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“Lamento, mas eu só queria passar” …

Nos últimos anos, tem sido relevante a resposta da Natureza aos ataques e agressões constantes que recebe desde o início dos tempos, mas com maior intensidade nas últimas décadas, através das muitas formas de poluição em larga escala e atentados ao meio ambiente, tendo como consequência uma crise climática que não tem mais fim. Devastação das florestas, represamento dos rios e estrangulamento do seu curso, ocupação de leitos dos rios e zonas de alagamento através de todo o tipo de construções como pontes, casas, indústrias, centrais de tratamento de esgotos e outras, além da destruição das margens naturais, poluição pelo lançamento de substâncias tóxicas, descargas de lixo, esgotos e demais poluentes, que provocam graves danos ao meio ambiente, refletem-se nessa fúria da Natureza por esse mundo fora. Os temporais que se viveram no país, em especial no centro, revelam bem a dimensão da revolta, de uma Natureza maltratada pelo ser humano, sem qualquer preocupação com as consequências. A intervenção humana no meio ambiente quase sempre só prejudicou o equilíbrio natural. A fatura dessa agressão é apresentada cada vez com mais frequência e aquela que recebemos nesses dias de caos foi, e vai ser, muito pesada.

Nesses dias de depressões sucessivas, com ventos ciclónicos e chuvas diluvianas que fizeram de muitas aldeias e cidades, matas e campos, caminhos, estradas e autoestradas um cenário apocalítico, a Natureza enviou-nos um recado, que, teimosamente, não vamos ouvir. Em vez disso, como vimos nas televisões, gritamos que “ninguém nos ajuda”, que a culpa é, em primeiro lugar, do governo porque não nos tira a água das casas, não repõe as telhas que voaram, a cobertura que desapareceu, não salva o carro que aprendeu a nadar ou ficou a “segurar” uma árvore ou as pedras duma casa, não levanta os postes de eletricidade num piscar de olhos, repõe as comunicações e tudo o mais, como se a dimensão da tragédia permitisse fazer em meia dúzia de dias aquilo que vai precisar de anos de muito trabalho. E muito, mas mesmo muito dinheiro. À medida que os dias passaram, foram vindo ao conhecimento público mais e mais casos dramáticos, casas arrastadas por derrocadas de arribas, troços e troços de estradas absolutamente destruídas, linhas de alta tensão arrasadas como se fossem de brincar, instalações industriais esventradas tendo de se recomeçar do zero. Enfim, um sem número de tragédias pessoais e empresariais que vão demorar muito tempo a inventariar estragos, quanto mais a efetivar reparações. Nas suas mais variadas formas, as tempestades são o eco da revolta e da expressão mais violenta que a natureza utiliza para nos castigar.

E, depois dos ventos ciclónicos e chuvas diluvianas, vieram ainda as inundações, que atingiram uma enorme dimensão nos principais rios da zona central do país, com especial incidência nas regiões próximas da sua foz. E pudemos ver “novos mares” a cobrir campos, aldeias, vilas e cidades, entrando casas dentro para destruir, estragar e levar o caos a habitações, comércios, indústrias, serviços, comunicações e todo o tipo de infraestruturas, como se não bastassem os estragos do vento e da chuva. 

Mas, se nesta altura vemos e ouvimos um coro de lamentações quase interminável e legítimo, também deveria ser tempo de reflexão sobre os erros cometidos por nós, seres humanos, à forma como ocupamos o território, muito especialmente no leito dos rios e zonas inundáveis, em desrespeito pela natureza. Se em épocas passadas a inexistências de Planos Diretores Municipais podia ser justificação para alguns abusos, hoje não é concebível que se continuem a alterar e ignorar Planos Diretores em zonas críticas como “zonas de alagamento” de um certo rio assim consideradas durante anos e várias “alterações ao PDM, onde não era possível qualquer tipo de construção, para, de um momento para o outro, por artes mágicas, essa “zona de alagamento” desaparecer por encanto, talvez porque o rio tenha prometido nunca mais a inundar, passando a nascer ali algumas construções, com a possibilidade de virem mais! Milagre …

Acho apropriado trazer a lume o “Lamento de um rio”, um poema da professora brasileira Scheilla Lobato, pela sua beleza e atualidade, que tem emocionado e tocado milhares de pessoas, muitas delas afetadas por grandes inundações e que é uma lição de vida em forma de verso, para os seres humanos pararem e reagirem na busca de um desenvolvimento sustentável. No poema, o rio lamenta os danos causados por ter transbordado, mas sublinha que ele, rio, só queria seguir o seu curso natural e não teve qualquer intenção de destruir o que quer que fosse, mas o seu caminho estava obstruído. Porque ele, “só queria passar”:

“Perdoem-me por esta “bagunça” … Eu só queria passar.

