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Será tudo culpa do “tempo”?

Hoje está bom tempo, um lindo dia de sol mas, nem sempre o tempo nos dá motivos para nos alegrarmos se bem que, para ficarmos ainda mais felizes com o tempo, o tempo teria de nos dar “sol na eira e chuva no nabal”. Vivemos ao ritmo do tempo, havendo um tempo para tudo: Tempo de nascer, tempo de colo, tempo de brincar, tempo de namorar, tempo de casar, tempo de fazer filhos, tempo de reforma e tempo de morrer. Pelo meio, muito tempo para trabalhar. É que, tudo tem o seu tempo, como a fruta. Há o tempo das uvas, o tempo das nozes, o tempo dos figos, o tempo das cerejas (se bem que, com a globalização, temos tudo todo o ano). Tudo precisa de tempo, daí não se poder produzir uma criança num mês só porque se engravidou nove mulheres…

O tempo não se fabrica, não se compra, não se vende (nem na farmácia), não encolhe, não estica. Mas usamos muito o tempo, se bem que não o consigamos desgastar. Quando não sabemos de que falar, falamos do tempo, “conversa de chacha” só para não estarmos calados. “Hoje está bom tempo”, “hoje está mau tempo” ou “está um tempo de m…”. Condicionamos a nossa vida e a qualidade do nosso viver à mera circunstância de estar sol ou chuva, como se uns fossem dias bons e outros dias maus. Devíamos tê-los todos por bons qualquer que seja o tempo, seco ou molhado, e celebrá-los como dias espetaculares para… estar vivo.

O tempo é desculpa para justificar os nossos incumprimentos. “Não tive tempo”, “o tempo não chegou” ou ainda “o tempo não deixou”, como se o tempo nos “agarrasse” e impedisse de fazer o que quer que seja. Não existe falta de tempo, existem prioridades (erradas?), quando não, falta de vontade… Até para o próprio como, por exemplo, “quem não tem tempo de cuidar da saúde, vai ter que arranjar tempo para cuidar da doença”. Neste caso, não se acaba por arranjar tempo?

Fazemos do tempo o “bode expiatório” dos nossos males: Se nos doem as costas ou as articulações, “é do tempo”, se temos calor ou frio, “é do tempo”, se apanhamos uma constipação, “é do tempo”, se temos gripe, “é do tempo”, se a madeira incha, “é do tempo”. Claro, tudo é culpa do tempo. “Raios partam o tempo…”

Até se diz “eu já não fui a tempo” ou “corri contra o tempo” como se o tempo fosse o inimigo contra quem tivéssemos de lutar, de combater. Claro que todos querem “ganhar tempo” como se o tempo se comprasse ou se merecesse, mais ou menos. Não, para “se ganhar tempo” é preciso “saber usar o tempo” pois ele não se perde nem se ganha, aproveita-se. Por isso, as pessoas comuns “passam o tempo” enquanto as outras “usam o tempo”. É que, aproveitar o tempo é difícil, tal como guardar um segredo ou perdoar uma ofensa. Daí não se compreender que alguém “mate o tempo”. O que, não sendo assassínio, é um “desperdício de tempo”.

Apesar do tempo ter um “andamento” constante, mensurável pelo relógio e pelo cronómetro, “pode ter” várias “velocidades”: É lento para quem espera, é rápido para quem tem medo, é longo para quem sofre, é curto para quem celebra, não anda para alguns e corre para outros. Mas será que as coisas mudam depressa porque o tempo corre ou as coisas mudam somente porque mudam? De uma coisa não há dúvida: O tempo não tem travões, por muito que se fale em “parar o tempo”… Daí o tempo estar em conflito com a calma, com a paciência e com o fazer bem. Todos temos o tempo à mesma velocidade e cada um faz dele bom ou mau uso. O problema, está em decidir o que fazer com o tempo que nos é dado. E a verdade é que, a nossa vontade, a nossa paixão e o nosso entusiasmo, não atrasam nem adiantam o tempo, apesar de dizermos que “o tempo passa”, “o tempo voa”, “o tempo não para”, “o tempo está a favor”, “o tempo está contra”, “o tempo falta”. Só que, não há “tempo extra”…

Umas vezes o tempo é nosso dono – “o tempo não me deixa trabalhar” – e outras somos nós donos do tempo – “hoje dou-te algum tempo de atenção”.

“O tempo dá-o Deus de graça, nós é que queremos vendê-lo”. Como conciliar interesses tão distintos? Tal como ”todos querem viver muito tempo… mas ninguém quer envelhecer”? Ou “o tempo é o melhor remédio” só que, se demorar muito tempo, pode ser tarde…

Hoje falei do tempo porque, por muito tempo que tenhamos, “não temos tempo para conversar” com filhos, familiares e amigos. Vivemos perto uns dos outros, às vezes “do outro lado da rua”, mas “estamos longe” e, durante meses, senão anos, “não temos tempo” para lhes falar, dizer sequer um “olá”. Até parece que vivemos “em tempos diferentes”…

Frequentemente passava diante da casa de um amigo de longa data e ia mentindo a mim mesmo: “Hoje não tenho tempo, paro na próxima”. E, nesta insanidade, adiei a visita uma semana, um mês, um ano, vários anos, sem que chegasse “o tempo certo” para visitar o velho amigo. Há dias, ao passar por lá pensei para comigo: “Hoje tenho de ter tempo…” E parei… Mas, devo confessar que fiquei arrependido… Sim, muito arrependido do “tempo perdido”, por não ter “tido tempo” de parar noutras ocasiões porque, a nossa amizade, merecia-o. Felizmente, esse sentimento está intacto e o prazer do reencontro foi grande e recíproco. Mas tenho de rever as minhas prioridades, de “como dar uso ao tempo”. Como tanta gente!!!…

Ah, e se “teve tempo” para ler esta conversa sobre “o tempo” e me disser o número de vezes que aqui “usei” o “tempo” – e só esse – pode contar com algum tempo do meu tempo se tiver tempo (e paciência) para me aturar… Mas, “dê tempo ao tempo” apesar de que, “o tempo não para”…

A lição de humildade de um campeão…

A humildade é um valor que tende a “passar de moda” neste nosso mundo agitado do “consome e deita fora”, esquecida como trapo velho desajustado no tempo. E se já é coisa rara entre o cidadão comum, o que se poderá dizer naqueles que atingem o sucesso económico e financeiro, o “estrelato” ou o mediatismo, que quase sempre são acompanhados de arrogância e exigências de “intocabilidade”, como se usufruíssem de algo parecido com a “imunidade parlamentar” dos deputados? Muitos têm-se perdido pelo fulgor dos seus talentos, pelo estrondo dos seus sucessos, pelo êxtase dos seus triunfos, ofuscados pelos aplausos, pelas benesses, pelas reverências de que são alvo. Certo é que nenhum se perdeu ainda por sentimentos de verdadeira humildade…

