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Como encher a “pança”… no futuro

Mais coisa menos coisa, hoje existem cerca de seis biliões de seres humanos na terra e os entendidos estão a prever que sejam mais de nove em 2050. Demasiadas bocas para alimentar…

Os pessimistas dizem que não haverá “paparoca” para tanta gente e esse será o desafio, especialmente nos países mais pobres. Cá por mim, não me importava de experimentar algumas dificuldades alimentares… em 2050 mas, é certo que nessa altura já terei deixado de… comer. Claro, pelo mesmo motivo do burro da anedota…

Ao contrário dos ditos entendidos, penso que não haverá carência de alimentos. Poderão é ser diferentes dos de hoje, embora continuem a estar mal distribuídos… como agora. Há muito tempo que a entrada de novos alimentos na nossa dieta tem sido natural e pude assistir a isso ao longo da vida. Outros virão…

Se em criança só comia carne de porco ou galinha – quando havia carne – foi aumentando gradualmente a lista de alternativas como o pato, o peru, a avestruz, a codorniz e outras aves e, para além da vulgarização da carne de vaca (que os indianos teimam em venerar em vez de comer), acrescentamos à ementa cabrito, cordeiro, veado, javali e até cavalo. Já os africanos e, ainda mais, os orientais, fizeram crescer a lista de iguarias ao ponto de até comerem… cães, que nós só imaginamos como animais de estimação. Por este andar, os amigos que se cuidem pois podem entrar no “cardápio” (quando falei nisto um determinado “fulano”, comentou: “Ai, ai, se fosse uma amiga…”).

Noutros tempos, à minha terra só chegavam sardinhas ou carapaus trazidos pelo “sardinheiro” e vendidos ao “quarteirão”. Tirando estes, podíamos comer truta, barbo, escalo ou boga… se os apanhássemos no rio Sousa (no tempo em que tinha peixes…), às escondidas do senhor Abel Moreira, o guarda rios. Agora, estão sempre a vender-nos novas espécies com nomes e preços “estranhos”… Claro que a maior parte dos peixes que hoje temos nas bancas são criados em “gaiolas” no mar ou nos estuários, alimentados a ração tal e qual os milhões de “bicos” nos aviários, de porcos, etc., ração essa tantas vezes carregada de hormonas e antibióticos. É por isso que há cada vez mais homens a “falar fininho” (o que virou moda) e “mulheres barbudas” (antigamente faziam sucesso no circo e hoje têm êxito na Eurovisão). Legumes, eram meia dúzia e todos cultivados no quintal lá de casa, enquanto hoje são tantas as variedades, que já não chegam as palavras em português para “chamar por eles” e foi preciso “importar” o “chuchu”, a “courgette” e outros que tais. É que, comer “estrangeirismos” alimenta-nos bem melhor…

Mas, a grande aposta alimentar do nosso futuro, está nos… insetos. Os estudiosos acham que a maneira de acabar com a “larica” será “desatarmos” a comer gafanhotos, formigas, lagartas e até larvas de mosca. É só uma questão de… mentalização. Metem nojo? E o porco, não é porco? Se comemos ostras, mexilhões e até caracóis, porque é que não podemos comer… lesmas? São caracóis… sem a “casa às costas”… Os americanos já têm patentes de produção de farinhas alimentares a partir de… gafanhotos. Dizem que é melhor do que qualquer carne. Será? Já se comem mais de mil e quinhentas espécies de insetos por esse mundo fora, nós é que estamos “atrasados”… É só uma questão de tempo, quando não de… moda?

Eu já comecei, há muito. No último ano de Escola Agrícola, chefiava uma mesa no refeitório do internato e tinha comigo três caloiros moçambicanos. Num dia quente e com as janelas abertas durante o almoço, um grande gafanhoto “aterrou” na mesa. O Teodoro, um dos moçambicanos, lançou a provocação: “Dou vinte escudos a quem comer o gafanhoto”. Ora, vinte escudos naquele tempo era muito dinheiro, para mim (muito pouco para ele, filho de grande fazendeiro), pois dava para ir três ou quatro vezes comer um bife ao Texas e ver um filme no Avenida. Instintivamente, perguntei: “Mostra a massa”. O Teodoro não se fez rogado: Tirou uma nota de vinte escudos da carteira e pousou-a no centro da mesa. “Quem tem coragem?”. Sem hesitar, respondi: “Eu aceito”. Apertamos as mãos e… vamos a isto. Ao almoço eram batatas guisadas com carne e o meu prato ainda estava quase cheio. Apanhei o gafanhoto, cortei-o aos bocados e embrulhei-o na comida com muito molho, fazendo-o desaparecer no meio do guisado. Comi tudo sem me aperceber de “paladares” estranhos e “ganhei” um “subsídio” extra para o mês…

Ao longo dos anos já experimentei porco espinho, pernas de rã, sopa de cobra e outras “iguarias” pouco usuais entre nós. Durante um ano dormi no meio de milhões de baratas e ratos, mas não os cheguei a provar porque… não calhou. E comeria? Porque não? Se estivesse na situação em que se encontram milhões de pessoas por esse mundo fora, de que a imprensa só nos mostra algumas imagens, “punha o dente” em tudo o que mexe porque, só nos damos ao “luxo” de “não gostar” disto ou daquilo quando… temos muito por onde escolher. E ainda temos…

Mesmo em “crise”, sofremos muito mais por comermos demais do que por comer de menos. E se o não quisermos ver, só temos de perguntar a médicos, nutricionistas, treinadores dos ginásios… e às balanças.

A corrida para escolher o… pasteleiro

É caso para dizer “estes ingleses são doidos”, mas foi verdade. Um grupo de súbditos de sua majestade realizou uma corrida de cães tendo como único objetivo encontrar o nome e sexo do futuro príncipe de Inglaterra muito antes de nascer. É caso para perguntar como é que uma corrida de cães podia “adivinhar” tais coisas relativas ao filho do príncipe William e de Kate Middeleton? A corrida foi organizada por uma conceituada casa de apostas e pôs a competir dez cães de uma simpática raça local, cinco machos e cinco fêmeas, tenda cada um no dorsal um nome.

O sexo do animal vencedor determinaria o do futuro príncipe e o nome deste seria o constante no dorsal. Só na última curva e já próximo da meta é que a cadela que carregava às costas o nome Alexandra deu um vigoroso sprint e atravessou a linha final antes dos outros. Para os “crédulos” na veracidade destas coisas, o próximo habitante da casa real inglesa seria uma princesa, de seu nome Alexandra.

