Quer um conselho? Não roube. Desvie …

Não sou juiz, nem pretendo julgar ninguém. Sou um simples cidadão que, dos tribunais, só gostaria de ter notícias através da comunicação social. Mas não, também tenho a minha dose, especialmente no que toca a esperar. Esperar no átrio da entrada para saber se há ou não há julgamento. Esperar anos e anos para que o julgamento tenha um fim. Ir a tribunal para ser ouvido como testemunha e esperar toda a manhã ou a tarde sem sequer ser ouvido, tendo de lá voltar outra vez, quando não mais algumas vezes, sem que alguém tenha respeito por nós testemunhas, como se fossemos escravos que podem ser usados quando e como o sistema quiser. E sem direito a reclamar. Mas não é sobre isso que hoje escrevo, mas de algo que me parece um paradoxo. Julgo que a Justiça portuguesa é só uma, com as mesmas leis para todos os tribunais e que, à luz dessas leis, julgamentos e sentenças devem ter uma linha comum, com coerência, onde ninguém se sinta discriminado por ser rico ou pobre, mais gordo ou magro, mais alto ou baixo, da religião A ou B, do partido centrista ou comunista, ou por ser branco ou negro. A verdade é que, às vezes, não parece que assim seja. “Todos somos iguais, mas um são mais iguais do que outros”. Ou parecem …

O tribunal de Aveiro julgou um antigo funcionário bancário por ter “desviado” 286.000 euros de clientes, tendo sido condenado a três anos e meio de prisão … com pena suspensa por igual período. Ainda foi condenado ao pagamento de 35.000 euros, a serem pagos em sete prestações de 5.000 euros cada. Só vai “bater com os costados na cadeia” se não pagar a “multa”. Caso cumpra, pode fazer com o resto do dinheiro ROUBADO o que quiser, sem que tenha de pagar por isso. O que “até acho bem”, pois o homem precisava de ser recompensado pelos momentos de angústia – se é que os tinha – sempre que “estava a meter a mão no prato”, ou melhor, “na conta dos clientes”. Daí ser justa a “pena suspensa”, até porque eu nem era cliente do banco …

Que é que isto tem de original? Nada, até porque o bancário não fez nada de mal. Não roubou. Ele “DESVIOU”, o que é bem diferente de ROUBAR. Que não haja confusões. Ladrão, ladrão é aquele malvado que o tribunal de Braga acaba de condenar a um ano e meio de prisão efetiva por ter roubado a avultada quantia de … 6,00 euros. Repito e por extenso: SEIS EUROS!!! No julgamento, o arguido confessou o crime, mostrou-se arrependido e pediu desculpa à vítima. Disse que na altura consumia estupefacientes e “andava desesperado” por falta de dinheiro para comprar droga. Segundo a acusação, ele abeirou-se da vítima, disse-lhe que tinha uma faca e exigiu que lhe desse todo o dinheiro que tinha consigo. E a vítima deu-lhe a carteira com 6,00 euros, que ele levou, pondo-se em fuga. Mas este, sim, é um ladrão a sério, que diz que roubou. E logo na rua, à vista de quem passa, o que é uma ousadia maior. Ainda se fosse escondido num gabinete, mesmo foleiro, vá que não vá. Mas, na rua, é obra. Merece ir “ver o sol aos quadradinhos”, até para que na próxima aprenda a não roubar, mas a “desviar” ou a “governar-se” para nós, opinião pública, o absolvermos automaticamente quando dissermos: “Este é que foi esperto” …

Eu confesso, não assisti a nenhum dos julgamentos e reproduzo o que a comunicação social informou, tendo mesmo questionado se devia o “ladrãozeco” apanhar tanto por tão pouco. Presumo que a imprensa não tenha mentido e comparam-se critérios, se é que são os mesmos. Leio outras notícias sobre outra sentença. Que posso pensar ao ler a notícia que “o conhecido banqueiro que levou um banco à falência foi condenado a cinco anos de cadeia … com pena suspensa. O roubo terá sido também suspenso? E ainda a informação de que um maestro foi condenado a cinco anos de prisão … com pena suspensa. “Utilização indevida” de 720.000,00 euros do erário público e falsificação de documentos. Porque será que estes “dois ladrões”, com penas bem maiores, tiveram direito a que fosse suspensa a aplicação efetiva da sentença, enquanto o “pilha-galinhas” que roubou seis euros – sendo certo que a carteira podia conter alguns milhares, que não tinha – não teve a mesma “benesse” de ver a pena suspensa? Acho que o dito não usa suspensórios, com toda a certeza … Por uma questão de transparência, convém dizer que o “pilha-galinhas” já era reincidente, mas, “por seis euros” deve-se pô-lo “à sombra” por mais ano e meio? Custa a entender a lei. Daí o espanto dos jornalistas … e o meu.

Comparando com outros julgamentos e outras sentenças, para quem não é juiz nem quer julgar nada, “a bota não bate com a perdigota”. E se basculhar na imprensa por notícias de sentenças diversas, tanto de roubos como de crimes económicos (que não são outra coisa senão roubos), já para não falar em violações, pedofilia e outros, encontro com certa frequência a aplicação de prisão, mas com pena suspensa. Provavelmente as prisões estarão com excesso de lotação e há que travar o fluxo de mais “clientes” para aqueles “hotéis”, cuja fatura é paga por todos nós. Não acredito que seja pela cara mais ou menos bonita do “artista”, pela sua capacidade oratória e desempenho como ator dramático ou pela roupa que veste no momento.

De tudo o que li e ouvi, fico com a convicção de que, quem um dia quiser “governar-se”, deve começar por manter a “ficha limpa” até ao momento do “golpe”. Depois, não se proponha roubar, mas fazer um “desvio” para satisfazer um vício, verdadeiro ou falso, ainda que o tenha de inventar. E, por fim, não caia na patetice de “desviar” seis euros, nem nada parecido. Faça a coisa em grande, na ordem dos milhões, muitos. Quando for julgado, declare que está arrependido (chore para ser convincente) e diga que gastou tudo no casino, nas mulheres ou no “pó”. “Que tudo o vento levou”. Vai apanhar alguns anos de prisão, mas como é a primeira vez, terá certamente … a pena suspensa. Pode ter de pagar uma multazita, “aos bochechos”, mas vai sobrar-lhe muita “massa” para ter a reforma antecipada num paraíso qualquer, onde não terá tentações para ser reincidente.

E nunca será um ladrão, mas um homem “esperto” …  

E se esquecer, atrapalhar o dia a dia?

A meio do jantar levantei-me, fui à cozinha, abri a porta do frigorífico e … fiquei ali parado, sem saber o que ia fazer. Deu-me uma “branca”, um apagão, tive um lapso de memória. “Mas o que é que eu queria?” pensava com os meus botões. Voltei à sala, sentei-me e só depois me lembrei do que ia buscar ao frigorífico. Será isto normal? Sou um caso único ou toca a todos? Diz quem sabe que é coisa que acontece a toda a gente, embora a uns mais do que a outros, havendo fatores que podem contribuir para que isso aconteça mais. E o principal, e mais comum, é a idade. Quantas vezes não vamos fazer uma pergunta a alguém e, só porque somos interrompidos no momento, esquecemos o que queríamos perguntar? Sob o stress de um exame, quantos alunos não bloquearam perante uma pergunta que sabiam e não são capazes de “dar mais uma para a caixa”?

Esquecimentos ocasionais fazem parte da vida, sendo certo que, com a idade, os “lapsos de memória” começam a ser mais frequentes. Não lembrar o nome de alguém, onde se deixaram as chaves do carro ou os óculos de sol, em regra mais não é do que o envelhecer normal do cérebro, até porque um cérebro de 80 anos não tem as capacidades de um de 20. Para me defender, tento usar o sistema da organização pessoal. Coloco as chaves do carro e da casa sempre no mesmo local, tal como os óculos, o telemóvel, o relógio e todos os outros objetos pessoais. E não são só os pequenos.

