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A cozinha da minha avó …

A casa da minha avó materna ficava (e fica) do outro lado do caminho mesmo em frente à casa dos meus pais e era frequente eu aparecer por “aquelas bandas” quando era criança, fosse para ir aos figos na figueira que pendia um pouco sobre a casa da Emilinha “Séria”, fosse para ir aos “ameixos de aparta caroço” que pendiam sobre a mata traseira, fosse por muitas outras razões. Mas as saudades ficaram-me mais da cozinha rústica com o lar de pedra onde o lume ardia quase todo o dia. Na lareira estava sempre uma grande panela de ferro de “três pés”, a “caldeira de água quente” daquele tempo, que já era um luxo. Dali tirava-se água quente para tudo pois não havia cilindros elétricos, esquentadores ou outras modernices para aquecer água e que só viriam a chegar à aldeia muitos anos mais tarde. Aliás, nem sequer havia água canalizada, pois na casa da minha avó, como na nossa, era tirada do poço, a princípio a balde puxado com sarilho e anos mais tarde tirada a motor elétrico, outra modernice, tal como a eletricidade, fraca e com muitas falhas, que nos obrigava a usar com frequência os candeeiros a petróleo, velas e candeias. 

Na cozinha da minha avó todos os netos gostavam muito de se sentar no “preguiceiro”, uma peça de mobília fundamental numa cozinha tradicional, espécie de banco comprido com “costas” altas onde nos recostávamos com os pés no “lar” bem perto do lume. Em madeira de pinho, para além das costas o “preguiceiro” tinha “braços” para apoio e, na zona central um pequeno tampo de madeira que fazia de mesa quando se baixava e apoiava numa haste de madeira, servindo para comer, jogar ou outra coisa qualquer. Ali sentados, gozávamos dos prazeres do fogo e ficávamos a ver as mulheres cozinhar. No meio da fogueira e ao lado da panela grande de três pés havia uma “trempe” feita em ferro onde colocavam panelas e tachos para cozinhar, fosse o caldo que nos era servido em grandes “malgas” de barro, fossem as batatas cozidas com casca que muitas vezes não tinham nada para acompanhar além de um fio de azeite já que o azeite era caro, com um pouco de vinagre tinto feito num grande garrafão com vinho do quintal e uma “tripa” que mais não era senão um aglomerado de bactérias acéticas necessárias à acidificação do vinho. No tempo das castanhas aproveitava-se a fogueira para as assar, depois de cortar um canto a todas elas para não rebentarem, atiradas para o meio do fogo onde ficavam enterradas na cinza. Ao ajudar a cortar os cantos das castanhas, de malandrice deixava ir algumas inteiras para depois ver as mulheres a assustarem-se (ou a fingir) com os rebentamentos no meio da fogueira, espalhando pequenos pedaços de carvão.

No inverno era crónico ver as mulheres com “murras” nas pernas como resultado de andarem muito tempo junto do lume com elas à mostra. As murras são manchas pouco persistentes causadas pelo calor do fogo e que causam algum desconforto. Como nós, homens, andávamos de calças, não tínhamos esse problema.

O canto da cozinha por detrás do preguiceiro era o espaço onde se “fabricava” o pão, mais concretamente a broa de milho. Ali estava o forno de barro aquecido a lenha e, ao lado, a “amassadeira”. O milho era de produção própria no Campo dos Morgadinhos ou noutro mais abaixo e moído pelo moleiro dos Moinhos. Gostava de ver a minha avó misturar a farinha com água quanto baste, fermento e um pouco de sal e amassar. Às vezes ela deixava-me “meter a mão na massa” e seguia com atenção as fases seguintes, desde o aquecer do forno, o retirar das brasas e cinza, o meter o pão a cozer e o tapar da porta do forno com fezes de boi. Mas a parte mais interessante era sempre a abertura do forno e a retirada das broas já cozidas. Tinha logo direito a um naco de broa quente que me “sabia pela vida”. 

No inverno, depois da matança do porco, a base do saco da chaminé ficava atravessada por três varas carregadas de salpicões e chouriças de sangue, além de presuntos e outras partes do porco a precisarem de ser defumadas depois de salgadas, para se conservarem. Às vezes tínhamos direito a provar para saber se estavam em condições de ser consumidas. Por nós, estavam sempre.

No Natal, com a “mesa” do preguiceiro montada, eu sentava-me de um lado e o meu irmão do outro e jogávamos o jogo do “rapa” usando um pequeno pião de quatro lados. Em cada lado havia uma letra: R (Rapa), T (Tira), D (Deixa) e P (Põe). Jogávamos a pinhões com casca que conseguíamos num pinheiro manso grande na mata atrás da casa da minha avó. Eu era perito a subir pelo tronco do pinheiro, agarrado à casca (nalguns, como só conseguia abraçar metade da árvore, era agarrado à casca rugosa que trepava) e apanhava as pinhas de onde extraía posteriormente os pinhões. Para começar o jogo, eu e o meu irmão colocávamos em cima da mesa do preguiceiro um pinhão cada e fazíamos rodopiar à vez o “Rapa”, o pequeno pião. Quando saía o R, “rapava” os pinhões sobre a mesa. O T dava direito a tirar um pinhão. O D era para deixar tudo como estava. E o P queria dizer que éramos obrigados a pôr lá um pinhão. E ali ficávamos horas seguidas a jogar, alternando com mais “jogadores” interessados. Quando fora de jogo, aproveitávamos para comer os pinhões ganhos a jogar, partindo-os com uma pedra sobre o lar. A Noite de Natal “convidava-nos” a ficar por ali logo a partir do almoço porque durante a tarde faziam-se as rabanadas de mel e os formigos, uma coisa fora do comum pelo que aguardávamos pacientemente para ver e “provar” aquelas doçuras que eram de “comer e chorar por mais”. E a espera valia a pena …

Estas memórias vieram-me à cabeça enquanto observava algumas crianças insatisfeitas com os diversos jogos que tinham para brincar e, mais tarde, resmungando diante de um lanche muito bem aviado. Fiquei a pensar que hoje valorizam pouco ou nada o muito que lhes é dado, grande parte das vezes sem terem necessidade sequer de pedir. É que os pais, no seu desejo de darem aos filhos tudo e mais alguma coisa do bom e do melhor, numa competição implacável com outros pais, sejam familiares, amigos, vizinhos ou simples conhecidos, fazem do brinquedo mais caro à gulodice mais sofisticada uma coisa comum e comum, que faz passar a mensagem errada aos “beneficiários” de que são coisas sem valor. E, para quem nem sequer teve de pedir, são mesmo. Pelo contrário, num outro tempo em que havia muito pouco, dava-se importância a tudo, nada se desperdiçava e ficava-se grato pelo que se recebia e tinha, fosse para comer ou brincar …   

Para mim, não. Preferia emigrar …

A natureza colocou pelos no nosso corpo e dele fazem parte, quer se queira, quer não. Porquê? Porque sendo todos muito diferentes, em comum todos eles servem para nos proteger, seja da radiação solar, frio, calor, fricção da pele, infeções devido a pequenos cortes e até de doenças. Cabelos, sobrancelhas, cílios ou pelos da região pubiana, dos ouvidos, nariz, axilas ou qualquer outra parte do corpo, cada um tem funções específicas, seja na diminuição de queimaduras nas virilhas, seja na diminuição da fricção existente no contacto de pele com pele do ato sexual ou de uma coisa tão simples como andar, seja a criação de uma barreira contra as bactérias e muitas outras funções.

