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mais que um dever, uma obrigação…

Tenho de reconhecer que já não sou o mesmo dos meus tempos de criança e adolescente. Há coisas que perdi, valores de que fui abrindo um pouco a mão, princípios e normas morais e sociais em que já não sou bem o mesmo. É o caso do cumprimentar, essa norma de cortesia que implica comunicação, educação e simpatia. Se quando novo não deixava de desejar um “bom dia”, “boa tarde” ou perguntar “como tem passado” a qualquer pessoa da aldeia, hoje passo pela grande maioria “como cão por vinha vindimada, calado como um rato”. A desculpa, se é que ainda me desculpo, é de que não as conheço e elas nem sequer dão oportunidade de as cumprimentar de tão fechadas que vão. Não serei eu que também estou fechado?

Quanto vale um cumprimento, um “olá”, um “passou bem?”, um olhar, um aperto de mão ou um sorriso? Custam tão pouco se é que têm custos, distribuem-se gratuitamente e não há dinheiro que os pague. Em contrapartida, são contagiantes, abrem portas, rostos, sorrisos, um mundo melhor. Não precisamos de ser todos amigos e andar por aí aos abraços e beijos a quem conhecemos ou não. Mas, a verdade é que ser agradável e educado é uma questão de cortesia e simpatia.

Se há coisas que me deixam saudades desses tempos de criança, era essa relação entre as pessoas da terra, essa impossibilidade de se passar por alguém sem dizer “boa tarde Sãozinha”, “como está o seu filho?” ou outra palavra qualquer como elo a ligar seres humanos, colocando-os em sintonia. Os homens, ao cumprimentar alguém tiravam o chapéu e faziam uma pequena vénia com a cabeça e o busto. Se estivessem a fumar, ficavam com o cigarro na mão. Os pobres, mais humildes, não punham o chapéu enquanto falavam com quem tivesse um pouco mais que eles, a não ser que lhe dissessem “ponha o chapéu”. Mas era impensável passar por alguém sem cumprimentar, sem perguntar pela família ou até por um animal doente. As mulheres personalizavam mais, tratando o outro pelo nome. “Olá Miquinhas, como está do reumatismo?” ou “boa tarde senhor João?”. Interessavam-se uns pelos outros no cumprimentar do dia a dia, como se fossem todos da mesma família. E eram …

Ao passarem os anos e com as mudanças profundas da sociedade, o aumento da população e a urbanização das massas, esse espírito de comunidade foi-se desgastando, como se gastam as roupas, os pneus do carro, as pedras da calçada e os “valores” (incluindo o dinheiro). Vivemos amontoados em aglomerados urbanos onde tantas vezes andamos tão perto uns dos outros, senão mesmo aos encontrões, mas tão distantes, que nem nos apercebemos de quem se cruza connosco. Por isso, “esquecemo-nos” de cumprimentar o vizinho da frente com quem nos cruzamos todos os dias, a senhora de baixo, o varredor da rua ou o empregado de café que nos atende com amabilidade. Entramos num autocarro apinhado de gente e que fazemos? Olhamos para a janela ou enfiamos a cabeça entre as páginas de uma revista sem esboçar um sorriso sequer para qualquer dos companheiros de viagem. Aliás, nem damos por eles, porque “são invisíveis”. Já nem sequer vemos as pessoas que partilham com nós um mesmo espaço em simultâneo. Andamos “sós no meio da multidão”. E o mais triste é que nos “sentimos sós”, o que é um paradoxo.

O cumprimento é uma forma de saudação amigável entre as pessoas, que normalmente é acompanhado de algum gesto ou fala. Varia de país para país e até de região para região dentro do mesmo país. Em França cumprimenta-se com um beijo em Brest, dois em Toulouse e quatro em Nantes, sem que os lábios toquem o rosto, mas façam o estalido. Entre nós, o cumprimento mais comum é o aperto de mão, sendo o beijo e o abraço reservado a familiares e amigos. Mas cada país tem os seus hábitos. Penso que se cumprimentasse alguém como o fazem os maoris da Nova Zelândia, encostando o nariz e a testa ao outro, chamavam-me maluco ou davam-me um murro. Confesso que não estou interessado numa coisa nem noutra. No cumprimento, o “toque” é importante, seja pelo aperto da mão, o toque do punho, o beijo, o abraço. Conseguimos comunicar e entender muito melhor através dum simples “toque” as manifestações de carinho, simpatia, solidariedade, alegria e muitas outras emoções. Como nos sentimos confortados e próximos quando nos colocam a mão no ombro?

O cumprimento representa muito mais que um gesto de cortesia. Com ele, procura-se também atrair simpatia e arranjar um clima de amabilidade e até cumplicidade, sendo verdadeiramente importante nas relações sociais. Um aperto de mão também pode revelar muito dos seus intervenientes, através da linguagem corporal, da firmeza, do contacto visual. Podem ir dos frouxos e com a mão mole como um polvo morto, que manifestam insegurança e baixa autoestima, aos “quebra ossos”, de quem controla a situação; dos que só dão a ponta dos dedos, sinal de manter distância, aos que agarram até o cotovelo e se aproximam, dizendo-se íntimos; ou do apressado, manifestando desconsideração e falta de tempo para o outro, ao de mão cheia, com a mão esquerda cobrindo as mãos, em sinal de carinho. Sem esquecer a importância do contacto visual, olhos nos olhos, e do sorriso, capaz de animar o coração de qualquer mortal.

Quanto vale um abraço a alguém que está assustado, perdido ou em baixo? Como se sente uma mãe quando alguém se preocupa com a saúde do seu filho doente? Que importância tem um aperto de mão ao porteiro, ao varredor e àqueles que são “invisíveis” para a maioria das pessoas que por eles passam? Ser cordial e dar atenção àqueles com quem nos cruzamos no dia a dia, só nos acrescenta e um simples sorriso, um olá ou um aceno pode fazer toda a diferença. Distraídos, absortos ou fechados não contribuímos rigorosamente com nada, nem para os outros, nem para nós. E cumprimentar custa tão pouco e pode valer tanto…