Algumas vezes no centro da vila dou comigo à procura do carro, pois não me lembro do local onde o estacionei. E ele nem é assim tão pequeno. Mas há sempre quem faça mais que a gente. Um conceituado advogado de Lousada um dia foi ao Porto e levou a esposa consigo. Depois de a deixar no centro a fazer compras, foi tratar do assunto profissional que o fizera ir à cidade. Ao fim da tarde regressou a Lousada e, quando chegou a casa, perguntou ao filho: “Onde está a tua mãe”? “A mãe não foi consigo ao Porto?”, contrapôs o rapaz. “Ei, que me esqueci dela” …

Com o passar dos anos, aumentam os esquecimentos, a demora em aprender coisas novas. Se tenho muitas recordações do passado, não posso deixar de reconhecer que muitas outras já se varreram para as profundezas do cérebro onde não sei como as “desenterrar”. E ainda bem que esqueci certas coisas … até deu jeito. Aliás, costuma-se dizer que ter péssima memória pode ser divertido, pois usufrui-se diversas vezes das mesmas coisas, como se fosse a primeira vez. E convém, se não se quer ser agradecido, quando se não pretende pagar dívidas e até para não sofrer de saudades. A questão passa a ser preocupante quando os esquecimentos começam por atrapalhar o dia a dia de cada um, quando não se consegue ir de casa ao supermercado ou ser capaz de regressar, de lembrar como se tira um café, se frita um ovo ou se corta a barba. Daí que se conte a história de três irmãs com 80, 83 e 85 anos de idade que viviam juntas e se ajudavam. Ora, uma delas foi tomar banho e, quando estava com um pé dentro e outro fora da banheira, gritou: “Meninas, alguma de vocês sabe-me dizer se eu estava a entrar ou a sair da banheira”? Outra das irmãs ouviu-a chamar, começou a subir a escadaria, parou de repente e perguntou: “Sabem-me dizer se eu ia a subir ou a descer as escadas”? A irmã mais velha estava sentada na sala. Ao ouvi-las, abanou com a cabeça e disse: “Cruzes, estão mesmo velhas e cada vez piores”. E, batendo três vezes na mesa, disse: “Ainda bem que não estou tão mal como vocês. Eu já vos ajudo, mas antes tenho de ir atender à porta que alguém está a bater” …

No final da minha adolescência tive um gravador de fita, onde gravei a música que estava “na berra”. Com o uso e o desgaste, foi perdendo capacidades, tanto de gravação como de reprodução. Julgo que com a memória é algo semelhante e há quem ache que não se está a fazer tudo o que se deve para investigar doenças que a afetam, ao contrário de outras áreas. Foi a pensar nisso que o médico brasileiro Drauzio Varella comprovou que o mundo investe cinco vezes mais dinheiro em estímulos para a sexualidade masculina e em silicone para a beleza feminina do que no estudo e descoberta da cura da doença de Alzheimer.

Por essa razão, o médico profetizou: “Daqui a alguns anos, teremos velhas de seios grandes e firmes e velhos com “paus” duros, mas nenhum deles se lembrará para que servem”.

Tudo isto para dizer o quê? Que, graças aos avanços constantes da medicina e de um conjunto de outros fatores, passamos a viver mais tempo, a “durar mais”, embora nem sempre com a qualidade de vida mínima que seria desejável. É certo que, nesse aumento da esperança de vida, não se prolonga a juventude. Prolonga-se a velhice, muitas vezes num “arrastar” penoso, com doenças crónicas e debilitantes, entre as quais está a “doença de Alzheimer”. Já são muitos os idosos com incapacidade e demências, sendo esse acréscimo galopante bem evidente nas listas de espera dos lares institucionais que, em regra, foram construídos a pensar nos utentes autónomos. Já lhes basta os que ali acabam por ficar nessa situação.

Pessoas com dependências graves e demências são sempre um problema para as famílias, sendo evidente que muitas delas não têm quaisquer condições para os manterem em casa. Nem físicas, nem económicas, nem de vida. Temos de compreender que não é legítimo exigir-se que o façam, porque é obrigá-los a “carregar uma cruz” demasiado pesada. E será bom que tenhamos noção dessa realidade e não atiremos cuspe para o ar, porque nos pode cair em cima. Os alojamentos institucionais são muito poucos para tão grave problema e nada se tem feito de há muitos anos a esta parte. Sendo estes doentes uma responsabilidade do estado, cabe aos políticos com funções governativas dar respostas urgentes a problema tão grave, em vez de “assobiarem para o lado” ou esperar que o doente, no vai e vem das viagens de casa para o hospital e do hospital para casa, morra pelo caminho e passe a ser um problema a menos …

Encontro do presente com o passado

Hoje fui a Macieira, a minha aldeia natal, visitar alguns familiares e aproveitei para rever também condiscípulos, vizinhos, amigos e até outros conhecidos de outrora, do tempo em que aquela era a minha casa diária. Como não podia deixar de ser, comecei pela família, num reencontro sempre emotivo em que às vezes não consigo conter as lágrimas. “Estar com os meus” traz-me sempre muitas recordações, memórias, lembranças de vida comum, mas sobretudo o sentimento de pertença. E “falei-lhes” muito, apesar de permanecerem quietos, deitados e num “silêncio sepulcral”, pelos sete palmos de terra que nos separavam.

Os meus irmãos Álvaro e António, roubados desta vida de forma tão abrupta e instantânea como quem desliga a luz no interruptor, sem tempo para despedidas, para dizer um “adeus”, “até breve” ou sequer um aceno, permanecem jovens de vinte e três anos e quase trinta e dois, na memória, no coração e nas fotografias da pedra lapidar. Não vão envelhecer nunca, nem ganhar rugas, cabelos brancos. Não singrarão nas suas carreiras já iniciadas, em trilhos que pareciam seguros e firmes. Não chegarão a formar novas famílias, a ter filhos e netos. Só escaparam de aturar a mulher. Qualquer que fosse. “Falei-lhes” disso e, sobretudo, da grande falta que me fizeram ao longo destas mais de quatro décadas, talvez pelo meu egoísmo.

Na mesma “morada” está o meu pai que pouco lhes sobreviveu. Teve um fim penoso e com muito sofrimento. Os diabetes não o deixaram conhecer o Luís, o seu segundo neto. Ou terá sido o Luís que não chegou a tempo? Não chegou aos sessenta anos, muito menos à idade da reforma, agora mais distante. Ficou-se pelos cinquenta e seis anos, com boa apresentação, a imagem do meu Gregory Peck preferido. E assim permanecerá na minha recordação. “Falei-lhe” das viagens que fizemos em família, dos meus enjoos numa estrada cheia de curvas lá para os lados de S. Pedro do Sul que o obrigaram a parar algumas vezes, da companhia que me fez na primeira viagem a Nova Iorque. E a sua última, pois partiu já lá vão quarenta. Muito cedo para perder o seu conselho, o seu aviso, a sua orientação. Ficou ao lado dos pais: do meu avô António, de que pouco me lembro e da “mãezinha”, a mãe dele que nunca quis ser tratada por avó. Era uma comerciante nata e, tendo levado a vida a percorrer as feiras da região, não deixou de comprar e vender o que calhava pelos caminhos da aldeia quando a saúde e a idade já a tinham “aposentado” das outras andanças. Fui seu “motorista” durante as férias de estudante para as feiras de Fafe, Vizela, Amarante e Felgueiras, ao volante do enorme carro americano Dodge, carregado de mercadoria e ouvindo sempre as histórias do que acontecera na próxima curva, com o “ali despistou-se o Joaquim”, “acolá rebentou um pneu ao sr. João e esbarrou-se naquela árvore”, num alerta permanente à minha condução.