Quando garoto, os pelos no homem eram sinal de masculinidade e nas mulheres, em menor quantidade, eram … naturais. Aliás, como a maior parte dos corpos femininos andavam tapados, a estética não se colocava. Mas, sobretudo a partir da industrialização com a saída das mulheres para o mercado de trabalho, a subida das saias e à medida que foram aumentando os centímetros quadrados do corpo feminino a nu, a propaganda começou por convencer as mulheres que os pelos são um “embaraço” e a indústria criou e vendeu os primeiros cremes e aparelhos depilatórios para elas. E a mentalização levou que estas passassem a interiorizar que pelos são feios, sujos e masculinos. Foi então que alastrou o conceito estético feminino de hoje alicerçado na publicidade, imprensa, moda, televisão, cinema e, anos mais tarde, no erotismo e pornografia, levando-as a rituais regulares de purificação daquilo que consideram ser uma maldição feminina, num sacrifício supremo em nome do “padrão estético” e da aceitação. Deixaram de ter escolha e de ser donas do seu corpo. 

Desde então, sofisticaram-se métodos, aumentou a exigência de uma pele “limpa” e todas as “armas” eram válidas para a conseguir: Laser, cremes, cera, lâminas e múltiplos aparelhos num negócio crescente. A verdade é que os homens criaram uma “mulher padrão” totalmente depilada (como as castanhas de outrora), caso contrário não seriam “consumíveis” pelo olhar masculino. Enquanto nos homens os pelos significavam poder e masculinidade, nas mulheres a depilação era o símbolo da feminilidade e fragilidade. Assim foi construída a imagem do corpo da mulher: limpinho de pelos, pele suave (pelos cremes) à custa de muita dor, sofrimento e consequências no pós-depilatório.

Já nos homens os pelos não eram (nem são) considerados nojentos e feios, embora tenham as mesmas funções e sejam mais abundantes. E enquanto nas mulheres a depilação passou a ser uma obrigação, em alguns homens levados pela corrente da efeminização, é opção, mas não uma necessidade. Ninguém olha de lado um homem de calções e pelos nas pernas nem nos rimos do emaranhado de pelos no peito ou na axila. Já nas mulheres tornaram-se inaceitáveis para a sociedade e mentalidade de hoje, tornando-as quase proscritas … 

É verdade que as mulheres vivem apavoradas com “esses malfadados pelos”: Correm a depilar-se quando se aproxima o tempo de ir à praia ou chega o verão. Vestem calças em vez de saias por terem pelos nas pernas. Plantam-se diante do espelho catando cada um e julgam-se. Enquanto isso, como o mercado para os produtos e serviços que são essenciais na depilação precisava de crescer para além das mulheres, os homens passaram a ser “formatados” em novos conceitos como o metrossexual, que retrata a “sintonia do homem heterossexual com o seu lado feminino” e vive nas grandes metrópoles, com preocupação excessiva na sua aparência, o que até há pouco tempo era anormal e tido como próprio de um homossexual. Com a adesão a este novo tipo de apresentação masculina por parte de algumas vedetas, o conceito cresceu e com ele a depilação masculina, no todo ou em parte. Jovens são o terreno onde o mercado procura crescer, conquistando crentes vendendo a ideia de que é moderno e higiénico, o mesmo que se usou para atrair as mulheres.

Dizia uma reputada especialista na matéria: “À pergunta “porque nos depilamos?”, lá vem a maior mentira: porque é mais higiénico. Logo a seguir, a segunda mentira: os pelos são feios. E, finalmente, a terceira: é uma escolha minha”. A verdadeira razão da depilação é a pressão social, que não tem deixado outra escolha às mulheres (e agora a um certo grupo de homens). Curiosamente, na altura em que assistimos a uma adesão crescente à depilação por parte dos homens, sobretudo os mais jovens, assiste-se ao nascimento de um movimento feminino em sentido contrário, naquilo que consideram ser “retomar a posse do corpo” e o direito de recusar a depilação sem qualquer complexo pelo facto de ter pelos, que consideram naturais, livrando-se desse sacrifício crónico e regular que é o ato depilatório.

Quando penso em depilação masculina até os pelos se arrepiam e não sei como é que eles sentem o que eu sinto. É verdade que eles sabem que os defendo “com unhas e dentes” e até nem concebo arrancar um único, quanto mais puxar a “carpete” inteira à força! Quando muito, a aparadela do costume, seja ela na cabeça, nariz ou outro local onde se tornem demasiado grandes e a ultrapassar os limites do razoável. Em nome da moda, pressão social ou do que quer que seja, é preciso ter-se uma certa dose de loucura para os arrancar à força, sujeitos à dor e a um sofrimento voluntário. A mim é que não me apanham! E se um dia, por mais absurdo que pareça, vier a ser obrigatório, emigro … 

Nisto da depilação cada um deve ter o direito de escolher livremente se quer arrancar, rapar, queimar, aparar ou deixar crescer livremente a “penugem”, tal como já o fazem em tantas “decorações” (?) seja com todo o tipo de grafitis a preto e branco ou coloridos nos locais mais bizarros e secretos da pele, seja por apêndices metálicos pendurados ou enterrados em posições e partes do corpo mais ou menos visíveis. E essa escolha para ser livre devia ser consciente, mas em regra, não se faz mais do que alinhar pelas modas, copiar os “tiques” da vedeta A ou B e, o mais comum, ser induzido pela publicidade, marketing e os outros meios que a indústria e os media utilizam para nos manipular. E só não seremos levados a regressar aos usos e costumes do Homem das Cavernas, peludos e desnudados, por não interessar ao negócio e muito menos aos “manipuladores desta sociedade de consumo” em que vivemos e de que somos meras “marionetes” … 

Entre “dormir como uma pedra” ou … nada

Passamos um terço das nossas vidas a dormir, o que é essencial para sobrevivermos. E, se a memória não me falha, apesar de ter nascido a berrar, passei a “dormir como uma pedra” por muitos e bons anos. Se havia alguma qualidade boa que eu tinha enquanto jovem era essa, de me deitar, adormecer depressa e só acordar de manhã. E estou a falar do tempo em que na aldeia nos deitávamos às dez horas da noite, já que não havia televisão, não havia rádio nem iluminação pública. Aliás, a maioria das casas não tinha iluminação sequer. Por isso, como não havia nada para ninguém a única opção era ir dormir. No verão, como a noite chegava mais tarde e os vizinhos ficavam cá fora na conversa, a hora da deita era retardada, mas nunca depois das onze.

