Há alguns dias estive à conversa com um velho amigo de Cabo Verde. Falamos de muitas coisas e, entre outras, do seu país. Disse-me sem rodeios que foi um enorme erro Cabo Verde tornar-se independente de Portugal, porque hoje teriam muito melhor nível de vida do que têm. E a prova disso é que o sonho da maioria dos seus conterrâneos é poder ter o passaporte português. E que os únicos a defender a situação são aqueles que vivem à conta da política. Mas, mais curiosa foi a sua admiração pelos gloriosos feitos dos portugueses na Era dos Descobrimentos e os seus conhecimentos sobre o tema, dizendo até que foram viagens épicas, mais heroicas do que as idas à Lua. Além da longa conversa, passou-me ainda um texto de autor desconhecido, mas que julga ser estrangeiro, exaltando esses portugueses de então. Passo aqui tal texto, porque relembra o que não devemos esquecer:
“Ó mar, quanto do teu sal, é feito das lágrimas de Portugal. Para atravessar-te, quantas mães choraram, quantos filhos rezaram em vão, quantas noivas ficaram sem casar … apenas para que você pudesse ser nosso, ó mar”. Esses versos de Fernando Pessoa são mais do que poesia, são memória, esculpida na alma da nação que outrora ousou enfrentar o desconhecido. Os portugueses não navegaram apenas com navios. Eles navegaram com dor porque o custo era real. Eles navegaram com coragem porque cada jornada significava perigo. E, acima de tudo, eles navegaram com a ciência porque somente através do conhecimento eles poderiam navegar por um mundo sem fronteiras onde o horizonte não era o fim …, mas o começo. Na época em que a borda do mundo ainda inspirava medo, os portugueses olhavam para o céu, não com superstição, mas com conhecimento, propósito e cálculo. O astrolábio náutico, refinado por mentes como a de Abraham Zacuto, tornou-se bússola do navegador para os céus. Com ele mediam o sol, seguiam as estrelas, encontraram a latitude em mar aberto. Um instrumento simples, um disco de bronze na mão, mas uma revolução na navegação. Transformou o céu num guia e provou que o desconhecido poderia ser medido. A ciência guiou-os não apenas através das estrelas, mas também pela superfície da Terra. Viagem após viagem os mapas tornaram-se mais refinados, desenhados de memória, guiados pelas estrelas, testados pelo mar. Eles registaram linhas costeiras, ventos e correntes oceânicas, mas também os ritmos das marés e as fases da lua. Isso permitia-lhes entrar nos rios no momento certo e evitar as armadilhas ocultas de costas desconhecidas. Não eram apenas desenhos. Eram memórias, transformadas em sobrevivência. Eram mapas … que podiam salvar vidas. Mas o mar não era só um caminho de descobertas. Também foi um palco de sofrimento. Escorbuto, exaustão e tempestades testaram cada viagem. Por detrás de cada rota, cada navio e cada mapa, havia corpos desgastados pelo sal e almas esticadas pelo tempo. Água estagnada misturada com sujeira, ratos e baratas compartilhavam o espaço com os homens. O fedor era insustentável e o trabalho era permanente. O descanso era raro e a fome constante. E às vezes, mais do que a doença, era a saudade que doía mais. Mesmo com dor … eles continuaram. Pois a fome podia ser suportada. E a saudade engolida. Mas a missão, o propósito, era maior do que o sofrimento. Para os portugueses, cada onda era um desafio e cada travessia um ato de coragem. O conhecimento não navegou sozinho. Precisou de madeira, vela … e genialidade. A caravela, leve e ágil, foi um avanço no design de navios portugueses. Ela usava velas latinas triangulares, adaptado de navios mediterrânicos. Essas velas permitiam que navegassem contra o vento, uma revolução no mar. Com um navio assim, Gil Eanes desafiou o desconhecido e, em 1434, passou o Cabo Bojador, conquistando não apenas um ponto no mapa …, mas o medo do fim do mundo. Mas os oceanos eram vastos. E as caravelas, embora ágeis, não podiam carregar o peso do império. Assim surgiu a nau, mais pesada, mais larga, mais forte. Construída para viagens de longa distância, levava homens, suprimentos, canhões … e ambição. Com uma nau, Vasco da Gama chegou à Índia em 1498 ligando a Europa às riquezas do Oriente. E em 1500, Pedro Álvares Cabral cruzou o Atlântico e chegou às costas do Brasil. Esses navios enfrentaram tempestades, fome e o próprio tempo e, ainda assim, resistiram. O Atlântico não era mais uma barreira. Era uma ponte aos continentes, comércio e à história. Mas nenhum navio comandava mais admiração do que o galeão português. Não era apenas um navio, era um império flutuante. Erguendo-se sobre o mar, revestido de madeira grossa e ferro, navegava com fileiras de canhões alinhados em ambos os lados. E não eram armas comuns. Colocadas por engenheiros habilidosos, a artilharia foi projetada para disparos laterais, desencadeando rajadas devastadoras sem a necessidade de recarregar completamente. Entre eles estavam os bombardeios curtos, massivos e temidos. E entre os galeões, um se destacava acima de todos: O São João Batista. Uma fortaleza no mar construída nos estaleiros de Portugal e temido por toda a Europa. Entre os marinheiros ficou conhecido, simplesmente, por Botafogo, não um apelido, mas uma reputação. Um nome forjado na batalha, lembrado pelo fogo que desencadeou e o silêncio que deixou para trás. Mas o verdadeiro legado de Portugal nunca esteve apenas no fogo que desencadeou. Foi na mente que o direcionou. O império foi construído não apenas com velas e canhões, mas com perguntas, com estudo, com o poder silencioso da compreensão. Por trás de cada viagem havia um cálculo. Por trás de cada descoberta, uma visão. Este legado não foi esculpido em pedra, mas desenhado em mapas, traçado nas estrelas, carregados nas mãos daqueles que ousaram sonhar além do desconhecido. No limite de cada mundo mapeado, os portugueses deixaram mais do que rotas. Eles deixaram ideias. Eles deixaram perguntas que remodelaram o conhecimento. E deixaram a alma de um povo que acreditava que, seguir em frente, não era uma questão de apenas vento e ondas, mas de vontade. Mesmo quando o mar resistia, eles continuaram. Porque, para eles, compreender o mundo foi a maior conquista de todas”.
É triste sinal que a exaltação dos feitos extraordinários dos nossos antepassados, autores dessa epopeia gloriosa que foi a Era dos Descobrimentos e de que todos nós, sem exceção, nos deveríamos orgulhar, seja só reconhecida e feita por gente que nos é estranha, enquanto por cá vamos alinhando em discursos de penitência pelos “crimes”, à luz dos juízos de hoje, praticados por “meliantes” que, coisa pouca, estabeleceram a primeira globalização, romperam mitos, venceram medos, derrotaram o Adamastor e chegaram onde nunca ninguém foi. Falamos de um povo que ousou ir para além da dor, do sofrimento e perda de vidas, para conhecer, aprender, ganhar ou perder. E, quem não for capaz de respeitar nem honrar gente desta, não é digno de ser honrado, nem sequer respeitado. Nunca …