“Vi” o tio Peixoto, que chegou a ser agente da autoridade para depois se ocupar da “loja” ou “benda”, como chamavam então ao misto de mercearia e tasca. Pelos Santos Populares fazia sempre uma “cascata” junto da “loja” ao seu santo padroeiro e mobilizava a catraiada para pedir “um tostãozinho para o S. João” aos poucos que ali passavam. Tornou-se “santeiro”, escultor de santos em madeira com um simples canivete e ainda conservo como relíquia preciosa uma imagem de S. José que me ofereceu. Ali também está a tia Miquinhas, mãe sempre presente de uma mão cheia de filhos, muito tranquila e doce. Percorri todo o espaço e revi velhos amigos. O Zé, da Armindinha, conhecido como Zé Desportista por gostar da bola, meu condiscípulo e amigo. O Domingos Passeira, que regularmente ia a casa dos meus pais para nos cortar o cabelo. O senhor Cunha da Quinta de S. João Velho, de rosto magro e tostado pelo sol. Na memória, vejo-o a amarrar o porco à “cabeceira” do carro de bois e espetar-lhe um “facalhão”. Eu gostava de ajudar a chamuscar os pelos do porco com um molho de palha “centeia” a arder e esfregar depois a pele com pedra e água. Logo que podia, arranjava-nos uma febra que íamos a correr grelhar na chapa quente do fogão. Revi o senhor Marques e a Adelinha, o sr. Cunha e o Fernando da Rosinha, pedreiros de profissão, tendo este procurado uma vida melhor por terras de França com a família. E vi ainda lá os “representantes” de gerações recentes. Nunca chegarão a velhos … Enfim, a geração anterior já lá está quase toda e uma boa parte dos do meu tempo já “foram andando”. Por isso, devo dar graças a Deus.

O cemitério é um lugar especial sobre o qual se criaram mitos, medos e fantasmas, mas onde deveríamos ir com regularidade, no encontro do presente com o passado, para tomarmos consciência de qual será o nosso futuro. Como a morte é um nivelador implacável, ali todos chegam iguais e ninguém é mais do que ninguém. Nenhum é mais importante do que o outro, mais poderoso, arrogante, bonito ou feio, rico ou pobre. Todos lá chegam despidos de “teres e haveres”. Só existe o “Ser”, porque deixaram de ter o que quer que fosse. Fora do portal, ficou o poder, a vaidade, a arrogância, a ganância, a avidez, além dos bens materiais, resultado de uma vida cheia de trabalhos, habilidades, canseiras, ganhos lícitos ou mera exploração de outros. Não passa um cêntimo sequer para pagar a “portagem” de uma vida para a outra. Por isso, o cemitério deveria ser um simples parque relvado onde todos seriam colocados em igualdade de “instalações”, com uma simples cruz para “ostentar” (para aqueles que creem Nele) e uma pequena lápide, sem distinções, sem exibições ou competições. Mas não. Visitar o cemitério é verificar que muitos recusam aceitar o “nivelamento”. E tudo se faz ao contrário, numa estúpida competição pelo mausoléu mais imponente na “guerra” com o vizinho, o familiar.

Nalgumas vezes para “aliviar a consciência” da forma como se tratou o morto em vida ou para se querer mostrar “a dor que se não sente”. E os granitos polidos do Brasil ou Angola e os mármores de Estremoz ou Itália servem na perfeição para “atulhar” o cemitério, colocando homenagens sentidas ao lado de mentiras, sentimentos de dor a par de atos de hipocrisia, sinais de humildade de frente com uma feira de vaidades feita pedras luzidias que se atropelam umas às outras na ânsia de sobressaírem onde tudo deveria ser igual. Sem mentiras, sem vaidades, porque os mortos são todos iguais e já não mentem mais. As mulheres, em regra, são as mais dedicadas aos seus, as mais persistentes em não deixar esquecer. Limpam, lavam, enfeitam, iluminam e embelezam com flores e lamparinas o exterior da campa. E sentem a falta. Mais do que nós.

Pensando bem, talvez faça como os outros e arranje um monumento. Vou mandar construir uma “torre” no meu “talhão”, bem alta, a tocar o céu, dotada de elevador ultrassónico e com um motor de foguetão. Assim, quando “for desta para melhor”, enfiam-me nela e só tenho de entrar no ascensor, carregar no único botão que diz “Céu” e seguir direto ao Reino Celeste sem passar pelo Purgatório nem queimar os pelos do rabo no Inferno, “apeadeiros” que são um “atraso de vida”.

Sei que é difícil largarmos o “Ter”. Só alguns poucos o conseguem em vida. Mas a morte liberta-nos desse “peso” e impede-nos de continuar a ele agarrados. Por isso, sejamos capazes de compreender e aceitar esse desprendimento de bens, títulos, exibicionismos e vaidades para sermos verdadeiramente“livres” e iguais por natureza …

Será que gostaria de ser grande?

Há momentos em que gostava de ser um homem grande. Não grande em importância ou fama, boa ou má, mas grande no tamanho, na altura, mesmo que não fosse “grande coisa”. Mas essa crise ataca-me a “mona” só nos momentos em que precisava de mais um palmo para ter visibilidade sobre a multidão, nada mais. Fico frustrado quando há um evento ou algo ocorre e quero ver o que se passa mais à frente, mas meia dúzia de “cabeçorras” colocadas à minha altura, tapam-me a visibilidade, como que propositadamente. Parecem maiores do que na realidade são. Não queria ser grande para ter pés grandes, pernas grandes e tudo o mais grande (e imagino que um homem assim deve ter mesmo tudo grande). Ser grande tem vantagens e inconvenientes. E se estou interessado nalgumas vantagens que isso me proporciona, já não digo o mesmo dos inconvenientes. Não são interessantes nem simpáticos e não são assim tão poucos: num espetáculo, homem alto é odiado por todos os que lhe estão atrás; quando é preciso retirar algo sem escadote do armário mais alto, ele é a “muleta” mais à mão; tanto no vestir como no calçar, fica muito mais caro, pois gasta mais pano, mais cabedal, porque nunca veste menos que XXL ou até XXXL; não encontra roupa nem calçado que lhe sirva com facilidade e tem de ir a casas especiais, que também devem ser especiais no preço; para ele, a cama tem de ser feita por medida senão, tem de dormir com os pés de fora; e, nas muitas situações em que as cadeiras são para gente normal, quando sentado, fica com as pernas encolhidas, em posição incómoda e ridícula. Imagino como será viajar de avião em classe económica, com pernas dobradas e os joelhos a empurrar o queixo para cima. Só pode usar um furgão como meio de transporte, para não ter de baixar a cabeça ou andar às turras ao tejadilho. Está fora de questão o uso de automóveis desportivos, a não ser que sejam descapotáveis ou com teto de abrir para viajar com a cabeça de fora. Caso contrário, resta-lhe como solução tirar o banco do condutor e sentar-se no chão do automóvel. E em dias de vento forte, tem muito mais dificuldade em segurar-se de pé, apesar dos sapatos parecerem duas raquetes de ténis. Tive dois colegas com mais de dois metros de altura, medindo um deles quase dois e dez. Causava-me impressão estar perto dele. Olhava e via um homem sem cabeça. Só quando levantava a minha inclinando o corpo para trás, é que me dava conta de estar completo. “Afinal, também tem cabeça”, pensava para mim.

Mas o que mais me impressiona num homem grande é que, por regra, tem de namorar com mulher pequena. Ou, pensando melhor, mulher pequena faz questão de namorar com homem grande. Talvez para compensar a “falta” com as “sobras”. Ou deve ser a física a funcionar: os polos opostos atraem-se. Um casal destes faz lembrar a história do gigante e do anão ou, traduzido na gíria popular, “a sorte grande e a terminação”.Dizem para aí que, num relacionamento como este, há “excedentes” que seriam desnecessários, pela mesma razão que, um bom carpinteiro, não usa “pregos galiota” para “pregar” madeira de forro…

Quando era miúdo dizia-se que um “homem grande” não precisa de escada para vindimar ou apanhar fruta. No entanto precisa de ter dois olhos no alto da cabeça, pois está muito mais sujeito a bater com a testa nas padieiras das portas do que alguém como eu. Apesar de ter passadas maiores e mais largas, não é sinónimo de correr mais do que um homem normal. E, se tem a cabeça num lugar mais alto que qualquer outro, não sendo sinónimo de “maior estatura moral” nem de inteligência maior, significa que, quando cai, o tombo é maior …

Dos meus colegas “grandalhões”, o tamanho foi decisivo para que um deles fosse atraído para o basquetebol. Dizia ele que tinha como vantagem o facto de “morar” mais perto do cesto. E morava. “Só por isso” é que, na disputa com ele, eu não apanhava uma.