Fui diretor de prova de múltiplos eventos automobilísticos que o Clube Automóvel de Lousada realizou ao longo de mais de duas décadas, tanto nacionais como internacionais, em diferentes disciplinas. Um diretor de prova é o responsável de toda a organização desportiva, da gestão da equipa de colaboradores e por controlar tudo o que se passa no decurso das corridas. Uma das suas principais intervenções tem a ver com o comportamento dos pilotos em pista, agindo quando estes atuam à margem dos regulamentos, o que exige a aplicação de sanções mais ou menos pesadas como advertências, exclusões ou desclassificações, nada agradável para ninguém. Sempre que um piloto utilizava o recurso ao “toque” ou “empurrão” para ultrapassar quem lhe ia à frente, atirando a outra viatura para fora da pista ou provocando o “capotanso” do adversário para se aproveitar e fazer a ultrapassagem, mandava exibir a bandeira preta, sinal de que o prevaricador devia parar e sair da corrida, penalidade que apliquei sempre que as circunstâncias o exigiram, sem receio nem olhar a quem. Em quase todas as provas houve necessidade de exibir essa bandeira, para travar o ímpeto antidesportivo de alguns pilotos, muitas vezes fruto de “picardias” pessoais, pelo que tive de falar com muitos deles e, regra geral, as suas reações eram negativas, recusando responsabilidades no incidente de que saíram beneficiados como se nada tivessem a ver com o “atirar o adversário borda fora” para o passarem. Houve até quem manifestasse alguma agressividade com insinuações veladas, apesar de poderem recorrer para o “colégio de comissários desportivos”, uma espécie de “árbitros” que vigiam a prova.

Como a regra era a reação negativa e a não aceitação da justiça da penalidade, nunca esquecerei o ocorrido numa prova do Campeonato da Europa de Ralicross, realizada no Eurocircuito de Lousada. Sendo um evento de alto nível, estavam em jogo grandes interesses, não só de marcas de automóveis como de patrocínios a pilotos, cujos montantes dependiam dos resultados obtidos. Daí que, uma exclusão ou desclassificação, nunca era bem vista pelo atingido, especialmente pelos pilotos mais conceituados pois eram os que mais tinham a perder. Ora, numa das mangas de qualificação dessa prova estava em pista o campeão europeu em título Kenneth Hansen, piloto sueco apoiado pela Citroen várias vezes campeão europeu, em disputa com outro dos candidatos à vitória na prova. No arranque, Kenneth Hansen foi surpreendido pelo adversário que assumiu a liderança e não mais a largou, apesar da intensidade da perseguição e das muitas tentativas de ultrapassagem que lhe foi fazendo. Até que, em nova tentativa numa das curvas na parte alta do circuito, travou um pouco mais tarde do que devia, fazendo com que a sua viatura deslizasse um pouco e empurrasse o adversário para o exterior da curva, com ou sem intenção, mas aproveitando para o ultrapassar. Mas eu vi o “toque” e o “tirar partido” do incidente. Na passagem pela meta já o aguardava a bandeira preta por indicação minha, o que fez com que saísse de imediato da pista. Quando a corrida terminou e desci do posto de controle onde me encontrava, ele estava à minha espera. Dirigiu-se-me com um sorriso tímido nos lábios e começou por pedir desculpa por ter criado aquela situação, assumindo a responsabilidade da ocorrência e dando-me os parabéns pela pronta aplicação da penalidade. E foi-se embora renovando o pedido de desculpas… Incrível. Foi caso único nas minhas mais de duas décadas de direção de prova. Um gesto de humildade do Homem que não se escondeu atrás da arrogância típica dos vencedores, de alguém com um palmarés desportivo invejável, só suplantado pela grandeza do seu estatuto moral.

Kenneth Hansen, apesar da sua condição de piloto de exceção, de figura grande do desporto automóvel, admitiu o seu erro e aceitou as consequências como um ato de justiça, sem o querer passar, erradamente, para terceiros, fazendo jus à afirmação de que “o homem de sucesso demonstra a sua grandeza, não pela forma de comemorar os êxitos mas pela maneira como reconhece os seus erros ”…

Os bois de trabalho… e os “outros”

O boi de trabalho, praticamente extinto na região, é um animal que deveria ser credor da nossa homenagem coletiva. Durante séculos, foi a “força bruta” ao nosso serviço, especialmente na agricultura, e só viria a ser substituído quando apareceu o trator. A minha infância foi passada à volta da aldeia e da atividade agrícola, em que todos os lavradores tinham uma junta de bois, no mínimo, a sua “força motriz” para mover a nora, amanhar a terra para as sementeiras, quer fosse a lavrar ou a gradar, e puxar o carro de bois que era o principal transporte de cargas dessa época, tanto para os produtos agrícolas como para a lenha, o mato, as pipas de vinho, as madeiras e os materiais de construção, nomeadamente a carrear pedras da pedreira para as obras, algumas de proporções avantajadas.

Não era fácil ser boi nesses tempos, pelo enorme esforço que lhes era exigido, carreando cargas impensáveis. Por isso, os lavradores faziam questão de os cuidar bem, de os alimentarem convenientemente e de se orgulharem das suas juntas de bois.

O boi de trabalho foi desaparecendo progressivamente do litoral para o interior e, como dizia o meu amigo Bernardo, era ele que marcava o passo e o ritmo da vida nas zonas rurais, em contraponto com o ritmo imposto pelo automóvel nas cidades. E, dizia o meu amigo, qualidade de vida era a marcada pelo ritmo do boi… O resto, era agitação e stress.

Mas a nossa sociedade não lhe fez justiça, não reconheceu os seus méritos, tendo-o votado para o rol do esquecimento e, abusivamente e em tom depreciativo, “apaga-lhe” o nome mal é abatido. Porque será que só há “carne de vaca” esquecendo-se completamente o boi, ainda que tenha sido ele o sacrificado? Será que foram os homens, nos seus devaneios machistas e para um qualquer contento psicológico, a chamarem de “vaca” a toda a carne de bovino? Ou porque alguns (e ao que dizem as últimas estatísticas não são tão poucos quanto isso, antes pelo contrário…) têm o complexo de “boi” e dos seus “enfeites”? Talvez por isso mesmo se diga que “a arma do boi é a pior vergonha do homem”… e que “a infidelidade e a devolução de um cheque surgem pela mesma razão: Falta de cobertura”…

É natural que o boi, se pudesse falar, manifestava a sua tristeza por ver que as vacas lhe são subtraídas no período do cio, para serem entregues a um touro reprodutor, normalmente um macho adulto encorpado cujo único “trabalho” é “cobrir” e fecundá-las, atividade que suscita inveja em qualquer um. Até nos humanos… Conta-se que um jovem casal assistia à “cobrição” de uma vaca por um desses touros, quando a mulher que presenciava a “ação” do animal, com o intuito de “enviar” um recado ao marido, perguntou ao tratador: “Quantas cobrições faz o touro por dia”? O tratador respondeu que era variável mas, normalmente, “entre três a cinco”. Ao ouvir a resposta, deu uma cotovelada no companheiro e disse-lhe em surdina: “Estás a ver”? Mas, o marido não perdeu tempo e devolveu-lhe o “recado” com outra pergunta: “E é sempre com a mesma vaca”?