Claro que, no fundo, no fundo, o verdadeiro interesse desta corrida era financeiro sendo a casa de apostas a parte mais interessada, pois arrecadou uma boa percentagem do rendimento da competição. Não sei se alguém chegou a ficar convencido com o resultado mas, como costuma existir gente que acredita em tudo…

Ora, hoje mesmo soube que Kate Middeleton deu à luz uma princesa e que se vai chamar Carlota Diana, meses depois da tal corrida se ter realizado, “cumprindo-se” em cinquenta por cento o resultado da competição. Só falhou o nome, coisa tão pouca…

Sendo que a corrida de cães “acertou” no sexo da recém nascida, pus-me a pensar: Será que este tipo de corridas não poderá vir a ser usado para fazer certas escolhas? Aliás, até podiam ser introduzidos alguns “melhoramentos” com vantagens, como substituir os cães por outros animais. Se fossem morcegos, é provável que acertassem em cheio, pelo “radar”. No caso de serem vacas, as hipóteses também seriam boas se contarmos que têm cá uma dose de “leiteira”… Ah, até podiam ser perus porque, depois de bêbedos, vão sempre parar… à mesa de Natal.

Lembrei-me da corrida de cães (e dos seus resultados) a propósito de outra corrida que ainda não começou (e está longe de começar) mas que já começou sem começar. Vamos lá ver se me entendo a mim mesmo e se me faço entender: Dizem para aí que lá para o final do próximo ano vai-se realizar uma corrida aos “pastéis… de Belém”. Mas, a verdade é que ainda não há “pastéis”, ainda não há farinha nem açúcar nem nada dos outros ingredientes para obter a “massa” necessária, ainda não há “tacho” disponível nem “cozinha” livre, não há “gás” para alimentar a “chama” nem chama para aquecer as “partes baixas do tacho” mas já temos “corredores” na “pista”. É que isto de correr atrás dos “pastéis de Belém” ainda é mais estranho do que as corridas de cães para descobrir o “sexo dos anjos”, digo, dos príncipes… É que nunca se sabe bem qual o objetivo real do “corredor”…

Dizem que a corrida é livre (e livre-nos Deus, Nosso Senhor…) e nela pode entrar qualquer tipo de “animal”, gordo ou magro, alto ou baixo, feio ou bonito, “burro” ou “esperto” (os “espertos” já nos custaram um “dinheirão”), cabeludo ou careca. Certo é que a maioria são “pernetas”, isto é, reformados (ou reformulados) como eu. Rezam as crónicas que é indiferente quem ganha pois o vencedor será uma espécie de rei sem reino, um arranjo floral sobre uma mesa de comida – decorativo mas… sem utilidade. No entanto, apesar do salário ser “miserável” e só dar para viver ligeiramente acima do limiar de pobreza (nas palavras do atual “sacrificado”), torna-se um lugar muito cobiçado pelos amantes de viajar “à borla” porque, como prémio, dá direito a um enorme livro de cupões de viagens com destinos à escolha. De tal maneira grande que se diz “Deus está em toda a parte mas M… (um dos que já ocupou a “pastelaria” de Belém) já lá esteve”.

Como dizia, já há corredores na “pista” a tentarem ganhar “posição” para quando soar o tiro de partida – daqui por um ano e tal… Se são novos, quando chegar o dia da partida já terão cabelos brancos… Alguns são uma espécie de “verbos de encher” (mais ou menos como as “lebres” nos encontros internacionais de atletismo, que só servem para “puxar” pelos outros), mas aproveitam bem o “tempo de antena” que as televisões lhes dão, para vender “banha da cobra” e comprar “imagem” gratuita, sempre interessante para futuros negócios. Outros, estão à espera de “um bom partido”, sempre importante para dar o “empurrão” ou levá-los “ao colo” mas, os partidos estão todos partidos porque não têm um “ás de trunfo”. Será que temos “pachorra” suficiente para ouvir falar desta “corrida aos pastéis… de Belém” durante tanto tempo?

Cá por mim, deveríamos prescindir dos votos para escolher o “pasteleiro”. Seria mais económico e conseguia-se obter o mesmo resultado através de uma corrida… de burros. As vantagens eram mais que muitas: Era mais rápida, a poluição sonora resumia-se a uns quantos “zurros” durante a corrida (ao contrários dos muitos que são dados nas campanhas eleitorais…), os “burros” não apareciam pendurados em cartazes pelo país fora com os “dentes à mostra”, poupava-se papel, tinta, tempo de antena, “conversa fiada” e “massa”, muita “massa”. E de uma coisa podíamos ter a certeza: O vencedor daria sempre o coice para o lado contrário de onde recebesse apoio. Se as “palmas” viessem da direita, daria o coice para a esquerda mas, se os apoiantes estivessem do lado esquerdo, está bom de ver para onde ia a patada… Afinal, nada a que a gente já não esteja habituada…

Educados(?)… por uma Estranha

O meu amigo Flávio vive em Cabo Verde de onde é natural e enviou-me um daqueles textos que nos faz refletir. Por isso, depois de alguns “retoques”, achei que o devia partilhar nestas crónicas para que cada um se reveja no que lhe diz respeito. Aí vai.

“Alguns anos depois de ter nascido, meu pai conheceu uma Estranha, recém chegada à nossa pequena cidade. Desde logo ficou fascinado por esta encantadora personagem e, pouco depois, até a convidou a viver em nossa casa, com a família.

A Estranha aceitou e, desde então tem permanecido lá em casa. Enquanto fui crescendo nunca me interroguei sobre qual o lugar que ela ocupava na nossa família mas, na minha mente jovem, já tinha um lugar muito especial.

Meus pais eram os educadores… complementares, tendo a mãe me ensinado a diferença entre o que era bom e o que era mau, enquanto o pai me ensinou a obedecer. Mas, a Estranha era a nossa narradora, a contadora de histórias. Mantinha-nos enfeitiçados horas a fio com aventuras, mistérios e comédias. Tinha sempre resposta pronta para qualquer coisa que quiséssemos saber, fosse de política, história, ciência ou qualquer outro tema. Conhecia tudo do passado, do presente e até conseguia predizer o futuro!!! Foi ela que levou a nossa família pela primeira vez a um jogo de futebol e sabia fazer-nos rir ou chorar.

A Estranha nunca parava de falar e o meu pai não se importava. Mas a minha mãe levantava-se muito antes de nós, calada e metia-se na cozinha à procura de paz e tranquilidade (agora interrogo-me se ela terá rezado algum dia para que a Estranha se fosse embora), enquanto o resto de nós ficava a ouvir o que ela tinha para dizer.

