O meu nariz e eu sempre tivemos uma relação de boa vizinhança, se bem que procuro não interferir com as suas atividades. Plantado no centro da minha cara, só espero que ele cumpra a função burocrática e repetitiva de respirar e separar os bons dos maus cheiros, o que nem sempre é fácil. Mas isso é lá com ele. É da sua responsabilidade dar-me conta duma “farpa” no elevador ou do cheiro a chulé nos sapatos. Já não me agrada mesmo nada quando, normalmente pela manhã, me obriga a acompanhá-lo em meia dúzia ou mais de “Atchins” seguidos, como se eu tivesse culpa de ele “meter o nariz onde não é chamado”. E com isso, sempre que dispara um, tenho de o acompanhar fazendo uma vénia enérgica, senão o “Atchim não tem dignidade”, diz ele! Há ocasiões, especialmente no inverno, que passo o dia a “passar-lhe a mão pelo pelo” que é como quem diz, o lenço pela ponta, para limpar o pingo, quando não tem o descaramento de me deixar o lenço em mau estado com uma fungadela ranhosa.
Como apêndice no meio da nossa cara, o nariz com que nascemos nem sempre é aquele que gostaríamos de ter, pelo que enfrentar espelhos pode ser uma desventura para quem não se conforma com o modelo que lhe tocou, assim como as tentativas falhadas da pose perfeita para uma fotografia onde ele não seja realçado. É que há para aí muito tipo de narizes: arrebitado – levantado e jovial; de boxeur – bem achatado; aquilino – curvo; reto – ponte alinhada; em sela – com depressão; chato – ponte baixa; de botão – pequeno e estilizado; caído – apontado para baixo; de barbie – também estilizado; adunco – tipo bico de papagaio; para além do núbio, africano, celta, asiático, bulboso, negroide, romano e não sei quantos mais. Para quem quer comprar óculos com caimento perfeito, saber identificar o tipo de nariz pode ajudar a escolher quais os modelos que ficarão mais confortáveis no seu rosto. Um velho amigo zangava-se sempre que diziam ter o nariz abatatado, mas, na verdade, não havia como negar essa evidência. É certo que, se antigamente se morria com o nariz de nascença, hoje mudar o perfil do nariz é uma questão de ter vontade … e dinheiro.
Eu procuro quase sempre esquecer que tenho nariz e dar-lhe o devido descanso, mas há ocasiões em que até parece que não faço outra coisa que não seja limpá-lo, com uma fungadela puxada para ver se o ranho sai todo de uma vez, às vezes uma atrás da outra, sobretudo quando chegam as constipações. Mas uma das maiores chatices é quando há pedaços de ranho que secam lá dentro e dão-nos aquela sensação de que os canais nasais estão meios entupidos. Não sendo nada bonito, às vezes dou comigo, inconscientemente, com o dedo enfiado na narina a fazer prospeção de ranhetas secas. Quando me apercebo, paro logo de o fazer, pois se não gosto de ver os outros a fazê-lo, como posso cair nessa? Mas nessa inconsciência, há quem as tire do nariz e enfie na boca, o que é ir longe demais. Havia uma pessoa com importância local que já nos deixou que, volta e meia pegava no lenço, limpava o nariz e, com os nós dos dedos dobrados da mão direita, dava-lhe uma série de toques, de um lado e do outro, ora tocando, ora empurrando com força, com gestos instintivos dum tique que em algumas ocasiões se tornava constrangedor.
Catarino arrumava quartos num hotel da capital e, como lidava com colchões e lençóis, estava constantemente em contacto com ácaros e por isso era um sofredor nato. As alergias eram muitas e o seu nariz até parecia que ganhava vontade própria, com reações que não conseguia controlar. Não se limitava a respirar, pois de vez em quando tinha uma comichão miudinha que ia crescendo, obrigando-o a coçar a penca com aflição para travar o espirro. Para evitar coçar-se muito em público aprendeu um movimento com o lábio superior, fazendo-o parecer um coelho a mastigar uma folha de couve. Trazia sempre vários lenços de pano, até porque estava convencido que o seu nariz conspirava contra ele naqueles momentos sociais em que a crise de comichão não deveria acontecer. Conseguia detetar partículas de pó a metros de distância e o seu maior pesadelo não eram os fantasmas, mas os tapetes peludos por sacudir. Um dia entrou no elevador. Quando o ar condicionado libertou uma lufada de ar frio, o nariz reagiu de imediato. Pensou: vou espirrar. Desesperado, tentou pressionar o lábio superior, mas sem resultar. O diretor apercebeu-se que algo não estava bem. Quando ia perguntar-lhe o que se passava, o espirro cresceu e explodiu: Atchim! O lenço de gala encostado ao nariz saiu disparado e o diretor do hotel recebeu o “relatório da narina direita” do Catarino. Isto levou-o a procurar um médico pois mão podia correr mais riscos. O doutor ouviu as suas queixas, fez uma série de exames, para no final lhe dizer que não via nada de anormal. O diagnóstico era simples: “Senhor Catarino, o seu nariz está ótimo. O seu problema é que o senhor tem um nariz com personalidade a mais para a cara que Deus lhe deu. Tome estes anti-histamínicos e, por amor de Deus, compre um capacete de motociclista para andar de autocarro”. Já no jantar amoroso com Amélia, colega de trabalho, quando trouxe a entrada de queijo de cabra gratinado com mel e … alecrim fumado, mal o prato aterrou na mesa, o nariz avisou-o. Tarde demais. Tentou controlar com o lábio superior, mas o “tique de coelho” e uma lufada de ar frio, foi a tempestade perfeita. Com o copo de vinho na mão, aproximou-se da vela e nesse momento o espirro rebentou: Atchim. O impacto fez com que a vela aterrasse diretamente na sopa de tomate do cliente da mesa ao lado. Catarino olhou para Amélia aterrorizado, a pensar que a noite de romance acabara ali. Em vez disso, ela desatou uma sonora gargalhada enquanto olhava a vela a boiar na sopa do vizinho. Foi então que Catarino pegou no lenço de gala e limpou o rosto, percebendo que, contra tudo, o seu maldito nariz tinha acabado de lhe arranjar um segundo encontro.
Já ouvimos dizer muitas vezes para “não metermos o nariz onde não somos chamados”, que “temos o nariz empinado”, que “está mesmo debaixo do nariz” ou que “não conseguimos ver um palmo à frente do nariz”. Também aprendi que “orelha de homem, nariz de mulher e focinho de cão, nunca viram o Verão”. E é verdade que “já dei com o nariz na porta”, “torci o nariz” e “levei alguém pelo nariz”. Também já me comprovei que “por mais que se chore, no final assoamos sempre o nariz”. Além disso, para “nunca baixar a cabeça pra ninguém, nem levantar o nariz alto demais, pois olho no olho já é o suficiente”. Enquanto o humorista Millor Fernandes diz que “entre o riso e as lágrimas há apenas o nariz”, Herbet Spencer é mais subtil e escreve: “Casamento, é a cerimónia em que se coloca uma aliança no dedo da mulher e outra no nariz do homem”. Não é que estou inclinado a dar-lhe uma certa razão, já que até falamos de “narizes empinados”?