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O “Homem” que recusou Harvard …

Quando somos crianças e adolescentes alimentamos sonhos de todos os tipos, que, em regra, envolvem poder, dinheiro e fama. Quem não deseja ser um Cristiano Ronaldo, um artista de cinema ou um Tio Patinhas? Ou seguir uma carreira profissional bem remunerada ou a vida de um “carreirista da política” para ter acesso a todos os bens de consumo, especialmente aos exclusivos, reservados a alguns. Quem não sonha ser um deles? Felizmente, ainda há quem renuncie e nos faça acreditar na bondade do ser humano e no serviço aos outros!

Com 20 anos de idade, Robert Prevost estava no auge: “Professor de matemática em Chicago. Católico devoto.  Foi aceite na Universidade de Harvard”. Tinha tudo o que um jovem poderia sonhar. Mas então,

enquanto os seus amigos de infância continuaram para se tornarem advogados e médicos, ele tomou uma decisão que ninguém esperava: Disse “Não” a Harvard. “Não” a um salário anual de seis dígitos. “Não” à fama. “Não” ao conforto. E disse “Sim” a algo que poucos ousam escolher: a vida de entrega total. Entrou para um grupo missionário e mudou-se para o Peru. Não para as cidades. Não para os pontos turísticos. Mas para as vilas mais remotas, onde as crianças morriam de doenças tratáveis. Onde famílias caminhavam quilómetros para ter água limpa. Onde não havia estradas, nem água canalizada, nem rede de WI-Fi. Só montanhas, silêncio e pobreza. Mas ele abraçou tudo como um lar. Robert não só viveu entre o povo, como se tornou um deles. Aprendeu Quechua – a língua sagrada dos incas – carregou comida a pé durante dias, dormiu no chão de terra com os locais e rezou sob as estrelas. Quando não estava a construir abrigos, ensinava matemática a crianças descalças debaixo de tetos partidos. Quando não ensinava, levava doentes em burros à procura de ajuda. Quando não estava a curar, ouvia – de verdade – histórias que ninguém mais se importava de ouvir. Ao contrário dos amigos, ele tornou-se: Um pastor. Um irmão. Um guerreiro silencioso da fé. Um padre, mas não um padre qualquer. Alguém que cumpriu o que um dia prometeu no seminário. Um dia, quando estudava para padre, perguntaram-lhe “que sacerdote gostaria de ser?” E o jovem Robert Prevost, bonito e convicto, respondeu que tinha a ambição de ser um padre capaz de abdicar de toda a matéria, de todas as roupas caras, de todos os perfumes, de tudo o que o afastasse do Homem que resolveu seguir. E sacrificou-se pelos mais pobres, sacrificou a sua condição burguesa, a sua tranquilidade e conforto, para viver no Peru, numa cidade a 800 quilómetros de Lima, a capital. Amparou trabalhadores explorados na apanha da cana do açúcar, dormiu em barraco de gente sem água encanada, protegeu mulheres violentadas, arregimentou vontades para que casas de tijolo fossem construídas, para que escolas tivessem professores, para que às mães não faltasse o leite, para que aos homens não faltasse trabalho. Os peruanos de Chiclayo faziam fila para ouvir uma sua palavra, para receber a hóstia e o seu sorriso, a sua esperança, o seu exemplo. No Natal, levavam-lhe cabrito e o pato que durava para o resto do inverno. Na primavera levavam-lhe as crianças para ele as abençoar e todas as semanas Robert Prevost comia em casa de algum pobre, de alguém que o sentava como se fosse família, de alguém que comia dos seus pratos gastos, da sua comida humilde e bebia da sua pinguinha caseira.

