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Saíste-me cá um músico!!!

Embora não pareça, a verdade é que também já fui músico – acho que foi noutra encarnação, tal a distância temporal… Bom, dizer que fui músico é presunção minha pois, na realidade, o facto de ter tocado viola e integrado um “conjunto musical”, aquilo a que hoje vulgarmente chamam “banda”, não me confere o direito de me classificar como tal. Seria uma ofensa para os verdadeiros músicos. Mas aprendi algumas lições nessa minha viagem pelas notas… de música.

Comecei a tocar viola quando estudava em Coimbra e, no dia em que me ensinaram três acordes, estive cinco horas seguidas a tocar. Acabei com as pontas dos dedos da mão esquerda cobertas de bolhas e só pude voltar a pegar na viola uma semana depois.

Primeira lição – “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.

Como não tinha dinheiro para comprar uma viola nova, fiz poupanças da pequena verba que os meus pais me davam para o trimestre e comprei uma viola velha a um colega da escola. Poucos dias depois, ao praticar no quarto, toquei com ela ao de leve na cabeceira da cama e fiquei com duas metades na mão quando a frágil caixa se partiu ao meio.

Segunda lição – “O barato sai caro”.

Durante os anos que estive em Coimbra acabei por aprender mais acordes e várias músicas em voga nessa década de sessenta, o suficiente para animar a malta quando em grupo, o que não é muito difícil, especialmente quando há bebida à mistura.

Terceira lição – “Quem canta mal, canta sempre”.

Depois, com as economias do meu estágio em Angola e alguma poupança no salário do primeiro emprego, consegui juntar (e nessa altura era possível juntar algum dinheirito) o suficiente para comprar livros de música e uma guitarra elétrica barata mas sem amplificador. Entretanto, como o meu amigo Nelo regressou da Alemanha onde esteve a trabalhar durante as férias grandes e trouxe duas guitarras e um amplificador, criou as condições mínimas para nos constituirmos como “conjunto musical”, integrando o grupo o meu irmão António e o Zé Melo. E foi numa festa privada em casa da D. Palmira Meireles que fizemos a primeira atuação dos “Moscas”, só por si um feito para a época. Entusiasmados com o arranque, compramos uma bateria nova e mais tarde, através de um familiar que recebera uma prenda vinda dos Estados Unidos para um sobrinho, acabamos por adquirir uma Fender Stratocaster, o top das guitarras e de que só havia meia dúzia em Portugal. A verdade é que nunca tirei dela o devido partido.

Quarta lição“A viola quer-se na mão do tocador”

Eu era o baixista do conjunto mas, com a ida do meu irmão para o Ultramar, tive de ocupar o seu lugar de solista, entrando um primo para o lugar que deixara.

Quinta lição“Quem toca muitos instrumentos não toca bem nenhum”.

Todos os conjuntos musicais, desde o 1111 do José Cid ao grupo do Shegundo Galarza, tocavam essencialmente nos grande bailes (os concertos e festivais ainda não eram moda). Ora, era esse também o nosso mercado, embora num âmbito mais regional. Apesar da diferença técnica, “tocávamos limpinho” e sabíamos animar um baile, o que nos levou a atuar em muitos e bons palcos, desde o Grande Hotel da Curia ao Clube Fenianos Portuense, da Assembleia Lousadense a outras da região.

Sexta lição“Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei”.

Acabei por deixar temporariamente o conjunto quando fui cumprir uma comissão de serviço militar em Moçambique, reentrando o meu irmão que entretanto regressara de Angola. Enquanto estive fora o conjunto mudou de nome duas vezes e recebeu novos (e bons) músicos que melhoraram muito a qualidade do grupo. No entanto,

apesar de ter atingido um bom nível, não sobreviveu muito tempo após o meu regresso. Todos acabaram os cursos e entraram na vida profissional. Acabara-se o tempo das ilusões, era o tempo de “cair na real”.

Sétima lição“Não há bem que sempre dure nem mal que não acabe”.

Os momentos em que toquei no grupo foram únicos, algo que nunca esquecerei. Foi um prazer para o espírito e um consolo para a alma. Alheava-me totalmente do mundo que me rodeava, despia-me de problemas, usufruindo em pleno desse êxtase. Afinal havia Céu…

Oitava lição“Quem faz o que gosta, nunca vai trabalhar na vida”.

Décadas depois, fico impressionado com a quantidade e qualidade de jovens, esses sim, músicos que me davam dez a zero e souberam aproveitar as oportunidades de hoje que eu não tive. Entre muitas outras, o Conservatório do Vale do Sousa tem sido uma fábrica de sonhos para muitos desses jovens que querem singrar na música, afirmando-se como uma excelente escola com resultados à vista. São disso exemplo todos aqueles que viraram profissionais, um excelente cartaz para o Conservatório, uma honra para professores e dirigentes da ACML e um orgulho para os pais. E isso ficou bem patente no excelente Concerto de Natal que alunos e professores do Conservatório deram recentemente na Casa da Música, no Porto.

No entanto, sendo muito difícil assegurar a sustentabilidade de uma instituição como aquela, é importante que a estrutura diretiva da ACML tenha tranquilidade e paz necessárias para se concentrar no que é essencial e esquecer o que é acessório.

E nesse acessório estão (ainda) os problemas levantados por alguns músicos que deixaram a banda da ACML há alguns anos (mas levaram bens que a esta pertencem) e provocaram um conflito aberto e continuado, já apelidado de “terrorismo psicológico”, só possível pela morosidade da justiça e dos seus absurdos. Por isso, já é tempo de meterem a mão na consciência, repensarem a sua postura e porem um ponto final nessa “guerra” sem sentido. Seria um ponto a seu favor e… muitos mais a favor de todos nós… comunidade.

Embora não pareça, a verdade é que também já fui músico – acho que foi noutra encarnação, tal a distância temporal… Bom, dizer que fui músico é presunção minha pois, na realidade, o facto de ter tocado viola e integrado um “conjunto musical”, aquilo a que hoje vulgarmente chamam “banda”, não me confere o direito de me classificar como tal. Seria uma ofensa para os verdadeiros músicos. Mas aprendi algumas lições nessa minha viagem pelas notas… de música.

Comecei a tocar viola quando estudava em Coimbra e, no dia em que me ensinaram três acordes, estive cinco horas seguidas a tocar. Acabei com as pontas dos dedos da mão esquerda cobertas de bolhas e só pude voltar a pegar na viola uma semana depois.

Primeira lição – “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.

Como não tinha dinheiro para comprar uma viola nova, fiz poupanças da pequena verba que os meus pais me davam para o trimestre e comprei uma viola velha a um colega da escola. Poucos dias depois, ao praticar no quarto, toquei com ela ao de leve na cabeceira da cama e fiquei com duas metades na mão quando a frágil caixa se partiu ao meio.

Segunda lição – “O barato sai caro”.

Durante os anos que estive em Coimbra acabei por aprender mais acordes e várias músicas em voga nessa década de sessenta, o suficiente para animar a malta quando em grupo, o que não é muito difícil, especialmente quando há bebida à mistura.

Terceira lição – “Quem canta mal, canta sempre”.

Depois, com as economias do meu estágio em Angola e alguma poupança no salário do primeiro emprego, consegui juntar (e nessa altura era possível juntar algum dinheirito) o suficiente para comprar livros de música e uma guitarra elétrica barata mas sem amplificador. Entretanto, como o meu amigo Nelo regressou da Alemanha onde esteve a trabalhar durante as férias grandes e trouxe duas guitarras e um amplificador, criou as condições mínimas para nos constituirmos como “conjunto musical”, integrando o grupo o meu irmão António e o Zé Melo. E foi numa festa privada em casa da D. Palmira Meireles que fizemos a primeira atuação dos “Moscas”, só por si um feito para a época. Entusiasmados com o arranque, compramos uma bateria nova e mais tarde, através de um familiar que recebera uma prenda vinda dos Estados Unidos para um sobrinho, acabamos por adquirir uma Fender Stratocaster, o top das guitarras e de que só havia meia dúzia em Portugal. A verdade é que nunca tirei dela o devido partido.

Quarta lição“A viola quer-se na mão do tocador”

Eu era o baixista do conjunto mas, com a ida do meu irmão para o Ultramar, tive de ocupar o seu lugar de solista, entrando um primo para o lugar que deixara.

Quinta lição“Quem toca muitos instrumentos não toca bem nenhum”.

Todos os conjuntos musicais, desde o 1111 do José Cid ao grupo do Shegundo Galarza, tocavam essencialmente nos grande bailes (os concertos e festivais ainda não eram moda). Ora, era esse também o nosso mercado, embora num âmbito mais regional. Apesar da diferença técnica, “tocávamos limpinho” e sabíamos animar um baile, o que nos levou a atuar em muitos e bons palcos, desde o Grande Hotel da Curia ao Clube Fenianos Portuense, da Assembleia Lousadense a outras da região.

