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Não esqueçamos, somos todos “peões”…

O peão, aquele “animal” estúpido e zarolho que só atrapalha o trânsito, atravessa a rua sem avisar e está a mais nos meios urbanos (e fora deles) é, por isso mesmo, o alvo a abater pelos automobilistas quer nos lugares adequados de atravessamento de ruas quer perto ou longe deles. Embora as estatísticas digam que o número de peões abatidos nas passadeiras tem vindo a aumentar, precisamente nos locais onde, supostamente, não deviam ocorrer, ou seja, porque é quando o peão, supostamente, cumpre a lei, há quem considere os “abates” insuficientes para “descongestionar” o tráfego, culpando-se os automobilistas de “maus caçadores”, pouco expeditos a “despachar” essas “peças retiradas do tabuleiro de xadrez”. Aliás, até dizem que o sinal verde do semáforo é uma autorização de abate da “espécie”. Mas os peões não estão em vias de extinção, antes pelo contrário, e o aumento significativo dos impostos sobre os combustíveis não ajudou em tal tarefa. Por tudo isso, é pública e notória a luta entre peões e automobilistas que, nem uns nem outros conseguem ganhar, mais parecendo a guerra entre Israel e os árabes, também sem fim à vista. Os peões, em muito maior número que os seus adversários e, por isso, um “eleitorado” mais “interessante” a quem os políticos têm de dar “mais atenção”, foram marcando pontos ao conseguir que as autarquias colocassem passadeiras e semáforos com apito, construíssem passeios em tudo o quanto é sítio e pusessem grades de proteção nalguns locais, instalassem passagens aéreas para atravessar vias de grande movimento e até elevadores panorâmicos, uma espécie de “abrigos e castelos” de defesa contra o inimigo. Mas, tais conquistas não foram suficientes porque os seus adversários vão ocupando, sempre que podem, tais espaços, ao ponto de ser impossível caminhar nos passeios de algumas ruas com tanta “sucata” a impedir a passagem. Os peões são o “elo mais fraco” desta luta desigual, pois “combatem” desarmados e de mãos vazias contra condutores “entrincheirados” e comodamente instalados nos seus “carros de combate”, tantas vezes esquecidos dos direitos dos outros na sua “pressa” de chegar a lado nenhum.

Se já não é fácil ser peão nos dias solheiros, pior ainda nos dias de temporal com que este inverno nos tem brindado, assolados por chuva intensa e vento forte, mesmo para um peão exemplar daqueles que está bem informado do seu papel e tem preparação física e mental adequada para a luta do dia a dia contra os elementos. A preparação física para enfrentar um dia de chuva é imprescindível pois são duras as provas de “levantamento de pesos” para erguer, abrir e empunhar o guarda chuva, do “salto em comprimento” para transpor as poças e lençóis de água que surgem no caminho e de “esgrimir” o “chucho” aberto contra as rajadas de vento.

E dessa luta contra a chuva e o vento as provas de fracasso são mais que muitas, bem visíveis nos caixotes do lixo atolados de guarda chuvas partidos, virados ao contrário, despojos de uma guerra perdida, fazendo lembrar os milhares e milhares de coletes salva vidas amontoados em lixeiras improvisadas na ilha grega de Lesbos, também eles sinal de uma outra guerra em que todos estamos a perder. Mas tudo isso não basta, não é o suficiente porque, quando o peão pensa que conseguiu “defender-se” razoavelmente bem da chuva e do vento e, sem se cuidar, vira as costas ao maior inimigo, é atingido “à falsa fé”, de lado, por trás ou de frente, muitas vezes sem saber como nem por quem.

Naquele dia eu estava sentado no carro parado na berma, o meu “abrigo” contra a ventania e as bátegas de água que mais pareciam despejadas a balde. Caminhando pelo passeio em sentido contrário e do outro lado da estrada, uma mulher “embrulhada” no anoraque segurava com grande dificuldade um pequeno guarda chuva apontado contra o vento, num equilíbrio precário, manifestamente insuficiente para evitar ser molhada da cintura para baixo pela chuva “em diagonal”. Enquanto observava esta luta inglória, vi surgir um carro no mesmo sentido em que ela caminhava (e pelas suas costas) com velocidade excessiva e, ao aproximar-se, “encostou-se mais à berma” “varrendo” o rego cheio junto do passeio e lançando uma “chapada” de água lamacenta sobre a mulher. Apanhada pelas costas desprevenida, perdeu o equilíbrio e com ele a posição do guarda chuva, fazendo com que o vento o virasse ao contrário e partisse as varetas, deixando-a exposta e desprotegida à chuva que não parava de cair. Enquanto o automobilista prosseguiu o seu caminho estrada fora, indiferente ao que fez e instalado comodamente no seu “posto de ataque”, a mulher, com um ar de desalento, olhou para si, enlameada e molhada de alto a baixo e a sua reação a esta “agressão”, a única de que dispunha no momento, foi um grito de raiva bem lá do fundo: “FILHO DA P…”

Esquecemos demasiadas vezes que todos somos peões muito antes de, também, sermos automobilistas e, até por isso, nos devíamos consciencializar que poderíamos ter sido nós a estar no lugar daquela mulher. Num país civilizado, um automobilista é “um peão com um volante na mão”, isto é, que respeita os outros peões como se fosse ele mesmo. É uma questão de respeito… e a crise não é desculpa.

 

 

Quem quer enganar quem?

Francamente, estou desiludido com os médicos porque, para tratarem dos meus problemas de saúde, nomeadamente dores nas costas e nas pernas, mandaram-me fazer radiografia, TAC, análises e até uma ressonância magnética, para tentarem chegar ao diagnóstico. Depois, “encharcaram-me” de medicamentos, ocuparam-me as tardes com tratamentos de fisioterapia e mandaram-me fazer um daqueles exames em que fui “violado” com uma vara munida de câmara de filmar quando me “apanharam de costas” e a dormir, invadindo a minha privacidade para colher imagens pessoais, que espero não ver expostas no facebook. Mesmo com tudo isso, o “síndrome das pernas irrequietas” continua a provocar-me dores “aborrecidas” e a hérnia discal não me dá sossego. E, afinal, a solução “chega-me” a casa todos os dias e sem pedir: A televisão, que “só diz verdades”, repete sem parar que, se eu tomar “calcitrin” ou “cálcio mais”, tenho os meus problemas resolvidos. Afinal, o que andam os médicos a fazer? Não me tiram as dores e nem sequer conseguem “aprender” ao ver estes produtos “fantásticos” na televisão e prescrevê-los, para bem da minha rica saúde? E já nem falo no “activa T”, algo verdadeiramente “extraordinário”, diria mesmo, “milagroso”. Trata-se de uma joelheira desportiva que se amarra à perna, às costas (não sabia que se usavam ali joelheiras) ou onde houver dor e, através de umas “ondas” que não sei se são “cerebrais”, se são “do mar”, se são “do cabelo” ou se são “de rádio”, eliminam totalmente as dores, sejam elas nas costas, nos glúteos ou nas pernas, sem necessidade de medicamentos, de agulhas, de tratamentos de fisioterapia nem de osteopatia. Dizem eles, e asseguram com toda a convicção televisiva (será que os médicos não veem televisão?) que o sistema acaba com a dor ciática, a fibromialgia, as dores no lumbago, o formigueiro nas pernas e as dores crónicas nas costas, o que nos diz que este produto ainda é melhor do que a famosa “banha da cobra”… Aconselham mesmo a deitar fora os medicamentos. Como eu andava enganado… Vou mandar os médicos “dar uma volta ao bilhar grande” e comprar já aquela joelheira milagrosa com o “botãozinho” a emitir ondas. E tudo isto “tem de ser verdade” porque só os farmacêuticos vieram reclamar do calcitrin (não sei se por considerarem que andam a “vender gato por lebre” ou porque o produto lhes prejudica o negócio). Quem tinha a obrigação de nos esclarecer, “fechou-se em copas e a gente que se amanhe”. Afinal, não passamos de “cobaias” miseráveis (in)voluntárias, não remuneradas e, ainda por cima, que têm de pagar o produto do ensaio…