Quando fui estudar para Coimbra não estranhei a cama e continuei a dormir bem. E para o confirmar, logo na primeira noite de internato os alunos mais velhos quiseram pregar-nos uma partida, a mim e aos outros caloiros, deixando a cama metálica fora dos encaixes pelo que, mal me deitei, a cama caiu desmontada e o colchão ficou no chão com a roupa entalada. Como queria dormir e para não dar oportunidade a gozo, deitei-me ali assim mesmo e adormeci logo de seguida e só ao outro dia de manhã me preocupei em montá-la.

Quando acabei o curso fui estagiar a Angola e se nos primeiros três meses em que permaneci em Luanda dormi no quarto de uma pensão sem razões para que o meu sono pesado se alterasse, quando fui para Malange a comodidade acabou. Passei a dormir no quarto duma casa particular, com a rede mosquiteira a garantir-me a tranquilidade do sono, além dumas pequenas latas com óleo onde estavam enfiadas as quatro pernas metálicas da cama. É que os “percevejos” eram muitos e enquanto uns tentavam subir pelas pernas da cama sem conseguir porque acabavam a boiar no óleo das latas, havia muitos outros que subiam pela parede do quarto, andavam pelo teto até ficarem mesmo em cima da cama e atiravam-se em queda livre para aterrarem sobre “a comida”. Valia-me a rede mosquiteira, que não só os impedia de terem êxito no ataque aéreo, como me protegia ainda do voo picado dos mosquitos que “eram mais que muitos”. Por isso, o meu sono foi-se mantendo repousante e recuperador. Quando tinha de sair para os locais onde o Instituto do Algodão tinha campos experimentais e que me obrigava a ficar fora vários dias, dormia em casas próprias desse organismo, sem grandes condições, mas a rede mosquiteira que fazia questão de levar na bagagem era, quase sempre, garantia duma noite sem “bicharada” a estragar-me a noite de um sono só.

Seguiu-se o serviço militar, na época duro e exigente. E nem as noites passadas nas casernas de cá, nem os cerca de dois anos dormidos em Moçambique em condições precárias me tiraram o sono. A título de exemplo, no primeiro local para onde fomos, em Nantuego, dormia no “depósito dos géneros alimentares”, tendo “por companhia” um cabo quando não estava de serviço, centenas de ratos a passarem por todos os lados e milhões de baratas que faziam um barulho enorme e estranho ao esconderem-se sempre que se acendia a luz. Mas o sono integral mantinha-se. E nem na noite em que um soldado disparou três ou quatro tiros contra um leopardo que rondava perto da rede do aquartelamento com a arma apoiada na janela junto à qual dormia e continuei a dormir sem ter ouvido os estrondos da “caçada”.

As primeiras noites mal dormidas tive-as nos primeiros três meses após o nascimento do meu filho mais velho e até o pediatra detetar a bactéria intestinal que lhe provocava as dores e nos obrigava a dar-lhe colo toda a noite ou a abanar o berço, não por falta de sono, mas por falta de oportunidade para dormir o necessário. Eliminada essa causa, passamos a dormir bem, ele e nós, sem interrupções, insónias ou dores crónicas e eu voltei ao bom registo de “dormir toda a noite”.

Só quando entrei nos “entas” e me apareceu na coluna uma hérnia discal com as dores que só quem as tem ou teve é capaz de imaginar é que, verdadeiramente, passei a sentir o que são “noites malpassadas” e a ressaca que se tem no dia seguinte, com todas as consequências daí resultantes. Para mim passou a fazer sentido o provérbio “dormir é meia mantença”. Aliás, o médico que me diagnosticou hérnia antes mesmo de fazer o exame radiológico, fez-me um aviso em tom solene: “A partir de agora, lembre-se que tem costas”. 

E foram cerca de três anos com altos e baixos, crises e bonanças, noites mal dormidas pois nem me conseguia virar na cama tal era a dor, até a eliminarem sem recurso à cirurgia, mas mantendo a “hérnia de estimação”. Aí entrei numa nova fase de sono pois, sem a dor a “moer”, regressei ao regime de “boa noite”, mas sem poder dizer “como uma pedra”. Isso já se fora, provavelmente para sempre …

Daí em diante os anos foram acrescentando maleitas e estas “calhaus no dormir” que ajudaram a perturbar o sono. Depois de andar tempo sem conhecer a razão do mal-estar nas pernas, aumentado pelo calor da cama que me faz passar a noite num “destapa” que me dá frio ou no “tapa” que me volta a fazer calor, descobriram e batizaram esse mal-estar de “síndrome das pernas irrequietas”. E quando há noite de crise, apesar do sono estar lá, não dá para dormir. Ainda posso juntar a isto a tendinite do ombro, cotovelo e mão e as dores de costas que são recorrentes, mais quando abuso nos meus trabalhos de jardineiro e horticultor, além de ressonar muito durante um certo período, que até dava para me acordar a mim próprio.

Sendo o sono muito importante para a saúde física e psíquica de cada um de nós, pois é quando o organismo repara os tecidos, restaura o corpo, repõe energias e regula metabolismos, dou-me por felizardo pois durante algumas décadas usufrui dum sono profundo e único, de que saía “fresco como uma alface” no dizer do nosso povo. E mesmo depois, com alguns “inconvenientes” a perturbá-lo, posso dar-me por feliz se “olhar para o lado” e ver que há muitíssimas pessoas que já nem se queixam porque “dormir” é um castigo de tão mal que passam e sofrem. Só hoje, a Isabel lamentou-se porque o neurologista não lhe encontra causas para os “choques” que sente sempre que se mexe na cama e fazem da noite um martírio. Para a Maria o trabalho acaba por ser um alívio já que quando deitada na cama sente uma dor tal que é como se lhe estivessem a cortar a perna, o que não acontece durante o dia. O Maurício, que é crónico sofredor de insónias há muitos anos, não consegue que elas lhe deem folga e umas pequenas “férias” para descansar a cabeça desse pesadelo que é o não conseguir dormir e apesar da muita medicação a que tem estado sujeito. Além de uma mulher jovem que, disse, nunca soube nem sabe o que será “dormir como uma pedra”, tal a sua dificuldade em ter sonos prolongados e repousantes.

Dizem que “dormir é tão bom que nem dá para acreditar que é de graça”. Ora, sendo assim, não deveríamos ter problemas para dormir, pois já nos basta os que temos para nos levantar …   

7 palmos de terra ou pira funerária?