Sexta lição“Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei”.

Acabei por deixar temporariamente o conjunto quando fui cumprir uma comissão de serviço militar em Moçambique, reentrando o meu irmão que entretanto regressara de Angola. Enquanto estive fora o conjunto mudou de nome duas vezes e recebeu novos (e bons) músicos que melhoraram muito a qualidade do grupo. No entanto,

apesar de ter atingido um bom nível, não sobreviveu muito tempo após o meu regresso. Todos acabaram os cursos e entraram na vida profissional. Acabara-se o tempo das ilusões, era o tempo de “cair na real”.

Sétima lição“Não há bem que sempre dure nem mal que não acabe”.

Os momentos em que toquei no grupo foram únicos, algo que nunca esquecerei. Foi um prazer para o espírito e um consolo para a alma. Alheava-me totalmente do mundo que me rodeava, despia-me de problemas, usufruindo em pleno desse êxtase. Afinal havia Céu…

Oitava lição“Quem faz o que gosta, nunca vai trabalhar na vida”.

Décadas depois, fico impressionado com a quantidade e qualidade de jovens, esses sim, músicos que me davam dez a zero e souberam aproveitar as oportunidades de hoje que eu não tive. Entre muitas outras, o Conservatório do Vale do Sousa tem sido uma fábrica de sonhos para muitos desses jovens que querem singrar na música, afirmando-se como uma excelente escola com resultados à vista. São disso exemplo todos aqueles que viraram profissionais, um excelente cartaz para o Conservatório, uma honra para professores e dirigentes da ACML e um orgulho para os pais. E isso ficou bem patente no excelente Concerto de Natal que alunos e professores do Conservatório deram recentemente na Casa da Música, no Porto.

No entanto, sendo muito difícil assegurar a sustentabilidade de uma instituição como aquela, é importante que a estrutura diretiva da ACML tenha tranquilidade e paz necessárias para se concentrar no que é essencial e esquecer o que é acessório.

E nesse acessório estão (ainda) os problemas levantados por alguns músicos que deixaram a banda da ACML há alguns anos (mas levaram bens que a esta pertencem) e provocaram um conflito aberto e continuado, já apelidado de “terrorismo psicológico”, só possível pela morosidade da justiça e dos seus absurdos. Por isso, já é tempo de meterem a mão na consciência, repensarem a sua postura e porem um ponto final nessa “guerra” sem sentido. Seria um ponto a seu favor e… muitos mais a favor de todos nós… comunidade.

Fechado para balanço…

O final do ano é o momento ideal para avaliar os resultados de mais trezentos e sessenta e seis dias de vida e, por isso, no dia trinta e um de Dezembro fiz o mesmo que qualquer estabelecimento comercial faz (ou fazia): Fechar para balanço. No entanto, não me socorri do contabilista senão iria falar-me em ativos e passivos, património e resultados, credores e devedores, matérias primas e amortizações e, com franqueza, não estava para aí virado. Também estava em desvantagem em relação a qualquer casa comercial porque elas podem fechar a porta para fazer o balanço mas eu, não. É que o diabo da minha “máquina” trabalha vinte e quatro horas sobre vinte e quatro (e ainda bem) e, por isso, estou naquilo que os contabilistas chamam de “inventário permanente”.

Pensei começar pelo lado financeiro mas, com franqueza, será que valia a pena avaliar os “resultados negativos”, os “devedores” que já deixaram de atender o telemóvel há muito tempo e os amigos (falsos) que me “cravaram”, fazendo com que perdesse o dinheiro e o amigo? Claro que nem precisava de perder tempo com a balança e o balanço para confirmar que estou mais pobre porque os “ativos” diminuíram de forma vertiginosa. Quem o não é?

Importante a verificar no ano que findou é que completei mais um de vida e terei menos um para viver (é a história do copo meio cheio ou meio vazio…). Só por isso, tenho que estar muito agradecido pois, pelo caminho, partiram familiares, amigos e muitos conhecidos, tantos deles muito mais novos do que eu, “abatidos” ao meu “património” pessoal. Mas é uma alegria enorme continuar a ter comigo a minha mãe, já para além dos noventa mas com saúde, qualidade de vida e mente viva de fazer inveja a qualquer um, a Luísa com todos os seus problemas mas que continua a fazer-me companhia e os filhos e suas companheiras. E até a nossa cadela “Diana” se tornou cada vez mais uma companhia, ao ponto de já não saber quem é que faz companhia a quem. É que ela só está bem quando alguém está por perto. E, por isso mesmo, tem o “trabalho chato” de se estender ao comprido na sala e ressonar alto e em bom som para “darmos conta” que está presente. Posso contar com ela. Podia pedir mais? Não porque, nas coisas verdadeiramente importantes da vida, o ano deu-me tudo. Obrigado, Bom Deus. Assim, prefiro nem falar na paciência que é preciso ter para aturar certas coisas e pessoas mas, mesmo isso, espero que entre como compensação na “amortização” dos meus pecados. Ao aturarem-me a mim, outros dirão o mesmo…

Em Itália, menos preocupados com o balanço e mais com o “aliviar” da carga, os italianos foram incentivados a lançarem pela janela fora os tachos velhos e os vasos rachados ao soarem as doze badaladas, num sinal de que nos devemos desfazer das coisas menos boas do ano que acaba, atirando-as para o rol do esquecimento, para dar lugar às novas. Será mesmo isso que devemos fazer ao mudar de ano? O ano velho trouxe-nos problemas de saúde, ressentimentos, faltas de dinheiro, fracassos, injustiças, desemprego, perda de alguém muito querido, hipotecas, entrega da casa ao banco e muitas outras coisas menos boas. E o novo, só pelo facto de mudarmos de trinta e um para o dia um, vai trazer-nos saúde, dinheiro e amor? Sucesso, fama e glória? Poderemos acreditar que, por um “decreto de esperança” a partir de Janeiro seremos todos felizes pois só haverá paz entre os homens, justiça, riqueza, solidariedade e tudo o mais?

As mudanças não ocorrem só porque acabou o ano de 2016 e começou 2017, nem por atirarmos pela janela fora os trastes velhos e, muito menos, por manifestarmos um conjunto de desejos, sonhos e promessas a alcançar no ano que começa, e que repetimos sempre no final de cada ano. As verdadeiras mudanças só ocorrem se “nós mudarmos”, se formos capazes de nos libertar de preconceitos que nos “amarram” e recuperar valores que deixamos escapar.

Ao soarem as doze badaladas da noite de fim de ano ou de uma outra noite qualquer, deveríamos ser capazes de seguir os conselhos do escritor moçambicano Mia Couto, proferidos na oração de sapiência que fez numa universidade de Moçambique. Nessa brilhante oração defendeu que “não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos”. E que, “à porta da modernidade, precisamos de nos descalçar”. Por analogia, eu substituo “modernidade” pelo “Novo Ano”. E diz ele, que encontrou “sete sapatos sujos que precisamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos”, isto é, na soleira da porta do Ano Novo. São eles:

“Primeiro sapato: A ideia de que os culpados são sempre os outros”.

“Segundo sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho”.

“Terceiro sapato: O preconceito de quem critica é um inimigo”.

“Quarto sapato: A ideia de que mudar as palavras muda a realidade”.

“Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências”.

“Sexto sapato: A passividade perante a injustiça”.

“Sétimo sapato: A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros”.

Sete sapatos que precisamos deitar fora, sete lições de vida, sete atos de contrição. Cada um de nós deve olhar para a sua “sapateira” e perceber o que ali tem a mais. Sermos capazes de nos libertar desses sapatos sujos é muito importante para crescermos, ainda que tenhamos de caminhar descalços. Mas de alma lavada…

A melhor prenda de Natal…

Aí estamos nós com o Natal à porta e a azáfama comercial em alta. Há mais de um mês que a publicidade, o poderoso instrumento da sociedade de consumo, usa todos os artifícios, engenhos e engodos para nos iludir e levar a comprar milhares de produtos, tidos como “próprios da quadra natalícia”. Já lá vai o tempo em que o Natal era um dos poucos momentos para se darem prendas… úteis, regra geral roupa. Era sempre nestes dias que “estreava” o fato novo, as calças ou a camisola. Mas, tal só acontecia quando a necessidade fosse evidente. Não se tinham três pares de calças, muito menos três fatos. Daí que as prendas dessa época eram bens de uso corrente, como a roupa. E brinquedos? Nada. Cada um fazia os seus, improvisando. Na noite de Natal, depois do jantar em casa da minha avó materna (mesmo em frente da casa dos meus pais), jogávamos o “rapa”, ao pinhão. Os pinhões, conseguia-os num pinheiro manso atrás de casa da avó, trepando como um gato à copa para apanhar pinhas. Abria-as e dividia os pinhões com os meus irmãos para jogar. Ao longo da noite partíamos alguns para comer. E era assim que fazíamos a noitada… No sapatinho, o Menino Jesus (ainda não tinha “nascido” o Pai Natal…) punha umas meias ou umas luvas de lã feitas pela minha mãe. E eram prendas muito bem vindas…

Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades, as necessidades e os desejos. Se em criança tivéssemos prenda (e eram poucos os que a tinham), esta era um bem essencial. Em contraponto, muitas das prendas de hoje são bens supérfluos, tantas vezes recebidas com um sorriso, mas logo arrumadas na prateleira e ignoradas. No entanto, cumpre-se a tradição (criada pela sociedade de consumo…). E esta é uma das muitas razões pelas quais nos tornámos… “acumuladores de lixo”. Já há alguns anos que peço à família e amigos próximos que neste dia, como noutros momentos especiais, só me devem oferecer livros ou produtos que uso no dia a dia (creme de barbear, pasta de dentes, sabonetes, vinho, etc.). Bugigangas, não. Por favor. Já me basta as que estão espalhadas pela casa e que (quase) só são um estorvo. De tal forma que, quando alguma cai ao chão e parte… dou graças a Deus. É menos uma… E já nem falo das que estão encaixotadas!!! Talvez o facto de ter nascido em tempo de guerra, de privações e racionamento, tenha sido o motivo para nunca ter aderido verdadeiramente à sociedade de consumo, nem me ter tornado num consumista. Pelo contrário, à medida que envelheci, mais crítico me tornei do consumo desenfreado e irracional da sociedade. Mas não passei a vida sem cometer os meus “pecados” enquanto consumidor e não é necessário sair de casa para “tropeçar” nas consequências, a tal “tralha”. Muitos deles, foram (e são) motivo para uma vida mais complicada, precisamente o contrário daquilo que desejava. Tanto na casa, como nos anexos (estes são o sinal crónico de que a casa já era insuficiente para guardar todo o “lixo” que acumulamos ao longo da vida, como se tal “lixo” fosse importante para a nossa felicidade…). É curioso que, algum tempo depois de ter escrito uma crónica sobre o tema, uma simpática senhora encontrou-me na rua e veio agradecer-me. Quando perguntei porquê, contou-me que depois de o ler, recolheu todos os objetos que tinha em cima dos móveis e guardou-os em caixas. “Só deixei um objeto em cada móvel e não imagina como o trabalho de limpeza se tornou mais fácil”, confessou ela.

Com o aproximar da quadra natalícia, a publicidade massacra-nos, tentando impingir-nos um conjunto de produtos, mais ou menos comuns nas prendas de Natal. Alguns são até anunciados como se tivessem poderes especiais, em nada associados às suas funções, como se exprimissem sentimentos. São os perfumes maravilhosos que nos levam ao paraíso terrestre, chiques, estilizados e sensuais, os chocolates aveludados associados a vidas aristocráticas e luxuosas. Além dos brinquedos encantados da “Popota” e outras figuras que tais, que põem as crianças a fazer birras, telemóveis sofisticados de múltiplas funções “ao preço da chuva” e imensas promoções dos supermercados, que aliciam o coração mais duro. E os consumidores, que pensam agir pela sua cabeça, estão enganados. Profundamente enganados. Como alguém dizia, “nascemos infetados com o vírus da compra e da moda”. É assim que as crianças se queixam aos pais “porque o outro menino tem um brinquedo melhor, mais moderno”. E eles compram. E os adultos? “A diferença entre os adultos e as crianças é que, à medida que crescem, os brinquedos vão ficando mais caros”… E se outrora a decisão de compra era ponderada e racional, hoje somos influenciados de tal forma pelo marketing e pela publicidade, que compramos de forma absolutamente irracional, quando não compulsiva. Na realidade, tornamo-nos um fantoche da publicidade, que nos impinge e envolve numa auréola de felicidade e bem estar ao comprar o produto, compelindo-nos a ter, ter, ter, para nos sentirmos realizados. E são milhões de produtos que nos querem vender a toda a hora para nos fazer felizes…

Com toda a euforia consumista esquece-se o verdadeiro significado do Natal e a grande importância que tem como ponto de encontro e último reduto da célula mais importante da sociedade, que dá pelo nome de família. Por alguma razão católicos e protestantes, religiosos e ateus, fazem-se à estrada e calcorreiam quilómetros e quilómetros para o reencontro com os seus, tantas vezes o único do ano. O que é, só por si, um milagre de Natal. Por isso, a melhor prenda de Natal que alguém pode ter nesta noite abençoada, é a família toda reunida e a presença daqueles que ama. E neste país de imigrantes, há tantos a quem vai faltar alguém que está longe. E eu serei mais um…

Um Santo e Feliz Natal.

Compramos com os olhos, mas…

Fui ao supermercado comprar fruta e, como qualquer pessoa, a minha escolha foi feita com os olhos. Quem resistia à tentação daquelas maçãs vermelhinhas, lustrosas e de pele lisinha? Claro, trouxe algumas de duas variedades, grandes, lindas, perfeitas. Mal cheguei a casa, escolhi uma grande e bonita, lavei-a, dei-lhe uma dentada… e apanhei uma desilusão: Não sabia a nada, era insípida e farinhenta. E eu tinha consciência de não dever criar expectativas altas, muito menos que me saísse uma maçã suculenta e saborosa. É nestes momentos que me vêm à memória as recordações da fruta que comia quando criança. Não havia pomares na aldeia. As fruteiras que existiam estavam normalmente nas “bordas” dos campos ou nos quintais, talvez porque a fruta não era tida como um bem “de primeira necessidade”. Na maioria das casas quase só se comia caldo e broa. E sobremesa? O que era isso? Sobremesa não fazia parte do cardápio… A fruta, verde ou madura, quando se conseguia arranjar, era comida na hora para aplacar as reclamações do estômago vazio. Na aldeia a rapaziada conhecia todas as fruteiras, os ciclos de produção e… os donos. E confesso que, fazendo parte dessa rapaziada que se considerava “com direito” a “provar” a fruta antes deles, lembro com saudade o sabor da maçã verdeal (uma variedade que desapareceu). Existia na Quinta da Aldeia uma macieira dessas, que fazia questão de visitar mais que uma vez, antes de as colherem. As “maçãs de Santiago” eram boas, perfumadas e as primeiras a amadurecer. Quanto a cerejas, era um cliente habitual de uma grande cerejeira “Bical” que havia nas Cepas, a caminho de Recemonde. Estava pendurado numa galha quando o Avelino caiu lá do alto, batendo com “os costados” de ramo em ramo, até se estatelar no chão. Nunca mais comi cerejas tão boas…. E, claro, sabiam bem quando comidas em cima da árvore, às vezes com um olho nas cerejas e outro no dono… à distância. Nos ameixos (agora mudaram de sexo sem terem de fazer qualquer cirurgia e chamam-lhe ameixas), os melhores que conhecia eram os “de aparta caroço”, também conhecidos por “carangueijos” (rebatizados com o nome pomposo de “Rainha Cláudia”). Saborosos, tão saborosos que raramente a minha avó conseguia comer um… Gostava muito das peras de água e dos “cadornos”, também conhecidos por “peras de inverno”, grandes e bonitas mas difíceis de amadurecer. Depois de colhidas, enfiavam-se no meio da palha até ficarem boas. Só conhecia dois diospireiros e estavam junto à casa da Quinta do Souto, mas não era fácil chegar-lhes… Os melhores eram (e ainda são) os “coroa de rei”. Gosto muito e ainda me vou deliciando com esta variedade, abastecido por três amigos. Só na borda de um campo a caminho de Piage é que havia morangos. Bravios e pequenos, eram muito saborosos e perfumados, uma delícia. E podia desfiar mais algumas recordações da fruta que me dava prazer a comer, fruta com paladar. Enfim, fruta a sério.

Mas as produções naturais, praticamente sem a intervenção do ser humano ou com alguma ajuda aleatória, são irregulares e hoje insuficientes para a elevada procura dos mercados. Daí que se tenha passado à produção industrial, em grandes pomares, para satisfazer a muita procura e dar resposta às necessidades de mais população. Para isso, deixou-se o estrume e passou a utilizar-se fertilizantes. As pragas e doenças com que antes convivíamos (às vezes essa boa convivência só era interrompida quando ao dar uma dentada na maçã também acertávamos na lagarta) são agora combatidas com pesticidas, produtos com que hoje temos de conviver (mesmo que não o queiramos). Apesar do aspeto lindo, calibrado e perfeito das caixas de fruta que atualmente aparecem no mercado e cujo sabor quase raramente corresponde à apresentação, vivemos alheados de uma realidade: Grande parte dessa fruta contem resíduos de pesticidas. Se não tivermos isso em conta e não cuidarmos de ter algumas precauções, sofreremos as consequências. Usam-se demasiadas vezes os pesticidas de forma incorreta, sem respeito por nós, consumidores. No mundo real, o “manuseamento adequado” de pesticidas é simplesmente inviável. Nem com as formações, agora obrigatórias.. e pagas, como se deve calcular. Ninguém dá nada a ninguém, nem mesmo quando é do interesse geral, como é o caso.