Todos nós sabemos que não podemos confiar em quem nos vende seja o que for. Nos produtos bancários, tem sido o que se viu… e vai continuar a ver. Seria mais recomendável e mais simpático que, ao atenderem-nos ao balcão, nos dissessem logo: “Isto é um assalto. Quer depositar”? Na EDP compramos energia e pagamos não sei quantas coisas… Até a maior marca automóvel alemã e mundial nos andou a vender a “eficiência germânica” na aldrabice!!! E os supermercados, onde vamos regularmente? Usam todos os “truques baixos” para nos “levar ao engano”. Conseguiram “acabar” com o quilo como medida de referência e tentam (e conseguem) ludibriar-nos com preços bombásticos, até descobrirmos que a embalagem é de oitocentas, seiscentas, quinhentas ou trezentas gramas, descendo às cem ou oitenta gramas e menos. Oitenta gramas de presunto, de fatias ultrafinas mas muito bem “arrumadas”, dão a ideia de um “grande pacote” e isso visa esclarecer-nos ou “enganar o Zé Pagode”? Muitas vezes temos de andar à procura com uma lupa para saber o peso…

As artimanhas comerciais a que, pomposamente, chamam marketing, são imensas e visam enganar o consumidor em vez de o esclarecer. Mas estas práticas estendem-se a muitos outros. Tenho um amigo com um negócio de batatas e desde sempre só as vendia em sacos de vinte quilos, por ser o saco tipo. Era para este saco que estabelecia o preço, mais alto ou mais baixo conforme a época e os fornecedores. Em dada altura foi confrontado por clientes habituais que um outro vendedor havia passado por ali e vendido o saco de batatas mais barato que ele, sendo as diferenças significativas. Ele estranhou e, na semana seguinte, voltou a confrontar-se com a mesma situação, tendo perdido a maioria da clientela. Vendo que o negócio estava a “ir pelo cano abaixo”, desconfiou e pediu a um cliente que lhe mostrasse o saco que comprara à concorrência, vindo a descobrir que pesava só quinze quilos. Mas “era um saco de batatas”!!!… Os clientes, pouco atentos, só viram o preço mais baixo…

Nas vésperas do Natal tive de comprar bacalhau para a noite de consoada. Por isso, quando vi anunciada uma promoção num supermercado local com 50% de desconto, fui atrás da “pechincha”… Realmente descontavam metade do valor do bacalhau mas, o preço base, tinha sido aumentado 50% em relação ao que vigorava uns dias atrás. Além disso, estava muito húmido. Imaginei que o tivessem “posto de molho” para nos retirarem o trabalho de o demolhar e, “sem sombra de dúvidas”, fizeram-no com “a melhor das intenções”… No entanto, na hora de pesarem o bacalhau, esqueceram-se de abater o peso da água e, assim, pagávamos água ao preço do bacalhau… Mas, sorte a nossa: Depois de pagarmos, desejaram-nos Boas Festas…

Instalado o “califado” em Portugal!!!…

Recostado no sofá, bem entrado na noite e com o olhar mais para dentro que para fora, a notícia entrou-me no cérebro como uma bala: “Os jihadistas tomaram o poder em Portugal, alargando o califado”… “Estamos feitos”!!! Como foi possível? O “ataque”, dizem, teve origens diferentes: Uma vaga de invasores veio dos subúrbios de Paris onde estavam “adormecidos” e, com outros que chegaram disfarçados de refugiados, apanharam o TGV e num ápice desembarcaram em Lisboa. Outra “leva” chegou pela calada da noite à costa algarvia a partir de África, a nado e com “as barbas de molho”, disfarçados de muçulmanos (o que nem foi difícil, ao misturarem-se com os ingleses bêbados que saiam das discotecas já de madrugada). Apanharam boleia na autoestrada do sul e chegaram à capital a tempo da revolução. Alguns mais preguiçosos vieram em botes de borracha que furaram perto da costa para que a guarda costeira os recolhesse e, depois de um bom banho, vestisse. alimentasse e enfiasse em autocarros da Barraqueiro com destino a Lisboa. Mas, a remessa mais numerosa veio em aviões da Emirates Airlines e em voos “low cost” fretados para o efeito, aterrando no aeroporto da Portela já que o “novo” ainda não está construído, porque o “empreiteiro” esteve “a banhos” em Évora. À sua espera tinham um comité de recepção do BE para o SEF dispensar as burocracias e instalá-los nos melhores hotéis da cidade. A esta “tropa”, juntaram-se os “barbudos” das FP-25 de Abril, incluindo os que me fizeram uma “barragem” na ponte da Arrábida à época. Para parecerem muitos, apanharam no caminho alguns vadios do Casal Ventoso e da Curraleira. Já bem instalados e a comer “à la carte”, tomaram os pontos chave da cidade depois de terem “tomado” o pequeno almoço na Baixa Pombalina e feito a oração do alvorecer no Chiado, com grande facilidade pois, enquanto o governo estava “encostado à parede” pelas exigências de bloquistas e comunistas, reunidos num restaurante de Alfama, a oposição andava ocupada a recolher pareceres de consultores jurídicos (dos que demonstram a veracidade de uma tese e o seu contrário) que atestassem a ilegitimidade política do atual governo. As tropas, com efetivos muito reduzidos e sem dinheiro para “petróleo”, “não viram um boi” e os sindicatos, reunidos para discutirem as reivindicações já negociadas, não assistiram à revolução em direto nas televisões, até estas serem ocupadas pelos jihadistas. Mas, ninguém ficou preocupado com os novos “donos disto tudo” e, eu próprio, acabei por não me ralar. Bem vistas as coisas, nada mudava. Os novos “senhores” ocuparam todos os lugares do governo, ministérios, autarquias, empresas públicas e bancos, roubando descaradamente mas, como não faziam nada que os anteriores não tivessem feito, ninguém estranhou, até porque já havia tão pouco para “gamar”… Ocupadas as televisões, deixaram de emitir programas de “poucas vergonhas” que só visavam “provocar e excitar” os homens. Por isso, as telenovelas, o “Big Brother”, a “Casa dos Segredos”, o Portugal em Festa e outros que tais, foram proscritos – e, em abono da verdade, não se perdeu nada… A televisão só transmitia entre as três e cinco da madrugada, coincidindo (por mero acaso…) com o período em que não havia eletricidade. As mulheres foram obrigadas a cobrir o corpo todo – isso, sim, uma grande perda mas, percebe-se porquê, se pensarmos que o primeiro ministro italiano mandou tapar as estátuas dos nus femininos só por causa da visita de um – e, tanto as mais novas como as que “ainda dessem para romper meias solas”, eram violentadas e violadas, não muito diferente dos casos de “violência doméstica” que se deram por cá nos últimos anos.

