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“Encontrei o seu cão …”

Tenho uma empresa, uma empregada e um escritório, onde se atendem clientes, fazem negócios e desenham projetos. Por mais estranho que pareça, também ali se promove a adoção de animais abandonados e até se dá abrigo a um ou outro. Por isso, passa lá gente sensível à causa, que ajuda a fazer este mundo um pouco melhor. Gente boa, discreta, humilde, atenta, que tantas vezes vai além do possível só para salvar um animal. Há histórias lindas de fazer chorar, lições de vida que ficam no anonimato, dedicação aos que não podem nem sabem reivindicar, não têm voz, apesar de terem direitos. Simples e preocupados, dos que passam na rua e veem o que a maioria não enxerga, e fica quando os outros têm pressa, que procura uma solução quando o normal é ignorar.

Se eu fosse aquele cão rafeiro que foi levado para o escritório pela Teresa, provavelmente contaria algo como isto: “… e então, cansado, ferido por dentro e por fora, com sede e fome, desisti de mim. Fiz um buraco na terra e lá me deitei enroscado para esperar o fim, como sempre o fazem os animais abandonados. Quando ouvi passos e vozes humanas, já não abri os olhos. Nem tinha forças, nem acreditava. Mas você parou, tocou-me e chamou por mim. Quis rosnar, arreganhar os dentes, porque só me enxotaram, mas você disse: “agora está tudo bem”. Cortou a corda que trazia ao pescoço, com que me amarraram à árvore e que eu roera. E pegou-me ao colo como se fosse um bebé. Deixei-me ir. Estava cansado de lutar. Deu-me banho, remédio, cuidou minhas feridas e mazelas, deu-me água e comida, sem um grito, um pontapé. E um espaço, um lugar, uma companhia. Quando já não acreditava, tirou-me da rua, lutou por mim. Não passou sem me ver e sentiu a minha solidão”. Sempre que olhava esse cão, não deixava de ter vergonha pelas nossas pequenas e grandes misérias … 

Como alguém partilhou comigo um lindo texto de autora anónima com o título “Encontrei o seu cão”, não posso deixar de o fazer também aqui. É um bom complemento ao tema em questão.

“Hoje encontrei seu cão. Não, ele não foi adotado por ninguém. Aqui por perto a maioria das pessoas já tem vários cães e quem não tem nenhum não quer um cão. Eu sei que você esperava que ele encontrasse um bom lar quando o deixou aqui, mas ele não encontrou. Quando o vi pela primeira vez ele estava bem longe da casa mais próxima, sozinho, com sede, magro e mancando por causa de um machucado na pata.
Eu queria tanto ser você no momento em que parei na frente dele! Então poderia ver sua cauda abanando e seus olhos brilhando ao pular em teus braços, pois ele sabia que você o encontraria, sabia que você não o esqueceria. Poderia ver o perdão nos olhos dele por todo sofrimento e dor que passara na interminável jornada à tua procura. Mas eu não era você. E apesar de minhas tentativas de convencê-lo a se aproximar, os olhos dele viam um estranho. Ele não confiava em mim. Ele não se aproximava.
Então ele se virou e seguiu seu caminho, pois tinha certeza de que o caminho o levaria a você. Ele não entendia porque você não o estava procurando. Ele só sabia que você não estava lá, sabia que precisa de te encontrar e que isso era mais importante do que comida, água ou o estranho que lhe poderia dar essas coisas.
Percebi que seria inútil tentar persuadi-lo ou segui-lo. Nem o nome dele, eu sabia! Fui para casa, enchi um balde com água, coloquei comida numa vasilha e voltei para o lugar em que o encontrara. Não havia nem sinal dele, mas deixei a água e a comida debaixo da árvore onde ele estivera descansando ao abrigo do sol. Veja bem, ele não é um cão selvagem. Ao domesticá-lo, você tirou dele o instinto de sobrevivência nas ruas. Ele só sabe que precisa caminhar o dia todo. Ele não sabe que o sol e o calor podem custar-lhe a vida. Ele só sabe que precisa de te encontrar.
Aguardei na esperança de que voltasse a buscar abrigo sob a árvore, na esperança de que a água e a comida fizessem com que confiasse em mim; assim poderia levá-lo para casa, cuidar do machucado da sua pata, dar-lhe um canto fresco para se deitar e ajudá-lo a entender que você não faria mais parte vida dele. Ele não voltou naquela manhã e a água e a comida permaneceram intocadas. Fiquei preocupada. Você deve saber que poucas pessoas tentariam ajudar teu cão. Algumas o enxotariam, outras chamariam a carrocinha que lhe daria o destino que você talvez achasse que o libertaria de todo o sofrimento pelo qual porventura estivesse passando.
Voltei ao mesmo lugar antes do anoitecer e não o encontrei. Na manhã seguinte, retornei e vi que a água e a comida continuavam intactas. Ah, se você estivesse aqui para chamá-lo pelo nome, tua voz lhe é tão familiar!
Comecei a caminhar na direção que ele havia tomado antes, mas sem muita esperança de encontrá-lo. Ele estava tão desesperado para te encontrar, que seria capaz de caminhar muito quilómetro em 24 horas.
Horas mais tarde e a uma boa distância do lugar onde o vira pela primeira vez, finalmente, encontrei o seu cão. A sede já não o atormentava, sua fome fora saciada, suas dores haviam passado, o machucado da pata não o atormentaria mais. Seu cão estava morto. Livrara-se do sofrimento. Ajoelhei-me ao lado dele e amaldiçoei você por não estar ali antes para que eu pudesse ter visto brilho naqueles olhos vazios, nem que só por um instante. Rezei, pedindo que sua jornada o tivesse levado ao lugar que imagino você esperava que ele encontrasse. Se você soubesse por quanta coisa ele passou para chegar lá… E sofri, sofri muito, pois sei que se ele acordasse agora e se eu fosse você, os olhos dele brilhariam ao vê-lo e ele abanaria o rabo perdoando-o por tê-lo abandonado”.