Mas, voltando à fruta, felizes daqueles que conseguem ter fruta em casa… biológica, sem a utilização de fertilizantes nem pesticidas. Esses, sim, podem dizer que têm fruta caseira… Embora haja para aí muito boa gente que diz ter fruta caseira mas trata as fruteiras com todo o tipo de produtos químicos. Está bom de ver que fruta comem… É como os frangos caseiros… alimentados a ração industrial…

A questão que hoje se coloca, ao sabermos que a maior parte da fruta que compramos contem resíduos de pesticidas, é se devemos deixar de comer fruta por essa razão. Não comer uma maçã é uma má decisão mas, comer uma maçã sem a lavar ou descascar, é uma pior decisão, até porque comporta riscos. É certo que já não podemos escolher entre a fruta dos (super)mercados e aquela que eu comia em criança, pois só nos resta a primeira (embora comece a aparecer nalguns locais a fruta biológica). Um mal menor. Saibamos viver com isso… e ter os cuidados que a situação exige, para bem da nossa rica saúde…

So quem passa por “elas” é que sabe…

É vulgar ouvirmos dizer “isto está mal feito”. A vida não deveria ser assim. Devíamos ter boa saúde do princípio ao fim e, quando terminasse o nosso prazo de validade, “desligava-se o interruptor”. Evitava-se sofrimento, solidão, dramas, misérias humanas e tudo o que há de mais negativo e pelo qual o ser humano passa no ocaso.. Mas, será que gostaríamos de trazer gravado na testa ou em qualquer outro local mais adequado, talvez no “fundo do pacote”, o prazo de validade? De saber em que dia deixamos de “ser consumíveis”? Não me parece. E ainda bem que não temos poder para alterar esse estado de coisas pois, quando o homem altera o equilíbrio da natureza, tendencialmente é para pior. Goste-se ou não, nos últimos anos de vida definhamos, perdemos energia, mobilidade, auto suficiência para as coisas mais básicas, muitas vezes feitos prisioneiros no próprio corpo, absolutamente dependentes dos cuidados de algum familiar ou amigo, conhecido ou estranho, amador ou profissional. Quando se tem a sorte de ter alguém que cuide de nós… Não há dúvida que os mais sortudos são aqueles que têm uma retaguarda familiar capaz de lhes assegurar os cuidados necessários em casa, no seu ambiente, sem o choque que é sempre a saída para um local estranho, por melhores condições que ofereça. Mas, compatibilizar as vidas dos filhos, hoje tão agitadas, com a disponibilidade para acudir às necessidades dos seus idosos doentes e dependentes, muitas vezes a exigir demasiado dos cuidadores, não é tarefa fácil. Ajuda, e muito, ter uma boa situação económica, para pagar a profissionais e assegurar esses cuidados em casa, mantendo o idoso ou doente no seu ambiente familiar. O que é bom. E os outros? Os que não têm dinheiro para “mandar cantar um cego”, quanto mais para pagar a um cuidador? Alguns jogam ao “vai e vem”. Levam-no para o hospital, porque não está em condições de ficar em casa, mas depressa o hospital lhe dá alta e o devolve à origem. As camas são precisas para outras patologias… E, uns dias depois, lá vai ele outra vez para o hospital… e volta. Como dizia um médico amigo, com um pouco de sorte, “pode ser que morra no caminho” e o “problema” fica resolvido. E haverá mais uma cama livre…

Os lares são uma solução para quem não tem retaguarda familiar ou quando não há condições na família, nem de tempo, nem de espaço, nem de saúde. Um bom lar, sendo à partida “o mal menor”, pode acabar por ser mesmo o lugar onde o idoso encontra tudo aquilo que precisa para um resto de vida tranquilo e digno. Mas, a grande maioria das pessoas que necessita dos cuidados de alguém ainda permanece em casa ou na de familiares, normalmente filhos. E é aí, na casa de cada um, que se encontram histórias reais de dedicação, sacrifício, dádiva, solidariedade e amor, muitas delas inspiradoras de tão fantásticas que são, que ainda nos fazem acreditar na bondade do ser humano. São os cuidadores informais, normalmente pessoas íntimas, que “passam as passas do Algarve” para tratarem do marido, da mulher, do filho ou de outra pessoa mais ou menos próxima. As mulheres são a maioria dessa legião de gente boa e abnegada, e é entre os mais pobres que estão quase sempre os casos mais dramáticos. Cada um é um caso mais complexo que outro. Só quando nos aproximamos e vivemos o problema, é que temos uma noção do que aquele(a) cuidador(a) passa… ou julgamos que sabemos.

Já Camões dizia: “Mais vale experimentá-lo que julgá-lo. Mas julgue-o, quem não puder experimentá-lo”. E nós, só julgamos, tantas vezes com um conhecimento muito superficial das situações. Julgamos que sabemos das dificuldades deste ou daquele caso mas, quase sempre, estamos muito longe da realidade, da dimensão dos obstáculos que o cuidador tem de vencer todos os dias. E são sete dias da semana, trinta dias do mês, trezentos e sessenta e cinco dias do ano, quantas vezes ao longo de anos e anos… Só quem realmente passa por elas é que sabe. Verdadeiramente. E falo assim porque também já sou um. Há oito anos, desde que a Luísa teve dois AVCs e duas pernas partidas. Mas, confesso, antes não sabia do que falava e, hoje, ainda pouco sei. Porque tenho o privilégio de ter algum apoio familiar e condição económica para ter outras ajudas profissionais. Com isso, sou essencialmente cuidador à noite e nos fins de semana. Mas já passei o suficiente para dizer que não é “pera doce”. Movimentar uma pessoa que quase dobrou de peso, incontinente, quase sempre fora da realidade, sem memória de curto prazo, já dá para imaginar (e digo só imaginar), como será a vida de quem faz isso todos os dias, vinte e quatro horas por dia, sozinho, com um doente em muito pior condição que a Luísa!!! E existe uma multidão de pessoas nessas circunstâncias!!!… Gente que tem uma vida de grande exigência, às vezes sujeita a pressão psicológica brutal, sem intervalos, períodos de descanso semanais, mensais nem anuais. E tantas vezes só, sem ajuda económica que lhe alivie o fardo, sem contar com o estado para quem o cuidador não existe (e há para aí tanto subsídio dado a quem não o merece nem dele seja necessitado…), sem ter tempo para se cuidar porque já abdicou de si. Daí a frequência de depressões e esgotamentos, físicos e psíquicos, nos cuidadores. Mas raramente têm quem cuide deles, acabando muito esgotados, incompreendidos, às vezes um alvo a abater.

Por isso, aqui fica a minha homenagem e profundo respeito por esses ignorados do sistema, cuja ação social e assistencial não tem preço e a sociedade não valoriza como devia. Talvez por serem anónimos, verdadeiros heróis anónimos de todos os dias…

Remédios caseiros, mezinhas e rezas…

Quando outrora apanhava uma constipação e recorria ao doutor Abílio, começava por ouvir a recomendação do costume: “Sabes que, uma constipação se for tratada, dura trinta dias e, se não for, dura trinta e um. Por isso, recomendo-te caldos de galinha e cama”. Por vezes, ainda me dizia: “Porque, cautelas e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém”. Nos anos cinquenta poucos medicamentos existiam e eram as papas de linhaça na barriga ou no peito, os sanapismos de mostarda quando doíam a garganta ou as costas, os chás de malva, hortelã, cidreira, marcela, limão e outras mezinhas, o recurso para tentar curar os males de então.