Criaram duas polícias de costumes: Uma dos homens, para impedir que cortassem os “pelos” da cara e as unhas dos pés ou que se “metessem nos copos” pois fora decretada a “lei seca”, a mesma “lei” que proibia até aí os jovens de comprarem álcool – eu disse “proibia”, não disse “impedia”… A outra, para verificar se as mulheres “tinham” as “partes” bem tapadas (até então, a moda impunha – e bem – que as tivessem bem à mostra, uma “pequena/grande diferença de gosto”), avaliar o seu “potencial” e vigiar se davam “facadas no matrimónio” (as que fossem apanhadas, eram largadas na serra da Malcata para serem comidas pelo lince ibérico. Mas, como este não gosta de carne humana, eram aproveitadas pelos locais e “comidas” às escondidas). Para estes serviços foram recuperados os “pides”, os homens das secretas, os “bufos” e alguns inspetores da ASAE (habituados a trabalhar com “mercadoria de contrafação”). O povo só estava chateado por terem acabado com o “leitão da Bairrada”, o “porco no espeto”, os “presuntos de Chaves” e os enchidos de Barrancos, tal como as boîtes da avenida da Liberdade e as meninas da serra de Lustosa. “E agora? Que febras vamos comer?”, diziam por aí!!!

A malta nova andava desanimada. Fora proibida a música “pop” e os seus ídolos, fechados bares e discotecas, enfim, o fim dos “shots”. Só podiam ouvir música islâmica que não dava para “abanar o capacete” e tinham de “dobrar a espinha” ao fazer aquilo a que não foram habituados: Rezar. E todos, para não serem rotulados de “infiéis” e mortos, ajoelhavam e rezavam (ou fingiam) cinco vezes ao dia. Vendo bem, nada de diferente do que se ia passando antes pois, para se não ser “ostracizado”, “estar debaixo de olho” ou ver os seus projetos e candidaturas rejeitados ou sem resposta pelos “donos do poder”, tinha de se “pertencer ao partido” e ir ao “beija mão”.

Estando eu em cuecas, a beber umas “cervejolas” e escrever estas “blasfémias”, vi-me rodeado pela polícia de costumes e por um grupo de barbudos, porcos e mal encarados, armados de chicote e metralhadoras “kalashnikov” AK-47. “E agora? Como me vou safar desta”? Acordei e vi que já eram mais que horas de ir para a cama… UFA, do que eu me livrei!!!

Como gostamos de nos “coçar”!!!

Uma das imagens que retenho da infância como se tivesse ocorrido há poucos dias, é a de uma mãe de lenço preto na cabeça, sentada num banco e debruçada sobre a cabeça do filho com as mãos enfiadas no cabelo da criança, a catar piolhos. O “coçar a cabeça” era o sinal de alerta para a existência dos parasitas e “catá-los à mão” a única forma de os eliminar, um a um, até a cabeça ficar limpa… Ainda não existiam produtos para os matar e só anos mais tarde surgiria o DDT, inseticida usado na agricultura mas que “uns espertos” utilizaram para eliminar os piolhos das cabeças, sem se aperceberem (e sem estarem sequer preocupados com isso) que estavam a contaminar as crianças (e, afinal, também os produtos agrícolas). Mas isso é outra história… O que queria realçar era o “coçar a cabeça” quando se apanhava uma camada de piolhos.

Se (quase) desapareceram os piolhos, não quer dizer que tenhamos deixado de “coçar a cabeça”, especialmente nós, homens. Parece que cada vez a coçamos mais, não tanto pela bicharada mas por tiques nervosos, pelas preocupações da vida, pela caspa e outros males capilares. Cá em casa dizem-me que fiquei careca por coçar muito a minha…

Coçar é um hábito e uma necessidade que os humanos têm e, por isso, penso que pertencemos a uma espécie de animais que se devia chamar de… “coçadores”. É que, coçamos tanto!!!

Há os “coçadores de esquinas” (como não fazem nada nem querem fazer, é nisso que ocupam o seu tempo), os “coçadores de ouvido” (que são imensos), os “coçadores de micose”, os “coçadores de costas” e muitos outros tipos de “coçadores”. Até nalguns programas de televisão os apresentadores mais não fazem que convidar outros “artistas” para se “coçarem” uns aos outros… Pelas audiências, a maioria dos portugueses até gosta de ver essas “coçadeiras”…

Nesta “arte” milenar, também somos muito bons a “coçar o cu” (coisa que as mulheres odeiam ver). Ora, o hábito é tão vulgar entre nós que há mesmo quem proponha a sua promoção a desporto nacional quando praticado nos supermercados, tal o seu enraizamento no nosso quotidiano. Se olharmos com atenção quando fazemos compras, não faltam homens a mandar a “manápula” às nádegas e a coçá-las. Alguns tentam ser discretos e viram o “pacote” contra as prateleiras para não serem vistos por outros clientes no “aliviar” da comichão… Os distraídos, enquanto circulam pela loja, vão “esgadanhando” o “rabiote” com toda a naturalidade, nada preocupados se há “mirones” à vista, chegando mesmo a levantar a perna para os dedos “coçarem” mais fundo, entre as “bochechas”. Uma coisa temos de reconhecer: Todos coçam por cima das calças, usando estas como “luva de proteção” para os dedos, o que é higiénico, diga-se. No entanto, embora raros, há alguns que não se inibem de enfiar a mão por dentro das calças para coçar “à maneira”, quase “revirando os olhos” ao “coçar o olho”… E depois é vê-los a mexer na fruta ou nos legumes, quando não a levar os dedos ao nariz!!! Era caso para fazer uma pergunta… mas não faço.

