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As semelhanças entre (des)iguais…

Vem aí o dia quatro de Outubro. Ao que parece, vamos ter dois grandes eventos nacionais no mesmo dia (há defensores dos dois lados de que um é mais importante do que o outro): Eleições e jogos da Liga ou seja, Política e Futebol. Ora estava para aqui “a pensar com os meus botões” que estas duas coisas, aparentemente muito diferentes, na prática têm tanto em comum que até parecem ser “farinha do mesmo saco”. Vamos colocar-nos de fora, à distância, para observar e ver estes dois “gêmeos” que arrastam multidões, suscitam paixões, movimentam milhões, se pintam de cores, incitam sentimentos díspares e geram vencidos e vencedores.

Encontramos nos estádios (e na rua) os adeptos do futebol vestidos com as camisolas e cores do clube, fazendo uma algazarra danada com buzinas, apitos, bombos e todo o tipo de instrumentos ruidosos e, com o mesmo aparato, os militantes dos partidos nos comícios (e na rua) produzem o mesmo “folclore”, cada um deles com as suas frases de incitamento, as suas bandeiras, os seus slogans, os seus insultos, os seus cânticos e hinos de glorificação que reproduzem nas redes sociais, a sua “diarreia verbal”. Uns e outros, transformam homens simples, jogadores e políticos, em ídolos, heróis e santos, que idolatram e, se lhes for dada oportunidade, carregam às costas como se de deuses se tratasse. Andam em rebanhos como carneiros, incitando-se e protegendo-se mutuamente porque a força do “grito” ou do insulto é sempre mais violenta “à molhada”, em claques organizadas. É certo que a paixão do adepto de futebol ajuda e incentiva os jogadores e, consequentemente, o clube, mas não tem poder sobre o resultado final, enquanto nas eleições, a paixão dos militantes, as ações e manifestações, exercem influência no campeonato eleitoral…

Já alguém comparou os três partidos do “Arco do Poder”, PS, PSD e CDS, aos três “grandes” do futebol em Portugal, Benfica, Porto e Sporting, sendo este comparado ao CDS nas reduzidas possibilidades de chegar ao poder, o mesmo é dizer, a campeão.

Comum à política e ao futebol é aquilo de que tanto se fala “à boca pequena”, que todos sabem que existe: CORRUPÇÃO. Um tema em destaque nos últimos tempos num e noutro “campo” e que não dá sinais de abrandamento. Mas também existe uma palavra que repassa pelos dois lados com frequência, aliás, demasiada frequência: LADRÃO… Ora, se as palavras corrupção e ladrão são comuns tanto na política como no futebol, há a certeza que em seu redor existe um “lubrificante” especial que circula em grande quantidade, na casa dos milhões (não, não são milhões de adeptos ou de militantes), daquilo que o povo diz ser “com que se compra os melões”: DINHEIRO… E a chatice é que o dinheiro é uma tentação para “o mais pintado”…

No futebol é vulgar os dirigentes contratarem jogadores “à revelia” do treinador, tantas vezes por razões inexplicáveis, ficando este com a obrigação de os “encaixar” na equipa. Ora na política, quantos governantes não têm de “engolir” a contragosto inúmeras “avécolas” que não passam de “zeros à esquerda”, mas que lhes são “impostos” pela “máquina” do partido a que devem obediência? Também é sabido que os políticos gastam demasiado dinheiro no curto prazo, pondo em causa a sustentabilidade da freguesia, da cidade ou do país, só para ajudar a ganhar as eleições (é por essa razão que hoje estamos como estamos), não sendo muito diferente nos clubes da bola pois os dirigentes dos clubes, para serem eleitos, gastam o que não podem e o que não devem só para agradar aos adeptos, pois estes só aplaudem se houver resultados positivos. Faz-se a analogia entre os dois ao dizer que “os políticos são como os treinadores de futebol, sempre apaixonados pelo lugar que ocupam e sempre de malas feitas”. Por alguma razão, à medida que um primeiro ministro promete “crescimento económico”, o povo é levado à zona de “descida”.

No futebol os jogadores atacam, defendem, fintam, tentam enganar, querem protagonismo, falam e não dizem nada, acenam, batem palmas, agradecem, abraçam, insultam, cantam, são vencedores ou vencidos mas o dinheiro continua a “correr-lhes nos bolsos”, nalguns casos em “quantidade escandalosa”. Ora, não será que todas estas “virtudes” se adaptam textualmente aos políticos, de tal forma que, às tantas, nem sabemos dizer se estamos a falar de uns ou de outros?

Bom, não me vou alargar mais nas coisas comuns entre “as partes” para não ter de as equiparar às “nádegas”: Tão iguais que, se não fosse um sinal aqui ou um pelo ali, teríamos dificuldades em distingui-las…

Como estamos a dias de ter de escolher entre “ir à bola” ou ir votar (e podemos até ir às duas), será bom que falemos de paixão, emoção e racionalidade. O futebol, dizem os “filósofos da bola”, é paixão e emoção no essencial, com uma grande dose de irracionalidade. Ora no dia quatro de Outubro, quando tratarmos de eleições, estamos a falar de “contratar funcionários” para nos prestarem determinados serviços durante quatro anos. Os serviços são bem remunerados, têm mordomias e eles ficam com uma “procuração” nossa para fazerem “o que bem entenderem” com o país. Será que o devemos fazer com base na emoção e na paixão “clubística”, lutando e torcendo pelo clube, aliás, pelo partido? Ou devemos fazer a escolha racionalmente, com base na qualificação, no conhecimento, na capacidade e na seriedade do trabalho e das propostas? Uma “procuração” destas não deve ser dada por paixão mas por ideias. Votar é ser responsável por quem se quer “contratar” para exercer o poder. Por isso, vamos lá deixar a paixão para o futebol… E, como diz o povo, “o que é preciso é ter confiança, fé em Deus e estupidez natural”…

Abaixo as dietas, viva a “barriguinha”…

Assumo que, desde que deixei de fazer exercício com regularidade, naquele lugar onde devia estar a minha cintura tenho aquilo a que vulgarmente chamamos “pneu”. É por isso que o meu filho costuma pôr-me a mão na “barriguinha” e dizer com ar de gozo: “Dá a bola aos miúdos”. Não é a maior provocação que já ouvi sobre as “saliências abdominais”. Há dias entre amigos, a “boca” foi para um deles, de barriga mais dilatada: “No cemitério, a árvore faz sombra ao morto”… Também se conta que um homem com barriga muito “respeitável”, semelhante ao protagonista de uma das crónicas anteriores, estava a fazer o seu “chichi” encostado a uma parede. Um garotinho inocente que ia a passar olhou e gritou: “Eu vi a “coisa” daquele senhor”. O homem com toda a calma, fechou as calças, tirou uma nota de cinquenta euros e disse ao garoto: “Rapaz, pega lá esta nota pois viste algo que eu já não vejo há anos”…

Depois do “metrossexual” e do “lambersexual”, a nova moda masculina que, dizem, está a fazer sucesso na terra do Tio Sam (para satisfação delas), é a dos “dad bod” e o mesmo é dizer que a gordura voltou a ser sinónimo de formosura. Acabaram-se os arrependimentos por ter comido uma piza ou um “Big Mac”, um daqueles hambúrgueres com maionese, molho de tomate e muita batata frita. Chega de ficar de consciência pesada por ter bebido umas “cervejolas” e comer uns petiscos apimentados. Elas dizem que os “dad bod” com as suas “barriguinhas”, são homens mais normais, mais naturais, muito melhores a abraçar, que não enganam e nas fotografias fazem com que as mulheres pareçam ainda mais bonitas, para além de… terem “melhor desempenho”. Se isto não é o suficiente para “cultivar a barriguinha”, do que é que precisamos mais?