Receia que enjoem a “marmelada”…

A vida de há sessenta anos atrás era feita de privações, fome, frio, trabalho duro, quando havia. E necessidades. Havia muito pouco para ganhar, quase nada para distribuir, algum fruto para proteger. Havia fome de tudo, porque havia falta de tudo. Se faltava a broa (era o pão dos pobres, pois não havia “massa” para “moletes” nem sêmea), que era o mais elementar dos alimentos, muito mais difícil era ter acesso ao peixe, à carne, ao queijo, à manteiga e até à marmelada. Por falar em marmelada, em regra, fazia-se pouca por estas bandas, mesmo daquela em que está a pensar. Os marmeleiros, dispersos nas bordas dos campos e quase sempre junto aos regos de água, eram cultura marginal. Diria até que deles se aproveitavam mais as varas direitas e fortes para fazer os “paus de marmeleiro”, usados nas disputas do “jogo do pau” e para “aquecer” as costas dos incautos nas rixas de feira, como resultado de umas canecas de vinho a mais. Mas eram poucas as pessoas que faziam marmelada de marmelo para consumir em casa, até porque o açúcar (amarelo) era pouco para necessidades mais primárias. O meu tio vendia na loja marmelada em pequenas caixas de madeira, acessível só a alguns e, mesmo assim, às fatias. E, sendo natural que ainda esteja a pensar na “outra marmelada”, esses “marmelos” só se pressentiam pelo volume, de tão embrulhados em roupa. Nunca andavam à mostra. “Não faltava mais nada”, diriam as gentes dessa época. Nem dava para chegar perto, nem estavam assim à “mão de semear”. Eram mais sonhados que acariciados. E se a dona estivesse à conversa com um candidato a “cozinheiro ajudante” para fazer essa “doçura”, tal só acontecia à distância de três metros e com uma janela a separá-los, sendo certo e sabido que na janela ao lado e bem atenta às jogadas, estava a progenitora da moçoila, feita polícia de serviço. Não havia baldas. Nem sequer a “proprietária dos ditos”, por formação e educação, estava para aí virada. Até nas feiras de ano. Os lavradores iam com a família toda. Ele, mal chegava, ia direito à feira do gado para “apreçar” uma junta de bois de trabalho, enquanto a mulher e filhas percorriam os tendeiros para comprar um lenço da cabeça ou umas arrecadas no ourives. 

