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Lições de vida no fim da vida …

Gabriel José García Márquez foi um escritor, jornalista, editor, ativista e político colombiano. Considerado um dos autores mais importantes do século XX, foi um escritor dos mais admirados e traduzidos no mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas. No entanto,    somente quando publicou Cem Anos de Solidão em 1967, considerado um marco da literatura latino-americana, é que o autor começou a ter seu talento reconhecido mundialmente, passando a ser aclamado como um dos maiores romances do século XX. Cem Anos de Solidão garantiu que, daí em diante, a expectativa sobre os livros de García Márquez, fosse sempre a máxima possível. Viria a publicar vários livros ao longo da sua vida, sendo o seu último grande êxito O Amor nos Tempos de Cólera. As suas novelas e histórias curtas levaram-no ao Nobel de Literatura em 1982. Retirou-se da vida pública por razões de saúde, um cancro linfático, e enviou uma carta de despedida aos seus amigos. Graças à internet, foi difundida por todo o mundo. É verdadeiramente sensacional e comovente esse texto curto, escrito por um dos latino-americanos mais brilhantes dos últimos tempos. Para ler e meditar:

“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marionete de trapos e me presenteasse com mais um pedaço de vida, eu aproveitaria esse tempo o mais que pudesse. Possivelmente, não diria tudo o que penso, mas, definitivamente, pensaria tudo o que digo. Dormiria pouco, sonharia mais, porque entendo que, por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais se detivessem, acordaria quando os demais dormissem.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, deitar-me-ia ao sol, deixando descobertos não somente o meu corpo como também a minha alma. Aos homens, eu provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de se enamorar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se enamorar. A um menino, eu lhe daria asas e apenas lhe pediria que aprendesse a voar. Aos velhos, ensinaria que a morte não chega com o fim da vida, mas, sim, com o esquecimento

Tantas coisas aprendi com vocês homens … aprendi que todo o mundo quer viver no topo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subi-la. Aprendi que, quando um recém-nascido aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o agarrou para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar o outro de cima para baixo quando o está ajudando a levantar-se. São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas agora de pouco me servirão, porque, quando me guardarem dentro dessa caixa, infelizmente estarei a morrer.

Diga sempre o que sente e faça o que pensa. Supondo que hoje fosse a última vez que o verei a dormir, eu o abraçaria fortemente e rezaria ao Senhor para poder ser o guardião da sua alma. Supondo que estes são os últimos momentos que o vejo, eu lhe diria “Amo você”, e não assumiria, loucamente, que já o sabe. Existe sempre um amanhã em que a vida nos dá uma oportunidade para fazermos bem as coisas … Mas, pensando que hoje é tudo o que nos resta, gostaria de lhe dizer o quanto te quero e que nunca te esquecerei. O amanhã não está assegurado a ninguém, jovens ou velhos. Hoje pode ser a última vez que você veja aqueles que ama. Por isso, não espere mais! Faça hoje, porque o amanhã pode nunca chegar. Senão, lamentará o dia em que não teve tempo para um sorriso, um abraço, um beijo porque estava muito ocupado para atender esse último desejo. Mantenha os que ama junto de você, diga-lhes ao ouvido o muito que precisa deles, o quanto lhes quer. E trate-os bem! Aproveite para lhes dizer “perdoe-me”, “por favor”, “obrigado” e todas as palavras de amor que conhece.

Você não será recordado pelos seus pensamentos secretos. Peça ao Senhor a força e a sabedoria para expressá-los. Demonstre aos seus amigos e seres queridos o quanto são importantes para você!”

“Dou valor às coisas, não por aquilo que valem, mas por aquilo que significam.”                                                                                                    “A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.”                                                                         “A vida não é mais do que uma contínua sucessão de oportunidades para sobreviver.”                                                              “Um único minuto de reconciliação vale mais do que toda uma vida de amizade.”

Ao ler este pequeno texto de Gabriel Garcia Marquez, não pude deixar de pensar imediatamente nos últimos anos de vida da Luísa, minha mulher, a quem Deus concedeu um “tempo extra” quando sofreu um terrível AVC que, na voz dos médicos que a trataram, tinha tudo para ser fatal. Contra todas as espectativas clínicas, sobreviveu durante quinze anos, embora com sequelas graves que a deixaram muitíssimo limitada e dependente. E ela soube como ninguém agradecer tudo àqueles que a ajudaram, que estiveram com ela, que dela cuidaram e trataram, agradecimentos esses do coração, independentemente da importância daquilo que se lhe fazia. E ela fazia questão de abraçar, beijar, fazer uma carícia a acompanhar as palavras de gratidão, de dizer “gosto muito de ti”. Nunca na vida vi ninguém expressar o seu agradecimento e o seu carinho com aquela intensidade e, pior ainda, nunca consegui aprender com ela e a comportar-me como tal. Por ter visto na Luísa muito do que Garcia Marquez prometia fazer se lhe fosse concedido mais algum tempo de vida e como a vida é uma sucessão contínua de oportunidades, muito mais do que as excelentes lições do escritor, prometo a mim mesmo tentar copiar os exemplos da Luísa.