O pai dirigia o nosso lar segundo certas convicções morais mas a Estranha nunca se sentia obrigada a cumpri-las. As blasfémias e os palavrões, por exemplo, não eram permitidos lá em casa… nem por nós, nem pelos amigos, nem por qualquer um que nos visitasse. Mas, a nossa visitante de longo prazo usava linguagem imprópria sem qualquer condicionamento, que às vezes até me queimava os ouvidos, fazia o meu pai retorcer-se na cadeira e a mãe corar de vergonha.

O pai nunca nos deu autorização para tomar álcool mas a Estranha animou-nos a experimentar e a beber com regularidade. Mais ainda, até fez com que o cigarro parecesse giro e inofensivo, e que os charutos e cachimbos fossem um símbolo de distinção. Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo e com comentários umas vezes evidentes, outras sugestivos e, geralmente, vergonhosos.

Agora sei que os meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante a minha adolescência, pela Estranha. Repetidas vezes a criticaram mas nunca fez caso dos valores de meus pais tendo, mesmo assim, permanecido no nosso lar.

Passaram mais de cinquenta anos desde que a Estranha veio para junto de nós, tendo mudado muito pois já não é tão fascinante como era no princípio. Não obstante, se hoje entrasse na casa de meus pais, ainda a encontrava sentada em seu canto esperando que alguém queira escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia…

Seu nome? Ah, seu nome…

Chamamos-lhe TELEVISÃO!!!

É isso mesmo, a Estranha chama-se TELEVISÃO!!!

Atualmente tem marido, a que vulgarmente chamam… COMPUTADOR. Também já lhes nasceu um filho a que deram o nome de… TELEMÓVEL e até se tornaram avós de uma criança batizada de… TABLET.

Agora, a Estranha tem uma família sua…

E a nossa, será que ainda existe?”

Cá por mim, dou a mão à palmatória porque já me apercebi há alguns anos dos erros que cometi ao aceitar essa Estranha em minha casa… sem regras. E, não só o fiz, como cheguei a convidar mais algumas irmãs suas… Mas ela só “fala, fala”, se não formos capazes de lhe “cortar a palavra”, sempre que necessário… O problema existe pela grande dificuldade que temos, não de lhe impor regras a ela mas de as impormos a nós próprios e aos nossos. E essas regras só têm possibilidades de vingar se começarem a ser cumpridas… por nós. Porque, sem o exemplo, como poderemos fazer para os nossos filhos as cumprirem?

Diz-se que o amor, mais do que o sangue, é o “cimento” que une os membros da família, sem o qual esta se desfaz. O diálogo e o fazer coisas juntos são componentes importantes desse “cimento”, pelo que devem ser usados com regularidade e sempre que necessário, para manter a capacidade de “colagem” e eliminar as “impurezas” que nele se intrometem. Num tempo em que a família tem tão pouco tempo para si, esses momentos, como as refeições e outros, têm de ser seus, sem que seja permitido a intromissão da Estranha, devendo ser “calada” e ceder o lugar e a primazia.

Seremos capazes de gerir o comando e manter o controle total sobre a Estranha para podermos ser donos das nossas vidas… e de termos verdadeiramente uma família?

Como não fazer… figura de parvo

“O reconhecimento da própria ignorância é a primeira prova de inteligência” dizia Santo Agostinho e o exercício dessa ignorância é a melhor manifestação de receptividade para assimilar toda a nova informação que chega ao nosso conhecimento.

A aprendizagem é constante e permanente, mesmo que não frequentemos a escola, porque a vida ensina-nos todos os dias, só temos de estar de mente aberta para aprender. E não temos que ter vergonha ou timidez de perguntar quando não sabemos, de questionar quando temos dúvidas.

Há muitos anos, depois de acabar o curso fui estagiar em Angola, tendo ficado alojado durante os três primeiros meses numa pensão, quase em frente do mercado de S. Paulo em Luanda. Apesar de estar hospedado com “pensão completa” e até ter um bom serviço de restaurante (se não considerar os enxames de moscas que o acompanhava), ao outro dia da chegada a minha curiosidade levou-me ao mercado e comprei todo o tipo de fruta tropical como a anona, o abacate, a fruta pinha, o caju, a manga e outras, para ficar a conhecer tudo de uma assentada. De saco cheio, fui para o quarto e provei-as uma a uma, gostando mais de umas que de outras. Quando cheguei ao abacate, tirei-lhe a “casca” e meti na boca uma colherada da polpa esverdeada mas, como não me soube bem, pensei para comigo que não deveria ser aquela parte que se comia. Com a faca retirei toda essa polpa e ficou uma bola castanha e dura, quase do tamanho de uma bola de ténis. “Deve ser isto que se come” pensei eu e, zás, dei-lhe uma dentada. Os maxilares até abanaram e os dentes iam ficando agarrados ao caroço… Seguramente, não era essa a parte comestível. Deitei tudo no lixo e só alguns dias depois, quando à sobremesa serviram a polpa esmagada com açúcar e sumo de limão, é que fiquei a saber qual a parte comestível do abacate e como prepará-la… Mas podia ter perguntado a quem sabia e não o fiz por… timidez.

Aliás, o mesmo me aconteceu na primeira viagem que fiz a Nova Iorque com o meu pai, nos anos setenta. Ficamos hospedados no centro da cidade junto à célebre Times Square e, pela manhã, fomos tomar o pequeno almoço ali perto. Um dos símbolos americanos que os filmes me tinham “vendido” e que queria experimentar, eram as panquecas, até então desconhecidas entre nós. Ora, ao estar ali, tinha de prova-las, de saber se eram assim tão boas como pareciam, pois eram um mito que me fascinava. Por isso, coloquei logo três no prato. Que desilusão, não sabiam a nada, eram quase insípidas… Só vi no dia seguinte os clientes a cobrirem as panquecas com uma das muitas variedades de molho ou cobertura… Porque não perguntei como era? Por… timidez e vergonha. É curioso que hoje, quarenta anos depois, o meu filho sempre que vai a algum lado e quer experimentar qualquer coisa que não conhece, apresenta-se como um “iniciado” e pede ajuda e conselho, rigorosamente o oposto do que eu fiz. Quem está certo? É bom de ver…

Também há quem, para esconder a sua ignorância, mantenha essa atitude de não perguntar, de não questionar. É que, enquanto mantivermos a boca fechada, damos um ar de entendidos. O problema é quando a abrimos… Já os jovens, mal aprendem algumas coisas julgam logo que sabem tudo. E os velhos? Estão ultrapassados, só fazem figuras tristes…

O pai da doutora Isabel (já falei dele a propósito de uma laranja que não foi descascada por falta de… unhas do empregado) era um industrial de Lordelo que se “fez a si próprio” e que, apesar de ter a quarta classe e falar só português, correu o mundo e fez negócios em muitos países, sabendo sempre desenrascar-se sozinho.