Mas, voltando ao nosso homenageado de hoje, dizem os brasileiros que “em briga de gaúcho, quem morre no fim é o boi…” E até se adapta à nossa realidade no caso do boi de trabalho, que foi “morrendo” sem que nos tenhamos apercebido disso. Não que seja caso para dizer que “o carro foi colocado à frente dos bois”, pois não é o caso. Aliás, sabe-se e é do senso comum que “o único sítio onde os carros andam à frente dos bois é… no supermercado.

Segundo as estatísticas, o Brasil tem mais bois (e vacas) que gente mas, estão com um problema grave. Dizem os estudiosos do meio ambiente que tão numerosos animais são uma importante fonte de emissão de gases, nomeadamente metano, que destroem a camada de ozono e aquecem o planeta. Tal verifica-se através dos “arrotos” frequentes dos bois, sem distinção dos que saem pelo “tubo de escape” na retaguarda do “chassi” ou pela abertura lá na frente, entre as mandíbulas… Já os nossos ambientalistas minimizam a influência dos bois nacionais na dita camada de ozono, não só pelo baixo número de efetivos como pelo tipo de alimentação, menos propícia à produção de gases tão letais. Não se sabe se nestas estatísticas estão incluídos todos os tipos de “animais com chifres”, até porque, muitos, como não o merecem, nem sequer sonham que os têm (dizem para aí que o “dito cujo é o último a saber” e que o difícil não é carregar o peso dos “chifres”… mas de sustentar a “vaca”). É que, segundo dados fornecidos por sites de relacionamentos extraconjugais implantados em Portugal como o “Secondlove” e Ashley Madison (que fizeram da infidelidade um grande negócio), os aderentes são da ordem das centenas de milhar, isto é, de gente que “enfeitou” ou vai “enfeitar” a cabeça de alguém… E elas até dizem que o fazem porque os maridos só pensam neles… Sacanas egoístas… Com ou sem culpas, vão ficar mais “engalanados” do que um carvalho centenário… Que se cuidem, pois já há muito se diz, “ guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás e da mulher por todos os lados”… Mas também podem encarar as coisas com naturalidade e estupidez natural, não fazendo disso um problema, considerando até “não ter enfeites mas, apenas e só… sócios”.

E este assunto veio “à baila” porque me disseram que, em Lousada, já existe um clube de “SWING”!!! É, esses clubes começaram por surgir no anonimato da grande cidade (é sempre lá que nascem estas “modernices”), foram-se disseminando e agora estão a chegar à província. Para os que não sabem do que se trata, recomendo que se informem bem antes de irem lá com a mulher, pensando que é um simples clube de dança pois, seguramente, ali a “dança” é outra… E não é para o “gosto” de qualquer “dançarino”…

Rituais de acasalamento…

Há dias fiquei parado diante da televisão a ver um programa sobre a natureza e o mundo animal, que passava imagens de aves no período de acasalamento e me deixaram impressionado pela beleza, excentricidade e colorido mas, sobretudo, por a maioria das exibicionistas serem… machos.

Os rituais de acasalamento de muitas aves são impressionantes, a começar pelas “aves do paraíso”, com os machos numa autêntica explosão de plumas douradas, danças estilizadas e leques em cores reluzentes de rara beleza, tendo esse comportamento como único objetivo atrair a atenção da fêmea. Até o “tangará”, pequena ave conhecida como “o dançador”, é visto todo o ano a saltar e a dançar com o intuito de atrair a fêmea ao seu “redil” para acasalar. Depois da consumação do ato, vê-a partir e volta à sua condição de “solteiro”, retomando as danças para conquistar outras fêmeas.

A escolha de parceiros entre as aves implica rituais que não são mais do que estratégias de sedução de um sexo para atrair o sexo oposto. Nessa escolha, procuram-se sinais evidentes de “bons genes” para transmitir aos filhotes daí que, machos e fêmeas, fazem “autopromoção” das suas qualidades, “vendendo imagem”. Nesses rituais, o macho é o mais exibicionista, no brilho, na multiplicidade de cores, na exibição de danças e cantos elaborados para além dos combates físicos pela “sua dama”, como “propaganda genética” indicadora das qualidades do potencial parceiro. As cores, a sumptuosidade das caudas e das penas são, aos olhos das fêmeas, uma “vantagem reprodutiva”, tal como acontece com o pavão em que o preferido é sempre o que tem penas maiores, mais coloridas e mais bonitas. É por isso que ele se “arma”…

Mas, se nas aves são importantes as características referidas para a “conquista”, já nos insetos é o vibrar das asas, nas rãs o coaxar e nos mamíferos dominantes, como o leão, o macho é escolhido pela força, pela capacidade de proteção que pode dar à prole. Muito curioso, é o facto de algumas aves oferecerem presentes à “fêmea amada” para aumentarem as suas chances de acasalar, nomeadamente alimentos e objetos coloridos, para além de outras manifestações “amorosas” que vão desde as exibição de habilidades, paradas de beleza, todo o tipo de vocalizações, exibições de asas e voos.

Ao ver o programa sobre estes comportamentos, pensei que estava a assistir aos “espetáculos” que nós, seres humanos, fazemos, noutras formas, noutras cores, noutros exibicionismos, mas com o mesmo objetivo: Acasalar.

Desde jovem, o homem cuida da sua aparência, toma banho, perfuma-se e veste-se bem, por forma a ficar mais ”atrativo” e chamar a si a atenção das jovens “fêmeas”, em “luta” com outros “machos”, num dos múltiplos rituais de acasalamento que praticamos, a maioria dos quais nem nos apercebemos que o são, sempre com o objetivo de acasalar. Na adolescência, algumas exibições de “macho” são positivas como, ser giro, alto, forte, atlético, exuberante, alegre, educado, galante e respeitoso mas, também se podem revelar pela negativa, com manifestações de rebeldia, violência ou grosseria. Muito do querer ser o melhor jogador, o modelo brilhante ou o artista do momento, para além dos objetivos financeiros, são rituais com o objetivo de fazer com que elas, os “alvos”, caiam nos braços do herói, que é como quem diz, na sua cama. Por alguma razão, à volta dos grandes artistas, das grandes vedetas, dos grandes atletas, “voam” numerosas “fêmeas histéricas”, com as “fortificações” totalmente rendidas e à disposição total do “conquistador”, a quem se entregam sem condições.

Enquanto o pavão exibe a beleza e o comprimento das suas penas para conquistar a fêmea, o homem “macho” exibe a roupa de marca, o relógio de ouro ou o último modelo de carro desportivo, quando não a casa mais espetacular… Enquanto o tangará se destaca por ser um grande “dançador”, o homem “macho” exibe os seus “atributos” no “pop” ou no “rock” (quando não na bebedeira ou pior…), fazendo o roteiro das “discotecas na berra” para mostrar que é o “rei da noite”. Se o leão usa a força para se impor aos outros machos, submetendo as fêmeas com a segurança que lhes dá, o homem ”macho” revela a sua “importância” pelo lugar que desempenha na empresa, pelo poder que tem na política ou numa organização qualquer, oferecendo “segurança” à(s) fêmea(s) ao exibir condição económica para lhes “botar casa” e garantir uma vida de “bem bom”. Enquanto algumas aves e outros animais presenteiam as fêmeas com alimentos ou objetos coloridos para que lhes “abram a porta” do acasalamento”, o homem “macho” oferece flores, anéis e joias diversas, perfumes e todo o tipo de prendas, para ser mais persuasivo e chegar ao mesmo objetivo.