À nascença, havia logo uma “razia”, fazendo com que um grande número de bebés não sobrevivesse. Daí existirem os “cemitérios dos anjinhos”, com muitas campas. Os “clientes” eram demais. Só ficavam os mais fortes, que iam adquirindo resistências naturais na luta contra os elementos, como o frio, o calor e a chuva, sem roupa nem calçado para os enfrentar, ou … morrendo com uma qualquer doença, hoje facilmente tratada. Mas os médicos eram poucos, os hospitais rudimentares e sem meios técnicos nem humanos e as boticas, hoje farmácias, sem as soluções de agora. Na falta de soluções medicamentosas, os remédios caseiros e as mezinhas eram o recurso. Para os poucos médicos e enfermeiros, o “barbeiro” era a alternativa. Como aliviar as dores de cabeça? Com rodelas de batata na testa. Para as constipações e tosse seca? Respirar o vapor de folhas de eucalipto fervidas, pois o vapor desbloqueia as vias respiratórias (eu “metia o nariz” em cima da panela e punha uma toalha sobre a cabeça para concentrar o vapor). Como tirar o dente que estava a abanar? Atava-se com um fio e prendia-se à porta. Com a cabeça do paciente bem segura, o “dentista” fechava a porta com força, o que fazia esticar o fio e levar junto o dente… Um corte no braço, na mão ou no dedo? Chupava-se a ferida e lambia-se até parar de sangrar (hoje sabe-se que a saliva tem propriedades bactericidas). Na falta de médicos, ia-se às “talhadeiras”. “Talhavam o “tresorelho” (papeira) pondo um jugo de bois, acabado de usar, no pescoço do doente e, com uma faca, faziam o sinal da cruz nove vezes dizendo uma lenga, lenga. “Talhavam” o bicho, como “talhavam” a peçonha (ambas doenças de pele), a ciática, as impigens, as ínguas (nódulos nas axilas ou nas coxas), o farfalho (doença nos cantos da boca), a zipela ou erisipela (com “caruchas” de oliveira, azeite e uma reza), as dadas (mau olhado), as aftas e até o “sol” (dores de cabeça por se apanhar muito sol). A quem tinha a “espinhela caída” (fraqueza), levantava-se a “espinhela” com alguns pequenos exercícios e um caldo de couves com três gorduras diferentes e um atado de ervas apropriado. “Cosia-se” os pés e os pulsos a quem os tivesse “abertos”. E as mulheres quando davam à luz, para recuperar as forças, deveriam comer uma galinha por dia durante trinta dias e, no final, o galo da capoeira. É que a medicina popular era, e ainda é, feita de rezas, práticas e outros rituais.

Nesse tempo já se queimava o nervo ciático para eliminar as dores, faziam-se cataplasmas de cebola (pensos húmidos) cozendo cebola e estendendo-a num pano que se aplicava no local da dor e davam-se clisteres para lavar o intestino. Ainda para as constipações, os “escalda pés” costumavam dar bons resultados. Para isso, punha-se água bem quente num alguidar, um cavaco sobre o alguidar para assentar os pés do doente e ia-se deitando água pelas pernas abaixo…

Para as lombrigas, usava-se chá de hortelã. No entanto, um professor deu-me uma receita bem melhor para matar a bicha solitária. Dizia ele: “Arranjas sete pães, sete ovos cozidos e um martelo. Durante uma semana, todos os dias, à mesma hora, comes um pão e um ovo cozido. Ao sétimo dia, comes só o pão, pegas no martelo e aguarda. A bicha solitária vem à boca, põe a cabeça de fora e pergunta: E o ovo? Aproveitas o momento e dás-lhe com o martelo na cabeça”…

Como não havia ortopedistas por aí, o “endireita” era o homem que resolvia tudo o que dissesse respeito a ossos, músculos e tendões. Vindo ainda desse tempo, o senhor Pinto, da Adega (porque inicialmente trabalhava na Adega Cooperativa de Lousada) foi aquele que maior projeção atingiu na região. É um amigo de longa data, que me resolveu muitos problemas e que, felizmente, ainda continua a ajudar pessoas.

Descubro algumas contradições entre o que se fazia e o que se faz. Consciente que hoje se sabe mais, muito mais, é natural que se encontrem novas soluções, às vezes contrárias às de outrora. Para aliviar a febre, hoje manda-se tirar a roupa. Noutros tempos, o conselho era para se abafar a pessoa com roupa, porque tinha de transpirar para a febre passar. Usava-se uma máxima no combate de algumas doenças, que ainda hoje é válida: “Abafa-te, abifa-te e avinha-te”.

Ao olhar para trás, dou muitas graças a Deus. Por um lado, ao permitir que escapasse entre as dificuldades desse tempo e chegasse até aqui. E, por outro, ao conceder os meios técnicos de hoje que, de forma geral, permitem o prolongamento da nossa “jornada” um pouco mais…

No entanto, assim como a indústria em geral passou a produzir produtos de duração limitada em relação àquilo que a tecnologia conhece, intencionalmente e com o objetivo de vender mais, também a indústria farmacêutica tem sido acusada de ter descoberto a cura para algumas doenças mas esconde as soluções, em nome do lucro e da rentabilidade, porque o seu negócio é vender medicamentos e não é acabar com as doenças… Pois é, negócio é negócio…

Quando outrora apanhava uma constipação e recorria ao doutor Abílio, começava por ouvir a recomendação do costume: “Sabes que, uma constipação se for tratada, dura trinta dias e, se não for, dura trinta e um. Por isso, recomendo-te caldos de galinha e cama”. Por vezes, ainda me dizia: “Porque, cautelas e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém”. Nos anos cinquenta poucos medicamentos existiam e eram as papas de linhaça na barriga ou no peito, os sanapismos de mostarda quando doíam a garganta ou as costas, os chás de malva, hortelã, cidreira, marcela, limão e outras mezinhas, o recurso para tentar curar os males de então.

À nascença, havia logo uma “razia”, fazendo com que um grande número de bebés não sobrevivesse. Daí existirem os “cemitérios dos anjinhos”, com muitas campas. Os “clientes” eram demais. Só ficavam os mais fortes, que iam adquirindo resistências naturais na luta contra os elementos, como o frio, o calor e a chuva, sem roupa nem calçado para os enfrentar, ou … morrendo com uma qualquer doença, hoje facilmente tratada. Mas os médicos eram poucos, os hospitais rudimentares e sem meios técnicos nem humanos e as boticas, hoje farmácias, sem as soluções de agora. Na falta de soluções medicamentosas, os remédios caseiros e as mezinhas eram o recurso. Para os poucos médicos e enfermeiros, o “barbeiro” era a alternativa. Como aliviar as dores de cabeça? Com rodelas de batata na testa. Para as constipações e tosse seca? Respirar o vapor de folhas de eucalipto fervidas, pois o vapor desbloqueia as vias respiratórias (eu “metia o nariz” em cima da panela e punha uma toalha sobre a cabeça para concentrar o vapor). Como tirar o dente que estava a abanar? Atava-se com um fio e prendia-se à porta. Com a cabeça do paciente bem segura, o “dentista” fechava a porta com força, o que fazia esticar o fio e levar junto o dente… Um corte no braço, na mão ou no dedo? Chupava-se a ferida e lambia-se até parar de sangrar (hoje sabe-se que a saliva tem propriedades bactericidas). Na falta de médicos, ia-se às “talhadeiras”. “Talhavam o “tresorelho” (papeira) pondo um jugo de bois, acabado de usar, no pescoço do doente e, com uma faca, faziam o sinal da cruz nove vezes dizendo uma lenga, lenga. “Talhavam” o bicho, como “talhavam” a peçonha (ambas doenças de pele), a ciática, as impigens, as ínguas (nódulos nas axilas ou nas coxas), o farfalho (doença nos cantos da boca), a zipela ou erisipela (com “caruchas” de oliveira, azeite e uma reza), as dadas (mau olhado), as aftas e até o “sol” (dores de cabeça por se apanhar muito sol). A quem tinha a “espinhela caída” (fraqueza), levantava-se a “espinhela” com alguns pequenos exercícios e um caldo de couves com três gorduras diferentes e um atado de ervas apropriado. “Cosia-se” os pés e os pulsos a quem os tivesse “abertos”. E as mulheres quando davam à luz, para recuperar as forças, deveriam comer uma galinha por dia durante trinta dias e, no final, o galo da capoeira. É que a medicina popular era, e ainda é, feita de rezas, práticas e outros rituais.

Nesse tempo já se queimava o nervo ciático para eliminar as dores, faziam-se cataplasmas de cebola (pensos húmidos) cozendo cebola e estendendo-a num pano que se aplicava no local da dor e davam-se clisteres para lavar o intestino. Ainda para as constipações, os “escalda pés” costumavam dar bons resultados. Para isso, punha-se água bem quente num alguidar, um cavaco sobre o alguidar para assentar os pés do doente e ia-se deitando água pelas pernas abaixo…

Para as lombrigas, usava-se chá de hortelã. No entanto, um professor deu-me uma receita bem melhor para matar a bicha solitária. Dizia ele: “Arranjas sete pães, sete ovos cozidos e um martelo. Durante uma semana, todos os dias, à mesma hora, comes um pão e um ovo cozido. Ao sétimo dia, comes só o pão, pegas no martelo e aguarda. A bicha solitária vem à boca, põe a cabeça de fora e pergunta: E o ovo? Aproveitas o momento e dás-lhe com o martelo na cabeça”…

Como não havia ortopedistas por aí, o “endireita” era o homem que resolvia tudo o que dissesse respeito a ossos, músculos e tendões. Vindo ainda desse tempo, o senhor Pinto, da Adega (porque inicialmente trabalhava na Adega Cooperativa de Lousada) foi aquele que maior projeção atingiu na região. É um amigo de longa data, que me resolveu muitos problemas e que, felizmente, ainda continua a ajudar pessoas.