Um dos prazeres que gostava de usufruir quando ia à Alemanha, mais concretamente a Frankfurt, era comer perna de porco num determinado restaurante da cidade, cozinhada daquela maneira que só os alemães sabem. Depois do filho se formar, acompanhou-o numa dessas viagens à feira de Frankfurt e foram ambos almoçar ao tal restaurante. Quando se preparava para pedir a perna de porco – e costumava fazê-lo apontando somente ao empregado uma das mesas vizinhas onde estivessem a servir esse prato – o filho disse-lhe que não o fizesse pois “parecia mal” e, como ele estava ali e falava alemão, faria a encomenda. Ora, quando o empregado lhe entregou a ementa em alemão, deu-lhe voltas e mais voltas mas não conseguiu perceber nada, nem sequer identificar o prato que iam comer. Fez sinal ao empregado e falou em alemão (ou naquilo que ele julgava ser alemão) mas, nada, ele não percebeu. Tentou em inglês mas continuaram sem se entenderem pois ele só falava alemão. Ao ver que assim não iam a lado nenhum, o pai disse-lhe: “Deixa estar que eu já desenrasco isto”. Fez sinal ao empregado para se aproximar e olhou as mesas em volta como era costume mas, a maior parte dos clientes ou já tinha ido embora ou estava na sobremesa, pelo que não podia usar o método habitual. Então, chamando a atenção do empregado, deu duas palmadas na perna e disse “Grr, Grr. Grr”, imitando o grunhido de um porco. Certo, certo, é que não tiveram de esperar muito para lhes ser servida a tradicional perna de porco…

Um acaso chamado… David

Há quem diga que “o acaso é o grande mestre das coisas” e foi nessa linha de pensamento que La Rochefoucauld se manifestou ao afirmar que “apesar dos homens se gabarem dos seus grandes feitos, estes não são, a maior parte das vezes, resultado de grandes desígnios mas tão somente do acaso”. Para o confirmar, podia citar um rol de acontecimentos acidentais que originaram produtos e empresas de grande sucesso.

Em contraponto, há quem entenda que nada acontece por acaso, que tudo tem um sentido e que a maioria das invenções, das grandes ideias e descobertas foram conseguidas à custa de muito esforço, pesquisa e trabalho. Que não existe a sorte, pois há um significado por detrás de cada ato. Thomas Edison dizia mesmo que “a maioria das descobertas são resultado de 99% de trabalho duro e só 1% de genialidade” o que, com o “somente aqueles que nada esperam do acaso são donos do destino”, secundariza a sua importância.

Mas existe uma filosofia intermédia que reconhece a importância dos acasos quando estes encontram o observador certo. Daí a afirmação de Pasteur: “Os acasos só favorecem os espíritos preparados”. Assim, o sucesso dos acasos só é possível se encontrar quem se saiba aproveitar deles, até porque há uma componente aleatória no processo da descoberta e as pessoas devem estar atentas a todo o instante para reconhecer uma coisa nova. Como em tudo na vida, dos negócios às iniciativas, apesar do trabalho e preparação que é exigível, também é necessária a sorte, embora seja preciso saber aproveitar a oportunidade sempre que ela se ofereça.

E toda esta “filosofia” vem a propósito da forma como surgiram os desportos motorizados e a pista da Costilha em Lousada. Tendo eu sido o “culpado” (para o bem e para o mal) e como ainda estou cá para o contar, é melhor escrever a história porque pode ser mais um contributo para a teoria do acaso…

Fui presidente da Associação de Cultura Musical de Lousada (ACML) “empurrado” pelo meu amigo Jaime Moura que se quis libertar do “fardo” logo no final do mandato. Fundada três anos antes pelo Paulo Cunha para salvar a Banda de Lousada, tinha nesta um “buraco negro orçamental” com grandes prejuízos anuais. A minha função principal era “inventar” receitas para conter tal “buraco”, o que não era nada fácil. Assim, organizamos bailes, provas de perícia, gincanas, tiro aos pratos e outros eventos, tudo o que pudesse gerar alguns “patacos”. No final do mandato só consegui arranjar quem me substituísse na liderança da ACML na condição de me manter na direção com o objetivo principal de continuar a organizar eventos e “cavar” massa para “dar de comer ao prejuízo”. Mas, na verdade, cada organização não rendia mais que dez a vinte contos, muito pouco para quem precisava de tapar um “buraco” sempre superior a trezentos, o que nos obrigava a multiplicar as iniciativas.

Já levava quatro anos destas andanças pela ACML quando um dia tive um problema elétrico no carro e fui à Gatel, uma oficina auto à saída da Vila. Enquanto o senhor David procedia à reparação, fiquei por ali à espera e fomos conversando, o que ele gostava de fazer. Entre outras coisas falamos da ACML e, ás tantas, disse-me: “O senhor anda a organizar provas de perícia e de tiro aos pratos para arranjar dinheiro à Associação mas, para além de muito trabalho e chatices, com certeza não lhe dão grande resultado. Se quiser mesmo fazer massa a sério, organize provas de motocrosse. Isso, sim, vale a pena.” –Oh senhor David, como é que o senhor sabe disso? E ele foi pronto na resposta: “Porque foi assim que em Guilhufe arranjaram dinheiro para a obra paroquial e só pararam porque morreu um espectador numa das corridas. Mas que aquilo dá muita massa, não tenha dúvidas”.

O “acaso” esbarrara comigo e, não sendo eu um especialista na modalidade, havia uma coisa nas palavras do senhor David que vinha de encontro à minha necessidade, isto é, às necessidades da ACML: Dinheiro. Saí da oficina a pensar no que ele me dissera e dei comigo a dar voltas à vila à procura dum terreno onde fosse possível criar uma pista de motocrosse. Acabei por parar diante de uma mata onde ocorrera um incêndio recente e por isso tinha sofrido “corte raso” das árvores, deixando “a nu” um relevo muito acidentado e com uma pequena linha de água a atravessá-lo, o que me pareceu excelente. Numa entrada da Vila, com excelente localização e bons acessos, era mesmo aquilo que eu procurava. Estava diante da mata da Costilha e acontecera o segundo “acaso”.

Dali fui de imediato à procura do Jaime Moura para lhe cobrar o favor que me ficara a dever quando me convenceu a substitui-lo na ACML. E, claro, aceitou “pagar a dívida” aderindo àquilo que se tornaria numa grande aventura, um ciclo vertiginoso de eventos desportivos que começaram com as motas e evoluíram para os automóveis e não só, num crescendo incrível que nos proporcionou espetáculos desportivos, nacionais e internacionais, memoráveis (e que continuam…). Certo é que, o “acaso” daquela conversa (a que se juntou depois muito, muito trabalho de tanta gente, na sua maioria, anónimos) resolveu por completo os problemas financeiros da ACML… até rompermos com a direção desta por… um outro “acaso” (ou talvez não), fazendo nascer o Clube Automóvel de Lousada.