Como diz o ditado, a morte é parte incontornável e única certeza que temos da vida. Por si só, já é um assunto cheio de mistérios e tabus que muita gente nem sequer quer discutir, embora todos saibam que é aquilo que os espera. A sociedade leva-nos a evitar falar sobre esse processo e a substituir a palavra “morte” por eufemismos. Deixamos de falar sobre a “morte” e de usar a palavra, trocando-a por outras similares. Em vez de “morto” dizemos “falecido”, o quando “está a morrer” vira a “muito doente” e o “morreu” trocamos por “partiu”, “faleceu”, “finou-se” ou “apagou-se”. A morte até é tão democrática, chega a todos por igual não deixando ninguém de fora, ora um pouco mais cedo, ora um pouco mais tarde. Para a maioria das pessoas é um tabu de que se não pode falar como se, com isso, a possamos atrair. A verdade é que todos nós deveríamos pensar nela com tranquilidade. Perdemos a imensa sabedoria humana de aceitar a morte de modo natural. Claro que já ouvi algo como: “Para quê preocupar-me com a morte se tenho tantos problemas para resolver primeiro em vida”? Já percebemos que temos menos medo da morte, mas muito mais de pensar nela.

José Barbosa da Mota era uma figura da minha infância que, traído pela mulher num tempo em que traição era caso sério, deixou a terra no Alto Minho e veio parar à minha aldeia onde sobrevivia fazendo biscates. Com muita antecedência comprou o caixão que tinha ao alto atrás da porta do palheiro onde vivia. Ele dizia-se “estar preparado”. 

As funerárias anunciam funerais em jazigos, sepulturas ou cremações e até funerais sociais, com serviço completo do tipo “tudo incluído”. Não sei se na lista há o serviço de bar. Além do mais, também vendem serviços para melhorar a apresentação utilizando a tanatoestética e a tanatopraxia, conferindo bom aspeto ao morto, se é precisa uma boa aparência para ser enterrado e comido. Ainda têm para oferecer o serviço de música no velório e funeral e os habituais arranjos florais.

A tradição, especialmente em zonas rurais como a nossa, envolve um caixão e uma sepultura, que alguns substituem investindo num jazigo mais ou menos pomposo conforme a bolsa e a vaidade, porque até na morte existe. Nalguns casos, a escolha do jazigo ou até da sepultura com prateleiras acontece pelo medo de “ficar enterrado”. Presumo que seja mais pelo receio de sentir “falta de ar” do que por ter medo de vingança da bicharada. É que se diz por aí que eles nos “comem” para se vingarem dos inúmeros seres vivos que matamos enquanto andamos por cá, tantas vezes sem necessidade … 

Mas, como é vulgar dizer-se, a tradição já não é o que era e os centros urbanos foram os primeiros a romper com ela também neste caso. E a ideia de enterrar o corpo perde força a favor da cremação. Quem diria! Durante anos andaram-nos a acenar com um inferno feito de labaredas imensas para onde seriam atirados os pecadores e agora, pecadores ou não, aceitam como ótima opção ser incinerado a mais de mil graus de temperatura, numa pira funerária moderna e eficaz …

O primeiro crematório remonta a 1925, mas viria a ser encerrado, a meu ver por “falta de clientela com medo de chamuscar o rabo”. Mas as voltas da vida e da sociedade fizeram com que a “falta de espaço nos cerca de 5.000 cemitérios”, a crescente dificuldade das pessoas em fazerem a “visitação aos cemitérios”, a “fácil acomodação do pote das cinzas em casa” e a maior facilidade no “despacho do assunto”, têm feito com que os “clientes da cremação” aumentem de dia para dia, sendo igualmente uma opção em crescimento mesmo nas zonas rurais como é a nossa.

Até 1963, para a maioria dos católicos a cremação não era opção a ter em conta, mas a partir daí foi autorizada pelo Papa João VI. Porém, foi necessário que a sociedade e as mentalidades se alterassem pouco a pouco para o processo vir a ser aceite, embora há algumas religiões que continuam a não o admitir. Mas ainda nos dias de hoje o enterro é a cerimónia de despedida mais popular e, à partida, tida por ser … a mais barata. Acontece com as famílias que têm jazigo ou sepultura, o que simplifica logo o processo. Caso contrário, para quem tiver de o comprar e lhe somar as lápides, flores e visitações ao longo de anos, a conta final pode ser outra.

A opção pelo enterro é uma decisão a ter em conta, especialmente quando a família quer ter um local para visitar quem morre e onde ir prestar homenagem. E as visitas são importantes para muita gente, embora uma maçada para muitas outras. Além disso, o enterro tem certo valor simbólico e é tradição. E a tradição e a questão religiosa têm muito peso, principalmente em certas datas.

Claro que a cremação tem vindo a ganhar clientes e, como tem custo superior, até já existem “planos funerários de financiamento” onde o slogan publicitário deveria ser: “Morra e pague às prestações, que nós o cremamos a pronto”. A família pode guardar as cinzas em casa sem necessidade de ir ao cemitério, ter jazigo ou sepultura, colocar flores, fazer manutenções e pagar taxas. E, se a vontade do falecido for que as suas cinzas sejam espalhadas nalgum lugar escolhido por ele, onde repousará conforme o seu desejo, terminam para sempre as preocupações da família no momento em que elas são espalhadas ao acaso pelo vento.

Fazemos parte da natureza como qualquer outro ser vivo e devemos voltar a ela quando morrermos tal como uma árvore que cai com o vento e se desintegra lentamente, libertando os nutrientes que a compõem e irão alimentar e dar vida a novas vidas. Por isso gostaria de ver o meu corpo devolvido à terra, não num dos nossos cemitérios onde todo o tipo de jazigos e sepulturas se atropelam como uma feira de vaidades, mas num tipo americano feito parque onde cada um tem uma cruz simples e uma placa identificadora, porque ali ninguém tem que ser maior que ninguém. E assim, à sombra duma árvore, o corpo seria devolvido à natureza, entregue a biliões de pequenos seres que o transformariam em elementos básicos da vida, num benefício para o ecossistema envolvente com reciclagem completa a favor de outros seres vivos, o que não acontece com a cremação.

De uma forma ou de outra, temos de nos dar por felizes se a morte, quando chegar, só nos puder roubar a vida …  

Só estamos bem “do outro lado da porta”…

Na minha imaginação sempre que ouço falar em “viúva” ainda vejo uma mulher completamente vestida de negro, com rendas a esconder-lhe o rosto e um grande crucifixo ao peito. Além disso, era uma mulher condenada à “solidão eterna”, como se tivesse também “morrido” com o falecido marido. Nessa época, quando um dia perguntaram a uma mulher idosa que perdera o marido há muitos anos qual a razão por que continuava a manter o “luto cerrado” ela respondeu com toda a naturalidade: “Esta é a forma que tenho de manter o sentimento, respeito e saudade pelo meu homem”. No caso de ser o homem viúvo, apesar de ter um pouco mais de liberdade, não deixava de andar enlutado e havia muita dificuldade em ter novo relacionamento. Recordo que na aldeia onde cresci, a rapaziada “tocava os cornos” na noite da véspera do casamento de algum viúvo, o que era coisa rara. Mas essas imagens são duma infância distante, tendo a realidade mudado pouco a pouco com o tempo, a moral, as mentalidades e mesmo os novos conceitos de relacionamento. O luto foi encurtando tal como o comprimento dos vestidos e o preto cedo deu lugar à cor. Só nas Caxinas, Vila do Conde, as mulheres a quem o mar roubou os seus homens, se mantêm figuras vivas de um negro absoluto e, para a maioria, a viuvez, como o casamento, é para o resto da vida. Até as leis que impunham ao viúvo um “tempo de jejum e abstinência” para novo casamento, espera essa que era de 300 dias para as mulheres e 180 dias nos homens, mudaram e, com isso, desapareceu em 2019 o período de espera, sinal de novo tempo e novas formas de ver a sociedade.