E elas? Têm também os seus rituais de sedução (e não são poucos) pela via da beleza, das toiletes, dos penteados, da maquilhagem, dos gestos estudados, dos “pedaços de mau caminho” mais ou menos mostrados ou insinuados, das danças sensuais, dos olhares, dos “risinhos”, do roçar do corpo no corpo, das palavras sussurradas, do bambolear das ancas, do cruzar das pernas, enfim, uma infinidade de meios para que o “macho” escolhido lhe caia na “rede”, às vezes sem saber como nem porquê.

Em suma, por mais inteligentes ou superiores que nos consideremos em relação aos outros animais, temos também os nossos próprios rituais de acasalamento, com uma “pequena” diferença: Se nalguns desses rituais conseguimos “fazer gala” daquilo que nos distingue deles, noutros, revelamos o pior que há em nós e que nos torna no animal mais ordinário, remetendo-nos, como diz o povo, para o lugar “abaixo de cão”, sem querer ofender amigo tão fiel…

Eventos diferentes, pontos comuns…

Ao contrário do que é habitual, estou vestido de fato e gravata quando entro numa igreja antiga e bonita, toda renovada, onde não faltam flores, montes de lindas flores. Vê-se um grande número de familiares e ainda mais de amigos, reunidos nesta solenidade especial presidida pelo padre da paróquia, que celebra missa e faz uma homilia simples mas bonita, com palavras suficientemente simpáticas para fazer correr algumas lágrimas entre os presentes. Onde estou eu? Que celebração é esta? Deitem-se a adivinhar e vão dando palpites… Será um casamento? Ou, pelo contrário, estou num funeral? Não é fácil descobrir, tantas são as semelhanças…

Num funeral só é preciso um morto enquanto para um casamento são precisos dois (vivos, se bem que um deles rapidamente passará à condição de “morto”). Familiares e amigos elegantemente vestidos estarão num e noutro, com toiletes exuberantes e de cores garridas no casamento mas contidas e escuras no funeral, se bem que neste a roupa dos homens se tem tornado cada vez mais informal. Nos enlaces, as toiletes das senhoras cada dia são mais requintadas, mais “exclusivas”, e não voltarão a ser usadas noutro evento. A sua maquilhagem é cuidada e trabalhada e até os homens poem um “cheirinho” agradável. No funeral, só a “toilete” do falecido será usada naquela ocasião e em nenhuma mais… E, quanto a maquilhagem, para além das senhoras como é habitual, só nalgumas localidades o falecido “se entrega” nas mãos de alguém com o curso técnico de “necromaquilhagem” para ficar com “bom aspeto” diante dos “convivas”. Na véspera, de um lado há despedidas de solteiro(a) entradas pela noite dentro, regra geral muito animadas e bem regadas com todo o tipo de bebidas alcoólicas, enquanto no outro se faz o velório, noutros tempos atravessando a noite aquecida por uns copos de “bagaço” mas, nos dias de hoje, “a seco” e só durante o dia pois à noite é penoso.

Ambos são o ponto de encontro ideal para se encontrar velhos amigos e familiares, gente que se não vê há muito tempo, motivo de recordações entre os mais idosos e de partilha de histórias antigas vividas em conjunto. Contam-se anedotas e piadas, relembram-se amigos comuns, pergunta-se por outros a quem se perdeu o rasto, num animado convívio, mais contido num e mais alardeado noutro.

A música está nos dois acontecimentos pois, se na saída da igreja um se faz acompanhar da “marcha nupcial”, já o cortejo do outro tem na “marcha fúnebre” o compasso e a cadência do andamento. O choro e o riso, os abraços e todas as manifestações de afetos entre os que são mais ou menos próximos bem como outras reações emocionadas, estão presentes em qualquer dos eventos, onde “alguém” é o centro das atenções, a razão de ser “daquela” reunião.

Não há boda digna desse nome que não termine num “repasto” onde se “enfarda” à “fartazana”, mais que suficiente para encher a pança “até lhe chegar com o dedo”, sendo motivo de elogio ou de reprovação pelos “comensais” que “têm mais olhos que barriga”, muitos deles bem “avinhados” lá para o final do evento. Nesse aspeto, nos funerais estamos muito “atrasados” em relação a outros povos e a outras culturas, como na Bélgica, Irlanda e outros países e na África em geral. Por lá, após a despedida do finado, reúnem-se em casa da família, em restaurantes, pubs e outros locais, onde se come e bebe “à grande e à francesa”, em agradável confraternização entre todos os participantes na cerimónia, para “comemorar” e “honrar” a sua memória. Ora, por cá, não há sequer uma “bucha” para aplacar estômagos “a roncar”, nem sequer um copito de cerveja, mais na moda do que o velho “tintol”. E, sendo uma grande oportunidade de negócio absolutamente virgem entre nós, fico admirado por os organizadores de eventos, empresas de catering e restaurantes não terem ainda transformado tal prática em moda e até fazer dela um hábito. Andam a dormir “na forma”…

O fim da boda dá-se com a partida dos consortes num “caixão”, digo, carro, e com os familiares descalços e de sapatos debaixo do braço distribuindo entre si o resto dos bolos, insistindo uns com os outros para levarem mais e mais, em “clima de alegria”. Já no outro caso, o funeral termina com a “partida” do falecido quando desce à cova no caixão para, de imediato, a família se reunir e “disputar” a partilha dos “restos” (a herança), muitas vezes em “clima de guerra”, batendo-se uns com os outros para ver quem mais “abocanha” e quem agarra o melhor bocado.

Diz-se que tudo tem um fim. Mas, ao que parece, o casamento tem vários… No caso do funeral, este é o “fim”, a primeira marca que separa os mortos dos vivos. Aliás, é incrível como a morte acaba com a vida das pessoas… o que é quase sempre considerado uma tragédia até porque, a “tragédia termina com a morte”. Em contrapartida, há quem também faça do casamento uma tragédia em dois atos (civil e religioso), enquanto outros o consideram uma comédia dizendo que “toda a comédia termina em casamento”.

Enquanto a alegria caracteriza os rostos num, a tristeza é o tom geral do outro. Mas, a grande diferença entre os dois é muito importante pois, se o casamento tem “reversão” através do divórcio (há até quem diga que este começa ao mesmo tempo que o casamento ou, para ser mais preciso, o casamento talvez comece algumas semanas mais cedo…), já o funeral não tem a possibilidade de ser “revertido”, aquilo a que se poderia chamar o “divórcio da morte”. Ora, pessoalmente, não tenho medo da morte, apenas… não quero estar lá quando ela chegar.

Ah, tomei a decisão de não voltar a participar em funerais. Só vou estar no meu… porque não tenho opção.

Mas, o que é que eu ia fazer?