Nesta crónica “ao acaso”, por mero acaso sobre a “teoria dos acasos”, fica-me uma dúvida: Será que o “acaso” pelo qual ainda hoje se ouvem “roncar os motores” lá para as bandas da Costilha é fruto de um “acaso” que me usou para os seus fins ou terei sido eu a aproveitar um “acaso” chamado… David?

Somos o que somos… dentro do carro

A senhora tirou o carro da garagem e rumou ao hospital que ficava à “grande” distância de… duzentos metros. Como não encontrou lugar para estacionar, foi dando voltas e mais voltas até que acabou por o arrumar “bem perto” do hospital, isto é, a cerca de … trezentos metros. Dali foi a pé à consulta e, quando regressou à viatura, tinha à sua espera, num gesto “simpático” do agente da autoridade, uma… multa por estacionamento em local proibido, provocando-lhe uma onda de revolta contra o agente e contra o hospital, os “bodes expiatórios” que tinha mais à mão para descarregar a sua própria frustração.

Ao saber deste caso somos capazes de rir e gozar com a protagonista que, não querendo andar a pé duzentos metros, acabou por percorrer quase trezentos, perdeu tempo, dinheiro e ainda levou com uma multa em cima. Não é burrice?

Mas, antes de atirarmos pedras ao seu “telhado”, sejamos capazes de olhar para nós, para os “nossos telhado de vidro” nesta dependência quase obsessiva do automóvel, que nos faz (também) fazer a mesma figura de parvos, umas vezes por comodismo, outras por vaidade, outras por falta de educação e civismo.

O automóvel em si é uma boa invenção, é útil e um excelente meio de transporte se usado com racionalidade. Mas, a verdade é que se torna facilmente numa espécie de droga que nos provoca habituação e dependência, de tal forma que não conseguimos andar cinquenta metros sem pormos o “rabo no assento”. Quantos não fazem isso, tantas vezes inconscientemente, sem nos apercebermos que ao querer chegar um pouco mais adiante podemos já não encontrar local para estacionar?

Com a multiplicação de marcas e modelos, bem cedo deixou de ser um simples meio de transporte para se transformar numa forma de ostentação, uma feira de vaidades quando não com manifestações de arrogância, arma perigosa se em mãos inconscientes. Mas, enquanto meio de transporte favorito da maioria, permite-nos conhecer o nível de educação, respeito e cultura de quem o usa.

Junto do Hospital de Lousada todos os dias assistimos às mais diversas manifestações de civismo (ou melhor, da falta dele), sendo precisamente o estacionamento “selvagem” aquele em que tal se revela com maior frequência. Existe bastante gente que ali chega para aceder ao Hospital ou ao Centro de Saúde e, sem qualquer respeito por quem quer que seja, estaciona em frente dos acessos, em cima dos passeios, das passadeiras, nos lugares reservados a pessoas com deficiência, em segunda fila ou no meio da rua como se esta lhe pertencesse. Não adiantam os sinais de “estacionamento proibido”, “paragem proibida” e outros, porque não conseguem vê-los (aliás, não os querem ver). Há dias houve um que teve a “lata” de parar em plena rotunda, fechar o carro e “ir à sua vida”, obstruindo por completo a via de circulação e impedindo o trânsito como se nada fosse.

Às vezes até desejo que lhes aparecesse alguém como aquele meu amigo que um dia ia de automóvel numa rua estreita de Lousada quando encontrou um carro “novinho em folha” parado e com o condutor lá dentro, a bloquear a via. Esperou dando tempo ao motorista para se aperceber da sua presença e pôr o carro em movimento mas, nada. Não vendo uma coisa nem outra, buzinou mas de dentro da viatura não houve qualquer reação pelo que, instantes depois, voltou a buzinar. Então, sim, o condutor baixou o vidro, pôs o braço de fora e acenou como quem diz “passa por cima”. Temperamental e impulsivo como é, o meu amigo não esteve com meias medidas: Engatou o carro em primeira, acelerou e acertou em cheio na traseira do automóvel “novinho em folha”. De lá saiu o condutor com as mãos na cabeça, a gritar: “Ai o meu rico carro. O que é que você fez…”. E ouviu a resposta certa: “Você fez-me sinal para lhe passar por cima e eu tentei, mas não consegui”…

O que mais choca é que, quase todos os condutores que vão ao Centro de Saúde ou ao Hospital não são doentes, só meros acompanhantes ou motoristas com tempo mais que suficiente para deixar o doente na entrada e ir estacionar em local adequado. Mas não, por vontade deles entravam com o carro pelas instalações dentro até ao consultório do médico. Ora, esse desejo deu-me uma ideia para resolver lhes resolver o problema: “Se Maomé não vai à montanha, porque não vai a montanha a Maomé”? Ou seja, se não se pode entrar pelo consultório dentro com o carro, porque não fazer com que os profissionais de saúde atendam os doentes dentro do carro como nalguns restaurantes de “serviço para fora” em que o cliente é atendido sem sair do viatura? Claro que os doentes tinham de fazer uma ginástica excepcional sobretudo quando o médico precisasse de observar certas partes… Já para apanhar injeções era tudo muito mais fácil pois a enfermeira podia estar junto à passadeira com o material preparado e, como os doentes vão ao lado do condutor, um pouco antes desciam o vidro e as calças, encostavam o rabo à janela e só paravam o tempo necessário para lhe espetarem a agulha, apertar a seringa e dar uma esfregadela. E venha o seguinte…

Mas, enquanto não se implementa este “tipo de atendimento”, seria bom que cada um assumisse as suas responsabilidades cívicas e se mentalizasse que “a sua liberdade termina onde começa a liberdade dos outros”…

O que importa mais, o destino ou o caminho?

Já fui jogador de hóquei em campo em Lousada, se bem que o meu desempenho como tal não tenha sido brilhante. Era mais um para fazer número, dar umas corridas e divertir-me, pois nem o jeito nem o pesado stick foram dignos de nota.

Por lá andei alguns anos nos primórdios da modalidade no concelho, quando as condições para jogar eram tão limitadas como eu enquanto jogador. Mesmo assim, quando soube que o campeonato da Europa ia decorrer em Madrid, decidi ir ver como se jogava a sério, sendo acompanhado nessa viagem pelo Quim e o pai, além do Artur. Difícil foi convencer o primeiro porque, dizia ele, tinha muito que fazer, não podia perder tempo e não era oportuno. Sendo empresário têxtil, estava empenhado também num projeto de hotelaria que o ocupava muito, para além de pensar que devia esperar pela reforma para poder usufruir das coisas de que gostava. Mas, um pouco a custo, lá foi connosco.