Claro que hoje a sociedade “persegue-nos” e “combate” de forma persistente esta “cultura física”. Os profissionais da saúde e todos os organismos que os superintendem fazem imensas campanhas contra, aconselhando-nos a beber muita água e não bebidas alcoólicas, a comer menos carne, mais peixe e fazer exercício. Ora, afinal a baleia só bebe água, só come peixe e faz natação o dia inteiro e o que é ? GORDAAAA!!! Também nos aconselham a comer menos pão e batata e comer legumes, muitos legumes verdes. Ora, o elefante também só come verduras e o que é? GORDOOOO!!!

Já não podemos escolher o que queremos ser pois, em todo o lado, somos “violentados” pela nossa opção. Todos têm uma dieta para promover o nosso bem estar, melhorar a nossa condição física, que nos querem vender a toda a força. São os médicos, os nutricionistas, os herbanários, a rádio, a televisão, as revistas da especialidade e todas as publicações dedicadas às mulheres a “impingir-nos” a dieta ideal, com as frases mais estúpidas como “emagreça comendo de tudo” (que é como quem diz, passando fome), “emagreça dez quilos em sete dias” ou “perca a barriga em cinco dias”. Também fazem questão de nos convencer a fazer exercício, muito exercício e com regularidade, como caminhar, que é muito importante para a nossa saúde. Ora, “se caminhar fosse saudável, os carteiros seriam imortais”…

Uma sexóloga brasileira publicou um artigo aconselhando as leitoras a namorarem com “barrigudinhos”. Diz ela que tem muitas vantagens como “nunca pedirão um sumo mas sim uma cerveja ou um copo de vinho”, “não tiram a camisa para dançar feitos idiotas, querendo agradar à garotada da plateia”, “nem ficarão preocupados com as calorias das refeições que elas fazem”. Ter barriguinha quer dizer que gosta de cerveja e vinho, de confraternizar, de fazer festas (e mulher faz parte) e gosta de ver televisão enrolado no sofá… Para além do mais, homem com “barriguinha” é mais confortável. A barriguinha oferece um conforto especial, pois é uma almofada que pode ser moldada conforme a cabeça dela…

Um estudo efetuado numa das universidades da Turquia revelou que os homens com barriga têm uma melhor “performance sexual”. E esta? Já estou a ver esses atletas que “malham” forte para terem uma “tábua” a fazer de barriga, a diminuírem os treinos e começarem a comer “fast-food” para fazerem crescer a “curva da felicidade”.

Para os homens que fazem questão de “cultivar” a barriga, o maior ídolo é o … Homer Simpson. Ele tem o estilo “pai de família”, uma barriguinha peluda, fofa e macia muito agradável para abraçar, aquilo a que as mulheres chamam “a almofada do amor”, que esconde um pedaço de felicidade.

Já o humorista brasileiro Chico Anísio dizia que “o exercício é o primeiro passo para a morte. Sai dessa enquanto tem saúde”. E “raramente se conhece um atleta que tenha chegado aos oitenta anos”. Fazia uma comparação interessante ao dizer que “a tartaruga, com toda aquela lentidão, vive trezentos anos, mas não se conhece um só coelho que chegue aos quinze”.

Homem com barriguinha é alguém que gosta de comer e beber, não perde um bom prato de rojões, feijoada ou cozido à portuguesa. Aprecia o presunto e o salpicão e faz questão de promover a gastronomia nacional. Com isso, dá um contributo generoso ao desenvolvimento do país. Não dizem para aí que estamos a precisar de crescimento (e não me refiro à barriga)?

Ah, e não fique chateado se passar a vida inteira gordo. Vai ter toda a eternidade para ser só osso!!!…

Do tamanho da vaidade ou da realidade?

O meu carro vai a caminho dos quinze anos, uma idade muito bonita para quem tem a missão de me carregar quase todos os dias. Mas não tem sido fácil continuar a conduzir um carro que “está ultrapassado”, “fora de moda” e “não condiz com o meu estatuto”, na versão de um vendedor mais aguerrido. Geralmente não seguem a via de me quererem vender um meio de transporte mas antes um “estilo de vida” adequado ao “nível social”, daí usarem os argumentos mais incríveis dentro desta linha de pensamento. E, porque alguém conhecido tem carro novo, estimulam-me a comprar uma “máquina” igual ou mesmo superior, para lhes “fazer ver”. Lembro-me até de uma pessoa amiga me dizer: “Você anda para aí num carro que qualquer trolha tem…”

Confesso que ao longo destes quase quinze anos de relação com o meu automóvel, de que só me afastei temporariamente quando um encapuzado me encostou uma arma à cabeça e “convidou” a entregar-lhe as chaves, tendo mesmo disparado uma “bojarda” para o ar no sentido de me “apressar” a satisfazer tão “delicado” pedido, estive algumas vezes tentado a trocá-lo e comprar outro mais atual, não por que me tenha dado problemas de maior mas “levado” pelos “tais” argumentos e alimentado por uma “vozinha” interior que não é mais do que a vaidade que existe (também) dentro de mim. Mas, como o carro continua a levar-me a todo o lado, nessa luta interior entre a vaidade e o bom senso este tem conseguido vencer fazendo com que o mantenha como parceiro. Mas é uma luta que nem sempre é fácil…

Muitas vezes, com o carro tentamos mostrar aquilo que temos (e somos) ou o que gostaríamos de ter (e ser), sendo o “fato” onde fazemos questão de nos “vestir”, independentemente de estar ajustado ou não à nossa condição. Quantos não compram carros tão sofisticados que não chegam a saber para que serve um grande número de comandos do veículo? Quando um dia perguntei a um amigo para que era um determinado botão no tablier do seu carro, respondeu-me: “Não sei e nem lhe mexo porque posso estragar…”