É sabido que, de há um século até aos nossos dias, há um acréscimo na altura média dos adolescentes, de geração para geração. De tal forma que, num estudo efetuado entre os alistados no serviço militar no Brasil, verificou-se um aumento de oito centímetros na média no espaço de … dez anos.

A razão para se ser mais alto do que o normal é (quase) toda genética, embora as questões ambientais contam um pouco. Por isso, os pais baixotes não podem esperar que o filho “saia” uma “estaca”. Pode até acontecer, mas não é comum … e nem estou a desconfiar. A Holanda é tida como o país onde mais se tem crescido. De tal forma que a altura média dos holandeses é de 1,84m, enquanto entre as mulheres se situa em 1,71m, ultrapassando os americanos. Claro que, além da genética, importa uma boa nutrição, o controle das doenças comuns da infância, melhor qualidade de vida e exercícios físicos e desporto.  

Confesso que também não gostava de ser “baixinho”, chamado “roda vinte e três”, apesar deles dizerem que “têm uma visão privilegiada das mulheres com saia curta”, “de quando abraçam a namorada ficam com a cara enfiada entre o melhor de dois mundos”, “que numa briga de homens têm mais facilidades de golpear o opositor no saco dos berlindes” e que “como são leves, quando morrerem qualquer um lhes pega no caixão”.

Tamanho não é argumento. O importante é o uso que se faz dele. E, pensando bem, não sendo grande, também não sou pequeno. Não sendo alto, também não sou “baixinho”. Não calçando o quarenta e oito, também não calço o trinta e seis. Sinto-me bem como sou, chego onde quero e vejo até onde preciso ver. E, mais importante, tenho “a medida certa” para não ter dado grandes “tombos”, a suficiente para me ter levantado “sempre que caí”, o que é bem mais importante do que pensar que se vai estar sempre “lá em cima” ou “em baixo”. Aliás, o ditado popular até diz que “no meio é que está a virtude”. Embora eu não seja propriamente um homem virtuoso …

Importantes, mas invisíveis. Ou não…

Umas cuecas, que se dizem ter ficado esquecidas num hotel de luxo por Adolf Hitler, foram a leilão, tendo sido arrematadas por alguns milhares de euros. Só não sei se tinham bordado o monograma do ditador e, eventualmente, algum do seu odor corporal. A esse preço eu vendia todo o meu stock pessoal e ainda fazia um desconto de cinquenta por cento, promoção que já nem os supermercados são capazes de fazer. Mas não sou o símbolo do nazismo, nem de outro culto. E, confesso, comprar umas cuecas antigas, ao preço do ouro e fora de moda, eventualmente rotas e sujas, não é nada que esteja nos meus sonhos. Nem de perto, nem de longe… Nem para usar, nem para cheirar, nem para admirar a “coisa” como objeto de arte…

As cuecas, são a peça de roupa interior que protege as partes mais resguardadas de homens e mulheres. São a primeira barreira contra “despejos imprevistos” e a última defesa se “o castelo é assaltado”. Embora de eficácia muito duvidosa, tanto numa como noutra função…

Em miúdo, usava cuecas compridas e largas que me chegavam até ao joelho, feitas pela mão da senhora Emilinha, do Ferreiro, a costureira da minha mãe. Abertas à frente, fechavam com dois botões, se é que “fechavam” alguma coisa …

À medida que os anos e as modas passaram, o tamanho das cuecas foi sendo reduzido, tanto no comprimento como na largura, chegaram novos modelos havendo hoje uma multiplicidade tal que, como diz a publicidade da RTP, “o difícil é escolher”. Tudo depende do gosto, da ousadia e do exotismo. Pode-se optar entre o “slip” e o “fio dental”, os “boxers” e o “sungão”, entre o “fundoshi” e o “jockstrap”, para além do “samba-canção” e muitos outros. Também há variedade de cores, muito importantes quando as cuecas andam parcialmente à mostra…

Ao descobrir várias embalagens de cuecas no banco de passageiros do carro oficial da Prefeitura de Ribeirão Bonito, a Procuradoria do Brasil questionou o chefe do executivo, Chiquinho Campaner, para saber se o carro não estaria a ser usado para fins irregulares que não os autorizados da viatura oficial, face às peças de roupa interior ali encontradas. O Perfeito argumentou que as embalagens de cuecas andavam no carro por uma questão de segurança, para o caso de ter um desarranjo intestinal … Pelo que se sabe no município, nunca o tal Perfeito teve manifestações de “caganeira” pública …

Cá entre nós, não é do conhecimento público (pelo menos do meu) onde param as cuecas dos nossos políticos. Nem sequer interessa. Só se sabe que alguns têm feito muita m. . E tem sido tanta, que já nem estranhamos quando se descobre as “borradas” de mais algum. Podemos dizer que é natural, “tão natural como a nossa sede”, algo que já faz parte do nosso quotidiano … Noutros tempos, as cuecas eram uma espécie de “bastião”, a “torre de menagem” de proteção e último reduto onde se protegia o “poder” dos olhos inimigos sempre que a primeira defesa, as calças ou saias, caíam por acidente ou “ataque” intencional … Nesse objetivo, eram grandes, opacas e fortes, tal como a “torre” do castelo. Mas com o tempo e as modas, a “fortaleza” passou a mera decoração e enfeite, feito fio dental ou tira transparente que nada protege, nada tapa, mais feito “mel para atrair moscas” ou “enfeite para conquistar o inimigo” …

Para os supersticiosos, existem “cuecas da sorte” que fazem questão de usar em “momentos” de que se espera ser “bafejado” por ela. Não quero arriscar em dar grandes palpites de quais os “momentos” em que eles e elas consideram ser importante usar as “cuecas da sorte”, que mais não são do que as peças usadas à meia noite da Passagem de Ano. Será que a mudança do Ano Velho para o Ano Novo atribui poderes especiais às cuecas que trazemos coladas ao corpo por uma qualquer razão que a ciência não consegue explicar? E, afinal, qual a “sorte” que se pretende atrair? Arranjar alguém que ajude a comprar um saco delas? A lavá-las à mão? Ou a despi-las?

Sabe-se que a cor do artigo tem significado e que as cuecas vermelhas são sinal de paixão e amor. Se são cor de rosa, será pureza e beleza e as azuis, segurança e tranquilidade. Se as laranjas falam de conquistas, muito importante são as amarelas, a cor do dinheiro, da riqueza e da sabedoria. A ser verdade, meio mundo andava de amarelo canário e o outro meio … de amarelo torrado.

A variedade nas cuecas de mulher é tanta que, dizem os entendidos, existe um tipo para cada mulher. Das conservadoras às ousadas, das clássicas ás exóticas, das “fechadas a sete cadeados” às “abertas como um ouriço maduro”, das que “assustam” às que convidam, enfim, um mundo infinito de variedade. Se bem que, a “perspetiva” que muitos homens têm, pode ser um tanto “estranha”. Numa roda de amigos um deles contava que vira uma mulher esbelta, que todos conheciam, em cuecas. “E que tal”, perguntou a malta? “Como era ela”? Atrapalhado e como que apanhado em flagrante delito, conseguiu dizer: “De íntimo, não vi nada. Estava tudo tapado com as cuecas … “fio dental. Só vi o fio …”

As cuecas têm servido para alguns usos que nada têm a ver com o fim para que foram feitas. E não se sabe porquê (ou, se calhar, sabe-se), em muitas circunstâncias são o “bolso” onde alguns políticos do Brasil têm passado dinheiro sujo e em que as (e os) “strippers” aceitam que os (e as) entusiastas “enfiem” dinheiro em notas de certo valor. Por falar em sujidade, o entendimento desta é variável de povo para povo. As estatísticas dizem que na Irlanda do Norte, parte dos homens lava as cuecas uma vez por mês. Já dez por cento dos ingleses só lava depois de usadas sete vezes e duram entre quatro a dez anos. Por essa razão, o “fedor” é motivo para acabar com uns quantos relacionamentos. Dos portugueses não tenho estatísticas. Não sei se as usam uma ou dez vezes antes de as lavar. Uma coisa sei: se as cuecas tivessem “nariz”, ou morriam intoxicadas pelos gases que saem do “tubo de escape” que tapam ou habituavam-se ao cheiro e até podiam ficar “viciadas” e “dependentes” dessa “ganza”.