As falsas “famílias de acolhimento” …

Há uma realidade que não podemos ignorar: Há mais de 2.500.000 de pessoas com mais de 65 anos em Portugal. Isto é, um em cada quatro portugueses é idoso (em poucos anos será um em cada três!) e, deles, quinhentos mil deles vivem sozinhos. Mais ainda, a capacidade da rede pública de lares e outras respostas sociais para os que precisam de quem cuide deles é, cada vez mais insuficiente pelo aumento da procura em face do envelhecimento da população e um investimento baixo do Estado nas últimas décadas em lares e outras estruturas de apoio. E o resultado? Velhos a tomar conta de velhos e milhares de idosos de quem as famílias não podem (ou não querem) cuidar, sem respostas, e que ficam expostos às vigarices do mercado. Para se ter uma ideia da situação, há dias ao perguntarem ao responsável de um Lar na região se tinha vagas, a resposta foi: “Não, estamos cheios e temos uma lista de espera de 240 pessoas”. Os alarmes deveriam disparar e as campainhas estar todas a tocar. Mas estão desligados …

Como o envelhecimento da população em Portugal em 1991 já era um fenómeno crescente e inevitável, o governo de então legislou e criou “o acolhimento familiar”, uma solução que se propôs ser mais eficaz e humanizada para enfrentar esse desafio. Foi assim que surgiram as chamadas “famílias de acolhimento a idosos”, isto é, estruturas residenciais onde um idoso é integrado no seio de uma família que o acolhe e cuida como membro. Diferente das instituições como lares e centros de dia, o acolhimento familiar oferece (ou devia oferecer) um ambiente mais personalizado e até mais parecido com o meio familiar, o que pode contribuir para o bem-estar emocional do idoso. A intensão era, e continua a ser, boa. E, felizmente, há muitas “famílias de acolhimento” onde os idosos se sentem como em casa, perfeitamente integrados no seu seio. No entanto, se a lei foi bem-intencionada, deixou uma larga porta aberta à malandragem e ao aproveitamento para ganharem dinheiro à custa da exploração dos idosos, muitas vezes com sacrifício da qualidade da sua saúde e das suas vidas. E porquê? Porque qualquer pessoa se pode constituir em “família de acolhimento”. Para tal, basta coletar-se na Repartição de Finanças e está feito. Apesar da lei referir um conjunto de requisitos a que deve obedecer tanto a família como as instalações residenciais, a Segurança Social, entidade que fiscaliza e a quem compete controlar as questões sociais, não tem conhecimento quando alguém se coleta nas Finanças e se dispõe a receber idosos em sua casa. E é assim que qualquer oportunista que queira montar um esquema para explorar idosos faz, pois, a Autoridade Tributária só quer saber se a situação fiscal está regularizada e nada tem a ver com o tratamento dado aos utentes e se todas as regras que as regem estão a ser cumpridas. E, a Segurança Social, a quem devia ser incumbida tal missão, desconhece a sua existência e, por isso, não controla.

Quando recentemente ficamos a saber por jornais, rádios e televisões que cá em Lousada a GNR realizou buscas e encerrou 9 residências ilegais de acolhimento de idosos, tendo ainda detido sete pessoas por suspeitas de maus-tratos, ficamos chocados! Como foi possível em pleno século XXI, no meio de nós, isto acontecer? E interrogamo-nos incrédulos! Porém, é uma realidade de que toda a sociedade não se deve alhear, porque amanhã, qualquer um de nós pode ser um desses idosos maltratados, quando não levados para uma morte antecipada, como há suspeitas de tal ter acontecido a 4 utentes neste caso. O que se passou em Lousada é grave porque, pelo que se sabe, já em 2014 um membro da “família” protagonista da situação foi intervencionada e encontraram quase uma dúzia de idosos numa só residência, em condições degradantes, sendo que a lei só permite ter um máximo de 3 idosos por família de acolhimento. Mais que isso, passa a ser um lar com regras, leis e exigências muito diferentes. Há dois anos foi a líder familiar intervencionada e sido registadas várias residências com um grande número de idosos. Agora, mais uma vez a mesma família foi intervencionada pela GNR, com a colaboração da Segurança Social, Delegação de Saúde e Tribunal, sendo encerradas 9 residências “que não reuniam as condições de salubridade, higiene e o número adequado de cuidadores para garantir o bem-estar e a segurança dos idosos”, estando em causa “crimes de homicídio, maus-tratos, fraude fiscal, associação criminosa e burla”. Há nota que esta rede familiar alojou mais de uma centena de idosos nos últimos 10 anos, com alguns mantidos trancados nos quartos das residências, havendo suspeitas de que 4 idosas tenham morrido por alegada subnutrição. Será que agora haverá consequências efetivas para os prevaricadores e já reincidentes, pelos crimes cometidos sobre pessoas que, na sua maioria, não tinham condições para se defender? Será que este e muitos outros casos que têm vindo a lume iluminarão os políticos e instituições responsáveis nesta matéria para criar mecanismos que protejam efetivamente os idosos destes criminosos ou a estratégia é de que, “os idosos são descartáveis”? E será que os factos noticiados sobre estes chamados “lares ilegais” vão servir de aviso às famílias para se informarem bem sobre as “famílias de acolhimento” a quem vão entregar os seus e os protegerem de exploradores criminosos, que pode acontecer na pressa de os “despachar”?       

O conceito de “famílias de acolhimento” tem crescido, pode ser uma fonte de rendimento adicional para o agregado e cada vez mais se torna uma alternativa viável e humanizada para quem não pode cuidar dos seus idosos. Mas não pode ser suficiente que as famílias candidatas à atividade se coletem somente nas Finanças, devendo ser exigível dar conhecimento à Segurança Social para que esta não possa argumentar que as desconhece. Mais, exige-se seleção e qualificação dos candidatos para terem a capacidade de fornecer cuidados adequados e seguros, com processo rigoroso a levar a efeito por entidade responsável, sem o qual pode haver riscos associados aos cuidados prestados, como neste e em muitos outros casos. E que haja mecanismos eficazes de supervisão e fiscalização constantes para evitar que as aparências encubram tristes realidades, como esta, aqui mesmo à nossa porta. E para todos nós, com ar surpreendido, não voltarmos a ficar chocados …