Eu não fui feito para Destruir … Eu só queria passar.

Já fui esperança para os Navegantes …                                                      Rede cheia para Pescadores …

Refresco para os banhistas em dias de intenso calor.

Hoje sou sinónimo de medo e dor …

Mas eu só queria passar …
Perdoem-me por vossas casas, por vossos móveis e imóveis.
Por vossos animais, por vossas plantações… Eu só queria passar.
Não sou vosso inimigo, não sou um vilão,
Não nasci para a destruição … Eu só queria passar.
Era o meu curso natural, só estava seguindo meu destino.
Mas, violentaram-me, sufocaram minhas nascentes,
Desmataram meu leito … Quando eu só queria passar.
Encontrei tanta coisa estranha pelo caminho …                                          Que me fizeram transbordar…
Muros, casas, entulhos, garrafas, lixo, pontes, pedras, paus …
Tentei desviar … Porque eu só queria passar.
Perdoem-me por inundar vossa história,
Perdoem por manchar esta história … Eu só estava passando …
Seguindo o meu trajeto, cumprindo o meu destino:
Passar” …

Uma “instituição” que passou à história …

Foi inventado pelos gregos, popularizado durante a Idade Média, mas sobretudo do século XIV para diante. Entrou em Portugal há séculos e foi um artefacto de uso corrente no dia a dia para alívio de tantos nós. Ganhou muitas formas e feitios, os altos e os baixos, redondos e achatados, cheirosos e os que se limitavam a receber o cheiro da evacuação, mas o redondo com asa foi o mais tradicional. Há os que se partem e os que não quebram de jeito nenhum. Há-os em porcelana e até em madeira. De barro e em vidro, tal como em cerâmica ou em plástico. Também existem de ferro fundido e em alumínio, mas o mais preferido foi sempre o de ferro esmaltado. Já não falo nos feitos de ouro, esses reservados somente aos traseiros reais. Mas o John Bull, um inglês agachado com o braço a servir de asa, é o mais célebre entre nós, tendo sido desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro para satirizar os ingleses após o ultimato que fizeram a Portugal no final do século XIX para se retirar de alguns territórios de África. O objeto está no Museu Soares dos Reis e nunca chegou a ser comercializado. Foi criado com a intenção dos portugueses poderem “obrar” para dentro do John, vingando-se assim da humilhação dos ingleses. Claro que estamos a falar do bacio, também conhecido por “vaso de noite” e, mais popularmente, por penico. Enfim, uma instituição.

O penico serviu reis e rainhas, nobres, burgueses, ricos e remediados. Só não serviu os pobres das zonas rurais. Esses tinham de fazer as “descargas” das suas necessidades no campo, numa estrumeira em frente à porta da cozinha ou mesmo nas cortes do gado. Já no Palácio da Pena, em Sintra, existia um penico fora do vulgar, com tampa, que era da rainha D. Amélia e que hoje se encontra no museu. A certa altura, o penico até ganhou uma estrutura adjacente, uma cadeira à sua volta, exclusivo para ricos, burgueses e nobres. O penico é um objeto ingrato, tão útil quanto rejeitado, algo muito escondido pelos burgueses e nobres, mas carregado pelos escravos para momentos de aflição durante as viagens.