Nisto de nos coçarmos, não é justo que, se a “coçada” for feita por alguns seja vista como gesto natural, enquanto se feita pela maioria possa ser julgada como indecorosa ou mesmo gesto obsceno. E falo daquilo que os brasileiros chamam de “coçar o saco”, que entre nós é tido como “coçar os frutos do tomateiro”. Tornou-se comum entre jogadores, mesmo quando o jogo é transmitido pela televisão, “coçarem o saco” por fora ou por dentro dos calções, com o maior “à vontade”. Ainda há pouco estava a ver imagens do Cristiano Ronaldo em pleno “trabalho”… E, se forem vedetas da pop, usam-no como gesto tido por “sensual”, uma “mais valia” na dança porque se trata de “arte”… Pois é, nas vedetas é uma coisa muito bonita mas, se for o cidadão comum a coçar “as joias da família” em lugar público, as mulheres não gostam e o gesto é indecoroso. Se pensarmos bem, o cidadão comum tem muito mais razões para o fazer pois, para si, é uma necessidade. Tentemos imaginar as “joias da família” ensacadas e em local apertado por roupa justa, sem espaço de manobra nem arejamento, o que faz aumentar a temperatura local para valores acima da média!!!… Está bom de ver a “comichão” que deve dar…

Mas é a um grupo de “coçadores” que me quero referir em especial, pois há muito povoam governos, municípios, organismos e empresas públicas, gente que por um “empurrão” do partido ou a “bênção dum padrinho”, arranjou “lugar ao sol” onde não faz “a ponta dum c…” mas usufrui de um salário acima da média, “coçando o cu” de cadeira em cadeira para ser visto “a trabalhar”. Sempre que mudam governos ou poderes instituídos, há novos “ocupantes” e, independentemente de quem (des)governa este país, vamos ter de “gramar” outros “coçadores” de todo o tipo de “buracos”, de todo o tipo de “legumes”, em nome do (des)interesse nacional e da “obediência partidária”.

É caso para perguntar: O mérito interessa para alguma coisa ou o que importa é ser um “bom coçador”?

Como é possível?

Sempre me fascinaram os mágicos e o como conseguiam concretizar as habilidades. Para mim, enquanto criança, só podia ser magia. E ainda hoje fico encantado quando vejo um bom truque, uma boa ilusão, mas já estou consciente que não passa disso mesmo: Uma ilusão. Porque, na realidade, não há magia. O nosso cérebro tem algumas falhas e os mágicos aproveitam-se delas. A maior, é o facto de não conseguir realizar diversas tarefas ao mesmo tempo. Daí o uso do desvio da atenção para nos surpreender. Uma das técnicas que utilizam é o chamado “movimento suspeito”, chamando dessa forma a atenção numa direção errada, onde nos focamos, enquanto noutra fazem tudo o que querem sem “vermos” nada. Quanto mais conseguem levar as nossas mentes ao longo de uma pista falsa, mais sucesso têm. Para além dos gestos óbvios, também falam muito com o intuito de nos prender a atenção, usando o foco e a distração.

Está provado que a experiência e a inteligência não protegem ninguém contra golpes mas sabe-se que as vítimas dos golpes, como “o conto do vigário”, têm características comuns. Além disso, os golpistas e burlões usam um conjunto de princípios para atingirem os seus fins, dos quais alguns são comuns aos mágicos.

Nos anos setenta e oitenta foi célebre o caso D. Branca, a “banqueira do povo”, que pagava juros de dez por cento ao mês. Muito badalado, analisado e discutido pelo tipo de vigarice e montantes de dinheiro “derretidos”, serviu de exemplo para histórias (e práticas) futuras. E, na realidade, vieram a surgir “outras donas Branca”, outros modelos de vigarice disfarçados de “aplicações especiais” e “investimentos milagrosos”, levando muita gente a “aplicar” o seu dinheiro na certeza de ganhos fáceis que, para “quem não andou da perna”, se revelaram um desastre total. Por cá, é bem conhecido um caso recente que pagava aos seus “clientes” os tais dez por cento ao mês (como a D. Branca), “abastecido de investidores” por angariadores locais, até as autoridades porem fim ao “negócio”, com prisões à mistura, o “desaparecimento da massa” e os investidores “a arder”. Igualmente foi noticiado um caso na Madeira em que uma empresa, dita legal, fechou as portas de repente fazendo “voar” dezenas de milhões de euros de investidos insulares, a troco do sonho de “ganhos excelentes”. Apesar deste caso, bem noticiado, também aqui na região uma empresa do gênero “engoliu” alguns milhões para desaparecer e, com ela, o “cacau”, deixando a “berrar” os que antes, iludidos, “berravam de contentes”. E nem falo na “roda” ou “rede”, aquelas reuniões em hotéis com espetáculo e comes e bebes que se continuam a fazer por aí, em que se pagam mil euros para inscrição na rede e se recebe, depois, duzentos e cinquenta por cada “pato” que se consiga levar a entrar. A “roda” continua a alimenta-se a si própria, até ao infinito… Mas continuamos a não aprender, ofuscados pela ilusão do enriquecimento fácil mesmo que ilícito, deixando-nos iludir pelos golpistas e seus “truques”, alguns dos que os mágicos usam para nos divertirem. Só que, aqui, são os golpistas que se divertem.

Sabe-se agora que na região apareceu um novo golpe, um novo esquema, uma burla monstruosa que aposta forte na tentação do (muito) dinheiro “barato”. O exagero dos ganhos propostos raia o absurdo e a falta de pudor mas, ao que parece, “quanto maior é a mentira mais fácil é acreditar nela”. E já há “vítimas”, gente “ofuscada” com “tanto benefício” que não perdeu tempo a arriscar. E perdeu… O angariador aborda pessoas que conhece e sabe terem dinheiro ou condições de consegui-lo. E faz a proposta: “Negócio fabuloso. Arranjas cem mil euros e recebes em troca trezentos mil” (às vezes sobem para quatrocentos ou quinhentos mil euros). Se o candidato a vítima fica “focado” no lucro (que negócio!!!), começa a pressão para “fechar”, depressa, o fator “tempo” para não dar tempo a raciocinar. A pressão sobe quando o angariador apresenta o “sócio”, que ajuda no “cerco à vítima”. Se questionados sobre a origem do dinheiro, dizem que sai da Casa da Moeda e será dado como roubado ou perdido. Que o “negócio” total é de trezentos mil por QUATRO MILHÕES mas, “alguns milhões terão de ir para o estrangeiro pois, como as notas têm números seguidos, é necessário espalhá-las por vários países”… Para além de usarem o “tempo” (rapidez na ação), também utilizam a “desonestidade” (benefício na ilegalidade) para convencer a vítima.

Num concelho vizinho, cinco empresários foram convencidos por um angariador a “entrarem” com vinte mil euros cada, com a promessa de receberem meio milhão. Para efetuarem “a troca”, foram levados a uma casa no Porto. A sala tinha uma mesa coberta de maços de notas de quinhentos euros, que puderam ver, tocar e analisar se era real. E ficaram empolgados, ansiosos por “pôr a mão na massa”. Estimulado o apetite, os “negociantes” cobriram-nas com um cobertor. Depois, passou-se algo estranho que não perceberam – a mesa inverteu-se ou rodou. Logo de seguida, entregaram-lhes os quinhentos mil euros em caixas a troco dos seus cem mil. Carregados, voltaram de carro para a terra, em clima de euforia total. Mas, já na viagem, um deles pôs-se a “matutar” sobre a “cena final” e levantou a dúvida aos “sócios”, acabando por parar o carro para verificar o “papel”. Ao abrirem a caixa… o choque foi mais forte que “o coice de uma mula”: As notas de quinhentos euros estavam TODAS inutilizadas, descoradas, como se tivessem sido molhadas e a tinta desbotasse. A verdade, revelou-se brutal: FORAM BURLADOS.