E, aos poucos, a sua lenda cresceu. Os seus atos não eram divulgados, mas ecoavam pelos Andes. Padres notaram. Bispos notaram. E, finalmente, o Vaticano notou. Chamaram-no de volta para liderar toda a ordem agostiniana. De servir uma vila, passou a supervisionar 2.800 irmãos em mais de 40 países. Ainda assim, manteve as mesmas sandálias. Ainda assim, caminhava com os pobres. Ainda assim, rejeitava o luxo. Então, veio o chamamento que mudou tudo. Roma queria-o mais perto. Em 2020 foi nomeado arcebispo e designado para governar outros bispos no mundo todo. Era raro. Mas Robert nunca procurou posição. Não era só fluente em latim ou direito canónico. Era fluente em compaixão. Em humildade. Em escuta. Em presença. O Vaticano não viu apenas um padre. Viram um líder com alma. Em 30 de Setembro de 2023, o Papa Francisco oficializou: Robert Prevost foi nomeado Cardeal, apenas um passo abaixo do Papa. E então … em 2025 a história foi feita. Pela primeira vez, um americano, um ex-professor de matemática, um missionário dos esquecidos, foi elevado como o 267º. Papa da Igreja Católica. 

Mas ele não esqueceu o povo que o formou. Até hoje, o Papa Robert ainda volta às mesmas vilas. Ainda reza em Quechua. Ainda se senta no chão de terra. Ainda segura as mãos dos idosos em silêncio. Porque ele acredita que liderança é questão de presença, não de posição. O mundo é obcecado por poder. Mas Robert Prevost prova que: Títulos não significam nada sem esforço. Conhecimento é inútil sem amor. E fé, sem sacrifício, é barulho. Ele recusou o mundo. E, em vez disso, tem como missão mudá-lo. 

Leão XIV é precisamente este padre, um homem distinto, que fez voto de pobreza e se dedicou ao fim do mundo, aos que nasceram sem acesso às benesses. Por isso, houve felicidade em Chiclayo. Por isso, as pessoas saíram à rua com tachos e panelas. Por isso, ouviram-se gritos e viram-se muitas lágrimas entre os índios peruanos, entre os trabalhadores cansados da cana-de-açúcar, entre as mulheres com filhos ao colo, até entre os presos – houve quem batesse nas grades. Por isso, não admira que Robert Prevost, o homem que recusou ir para a Universidade de Harvard para servir nas vilas mais pobres do Peru, tenha dito, que a igreja pode trazer luz às noites escuras e deve ser julgada pela santidade dos membros e não pela grandeza dos edifícios. Alguém que, contrariamente ao que vulgarmente se conta, pode gritar bem alto: “Olhem para o que eu digo e olhem mais ainda para o que eu faço”! 

A memória e as nossas memórias …

A memória é a capacidade que nos permite codificar, armazenar e recuperar informações. Muito mais que um arquivo de lembranças, ela é o alicerce da nossa identidade, da aprendizagem e da nossa adaptação e sobrevivência diária, crucial para a evolução da espécie humana. Desempenha um papel fundamental para a nossa qualidade de vida, pois é condição primordial para aprendermos. A capacidade de evocar esses conteúdos condiciona a nossa adaptação ao mundo, aos nossos relacionamentos sociais, ao planeamento e tomada de decisões. E se isso não acontece de forma satisfatória, afeta o nosso lado emocional com sentimentos de fracasso por não se conseguir realizar alguma coisa que depende da boa memória. Como resultado, corremos o risco de rebaixar a nossa autoestima, em sentimentos de inadequação e de poder conduzir à depressão. É a esta base de dados feita de experiências passadas e de emoções que vamos buscar a informação necessária para gerir situações presentes e criar cenários para pensar o futuro. E, como constatam os especialistas da área, estes episódios que guardámos ao longo dos anos, ajudam-nos a ficar com uma ideia de nós próprios. 

