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O português que conquistou a Patagónia

Dos inúmeros portugueses gloriosos com que, generosamente, a nossa história nos brindou, muito especialmente na era dos Descobrimentos, a maioria deles nunca foi, nem será, glorificado por essa história, nem as suas conquistas ou feitos serão exaltados e cantados por poetas como Camões. Muitos deles tiveram histórias de vida incríveis que, só de as imaginar, é entrar numa aventura alucinante. É o caso de José Nogueira, um homem que nunca soube ler nem escrever e que só decidiu aprender a desenhar as doze letras dos seus primeiro e último nomes, apenas quando deixaram de lhe chamar “José, o português” para passarem a tratá-lo por “Dom José”. Mas, apesar de praticar ao longo de uma década, raramente a pena lhe obedecia para deixar as letras direitas. Definitivamente, não tinha mão para a escrita. As suas mãos foram fadadas para ser marinheiro e chegar à idade adulta à força de ventanias e trabalhos no mar. 

Nascido no seio de uma família pobre de uma das freguesias de Gaia há quase 200 anos, bem cedo começou a ser atraído pela faina na Afurada e pela chegada e partida de navios para o Brasil e outras paragens. Aos 12 anos, de calças remendadas e atadas com um cordão à cintura, uma camisa velha a nadar no corpo magro e os calcanhares a sobrar de uns tamancos, ofereceu-se para aprendiz de marinheiro ao contramestre de um navio que ia partir para Terras de Vera Cruz. E, não se sabe bem porquê, foi aceite. E lá foi ele aprendendo a arte de marinheiro, indo parar ao Rio de Janeiro onde permaneceu durante 6 anos, servindo em navios que percorriam a costa brasileira desde o Amazonas a Porto Alegre e percorrendo as ruas da Cidade onde se fez homem.

Juntamente com mais dois portugueses, rumaram mais a sul, primeiro ao Uruguai que estava em guerra e de onde saíram logo que puderam para seguir até Buenos Aires, na Argentina. O mar era o ofício deles, mas queriam mais. Mais aventura, mais futuro, mais provento, mais de tudo. Há muito ouviam as histórias dos mais velhos sobre as fortunas que a caça à baleia podia render. E se não encontrassem baleias, havia sempre os lobos-marinhos, em especial os de “dois pelos”, de pele mais macia, mais procurada e que rendia bom dinheiro. E é assim que, com 20 anos de idade José Nogueira desembarca do outro lado dos Andes já no Oceano Pacífico em Callao, o mais importante porto do Peru. E é a partir daí que embarca numa nova aprendizagem na caça aos lobos-marinhos, para depois desembarcar num dos lugares mais inóspitos e esquecidos do Planeta, dizia-se “onde não há lei, nem Deus existe”, com vento de 100 a 200 kms por hora, a “têmpera dos desesperados”. Ficou em Punta Arenas, 30 casas de madeira em estado ruinoso, entre dois oceanos e à margem do estreito que tem o nome de outro português: Magalhães. E foi ali, onde tudo faltava, tudo estava por fazer e tudo lhe parecia possível, num lugar de que já nem Deus se lembrava, que José Nogueira assentou e teimou que ia deixar herança. Depressa aprendeu a cruzar os canais da região, a apanhar lontras e lobos-marinhos em campanhas de 4 meses em abrigos improvisados. Com uma vontade férrea de vencer, casou com 26 anos vendo ao largo já o seu primeiro barco de 2 mastros, quando a povoação crescia, com a caça aos lobos-marinhos como negócio, além do ouro e comércio com os índios. Às peles, Nogueira juntou o negócio de fretes marítimos e, ocasional, de salvados (barcos naufragados), o que o levou a comprar outro veleiro 3 vezes maior, início de uma frota a que viria a juntar mais outros 5, que o tornou no maior armador de Punta Arenas, além de abrir o armazém que se transformaria na Nogueira & Cia, a mais próspera importadora e exportadora da colónia chilena. 

Consolidada a sua posição comercial tanto no mar como na região, separado da mulher e, mais tarde viúvo, José Nogueira virou-se para as terras inóspitas, desoladas e tidas como sem qualquer préstimo, construindo a “Estância Pecket Harbour” com alguns milhares de hectares numa fatia de terreno junto ao estreito de Magalhães, uma estância modelo de criação de ovelhas para produção de lã, que ele fez questão de gerir pessoalmente, tendo sido ponto de partida para voos mais altos. É precisamente em terra, na Terra do Fogo, que ele prepara e faz a sua maior jogada, ao candidatar-se junto do governo chileno para que lhe fosse atribuída uma área a perder de vista na ilha Dawson para a criação de ovelhas e não só. Para tal, como maior empresário da região e principal dinamizador da cidade, moveu grandes influências junto do poder central para que lhe fosse satisfeita tal pretensão.

Entretanto, do contacto próximo com a família alemã Brown, conheceu e acabou por casar com Sara, a filha mais velha, juntando sociedades e negócios, que escalaram consideravelmente. Enquanto o cunhado Maurício assumiu o negócio marítimo, desde os fretes às peles, do ouro às carcaças de navios naufragados, das encomendas de todo o tipo de artigos e materiais vindos da Europa à América e o câmbio das libras esterlinas e as letras bancárias, José concentrou-se na Estância e no projeto enorme da nova extensão de terras, até porque uma tosse que teimava em não ceder, o incomodava de sobremaneira, até confirmar-se que se tratava de tuberculose nos seus 43 anos. Nesse ano recebeu uma primeira notícia da concessão de 180.000 hectares para, no mesmo ano, receber uma segunda de 170.000 hectares a Maurício, como seu “testa de ferro”, que se juntavam aos 30.000 que já detinha. Em meses passou a ser o maior proprietário privado do Chile. E foi depois de um encontro pessoal entre o presidente do Chile e José Nogueira, que este o conquistou com o seu projeto visionário para colonizar de vez a Terra do Fogo, com a concessão de mais um milhão de hectares. E a 9 de Julho de 1890, o presidente assinou o decreto que lhe concedia um milhão e nove mil hectares. Era toda a terra chilena da ilha Grande que era aproveitável. As concessões a Nogueira somavam 1.359.000 hectares e a exploração arrancaria com ovelhas, vacas e cavalos, quando ele tinha 45 anos de idade e uma doença crescente, que o levaria aos 47 anos. Deixou para trás um império pastoril, da Terra do Fogo até terras argentinas, com muitas participações em empresas da caça à baleia a minas de cobre, dos seguros à banca, das novas companhias de eletricidade e telefones de Punta Arenas e Magalhães, à indústria frigorífica. 

Numa desolada terra de aventureiros, desterrados, índios, caçadores, deserdados e imigrantes, este “Português” que partiu pobre e menino do cais de Gaia com 12 anos, construiu casa e fortuna e tornou-se “Dom José”. Dedicou-se à caça, abriu comércio, foi armador, explorou ouro e salvados de navios, amealhou terras imensas, criou ovelhas e deixou nome e herança na Patagónia e na Terra do Fogo chilenas, onde as ventanias geladas matavam o corpo e a alma se a força de vontade não fosse indomável, como foi a do “Portugês” “Dom José”.