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E agora? Em quem podemos confiar?

Assentei praça no Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, onde fiz a recruta como miliciano para cumprir um serviço militar longo. O João também era recruta e dormia num beliche, duas camas a seguir à minha. Era de ingenuidade extrema e de uma inocência anormal, algo que destoava naquele mundo de “reguilas” e “espertalhões”, tendo de se confrontar com um mundo que não era o seu e para o qual não estava preparado.

Na primeira semana levou uma dúzia de ovos cozidos que a mãe lhe embrulhara entre a roupa, para complementar aquele preparado a que pomposamente chamavam “rancho”. Comeu um e, quando ao outro dia quis comer outro, tinham desaparecido.

Na segunda feira apareceu com mais doze, tendo o cuidado de os guardar na pequena mala de roupa que tinha debaixo da cama. Quando quis comer um no regresso da marcha dessa manhã, os ovos já tinham “marchado”. Mas não desanimou e quando voltou para o quartel na semana seguinte, disse-me em segredo que trouxe mais ovos mas que desta vez não ia ser roubado. “Descobrira um processo eficaz”. Então, tirou-os da mala e escreveu o seu nome em cada um dos ovos. Está-se a ver o que é que aconteceu…

Lembrei-me do João quando vi a notícia estampada na primeira página de um jornal: “Bancos com buracos enormes”. Se eu fosse o João ou tivesse a sua inocência, ao ver o título do jornal, iria a correr para casa direitinho aos anexos, para ver o estado dos meus bancos, daqueles que uso quando tenho mais família e amigos que cadeiras. Experimentava-os um a um vendo a segurança das pernas e se os parafusos estavam bem apertados e testava os assentos, se tinham buracos, se estavam partidos ou podres. Até me sentava em cada um deles com a cadela ao colo… É que, quando indico um “banco” a um amigo ou familiar quero que ele fique tranquilo, que se sinta em segurança e que possa confiar. Não os quero ver estatelados no chão que nem patos, a esbracejar ou a gritar “quem me acode”.

Ao ver a notícia “Banco com buraco maior do que o banco” imagino o João muito admirado, a perguntar “como é que um buraco num banco pode ser maior do que o próprio banco? Se for assim, o banco fica dentro do buraco? Ou o buraco engole o banco? Será como se um queijo flamengo, que tem buracos, tivesse um que fosse maior do que o próprio queijo. Onde estaria o queijo nesse caso? No seu próprio buraco?” A verdade é que o resultado foi o que se viu…

Com o “estoirar” do BPN e do BPP e ao ver o povo tirar o dinheiro dos bancos para o enterrar no quintal, meter no buraco da parede ou debaixo da pia do porco, querendo ter “algum” seguro (o que não é bom, mas sempre é melhor “prevenir do que remediar”), o João não se mostraria preocupado e continuaria a achar o banco um lugar seguro para pôr o seu dinheiro, porque “descobrira um processo eficaz”. Só faria depósitos em dinheiro, com um pormenor: Escreveria o seu nome completo em cada uma das notas, para eles saberem que eram as “suas”. E podia dormir descansado…

E tudo isto para dizer que, uma sociedade civilizada rege-se por regras, por leis, por princípios éticos e morais, havendo instituições que são os seus guardiões, os garantes de que o povo pode confiar. Ora, se já não podemos confiar nas instituições políticas (por via dos políticos que não são confiáveis), se o sistema de justiça está desacreditado e com dificuldades em recuperar, os bancos eram a última reserva dessa confiança. E eu disse “eram” porque começamos a perceber que, por detrás do aparato, há “esquemas”, créditos “fáceis e gordos” a amigos para não serem pagos, negócios estranhos e inconfessáveis que o cidadão comum nunca imaginou, pondo em causa a sua viabilidade e credibilidade, em suma, o nosso dinheiro. Para além do “aviso” de que nos poderia vir a acontecer o mesmo que aos depositantes de Chipre. Ser legalmente roubados…

O “estoiro” do banco dos “donos do país”, a quem a classe política se rendera há muito, numa orgia entre governos e bancos que permitiu o encobrimento dos buracos uns dos outros, qual compadres ou parceiros de ladroagem do nosso futuro coletivo, ficamos perplexos, não só pela dimensão do tal “buraco” (e ainda não se viu o fundo…), como pelos três milhões de caução exigidos ao senhor Salgado, que pagou mais facilmente do que a maioria dos portugueses pagaria cem euros, para “não ir dentro”. É a imoralidade do sistema.

Já estou a “chorar” pelas suas “dificuldades” no gozo da velhice na mansão junto ao mar, tendo de se governar com uns “míseros” duzentos milhões que dizem ter para o lado do sol nascente. E o resto da “quadrilha” continua “a monte”, sem qualquer caça policial.

Caiu a máscara ao último guardião da confiança, a banca, e fica a imoralidade dessa cáfila de ladrões de cartola que se revelaram os seus “donos” (ou donos do país?), escapar à justiça.

E o que nos resta? Para mal dos nossos pecados, da nossa economia e de nós próprios, continuar a enterrar o dinheiro no quintal, no jardim ou na corte do gado para que, pelo menos esse, escape à voracidade da “quadrilha”, que inverteu todas as regras da ética e da moral, atirando a decência que se esperava da democracia para o caixote do lixo. Uma imoralidade absoluta, que nos faz assistir ao “usufruir da velhice” com toda a qualidade de vida por esse grupo de “senhores” (a que nem sequer nos atrevemos a chamar de ladrões, pois isso é para os pilha-galinhas) que serão sempre protegidos por quem nos deveria proteger. É a imoralidade do sistema.