Construi a minha casa há quarenta anos e, ao fim de vinte cinco convenci-me que deveria realizar obras de fundo e torná-la bastante maior, com divisões mais espaçosas, tendo mesmo chegado a fazer um anteprojeto. Depois de vários estudos… fiquei por aí. Quando a minha mulher adoeceu verifiquei que cometera muitos erros ao projetar a casa, especialmente nos espaços de circulação, nas casas de banho e largura de portas, pelo que realizei algumas obras para a tornar mais cómoda e funcional. Tal como tem acontecido com o carro, também na história da casa o bom senso ganhou a batalha sobre a vaidade. É certo que ao longo dos anos caí na patetice de construir anexos e mais anexos como “acumulador de lixo” que sou. Sim, porque os anexos quase sempre servem só para isso. E não fiquem dúvidas pois, por maiores que sejam, arranja-se sempre “tralha” para os encher, ficando a faltar anexos para o muito “lixo” que fazemos questão de acumular…

Hoje dou-me por feliz por não ter feito crescer a casa como cheguei a projetar porque, apesar de manter as dimensões originais, tornou-se grande demais para as nossas necessidades. Se a tivesse aumentado, pior seria…

Projetei, desenhei, construi, aconselhei, comprei e vendi bastantes habitações, moradias ou apartamentos e raramente os interessados pediam para que fossem mais pequenas. Queriam sempre maior, mais espaçosa. É um desejo quase instintivo, embora costumo dizer que quantos mais metros quadrados tiver a casa, mais cara é. Mas, tal como com os automóveis, a competição com os outros, mais do que a necessidade, levou a exageros no tamanho e no luxo, que custaram muito dinheiro (que nem sempre se tinha) e hoje continuam a custar muito caro em impostos e manutenção, agora que o dinheiro encolheu e os filhos saíram de casa, fazendo-a parecer ainda maior…

E ainda há outro problema: Regra geral os filhos não estão interessados no “casarão” porque é grande demais, está desatualizado e nem querem assumir os encargos que tais “palácios” acarretam pelo que, muitas vezes, não se vislumbra futuro na família para a “casa da família”. Ainda há dias ouvi esse desabafo de alguém que está nessa situação, inconformado com tal realidade…

Os antigos tinham um ditado que dizia (e diz), “casa quanta caibas, terra quanta vejas”. Nós rejeitamos esse legado e invertemos a teoria, fazendo crescer a “barraca” muito para além das necessidades e da comodidade e agora “torcemos as orelhas” de arrependimento ao olhar para as contas do aquecimento, do IMMI, da eletricidade, do jardineiro, da manutenção e do trabalho que dão. E até há momentos em que se fica a pensar como seria cómodo viver numa casa pequena e acolhedora…

Esta necessidade das casas “encolherem”, deve ser fruto das “lavagens” que nos fazem, da “água” que os nossos governantes meteram e o resultado das “tesouradas” nos salários, nas pensões e nos subsídios. Ou ainda, que começamos a pôr um pouco de juízo na cabeça e vamos perdendo a “mania das grandezas”, tão desajustada da nossa realidade?…

Filhos e netos, herdeiros ou “abutres”…

Parecia a cena de um filme dramático, mas foi real e aconteceu cá no concelho. O caixão com um homem de idade avançada estava na igreja enquanto decorria a missa de sufrágio, quando um grande barulho vindo do exterior quebrou a tranquilidade da cerimónia. A senhora Maria saiu para ver a causa do tumulto e encontrou os filhos e netos do falecido, dentro do cemitério e junto à cova aberta para receber o caixão, “engalfinhados” e “à batatada”, proferindo entre si todo o tipo de insultos. Ficou “especada” a ver o triste espetáculo da família e, na sua inocência, até chegou a pensar que deviam estar a escolher entre eles um “substituto” para ocupar o “lugar” do morto. Mas não, as razões eram as de sempre: Os bens materiais. Ainda o corpo do velhinho não estava enterrado e já os “abutres” disputavam os restos, sem qualquer respeito por aquele que partira. A senhora Maria regressou à igreja revoltada, enojada…

Filhos e netos, já para não falar noutros colaterais, transformam-se demasiadas vezes de familiares e herdeiros naturais em abutres vorazes, gananciosos e insatisfeitos, pouco preocupados com o “naco de carne” que lhes foi parar ao “bico” mas muito mais com aquele que os outros levam. Nessa insatisfação, parece-lhes (quase) sempre que aquilo que vão “abichar” não é nada se comparado com o que lhes vai fugir das mãos. Daí que, tantas e tantas partilhas de heranças acabam nos tribunais, fazendo com que os profissionais da justiça esfreguem as mãos de contentes pois quanto maior é a contenda maior é a fatia que lhes cabe, dando razão de ser à velha história da vaca disputada por dois homens em tribunal mas os seus advogados achavam que, afinal, lhes pertencia a eles.

No entanto, antes de chegarem à justiça, há os que levam a disputa “à letra” e, pouco interessados em “receber”, começam por distribuir murros a torto e a direito, como se essa fosse a forma mais expedita de resolver a partilha. E ás vezes até partem… alguns dentes.

Geralmente temos a tentação de pensar que as disputas nas partilhas só ocorrem em determinadas classes sociais mas tal não corresponde à verdade. Se uns simples brincos, único bem deixado por uma senhora, foram motivo de uma cena de pugilato entre os filhos na tentativa de “conquistar” o direito à sua posse, a divisão de legados com imensas propriedades tem sido motivo para autênticas batalhas judiciais que se arrastam ao longo de anos e anos, “derretendo” laços de família, tempo e fortunas em juristas, tribunais, avaliadores e todo o tipo de “armas de arremesso”. Rejeita-se a sabedoria popular de “que mais vale um mau acordo do que uma boa demanda”. Também se costuma dizer que, “no tribunal, aquele que perde fica nu mas, o que ganha, só sai com a camisa”. Ora, tudo isso se esquece quando a ganância se sobrepõe ao bom senso…

Um dia solicitaram-me a avaliação das propriedades que faziam parte da herança de uma conceituada família da região. Eram várias quintas, com numerosos prédios rústicos e urbanos. O motivo da avaliação não tinha a ver com a partilha propriamente dita. Essa, apesar de se ter arrastado no tribunal durante vários anos, já estava resolvida. A avaliação era somente para a contestação que decorria no tribunal da “conta” apresentada pelo advogado de um dos herdeiros, tal o seu montante… Ao que parece, queria ser “mais herdeiro” do que propriamente um prestador de serviços…