Afinal, ELES continuam por aí… Velhos “atores de outros filmes”, com o mesmo FIM. Só precisam de oportunidade e “tempo de antena” para fazerem a sua “ilusão”, transformar a vítima em cúmplice e trazer ao de cima um dos lados maus da nossa condição humana: A GANÂNCIA…

Uvas, pipos, pipas e vinho

Foi ao ver o caseiro duma quinta a vindimar com a mulher e a filha e saber por ele que era o único pessoal com que podia contar, já que o vinho não dava para contratar gente de fora, que a memória me levou às vindimas da minha infância onde se juntava um “rancho” de gente voluntária, suficiente para resolver o problema de qualquer lavrador. Os homens vindimavam, as mulheres carregavam os cestos à cabeça para o carro de bois ou diretamente para o lagar e nós, crianças, apanhávamos os bagos (para nos estimularem, diziam-nos: “Conheço um senhor que fez dez pipas de vinho só com bagos…”). Enchia-se o lagar e só depois as dornas, sendo as uvas esmagadas por “pisadores” de calças arregaçadas e pés descalços “lavados” num alguidar (dizia-se que o vinho desinfetava tudo), cantando ao som da concertina ou da viola, enquanto comiam sardinhas assadas sobre um naco de broa. Na região, praticamente só havia vinho tinto, muito carregado e de baixa graduação. O pouco vinho branco das quintas era quase todo para os senhorios. A “paga” do pessoal era a comida farta, uma bênção nesses tempos verdadeiramente difíceis.

O vinho era “A Bebida”, consumido por todos como parte obrigatória da refeição. Por alguma razão o slogan publicitário dizia que “beber vinho, é dar de comer a um milhão de portugueses”. Para além das quintas, em todos os quintais havia videiras, plantadas antes de se “plantar” a casa. E, para guardar o vinho, tinham de existir pipos, pipas e toneis em madeira. Não sendo os meus pais agricultores, cresci no meio rural onde pipos e pipas eram coisa comum à maioria das casas, pois toda a gente tinha algum dos dois. Estas vasilhas sempre me atraíram, pelo formato, pela capacidade de armazenar líquidos sem verter, pelo modo como os carpinteiros/tanoeiros as reparavam, como faziam as aduelas curvando a madeira e as substituíam, como apertavam os aros de ferro, pela facilidade como carregavam aqueles “monstros” de mais de meia tonelada nos carros de bois e as colocavam em cima das vigas de madeira na mercearia do meu tio Peixoto. Para provar o vinho, fazia-se um furo na parte superior do tampo da frente da pipa com uma verruma que se tapava com o “esquiço”, um pauzinho aguçado. Era por esse pequeno orifício que se tirava vinho enquanto a pipa não tivesse torneira, aliviando ligeiramente o “batoque” de cima para entrar o ar por forma a que o esguicho fosse regular e constante. Gostava de ver o meu tio a “meter” a torneira na pipa e ficava sempre surpreendido por o conseguir fazer sem verter uma gota de vinho.

Foram muitas as vezes que confraternizei com amigos encostado ou sentado nas pipas e bebendo por uma caneca de porcelana. Recordo com especial prazer momentos desses na adega do senhor Melo, em Bustelo, comendo salpicão com broa e azeitonas na companhia do meu irmão e do Nelo, Eurico e Zé, seus netos. Se nós gostávamos desses momentos de convívio, muito mais prazer retirava o senhor Melo deles, uma oportunidade que “aproveitava” bem para fugir ao “controle” da esposa. Que saudades…

E lembrei-me disto porque tive de ir a casa de uma família humilde e, quando me preparava para regressar, o dono da casa convidou-me a entrar para comer qualquer coisa. Acabei por aceitar dada a insistência e manifestação de que ficaria melindrado se não aceitasse. Na mesa da cozinha a esposa já estendera uma toalha branca de linho, que ainda mais me avivou velhas recordações, e colocara um salpicão partido às rodelas, broa e azeitonas, para além de uma garrafa de vinho espadeiro da região que ele fez questão de me dizer que fora engarrafado por si. Não fiquei só encantado pela simpatia do gesto mas, também, por me transportar ao passado, a um tempo em que na maioria das casas se recebiam as visitas com esta franqueza e este tipo de merenda, sabendo-se que muitas vezes ofereciam o que eles próprios não tinham para comer, pois tinham de vender as melhores partes do porco para sobreviverem… Nesse tempo, oferecer aos visitantes um copo de vinho e uma “bucha”, sendo um gesto simples, normal e comum, era um sinal de apreço e respeito pela visita, uma manifestação de orgulho e da alegria de receber.

E isto relembrou-me ainda o ano em que fiz parte da comissão organizadora das Festas do Senhor dos Aflitos, um grande grupo de jovens, já lá vai um “tempo”… Entre outras coisas, tive de fazer o peditório em Macieira, a minha terra porque, potencialmente, podia arrecadar mais dinheiro que qualquer outro. Arranjei dois amigos para me acompanharem na “função” mas a missão não correu como eu previa. Porquê? Porque na maioria das casas onde entrava, quando dizia ao que ia ouvia um coro de desagrados e reclamações em relação à Vila. “Mas”, diziam, “tenho muito prazer em recebê-los em minha casa”. E, virando-se para a cozinha, gritavam: “Oh Maria, traz daí uma garrafa de vinho e uma bucha…” E nós tínhamos de comer a broa, o salpicão, as azeitonas e… beber um copo. Casa sim, casa sim, rica ou pobre… E, um copo nesta casa, outro na seguinte e mais outro e outro e outro, obrigou-nos a desistir a meio da tarde do primeiro dia por… “excesso de bom trato”. O que era previsível fazer num dia, demorou três, e os “culpados” foram os meus conterrâneos, pela “arte de bem receber”. A anos de distância, ainda hoje me emociono por tanto nobreza de alma, da muita gente simples e pobre que oferecia o seu melhor. Uma lição que não tem preço…

Transportados no bico da cegonha…

Outrora, quando as crianças faziam a pergunta incómoda “de onde vêm os bebés?”, a resposta era quase sempre a mesma: “De França, no bico de uma cegonha”. As crianças viam satisfeita a sua curiosidade e estes ficavam aliviados torneando a questão. Ora, como ainda não deixei de ser criança e mantenho a curiosidade própria delas, resolvi fazer uma “visita” a essa “França” virtual, local de “origem de todos os bebés do mundo”, terra imaginária como aquela onde vive o Pai Natal. Para tal, “peguei na trouxa e zarpei…”, não a voar no trenó mas a “surfar” nas asas do pensamento.