A verdade é que um viúvo ou viúva não morre com o cônjugue e nem sequer tem de ficar condenado a viver sozinho o resto dos seus dias, sem alguém com quem compartilhar as refeições além do sofá, as alegrias e tristezas, os projetos e preocupações, quem comparticipe nas despesas da vida e nas dificuldades do dia a dia e de dar satisfação aos impulsos sexuais se ainda for o caso, sem ter de recorrer a processos alternativos. A sociedade em geral já reconhece isso, dá aval e encara com naturalidade o direito de cada um refazer a sua vida, mas há demasiadas vezes “pedregulhos no caminho”, gente que acha saber qual deve ser a duração do processo de luto para alguém que perdeu o seu par como se tivesse o direito de se intrometer nos sentimentos e na vida desse alguém. 

O processo de luto é variável conforme a pessoa, mas é habitual durar entre 6 meses e um ano. A partir do momento que o viúvo faz o luto pode passar à fase seguinte, isto é, encontrar uma nova experiência amorosa. Já Freud dizia que “resolver o luto é voltar a amar”.

Normalmente o que mais inibe as viúvas são os filhos. As que são mães de jovens adolescentes têm medo de meter outro homem em casa. Por isso tendem a criá-los primeiro antes de apostar no novo relacionamento. Mas, seja homem ou mulher, muito mais vezes do que podemos imaginar têm de estar preparados para a reação negativa de um ou mais filhos quando dá sinais, ainda que ligeiros, de querer conhecer alguém com eventual intenção de um futuro relacionamento. É que uma não aceitação poderá acontecer com filhos de todas as idades, credos e fatores sociais, culturais e económicos, pois há aspetos emocionais e financeiros envolvidos para aceitar a nova namorada do pai, o companheiro da mãe. Há filhos que têm medo de “perder” também o pai (ou a mãe) para a pessoa com quem se está a relacionar, deixando de ter a sua atenção. Por vezes invocam a lembrança da mãe (ou do pai) que morreu, como se nova vida amorosa seja motivo para esquecer de vez a sua memória.

Os filhos adultos são mais racionais e pensam muito na parte financeira, no possível aproveitamento de alguém para enganar e tirar partido da situação. Claro que estão a pensar mais neles do que no pai (ou mãe), pois não querem que o património voe e vá parar às mãos de qualquer oportunista de “falinhas mansas”. Como o homem é muitíssimo mais pateta, pois procura sempre mulher que “o trate bem”, “lhe aqueça os pés” e “tome conta da casa”, é normal ser facilmente “esmifrado”. Ainda esta manhã a senhora “Maria” me dizia que “os homens são uns bananas que só pensam em mimos, sopas e descanso”, enquanto as mulheres são muitas vezes “interesseiras e calculistas”. E, como conhece bem o “mercado das viúvas” que “andam à caça”, diz que uma maioria tem sempre em mente como estratégia “ir sacando da vítima” todo o tipo de “contributos”, competindo entre elas para ver quem mais consegue. Contou alguns casos concretos em que se permitem falar à mesa dos cafés para provocar as invejas do costume. Dizia uma, exibindo um anel à “amiga e concorrente”: “De onde veio este virão ainda muitos mais”. E não se inibem de enumerar os vestidos, sapatos, botas, eletrodomésticos, móveis, quando não carros ou apartamentos, conquistados à custa desse “jeitinho” especial a que os homens se submetem.

Um novo relacionamento de alguém que enviuvou não implica casamento e, em muitos casos, cada um continua a viver na sua casa, mantendo a independência necessária para uma eventual retirada estratégica a qualquer momento. Como hoje tudo é tão transitório, é melhor estar prevenido …

Para quem perdeu o conjugue e quer voltar a “meter-se na boca do lobo”, isto é, “em alhadas”, se tiver filhos deve informá-los da sua intenção sem se sujeitar a qualquer pedido de autorização, o que seria absurdo. A responsabilidade da “asneira” tem de ser assumida por quem se quer meter nela, sem a querer distribuir por gente inocente no caso de correr mal. E, provavelmente, vai. Mas a vida é isso mesmo: Queremos estar sempre do outro lado da porta … 

Mordomias? Tê-las e manter-las é um péssimo exemplo…

Contava Simon Sinek, escritor e comunicador inglês, que um ex-Subsecretário da Defesa fazia o seu discurso numa Conferência perante mais de mil pessoas. Depois de começar a partilhar o que se propusera ali dizer, fez uma pausa para beber um gole de café do copo de plástico que levara consigo para o palco. Tomou outro gole de café, olhou para o copo e sorriu. “Sabem”, disse ele interrompendo o seu discurso, “eu estive aqui no ano passado e falei nesta conferência e neste palco. Mas no ano passado ainda era Subsecretário”, disse ele. “Voei para cá em classe executiva e quando aterrei havia alguém à minha espera no aeroporto para me levar ao hotel. Ao chegar lá, já alguém havia feito o meu chek-in no hotel, pelo que me entregaram a chave e acompanharam até ao quarto. Quando desci na manhã seguinte estava uma pessoa à espera para me trazer para este auditório onde estamos agora. Entrei pelos bastidores e fui conduzido até uma sala verde onde me serviram café numa linda chávena de porcelana”. E continuou: “Este ano estou aqui a discursar, mas já não sou Subsecretário. Vim para cá em classe económica e ontem, quando cheguei ao aeroporto, não estava ninguém à minha espera. Apanhei um táxi para o hotel, fiz o chek-in e fui para o quarto. Pela manhã desci e apanhei outro táxi para aqui. Entrei pela porta principal e procurei o caminho para os bastidores. Quando lá cheguei, perguntei a um elemento da organização se havia café. Apontou para a máquina de café numa mesa do canto e fui eu que lá fui tirar o café, servido neste copo de plástico que estou a segurar” disse, levantando o copo para o mostrar ao público. “E a conclusão a que cheguei”, continuou ele, “é que a chávena de porcelana que me deram no ano passado … nunca foi para mim. Foi para o cargo que ocupava porque eu só mereço (ou tenho direito) a um copo de plástico”.