Num navio de cruzeiro uma senhora de 83 anos estava de pé junto da amurada. Com o tempo muito ventoso, segurava o chapéu para não lhe fugir da cabeça. Um cavalheiro inglês aproximou-se e disse-lhe: “Perdoe, madame, mas o seu vestido está a voar com o vento forte”. “Sim, eu sei”, disse ela, “mas preciso de ambas as mãos para segurar este chapéu”. O cavalheiro corou e exclamou: “Mas, madame, apesar das cuecas, a sua intimidade está exposta”. A mulher olhou para baixo e depois para o homem. Então sorriu e respondeu: “Senhor, qualquer coisa que vê, já tem 83 anos, ao contrário do chapéu, que o comprei ainda ontem”. Uma questão de prioridades …

O Latoeiro

Não nasci entre brinquedos de plástico nem sequer fui lavado em banheira de plástico, porque ainda não existia esse material que veio revolucionar a produção de embalagens, peças para automóveis, todo o tipo de acessórios, utensílios de cozinha, vasilhas e os milhares de artigos que hoje se fabricam com ele. O plástico só viria a entrar mais tarde nas nossas vidas. E então, como é que nós vivíamos, pergunta a geração de hoje? Como se transportava a água, de que eram feitas as diversas vasilhas, os brinquedos, embalagens e tantas coisas mais? Em suma, como era possível viver sem o plástico? Bem ou mal, ainda vivi muitos e bons anos sem sequer saber o que isso era. Muito bem, para benefício do planeta que ainda nem imaginava o que aí vinha para o poluir.

Bem para nós, porque apesar de não dispormos de um produto barato e moldável como o plástico, não morremos por causa disso. O facto de não haver plástico obrigava-nos a utilizar materiais que estavam disponíveis à época e a ser mais criativos. A maioria dos brinquedos eram feitos em madeira por algum habilidoso ou mesmo em casa, desde o peão ao espeto, da bilharda à fisga. Havia outros em barro como os apitos e bonecos diversos. E alguns ainda em chapa. O cântaro para ir à fonte era em barro, mais barato do que os feitos em chapa, que conhecíamos por “lata”, se bem que não saiba dizer qual o material mais usado no fabrico de vasilhas. Quem fabricava artigos em chapa (“lata”) eram chamados de “latoeiros” (e não de chapeiros).Perto da casa dos maus pais havia um, o Miro “Latas”, filho do senhor Paulino e da senhora Albertina e irmão do Alberto “espingardeiro”, herdeiro na habilidade, inteligência e criatividade. Tinha a oficina numa das onze casas do “bairro” que o meu pai mandou construir em 1951, numa conceção de habitação social avançada para a época. Não existindo a moderna maquinaria de hoje para trabalhar a chapa, toda a modelação era feita manualmente, com a ajuda de ferramentas bem rudimentares, algumas delas fabricadas por ele, tanto no fabrico de vasilhas (fosse o almude, o cântaro, o litro), como de caleiros para os telhados (e é bom lembrar que, não existindo qualquer maquinaria para cortar, dobrar e curvar a chapa, todo o trabalho era feito à mão, inclusive dar a forma arredondada ao caleiro, o que só era possível à custa de muitas marteladas…), almotolias, candeeiros, gasómetros,  funis e balsas (funil grande para trasfega do vinho), baldes para tirar água dos poços e outros utensílios.

Acendi muitas vezes a forja e dei à manivela para aquecer os ferros de soldar até pô-los em brasa. E era com estes ferros e um pouco de solda – feita ali, num cadinho, de uma mistura de estanho e chumbo em proporções de que já não me recordo – que a chapa, depois de moldada e recortada, era soldada a estanho.

Foi na sua oficina que vi nascer um cântaro de “lata” que depois de pronto revestiu com placas de cortiça virgem. Entregue à cliente, só o voltei a ver quase um mês depois nas Festas da minha terra em honra de S. Gonçalo, embrulhado em folhas de hera, à cabeça da mulher que o encomendara, apregoando a água doce e fresca (da mina). Ainda bebi um “caneco” desse refresco, de uso coletivo e sem direito a ser lavado (não deviam existir micróbios nesse tempo…), que a mãe me comprou para matar a sede. Sabia a limão e era uma maravilha …

Foi com o “Latoeiro” que aprendi a fabricar vinho doce, incluindo a própria “vasilha de fermentação”, que é muito interessante. Depois de uma tarde de aulas na escola primária, fui até à sua oficina e dali fomos às uvas “morangueiras” aos Morgadinhos, já maduras e com aquele cheirinho típico que nos aguça o apetite. Depois de encher a barriga, ele entrou pelo campo de milho dentro até encontrar uma abóbora, pois era costume na região semear abóboras e feijões entre o milho. Tirou então uma navalha do bolso e com ela fez um corte em quadrado na parte superior da abóbora, como se fosse uma tampa, que retirou com a ponta da lâmina. Depois, meteu a mão pelo buraco e retirou todo o miolo, incluindo as sementes, num processo rápido de limpeza eficaz, acabando por construir como que uma pequena “vasilha”. Assim preparada, foi só enchê-la com uvas “morangueiras” e esmaga-las à mão para fazer o mosto. Para completar o trabalho, foi recolocado o quadrado que servia de tampa, com um pequeno corte para entrar o ar, mas de tal forma que o lavrador se passasse por ali não se apercebia que a abóbora tinha sido “violada” e transformada numa “pipa”. Dois dias depois voltamos ao local do “crime” para beber vinho doce como o mel através duma cana da índia furada. Aprendi tão bem a lição que, por mais alguns anos, repeti a dose, mas já sem a orientação e presença do “professor”, mas de outros alunos.

Na casa ao lado trabalhava o Avelino, “pauzeiro” de profissão. Fazia manualmente os “cascos” em madeira de amieiro para a fábrica de tamancos dos Eidos Novos. Meu irmão António, eu e outros rapazes de então eramos assíduos frequentadores da casa dele, passando horas e horas junto ao “banco” do Avelino em amena conversa depois das aulas. Quando o Miro estava a trabalhar na “oficina”, também por lá nos perdíamos até porque, além de ser inteligente e perceber do ofício, também tinha jeito para a malandragem, sendo o “cérebro” das incursões que se faziam ora ao vinho doce do lagar da Quinta de Talhos, aos melões da Quinta do Souto ou às cerejas nas Cepas, para onde mobilizava o grupo. E com a cumplicidade do Avelino, de vez em quando pregava-nos uma partida, sendo a mais comum fazer sentar a “vítima” num banco de madeira preparado para o efeito. Faziam-lhe dois furos muito finos e num deles enfiavam uma agulha com o bico para cima, presa numa linha que passava pelo outro furo. Quando a “vítima” se sentada no banco, um deles puxava pela linha e esta fazia subir a agulha no buraco, picando-lhe o traseiro e fazendo com que desse um salto. Só depois de duas ou três picadelas ou dos sorrisos contidos das testemunhas é que a “vítima” descobria a razão do “desconforto” daquele banco.

Até partir para a “terra” onde não são necessários artefactos em lata, manteve-se na profissão já adaptado às novas tecnologias, aos novos materiais e à nova designação que lhe conferiram na sua profissão: picheleiro. Embora para mim, mesmo quando o encontrar naquele lugar onde não se devem fabricar vasilhas de “lata”, ele não deixará de ser o “Latoeiro”, amigavelmente o Miro “Latas”, a quem não posso deixar de agradecer as “lições” que me deu enquanto “professor”.