Há aqueles para quem qualquer bem, mesmo que ridículo, serve como motivo de disputa e de guerras sem fim, mesmo com razões infundadas e sem qualquer suporte legal. Mais ainda, acham que quanto maior “chinfrim” fizerem mais perto ficam de conseguirem os seus objetivos, como se a razão fosse diretamente proporcional à altura da gritaria. Numa freguesia cá do burgo, trava-se uma dessas “guerrinhas” pelo direito a uma “propriedade” para a qual todos vão mas ninguém tem pressa de ir: Uma sepultura. Ali está enterrado o homem que a comprou e alguns dos seus filhos, sem que a “propriedade” tivesse entrado em partilhas pelo que, agora, são mais de seis dezenas de herdeiros. Uma das netas (e herdeira) que vive relativamente perto, enfeita regularmente a campa com flores em homenagem à irmã que partiu antes do tempo e ali foi sepultada. Mas, na tentativa de a forçar a renunciar ao seu direito de herdeira, outra neta “limpa” as flores, quando não a jarra, para além da gritaria que faz quando a vê no cemitério, em especial se tiver “plateia”. Tudo, por uma sepultura… Alguém com “morada aberta”, que consegue estabelecer “ligação” aos espíritos dos que ali estão enterrados, soube que se reuniram em plenário e decidiram as ações a tomar para acabar com tanto “ruído”, até porque lhes foi prometido, em letras gravadas na pedra, que teriam “eterno descanso”, “descansariam em paz” e outras coisas do género. Mas há gente que não respeita o prometido, nem mesmo na última “morada”… “Marchamos” desta vida a pensar que deixamos uma herança mas, em vez disso, quantos não deixam “uma carga de trabalhos”, motivo para virar irmãos contra irmãos, família contra família, cegos pela ganância insatisfeita que deixa vir ao de cima o que de pior há no ser humano.

Será que a dignidade com que morrem os animais se deve ao facto de não terem nada para deixar?

A roupa usada e as contradições…

Estava a separar algumas peças de roupa quando me lembrei do que aconteceu à minha mãe: Preocupada com a situação de pobreza de uma família que morava mesmo ao lado de sua casa, juntou algumas roupas e foi lá entrega-las, tendo um certo cuidado prévio com elas. Quando ao outro dia foi depositar o lixo no contentor encontrou no fundo tudo o que havia oferecido…

Este acontecimento não me é estranho tal como o não é para muita gente que muitas vezes não sabe o que fazer à roupa usada, por dificuldade em encontrar quem precise e queira (são precisas as duas condições). E, muitas vezes, acabam por ser aproveitadas por pessoas que nem são necessitadas mas que não têm preconceitos nem vaidades estúpidas, sinais crónicos de uma pobreza bem maior.

Quando eu não estava na escola primária, usufruía da natureza em pleno, aproveitando os seus tempos e os seus ciclos fossem eles da fruta, dos ninhos, da pesca ou dos banhos no rio Sousa. A roupa é que pagava a fatura, sendo frequente um rasgão nas calças ou na camisola conseguido ao subir a um pinheiro (melhor, ao descer), ao saltar uma vedação ou a jogar à bola. E, como só tinha um ou dois pares de calças, a minha mãe punha-lhe um remendo e continuavam a ser usadas no mesmo dia. Mas havia quem nem remendos pudesse pôr, pelo que tinha de andar com elas rotas.

Num bonito dia de Páscoa “estriei” um fato, nos meus dezasseis anos acabados de fazer. Sim, porque só se “estriava” roupa na Páscoa ou no Natal e não era todos os anos. De tarde, depois de recebermos o “compasso”, aproveitei a boa vontade do meu irmão António e fui dar uma volta na sua motorizada, partindo sem rumo definido pois o que interessava era gozar tal privilégio. O acaso levou-me de Lousada a Freamunde e Paços de Ferreira até que, numa curva com areia na saída para Santo Tirso, derrapei e fui parar ao chão por “aselhice”, acabando ferido no joelho, ferido no orgulho e com um rasgão nas calças do fato acabado de “estriar”. E agora?

Voltei logo para casa com “o rabinho entre as pernas” mas recebi a compreensão da minha mãe. Ao contemplar aquele rasgão em L no joelho das calças, ficamos a conversar sobre a melhor forma de as remendar com o mínimo de visibilidade, pois um remendo vulgar ficaria mal no fato. Como nesse tempo a regra era comprar primeiro o tecido e mandar fazer o fato ao alfaiate, “por medida” (ainda não se inventara o pronto a vestir), as sobras de tecido eram guardadas para eventualidades como aquela. Daí que, quando a mãe tirou de uma gaveta alguns pedaços de tecido igual, procurei um que fosse maior que o rasgão e coloquei-o sobre este, enquanto dava voltas à cabeça como havia de resolver o problema sem deixar “rasto”. Reparei que o tecido era feito com os fios cruzados na perpendicular de forma muito vincada e então ocorreu-me uma ideia que quis logo pôr em prática. Com o acordo da mãe, do bocado de tecido que escolhera cortei um quadrado cerca de dez centímetros maior do que os limites máximos do rasgão. Depois, centrei e fixei esse quadrado de pano sobre o buraco das calças e, dos lados esquerdo e direito, fui retirando os fios verticais, um a um, deixando somente os horizontais até ficarem com oito centímetros, de um lado e do outro. Fiz o mesmo na parte de cima e de baixo do quadrado, retirando aí os fios horizontais, deixando os verticais também com oito centímetros. Com isso, fiquei com um quadrado de tecido central suficiente para tapar o rasgão, que mantive fixo sobre este com alfinetes, e com fios do próprio tecido para cima, para baixo e para os dois lados. A partir daí, foi só uma questão de paciência. Com a ajuda de uma agulha, enfiei uma ponta de fio nesta e entrelacei-o no tecido das calças a partir do quadrado intacto do remendo, seguindo as linhas dos fios do tecido nos quatro lados do quadrado, fazendo desaparecer o rasgão por completo e sem que se notasse o remendo. Minto, se virasse as calças ao contrário, pelo interior “via-se o acidente”. Acabara de “cerzir” umas calças… Mais tarde vim a descobrir que, afinal, já havia quem se dedicasse a tal trabalho, pelo que, afinal, “inventei” algo que já estava inventado…

Nesses tempos difíceis, o importante era ter alguma coisa para vestir, velho ou novo, remendado ou não, porque não nos podíamos dar ao luxo de rejeitar roupa. Lembro-me que, nos dias de chuva, era com um saco de serapilheira grossa virado para dentro de um dos lados que se improvisava uma capa de proteção. E nem todos tinham um saco…

Com a industrialização, criou-se e distribuiu-se riqueza que permitiu o acesso generalizado aos bens de consumo, nomeadamente à roupa. E, à medida que nos fomos consolidando como sociedade de consumo, a indústria, através do marketing (apoiado na “ditadura da moda”) e com a ajuda do crédito fácil, tornou-nos consumidores desenfreados e obsessivos, de tal forma que já não se sabe onde guardar tantos “trapos”. E, mesmo assim, ainda há quem olhe para os roupeiros cheios em casa e tenha o “desplante” de se lamentar dizendo que “não tenho nada para vestir”…

Apesar da crise ter obrigado a inverter a mentalidade sobre roupa já usada por outros, ainda existe gente necessitada que a recusa, tal como o vizinho da minha mãe, talvez com o receio de apanhar alguma “doença contagiosa” ou “ter de a despir na praça pública”. Serão preconceitos, vergonha ou complexos? Não concebo tal… Diz o povo que “quem tem vergonha passa mal”. A meu ver, o problema é do seu estado de apresentação. É que, estando impecável e sem rasgões, … está desatualizada. Para ser aceitável, as calças devem estar… rotas. O que antes era sinal de pobreza, agora virou… moda. Como as coisas mudam!!!

