A memória é a capacidade que nos permite codificar, armazenar e recuperar informações. Muito mais que um arquivo de lembranças, ela é o alicerce da nossa identidade, da aprendizagem e da nossa adaptação e sobrevivência diária, crucial para a evolução da espécie humana. Desempenha um papel fundamental para a nossa qualidade de vida, pois é condição primordial para aprendermos. A capacidade de evocar esses conteúdos condiciona a nossa adaptação ao mundo, aos nossos relacionamentos sociais, ao planeamento e tomada de decisões. E se isso não acontece de forma satisfatória, afeta o nosso lado emocional com sentimentos de fracasso por não se conseguir realizar alguma coisa que depende da boa memória. Como resultado, corremos o risco de rebaixar a nossa autoestima, em sentimentos de inadequação e de poder conduzir à depressão. É a esta base de dados feita de experiências passadas e de emoções que vamos buscar a informação necessária para gerir situações presentes e criar cenários para pensar o futuro. E, como constatam os especialistas da área, estes episódios que guardámos ao longo dos anos, ajudam-nos a ficar com uma ideia de nós próprios.
Lembramo-nos de coisas – situações, atos, pessoas e lugares, livros e músicas, faltas e omissões – e essas coisas lembram-nos de outras e de nós próprios. Andamos no mundo misturados com coisas que fazem parte de quem somos e nos fazem ser quem somos. Lembrar é um ato mágico que traz o passado ao presente, que faz com que o que aconteceu não se perca na escuridão da noite e deixe de existir para sempre. Sem memória não teríamos mundo, porque o nosso mundo seria desfeito por uma sucessão de factos sem relação entre si, incapazes de os integrar numa história onde ganhem sentido. Mas, por outro lado, o que é recuperado e trazido para o presente nunca é uma simples duplicação ou reprodução do que foi: o passado que vem ao presente é transformado pelo tempo, visto de forma diferente por quem o recorda, filtrado por uma série longa e variável de condições que vão desde um conhecimento mais ou menos completo e fidedigno do acontecido à situação individual de cada um.
Quase toda a gente já se surpreendeu ao ter uma lembrança ao sentir um cheiro ou ouvir um som. Isso acontece porque somos construídos a partir de lembranças e os estímulos do que está à volta contribuem para as despertar. Cada pessoa tem dentro de si um baú repleto de memórias boas e más, que nos levam a ser quem somos. Revisitar as boas lembranças de tempos a tempos, faz bem ao nosso estado de espírito. A Teresa partilhou comigo algumas das memórias felizes e marcantes da sua infância, em palavras que dizem tudo. Vejam só:
“Fiz-me pequena para caber no passado da infância feliz: os dias viviam-se na simplicidade dos acontecimentos; todas as minhas pessoas eram vivas; e as coisas do mundo que vivia eram grandes. Os terrenos dos meus avós eram infinitos. As ramadas de videiras frondosas, serpenteavam o céu dos quintais. As fiteiras adornavam as margens do pequeno regato, companheiro da leira de baixo. As laranjeiras, de fruto pequeno e ácido, aninhavam-se sob as nogueiras, cuja frescura da sua sombra, era a mais intensa, dizia o avô. Por aqui e por ali, as aves construíam as suas guaridas. As manhãs e fins de tarde eram a mais bela orquestra das músicas da doce infância. Pela noite, as corujas cantavam as melodias ensaiadas, entendidas como os agoiros das gentes. Os cenários eram mais que perfeitos, mesmo conhecendo-os apenas como a realidade quase ímpar dos meus dias. O quintal de cima, o tanque, a bomba de água manual, a leira dos tremoços, a leira de baixo, o barroco e os quintais contíguos ao nível das casas da nossa família. Esta é a sequência da tela mais bela da minha memória. Um dia, as ramadas vieram abaixo, parte dos terrenos vendidos e a aparente falta de um todo fez-se realidade. Desde esse tempo que se iniciou esse trabalho diário de seu nome recordação. As cores, os cheiros, os sons, jamais se poderão apagar, pois a pureza da memória é amiga leal. E, no abraço à infância, caibo mais uma vez naquele lugar, o lugar que a cada instante eternizo para que jamais se esfume de mim” …
Tal como a Teresa, muitas vezes regresso às minhas memórias de infância, verdadeiramente livre e feliz, ciclo de aprendizagem com três mestres, qual deles o mais importante: a casa de meus pais onde me foi dada educação, a escola onde recebi instrução e a aldeia, um mundo de liberdade em natureza e com a natureza, com quem todas as crianças deveriam ter, obrigatoriamente, contacto. Curiosamente, aos 103 anos de idade, são as memórias de infância de minha mãe as mais teimosas em se manterem presentes, testemunhas de um passado muito distante que ela evoca frequentemente despoletadas a partir de uma rua, um lugar ou um nome e que recorda com precisão quase milimétrica. Pelo contrário, perdeu por completo a memória recente, manifestada na incapacidade de recordar informações, como conversas, eventos e tarefas que ocorreram ou foram realizados recentemente, o que lhe cria alguns constrangimentos.
Alguém disse que “nós somos um conjunto de memórias (conscientes e inconscientes), e são elas que conduzem e orientam todas as nossas escolhas e que determinam o nosso futuro.” E “os comportamentos e atitudes no presente resultam sempre da evocação das memórias passadas”. Por isso cuide da sua memória e, sempre que possa, faça uma “visita” às memórias agradáveis do passado para ganhar alento para o futuro. É como dar dois passos atrás para ganhar balanço …