O fascínio pelos “exclusivos”…

Catarina (e não me perguntem se é esse o seu verdadeiro nome) deu entrada na igreja onde se realizava o casamento, confiante no sucesso que o seu vestido novo iria fazer. Era um modelo “exclusivo” que viu numa passagem de moda organizada pela boutique onde costumava comprar a sua roupa. Quando aquela modelo passou junto de si, deu-se o “clique” e viu logo que tinha de ser “aquele vestido” lindo, único exemplar da loja e, por isso, um “exclusivo” que mais ninguém teria. Fez sinal de imediato à dona da loja. O gesto que selava a compra. Só alguns dias mais tarde passou o cheque sem discutir o preço, porque os “exclusivos” não têm discussão no que toca ao valor, já depois de ter estado na loja para os “ajustes” do vestido, por forma a que ele lhe “assentasse como uma luva”. Ao lado do marido, fazia um tremendo esforço para caminhar a direito e olhar em frente com a pose altiva própria de uma rainha, pois a sua vontade pedia-lhe que olhasse de um lado para o outro e gozasse o triunfo espelhado nas expressões e nos olhares das outras, o que não lhe saía do pensamento. O marido deu-lhe passagem para se sentar num banco vazio a meio da igreja, o que fez com pose estudada de “mulher produzida”.

O templo foi-se enchendo com muitos outros convidados e, pouco antes da noiva fazer a sua entrada pela porta do fundo ao som da marcha nupcial, quem surgiu vindo da lateral foi um enorme “pesadelo” para a sua autoestima e uma grande “machadada” na sua vaidade: “Outra convidada com um vestido rigorosamente igual ao seu”. Até os sapatos eram parecidos com os que trazia calçados. Como era possível? O seu vestido “era um exclusivo”, não podia haver outro igual. Fora enganada pela dona da loja de quem era “amiga” há tantos anos? A cara transfigurou-se em poucos segundos. A imodéstia e riso superior deram lugar ao ar de surpresa pelo inesperado, acabando num rosto fechado, revoltado e desejoso de vingança. Precisava de um bode expiatório onde despejar a sua raiva. Quando o marido lhe disse qualquer coisa ao ouvido, fuzilou-o com o olhar. Num instante ele passou de “bengala a vítima”. Mas lá se aguentou até ao final da cerimónia. No entanto, quando saía do seu lugar para se dirigir à entrada da igreja e aguardar a passagem do novo casal, deu de caras com outro vestido igual ao seu “pendurado” no corpo de uma jovem convidada ao fundo da igreja. Mais tarde confessou ter desejado que se abrisse um buraco para desaparecer e fugir daquela situação tão incómoda e constrangedora que nunca lhe acontecera.

E acabou por ser condescendente e até sentir pena das outras duas convidadas, suas “sósias de traje” e “companheiras de desdita”, que deviam ter sentido a mesma humilhação que ela sentiu. Pois é. São histórias da vida dos “exclusivos” …

O ser humano é assim mesmo. Quer estar no “topo da pirâmide”, no lugar único onde todos o invejem. Para isso precisa de ter aquilo que todos desejam, mas mais ninguém tem.  Daí adorar “arrear” modelos de roupa exclusivos e únicos, calçar “ferraduras” com entalhes em ouro que não são acessíveis ao comum dos mortais, conduzir e ser dono daquela “carroça” da Ferrari, modelo F12 TRS de que só foram fabricados dois exemplares, frequentar o “tal” clube de empresários muito exclusivo e de acesso extremamente restrito, ter casa e morar no condomínio residencial só para gente privilegiada, fazer as suas refeições em restaurantes “gourmet” de “Chefe” premiado com duas “estrelas Michelin”, enfim, usufruir de “exclusivos”, se possível algo que mais ninguém possua ou seja de acesso limitado a determinados indivíduos selecionados. Faz parte da natureza humana querer ser único e diferente dos outros.

O caso das roupas é um bom exemplo, esquecendo-se as clientes que os tais “modelos únicos” o são naquela loja, mas não no país todo. Porque, quem os produz, não se limita a fabricar só um exemplar, que teria de ser demasiado caro. Assim, faz uns quantos de que vende um em cada vila ou cidade, batizando-o de “exclusivo”. E é, naquela loja. E é, o único a ser vendido naquela terra. Só que, à procura do vestido ideal para um casamento ou para outra cerimónia qualquer, uma mulher corre “este mundo e o outro” feita detetive e acaba por encontrar um exemplar seja onde for. E depois há “incidentes” como o da Catarina, muitos outros que conheço e muitíssimos mais de que nem faço ideia…

Mas a obsessão pelos exclusivos não é um “exclusivo” das mulheres. O pessoal do sexo masculino também anseia poder usufruir. Quantos homens não querem fazer parte do “tal clube privativo” onde só se entra por convite e condicionado à aprovação dos outros, apesar da “joia” de entrada custar uma fortuna? São clubes de acesso exclusivo, limitado somente a “alguns”, onde “eleitos” só convivem com outros “eleitos”. É algo como estar no Olimpo, onde só os doze Deuses da Mitologia Grega convivem entre si … E como faz bem ao ego ser “algum” dos eleitos, porque não um dos “deuses”!!! Nesse, como em outros, a maioria dos “exclusivos” pelos quais os homens “correm” têm como objetivo o negócio, o estar num outro nível de contactos que dão acesso a maiores interesses comerciais. O “Ego” a pensar no “bolso”. Já as mulheres, perseguem os “exclusivos” pelo exclusivo, esse desejo íntimo de possuírem o que mais nenhuma tem, de ser a “rainha do baile” na “dança da vida”.

Regresso. Os peludos estão de volta…

Para o bem e para o mal, somos animais peludos. Muito peludos. Uns mais que outros, mas todos cobertos de pelo, embora não tanto como os ursos, os burros e os macacos. Mas fazemos figuras de urso quanto baste, somos chamados de “burros” tantas vezes que até há quem chegue a pensar que é mesmo “burro” e fazemos muitas macacadas, o que só reforça a teoria de podermos ser “primos” deles. Por tudo isso, há quem já não questione se é verdade ou mentira essa questão das afinidades familiares … Em épocas passadas, um homem que se dissesse ser homem, tinha de ser peludo. Bem peludo. Porque se o não fosse, corria o risco de ser chamado de “maricas”. Mas, como esta vida é feita de mudança, ainda que seja para pior, já há muito homem a eliminar tudo o que é pelo nalgumas zonas do corpo. Modas. Sinais dos tempos …

A ciência provou que somos tão peludos como os chimpanzés, pois temos sensivelmente o mesmo número de pelos em cada centímetro quadrado. Só que o nosso é mais fino e curto. E ao pensar em nós como seres peludos, há uma coisa que me intriga: Se os pelos que temos na cabeça se chamam “cabelos”, porque é que os pelos dos braços não são “bracelos” e os das pernas “pernelos”? Já nem falo dos “peitelos”, dos “cuelos” e outros mais, conforme a zona do corpo onde floresçam …

Alguns pelos não dão trabalho. Em geral crescem pouco e quase nos esquecemos deles, apesar de nos cobrirem o corpo. Mas, todos os que estão do pescoço para cima, são motivo de preocupação constante tanto de homens como de mulheres. Se para nós os pelos da cara são os “que nos dão água pela barba”, rapando, aparando ou tratando, já para elas são os pelos da cabeça a sua maior preocupação e que as obriga a lavar, frisar, pintar, ondular, alisar, fazer madeixas e sei lá bem que mais, regularmente, porque são o fator essencial do visual que não pode ser desleixado nem sequer deixado ao acaso. Cabelos, são o remate que pode fazer toda a diferença nessa “montra” que é a cabeça das mulheres. São motivo para atrair ou afastar o sexo oposto (a presa), de inveja ou satisfação das outras (a concorrência), além de ser fator de autoconfiança ou insegurança. Se na mulher os cabelos são tidos como uma boa preocupação porque podem dar excelente contributo ao visual, todos os outros pelos com o decorrer dos anos e das modas passaram a “inimigo”, pelo que têm de ser exterminados, tal e qual as ervas daninhas nas culturas.