Há quem precise mas, “empinam” a cabeça e dizem com desdém: “Eu, aceitar roupa usada”? Desses, diz-se que “têm barriga de pobre, mas boca de rico”…

Se me saísse o Euromilhões, eu…

Fim da tarde de sexta-feira. Quando passava diante de um estabelecimento comercial que tem máquina registadora dos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (e é sempre bom referir que as receitas dos “ditos jogos sociais”, para além da “fatia” do Estado, são pertença daquela Misericórdia, e só dela, sem que nenhuma das mais de trezentas que estão espalhadas pelo país “abiche” sequer uns trocos), vi uma fila de pessoas à espera para registarem a aposta, fila que ia do balcão até à porta, com um amontoado de carros na rua. “Ah, é hoje que estão em jogo cem milhões de euros…”. Ainda fui assaltado pela tentação de parar e ir a jogo também mas, aquela fila “veio em meu auxilio” e fez-me desistir. Segui em frente e fiquei a pensar “com os meus botões”: “Afinal, há muita gente que tem esperança, por mais breve que seja, de ganhar uma batelada de massa”.

Quando cheguei a casa lembrei-me do tal prémio taludo e, como qualquer um dos milhões de “sonhadores”, questionei-me: “O que faria se me saísse o Euromilhões?”

O normal seria saltar de contentamento, chamar a família para contar a boa nova e ir diretamente ao stand da Mercedes, não sei mesmo se da Rolls Royce, comprar o modelo mais caro. Sim porque, com tantos milhões, só podia andar de automóvel com motorista privado pois o ato de conduzir é para os “pelintras”. Os meus filhos também teriam direito a carro novo e até lhes dava liberdade de escolha. Eu só cá estaria para passar o cheque…

A casa era a segunda questão a tratar pois aquela onde vivo não estaria a condizer com o estatuto de milionário. Teria de adquirir de imediato um terreno em local privilegiado (e colocava de fora a hipótese de um pedaço do jardim do Senhor dos Aflitos somente por não ser suficientemente grande para a minha nova posição social) e entregar o projeto a um arquiteto famoso que não podia estar abaixo de Siza Vieira, Frank Gehri ou Santiago Calatrava, para que a mansão tivesse “assinatura”. Claro, a casa seria um autêntico palácio em luxo e dimensão, para poder fazer festas de arromba e receber os “amigos” em grande. É que, um homem com muito dinheiro, passa a ter muitos “amigos”, embora se diga que “um homem rico não tem amigos à mesa , mas sim comensais”.

Teria de arranjar um mordomo inglês. Sempre me fascinou essa personagem e era uma forma de não me preocupar com o comando da “criadagem”, de ganhar importância e vingar-me desses ingleses “emproados”.

Compraria uma mansão de férias num sítio “badalado” como Miami, Flórida, Cannes ou Ibiza e metade do ano andaria em viagem pelo mundo, mesmo que não me agradasse, mas para me dizer “viajado”.

Ah, as pessoas com quem me relacionaria a partir daí mudavam radicalmente. Já não podia falar com qualquer um como o faço hoje, por ser desadequado ao meu estatuto. Só poderia encontrar-me com gente “brilhante, honesta e incorruptível” como políticos, banqueiros e outros seres mediáticos que se passeiam com toda a naturalidade pelos corredores do poder e do… dinheiro.

Não, não ia desperdiçar dinheiro em doações, ajudas ou contributos a instituições sociais ou pessoas com necessidades porque, senão, que seria de mim? Já me podia considerar um grande benemérito ao fazer uma “doação voluntária” de vinte milhões ao Estado. É que o dinheiro não “estica” e não dá para tudo (nem para todos).

Mas, faria mesmo assim?

Um amigo disse-me um dia que, “por mais rico que fosse, não conseguia comer mais do que comia. Que a sua barriga era sempre a mesma e, com a idade, a tendência seria para comer menos”. Eu acrescentaria que, por mais dinheiro que tenha, continuarei a ter mais prazer ao comer sardinhas assadas com pimentos do que um qualquer prato de caviar cozinhado pelo chefe mais célebre.

O dinheiro serve para o que serve. Essencialmente, para nos tornar a vida mais cómoda, pois permite-nos comprar conforto e segurança. Mas estes podem ser assegurados sem necessidade de recurso aos exageros que visam mais a ostentação – e, seguramente, a inveja – do que a satisfação pessoal e a felicidade.

Mas nós somos quase sempre dominados pela ambição desmedida e nem sequer nos apercebemos disso. E o exemplo típico é o Euromilhões. Porque será que em dias de prémio “gordo” como o dos cem milhões, as pessoas até se atropelam para registar a aposta e chegam a ficar incomodadas quando não têm oportunidade para o fazer, como se só “esse” prémio as deixasse felizes? Não deixa de ser interessante que, em dias de “prémio normal”, isto é, quando estão em jogo uns “míseros” quinze ou vinte milhões, não há filas nem o “passa palavra” entre amigos para não se esquecerem de jogar, sendo poucos os interessados em prémio tão “foleiro”…

Será que quem tem cem milhões é mais feliz do que quem tem dez ou quinze? É certo que não, nem a felicidade é medida pelo tamanho da conta bancária. Dá jeito mas está longe de ser o essencial.

O problema é que, quando nos “colocam” na mente a “semente” do “jackpot”, ela germina mais depressa que o habitual e bloqueia o pensamento racional, fazendo-nos correr atrás do sonho e da ilusão. E nós não resistimos e vamos…

Da lousa ao tablet…

Quando entrei na primária, já usufrui de uma escola construída pelo Estado Novo ao abrigo do Plano dos Centenários, para comemorar o terceiro centenário da Restauração da Independência e o oitavo da Independência de Portugal, respetivamente em 1940 e 1943, Plano que foi delineado para “dar escola a todas as crianças do país”. Com arquitetura típica, aquilo a que chamaram o estilo “Português Suave”, eram de construção sólida, excelente para a época (até já tinham “retretes” turcas, daquelas em que fazemos o “serviço” agachados, coisa que não existia na maioria das casas da aldeia), ao ponto de ainda hoje resistirem a todo o tipo de “intempéries”, apesar de muitas delas terem sido transformadas em museus, restaurantes, igrejas, residências e sei lá bem que mais. Da minha escola tenho gratas recordações e nelas estão incluídas as professoras (nunca tive um professor), os colegas, as brincadeiras e tudo o que a ela dizia respeito.