Como é que podemos ter respeito por esta casta de gente, que trepou ou tomou de assalto todo o tipo de poderes?

Diálogo de surdos… ou a falta dele

Qual é a coisa que altera todas as rotinas de um lar e transforma totalmente a vida de uma família, desde os horários, programas de televisão, refeições, prioridades, descanso, férias, saídas, etc.? Não, não é a mudança de emprego, nem a vizinha “boazona” que se insinua ao marido, nem sequer a “praga” da sogra que veio com bilhete sem data de volta. É, sim, a chegada de um filho.

Ter um filho é assumir uma grande responsabilidade, não tanto porque tenha de se lhe dar tudo mas sobretudo porque se tem de lhe dar tempo, de estar disponível para ele desde que nasce.

Fui um “sortudo” ao ter sempre em casa uma figura essencial, a minha Mãe, para me escutar, esclarecer, ajudar a compreender, corrigir e aconselhar. Tinha sempre tempo e foi fundamental na educação e formação que tenho.

Com o decorrer dos anos, a sociedade transformou-se, as mulheres deixaram a casa e entraram no mercado de trabalho para terem independência económica e complementar o rendimento familiar, deixando o lar de ter a presença de qualquer um dos pais durante o dia com as crianças entregues a terceiros.

Enquanto os pais estão mais preocupados com o sustento da casa, em ganhar dinheiro e não perder tempo, os filhos acabam por ficar mais sós em relação à família, mais afastados. E, ao chegarem a casa vindos da escola, quando querem desabafar sobre um qualquer problema recebem dos pais um “agora não, que estou cansado” ou “não me chateies com isso”, ou “agora não que quero ver este programa”, como que querendo excluir-se da sua vida e dos seus problemas. E estes, na sua necessidade de falar e de ter o apoio de alguém, acabam por o procurar em pessoas e ambientes errados, envolvendo-se na noite, conhecendo o álcool, as drogas e também as amizades não recomendadas. Só nessa altura, ao darem conta que o filho seguiu caminhos que não devia, é que os pais o procuram para conversar. Mas, quase sempre, é tarde demais, pois é o filho que já não está interessado em conversas…

Se durante o dia pais e filhos vivem afastados pelos trabalhos dos primeiros e pela escola e múltiplas atividades dos segundos (natação, música, futebol, karaté, ténis e muito mais, para que sejam o que os pais não conseguiram ser), à noite em casa os pais pregam o nariz na televisão para ver o futebol ou a telenovela enquanto os filhos se trancam no quarto “ligados” ao computador, ao telemóvel, à consola e à internet, noite dentro como os morcegos, como se vivessem em mundos separados.

O acesso e excesso de informação na escola, na internet e nos meios de comunicação nunca pode substituir o diálogo entre pais e filhos, porque essa informação deve ser analisada e questionada, sendo os pais importantes nesse trabalho, de onde surgem novos conceitos e se ganham princípios éticos e morais.

Educar não é fácil, mas é necessário desde o berço. E o diálogo deve ser permanente, aberto, nos dois sentidos, sem autoritarismos, pois não pode ser simples imposição nem mera transmissão de ordens ou decisões. Porque a maioria dos conflitos entre pais e filhos resultam da falta de diálogo desde a infância. Quando o lar é o local onde a informação e a conversa entre pais e filhos decorre naturalmente, há facilidade de estabelecer regras e limites. E podem-se abordar todos os temas, numa aprendizagem contínua da criança e do adolescente, sem inibições, para que não aconteça algo como na história (e não passa de uma história) que conto a seguir.

O menino estava no carro com o pai e olhava duas mulheres junto do passeio. “Pai, quem são aquelas senhoras?”

O pai, percebendo que eram duas prostitutas, ficou embaraçado. Não respondeu e desviou a conversa. “Olha, vamos ver aquela loja…”

“Já vi. Mas, quem são as senhoras e o que estão a fazer ali paradas?”

O pai, atrapalhado, respondeu: “São… são… senhoras que vendem na rua”.

“Mas vendem o quê”, insiste o filho. “Vendem… vendem… sei lá, um pouco de… prazer”, diz o pai, renitente.

O garoto ficou a pensar naquilo, associou prazer a coisa boa e não perguntou mais nada, o que deixou o pai aliviado. Mas, quando chegou a casa, foi ver o dinheiro que tinha das suas economias. Estava com sorte, cinquenta euros já dava para comprar prazer.

No dia seguinte foi procurar uma das mulheres e perguntou-lhe: “Desculpe, minha senhora, pode vender-me cinquenta euros de prazer, por favor?”

A mulher ficou admirada e, por momentos, sem saber o que fazer. Como a vida estava difícil, aceitou o dinheiro. Porém, como não podia agir de forma normal com o garoto, levou-o para casa onde estavam outras, e preparou-lhe quatro tortas de morango e chocolate.

Já era tarde quando o miúdo chegou a casa, encontrando o pai preocupado com a sua demora. Perguntou-lhe então onde tinha estado e ele olhou o pai e disse: “ Fui ver uma das senhoras que nós vimos ontem, para lhe comprar cinquenta euros de prazer”.

O pai ficou amarelo. E, a gaguejar, perguntou: E… então… o que é que se passou”?

“Bom, as duas primeiras não tive dificuldade em comê-las, a terceira demorei quase uma hora e a quarta já foi com muito sacrifício. Tive quase de empurrar com o dedo, mas mesmo assim, comi-a. No final estava todo lambuzado e a senhora convidou-me a voltar amanhã. Para ser sincero, só tive prazer nas duas primeiras. As outras, só comi para mostrar que sou mesmo homem. Pai, posso ir amanhã outra vez”?

E O PAI DESMAIOU.