Depois de uma longa viagem ao chegar, a primeira visão que tive foi de um cenário aterrador com imensas “unidades fabris” fechadas e abandonadas, muitas delas já cobertas por silvas e todo o tipo de vegetação que se foi apoderando do local, fazendo lembrar a zona do Vale do Ave e outras regiões do país na era pós industrial. Pelas ruas esburacadas vagueavam bandos de cegonhas “escanzeladas”, com as penas sujas e a cair, num sinal evidente da crise e do desemprego. Dirigi-me ao “posto de turismo” implantado na praça principal, também ele revelador da situação que a cidade vivia, onde me aconselharam a falar com o presidente da Associação Industrial de Bebés para colher informações. E assim fiz.

Começou por me dizer: “Aqui só fabricamos bebés “por encomenda”, sendo o prazo de entrega normal de nove meses. Só em caso de acidente ou percalço é que a entrega é antecipada. O bebé entra na linha de produção no momento em que o casal “sela” o pedido, sendo que muitas vezes o fazem sem saber, perdidos nos “preliminares”.

Longe vai o tempo em que todas as unidades estavam a produzir em pleno, quando a maioria dos casais encomendava um bebé por ano, chegando com facilidade à dúzia e mais. Mas, à medida que as sociedades foram evoluindo, as encomendas caíram e com ela a nossa produção, ano após ano, o que levou ao encerramento de inúmeras instalações, hoje votadas ao abandono. Tivemos de mandar para o desemprego mais de metade das cegonhas.

Sabe, noutros tempos, quando um qualquer casal de “clientes” se “envolvia em jogos sexuais”, havia fortes possibilidades de se concretizar a encomenda mesmo sem o desejarem, pois “trabalhavam sem rede” e, diz o ditado que “quem anda à chuva, molha-se”. Daí que “não tínhamos mãos a medir” para aviar tanta “solicitação” e, por isso, as unidades fabris estavam a funcionar dia e noite e todas as cegonhas eram poucas para as entregas. Só que, a partir do momento em que alguém descobriu a forma de transformar o “trabalho da encomenda” em “entretenimento puro” com vários tipos de “seguro contra imprevistos”, o negócio “foi à vida”. E, mesmo com a “encomenda” feita e já depois de nos ser “remetida”, vocês também arranjaram maneira de a poder suspender “no dia seguinte”, quando não mesmo uns dias ou semanas depois. Com tudo isso, o “negócio foi à vida”. Olhe, o vosso país passou a ser um dos piores clientes. Será por causa da crise, por falta de “caneta” para assinar o pedido ou pelos “custos que o produto acarreta depois”? Já não sei que lhe diga… Mas a grande quebra desta “indústria” deu-se quando os chineses foram proibidos de fazer só uma por casal. Está a ver o filme? Sempre que enviávamos um bebé para lá, “fechava-se” a capacidade daquele casal “assinar” novo pedido. E foram milhões e milhões de bebés que deixaram de ser produzidos, uma quebra brutal na “carteira de encomendas” que precipitou a “crise” já sentida nos países mais ricos – o que é um contrassenso. Com a “descoberta” das diversas “fórmulas” de impedir que pudesse resultar em “encomenda” o simples “molhar da pena no tinteiro”, os casais estabeleceram novas prioridades, que colocam o emprego, a carreira e o desejo de uma vida mais despreocupada à frente da paternidade, deixando esta para mais tarde e, quase sempre, reduzida ao filho único, quando não abdicam por completo. O inverso do que acontecia antigamente. E até os pedidos “acidentais” caíram muito comparados com os de outrora. Só para perceber como é que os “acidentais” aconteciam, deixe-me contar-lhe o que se passou há décadas numa aldeia de Lousada: Uma moçoila que ficara órfã vivia com a avó numa casa térrea e pobre, com “estrumeira” à porta da cozinha, onde se despejava tudo e “faziam as necessidades” na falta de WC. Em idade de namorar, a avó não lhe dava espaço e controlava-a totalmente, deixando-a falar com o namorado só da janela, enquanto ela vigiava noutra. Um dia a avó descobriu que a neta nos tinha enviado uma “encomenda” já há alguns meses… C’os diabos, “caiu o Carmo e a Trindade” e a avó só perguntava “como foi possível”? Mas foi, de forma simples e um tanto estranha. À noite, as duas rezavam o terço. Quando a avó dizia uma oração, a neta respondia com outra. Às tantas, a neta fez sinal à anciã que ia lá fora “fazer as necessidades”, mas a reza continuou. Enquanto da cozinha a avó dizia “Avé Maria…”, do lado de fora, na “estrumeira”, a neta respondia “Santa Maria…”. Só que, a “oração” da neta era outra… e, talvez por isso, foi “abençoada” com um bebé meses depois, para espanto da avó…

De “regresso” a casa, senti que o “tempo” das cegonhas trazerem os bebés de França, chegara ao fim. Como chegou o fim de muitos outros “tempos”…

O velho palito (um, só um…)

Os historiadores do palito (sim, também há destes historiadores…) dizem que o uso deste instrumento remonta ao tempo dos nossos antepassados mais “distantes”, segundo achados arqueológicos. Ora, o que nós sabemos hoje é que o nosso amigo palito (não o Manuel “Palito”, esse tem outra história…) é um pequeno pedaço de madeira, fino e afiado nas pontas, usado para retirar o “lixo” dos dentes. É certo que também os há de plástico – mas “valem poucas nozes”- para além de materiais nobres como prata e ouro, muito raros como se compreende… E, há alguns anos, até a unha comprida servia… Apesar da concorrência, por cá subsiste o hábito do seu uso regular, com preferência (quase) total para o palito de madeira. Se a madeira for macia, ajusta-se bastante bem aos intervalos entre dentes, molda-se, é menos agressiva mas, frequentemente parte e depois é uma “chatice” para retirar a ponta que ficou “entalada”. Já quando a madeira é rija, não se parte nem se molda mas, de vez em quando, juntamente com os detritos, “limpa” o “chumbo” de um ou outro dente, quando não o parte. É por isso que os dentistas desaconselham o seu uso mas, “cá para nós que ninguém nos ouve”, no seu íntimo até agradecem que o usemos regularmente porque é a forma de terem mais clientela pois, como dizem os “cangalheiros, “não quero que ninguém morra, mas quero que a minha vida corra”.

Foi o americano C. Forster o primeiro grande fabricante mundial desse pequeno instrumento- Depois de descobrir o encantador sorriso das mulheres brasileiras, descobriu também que isso se devia à higiene bucal que faziam com palitos de salgueiro. Foi aí que “viu” o negócio pelo que mandou fazer uma máquina para os produzir industrialmente, o que lhe valeu fama e fortuna. Para além disso, soube “vendê-lo” ao mercado ao ponto de se tornar moda palitar os dentes depois da refeição. Havia até quem se encostasse à entrada de restaurantes conceituados de palito no canto da boca, dando a entender que comera ali. O negócio deste pequeno “pauzinho” começou a cair quando se descobriu e tornou barato o fio de nylon (fio dental) e mais tarde, quando o hábito de palitar os dentes à mesa deixou de estar na moda e passou mesmo a ser considerado um gesto de mau gosto.