As filhas iam à frente, coradas das papas que comiam antes de sair de casa, todas aperaltadas e com o cordão de ouro sobre “eles”. À vista, só o cordão. E os “marmelos”? Nem vê-los. Só os volumes, bem embrulhados. Nada mais. Atrás, mas suficientemente perto para as controlar, ia a mãe, armada em guarda-costas. Os moços, de colete e chapéu, metiam conversa, mas não havia “avanços” para chegar “ao pé”. Só no dia a dia, em especial durante os trabalhos, surgiam as oportunidades. No campo, a segar erva, o “controle” era bem menos apertado. E aí, podia acontecer. 

Num desses dias, um garoto chegou a casa esbaforido e a gritar: “Oh mãe, o João das Quintãs estava a fazer “porcarias” com a nossa Mila “antr’omilho”. Houve consequências. A Mila não saiu de casa durante um mês. O João levou uma “coça” do pai com a correia dos bois e, apesar de ser jovem, teve de casar com a Mila, “sem tugir nem mugir”. E a criança nasceu “antes do tempo”. É que, “marmelada” a sério, só podia ser feita depois do “papel assinado” e mesmo assim, em bom recato. Em público, nem pensar. Já a Maria teve pior sorte. Também “engordou”. Quando os pais souberam da “maroteira”, puseram-na fora de casa, porque era “uma vergonha”, a desonra da família …

Hoje, na região, ainda se faz marmelada com marmelos que pendem do marmeleiro, se bem que a maior parte seja industrializada. Toda a gente sabe que é mais fácil “produzi-la” no supermercado. Dos outros “marmelos”, outrora quase “clandestinos”, já não há a preocupação de os manter fora dos olhares indiscretos dos mirones como segredo bem guardado. Pelo contrário, as modas mandam que sejam expostos (e bem), usados como arma de ataque e conquista, íman para atrair quem dê uma mão (ou duas) para fabricar o tal “produto”. São artigo para provocar a “concorrência”, com visual muitas vezes trabalhado “cirurgicamente”. Deve dizer-se que passaram a merecer um cuidado especial das donas, sendo sujeitos a tratamentos para melhorarem o “aspeto” e a “atitude”, devendo ser firmes e de “cabeça levantada”, às vezes “desafiantes” e “provocadores”. É que estão sujeitos todos os dias a serem “observados” e “avaliados”. Criou-se toda uma indústria de “suportes” especiais, diversificados, conforme as “necessidades” específicas de cada par, em tamanho, aproximação ou afastamento, maior ou menor elevação, para mostrar verdades ou criar ilusões e enganos. No mínimo, num “espírito humanitário” para “levantar os caídos” ou “dar vida aos mortos” … E a “marmelada” deixou de ser feita às escondidas, em recato, longe da vista e dos olhares gulosos dos “consumidores”. Saiu à rua, invadiu os espaços privados e até os públicos, “trabalhada” sem restrições, limites e inibições de local, tempo, presenças e preconceitos, como um direito de liberdade. Nem se sabe bem se às vezes é para “consumo próprio”, “exibicionismo” ou só “para inglês ver” …

Em termos gastronómicos, sempre ouvi dizer que, comer marmelada com queijo, sabe a casar. E ainda hoje há quem peça para sobremesa “um dueto” ou “Romeu e Julieta”, essa mistura de doce e amargo que dá gosto à vida.

Dizia-me um amigo que os seus filhos adolescentes, já andam fartos de bolos e doces e até já enjoaram a marmelada. Por isso, ao ver as facilidades que hoje têm para fazer da “outra marmelada”, podendo variar de “fruta” sempre que querem, ele anda muito preocupado e manifestou-me os seus receios. Tem um medo terrível que eles um dia destes também “enjoem” esse tipo de “marmelada” e queiram variar e experimentar “outras sobremesas”, menos ortodoxas e mais alternativas, mas para as quais ele não está nada mentalizado …