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Temos barriga de pobre e boca de rico…

Sou do tempo em que a grande maioria das pessoas da minha aldeia tinha “barriga de pobre e boca de pobre”. A boca era solidária com o estatuto da barriga. Estava ao mesmo nível. Não sei quantas casas tinha a minha terra quando era miúdo e nem tenho ideia de quantas pessoas éramos. De uma coisa sei: usando a escala de riqueza atual, (quase) todos eram pobres. Bem pior: muito pobres. Tão pobres, tão pobres, que a quase totalidade dos portugueses que nasceu neste século e final do anterior não faz uma pálida ideia do que era ser pobre até aos anos sessenta e setenta do século passado. De jeito nenhum. Só quem atravessou esses tempos e “comeu o pão que o diabo amassou”, sabe o que isso significava: passar fome e frio, viver com muito pouco. Comia-se broa, cozida a cada quinze dias, às vezes dura e com bolor, a acompanhar uma grande malga de caldo, também ele bem pobre. E mais nada. Algumas vezes, havia “presigo”. Tinha-se “barriga de pobre” e, como ninguém se podia dar ao luxo de recusar comida, fosse ela qual fosse, também se possuía uma “boca de pobre”, porque nada se recusava e nada se exigia. “Tudo o que viesse à rede era peixe”. Sobrevivia-se. Não havia lugar a “não gosto disto” ou “não me apetece comer” pois comia-se tudo e de tudo o que fosse comida. Todos tinham a tal “boa boca”, chamada “boca de pobre”. Até mesmo aqueles (poucos) que tinham melhor condição económica estavam na mesma onda de “barriga de pobre”. Tanto assim que, quando havia lugar a alguma fartura de comida como era o caso dos casamentos, comia-se até não poder mais na ânsia incontida de “tirar a barriga de misérias”, confirmando esse velho ditado de “barriga de pobre, antes rebente que sobre”. Mas, no essencial, quem tinha “barriga de pobre” (ou seja, fome), tinha boca coerente com essa condição, a tal “boca de pobre”, não se dando ao luxo de ter “boca de rico”, de ser exigente, de só comer determinadas refeições. 

Felizmente, esse tempo deu lugar a outro tempo e a atitude perante a vida mudou radicalmente. Com o aparecimento e o desenvolvimento da indústria, passou a criar-se riqueza com grande facilidade. Os bens de consumo corrente passaram a ser produzidos maciçamente e com preços tão acessíveis, que o desperdício enorme de agora é maior do que aquilo que os ricos de outrora tinham para si. A falta deu lugar à fartura e esta ao desperdício. E o mais curioso desta premissa é que, até muitos dos que continuam a ter falta (a tal barriga de pobre), dão-se agora ao luxo de exigir e até mesmo de só aceitar aquilo que lhes agrada e apetece, mostrando ter boca de rico. Pobres, mas com uma atitude displicente, arrogante, não valorizadora dos bens essenciais que recebem da sociedade. Tornaram-se seletivos, nalguns casos até se “sentem ofendidos” se o que lhes é oferecido de boa vontade não está ao nível das suas espectativas. Por isso recusam e, pior, chegam a mandar diretamente para o lixo bens que seriam muito uteis a outras pessoas que ainda tenham “boca de pobre”. Já vi muitos mais casos desses do que gostaria de ter visto, além de ouvir vários relatos que não abonam em nada tais comportamentos … 

Mas a expressão “ter barriga de pobre e boca de rico” generalizou-se e ganhou atualidade nos tempos que vivemos, passando a ser usada em múltiplas situações, muito além da questão alimentar. A “barriga de pobre”, sinónimo de necessidade, pobreza, falta de dinheiro, baixa condição económica, de que se está a precisar, está em contradição com as exigências que se fazem nas mais diversas situações, apesar de tantas vezes “nem se ter onde cair morto”. É como se alguém que está cheio de fome por não comer há vários dias só aceite refeição de “trufas com caviar” ou uma pessoa que não tenha roupa para vestir exija trapos com o rótulo da Prada. 

Este absurdo é muito comum nos nossos dias, talvez bem maior do que aquilo que podemos imaginar e atravessa uma certa parte da nossa sociedade. Confrontou-se com ele a minha mãe, dias depois de entregar vários artigos na casa de um casal com manifestações claras de “estar a passar mal”, quando foi levar o lixo ao contentor ali perto de casa. Lá dentro estava tudo o que lhes levara, parte ainda dentro da embalagem aberta!!! Confrontou-se com ele o pai de um conhecido meu que oferecera um automóvel de gama média ao filho por saber que ele nem tinha economias, nem ganhava o necessário para sequer se aventurar a comprá-lo, quando soube que, dias depois, ele o trocou por um outro de gama alta e gastos elevados. Confrontou-se com ele um homem que deu ao filho um terreno e dinheiro suficiente para ele construir uma boa casa, quando descobriu que o filho hipotecou tudo para lá construir uma enorme mansão para a qual não tinha meios. Confrontam-se as instituições a quem são exigidas condições e regras muito caras, como imposições da Comunidade Europeia, mas a quem não são concedidos, nem de perto nem de longe, os meios financeiros dessa Comunidade.  

Vem isto a propósito das notícias diárias sobre infeções covid-19 em Lares de Idosos, agora rebatizados de “Estruturas Residenciais Para Idosos (ERPI)”, dizem “o maior foco de preocupação das autoridades sanitárias do país”, seguramente a maior preocupação dos seus dirigentes. Sobre cada um dos Lares atingidos por surtos e de que a

comunicação social faz eco, paira a sombra do estigma de má gestão e falta de condições, tanto ao nível de instalações como das equipas de colaboradores, como se os gestores fossem paraquedistas caídos ao acaso e os colaboradores gente que “não percebe um corno do que faz”. Mais ainda, permitem-se alguns especialistas criticar instalações por serem antigas, que há necessidade de mais enfermeiros, médicos, nutricionistas e outros técnicos, numa manifestação clara de que não percebem nada do que estão a falar e não passam de irresponsáveis com “boca de rico” a mandar palpites baratos. Esquece-se essa gente que “a barriga é de pobre”, isto é, as instituições estão subfinanciadas por um estado que também tem “barriga de pobre”? E são elas que têm de inventar recursos para suprir o deficit e não têm como pagar mais pessoal, mais obras, mais especialistas. Qual a instituição que não gostaria de ter instalações de luxo? Qual não deseja ter a melhor e mais completa equipa de pessoal? E já agora, onde está o dinheiro para tudo isso? 

Bom, duas coisas são certas: os políticos só se lembram dos idosos durante as campanhas eleitorais (e percebe-se porquê), enquanto uma boa parte de familiares só se lembra dos idosos até conseguir “metê-los no Lar” (e também se percebe porquê) depois de os terem “aliviado” dos poucos ou muitos bens que possuíam. Porém, quando toca a fazer exigências, um e outros não têm vergonha nenhuma em mostrar a tal “boca de rico”, com arrogância para as instituições que cuidam de quem eles não cuidaram, talvez para tentarem aliviar o peso de consciência …