Uma das anedotas da minha juventude dizia que, “no tempo da outra senhora”, Churchill veio a Portugal a convite de Salazar e, no final do almoço, pediu um palito. Depois de o usar, embrulhou-o e meteu-o no bolso do casaco, para surpresa do nosso primeiro ministro. Ao jantar pediu outra vez um palito que voltou a meter no bolso depois de o utilizar. Salazar não comentou mas, quando estava nas despedidas no aeroporto a curiosidade venceu-o, acabando por lhe perguntar o porquê de guardar os palitos usados. E Churchill respondeu: “Sabe, quando chegar a Inglaterra, os palitos vão para as nossas fábricas, são lavados, esterilizados, embalados e vendidos para Portugal para voltarem a ser usados”. Salazar acenou com a cabeça, mas calou-se. Quando meses mais tarde retribuiu a visita a Churchill, depois da reunião e do jantar, às “tantas da noite” foram “às meninas” a convite do anfitrião. À saída, Salazar trazia o preservativo que usara, deu-lhe um nó, meteu-o num saco e guardou-o no bolso do casaco. O primeiro ministro inglês não se conteve e perguntou-lhe logo porque razão guardara o preservativo. Salazar também foi pronto na resposta: “Sabe, quando eu chegar a Portugal, isto vai para as nossas fábricas, será lavado, esterilizado, reciclado e embalado para ser vendido em Inglaterra como… “pastilha elástica”.

Apesar da modernidade nos ter trazido a escova de dentes, o fio dental (não, não é o “fio dental que alguns estão a imaginar…) e, mais recentemente, os pequenos escovilhões de limpeza que mais parecem miniaturas das escovas de desentupir canos, o palito continua a ser o instrumento preferido dos portugueses para cuidar do “corta palha” depois das refeições, mesmo contra as recomendações do “manual das boas maneiras”. Mas, “como é bonito” ver um homem a sair do restaurante com o palito na boca a dançar dum canto ao outro, enquanto fala ou ri!!! Deve pensar que é “decorativo”… No entanto, dizem que só o é se for aos pares e um pouco mais acima…

Nunca fui um folião nem usei qualquer máscara no Carnaval (já me basta a minha…), mas recomendo a todos aqueles que se queiram divertir no próximo ano, que se “disfarcem de croquete”. É uma máscara muito económica, perfeitamente ajustada aos tempos de crise que vivemos. Nem sequer precisam de ir às lojas da especialidade, pois podem prepará-la em casa de forma fácil e barata. Como é o disfarce de croquete? Muito simples: Nu e com um palito no rabo… E cada um pode escolher o tamanho do “palito”…

E isto do palito veio à baila porque, como já tenho um certo intervalo entre “as teclas”, no final das refeições retiro o “lixo” com o tal escovilhão. Mas hoje, quando comia um dióspiro, ao mastigar senti uma lasca entre a fruta. Quando fui ver o que era, deparei-me com um bocado de massa dentária, o vulgar “chumbo”. Recordei-me então que tinha usado um palito rijo numa limpeza de emergência. E limpei também o “chumbo” dum dente… Foi quando me veio à memória o conselho do dentista… mas já era tarde. Azar o meu … sorte a dele!!!

Estamos a enterrar a cabeça na areia?

Em 1902 o Príncipe Henrique da Prússia chegou a Nova Iorque, para receber o iate construído para o seu irmão que reinava na Alemanha, o Kaiser Guilherme II. À sua espera estava um batalhão de jornalistas com as perguntas mais estúpidas, como é da praxe. Às tantas, alguém perguntou: “O que mais gostaria de visitar”? Quando esperavam ouvi-lo dizer “as Cataratas do Niagara”, “o Grande Canyon” ou outra das grandes atrações do país, disse: “Gostaria de visitar o Everleigh Club de Chicago”. A resposta foi como uma bomba, deixando os jornalistas de “boca aberta”. É que, o Everleigh Club era ”o maior bordel da América”, talvez mesmo, do mundo. E na verdade, depois de cumprir todos os compromissos oficiais, o Príncipe foi presenteado com uma “noitada” na famosa “Casa de Passe”, sendo o convidado de honra de uma grande festa (a imprensa local chamou-lhe “orgia”) oferecida pelas duas proprietárias e irmãs. Para o Príncipe, foi uma data memorável mas, para as irmãs, a visita real não passou de um acontecimento agradável… mas vulgar. É que, durante os doze anos em que aquela “Casa de Alterne” esteve aberta, raras foram as semanas em que não recebeu todo o tipo de celebridades, desde atores, cantores, atletas das mais diversas modalidades, políticos e até bandidos. E lá estavam as “duas patroas” mais famosas da história da América para os receber. Como dizia I. Wallace, “para cada cavalheiro desejoso de se evadir através dos prazeres da carne, este clube não representava apenas uma casa de má fama. Uma vez lá dentro, o cliente libertava-se imediatamente de quaisquer preconceitos que pudesse alimentar acerca dos baixos intuitos comerciais das proprietárias. O ambiente, algo de intermédio entre um clube masculino e uma residência de damas de alta roda, proporcionava-lhe cultura, beleza, intimidade doméstica, bem estar… e havia ainda o prazer sensual, tudo estreitamente envolvido no véu do mais exótico romance. Desde o momento em que o freguês entrava no Everleigh Club, nenhum esforço era poupado para lhe cativar os sentidos”. No apogeu da fama e do negócio, a casa viria a fechar por pressão das reformistas, da chantagem desmedida de polícias e políticos corruptos (também os havia por lá…) e do cansaço das proprietárias na luta inglória contra forças tão poderosas.

Apesar de haver quem não a considere como tal, diz-se que a prostituição é “a mais velha profissão do mundo” e é exercida tanto em casas com todos os luxos, como era o caso, como nos casebres mais pobres ou nos lugares mais deprimentes. Atravessou os tempos, resistiu a leis severas, movimentos contrários, ataques policiais, prisões, “chulos”, à concorrência das “amadoras”, daquelas que dizem “que o não são”, aos chantagistas e todo o tipo de “intempéries”, sendo sempre “usada” por todos os que a combatiam. As leis que a regem foram mudando, com avanços e recuos em função da “ordem moral do momento” e do “poder reinante”, como agora nas chamadas “questões fraturantes”. Até 1962 havia regulamentos sanitários para a prostituição que impunham a obrigatoriedade de matrícula e porte de um livrete individual de registo de inspeções periódicas. A partir daí, a proibição não fez melhorar as condições sanitárias, muito menos as morais. Despenalizada em 1983, a prostituição não é legal nem ilegal, não existe na lei, está no limbo. Não é crime nem deixa de ser, está no vazio. O único criminoso é o “chulo”. Apesar das mudanças da lei, dos moralismos, do estigma, da intolerância e do controle social – e policial – continua a existir com a mesma força. E nem os defensores das “questões fraturantes” a aproveitaram como bandeira eleitoral… Pois, é um tema “sensível” em que os políticos não querem “tocar”, apesar de “consumirem à socapa” como os outros. Os defensores da legalização das “trabalhadoras de sexo” dizem que reduziria o tráfico de mulheres, combatia a violência, punha-as a pagar impostos e a ter direitos sociais, criava casas próprias para “prestar o serviço” (sugiro uma publicidade sugestiva como – “venha dar uma rapidinha low cost”) com controle sanitário que impedisse a disseminação de certas doenças, hoje “sem controle”. Mas os do contra, alguns que só usam enquanto for “fruto proibido”, dizem que só beneficiaria proxenetas, traficantes de seres humanos, exploradores de mulheres e até aumentaria a procura.