Por norma, o penico era colocado debaixo da cama, à mão de semear, para alívio dos aflitos em “apertos noturnos”. Mas, de vez em quando era “atropelado” a pontapé por cliente ensonado, espalhando o seu conteúdo malcheiroso, quando não metia a “pata na poça”. Muitas vezes tinha um lugar especial reservado na parte inferior de um móvel do quarto, a mesinha de cabeceira, fabricada em estilo próprio, com direito a porta privativa para tão importante artefacto. Pode-se dizer com toda a propriedade que outrora “os quartos com penico, lavatório e jarro de água” constituíram-se como o primeiro “quarto com casa de banho privativa”, um luxo que não era para toda a gente.

A cultura ocidental associa muitas vezes a vergonha a atos tão naturais e essenciais como o respirar, o comer, o defecar e o urinar. Sobre tal, Bernard Shaw dizia: “Só uma sociedade muito refinada é capaz de pensar nestas coisas (penico, retrete ou sanita) e, ao mesmo tempo, ruborizar-se ao falar delas”. A um objeto destinado a recolher dejetos e odores nada refinados como é o penico, fazem-se bastantes associações negativas como é o caso de uma caricatura célebre em que no penico está escrito “políticos” e o interior cheio de homens de casaca. Nesta linha de pensamento, quem não é militante de qualquer partido, é tido por “desalinhado” e, como tal, diz-se que “mija fora do penico”. Ora, quando Marinho Pinto foi candidato apelou aos jovens portugueses, precisamente para “mijarem fora do penico”, isto é, votando nele. Onde terá mijado quem lhe fez a vontade?

O penico serviu de instrumento der agressão à falta de melhor arma, foi despejado vezes sem conta janela fora sem se consideração nem respeito por quem ia a passar na rua, “aromatizando” os transeuntes incrédulos, serviu der caneca improvisada para rodadas de cerveja e até foi usado como “boné” de estudantes caloiros em desfiles universitários. Mas perdeu terreno para o saneamento das casas, deixando o interior das mesas-de-cabeceira e tornando-se uma brincadeira de crianças. Mas a sua força cultural é muito maior do que o objeto que é, porque além da função para que foi vocacionado também serviria e serve de inspiração aos criadores de piadas. A Dona Joaquina atendeu o telefone, dizendo: “Bom dia, fala a Joaquina. Com quem estou a falar?” E ouviu a resposta: “Daqui fala o Manuel. A senhora pode tirar-me uma dúvida?”, perguntou o homem do outro lado da linha. E ela, simpaticamente, disse: “Se eu souber. Qual é a dúvida?” Então o homem, armado em engraçadinho, perguntou: “D. Joaquina, a senhora sabe-me dizer se penico de barro enferruja?” E ela, oportuna e como se tivesse já a resposta na ponta da língua, respondeu: “Depende do cu que nele se senta, seu filho da …” E num instante a D. Joaquina despachou o chico-esperto com ironia e cinismo. Já a senhora Maria perguntou à Isaura: “Que barulho enorme foi aquele ontem à noite no teu quarto”? E a Isaura confessou: “Foi o bêbado do meu homem que tropeçou no penico”. 

Ainda recordo uma quadra popular que o José Barbosa, figura típica nos meus tempos de criança, de vez em quando recitava com ar brincalhão quando passava uma moça emproada: “Uma menina bonita/ por mais bonita que seja /sempre dá o seu peidinho/no penico quando “meija” (mija, mas em linguagem popular).

Vemos filmes das cortes com bailaricos e as festas de então, mas nunca vemos as divisões onde os penicos eram estrategicamente colocados para os convidados se aliviarem e nem sequer vemos um só penico. Lá está a tal vergonha e o pudor ocidental de, com naturalidade, falar, mostrar e, porque não, valorizar aquilo que tanto jeito deu a numerosas gerações, para não terem de sair de casa e ir a um canto qualquer a meio da noite, “arriar o calhau” ou despejar a bexiga antes que rebentasse. Não desvalorizemos o penico, considerado “o rei da noite”, uma “instituição” que já passou à história, pela importância que teve como “depositário” dos dejetos, líquidos e sólidos, dos “dois canos de esgotos” dos nossos avós, como de numerosos reis, rainhas, princesas, ricos e pobres, marqueses, aristocratas e burgueses, numa situação de igualdade democrática absoluta pois, por mais rendas, perfumes e bordados que os rodeassem, todos eles, mas todos mesmo sem exceção, foram sempre igualitariamente malcheirosos …