Daí as mulheres (e não só) se sujeitarem a depilações regulares e totais, muito sofridas quando através da cera quente (tecnicamente designadas por epilações) ou bastante menos dolorosas com os novos métodos a laser. Mas, umas ou outras, estão sempre entre as preocupações femininas, muito especialmente com o aproximar do verão pois não podem existir pelos a “espreitar” nas franjas dos biquínis, debaixo dos braços ou noutras partes do corpo que não na cabeça. Já lá vai o tempo das “mulheres de bigode”, havendo até algumas que chegavam a ser exibidas no circo como atração.

E os homens, que tinham no rapar da cara um trabalho diário, estão a seguir modas pouco ortodoxas ao deixar crescer a barba tipo “jihadista” e fazer cortes mais ou menos regulares do cabelo, agora com moda à “Kim Jong Um”. Um “modelo” estranho para ser copiado … mas gostos são gostos.

Ora, alguns homens, para copiarem figuras mediáticas que gostam de ser diferentes – e, como todo o mundo quer ser diferente como eles, acabam por ficar totalmente uniformizados – também começaram a eliminar os pelos, copiando o sexo feminino. Assim apareceram os “metrossexuais” que, pouco a pouco, foram passando a “mensagem” e “convertendo” o povo meio cá, meio lá e até machões, quase sempre por influência da parceira a quem convinha agradar, para estar na moda. “O Ronaldo também se depila e fica giro. Que peitorais”. Só que o namorado não faz exercício nenhum e tem os peitorais descaídos, mostrando um corpo que nada tem de escultura grega …

Mas as modas chegam cá sempre mais tarde e às vezes demoram a ser aceites. Ora, a depilação masculina, especialmente a íntima, ainda provoca caretas nelas e vergonha neles. E, entretanto, a oportunidade passa e a moda “já está noutra”. Foi assim que um conceituado jornal americano anunciou em título: “Coloquem as lâminas e a cera na prateleira. Depois da moda do metrossexual, do lumbersexual, das barbas e do rabo de cavalo, os homens querem-se peludos. Homem que é homem tem pelos no peito”. Algures, pelo caminho, a “pele de bebé” substituiu os pelos e os homens começaram a fazer a depilação para agradar às mulheres, mostrar o corpo, seguir a moda. Mas isso mudou e os pelos no peito estão de volta e recomendam-se, por mais que isso desagrade aos gigantes do mercado das laminas e máquinas depilatórias e às indústrias de cosmética. É essa a razão pela qual voltaram os modelos masculinos de camisa aberta e pelos no peito.

Curiosamente, o regresso dos pelos é o resultado de influência da cultura gay, dum grupo chamado “Bear”, que celebram os pelos no corpo masculino. E ainda das mulheres que gostam de homem e não de um “boneco de plástico”. Além de que os pelos retomam a sua função de proteger as zonas onde aparecem, especialmente as axilas e zona púbica, pois a sua eliminação traz alguns problemas de pele. Mas é bom lembrar que, quando se fala de manter os pelos, também estão em causa outros, só que aparados e cortados por forma a não saírem em tufos enormes do nariz, com ranhetas à mistura, ou das orelhas, embrulhados em cera …

Com a “cambalhota” da moda que exige o regresso dos pelos ao corpo dos homens, há uma vantagem: já ficam preparados para mudanças futuras da moda. É que nunca ninguém sabe se ela, de repente, exige que se façam “tranças” nos pelos das axilas ou doutra parte qualquer. Há que esperar tudo das vedetas, para serem diferentes …

mais que um dever, uma obrigação…

Tenho de reconhecer que já não sou o mesmo dos meus tempos de criança e adolescente. Há coisas que perdi, valores de que fui abrindo um pouco a mão, princípios e normas morais e sociais em que já não sou bem o mesmo. É o caso do cumprimentar, essa norma de cortesia que implica comunicação, educação e simpatia. Se quando novo não deixava de desejar um “bom dia”, “boa tarde” ou perguntar “como tem passado” a qualquer pessoa da aldeia, hoje passo pela grande maioria “como cão por vinha vindimada, calado como um rato”. A desculpa, se é que ainda me desculpo, é de que não as conheço e elas nem sequer dão oportunidade de as cumprimentar de tão fechadas que vão. Não serei eu que também estou fechado?

Quanto vale um cumprimento, um “olá”, um “passou bem?”, um olhar, um aperto de mão ou um sorriso? Custam tão pouco se é que têm custos, distribuem-se gratuitamente e não há dinheiro que os pague. Em contrapartida, são contagiantes, abrem portas, rostos, sorrisos, um mundo melhor. Não precisamos de ser todos amigos e andar por aí aos abraços e beijos a quem conhecemos ou não. Mas, a verdade é que ser agradável e educado é uma questão de cortesia e simpatia.

Se há coisas que me deixam saudades desses tempos de criança, era essa relação entre as pessoas da terra, essa impossibilidade de se passar por alguém sem dizer “boa tarde Sãozinha”, “como está o seu filho?” ou outra palavra qualquer como elo a ligar seres humanos, colocando-os em sintonia. Os homens, ao cumprimentar alguém tiravam o chapéu e faziam uma pequena vénia com a cabeça e o busto. Se estivessem a fumar, ficavam com o cigarro na mão. Os pobres, mais humildes, não punham o chapéu enquanto falavam com quem tivesse um pouco mais que eles, a não ser que lhe dissessem “ponha o chapéu”. Mas era impensável passar por alguém sem cumprimentar, sem perguntar pela família ou até por um animal doente. As mulheres personalizavam mais, tratando o outro pelo nome. “Olá Miquinhas, como está do reumatismo?” ou “boa tarde senhor João?”. Interessavam-se uns pelos outros no cumprimentar do dia a dia, como se fossem todos da mesma família. E eram …

Ao passarem os anos e com as mudanças profundas da sociedade, o aumento da população e a urbanização das massas, esse espírito de comunidade foi-se desgastando, como se gastam as roupas, os pneus do carro, as pedras da calçada e os “valores” (incluindo o dinheiro). Vivemos amontoados em aglomerados urbanos onde tantas vezes andamos tão perto uns dos outros, senão mesmo aos encontrões, mas tão distantes, que nem nos apercebemos de quem se cruza connosco. Por isso, “esquecemo-nos” de cumprimentar o vizinho da frente com quem nos cruzamos todos os dias, a senhora de baixo, o varredor da rua ou o empregado de café que nos atende com amabilidade. Entramos num autocarro apinhado de gente e que fazemos? Olhamos para a janela ou enfiamos a cabeça entre as páginas de uma revista sem esboçar um sorriso sequer para qualquer dos companheiros de viagem. Aliás, nem damos por eles, porque “são invisíveis”. Já nem sequer vemos as pessoas que partilham com nós um mesmo espaço em simultâneo. Andamos “sós no meio da multidão”. E o mais triste é que nos “sentimos sós”, o que é um paradoxo.

O cumprimento é uma forma de saudação amigável entre as pessoas, que normalmente é acompanhado de algum gesto ou fala. Varia de país para país e até de região para região dentro do mesmo país. Em França cumprimenta-se com um beijo em Brest, dois em Toulouse e quatro em Nantes, sem que os lábios toquem o rosto, mas façam o estalido. Entre nós, o cumprimento mais comum é o aperto de mão, sendo o beijo e o abraço reservado a familiares e amigos. Mas cada país tem os seus hábitos. Penso que se cumprimentasse alguém como o fazem os maoris da Nova Zelândia, encostando o nariz e a testa ao outro, chamavam-me maluco ou davam-me um murro. Confesso que não estou interessado numa coisa nem noutra. No cumprimento, o “toque” é importante, seja pelo aperto da mão, o toque do punho, o beijo, o abraço. Conseguimos comunicar e entender muito melhor através dum simples “toque” as manifestações de carinho, simpatia, solidariedade, alegria e muitas outras emoções. Como nos sentimos confortados e próximos quando nos colocam a mão no ombro?

