passar em frente à loja não pude deixar de ler o cartaz colocado na montra: “Todo o calçado a 1 Euro o par”. Durante a tarde o cartaz não me saiu da cabeça, não propriamente pelo preço insignificante que o mesmo pedia a quem quisesse levar um par de sapatos ou botas, mas porque o meu pensamento recuou no tempo e fez-me voltar à minha infância e à escola primária de Macieira. É que a quase totalidade dos meus colegas ia para a escola com os pés descalços, porque a família não tinha condições económicas para lhes comprar calçado e nesses tempos de miséria e privações, não havia saldos, promoções e outras formas de “despachar” artigos a qualquer preço, porque não existia indústria. Tudo era manual, nomeadamente o fabrico de calçado. Na minha aldeia era o senhor Pereira da Coutada (o lugar onde morava) quem fazia os sapatos e botas manualmente. Sempre o conheci como sapateiro e, apesar de ter um feitio especial, passei bastante tempo sentado junto dele a vê-lo cortar e coser o cabedal ajustado à fôrma até fazer surgir algo que se ajustasse ao pé. Gostava do cheiro a cera com que ele me deixava encerar o fio “norte” que usava para cozer o calçado, usando para o efeito a “sovela” e uma “cerda” de porco na ponta do fio. Numa ocasião, o meu pai aproveitou um pneu que tinha rebentado e levou-lho para dele tirar as solas com que depois fez um belíssimo par de botas para mim e outro ao meu irmão António.

À escala temporal, calçado a 1 Euro não era possível. Num tempo em que não se produzia riqueza, não havia riqueza para distribuir e nem sequer comprar bens de consumo tão essenciais como o calçado. Bem antes disso estava a comida, mais prioritária como se compreenderá. Depois, ainda vinha a roupa. E o calçado era dispensável, porque não se considerava prioritário. A maior parte do pessoal andava descalça, desde as crianças, aos adultos e velhos, que nunca eram muito velhos. E, apesar disso, nenhum deles dizia: “Não tenho nada para calçar”!!! Quem estivesse ligado à agricultura, usava socos. Eu tive “chancas”, com base de madeira. Quando jogava a bola (feita com meias velhas cheias de trapos) com os colegas de escola num qualquer caminho de terra, apesar de usar as minhas “chancas” e eles jogarem descalços, quem apanhava caneladas era eu. Andavam descalços todo o ano, de inverno e verão, ao sol e à chuva, com frio ou calor, de tal forma que a sola do pé parecia mais grossa que a sola dos sapatos. Só ao domingo, para ir à missa, havia calçado. Em 1926 saíra uma lei a proibir andar descalço nas cidades e resultou, pois mais de vinte anos depois era difícil ver alguém sem calçado numa cidade como o Porto. No meio rural como o nosso, tal não acontecia. Só em 1956 é que nova lei veio alargar a todo o território nacional, embora tivesse custado muito a pessoas habituadas a não usarem calçado. Poucos meses depois de sair a lei e com as autoridades a tentarem que fosse cumprida, deu-se por cá uma cena caricata. Uma mulher ia descalça por um caminho de terra até este se cruzar com a estrada nacional, continuando do outro lado. Quando ia a atravessá-la, foi surpreendida por dois elementos da GNR, que lhe disseram estar a infringir a lei por andar descalça e, por isso, teria de pagar multa de dois escudos e cinquenta centavos. Na sua ignorância e boa dose de “santa inocencia”, respondeu-lhes: “Desculpem-me, eu só vou atravessar deste lado para aquele e não rompo nada a estrada” …  

Nesse tempo, andar descalço era normal. Diria até que muita gente tinha dificuldade em andar calçada, pois era frequente vermos quem caminhasse descalço com as botas ou sapatos de atilhos amarrados e penduradas num pau que carregavam às costas. E fazia-se tudo sem calçado: tanto se ia descalço para a escola, como à “benda” ou à água; lavrava-se e sachava-se milho e batatas com os pés na terra, como se vindimava ou cortava erva. E até se ia ao monte “cortar mato” com os pés nus e sem nada calçado, apesar do mato (tojo) ser bravo e cheio de picos. Como se andava descalço, com facilidade se furava o pé, com pregos ou “estrepes”. O “calçado” mais comum dos homens eram os socos e nas mulheres as socas. Alguns homens usavam “solipas”, uma espécie de sandália com base de madeira a servir de sola, senda a tábua lisa com o feitio do pé e uma tira de cabedal a atravessar onde se enfiava os dedos. Já as “chancas”, um calçado grosseiro com base de madeira e cano de cabedal, eram mais usadas por crianças. Sendo o calçado utilizado somente por aqueles que tinham alguma condição económica, mesmo assim privilegiavam-se as botas, muitas vezes com sola de pneus usados para não serem tão caras. Já estudava no colégio quando o meu tio Peixoto me ofereceu um par de sapatos, sendo um muito diferente do outro. A verdade é que os usei sempre até ao fim, sem qualquer problema ou preconceito, porque eram … sapatos. E isso é que era importante …