Estava no quarto quando me lembrei de telefonar a um amigo. Fui à sala, levantei o auscultador e… fiquei a dar voltas à cabeça. Não sabia a quem ia telefonar. Regressei ao quarto (por vezes resulta voltar ao “local do crime”) mas, nada. Já há muito deixei de me irritar e estou convencido que esquecimentos e lapsos de memória acontecem com toda a gente: “O que é que eu ia fazer?” “O que é que eu estava a dizer?” “Como é que aquele se chama?”

Comecei cedo a “treinar”, mas vem-se agravando com a idade. Tinha dezoito anos e estudava na Escola Agrícola onde passava o trimestre sem vir a casa, sem telefonar e em que a única comunicação com a família era uma carta ocasional para dar sinal de vida. Quando tiramos uma fotografia da turma e tive direito a uma (coisa rara à época), entendi que a devia enviar aos meus pais. Escrevi-lhes uma carta a acompanhar e meti-a no correio. Quando fui ao quarto, encontrei a fotografia em cima da cama. Chateado, escrevi nova carta que fui a correr colocar no marco do correio mas, ao voltar ao quarto, vi que a fotografia permanecia em cima do travesseiro, teimosamente. Enfim, só a consegui enviar à terceira tentativa…

A memória é uma espécie de “armazém” onde guardamos coisas. Quando precisamos delas, vamos à procura mas, por variadíssimas razões, ou não as encontramos ou nos escapam em segundos. Estudiosos brasileiros dizem que os esquecimentos têm a ver com a gravidez (não me recordo de ter estado “grávido”), com a menopausa (devem estar a gozar comigo…), por não comer carne suficiente (será que terei de ser carnívoro como um leão?) ou por estar a fazer uma viagem de longa duração – no meu caso deve ser isso, pois estou “em viagem” há mais de sete décadas… Alguns neurologistas afirmam que acima dos sessenta anos os lapsos de memória aumentam de frequência pois a memória vai-se escapando, tal como a massa muscular. Daí ser necessário fazer exercícios para a melhorar. E o que recomendam? Aprender coisas novas como pintura, línguas, música, habilidades, isto é, mais coisas para… esquecermos. Dizem até que devemos ficar atentos ao que é importante… para esquecer o resto. Combater o stress e a ansiedade – por acaso, não seria melhor esquecê-los? Fazer exercícios mentais e físicos, quando tudo nos pede para ficarmos a dormir. E, dormir bem. Quem não quer?

A publicidade quer vender-nos medicamentos para ficar com… memória de elefante. Se calhar, só nos lembraremos do preço do produto… A Teresa tem uma técnica pessoal para não se esquecer de algo que se lhe peça: Faz uma cruz nas costas da mão com a esferográfica. Mas, já me disse que muitas vezes olha para a cruz… mas não sabe o que significa. Acontece a todos, até a um ilustre e conceituado advogado de Lousada quando foi ao Porto com a esposa. Ao fim da tarde regressou a casa e, só quando perguntou aos filhos onde estava a mãe, é que se apercebeu que se esquecera dela na cidade invicta…

Eu, confesso, sofro de “esquecimentos” crónicos, “refinados” com a idade. Perdoem-me as pessoas que tenho deixado “penduradas” à espera, por esquecimentos de que não sou culpado. Bem tento evitar que isso aconteça e até uso uma agenda e papelinhos como “auxiliares de memória”. O problema é que me esqueço também de os ler… E os “papelinhos”? Também acabam por ficar “esquecidos” por aí… Assim, como é que me consigo lembrar? Há ocasiões em que saio para me encontrar com alguém mas, uma simples chamada ou uma paragem para um recado são suficientes para “apagar” o que ia fazer, desviando-me para algo bem diferente. Imagino o que esse alguém deve ficar a pensar de mim… Nalguns casos, é um “apagão” total, que só vem ao de cima tempos depois, ao encontrar o ofendido…

Existem esquecimentos “Convenientes”, que dão muito jeito para resolver situações, os “Perigosos”, que temos de evitar a todo o custo pelas consequências, à cabeça dos quais coloco o “aniversário da mulher”. Um enorme perigo… Os “Esfarrapados”, que não passam de “desculpas de mau pagador” – e consigo lembrar-me dos “amigos” que se “esquecem” de pagar o que lhes emprestamos e outros caloteiros que se “esquecem” sempre do livro de cheques.

Porque será que as coisas que eu gostaria de esquecer são aquelas que mais vezes me veem à “mona” e as outras, que quero lembrar, são precisamente as que esqueci? Será que as “arquivei” no “sítio” errado?

Dizem que os “lapsos de memória” se devem à redução do número de neurónios, mas isso só me facilita a vida: São menos, é mais fácil geri-los… Por isso, podem-me contar um segredo à vontade que fica bem guardado. Nunca mais me lembro do que me disseram… Aliás, contaram-me alguma coisa?

Ter uma memória péssima e esquecer, dá-nos o grande privilégio de nos divertirmos sempre com as mesmas coisas, como se fosse a primeira vez. Como me esqueço do que contei ontem aos amigos, amanhã posso voltar a repetir-lhes as mesmas histórias, as mesmas piadas, pois são sempre novas… E eles acham graça… até porque também as esqueceram…

Ora, é precisamente o que acontece com os políticos que nos prometeram um país melhor, uma vida melhor, um mundo melhor. Muitos já estiveram no “poleiro” e “esqueceram-se” do que haviam prometido por várias vezes, como eu me esqueço das histórias que contei aos amigos. Por isso, voltam sempre a “jurar” dar-nos tudo, como se fosse a primeira vez, com o mesmo “entusiasmo”, com o mesmo “desplante”, com a mesma “cara sem vergonha”, seguidos pelo mesmo séquito de “lambe-botas”, pela mesma cáfila, pelas mesmas “moscas” pousadas na… E até se convencem do que dizem, “esquecendo” o país e as pessoas que cá vivem na ânsia do poder.

Será que “prometer” estraga a memória do “computador”?

Uma lição que vem da Madeira…

Há dias, ao entrar no escritório, fui recebido pelo ladrar defensivo de uma cadelita que, “colada” à Teresa, parecia querer proteger o seu “território” e a sua “dona”. De raça pequena, pelo muito preto e brilhante, tinha duas manchas castanhas sobre os olhos o que lhe conferia uma beleza original. Percebi que era mais um “protegido” da Teresa e por isso aproximei-me daquela “dez reis” de cão, baixei-me e acariciei-lhe a cabeça, fazendo com que os latidos se transformassem num abanar da cauda em manifestação de alegria. Soube então que, quando a Teresa regressava ao trabalho após o almoço, viu-a a cambalear pela estrada. Apercebendo-se logo que algo não estava bem, e ao contrário do que seria habitual num cidadão comum, parou e fez com que os carros que vinham atrás de si parassem também, para socorrer o animal e evitar que fosse novamente atropelado. Pegou-lhe com cuidado e colocou-a no carro, seguindo para o trabalho. Quando a levava ao colo para o escritório, viu que estava ferida e “zonza”, sem saber se seria de fraqueza ou como consequência do atropelamento. Deitou-a junto à sua secretária, deu-lhe de comer e cuidou-a, fazendo com que acabasse por adormecer de cansaço.