Descubro algumas contradições entre o que se fazia e o que se faz. Consciente que hoje se sabe mais, muito mais, é natural que se encontrem novas soluções, às vezes contrárias às de outrora. Para aliviar a febre, hoje manda-se tirar a roupa. Noutros tempos, o conselho era para se abafar a pessoa com roupa, porque tinha de transpirar para a febre passar. Usava-se uma máxima no combate de algumas doenças, que ainda hoje é válida: “Abafa-te, abifa-te e avinha-te”.

Ao olhar para trás, dou muitas graças a Deus. Por um lado, ao permitir que escapasse entre as dificuldades desse tempo e chegasse até aqui. E, por outro, ao conceder os meios técnicos de hoje que, de forma geral, permitem o prolongamento da nossa “jornada” um pouco mais…

No entanto, assim como a indústria em geral passou a produzir produtos de duração limitada em relação àquilo que a tecnologia conhece, intencionalmente e com o objetivo de vender mais, também a indústria farmacêutica tem sido acusada de ter descoberto a cura para algumas doenças mas esconde as soluções, em nome do lucro e da rentabilidade, porque o seu negócio é vender medicamentos e não é acabar com as doenças… Pois é, negócio é negócio…

O regresso dos “escarradores”…

Ggggggg, ggggggg, ggggggg… O homem fazia um esforço enorme ao puxar o catarro bem lá do fundo da garganta, de tal maneira que tinha a cara avermelhada. Era grande o ruído, mais parecendo a raspagem da trampa seca num cano de esgoto. Ggggggg, ggggggg… e o produto conseguido nesse esforço passou da garganta à boca, acumulou-se em cima da língua contra o palato e foi disparado contra a parede como o tiro de uma pistola. Olhei de lado e ainda vi o “escarro” a resvalar pela parede abaixo. Mais parecia uma lesma preguiçosa… Mas a “cobra cuspideira” seguiu em frente com toda a naturalidade, como se aquilo fosse um gesto vulgar, socialmente aceite. E, ao que parece, ainda é…

Quando andava na escola primária, havia disputas entre nós para ver quem… cuspia mais longe. Era um desporto barato, que só exigia uma boa produção de saliva (e nós produzimos um a dois litros por dia) e força no sopro. Para apagar os trabalhos que escrevíamos na “lousa”, nada melhor que uma cuspidela e a manga da camisola para limpar… Ninguém estranhava, porque o ato de cuspir era tido por normal. Cuspia-se em todo o lado. Os trabalhadores antes de pegarem numa peça de ferramenta davam duas cuspidelas nas mãos, esfregavam uma na outra e estavam prontos para a função. O escarro fazia parte da nossa tradição cultural. Nos edifícios públicos e até nas casas abastadas, existiam “escarradores” (ou escarradeiras), pequenos vasos metálicos ou de louça, abertos em cima, para ali se “depositar” o catarro salivar. O problema era acertar no alvo. Por isso, alguns “atiradores” optavam pelo “tiro fácil”, isto é, colocavam-se por cima do escarrador e só tinham de deixar cair a saliva, por gravidade, na vertical. Mas havia os especialistas no tiro difícil. “Disparavam” de mais ou menos longe como se de uma bala se tratasse e acertavam sempre… que o escarro não caía fora do escarrador. Por alguma razão, há volta deste havia sinais de “balas perdidas”… Mas era normal, sem qualquer nojo, repulsa ou má educação. Pelo contrário. É que os escarradores eram usados em nome do controle da propagação da tuberculose e outras doenças transmissíveis através dos fluidos… Conta-se que, nos anos 50, um lavrador alentejano foi jantar a casa de familiares ricos em Lisboa. Ora, estes preocupados com o facto do alentejano estar habituado no campo a cuspir para o chão, compraram um bonito escarrador de porcelana, que colocaram junto à mesa e ao lugar onde ele se sentou. Quase no fim do jantar, não aguentando mais, o alentejano desabafou: “Oh comadre, tire daqui o vasinho senão ainda lhe cuspo em cima”.

Mas, a sociedade alterou as regras da conduta e de convivência social. O que era prática comum virou ato repulsivo e condenável. Com o tempo, “limpar o canal” com uma boa escarradela passou a ser nojento e deselegante, tal como dar uma boa “fungadela” para o chão segurando a “penca” entre o polegar e o indicador, coçar algumas partes mais “privadas”, mas em público, ou ter um penico debaixo da cama para “alívio noturno”. Mas, apesar do manual das boas maneiras o não aconselharem, continua-se a cuspir em público. E até nem falo dos que “cospem no prato onde comem”, em sinal de ingratidão, nem mesmo dos que “cospem para o ar, porque o cuspo lhes pode cair na cara” (um bom conselho para os que falam e criticam demais). Falo dos que têm catarro, quer pelo tabaco, quer pelas crises de garganta próprias desta época, com tosse complicada que faz “puxar” pelas secreções agarradas na garganta. E, vai daí, em vez de as abafar no lenço de assoar (o que é uma chatice pois deixam o lenço colado…), atiram-se para o chão, em cuspidelas descaradas ou mais ou menos envergonhadas.

Mas, em pleno século XXI, existem numerosos lugares onde os “cuspidores” atiram para o chão todo o tipo de “bisgas” à frente de milhares e milhares de pessoas, sem qualquer preocupação com boas maneiras ou regras sociais. E, quem vê, não considera tais atitudes nojentas, porque “não vê ou não quer ver”. São “cuspidores oficiais” que a sociedade isenta dos comportamentos que exige para os outros. Em suma, têm “imunidade para/lamentar”, que lhes permite ser nojentos e mal educados. Ninguém os condena e podem cuspir em público. E isso vê-se todos os dias nos… campos de futebol. Pois é. Julgo que já todos nós reparamos que qualquer jogador, por mais educado ou rebelde que seja, por mais rico ou pobre, velho ou novo, vedeta ou Zé ninguém, nunca deixa o campo de jogo sem umas valentes cuspidelas, aqui e ali, como que a marcar terreno… tal e qual os cães o fazem, mas de outra forma. Pensando bem, não se conhece outra modalidade desportiva onde os atletas, para além de se permitirem coçar as partes baixas publicamente, cuspam a torto e a direito, despreocupadamente, sem terem em conta as boas maneiras, as convenções sociais, as transmissões televisivas que não deixam escapar nada e o poderem “banharem-se” no seu próprio cuspe. Será que isso ajuda ao jogo? Provavelmente, sim. E deverá haver mesmo alguma coisa que nos escapa para eles, após um esforço qualquer, uma jogada bem ou mal conseguida, lançarem uma “bisga”… Ao que parece, o cuspe (ou cuspo) está associado ao futebol e dele faz parte. Mais. A cuspidela é parte integrante do jogo e deve ser tida como uma boa prática desportiva, tal como a finta ou o remate. Se virmos bem, ela “remata” as jogadas de sucesso ou fracasso. Não importa. É que a cuspidela é livre e democrática e surge da boca de todos os jogadores, bons ou maus, pequenos ou grandes, artistas da bola ou nabos. E, nesse frenesi da cuspidela coletiva, os jogadores fazem do campo de jogo um ENORME ESCARRADOR, em cujo fundo atapetado (e bem cuspido) tantas vezes se rebolam…

O tempo dá-o Deus de graça. Nós é que o queremos vender. Sempre…

Li algures que, nas zonas rurais dos Estados Unidos, há americanos que “adoptam”… estradas. Curioso e estranho. Como é possível alguém “adoptar” uma estrada? O que é isso? Afinal, “adoptar” uma estrada é assumir em regime de voluntariado, a vigilância, limpeza e controle de tudo o que diga respeita àquele troço de uns quantos quilómetros. Gratuitamente. Somente a troco da satisfação pessoal de ajudar a comunidade. É um tipo de voluntariado original, que desconhecia e não existe entre nós. Mas temos voluntariado, e muito. Graças a Deus. Que dão um grande contributo para que a sociedade seja melhor.

Lembrei-me disto quando há dias fui a um jantar de solidariedade a favor da Associação Lousada Animal, que decorreu nas instalações do Rancho Folclórico de Nogueira. E ainda bem que lá fui, não só pela razão de ser do jantar mas por ter tido a oportunidade de conhecer as instalações daquele Rancho. Francamente, não esperava encontrar uma obra daquelas. Por isso, tenho de prestar aqui a minha homenagem a todos aqueles que tiveram a ousadia de a sonhar e a diligência para a levar a cabo, desde os voluntários anónimos aos dirigentes, também eles voluntários, que carregam o fardo mais pesado. Na pessoa do senhor Artur, que há vinte anos ali dá muito do seu tempo, os meus parabéns. A todos. É uma obra de boas vontades numa terra pequena, sem grandes recursos. Perdão, com grandes recursos… humanos… Recursos especiais, que dão o seu tempo, de graça… como Deus o dá. Lá estavam eles na cozinha, no bar, a limpar, a servir à mesa, enfim, onde era necessário. São pessoas que, apesar de terem as suas vidas, entregam-se a uma causa sem qualquer remuneração, simplesmente a troco da satisfação pessoal de fazer algo para os outros e em prol dos outros. Vi orgulho na obra feita, soube de projetos para a completar e encontrei esperança e vontade para os concretizar. Mas também gratidão para com quem os ajudou. Sobre os críticos, os “profissionais do bota abaixo” que mais não são do que parasitas invejosos, ouvi um único comentário do senhor Artur: “Só ouço aqueles que estão cá para ajudar. Aos outros, ignoro-os”.