Lembramo-nos de coisas – situações, atos, pessoas e lugares, livros e músicas, faltas e omissões – e essas coisas lembram-nos de outras e de nós próprios. Andamos no mundo misturados com coisas que fazem parte de quem somos e nos fazem ser quem somos. Lembrar é um ato mágico que traz o passado ao presente, que faz com que o que aconteceu não se perca na escuridão da noite e deixe de existir para sempre. Sem memória não teríamos mundo, porque o nosso mundo seria desfeito por uma sucessão de factos sem relação entre si, incapazes de os integrar numa história onde ganhem sentido. Mas, por outro lado, o que é recuperado e trazido para o presente nunca é uma simples duplicação ou reprodução do que foi: o passado que vem ao presente é transformado pelo tempo, visto de forma diferente por quem o recorda, filtrado por uma série longa e variável de condições que vão desde um conhecimento mais ou menos completo e fidedigno do acontecido à situação individual de cada um.

Quase toda a gente já se surpreendeu ao ter uma lembrança ao sentir um cheiro ou ouvir um som. Isso acontece porque somos construídos a partir de lembranças e os estímulos do que está à volta contribuem para as despertar. Cada pessoa tem dentro de si um baú repleto de memórias boas e más, que nos levam a ser quem somos. Revisitar as boas lembranças de tempos a tempos, faz bem ao nosso estado de espírito. A Teresa partilhou comigo algumas das memórias felizes e marcantes da sua infância, em palavras que dizem tudo. Vejam só:

“Fiz-me pequena para caber no passado da infância feliz: os dias viviam-se na simplicidade dos acontecimentos; todas as minhas pessoas eram vivas; e as coisas do mundo que vivia eram grandes. Os terrenos dos meus avós eram infinitos. As ramadas de videiras frondosas, serpenteavam o céu dos quintais. As fiteiras adornavam as margens do pequeno regato, companheiro da leira de baixo. As laranjeiras, de fruto pequeno e ácido, aninhavam-se sob as nogueiras, cuja frescura da sua sombra, era a mais intensa, dizia o avô. Por aqui e por ali, as aves construíam as suas guaridas. As manhãs e fins de tarde eram a mais bela orquestra das músicas da doce infância. Pela noite, as corujas cantavam as melodias ensaiadas, entendidas como os agoiros das gentes. Os cenários eram mais que perfeitos, mesmo conhecendo-os apenas como a realidade quase ímpar dos meus dias. O quintal de cima, o tanque, a bomba de água manual, a leira dos tremoços, a leira de baixo, o barroco e os quintais contíguos ao nível das casas da nossa família. Esta é a sequência da tela mais bela da minha memória. Um dia, as ramadas vieram abaixo, parte dos terrenos vendidos e a aparente falta de um todo fez-se realidade. Desde esse tempo que se iniciou esse trabalho diário de seu nome recordação. As cores, os cheiros, os sons, jamais se poderão apagar, pois a pureza da memória é amiga leal. E, no abraço à infância, caibo mais uma vez naquele lugar, o lugar que a cada instante eternizo para que jamais se esfume de mim” …

Tal como a Teresa, muitas vezes regresso às minhas memórias de infância, verdadeiramente livre e feliz, ciclo de aprendizagem com três mestres, qual deles o mais importante: a casa de meus pais onde me foi dada educação, a escola onde recebi instrução e a aldeia, um mundo de liberdade em natureza e com a natureza, com quem todas as crianças deveriam ter, obrigatoriamente, contacto. Curiosamente, aos 103 anos de idade, são as memórias de infância de minha mãe as mais teimosas em se manterem presentes, testemunhas de um passado muito distante que ela evoca frequentemente despoletadas a partir de uma rua, um lugar ou um nome e que recorda com precisão quase milimétrica. Pelo contrário, perdeu por completo a memória recente, manifestada na incapacidade de recordar informações, como conversas, eventos e tarefas que ocorreram ou foram realizados recentemente, o que lhe cria alguns constrangimentos.

Alguém disse que “nós somos um conjunto de memórias (conscientes e inconscientes), e são elas que conduzem e orientam todas as nossas escolhas e que determinam o nosso futuro.” E “os comportamentos e atitudes no presente resultam sempre da evocação das memórias passadas”. Por isso cuide da sua memória e, sempre que possa, faça uma “visita” às memórias agradáveis do passado para ganhar alento para o futuro. É como dar dois passos atrás para ganhar balanço …