Por isso, ao ver-me entrar, a pequenota “avisou-me” para não interferir no seu sossego (recém adquirido), provavelmente depois de ter escapado ao inferno que é o abandono de animais. E isso vir-se-ia a confirmar porque, para esclarecer a dúvida se teria dono ou se era mais um caso de abandono, depois de a fazer tratar por um veterinário, a Teresa deu-se ao cuidado de percorrer os lugares próximos do local onde a encontrou indagando os moradores, mas os resultados foram nulos, tudo indicando que alguém “despejara” o animal da sua vida.

Ali agachado junto da cadelita, acariciando-lhe o dorso e a cabeça, ela “disse-me” muitas coisas que nós, “ditos” seres humanos, precisamos de ouvir repetidamente. Porque é que a abandonaram depois de ser atropelada? Se há condutores que fogem quando atropelam pessoas, o que podia ela, animal insignificante para muitos humanos, esperar de quem trata assim os seus semelhantes? Achava até que a culpa seria sua por andar distraída, na sua ansiedade de querer encontrar o dono que tanto amava. Sim, ela e qualquer cão, entregam o seu coração ao dono, a quem são fieis e leais até à morte, independentemente da forma como são tratados. Se ele lhes dá de comer ou fome, se acaricia ou bate, se afaga ou dá pontapés, eles aceitam, porque é essa “a natureza” do ser humano (como é da natureza o lacrau picar quem o ajude). E continuava à procura do dono porque acredita que foi “distração” dele quando a atirou janela fora ou a fez sair do carro longe de casa e arrancou à pressa. “Que vai ser dele sem mim? Quem o vai receber ao portão? Quem o leva a passear? Quem lhe faz carícias e se deixa acariciar por ele sem pedir nada em troca?”

Ainda combalida, confessou que já tinha falado com um “passador” para fugir, pois aqui corria risco de vida. O cão que está a tratar disso não “cobra” nada como fazem esses “passadores” humanos lá para a Síria e outros bandas (cá também os há…), traficantes que “roubam” quem precisa de fugir para salvar a vida. Se ela continuasse na rua, seria chamada de “cão vadio”, como os vagabundos das grandes cidades que a sociedade quer retirar da rua (há quem até os queira “erradicar”, tal como aos velhos, para não consumirem recursos, deixarem de estorvar e não darem “mau aspeto” aos locais por onde andam). Ora, a sociedade dos homens também não aceita os “cães vadios” por razões que ela não entende e, por isso, os querem recolher em “hotéis” chamados Canis Municipais, alguns que não passam de “pensões” rascas. Mas os animais sabem o que os espera e fogem, pois desde cachorros estão informados que o Canil é comparado aos campos de extermínio nazi, para onde se era levado à força, enfiado em camaratas (jaulas) apinhadas e sem condições de higiene e sanidade. Ali se ficava a sofrer, a lamuriar (ladrar), com falsas promessas quando, afinal, se acabava nas câmaras de extermínio, gaseados e mortos. E, tirando aqueles poucos que algum humano caridoso decide adoptar, o extermínio também acontece no Canil ao fim de uma semana ou duas, conforme o prazo previsto no seu Regulamento, uma espécie de “prazo de validade” atribuído por alguns homens. Só que não lhe chamam extermínio mas sim “abate”!!!…

A pequena cadela confessou-me que, durante a noite, grandes grupos de cães e outros animais de estimação ditos vadios, estão a fugir para o litoral, acompanhados dos tais “passadores”, gente que conhece os caminhos mais seguros para não serem apanhados pela “ramona” dos animais. O objetivo é embarcá-los clandestinamente no porão de barcos e aviões para chegarem à “Terra Prometida”, neste caso à… ilha da Madeira. É verdade, ali estarão a salvo porque naquela região, está escrito em letra de lei, que É PROIBIDO O ABATE DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO.

Nestas histórias, duas coisas são reais: A recolha da pequena cadela pela Teresa e a proibição do abate de animais de estimação na Madeira, um triunfo da civilização sobre a barbárie.

Dizia Gandhi que “a grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser medidos pelo modo como os seus animais são tratados” ….

Será que neste país só os madeirenses são capazes de atingir essa grandeza e essa dimensão moral? E nós, continentais e açorianos, não somos capazes de dar esse passo, de deixarmos de exterminar animais que foram companheiros fieis e leais a muitos de nós? Saibamos seguir o exemplo…

Quem vê caras, não…

Diz o povo que “quem vê caras não vê corações”. Mas, a verdade é que é o povo que põe rótulos nas pessoas apesar de as não conhecer, somente em função da cara: “Aquele tem cara de sério e honesto” e “o outro tem cara de vigarista”. E serão? Provavelmente, não, mas esses são os estereótipos que se criam e que nos levam a “classificar” gente que não conhecemos. Para um velho amigo meu todos temos cara de ladrão porque, diz ele, quem não tem cara de ladrão… só pode ter cara de burro.

A cara, normalmente reflete aos outros uma “imagem”, se bem que muitas vezes não corresponde à realidade. Por se ter um rosto sorridente não quer dizer que se seja simpático e, muito menos, boa pessoa. Tal como, aqueles cujas feições são sérias e fechadas não podem ser catalogados de maus e antipáticos. No entanto, temos tendência a “julgar mesmo sem conhecer”. Ora, mesmo aqueles que aparentam ser rigorosos, difíceis ou inacessíveis, são pessoas como as outras, podendo ser simpáticas e de bom trato.

Um comerciante de adubos que vendia produtos da empresa onde eu trabalhava, estava a tentar angariar a encomenda de um grande agricultor alentejano. Para o conseguir, solicitou apoio técnico à nossa empresa no encontro com o cliente que iria ocorrer em Évora. Foi destacado um colega, tendo-lhe sido fornecidas algumas indicações pelo distribuidor, nomeadamente o dia, hora e local onde se realizaria a reunião. Além destas, havia uma nota especial referindo que o agricultor era uma “pessoa difícil” e exigia pontualidade. Ora, ele tinha dificuldade em cumprir horários pelo que, à hora marcada, não apareceu, e o comerciante “viu-se e desejou-se” para convencer o agricultor a esperar. Só quarenta minutos depois chegou com um ar esbaforido e aflito. “Que raio se passou para aparecer a esta hora e assim”, perguntou-lhe o agricultor. “Desculpe, mas a viagem foi tão complicada que, na curva da ponte, até entrei com um pneu no ar”, disse-lhe ele. “Oh, homem, também não era caso para tanto. Ainda podia ter tido algum acidente”, retorquiu o alentejano já num tom menos severo. Então, ele aproveitou a deixa e clarificou: “Não, não foi da velocidade. O pneu que eu trazia no ar … era o suplente.” E o agricultor desfez-se a rir, deixando a porta escancarada para o negócio que se seguiu.