Julgo que a minha mãe só foi comigo à escola quando entrei para a primeira classe e, a partir daí, não me lembro de algum dia me ter ido levar ou buscar, o que também aconteceu com todos os outros. Mas soube castigar-me quando um dia faltei às aulas para ir com o Domingos colher os dióspiros que o pai comprara no Souto, retendo-me na varanda de casa durante uma tarde, uma eternidade para quem estava habituado a ser livre como os pássaros. Íamos a pé, fizesse chuva ou queimasse o sol, a maioria descalços porque não tinham qualquer tipo de calçado, tantas vezes quebrando a geada sob os pés, de sacola de pano feita em casa, a tiracolo, onde levava a lousa, os lápis de ardósia e os livros.

A escola até já tinha carteiras de tampo inclinado com buraco para o tinteiro, quase sempre cheio com tinta Pelikan azul, usada para molhar a pena quando fazia as redações e os ditados, com a qual eu tinha uma relação pouco amistosa, refletida nos frequentes borrões de tinta, só atenuados com o “papel mata borrão”.

A lousa, um retângulo de ardósia com um caixilho de madeira, era o nosso “caderno” de rascunho para fazermos contas, escrevermos repetidamente algumas palavras difíceis e fazer muitos outros trabalhos, com a vantagem de ser facilmente “limpa” para novo uso: Uma cuspidela (que na gíria chamávamos “bisga”) no meio da lousa e com a manga completava-se o trabalho de limpeza, ficando pronta para ser reutilizada.

Quase todos as professoras tinham “ao seu serviço” dois instrumentos para nos disciplinar, por errar as contas no quadro, por erros no ditado ou qualquer outro motivo que entendessem merecedor de sanção disciplinar: A cana e a palmatória. Lembro-me de uma cana muito comprida que não nos deixava qualquer zona de segurança, pois permitia à professora estar sentada na cadeira e chegar com ela às nossas orelhas se fosse caso disso. A palmatória de uma das minhas professoras – e não vou referir o seu nome pelo muito respeito que tenho à sua memória e por tudo aquilo que lhe devo, que é muitíssimo – era de madeira “grossa”, com três a quatro centímetros de espessura, de “pá” redonda com cinco buracos. Quando estava zangada e tinha de a usar, segurava com a mão esquerda a ponta dos dedos do “desgraçado” para que não escapasse e, com a outra, agarrava-a firmemente pelo cabo levantando-a acima da cabeça para ganhar mais lanço e “disparar” sobre a palma da mão da vítima. E nunca era um “bolo” só…

Tudo isso já lá vai, a escola mudou de instalações, de métodos de ensino e de programas. Democratizou-se, muitas vezes para além do razoável com inversão de protagonismos, pois quem passou a levar “bolos” com “outras palmatórias” foram os professores, não só dos pais como dos próprios alunos. Há ganhos, muitos ganhos, como nunca imaginei enquanto andava por lá. Mas também houve perdas neste processo, muitas delas como consequência das lutas partidárias que nem sempre colocaram a educação acima dos interesses de partidos ou grupos. Uma coisa me parece certa: Apesar de todos os meios de que a escola de hoje dispõe, incomparavelmente superiores em todos os níveis aos existentes naquela altura, continuo a pensar que, com a quarta classe de então, sabíamos mais do que com o quarto ano de hoje, senão mesmo com o sexto ano. E a nível de português, de não dar erros, nem se fala…

Recordei este meu tempo ao ler a notícia de estar em funcionamento uma escola piloto, em pleno Alentejo, mais concretamente em Cuba. A experiência em curso tem como objetivo a eliminação do uso de papel na escola. Todos os alunos receberam um “tablet” que contem os livros, testes, exercícios e todo o material de consulta e estudo, sendo o primeiro ano de adaptação e o segundo de exploração, em que já funcionam unicamente com aquele equipamento, numa experiência que preanuncia as escolas deste século. Será o futuro? É provável que sim, embora já não o seja o meu pois não dispenso o papel na maior parte dos casos. Nem mesmo os simples “auxiliares de memória”, isto é, as pequenas listas de afazeres para o dia… Mas esperemos que seja mais do que um meio tecnológico a juntar a todos os outros “brinquedos” de que as crianças hoje dispõem e sirva para as fazer pensar e não para lhes aumentar a preguiça mental…

Ainda bem que já não me banho no rio…

Com a água a escorrer pelo corpo, recordei como evoluiu o meu banho ao longo da vida. Em criança, era num alguidar de barro vidrado e em condições precárias que me lavava, quando lavava. E já era um luxo, pois muitos nem isso podiam fazer. Quando queria tomar banho “completo”, ia ao rio Sousa, no Amial ou perto da ponte da Amieira… mas só no verão. Aí, sim, “molhava tudo”… E às vezes, até me esfregava com sabão. Por isso, foi uma conquista quando eu e o meu irmão, já adolescentes, montamos um chuveiro improvisado de água fria, claro, porque a água quente só chegou anos depois… E, em termos de evolução, fiquei-me pelo chuveiro, pois nunca fui cliente habitual dos banhos de imersão. Prefiro o “entra, molha, ensaboa, esfrega, enxagua, limpa e sai”. Só fiz uma alteração: Deixei de me ensaboar com “sabão macaco”, substituindo-o pelo sabonete vulgar. Nunca me habituei ao champô nem ao gel de banho, muito menos a sais ou essências aromáticas. Se calhar influenciado pela máxima de que “os homens devem ser fortes, feios e cheirarem a cavalo”…

Quando construí a moradia onde vivo, equipei a casa de banho principal com banheira onde tomava banho… de chuveiro, apesar do risco de quedas. Mais tarde investi na banheira de hidromassagem. Estava na moda, era “fixe” tomar banho com “bolhinhas”. E alinhei…

Nos primeiros dias todos experimentamos o “prazer” do banho de imersão mas, a partir da semana seguinte, todos os dias era ligada a hidromassagem para… limpar os tubos e evitar o mau cheiro de água parada porque… mais ninguém pôs o “rabo de molho”. Ao fim de alguns meses, para acabar com esse trabalho inútil, mandei a hidromassagem “às malvas”, arranquei a banheira e “plantei” lá uma normal, para continuar a tomar banho… de chuveiro.

Quando a minha mulher perdeu a mobilidade, retirei a banheira e coloquei o pavimento do chuveiro ao nível do restante, para a cadeira de rodas entrar com facilidade, aproveitando eu para tomar o banho de chuveiro… em segurança. E se hoje tivesse de construir uma casa nova, era assim que o faria.

Terei sido o único que colocou banheiras e… tomava banho de chuveiro, investiu em hidromassagem e continuou a tomar… banho de chuveiro, acabando por não a utilizar e vindo mesmo a substitui-la? De maneira nenhuma. Eu ainda me fiquei por aí, mas há imensas pessoas que foram muito mais longe. Há dias, uma delas “penitenciava-se”, porque “enfiou” na casa de banho uma daquelas banheiras enormes com toda a tecnologia de hidromassagens, tendo até umas escadas para aceder ao banho mas…. nunca a utilizou. Nem para experimentar…

E quantas cabines foram aplicadas, com colunas repletas dos mais diversos jatos de água, do rabo à cabeça, nunca utilizados porque só foi dado uso ao chuveiro de cima? É como comprar um telemóvel com inúmeras aplicações e funcionalidades e usá-lo só para fazer ou receber chamadas… Mas pode-se exibir, pode-se mostrar aos amigos(as) o aparelho mais sofisticado do mercado porque, o que importa é provocar inveja…

O francês típico acha que o banho de chuveiro é uma “americanice”, que não substitui o banho porque, banho sem banheira não é banho. Para ele, banho, banho, é na banheira e, como é uma coisa especial, não pode ser diário porque enchê-la, mergulhar e ficar ali “de papo para o ar”, exige tempo, dinheiro e dedicação, daí que não seja para todos os dias. Assim, diariamente faz a “toilette” passando o corpo com uma luva humedecida, aquilo a que nós chamamos “o banho do gato”.