É uma questão recorrente para quem faz voluntariado, muito especialmente como dirigente, ter de ouvir críticas más, destrutivas, mal intencionadas, de gente que vive disso, nada faz e nada quer fazer pelos outros, incapaz de dar um pouco de si. E por isso mesmo, por serem incapazes, falam do que não sabem, criticam o que desconhecem, insinuam, inventam para denegrirem. E dizem mal de tudo e de todos, para encobrirem o seu egoísmo, a sua inveja, a sua falta de solidariedade e incapacidade. Não vale a pena tentar esclarecê-los porque é tempo perdido, já que não acreditam no que se lhes diz mas só no que querem, no que está de acordo com a sua maneira de ser e de estar na vida.

Durante mais de cinco décadas de vida tenho dedicado uma boa parte do meu tempo a causas, quase sempre como dirigente de clubes, instituições sociais e associações desportivas, recreativas, humanitárias e culturais. Na condição de voluntário, sem retribuição, a não ser o prazer de fazer e de ajudar. Desde há muitos anos que me permito dar mais de metade do meu tempo. Sem arrependimentos, a não ser pelo facto de ter sacrificado a família. Muito. Isso sim, pesa-me. Mas estou grato a Deus por me ter “feito” assim e ter dado condições para ser voluntário. Por isso sei do que o senhor Artur falava em relação a críticas e críticos. Se eu também desse ouvidos ao que diziam de mim, tinha desistido antes do primeiro espetáculo que organizei na minha aldeia, era ainda um rapazote. E ao longo destes mais de cinquenta anos sei que fui tema de conversas de café, tascos e todo o tipo de serões de má língua, onde alguns me “promoveram” a convencido, ladrão, desonesto, péssimo dirigente, arrogante, malcriado e sei lá que mais. Só tiveram um problema: Fui “surdo” a todo o “blá, blá”. Totalmente. Nunca consegui dar ouvidos a esse tipo de insinuações. E recomendo a todos os voluntários, especialmente aos dirigentes, que só tenham ouvidos para aqueles que trabalham consigo. Aos críticos, àqueles que falam movidos pela inveja, ignorem-nos, não os ouçam.

Um amigo telefonava-me frequentemente por razões profissionais. Quando me perguntava onde me encontrava para se encontrar comigo, por coincidência ou não, quase sempre me apanhava no mesmo local: “Estou na Misericórdia (de que sou dirigente). Um dia, cara a cara, não se inibiu de me perguntar: “Sempre que lhe telefono está na Santa Casa. Pelo tempo que lá passa, tem de ganhar uma data de massa (e atirou-me com um número obsceno)”. Ri-me e respondi-lhe: “Está muito enganado. Não ganho nada. Rigorosamente nada. Nem eu, nem os outros Mesários”. “Não acredito”, retorquiu. “Àquilo que lá faz, ao tempo que lá perde, tem que ter um bom ordenado”. Conhecendo-o como conheço, rematei a conversa: “Volto a repetir-lhe: NÃO GANHO NADA. Mas também lhe digo que não vou perder tempo a tentar convencê-lo disso porque você só acredita naquilo que faz e que é. E como só é capaz de vender o seu tempo, nunca vai acreditar que alguém o dê…” E a conversa ficou por ali.

É curioso que esta “presunção” de que os dirigentes da Misericórdia ganham salários chorudos apesar de serem voluntários (e o nome deveria dizer tudo), não passa só pela cabeça de algumas pessoas externas à Santa Casa. Também há colaboradores, gente que trabalha na Instituição e que está informada (ou não quer estar), a “presumir” que temos de ganhar muito para estar lá. E não vale a pena perder tempo. Cada um continua a acreditar no que quer acreditar, sendo essa a “sua verdade”. Por isso, continuo a dizer: “O tempo dá-o Deus de Graça. Nós é que queremos vendê-lo. Sempre”. Ou quase. O que não acontece com os voluntários. Essa “tal gente”…

A morte de “um gajo porreiro”…

Um dia destes vou “bater a bota” como qualquer “morto” que ainda se passeia por aí. Nada de novo, é só uma questão de tempo. Não vale a pena roer as unhas nem arrancar os cabelos (também já não são muitos) a pensar nisso. Quando menos o esperar, “fazem-me a folha”, isto é, o funeral. Espero estar lá para ver como será, se bem que o ideal seria estar vivo para ficar a saber o que dizem de mim. E poder olhar, olhos nos olhos, alguns dos que vão dizer que eu era boa pessoa mas que, em vida, só me brindaram com adjetivos ordinários. Cada um diz o que é. Prometo que, no “caixote” onde me enfiarem, não levarei papel nem lápis para tomar nota das pessoas que estão presentes. Quero lá saber quem está ou quem não está. Não haverá “relógio de ponto” para controlar presenças. Que importa? Vai quem quer e pode. Muito mais importante, é a disponibilidade que me deram enquanto estive “vivinho da Silva”. Depois de morto, é só um formalismo, uma atenção que, desde já, agradeço. Além do mais, nem gosto de cerimónias, muito menos desta. Só tem uma vantagem: Não tenho de “botar faladura”. Mas é chato. Nem sequer posso estar a receber os amigos, tomar um copo, contar umas anedotas, dizer asneiras. E rir. No entanto, aos que tiverem a pachorra de me acompanharem nesse “despacho da encomenda”, tenho um pedido a fazer: Não digam de mim que “morreu um gajo porreiro”. É que não gostaria de ser lembrado (se é que alguém se vai lembrar de mim ao fim de quinze dias..) como “um gajo porreiro”. O que é isso? “Um gajo porreiro” é uma espécie de amigo que não é amigo mas se comporta como se fosse. Porque não incomoda, não chateia. É uma espécie de “bobo da corte”, um tipo que ninguém considera, alguém que será sempre “lixado”. O “gajo porreiro” nunca toma atitudes, não exige, não controla e nunca se impõe, porque não tem personalidade. Até qualquer “moina” faz dele “gato sapato”.

Aquele patrão era “um gajo porreiro”. Jovem empresário, fez questão de ter uma relação com os empregados de “tu cá, tu lá”. E confiava cegamente que os colaboradores eram todos uns “gajos porreiros”. Não fez questão de controlar, nem mercadorias nem presenças, nem produção, nem recebimentos, nem outras coisas. Era um gajo mais que porreiro. Era “porreiríssimo da Costa”. Quem não gostava dele? Era incapaz de chamar a atenção a quem quer que fosse, muito menos ameaçar e, pior ainda, de fazer cumprir a ameaça. E gostavam dele por isso mesmo, por ser incapaz de fazer mal a uma mosca. O mesmo é dizer que não tinha personalidade para traçar um caminho e segui-lo, definir um objetivo e alcança-lo. Era um tipo bestial, embora “não fosse carne nem peixe”, assim a modos que um palhaço fora do circo, mas sem qualidade. E o resultado? A empresa durou pouco mais de um ano. O patrão, que era “um tipo porreiro” e achava que todos os que trabalhavam com ele “porreiros” eram, só chegou à conclusão de que o seu “porreirismo” não o levava a lado nenhum quando descobriu que uma das máquinas principais da empresa não funcionava porque os “porreiros” lhe tinham… “fanado” o motor.

Como o objetivo principal dos partidos é ganhar eleições, muitas vezes escolhem “gajos porreiros” para candidatos porque, afinal, é neles que a malta vota. “Vota Gameiro que é um gajo porreiro”, não é muito diferente do slogan do palhaço brasileiro: “vota Tiririca que pior não fica”. E é assim que muitos desses “gajos” são eleitos e se tornam numa “menos valia” na gestão autárquica, fazendo “ofício de corpo presente”, sorrindo, distribuindo beijinhos, abraços, abanando sempre com a cabeça e deixando até as suas responsabilidades de gestão à deriva, entregues a subalternos. Mas vingam. É que “um gajo porreiro”, regra geral, tem bom feitio, atura todo o tipo de m…, apesar de não ter talento para coisa nenhuma. Mas é “um gajo porreiro”. Se tivesse mau feitio mas muito talento, interessava a quem? Quem votava nele? O talento não ganha eleições, o bom gestor é um chato. O que agrada mesmo é “um gajo porreiro”. Vale votos, dá vitórias. E o resto? A boa gestão autárquica? Que raio de preocupação pois, bem ou mal, vai sempre funcionar… E, se não funcionar, quem pede responsabilidades?