O cumprimento representa muito mais que um gesto de cortesia. Com ele, procura-se também atrair simpatia e arranjar um clima de amabilidade e até cumplicidade, sendo verdadeiramente importante nas relações sociais. Um aperto de mão também pode revelar muito dos seus intervenientes, através da linguagem corporal, da firmeza, do contacto visual. Podem ir dos frouxos e com a mão mole como um polvo morto, que manifestam insegurança e baixa autoestima, aos “quebra ossos”, de quem controla a situação; dos que só dão a ponta dos dedos, sinal de manter distância, aos que agarram até o cotovelo e se aproximam, dizendo-se íntimos; ou do apressado, manifestando desconsideração e falta de tempo para o outro, ao de mão cheia, com a mão esquerda cobrindo as mãos, em sinal de carinho. Sem esquecer a importância do contacto visual, olhos nos olhos, e do sorriso, capaz de animar o coração de qualquer mortal.

Quanto vale um abraço a alguém que está assustado, perdido ou em baixo? Como se sente uma mãe quando alguém se preocupa com a saúde do seu filho doente? Que importância tem um aperto de mão ao porteiro, ao varredor e àqueles que são “invisíveis” para a maioria das pessoas que por eles passam? Ser cordial e dar atenção àqueles com quem nos cruzamos no dia a dia, só nos acrescenta e um simples sorriso, um olá ou um aceno pode fazer toda a diferença. Distraídos, absortos ou fechados não contribuímos rigorosamente com nada, nem para os outros, nem para nós. E cumprimentar custa tão pouco e pode valer tanto…

É preciso uma certa dose de loucura…

Pensando bem, só quem “está maluco” é que faz voluntariado neste país. Quando a alguém vier a vontade de ser voluntário, se estiver no seu perfeito juízo, deve deitar-se, dormir e esperar que passe. E estou à vontade para o dizer porque sou um que “está maluco” há uma data de anos. Porque, se um dia acordar “com o juizinho todo”, largo tudo e dedico-me à pesca e à família. Para o que me havia de dar!!! Dedicar parte da vida a causas sociais, culturais, desportivas e recreativas em regime de voluntariado, sem remuneração, em prol da comunidade, é de loucos! É só para quem tem “os fusíveis queimados. Há dias, dizia-me um dirigente e voluntário da Associação Lousada Animal: “Sabe, trabalhar na defesa e proteção dos animais não me custa nada e até é gratificante, apesar do muito que há para fazer. O que mais me custa é a hipocrisia de alguns que nada fazem e ainda por cima passam a vida a acusar-nos por não resolver o caso deste ou daquele animal abandonado à porta deles, como se tivéssemos a obrigação de “lhes resolver o incómodo que é ter um animal abandonado à porta de casa”. Acham que temos a “obrigação” de recolher todos os animais e dar-lhes um abrigo. Esta gente nem percebe que temos um emprego e vida como qualquer outra pessoa e só depois (e com sacrifício da vida pessoal e familiar) é que somos voluntários, fora de horas e ao fim de semana. Nem querem perceber que a Associação só vive dos contributos dos próprios voluntários e dos poucos associados. Está fora de questão ter um abrigo próprio, pois teria custos impensáveis. Já basta o quanto custa recuperar um animal em alimentos e fatura de farmácia e veterinário. Nem pensam nisso, pois “tudo deve cair-lhes do céu”. Estamos gratos àqueles que são os olhos e ouvidos da Associação, sem exigências, conscientes da capacidade limitada à nossa fraca condição económica – não temos apoios públicos – e às disponibilidades de voluntários e famílias de acolhimento. E animais abandonados são mais que muitos, infelizmente. Mas é fácil ver uma situação que exige intervenção, não dar um passo sequer para ajudar (talvez por falta de tempo …), mas ter tempo para criticar os outros por não fazerem. Porque não se calam”?

Cá está.

Como o voluntário está aí para ajudar, também tem de ouvir e “aturar” quem está perto do “problema”, mas “longe” de colaborar na solução, demitido das suas obrigações enquanto cidadão. Por isso, o voluntário “só pode estar maluco” para os aguentar. Os bombeiros voluntários sabem bem o que isso é com gente que vê arder os seus próprios bens e só fica preocupada em contar quantos minutos os carros de combate a incêndios demoram a chegar sem, entretanto, fazerem nada por si próprios …

Se aquele que faz voluntariado numa qualquer instituição é alguém que “está maluco”, o que se pode dizer de um voluntário com função de dirigente? Que “está maluco ao quadrado”? Que já não tem cura? Só pode …

No dia em que tal ideia lhe passasse pela “tola”, devia ser internado compulsivamente pela família e tratado à moda antiga com “choques elétricos” e “jatos de água”. Se pensarmos que na maioria das instituições, só o garantir a sua sustentabilidade já é tarefa árdua, capaz de roubar noites de sono, dar preocupações e muitas dores de cabeça, que fará ter ainda de ouvir, talvez “a título de compensação”, comentários “amáveis” feitos pelos críticos do costume como “está-se a governar”, “só lá mete os amigos” ou coisas bem mais “simpáticas”, para as quais tem de fazer “ouvidos de mercador” se não quer parar no manicómio? Como se não fosse suficiente, tem a “concorrência” de “falsos voluntários”, gente a correr por outros objetivos à sombra dum compromisso solidário. E por fim, se quer ser apolítico e manter a instituição que dirige “à distância” dos partidos, pode crer que vão tentar fazer o “assalto ao castelo” mais dia menos dia, para lá colocar um “peão” do seu xadrez. É a vida. Por isso, meu caro, se estás nisso como voluntário inocente sem segundas intenções, deixa-te de ilusões, pega na trouxa e põe-te a andar, pois isso não é vida para ti. Vais levar mais “caneladas” do que um saco de boxe leva de murros … E todos vão querer “chegar-te a roupa ao pelo” e “atirar-te borda fora”. Porque estás no sítio errado. É como estar atado e nu no meio de uma estrada de grande movimento em hora de ponta …

Assim como há a época de caça ao coelho ou à perdiz, já começou há muito a época de “caça ao voluntário”, em especial ao dirigente. E é como o casamento: “Quem casa, não pensa e quem pensa, não casa”. E o voluntário não pensa mesmo nada quando se mete nessa “loucura” de o ser porque, se pensasse, “punha-se a milhas” …

Mas, voltemos à razão. Bom seria que não houvesse necessidade do “voluntário”, nem sequer de associações sociais, culturais e outras ao redor das quais eles se mobilizam. Era um sinal de que os problemas da comunidade estavam solucionados pelo Estado Providência. Mas o sonho desse tipo de estado faliu há muito e não passou de um sonho de quem vive nas nuvens. A realidade diz-nos que, mesmo nos países mais ricos, a solidariedade e o voluntariado são fundamentais para colmatar as ineficiências do estado, seja ele qual for. Quanto mais num país pobre como o nosso, sem recursos naturais e com deficits crónicos nos últimos quarenta anos e uma dívida acumulada de que os nossos netos serão escravos. Daí que, apesar das “acrobacias dos governantes”, a realidade metida debaixo do “tapete” vem ao de cima nos hospitais, nos quarteis, nas escolas, na justiça, nos apoios sociais, nos salários baixos e em necessidades altas. Por isso, o voluntariado assente na gratuitidade, ação livre e no compromisso pelo bem estar da comunidade continuará a ser imprescindível e fundamental para suprir as ineficiências do estado, apesar da sua importância nem sempre ser reconhecida, tanto pelas estruturas do poder como por algumas camadas da população.

Talvez eu reconsidere e deixe de dizer que “só é voluntário quem está maluco”. Retiro mesmo o que disse. No entanto, que é preciso uma certa dose de loucura, é. Mas, para benefício da comunidade, ainda bem que há quem a tenha …