“Esta é a lição mais importante que vos posso transmitir”, disse. “À medida que vocês ganham fama, fortuna e posições, as pessoas vão tratar-vos bem, vão abrir-vos a porta, servir-vos café sem que precisem de pedir. Todas as vantagens e benefícios que possam obter pelo estatuto ou posição que têm, devem aceitar e usufruir porque não há mal nisso. Sejam gratos, mas tenham em mente que não vos são destinadas. São sempre destinados ao cargo ou posição que vocês ocupam. E, quando deixarem de ocupar esse cargo, o que vai acontecer mais dia menos dia, eles vão dar a chávena de porcelana à pessoa que vos substituir, porque aquilo que vocês merecem é só … um copo de plástico”.

A lição que este antigo Subsecretário contou durante o discurso serve para todos nós, mas especialmente para aqueles que, por nomeação ou eleição chegam a certos lugares de destaque na sociedade sejam eles quais forem, para não se deixarem iludir ou deslumbrar pelo “poleiro” assumindo posturas arrogantes de quem está convicto “ser o maior”. Contando o que aconteceu consigo, o palestrante relembrou, e bem, que as tais mordomias, benesses e atenções concedidas aos chefes, detentores de cargos políticos, financeiros, institucionais e outros, são meramente transitórias e atribuídas à pessoa somente enquanto ocupa essa posição. Não que as vénias, regalias e mordomias sejam fictícias ou fingidas ou não sejam merecidas. Não. Fazem parte do que é convencionado e, independentemente de serem suficientes ou desmedidas, quem as presta cumpre um guião estabelecido, seja quem for a pessoa que no momento ocupa o cargo e que por isso a elas tem direito.

Ao trazer aqui esta parte do discurso do ex-Subsecretário inglês, lembrei-me também duma entrevista interessante de outro político pouco conhecido na “nossa praça”, mas que deveria servir de farol e exemplo para a nossa “democracia” e, em especial, a todos os portugueses, pelo entendimento que ele e as pessoas do seu país têm do tipo de mordomias que lhes são devidas, se comparadas com as benesses que os políticos de países mais pobres como o nosso atribuíram a si mesmos sem qualquer pudor “democrático”.      

Ingvar Carlsson é reformado e vive num andar térreo de 82 m2 de um condomínio popular na Suécia, com uma sala atolada de livros e recordações, o escritório modesto, um quarto de dormir simples e uma cozinha junto do hall de entrada. Ali não há máquinas de lavar roupa porque a lavandaria é comunitária, sendo gerida por todos os moradores do condomínio. Também não há empregados na casa. É o próprio Carlsson que faz as tarefas domésticas com a mulher, como cozinhar, lavar e passara ferro, além de limpar a neve da entrada. Ainda hoje usa o autocarro, meio de transporte que sempre usou quando ia para o seu trabalho. E o que tem isto de especial? É que Carlsson foi várias vezes ministro da Suécia e duas vezes primeiro-ministro, havendo participado nas decisões que desenvolveram a Suécia e o seu estado de bem-estar social, tendo-a levado de país pobre e desigual a um dos países mais ricos e igualitários do mundo. Hoje continua a viver no mesmo apartamento em que vivia antes de ser ministro. Questionado porque não tem direito a carro, motorista, guarda-costas e a outras mordomias como em muitos outros países mais pobres, ele sorri e diz: “Um político deve praticar o que prega. Não se pode fazer belos discursos, mas usar o carro presidencial, pois isso afeta a confiança dos cidadãos nos políticos e no próprio sistema político e tem sérias consequências para a democracia. A Suécia trata os seus políticos como qualquer outro cidadão”. Ele diz que não tem qualquer tipo de privilégio. Tem apenas a sua pensão de reforma como todos os outros trabalhadores. “Eu represento os cidadãos e não tenho nenhum interesse nem nenhum direito de viver uma vida de luxo como político. É que a construção de uma democracia ética é responsabilidade de todos. A democracia é o melhor sistema político, mas cabe-nos a responsabilidade de dar o exemplo”. Para ele que teve uma vida de serviço, “a participação política não é um caminho glamoroso, mas só assim é possível construir uma sociedade democrática”.

Dizia Maquiavel que “será feliz aquele que souber acomodar-se com o seu tempo e infeliz aquele que não proceder de acordo com ele”.

Os “falsos amigos” da nossa língua …

Os estrangeiros dizem que o português é uma língua muito difícil de aprender, se bem que o grau de dificuldade depende de pessoa para pessoa conforme a língua que fala. A aprendizagem é mais fácil para um espanhol do que para um alemão ou russo, mas são reconhecidas as grandes dificuldades que se colocam a alguém de fora que queira aprender a nossa língua: os sons nasais (tom, cão, mãe, Airães, etc.), os verbos e especialmente a sua conjugação, os “s” com som de “z” como “quiser”, “pus” ou “lisa”, os sotaques regionais em especial dos outros países de língua portuguesa pois a pronúncia dos brasileiros não tem nada a ver com a nossa, nem com a angolana ou timorense. E as regras, não tanto por si, mas pelas exceções – daí a célebre frase de que “não há regra sem exceção”. 

Além disso, para baralhar o processo de aprendizagem da língua de Camões, existem expressões populares onde o sentido do que se diz quase sempre não tem nada a ver com o significado das palavras usadas na expressão. Daí que, se eu fosse um inglês a aprender a nossa língua e já conhecesse o significado de cada uma destas palavras – coisas, Arco e Velha – que conclusão tiraria da expressão “coisas do Arco da Velha”? Com toda a certeza, nada do que realmente significa e do sentido com que a usamos. E o mesmo se passaria com tantas outras como “é aqui que a porca torce o rabo”, “resvés Campo de Ourique”, “verter lágrimas de crocodilo”, “não poder com uma gata pelo rabo”, “para trás mija a burra”, “do tempo da Maria Cachucha” e muitas outras em que o nosso vocabulário é tão rico …

Mas para tornar o processo de aprendizagem ainda mais complicado existem os chamados “falsos amigos”, isto é, as palavras que têm uma sonoridade semelhante ou igual, mas um significado completamente diferente. Voltando a colocar-me “na pele do inglês, como é que eu perceberia que há uma diferença bem grande entre a “sela” e a “cela”, sendo que se pronunciam da mesma forma embora a primeira sirva de “assento” quando a outra só dá para “ver o sol aos quadradinhos” e nenhuma das palavras tenha “acento”?  Hoje ouvimos falar muito de “emigrantes” e “imigrantes”, tantas vezes sem se perceber que os primeiros somos nós ao sair de cá para outro país e os “imigrantes” são os que vêm de outros para cá. Eu quando tenho de “emergir” nas águas de um “rio” não me “rio” da situação, até porque não me posso esquecer de “imergir” para não me faltar o ar. 