Há quem ache que ser assim é o máximo, é a coisa mais fixe. São os maiores. Têm o poder, se bem que não sabem o que fazer com ele… E têm muitos amigos… para lhe pedirem favores. Quando se lhes diz muitas vezes que são porreiros, passam a viver na ilusão. Diz-se que nunca se devia dar o poder a “um gajo porreiro”. Ao princípio não se dá por ele, não existe. Mas, pouco a pouco, vai tomando conta do espaço, instala-se e “vive na boa”. Engole todos os sapos, bons e maus, como quem toma “óleo de fígado de bacalhau” (nem queiram saber como é desagradável. Só com o nariz tapado… e à força). Mas ele aguenta, em nome do “porreirismo” e do… poder.

Já não restam dúvidas que somos um país de “gajos porreiros”. Até os “fabricamos” de um momento para o outro. Por mais sacana, ladrão ou criminoso que um tipo seja, no dia em que morre passa a ser… “um gajo porreiro”. No velório e no funeral, somos bons samaritanos. Mesmo que o cardápio de pecados do defunto seja enorme, dizemos entre fungadelas e ranhos: “Este tipo era um gajo porreiro”. É normal. Na hora do adeus, não temos “lata” para “chamar os bois pelo nome”, de dizer em voz alta que o morto não valia um caracol. Que era um escroque, um imbecil. Nada disso. Até o senhor José, (nome fictício que pode corresponder à realidade…). Faliu duas vezes de forma fraudulenta para “arranjo de vida” e arrastou para a falência várias empresas, pequenos empreiteiros que ficaram sem nada e tiveram de emigrar. No dia do seu funeral passou a… “gajo porreiro”. Pensando bem, somos uns tipos espetaculares. Se calhar, também “uns gajos porreiros”. Fazemos com que o bandido vire herói, o ladrão homem honesto, o criminoso um tipo santo, o imbecil inteligente e o infiel homem de uma só mulher… Enfim, todos “uns gajos porreiros”. Ou fingimos bem… mal. Por isso, quando eu “for desta para melhor (?)”, façam-me um favor: Não me ponham esse rótulo. Faz-me cócegas… e posso espirrar. E não sabem como isso é perigoso, quando se tem cinco palmos de terra por cima…

Como as coisas eram simples…

Antigamente, as coisas eram simples. Regra geral, bem simples. Tinha-se um ou dois pares de calças, duas camisas. Não havia dramas com a escolha. Hoje há mulheres que, diante do enorme roupeiro atulhado de “trapos”, fazem uma choradeira danada enquanto se lamentam: “Não tenho nada para vestir”… Na comida, igualmente simples. Um tacho, uma panela, uma cafeteira e uma sertã, constituíam o trem de cozinha. A variedade de cozinhados era pouca mas,… como a comida da minha mãe era saborosa!!! Agora, a cozinha é um autêntico “estaleiro” de tachos, panelas, apetrechos e acessórios cada vez mais modernos. E até máquinas, maquinetas e mesmo robôs, e a refeição é… empacotada, do supermercado. Mas a comida da minha mãe era mesmo boa…. É certo que nesses tempos não havia o problema de gostar ou não gostar. Gostava-se de tudo. Só era preciso que houvesse algo para comer. Era sempre bom. E simples. Agora, quando a refeição vai para a mesa, há sempre quem “torça o nariz” e ouve-se frequentemente “não gosto” ou “não me apetece”. A mãe é o bode expiatório e tem de “fazer muita ginástica” para conseguir agradar a todos. E agrada… fazendo uma comida diferente para cada um… Não é fácil. No final, “vai mais comida para o lixo do que os ricos tinham antigamente para comer”… É complicado. Aos pratos simples de outrora responde-se hoje com a complexidade. Abandona-se a cozinha tradicional em favor dos requintes dos “chefes”. Como se a complexidade fosse sinónimo de qualidade, de melhor sabor.

Vivia-se e convivia-se com a família e vizinhos, como se estes fossem parte da família. Porque eram eles o primeiro recurso nas aflições, faziam parte da rede de segurança. E conversava-se ao fim do dia à porta de casa. Enquanto as mulheres davam à língua na presa a lavar a roupa, os homens juntavam-se ao domingo para jogar a malha, com os perdedores a pagar um litro de vinho para todos, em copo comunitário de litro. Em cada jogo. Tudo muito simples. Hoje não conhecemos o vizinho da porta da frente e vemos os familiares de longe a longe. Provavelmente bem ao longe, apesar de se viver na mesma rua. A vida é complicada. Como nós a complicamos…

As casas antigas do meu tempo de criança eram simples, térreas, com piso de terra batida. As “novas” de então, apesar de já terem dois pisos, continuavam simples: Em baixo a loja e em cima a habitação. O dono só tinha de escolher uma coisa: O tamanho da casa. Dez metros por oito? Doze metros por dez? Nada mais. O preço ia dos oito aos dez contos, pronta a habitar. O pedreiro encarregava-se de tudo e o cliente não tinha que se preocupar com mais nada. Não precisava de projeto, não tinha de escolher linhas modernas ou tradicionais, nem tinha de andar a correr para a Câmara atrás da licença de construção meses a fio, feito mendigo. Não tinha de escolher os materiais para as paredes, qual o tipo de telha ou a madeira para a carpintaria. Nada, simplesmente, nada. Ao apertar a mão do pedreiro estava selado o contrato e só tinha de lhe dar tempo para fazer o trabalho. Só. Tão simples quanto isso. E sabia com o que podia contar.

Com a mulher uns metros atrás, o Santos “Ervilha” passava todos os dias à frente da casa dos meus pais a caminho do trabalho quando andava a “levantar” a casa do meu tio. Pedreiro de profissão, num tempo em que a profissão era muito dura, tinha na mulher o seu braço direito e, dizia quem sabia, que ela “pegava-lhe” tão bem como ele. E também fazia a sua “perninha” pela manhã a comer um naco de broa com aguardente na loja do meu tio e à tarde, quando “deitavam abaixo” o copo de litro de vinho, a meias. As pedras vinham em carros de bois e eram descarregadas à mão pelo Santos “Ervilha”, a mulher e o carreteiro, com a ajuda de duas “pancas” de madeira. Nas manhãs de inverno esfregava as mãos com geada para as adaptar ao frio e, agarrado ao “pico”, trabalhava e preparava as pedras com auxílio do esquadro e do metro que trazia sempre consigo no bolso de trás. Aos tombos, o casal levava as pedras até perto da parede, tendo sempre o cuidado de colocar um rachão como “calço” para ser mais fácil pegar-lhe no tombo seguinte. E aos tombos as faziam subir em cima de duas “pancas” ou pequenas vigotas de madeira até ao seu lugar na parede. Quando esta atingia a altura de um homem, passavam a ser içadas com a ajuda do “sarilho”, uma “grua artesanal” feita com dois eucaliptos atados em cima e espiados para um e outro lado, um jogo de roldanas e um sarilho semelhante ao usado para tirar água dos poços. Pouco a pouco, as paredes da casa iam subindo e as pedras ajustadas na perfeição pela mão daquele homem com tendência para a “pinga” mas sempre bem disposto e respeitoso, e da Lisinha sua mulher. Tudo simples.

Hoje escolhemos projetista e modelo de casa e esperamos, pelo projeto e pela licença. Muito tempo. Escolhemos empreiteiros e caderno de encargos e esperamos pelos orçamentos. E ao longo da obra continuamos a fazer escolhas, muitas escolhas e a esperar. Do azulejo à tijoleira, da madeira à caixilharia, das portas aos portões, do alumínio ao aquecimento, do pavimento para a sala aos móveis de cozinha. E muitas mais. Mas tudo é complicado porque a variedade é grande e a dificuldade aumenta. Como escolher a tijoleira para a casa de banho entre cem amostras ou mais? Não é simples… A ajuda vem da moda. É que, tal como na roupa, nas casas impera a moda. O soalho de pinho deu lugar à alcatifa e esta aos tacos de madeira. E, sucessivamente, ao parqué, à corticite, às réguas de madeira, às tijoleiras, aos granitos e outras pedras, aos pavimentos flutuantes. O que é que se está a usar mais? Vai-se por aí. As paredes de caliça cederam ao areado e este ao papel e depois ao estanhado com pintura plástica de cores tradicionais ou com uma parede diferente, de cor viva para contrastar. E que cor escolher num catálogo com tanta variedade? Seria mais simples se tivesse só meia dúzia de cores. Assim, é complicado. Escolhe-se e depois… arrepende-se. Se pudesse voltar a trás… É bom ter tanta variedade, tanta escolha, mas… por alguma razão se diz: “Como as coisas simples são um descanso para o espírito complexo”…