Saímos de Lousada num sábado de manhã, bem cedo, para tentar assistir a algum dos jogos desse dia. Apesar de não existirem as autoestradas de hoje, conseguimos chegar ao Real Club Hípico no início da tarde e ficamos “de boca aberta” ao entrar nas instalações desportivas onde se realizava a prova, especialmente pelo relvado imenso com vários campos marcados e onde se jogava em simultâneo. Para quem só tinha campos de terra batida (alguns deles que mais pareciam batatais em dia de chuva), onde o importante era conseguir acertar na bola e dar “varadas” fortes, aquilo era um sonho. A bola deslizava de jogador para jogador com segurança de passe e certeza na sua recepção, parecendo tudo muito fácil.

Ainda vimos alguns jogos e, nessa noite, dormimos os quatro dentro do carro “enfiados” num parque de estacionamento subterrâneo, porque estávamos “formatados” para poupar… No dia seguinte, depois de nos “maravilharmos” com os últimos jogos, seguimos para o Escorial, cansados e a precisar de um bom banho, pelo que esquecemos o carro como “alojamento” e já não abdicamos de hotel nessa noite.

Depois de refrescados, eu e o Quim sentamo-nos na recepção do hotel, observando o movimento da entrada. Às tantas, parou um autocarro e começaram a sair turistas americanos de idade avançada, amparados em bengalas ou uns nos outros, manifestando grandes dificuldades de mobilidade. O Quim ficou concentrado e em silêncio, assistindo ao “desfile” do grupo de turistas em “mau estado” e, depois, com o ar de quem tinha feito uma grande descoberta, disse-me: “Oh Zé, ando eu a trabalhar e a juntar dinheiro para, quando for velho, poder viajar e fazer o que me agradar… E depois vou fazer a figura que “estes” fazem? “Estes”, se tivessem juízo, ficavam em casa à lareira, “a sopas e descanso…”

Certo é que, o impacto que lhe provocou a imagem daquele cortejo de idosos com evidentes dificuldades no andar, no equilíbrio e na incapacidade de poderem beneficiar em pleno da sua condição de turistas, lhe mudou radicalmente a maneira de pensar e de viver, passando a colocar a tónica da sua vida muito mais no Hoje, no aproveitar as oportunidade de cada dia.

Há quem pense que ainda não pode viver uma vida de verdade porque tem um qualquer obstáculo no caminho, um trabalho ou um projeto por terminar, uma promoção a alcançar, quer atingir a estabilidade económica ou por não ser o momento oportuno. Que só depois é que a vida de verdade começa, só mais tarde é que pode gozar das benesses e das belezas da vida como se entretanto vivesse no limbo ou numa pré vida, isto é, numa vida antes da vida. Puro engano, porque todos esses e outros obstáculos fazem parte da vida de verdade, porque ESTA é a nossa vida e não teremos outra..

A Vida não é um destino, onde importa chegar de qualquer jeito, mas sim uma viagem. Há que saber apreciar a “paisagem” e o “espetáculo” que, minuto a minuto essa viagem nos oferece, porque cada momento é irrepetível.

Confesso que houve um tempo em que também “adiei” a minha como se me estivesse a guardar para usufruir mais tarde das coisas boas que ela nos proporciona, como uma prenda final ao fim de anos de sacrifício e de trabalho. Pouco a pouco fui aprendendo a libertar-me desses princípios, enraizados em mim por questões culturais e pelos condicionalismos do tempo em que fui criança. Sim, porque eu, como o Quim, vivemos a infância num tempo muito difícil que nos marcou profundamente.

Todos somos fortemente condicionados por ressentimentos que carregamos do Passado e pela ansiedade em relação ao Futuro, mas só conseguimos viver o Presente, o Hoje, porque é só no Hoje que podemos apreciar o bom, o belo, o maravilhoso. Saibamos aproveitá-lo e encontrar nele aquilo que nos dá prazer e alegria. Porque a vida está aqui, não está lá atrás nem para lá do Sol…

Seremos mesmo borlistas?

Na minha adolescência gozei algumas férias de verão em casa do meu primo Albino, em Matosinhos, ocupando o tempo na praia. Ao Porto ia uma ou outra vez porque o dinheiro era pouco e não podia desperdiça-lo em transportes. Por isso, invejava os miúdos da cidade que viajavam à borla pendurados no elétrico, apesar de nas paragens o revisor os fazer saltar. Mas, mal o elétrico retomava a sua marcha, com uma pequena corrida voltavam a agarrar a boleia…

Fui borlista anos depois num Arraial Minhoto organizado na Adega Cooperativa de Lousada, tendo entrado pela porta do fundo com um grupo de amigos ajudados por um funcionário, já que não tínhamos dinheiro para o bilhete.

Os “borlistas” ou “penduras”, são pessoas que querem viajar, assistir a um espetáculo ou participar no que quer que seja, sem pagar. Para muitos, conseguir fazê-lo “à borla” é, só por si, um prazer redobrado.

Quem visita Itália e viaja em transportes urbanos numa qualquer cidade, encontra com certa frequência no interior dos autocarros, cartazes com a indicação expressa de que os “portugueses” apanhados sem bilhete serão severamente multados.

Para qualquer bom lusitano, isto de referir tão claramente os “portugueses” é, no mínimo, discriminatório. Foi também assim que o entendeu um cônsul de Portugal em Milão e, por isso mesmo, protestou e acusou o Município de Vincenza de ter declarado guerra aos portugueses de forma ostensiva. No entanto, o nosso “D. Quixote” esqueceu-se de esclarecer antecipadamente a situação e acabou por “ficar mal na fotografia” quando lhe disseram que “portugueses” significa “borlistas” em italiano e não tem qualquer conotação connosco.

Pertenci ao grupo que fundou e arrancou com o Clube Automóvel de Lousada e uma das muitas responsabilidades que assumi foi organizar a segurança, vigilância e controle de entradas. Tinha a difícil tarefa de tentar reduzir ao mínimo o número de “borlistas” tendo em conta que, para assegurar a sustentabilidade do clube, era importante que todos pagassem, o que não era nada fácil. Normalmente o sistema de segurança e vigilância era feito com o recurso a elementos da GNR e de uma empresa de segurança, que colocava na periferia do circuito de forma intercalada para maior eficácia. Mas nem sempre funcionou pois cheguei a encontrar homens da empresa de segurança sentados na bancada a ver a prova, longe do local onde deveriam estar, a darem a mão a “penetras” para lhes facilitar a borla, a fazerem sinais indicativos da forma como, quando e onde deviam “furar”, etc., etc..