Quando fui com outros responsáveis do Clube Automóvel de Lousada a Paris, assistir a uma prova de Ralicrosse com o objetivo de convidar os pilotos a participarem na corrida de candidatura ao campeonato da Europa que iríamos organizar semanas depois, alguns pilotos aconselharam-nos a pedir a colaboração do observador da FIA ali presente, um alemão austero e tido como muito difícil. Hesitamos perante o seu ar impenetrável, cabelo “espetado” e bigode fino, mas acabamos por abordá-lo já que nada tínhamos a perder. Ouviu-nos, mas parecia que estávamos a lidar com um bloco de gelo, embora fosse objetivo, rigoroso e preciso. Verdade é que, a partir desse primeiro contacto “gélido”, muitos outros se seguiram e entre nós nasceu uma enorme e profunda amizade pessoal que só foi interrompida com a sua morte súbita anos mais tarde. Ainda hoje recordo com muita saudade o Bernd…

Quem não andou anos a evitar alguém de quem tinha péssima impressão apesar de nunca ter falado com ele, com base no aspeto, no olhar ou numa palavra e, depois de uma primeira conversa, às vezes acidental, percebeu como estava enganado? Carregamos em nós alguma sensação de mal estar em relação a pessoas com quem nunca falamos e de quem nada sabemos, com base nos “modelos” que criamos na mente pelos quais classificamos as pessoas de boas ou más. Temos até medo de falar com algumas… Já me aconteceu adiar esse primeiro contacto por pensar que ia encontrar o “bicho-papão”, para vir a descobrir que, afinal, era só medo meu, esquecendo a máxima de “faz o que receias e o receio deixará de existir”. Aliás, isso também acontece com algumas pessoas que precisam de falar comigo num ou noutro momento e que acabam por o confessar. Para essas, também estava no catálogo dos maus e inacessíveis…

O inverso também se coloca. O meu primo estava com o João no café Avenida quando entrou um homem que, ao vê-lo, fez uma algazarra como se tivesse encontrado o maior amigo, dando-lhe um grande abraço. Apresentou-o ao João e conversaram animadamente alguns minutos, até que o fulano se despediu e foi embora. Mal acabara de sair, o meu primo disse ao João: “Toma atenção, este tipo é um vigarista. Nunca lhe emprestes dinheiro, pois ele não paga a ninguém. E, cuidado com as manifestações de amizade em que ele é especialista”. Algum tempo depois reencontraram-se no mesmo café e o João confidenciou-lhe: “Você tinha razão. O fulano deu-me o golpe”. “Mas como é que isso foi possível se eu te avisei”, disse-lhe o meu primo. “Pois é, ele apareceu e abraçou-me como se fosse meu maior amigo e me conhecesse há muito tempo. Fez-me uma festa de tal maneira que, quando me pediu o dinheiro, eu não podia dizer-lhe que não. E com aquela cara…”, disse o João conformado.

É só campanha eleitoral, meu irmão…

Pois é, rapaziada, este domingo “bou botar”. Depois duma longa campanha eleitoral, deram-me um dia de sossego para meditar e escolher o quadrado onde vou pôr a cruzinha. Já comecei a praticar porque é um exercício meio difícil já que a esferográfica pode “fugir-me” e deixar um rabinho fora do tal quadradinho, motivo para impugnação das eleições. Ora, não quero que eles gastem mais uma data de “massa” por minha culpa. Cá para mim não devia ser um quadrado, já se não usa desde que o D. Nuno Álvares Pereira o usou para derrotar os castelhanos. Era melhor uma roda do tamanho de um ovo… estrelado, pois era mais prático fazer a cruzinha e ficava mais bonita. Mas, “manda quem pode e obedece quem deve”.

Estou com dificuldades em “pesar” as “promessas” de cada um e assim poder avaliar os “promitentes”, até porque algumas delas não passam disso mesmo e tenho de as pôr no caixote do lixo para não enganarem. Como “pesar” promessas de “acabar com a austeridade”, “devolver os cortes nos salários e nas pensões”, “sair do euro”, “baixar o deficit”, “baixar os impostos”, “controlar a dívida”, “criar emprego”, “sair da NATO”, “aumentar os subsídios”, “diminuir o horário de trabalho”, “acabar com as touradas”, “nacionalizar a TAP”, etc., etc.? E as promessas até vão aumentando à medida que as sondagens dão pro torto. É o chamado “último folgo dos afogados”: Agarram-se a tudo para tentarem safar-se…

Se eu fosse candidato, fazia poucas promessas, mas boas, tais como: Dobrar salários e pensões, acabar com os impostos (pelo contrário, o estado é que nos devia pagar um imposto para sermos cidadãos do país pois, sem nós, não há estado). Aumentava o “fim de semana” para seis dias e só se trabalhava à terça-feira, entre as dez e as onze, de três em três meses nos anos bissextos. Os três meses de férias seriam de graça, mas obrigatórias em hotéis de cinco estrelas no Algarve, para que lá se voltasse a falar português (ou aquela região já não é nossa?). Como as sardinhadas são uma tradição bem portuguesa, a pesca seria livre. Ah, e os ministros andariam a pé, da entrada do ministério ao gabinete…

Mas podem ficar descansados os que fazem todo o tipo de promessas, em especial na campanha eleitoral, eu não estou nessa. Aliás, esta conversa sobre a campanha eleitoral só veio à baila porque o meu filho nas suas deambulações pela net encontrou e mostrou-me um poeta e cantor brasileiro a declamar poesia popular e gostei muito. Por isso, aqui transcrevo a poesia de Maviael Melo, embora sem o ênfase e a graça da declamação, mas que é oportuna. Vamos a isto?

– O senador do estado passou desta para melhor, ou pra outra bem pior e eu vou relatar o passado: Chegando o pobre coitado na porta do firmamento, o S. Pedro disse “um momento, tenha calma cidadão, fica aqui a petição e assine o requerimento, pois aqui tem governia, tudo está no seu lugar e você vai optar, onde quer passar o dia. Depois, em democracia, me dará sua resposta e fará sua proposta, de ir pro céu ou pro inferno, do jeito que você gosta”. Então, o senador, assinou a papelada. Descendo por uma escada, entrou no elevador e desceu com o assessor, para o inferno conhecer, para depois escolher onde queria morar e qual seria o lugar, que escolheria viver.

E no inferno ele viu, um campo todo gramado, verdinho, bem arrumado, como os que tem no Brasil. Um homem grande e gentil disse-lhe “eu sou o Cão, muito prazer meu irmão, aqui você é quem manda” e deu ordens para que a banda tocasse outro baião. E terminou a visita numa mesa repleta, numa assessoria completa no alpendre palafita, uma assistente bonita, cerveja, whisky e salgado, dinheiro pró escarpiado, charutos dos bons e cubanos, e foi relembrando os anos e dos acordos fechados. Encontrou com os amigos dos tempos áureos de glórias, relembrando as histórias que já haviam esquecido, whiskies envelhecidos não paravam de chegar. Parecia um marajá, jogando carta e fumando, mas já estava chegando a hora dele voltar. E entrou no elevador e ele tornou a subir, para então se decidir e finalmente propor. E no céu o senador viu um cenário de paz, um sereno aliás, anjinhos tocando lira. S. Pedro disse “confira, escolha e não volte atrás”. Era um silêncio danado, sem whisky, sem cerveja, no máximo, uma cereja e ele ali agoniado, disse assim ressequiado, “já tomei a decisão, quero ir morar com o Cão por lá me sentir melhor, não que aqui seja pior, é questão de opinião”.