Mas os tempos mudaram. Inicialmente, devagar, mas a partir de uma certa altura, de forma acelerada, à medida que a indústria evoluiu e se foi desenvolvendo, criando riqueza, produzindo produtos cada vez mais baratos, que passaram a ser acessíveis à maioria da população. E entre esses produtos estava e continua a estar o calçado, com uma gama de modelos e tipos impressionante que nos meus tempos de juventude jamais imaginaria. Daí que hoje a capacidade produtiva das empresas é quase infinita e a única dificuldade é somente a do escoamento dos produtos, tal é a concorrência. E assim há os sapatos de luxo, os modelos exclusivos e com assinatura, os convites àqueles clientes que as lojas têm referenciados como “importantes” (“tenho um par lindo e único que condiz com o seu vestido …”), as promoções, saldos, rebaixas, “stock-off”, “outlets” e toda uma série de invenções que o marketing e a publicidade criaram para “impingir” produto e mais produto, muito para além das nossas necessidades reais. E por isso temos as casas atafulhadas com todo o género de calçado, muito dele que nem sequer chegou a ser “estriado” ou só foi usado uma vez, para andarmos quase sempre com o mesmo. Mas o curioso é que há para aí muito boa gente que, quando abre a porta do quarto e olha as dúzias e dúzias de pares bem alinhados, como soldados à espera de serem convocados para o serviço, ainda tem “lata” para mostrar uma cara de “desgraçado”(a) e murmurar ou gritar: “Não tenho nada para calçar”, como também dizem “não tenho nada que vestir” perante um roupeiro enorme atafulhado de “trapos” até à porta … Uma terrível ofensa para aqueles que não tinham mesmo!!! Deveria ser possível recambiá-los por uns tempos a essa época do “pé descalço” para receberem um “tratamento” de humildade e talvez passassem a agradecer e valorizar tudo o que têm a mais em vez de derramarem “lágrimas de crocodilo”, num insulto vergonhoso aos que realmente precisam … 

Será que também sou judeu?

Se somasse todos os minutos que passei na vida em frente ao espelho a cuidar da “caixa dos pirolitos”, diariamente, correspondia a cerca de cem dias seguidos. Ora, estar 100 dias a olhar esta cara que é a minha para nunca ter descoberto que “sou descendente de judeus”, das duas uma: ou estive sempre a dormir ou sou um descendente degenerado, que perdeu os traços característicos desse povo, como o nariz grande e curvo, testa alta, olhos redondos e escuros, além das clássicas boca e orelhas judaicas. 

Dizem os estudiosos que nos meus antepassados há judeus. E já agora, não se surpreenda porque o mesmo acontece consigo, tal como a grande maioria dos portugueses. Surpreendido? Também eu. Se calhar, talvez mal informado. Se o seu sobrenome é Almeida, Cardoso, Carvalho, Teixeira, Castro, Marques, Fonseca, Melo, Nunes, Pereira, Rodrigues e muitos outros de uma extensa lista, pode crer: “Tem costela de judeu”. O meu Machado no sobrenome também faz parte da lista, tal como o Lousada. Reza a história que a Península Ibérica no ano de 1.400 foi o centro do judaísmo no mundo. Quando perto do final desse século os judeus espanhóis tiveram de fugir da Inquisição no país para salvarem “a pele”, entraram cá em Portugal cerca de 100.000 que, ao juntarem-se aos outros 100.000 judeus que cá estavam instalados há muitos anos, passaram a constituir vinte por cento da população. É por essa razão que os historiadores dos “judeus sefardistas”, nome pelo qual são conhecidos os judeus com origem na Península Ibérica, dizem que a maioria dos portugueses tem raízes judaicas, e percebe-se porquê. Eu e você incluídos.