Criei múltiplos esquemas para impedir que fosse possível passar sem bilhete ou convite, mudei cartões e métodos de controle e organização, mas vinha sempre a detetar insuficiências ou falhas face a novos estratagemas imaginados pelos “borlistas” que apresentavam todo o tipo de cartões, uns legais mas de entidades e instituições que nada tinham a ver connosco, e outros falsificados de forma grosseira ou com técnica apurada. Havia de tudo.

Um dia recebi uma chamada telefónica de um conterrâneo a trabalhar em Lisboa. Esteve mais de meia hora ao telefone a tentar convencer-me. Por ser natural de Lousada achava que tinha o direito “natural” de ser convidado. Num tempo em que as chamadas de Lisboa eram caras, gastou mais dinheiro no telefonema do que na aquisição do bilhete. Só agora, há distância de décadas, é que me apercebi que deve ter usado o telefone da empresa e, por isso, usou uma borla para tentar outra borla…

Dias depois de uma prova europeia pessoa amiga confessou-me que tinha ido, gostara muito e até entrara sem pagar. “Como? Já agora, diga-me lá como conseguiu ” pedi-lhe. E ele contou.

Nesse domingo apareceu-lhe em casa um amigo que já não via há muito tempo, convidando-o para ir à corrida. Sem suspeitar do que iria acontecer, aceitou acompanhá-lo pois era uma forma de estar com ele e apreciar o evento. O amigo era deficiente motor e conduzia um carro adaptado, que levou até à entrada do parque reservado à organização, só acessível aos possuidores de determinados cartões. Ao chegar sem qualquer tipo de identificação, fez um sinal enérgico com a cabeça aos seguranças como quem diz, “abram”. E eles, simplesmente, abriram e deixaram-nos entrar…

Mas, os maiores “borlistas” eram sempre alguns detentores de um ou outro “poder” que, usando e abusando desse mesmo “poder”, “pediam” convites para os filhos, os amigos dos seus filhos e outros “seus”, com uma desfaçatez que nem dava para acreditar…

Dizia uma mãe dinamarquesa: “Posso até andar de comboio sem bilhete, mas nunca o faria com os meus filhos. Não posso dar azo a que aprendam coisas erradas comigo”. Ao que parece, somos diferentes, muito diferentes. É tudo uma questão cultural…

Agora que o Rali de Portugal volta à pista da Costilha para repetir a Superespecial que desenhei há cerca de duas décadas perante a incredibilidade do meu amigo Jaime Moura (só acreditou depois de percorrermos a pé todo o traçado), seria bom que todos os espectadores ajudassem o CAL e a organização pagando a sua entrada, para que a prova seja sustentável cá no Norte. Mas, infelizmente, nem a questão cultural se alterou nem a situação económica geral “dá a mão” pelo que, os homens do CAL, vão ter de “fazer pela vida” na “caça aos borlistas”, a começar desde já…

Estaremos “surdos como uma porta”?

O descritivo de uma das faturas que quase todos temos de pagar depois de ultrapassarmos a idade da reforma, diz: “perda de audição”. O povo acha que tal se deve ao PDI (e abstenho-me de escrever por extenso o significado de tal sigla). Como me parece que o “cobrador” da minha fatura já deve vir a caminho, decidi fazer um exame, aquilo a que os médicos chamam de audiograma. Para tal, colocaram-me uns auscultadores nos ouvidos e, quando esperava ouvir uma música dos Beatles – que ainda considero uma referência – só senti uns silvos mais ou menos agudos, e nem sempre com grande nitidez. O resultado foi o que esperava: Não estou “surdo como uma porta” mas as minhas faculdades auditivas já tiveram melhores dias… Depois de receber o relatório com os resultados, recordei-me de uma história/anedota muito curiosa, que partilho.

Um cientista quis fazer um estudo sobre o comportamento das pulgas. Colocou uma sentada sobre a mesa de ensaio e ordenou-lhe: “Salta”. E a pulga saltou. Então, cortou-lhe uma perna, colocou-a novamente na mesa e voltou a ordenar: “Salta”. A pulga saltou de imediato. Agarrou na pulga e cortou-lhe uma segunda perna, dando-lhe nova ordem: “Salta”. E, para sua surpresa, a pulga saltou outra vez. Em cada fase do ensaio o cientista parava e tomava notas no caderno de apontamentos para mais tarde fazer um relatório do estudo e, a cada perna que cortava, repetia a ordem e a pulga continuava a saltar. Até que cortou a última e mais uma vez ordenou : “Salta”. Para seu espanto, dessa vez a pulga manteve-se quieta. Ao ver que ela não reagiu ficou empolgado mas, querendo confirmar a experiência, repetiu a ordem: “Salta”. Mas ela manteve-se no lugar. Entusiasmado perante tal situação, ficou a meditar durante algum tempo sobre o que observara até chegar a uma conclusão, que escreveu no seu relatório: “A pulga, quando amputada de todas as suas pernas, perde por completo a faculdade auditiva, isto é, fica surda que nem uma porta”.

Quando li esta história/anedota, sorri perante o seu desfecho invulgar, com o “cientista” a chegar a uma conclusão absurda e disse cá para mim que isto só poderia acontecer nas anedotas… Mas, pensando bem, na vida real muitas vezes tropeçamos com casos bem absurdos… Vejamos.

É sabido que os músicos que faziam parte da banda da Associação de Cultura Musical de Lousada (ACML) saíram desta em 2012, uma opção legítima como a de qualquer prestador de serviços que não quer continuar a servir a entidade patronal, se bem que a forma e a razão invocada deixam muito a desejar e em nada os prestigia. Entretanto, o auto intitulado “grupo de dissidentes” criou uma nova associação e uma nova banda só que, ao mudar-se para a nova coletividade, “carregou” consigo as fardas, instrumentos musicais e três viaturas que são pertença da ACML, como se de bens pessoais se tratasse… Apesar das solicitações da direção da ACML, a verdade é que nada do que lhe pertencia foi devolvido. Minto, tempos depois uma das viaturas “apareceu” junto da sede e as chaves na caixa do correio, se bem que a viatura estivesse… avariada.