E esta “banhada” vem à conversa porque há alguns dias fui “em romagem” aos tais lugares do rio Sousa onde antigamente tomava o meu “banho integral”. Comecei pelo Amial, local de encontro com outros miúdos, agora menos “selvagem”, mas que me trouxe à memória gratas recordações. Continua a ser um recanto da infância que guardo no coração. Dali fui ao outro lugar do rio que costumava frequentar com o meu pai, um pouco acima da ponte da Amieira. E, literalmente, “bati com a testa na parede”… Isso mesmo, ao longo do rio e a partir do leito deste, um comprido “paredão” com vários metros de altura, remata uma propriedade totalmente vedada com grandes muros, impedindo o acesso ao rio até à ponte… Apesar do acesso aos cursos de água ser um direito de todos, isto de deixar passar os pescadores ao longo do rio “tem de acabar”, pois “esses ranhosos fingem que vão à pesca mas só vão roubar fruta, c… no meio do milho e rebolar-se na erva agarrados às trutas”. E os banhistas de verão, que tomem banho em casa e se refresquem no frigorífico…

Alguém me disse que o tal “paredão” é a traseira de um grande estábulo. Será? Se for, é “uma ideia brilhante” pois, faceado ao rio, permite uma “parceria” perfeita entre peixes e gado. A ser uma “vacaria” (não daquelas que tem “gado” do Brasil ou do leste europeu), faz todo o sentido haver uma “ligação direta” com o rio, para os peixes “mamarem” nas vacas, se bem que estas, com a mania das grandezas, se estejam a c… para eles. Aliás, também quem construiu aquela “obra de arte” em plena “Zona Ecológica” e nos impediu o acesso ao rio (e não é caso único), também se esteve a c… para as entidades (in)competentes e para os nossos direitos de cidadãos. Nada a que já não estejamos habituados…

Ainda bem que só fui em “romagem” àquele sítio, onde tomei banho tantas vezes. Porque, se fosse lá com intenções de me meter dentro de água, corria o risco de entrar limpo e sair “borrado”. E, ao chegar a casa, a mulher perguntava: “Onde é que arranjaste esse perfume selvagem?”

Inchar o ego, com a “massa” do povo…

Conta-se que um presidente da Câmara queria consagrar-se através de uma obra monumental, uma obra que fosse vista de longe e passasse para a história do país como uma maravilha arquitectónica. Foram analisados inúmeros estudos e projetos, desde centros culturais a jardins suspensos, mas a opção foi por uma ponte, uma grande e moderna ponte. Custou mais de metade do orçamento do município e, aquela coisa gigantesca com muitos vãos e mais de trinta metros de altura, ao fim de dois anos estava concluída. Mas, a oposição fez-se ouvir e foi muito crítica porque… não passava nenhum rio sob a ponte. “Não se pode dizer que muita água correrá debaixo desta ponte”, escreveu o líder da oposição no jornal local, “pela simples razão de que foi construída sobre um lugar seco”.

Reconhecendo o erro e para calar a oposição, o presidente tratou de saná-lo, desviando um rio próximo por forma a fazê-lo passar debaixo da ponte, o que até agradou aos pescadores pois podiam pescar de cima dela. Quando o presidente pensava que a polémica estava resolvida, levantou-se outro problema: Só fora construída a ponte mas, nem de um nem do outro lado daquela obra de arte existia qualquer estrada, merecendo novas fortes críticas dos opositores: “Esta ponte ficará famosa por unir o nada a coisa nenhuma”. Pressionado, o responsável da câmara teve de reconhecer o erro e tomar medidas para o retificar. Assim, mandou construir uma estrada não muito longa mas com duas faixas de rodagem para cada lado, canteiro separador ajardinado e, claro, com portagens. Logo que ficou pronta, a estrada foi inaugurada no meio de grande pompa, o que não impediu nova contestação no dia seguinte: A estrada, tanto a norte como a sul, terminava no meio do deserto, sem servir nada nem ninguém, o que era um absurdo. Para ultrapassar mais esta contrariedade, o presidente deu ordens para se edificar um conjunto habitacional em cada uma das extremidades da estrada, mas as casas não chegaram a ser ocupados por falta de população dada a inexistência de fábricas, de empresas e de empregos, acabando por ser engolidas pela vegetação. E até o rio secou…

Não sei se em Portugal algum “iluminado” autárquico mandou construir uma destas pontes mas, que se saiba, outros “monstros” e outras “inutilidades” foram construídas com o dinheiro que não tínhamos, em nome do desenvolvimento, da modernidade e do futuro(deles, não do nosso). É que, na verdade, “trataram-nos” do futuro… E de que maneira. Conheci ou estive perto de algumas dessas “obras de arte” (e que “arte”…) com pessoas a questionarem-me “como foi possível?”, sem minimamente se interrogarem qual o seu contributo para que tal pudesse acontecer.

Normalmente temos tendência a pensar que o esbanjamento de dinheiros públicos só aconteceu nos estádios do Euro, nalgumas autoestradas com um movimento pouco maior do que o da ponte da história e em parcerias publico/privadas de má fama (para o estado e para nós). Mas, a verdade é que há milhares de obras de maior ou menor dimensão, espalhadas pelo país, que não chegaram a cumprir a função para que foram criadas e imaginadas, em diferentes fases de construção, sendo que muitas delas foram concluídas, algumas até equipadas mas… estão fechadas, porque não há dinheiro nem acordos para funcionarem. Sim, porque só funcionarão se o estado entrar com … dinheiro. E não é preciso ir muito longe para encontrarmos algumas delas…