Dizia-me um pai que a sua filha Joana não “vinha” da “vinha” às onze e tal da manhã quando a mãe a viu e lhe perguntou de onde “vinha”, a pensar que a moça estivera a trabalhar na “vinha” desde muito cedo. Afinal ela estivera num “concerto” musical num recinto improvisado que no final ficou sem “conserto”. O que é que um “concerto” tem em comum com o “conserto”? Nada, a não ser a mesma sonoridade nas duas palavras. O mesmo posso dizer por não gostar de me “apressar” a “apreçar” aquilo que procuro numa loja e nem comprar uma coisa de “cem” euros “sem” primeiro saber se os tenho. Porque “sem” um “cento” de euros nem sequer entro e muito menos me “sento” para comprar uma peça de “cem”. É que “penso” que até para comprar um simples “penso” para aplicar no corte dum dedo ou arranjar “penso” para o gado é sempre preciso ter o “vil metal”, aquilo com que se compra um “melão”, sem ter de ficar com um grande “melão” por falta dele.

Confesso que “sinto” que o meu “cinto” está a dar o berro e já não o “verão” no próximo “verão”. Sem ter “laço”, ficou “lasso”, tal como o meu blusão azul que comprei a um “russo” já está “ruço” de tanto uso. Além disso a “manga” tem uma nódoa do sumo de “manga” que deixei cair sem contar e já não “fecho” o “fecho” porque está “preso” embora não seja um “preso” comum.

Hoje ouvi “soar” as 10 badaladas no sino cá da terra, quando já vinha a “suar” da caminhada matinal. Depois de tomar banho, “como” quase sempre alguma coisa simples, algo “como” uma banana ou laranja. Ao almoço gosto mais de peixe, grelhado ou “cozido”, deixando o outro “cosido” para remendar a roupa.  Costumo ir às compras para “sortir” a “despensa” sem ter “dispensa” de o fazer, o que vai “surtir” efeito nas refeições, sendo um “hábito” normal na casa onde “habito”. Na nossa cozinha, há dias em que resolvem “estufar” a carne (pois para “estofar” o sofá vou ao senhor Oliveira), mas quando temos alguém “distinto” (que nada tem de “destinto”, de desbotado), normalmente “asso” carne em tabuleiro de “aço”, com batata e chuchu.

Esta conversa já está a revelar falta de “senso” por ser longa, sem que se tenha feito qualquer “censo” que eu saiba. Na verdade, com todo o arrazoado, nem sequer tenho “voz” para me “dirigir” a “vós”, mesmo sem estar a “dirigir” qualquer veículo. Já não “jogo” ao “pião” se bem que ainda movimento o “peão” no “jogo” do xadrez quando me quero “recrear”, sem necessidade de “recriar” coisa alguma. 

 Ao mostrar este jogo de palavras que fazem a vida negra a quem tem de aprender a falar a nossa língua, pedi “conselho” a um amigo cá do “concelho”, mas as coisas “são” como “são” e, não estando eu “são” como um pero, tive de me aguentar com o comentário: – “Ouve” bem o que te digo, pois não “houve” tempo para mais. “Era” uma oportunidade para falares da “hera” que te cobre o muro, para te lembrares de “nós” quando comemos uma “noz” ainda meia verde, que há quem “meta” (sem cortar a “meta”) “dó” por não cantar sequer um “dó” afinado e que o “quarto” “quarto” de um hotel pode ser igual ao primeiro. Por isso, se arranjares uma “vaga” na Proteção Civil durante a “vaga” de calor, aproveita a oportunidade. 

Pois bem, aqui do meu “canto” já não “canto” mais, já não digo mais “nada”, mesmo sabendo que ele “nada” muito bem, porque os “falsos amigos” da nossa língua podem ser tão traiçoeiros como os outros …    

Carta aos mais velhos. E a mim …

Há dias alguém me perguntou a idade e, com a confiança que temos, provocou-me: “Está à espera de quê para gozar a vida, fazer o que gosta e lhe dá prazer? Viaje e conheça alguns países com que sonha. Já pensou quantos anos tem para fazer isso? É tempo de pensar em si e viver a sua vida e não a dos outros”, disse ele em tom de sentença. A verdade é que me pus a pensar em mim e me fez passar a mensagem. 

Assim, para quem já está na reforma, um conselho: é tempo de terem juízo e começarem a gozar a vida. Parem de se preocupar com a má situação financeira dos vossos filhos e netos e não se sintam culpados por se colocar em primeiro lugar e gastar o vosso dinheiro convosco. Provavelmente deram uma boa educação aos filhos, proporcionaram-lhes as “ferramentas” para fazerem pela vida sozinhos e aprender a voar sem a vossa ajuda. Pensem, já não estão na altura de sustentar ninguém da família, a não ser o cão ou o gato, animais que lhes fazem companhia e retribuem o que fazem por eles, muitas vezes mais que a família.

Está na hora de dar bom uso ao dinheiro que conseguiram amealhar ao longo duma vida de trabalho, convosco, sem sentimentos de culpa ou arrependimentos. O dinheiro é vosso, gastem-no com os caprichos e desejos que nunca satisfizeram. Parem de poupar e deixar de fazer aquilo que gostavam de fazer só para aumentar a conta bancária mais um pouco. Não se privem de satisfazer os desejos e sonhos que ainda habitam em vós dentro das possibilidades e lembrem-se sempre do provérbio chinês: “Se tu que podes viajar em primeira só viajas em segunda para poupar, está descansado que um dia os teus filhos farão isso por ti”. 

Todos conhecemos histórias de pessoas que passaram a vida inteira a trabalhar, sem descansar o suficiente, sem férias, sem usufruírem das coisas boas da vida, com um único objetivo: poupar. E acumularam e acumulam grande riqueza, mas muitas vezes “bateram a bota” antes do tempo por exagero no trabalho. E depois o que se vê? Os herdeiros a “consumir” a todo o gás o “pé-de-meia” que os “velhotes” fizeram ao longo duma vida, sem respeito pelo seu sacrifício, sem conta, peso e medida como se não haja amanhã. É para isso que dá no duro e anda a economizar, a deixar de fazer o que lhe apetece? É para poupar que não compra aqueles bifinhos de atum fresco, os lombos de salmão ou os bifes da vazia da raça Angus que o atraem e tanto deseja sempre que vai ao supermercado, acabando por levar para casa uns carapaus ou o costelão de boi que estava em promoção, mas cuja carne é mais dura do que sola de sapato? Pare, está na altura de ser egoísta, pensar em si e colocar-se em primeiro lugar. É que, se não começar a fazê-lo agora, vai fazê-lo quando? Quando “for com os pés para a frente” e lhe deitarem sete palmos de terra em cima ou fizerem de si churrasco para o reduzirem a cinzas?