Perante este cenário e para recuperar a posse dos outros carros, a direção resolveu recorrer à justiça e, sem surpresa para muita gente, o processo já se arrasta pelo tribunal à cerca de dois anos apesar das viaturas estarem registadas a favor da ACML, o que facilmente é comprovável pelo livrete e registo de propriedade, sem que aqueles que as retêm tenham qualquer documento legal que lhes confira legitimidade para o fazer. Ao que se sabe, a cada decisão do juiz sucede-se um recurso, o subterfúgio legal para arrastar o processo no tempo, talvez à espera que as viaturas caiam de podres quando forem entregues ao seu legítimo dono…

Segundo responsáveis da ACML, houve uma decisão no sentido das viaturas serem devolvidas a esta mas, de imediato foi interposto recurso para que só fossem entregues as chaves e respetivos livretes, mas não as viaturas. Do lado da associação acharam que isso era um absurdo, algo que nunca iria acontecer. Mas, não é que o recurso foi aceite e a direção da ACML já pode levantar as CHAVES e os LIVRETES? Finalmente!!! Mas as viaturas, NÃO…

Já estou a ver o filme. Quando os diretores, alunos ou professores tiverem de ir a algum lado, juntam-se na entrada da sede, metem-se dentro do Livrete, o que fizer de motorista enfia as Chaves “no buraco mais à mão” e lá vão felizes e contentes estrada fora…

Absurdos à parte, o bom senso mandaria que houvesse um diálogo sério entre as partes, extra judicial, para que os subsídios que os poderes públicos atribuem às duas coletividades não sejam estupidamente esbanjados, neste e noutro processo a decorrer. Porque, imagino eu, não é essa a intenção de quem atribui os subsídios…

Ou será que perderam a audição e estão “surdos como uma porta”, tal e qual a pulga?

Quem sabe, sabe. Quem não sabe…

Há alguns anos, um amigo disse-me, muito satisfeito, que tinha comprado um lote de estantes industriais em Alcobaça no leilão de uma fábrica falida, por vinte por cento do valor de mercado. “Parabéns”. Mas ele continuou: “No entanto, está lá um lote de vidros por vender, que aquilo é que é negócio!!! Você é que podia fazer uma oferta”. – Eu? Não percebo de vidros…

Ao longo dessa tarde foi insistindo para me candidatar à compra de tais artigos, coisa que não valorizei porque não era a minha atividade e não percebia nada da matéria.

Uns dias depois telefonou-me a perguntar se estava disponível para o acompanhar, pois tinha o pessoal a desmontar as estantes e queria ver como decorriam os trabalhos. Como estava livre aceitei o convite e lá fomos. Quando chegamos, os empregados estavam a desmontar as estantes, tendo de usar um empilhador para retirar as muitas paletes de caixas com artigos de vidro, como copos, taças, jarros, jarrões, queijeiras, galheteiros, etc., etc.. Em cima de várias paletes que estavam no chão viam-se amostras do seu conteúdo, muitas delas bastante apelativas. Enquanto dava uma volta pelo interior da fábrica repleta de material, imaginei que seriam precisos para aí quatro ou cinco camiões semi-reboques para carregar tudo aquilo, mas continuei como simples turista a vaguear por ali, enquanto ele conversava com os homens.

Pouco depois chegou o leiloeiro e o meu amigo cuidou de fazer as apresentações para, de imediato, insistir na tecla: “Faça uma oferta”. – Eu? Nem pense nisso, respondi-lhe. Durante duas horas andou à minha volta a insistir, a insistir, para apresentar uma proposta, o que continuei a recusar. Às tantas, para minha surpresa, voltou ao ataque com um argumento adicional: “Ofereça lá que eu também entro no negócio”. E, sem saber bem como, dei comigo a propor um valor ao leiloeiro, muito mais baixo do que aquilo que estava a pedir. Respondeu-me que era pouco mas que ia falar com o responsável e me daria a resposta depois. Viemos embora e esqueci-me do caso. Três dias depois, recebi um telefonema do leiloeiro: “O lote de vidros é seu”. Foi como se uma bomba me tivesse caído aos pés e eu ficasse sem saber o que fazer. “E agora? Que raio vou fazer aos vidros?” Desistir estava fora de questão, pois tinha feito a proposta e era a minha palavra que estava em causa. E ainda lhe dou o valor devido…

Como a “criança” me caiu nos braços, não havia volta a dar. Para trazer o material de Alcobaça eram precisos camiões, pelo que contratei uma empresa de transportes. Mas era necessário ir a Alcobaça organizar e preparar as paletes, endireitar as caixas e embalá-las com filme de plástico para não se alagarem, pois tinham quase dois metros de altura. E fui para lá com várias pessoas, dias seguidos, com rolos e rolos de filme, de fita adesiva, de luvas, de tesouras e outras ferramentas, embalando, encaixotando, amarrando, organizando, movimentando de um lado para o outro, para o que foi necessário alugar um porta paletes, para além de um empilhador para carregar na fábrica e um outro para descarregar em Lousada. E, dias e dias seguidos, foi essa a minha vida, até retirar todo o material. Não foram quatro ou cinco camiões como eu previa, não foram oito nem dez, nem quinze, nem vinte. No final, carregamos vinte e três daqueles camiões compridos, atulhados de paletes… Uma loucura.

E local para guardar tais artigos? Tinha dois pequenos armazéns que depressa ficaram cheios. Um amigo emprestou-me um outro de mil metros quadrados mas foi insuficiente, acabando por me ceder mais um de quinhentos… Ao fim de dois meses, tinha tudo organizado, empilhado, ordenado. Se colocasse as paletes umas a seguir às outras a fila teria mais de um quilómetro de comprimento…

E a partir daí? Como e a quem vender mais de um milhão e seiscentas peças de vidro? Eu não tinha disponibilidade (nem sabia) para tratar diretamente deste negócio. Arranjei um vendedor mas não conseguiu vender nada, não era a sua especialidade… A Teresa, lá no escritório, foi-me dizendo: “Hoje vendi uma dúzia de copos”. – Boa, grande “rombo” no armazém…

Ao fim de oito meses tomei a decisão de vender tudo em conjunto e por qualquer preço porque, aquilo que era suposto ser um negócio, virou problema. E vendi, mas não me perguntem pelos resultados…

Sem qualquer vontade de me meter no negócio, a verdade é que acabei por me envolver nele e a lição ficou: Devemos dedicar-nos àquilo de que percebemos caso contrário, dá buraco.

Costuma ser comum que, quem tem sucesso numa determinada atividade, muitas vezes acaba por se autoconvencer que pode também atingir o êxito em qualquer outra, mesmo que não perceba nada da matéria. A verdade é que todos os negócios exigem conhecimento do mercado e domínio dos produtos, para além das especificidades, os pormenores, que tantas vezes são aquilo que faz a diferença entre o sucesso e o fracasso. Querer ignorar isso é meio caminho andado para o “fiasco”. E eu que o diga…