Acabei de ler a notícia sobre o destino do comboio a que os locais chamam de “fantasma”, mandado construir em Oeiras pelo executivo de um presidente que foi parar… à “choldra” por outras razões. Para uma cidade com várias alternativas de transportes, tal comboio “imaginado” para uma clientela que nunca teve e que deu dezenas de milhões de euros de prejuízo, acaba de ser encerrado pelo atual executivo que o declarou oficialmente uma “inutilidade” local. Mas os muitos milhões de prejuízo são, ou serão, pagos pelos mesmos de sempre… A irresponsabilidade do executivo que foi seu “pai” é a mesma que “varreu” e continua a “varrer” o país de norte a sul, com, Centros de Dia e Centros Sociais sem “massa” para funcionar, rotundas e chafarizes para auto homenagens, túneis sem saída a estradas sem chegada, pavilhões multiusos, aeródromos e até aeroportos às moscas ou por acabar… Certo é, que o dinheiro do povo está lá enterrado e ninguém foi incriminado por esses “crimes”. Pelo contrário, em muitas dessas obras está lá uma tabuleta em latão (é que não basta ter “lata”…) a homenagear o “pai” de tal “façanha”, perpetuando o seu nome para a posteridade… E é assim que o seu autor fica preso (não, não pensem que fica preso naquele lugar onde deveria estar por muitos e bons anos…) à obra pelo nome, só…

O destino de algumas dessas obras chega a balançar entre continuar-se a “pagar a fatura” da manutenção, muitas vezes para coisa nenhuma, ou demoli-las, tais são os prejuízos que ocasionam a autarquias ou ao estado, o que é revelador da (ir)responsabilidade de quem as mandou fazer. Mas tudo tem sido permitido, sem que por isso haja consequências… Esperemos que um dia alterem a lei, para que o “crime” deixe de compensar…

Gesto obsceno ou… pura necessidade?

Julgo que já passou de moda fazer chafarizes em que a fonte é um menino nu a fazer “chichi”, mas fez o seu caminho e teve o seu tempo. O monte do Senhor dos Aflitos tem um, mas já lhe falta “algo” e nem “esguicha” para o pequeno lago. Será por falta de água ou… cansaço? O mais interessante é que este tipo de “arte” aquática atingiu o auge quando na nossa cultura havia… pudor. Curiosamente, quando este deixou de ser preocupação, tais “obras de arte” perderam o interesse, o que até parece um contra senso. Mas, no dia a dia, a prática do “esguicho” público mantem-se, fora dos chafarizes…

O meu filho acabara de estacionar no parque do Palácio da Justiça em Lousada. Quando ia a sair do carro com as senhoras que o acompanhavam, olhou em frente e ficou “atrapalhado”: Diante deles e em pleno parque, um respeitado (?) cidadão, em pé, mãos atrás das costas e “instrumento” fora das braguilha, fazia as suas necessidades básicas imitando o “menino do chafariz”, enquanto olhava de frente os transeuntes no passeio, a poucos metros de distância. Nem queriam acreditar no que viam… Sem se dar por achado, manteve-se direito e descontraído até completar o chichi. Indiferente à chegada de estranhos, sacudiu a “ferramenta” e guardou-a “na caixa” com o ar mais tranquilo, dando o “trabalho” por terminado. Imagino eu – e agora é só imaginação minha pois nem sei quem é o “homem chafariz”, que ele devia estar a sonhar com o tempo em que o “esguicho” tinha “jato forte” e passava por cima do muro, atingindo o passeio, quem sabe, a própria testa… Mas eram só sonhos porque, se pudesse olhar para os pés, veria os sapatos molhados e as pernas das calças salpicadas…

Na verdade devemos até “elogiar” este homem porque não optou pela solução tradicional, isto é, encostar-se à parede do tribunal ou ao vão de uma porta e “regá-lo” como manda a tradição É o que acontece normalmente quando há muita gente, como no caso das Festas Grandes do Concelho, especialmente em locais “estratégicos”, que ficam “perfumados” por longos meses, tal é a dose… (para os brasileiros, fazer chichi na via pública é considerado um ato obsceno e, por isso, têm os “mijódromos” para usarem nos grandes ajuntamentos). Também se compreendia a sua postura se fosse em Inglaterra, pois presumia-se que era “só para inglês ver” (se fosse algo que valesse a pena…), enquanto em Bruxelas, poderia querer copiar a estátua de bronze de Manneken Pis, um rapazinho nu a fazer chichi, pela qual os belgas têm uma espécie de orgulho nacional e os turistas fazem questão de visitar. Dias antes foi visto um outro “cavalheiro” em pleno dia, na esquina do banco junta à câmara municipal de Lousada, o ponto mais central da vila, a “regar as flores”… Pelos vistos, continuam muitos “a mijar fora do penico”, podendo estar aí a razão pela qual tanta gente está “com as calças na mão”…

Os homens ainda têm o hábito de “molhar” as árvores (sem levantar a perna, como os cães…), especialmente nos meios rurais. Outrora faziam-no em qualquer esquina mais ou menos escondida mas, à medida que as regras de convivência social e a educação se foram democratizando e massificando, os comportamentos nesta matéria passaram a ser mais discretos, regra geral impondo a utilização das casas de banho públicas ou não, especialmente quando em zonas urbanas onde há sempre alguém por perto (agora com fortes probabilidades de serem filmados e até “expostos” nas redes sociais). Já as mulheres, há muito deixaram de fazer tal “serviço” de pé, na forma tradicional, isto é, simplesmente abrindo as pernas, protegidas dos olhares indiscretos por saias compridas. Mas hoje as saias já “nada” tapam, deixaram de existir as “estrumeiras” à porta da cozinha como local de “alívio” e as regras sociais e a educação já não o aconselham.

O curioso é que nós, homens e mulheres, estamos a caminho de trocar de “posição” na forma como fazemos chichi. Senão, vejamos…

Na Alemanha foram colocados letreiros do tipo “sinais de trânsito” nas casas de banho públicas, a proibir os homens de fazerem o tal serviço “em pé”. Com o peso que têm na União Europeia, será que os alemães nos vão impor tal medida, como “uma regra comunitária”? Será que vou ter de “arriar” as calças e “alapar” o rabo sempre que precisar de fazer uma simples “mijinha”? Julgo que esta proibição tem a ver com os “salpicos” habituais nos tampos de sanita… Será? A culpa é das sanitas, pois deveriam ser mais altas e com um buraco bem maior para “acertarmos” pela certa. Mais curioso isto se torna quando se sabe que os alemães têm uma palavra depreciativa própria para os homens que urinam sentados, considerando tal posição muito pouco masculina… Bom, para já podem respirar fundo (e nós também…), mas foi necessário que um juiz contrariasse tal imposição e decidisse a favor dos homens, mantendo-lhes esse direito (ou não fosse um homem a decidir…). Em contrapartida, para evitar que as mulheres tenham a necessidade de se sentarem em sanitas imundas, conspurcadas e fiquem sujeitas a todo o tipo de contágios (nem tenham de se equilibrar em posição de “agachamento” tipo “Indiana Jones”, com a carteira numa mão e a outra a tentar evitar que a dobra das calças limpe a sanita), uma empresa criou o “womanfree”, um produto descartável, pequeno, higiénico, discreto e fácil de usar, que “permite às mulheres fazerem chichi de pé, em qualquer lugar”. E se a moda pega? Os urinóis passam a ser delas, para o que se recomenda que venham com um “alvo” desenhado no interior e com as palavras “aponta ao centro”. E pode ser que não apareçam salpicos…