Pedro disse “pois bem, pode ir pelo elevador que logo meu assessor fará o que lhe convém”. O senador disse “ámen”, já pensando no sucesso que seria o seu regresso lá pro quinto do inferno. Lá também seria eterno e a tudo teria acesso. E assim que ele desceu numa imensa alegria, sentiu logo uma agonia, algo estranho percebeu, mal atrás desapareceu a porta do elevador. O pobre do senador só via fogo e tortura, deu-lhe logo amargura naquele cenário de horror. Nisso ia passando o Cão, que lhe deu uma chibatada, sumindo em gargalhada, remexendo o caldeirão e empurrou o ferrão, deixando a testa ferida e ele, “puto da vida”, disse “rapaz, sou eu, o senador, se esqueceu? Qué daquela acolhida? Eu peguei o bonde errado ou o “cabra” atrapalhou e para cá me mandou, deve ter-se enganado? Meu lugar é no gramado, jogando carta e fumando. Eu não estou lhe cobrando, você é que ofereceu, whisky, se esqueceu? Só posso estar delirando… E o diabo a seguir, disse “seja bem vindo, mas o que está dito, eu não vou poder cumprir. Quando estiveste aqui, naquela ocasião, não era outra coisa não, também não me leve a mal, foi Campanha Eleitoral e eu… ganhei a Eleição”.

As voltas que a “moral” deu…

A senhora estava escandalizada e desabafava com amigas da sua idade, falando sem parar do que vira nas noitadas e manhãs de rescaldo das Festas Grandes de Lousada. Indignou-se com o elevado número de jovens bêbados a arrastarem-se pelos cantos, estendidos atrás de sua casa e a fazerem “tristes figuras”, muitos deles que “ainda nem teriam quinze anos de idade”, que a levava a questionar “como é que os pais o permitiam” e porque seria que as autoridades não intervieram para “impedir o atropelo da lei, fechando os olhos à venda de bebidas alcoólicas a menores”. Contou ainda dos olhos vidrados dos fumadores de “charros” mas, a sua maior revolta, era pelas “poucas vergonhas” daqueles (e eram muitos) que não se inibiram de fazer sexo “à descarada”, tendo mesmo “esbarrado” com um casal em pleno “ato” na entrada de sua casa, sem que a sua presença os incomodasse ou fizesse deixar “o serviço a meio”. “Já não há moralidade nenhuma”, rematou.

Moralidade significa a adesão aos costumes considerados essenciais para a saúde e preservação da sociedade. Uns, não passam de convenções (mais praticados do que pregados) mas outros são vitais para o bem comum (mais pregados do que praticados), uma espécie de obrigações que reclamamos dos nossos vizinhos, mas às quais não nos subordinamos. A história diz-nos que as alterações económicas da vida das pessoas determinaram também mudanças no código moral. Acompanhei essa evolução com a passagem da “sociedade agrícola” para a “sociedade industrial” e “pos-industrial”. Nestas mudanças, a moral, que tinha uma variação lenta, foi sacudida pela tempestade dos tempos e alterou-se profundamente.

Quando nasci, a agricultura ainda era o suporte da economia e da vida da maioria das pessoas e a moral impunha a castidade, a monogamia sem divórcio, o casamento indissolúvel, a proibição de relações sexuais antes do casamento e o ter muitos filhos (que eram sinónimo de mão de obra gratuita). Com o aparecimento das fábricas, homens e mulheres foram “enfiados” em barracões onde passaram a travar lutas diárias com máquinas cada vez mais complexas, tantas vezes em espaços mal iluminados e sem condições, mas onde se exigia mais e mais produção em processos repetitivos e penosos, que afetaram a conduta humana. E, com a saída das mulheres de casa para as fábricas, ter filhos deixou de ser uma riqueza e passou a ser um problema. A necessidade de reduzir a prole fez surgir os contraceptivos e o sexo deixou de implicar reprodução para se tornar entretenimento e prazer, com alteração profunda do código moral.

A industrialização provocou o crescimento dos centros urbanos, que criaram todas as dificuldades para o casamento e todas as facilidades para o sexo. A repressão do desejo, possível na sociedade agrícola, tornou-se difícil numa sociedade que retarda o casamento e, inevitavelmente, a carne rebela-se e o controle de si próprio fraqueja. O cavalheirismo e a galanteria da minha infância não sobreviveram à emancipação feminina. A castidade, que era virtude, passou a motivo de zombaria e o pudor desapareceu. O homem passou a gabar-se da variedade dos seus pecados e a mulher reclamou um padrão de vida igual, sendo-lhe permitido um rosário de aventuras que tornaram comuns as relações sexuais antes do casamento. Foi assim que o velho código moral caiu aos pedaços e o mundo urbano alterou os seus julgamentos.

Leibnitz dizia que “casar-se é um ato que requer uma vida inteira de ponderação”. E os rapazes acabam por concordar com ele, de tal forma que muitos ponderam tanto, que morrem solteirões. O “dar o nó”, que antes era a forma de contentar a carne e estabilizar a conduta humana, perdeu interesse entre os candidatos, ao verem que as suas vantagens podiam ser conseguidas sem o seu ónus.. Assim, o casamento não só encurtou no início, com o atraso na idade de casar, como no fim, com a simplificação do divórcio.

O surto fabril aglomerou milhões de criaturas no anonimato protetor da vida citadina, emancipou a mulher com experiências (e práticas) sexuais antes do casamento abertamente aceites, com a benesse do avanço nos métodos contraceptivos. A riqueza afrouxou a rigidez do código moral (é que a pobreza facilita a virtude e de muitas tentações se livra o homem pelo facto de serem caras). Se antigamente se discutia se era pecado segurar a mão de uma rapariga, o pecado, hoje, é deixar fugir a oportunidade de a segurar…

Do ponto de vista moral, a visão é feita em função da idade pois condescendemos (e praticamos) enquanto jovens e pregamos quando velhos. Apesar dessas alterações profundas, os que, como eu, já perderam a mocidade mas ainda não enquistaram na velhice, devem tentar compreender os jovens e aceitar a mutação permanente da moral – cada vício já foi uma virtude e pode voltar a sê-lo, como o ódio se torna respeitável na guerra. Aceito com naturalidade a evolução dos códigos morais (não querendo com isso dizer que são melhores ou piores) mas já fico preocupado com os sinais de “amoralidade”, de ausência de moral que vamos encontrando aqui e ali, um caminho perigoso para a saúde de qualquer sociedade.

Entre muitas outras razões, admiro a minha mãe por ter uma capacidade invulgar de tolerância e aceitação das alterações a que assistiu ao longo de noventa e dois anos. Encara sempre uma nova situação, por mais insólita que seja, com naturalidade, e acha que a nossa consciência é o melhor livro de moral… e o menos consultado.