Vale a pena ler a história dos judeus sefardistas que aqui viveram e de quem, eventualmente, somos descendentes. Porque também aqui em Portugal a intolerância religiosa os obrigou a fugir por medo da Inquisição ou a converterem-se ao cristianismo (e chamados cristãos novos), numa altura em que encarnavam o mais alto nível cultural, estético e moral da Europa. Não deixa de ser curioso que, apesar de perseguidos, de queimados e mortos aos milhares como foi o caso do massacre de Lisboa em 1506, Portugal e Espanha permaneceram e permanecem ainda no imaginário das famílias dos seus descendentes mais de 500 anos depois, como Terra da Esperança e Prometida. Para muitos desses judeus, que nasceram e viveram as suas vidas fora e nunca puseram os pés em Portugal, o fim da história e o seu é cá, não em Jerusalém. Os descendentes daqueles que fugiram e se encontram espalhados pelo mundo, ainda hoje possuem chaves medievais das casas dos seus antepassados que viveram em Portugal, apesar das casas já não existirem. Após as muitas perseguições de que foram alvo, a cultura sefardista continuou ao longo de séculos conservando orações em português. Vendo bem, foram humilhações, perseguições, expulsões, conversões forçadas e massacres a mais para um povo só. Mesmo assim, sobreviveram a egípcios, babilónicos, romanos, persas, soviéticos, gregos, alemães, enfim, a todo o mundo e a saga continua. 

Mas, se for verdade que tenho uma parcela de judeu, também posso estar feliz por “fazer parte do povo escolhido por Deus”. Até porque, Jesus e os doze Apóstolos eram judeus, tal como Abraão e os muitos cientistas, historiadores e outros ilustres cidadãos do mundo que, em elevado número, ganharam o Prémio Nobel. Terá sido por acaso ou sinal de que são mesmo “um povo escolhido”, ao menos pelo júri que o atribui?

Se eu for judeu – e vou procurar uma empresas certificada que ateste isso em documento oficial, ainda que tenha de meter uma cunha ou dar um dinheirito por fora – passarei a pertencer ao povo de Albert Einstein a Ralph Lauren e Calvin Klein, de Anne Frank aos criadores do Google Larry Page e Sergey Brin, de Karl Marx, um dos homens mais influentes da humanidade, ao criador da Marvel e dos “heróis” Homem-Aranha e os Vingadores. Mesmo que não tenha sangue 100% judeu, pode ser o suficiente para ser um psicólogo como Sigmund Freud, talvez um criador como Levi Strauss (calças Levis), maestro como Leonard Bernstein ou filósofo como Milton Friedman, todos eles judeus retintos. E se tivesse o tal nariz grande e curvo, diria que era igual ao da Bárbara Streisand, do Dustin Hoffman, Harrison Ford, Jessica Parker e tantas outras estrelas de cinema, podendo vir a ser escolhido pelo tamanho da “penca” para fazer uma “fita qualquer”.

A verdade é que, podendo ter ou não algum sangue judeu, para além do tal “nariz adunco ou aquilino”, falta-me mais alguma coisa porque o sucesso, seja nos negócios, na criatividade, na investigação ou nas artes, não se alcança sem uma boa preparação e muito trabalho. E não é por acaso que são o país com a maior média de universitários por habitante no mundo e que produz em média maior número de documentos científicos.

Mas tudo isto para dizer que não sei se em mim corre sangue judeu, apesar de haver fortes probabilidades dado que eles chegaram a ser um quinto da população portuguesa, portanto, muitos de nós. E isso incomoda-me? De jeito nenhum, pois não é essa possibilidade que faz de mim um judeu. Tendo sido educado com a palavra “judeu” a ter uma certa carga negativa – e as razões dessa “sina” foram mudando ao longo dos tempos – aquilo que tenho lido sobre esse povo errante, sofrido e resiliente leva-me a ter por ele um enorme respeito. Diria até, certa admiração porque, apesar dos muitos condicionamentos, geraram entre os seus sem número de pessoas ilustres, muitíssimo acima de qualquer outro país em termos proporcionais, que deram um enorme contributo para o desenvolvimento económico, social, tecnológico e cultural da Humanidade e a quem se deve muito do nosso bem estar. 

Por isso, fica-me a curiosidade: “Será que também sou judeu”?