Certo, certo, é que a grande maioria dos homens, de todas as classes sociais, usa ou usou os “serviços” das “trabalhadoras de sexo para satisfação das suas “insatisfações”, num sinal de que “a democracia funciona” em pleno.

MAS FINGIMOS QUE NÃO VEMOS. Como nos abusos do poder, no assédio sexual, na exploração do homem pelo homem à conta da crise, na corrupção, em novas formas de escravidão e muitas outras indignidades e injustiças que se passam à nossa volta, fingimos que não vemos, fingimos que é normal e que não é necessário fazer nada.

Por isso, vamos continuar a fingir que não vemos aquelas mulheres e os seus problemas, assumidas “trabalhadoras de sexo”, mais ou menos “boas profissionais”, sem horário de trabalho e com “alojamento ambulante instalado” serra de Lustosa acima, como se não estivessem lá todos os dias faça chuva ou faça sol.

E fingimos igualmente que não vemos os seus inúmeros clientes incapazes de controlar os “apelos da carne”, gente que conhecemos bem e que vive no meio de nós…

Quem sou eu para saber por onde ir… O que sei, é que não podemos eternamente continuar a fingir que não vemos, feitos hipócritas, e continuemos a “enterrar a cabeça na areia, como a avestruz, à espera que a tempestade passe”. MAS NÃO PASSA…

A crise, a explicação e os “burros”…

Uma consultora financeira prestigiada explicou, de uma forma muito simples, a crise:

“Um homem apareceu numa aldeia do interior esquecido e ofereceu aos seus habitantes cem euros por cada burro, tendo boa parte da população vendido os seus animais.

No dia seguinte, voltou e ofereceu cento e cinquenta euros por cada burro, tendo outra parte da população vendido os seus.

Voltou um dia depois e, dessa vez, ofereceu trezentos euros por cada animal. O resto do povo vendeu os últimos burros que tinha.

Vendo que já não existiam mais burros na aldeia, o homem ofereceu quinhentos euros por cada um mais, dando a entender que viria na próxima semana.

No dia seguinte enviou à aldeia um cúmplice com os burros que tinha comprado, oferecendo-os a quatrocentos euros cada. Com a ganância de os vender a quinhentos euros na semana seguinte, todos os aldeões compraram burros a quatrocentos euros. Quem não tinha dinheiro, pediu emprestado. Como os burros não chegaram para a procura, foram comprar outros na região, endividando-se.

Como era de esperar, o fulano e o seu cúmplice desapareceram para gozarem o dinheiro que ganharam no esquema e nunca mais se ouviu falar deles.

Resultado: A aldeia ficou cheia de burros e de gente endividada.

E depois?

Os que tinham pedido dinheiro emprestado não puderam pagar os empréstimos por não conseguirem vender os burros, muito menos aos preços que tinham comprado.

Os que tinham emprestado o dinheiro queixaram-se à junta de freguesia de que, se não recebessem o dinheiro emprestado, não podiam continuar a financiar e a economia da aldeia ficaria arruinada.

Para que os prestamistas não falissem, o presidente da junta, em vez de emprestar o dinheiro aos aldeões para pagarem o que deviam, emprestou-lhes dinheiro a eles. Mas estes, continuaram a exigir os débitos aos aldeões a quem não perdoaram as dívidas, continuando assim endividados.

A junta de freguesia ficou endividada e, apesar de tentar empréstimos na região, não conseguiu com medo que ela não pagasse.

Os chico-espertos ficaram de papo cheio.

Os prestamistas continuaram a cobrar as dívidas e juros aos devedores e até ficaram com os burros já desvalorizados, que não foram suficientes para pagar as dívidas.

Muita gente ficou arruinada para a vida e sem burros. E a autarquia também.”

Esta explicação, apesar de se referir a outra realidade, não deixa de caricaturar a nossa história recente e, se quisermos ser honestos, podemos rever-nos em uma ou outra situação análoga. A inflação especulativa do preço dos burros traz-nos à memória outras inflações, outras valorizações rápidas que convidavam a comprar, comprar, comprar “outros burros”, fosse com o nosso dinheiro ou com dinheiro emprestado por privados ou pelos bancos, porque o “lucro” era “garantido, fácil e rápido” e seria uma “burrice” não se aproveitar a “maré de sorte”. E fizemo-lo com uma multiplicidade de bens móveis e imóveis, de bens reais e virtuais, ações e muitos outros “burros”, com os acostumados períodos de euforia e ilusão. Ah, e até se “investiu” dinheiro em “empréstimos” com rendimento “assegurado” de dez por cento ao mês, algo só suplantado em termos de velocidade do enriquecimento pelo euromilhões – só que é mais fácil sermos atingidos por um raio do que ser o sortudo da semana… E os resultados foram aqueles que todos nós conhecemos, que acabaram por “atropelar” uma grande maioria de nós, deixando-nos sem “burros”, sem os euros investidos, mas “carregados como burros” só que, de …dívidas.

No entanto, não fomos só nós, pessoas anónimas, que ficamos enterrados neste “negócio”. A lama “salpicou”, ou antes, “sujou” por completo a nossa “junta de freguesia”, apostada em “dar um passo maior que a perna” ao patrocinar “burros” que não eram necessários com dinheiro que não tinha, o que a deixou de cofres vazios, arruinada e em “falência técnica”, alguém em quem os “mercados” deixaram de confiar e de emprestar, rotulada pelos “donos disto tudo” com uma classificação que nos deveria envergonhar a todos: LIXO.

E os “prestamistas”? Na nossa história recente foram a cópia fiel da explicação da crise dada pela consultora, mas com um final que esta não previu: Os próprios “prestamistas” acabaram metidos no grande “atoleiro dos devedores”, como resultado de “negociatas”, desvios de fundos, créditos tão “mal parados” que dizem “não saber a quem” (mas sabe-se…), “buracos negros” que a “junta de freguesia”, já em falência técnica, teve de “tapar”, alegadamente para o “barco” em que navegamos não “ir ao fundo”. E é caso para perguntar: E os “burros”?