Apesar da idade, viva, goze a vida porque ninguém é velho enquanto lhe restar inteligência e afeto. Coma bem, sempre o bom e o melhor, cuide da saúde física e psíquica, vá ao ginásio ainda que seja só para estar com os amigos e gaste o dinheiro com você, com as coisas que aprecia, gosta e até com os caprichos porque, após a morte, dinheiro só gera ódio e ressentimento. Nem viva angustiado por pouca coisa, pois “na vida tudo passa”, os bons momentos são para ser lembrados e os maus para ser esquecidos. Mantenha-se atualizado e interesse-se pelas coisas novas, mesmo pela opinião dos jovens, pois muitos deles estão tão bem preparados como nós na sua idade. E nunca use aquele termo que teimamos em repetir: “No meu tempo …”

Há um provérbio francês que se aplica bem a nós: “O pai é um banco proporcionado pela natureza”. Vamos mantê-lo “aberto” até ao fim?

Lembre-se que o seu tempo (e o meu) é agora … ou nunca, porque “estamos na fila”, empurrados pelos mais novos que foram entrando e não há como voltar ao princípio.

Não enterre a cabeça no sofá nem passe os dias a dormir, como quem espera pela sua vez. Arranje-se, saia, conviva e divirta-se. Mantenha-se atualizado e faça caminhadas sempre acompanhado. Experimente fazer as “levadas” na ilha da Madeira porque vai encontrar uma visão nova da “pérola do Atlântico” ou, se não quer sair do continente, tem por aí inúmeros trilhos para descobrir um Portugal que não conhece, fazer exercício e apreciar a variedade gastronómica do país. Mas se tal não o entusiasma, não deixe de se divertir com gente da sua idade e viaje, cozinhe, dance, leve o cachorro a passear, trate das plantas ou jogue as cartas com os amigos. E não se esqueça de falar pouco, ouvir muito, elogiar e não contar as suas histórias de vida, porque ninguém as quer escutar (até eu tenho de parar de contar as minhas histórias) e é muito maçador. Mais ainda, a gente repete-se muito sem querer.

Tire da cabeça essa ideia de querer viver em casa dum filho. Respeite a privacidade dele, mas especialmente a sua. Deixe os filhos em paz pois já têm sarna que chegue para se coçar neste mundo onde todos andam a correr e não têm tempo para nada, quanto mais para tomar conta de velhos. Lembre-se daquela prece: “Senhor, dai paciência às pessoas que não me suportam, pois não tenho intenções de melhorar. Com a idade, a tendência só é de piorar”. E agora já entende porquê?

Um último conselho: Continue a ter relações sexuais, ainda que seja só pelo Natal, mas siga as recomendações que circulam na internet:

“Use sempre os óculos para se certificar de que a sua companhia está realmente na cama. Ponha o despertador a tocar daí a três minutos, para o caso de você adormecer na função. Regule a iluminação, mas não apague todas as luzes para saber onde está. Deixe o telemóvel programado para o número da Emergência Médica. Escreva na mão o nome da mulher que está na sua cama para o caso de não se lembrar. Não faça muito barulho, pois nem todos os vizinhos são surdos como você. Se tudo der certo, telefone aos amigos para contar a boa nova do seu sucesso”. E entre de férias grandes para recuperar do esforço…

Heranças, partilhas e falta de senso…

Diz-se que somos todos iguais: “Nascemos nus e partimos nus, sem nada da “carga” que possamos ter nesta vida. Também nas partilhas pobres e ricos são iguais, pois não é preciso muitos “teres e haveres” para pôr irmãos contra irmãos, pais contra filhos, netos, sobrinhos e tios contra quem quer que seja. Tinha razão Gustavo Lázaro quando escreveu: “Herança é aquilo que os mortos deixam para que os vivos se matem”. Casos há em que não se deixa arrefecer o corpo do morto para começar a guerra pela herança, quais abutres à volta da carcaça. E outros há que fazem a partilha durar mais do que a “guerra dos 30 anos”, dando tempo para tudo, até para alguns dos beligerantes irem ficando pelo caminho sem sequer chegar a “pôr as mãos na massa”.

Quando morreu uma mulher num Lar de Idosos, apareceram vários filhos que nunca tinham a visitado, mas preocupados e interessados nos brincos da pobre senhora, o seu único bem. A cena acabou num arraial de pancadaria entre os herdeiros à porta do Lar, na tentativa de ganhar o direito aos brincos talvez pelo maior número de murros, uma nova forma (se calhar, de sempre) de ter prioridade na partilha. Penso que só quem não tem mesmo nada de seu é que está livre de vir a saber no outro mundo que os filhos fizeram da partilha uma luta ou mesmo uma guerra. Mas onde menos compreendo essas batalhas é em heranças milionárias, com valores que deixam bastante bem os herdeiros. Se calhar até compreendo, porque nunca estão satisfeitos.

Anna Sommer, mãe do milionário António Champalimaud, faleceu há cerca de 44 anos e o processo de partilha da sua herança arrasta-se nos tribunais onde permanece ativo. Já morreram os 4 filhos e alguns netos, mas a partilha não. Entre muitos absurdos deste processo há o caso do Mercedes 220 S da falecida. Quando foi vendido por 3.500,00 euros, já tinha pagado de estacionamento em garagem mais do dobro desse valor e havia dado origem a 50 requerimentos e despachos. O mesmo acontece com a herança de outro milionário, Manuel Vinhas, falecido no mesmo ano de Anna Sommer, cujo processo de partilha continua a ser uma fonte de rendimento para … advogados e tribunal. 

Quando falavam ao Cardeal Cerejeira de uma família onde os irmãos se davam muito bem ele costumava dizer: “Já fizeram as partilhas”? E a pergunta era pertinente …

Há tantos irmãos que começaram a vida a brincar felizes e inocentes e acabam os seus dias sem se falarem por causa de partilhas, tal como os filhos, primos, tios e sobrinhos. Dizia-me uma senhora já com certa idade que, para salvaguardar a excelente harmonia que existia na sua família e garantir que os filhos continuariam unidos quando partisse desta vida, tinha resolvido a partilha em vida a contento de todos. 

Os advogados recomendam que, não havendo acordo amigável entre os herdeiros sobre a partilha dos bens, o melhor para a resolver é o processo de inventário, que passa pela nomeação do cabeça-de-casal a quem cabe identificar os herdeiros e os bens a partilhar. Só que não é garantido um processo tranquilo e de fácil entendimento, porque há egos difíceis por se acharem demasiado grandes, interessados que ganham mais fomentando a discórdia e que são parte do problema, velhos rancores que saem do baú. Quando está em causa a divisão de bens de valor diferente e avaliação um tanto subjetiva, demasiadas vezes vem ao de cima a inveja, a cegueira, a ganância e as rivalidades, que fazem da partilha um cozinhado difícil, feito de suspeitas e falta de senso, quando não de má-fé.  

Mas a tentação por “deitar a mão” ao que não se ganhou é tal, que até se usa de oportunismo e desonestidade para “engrossar” a herança e conseguir que o “naco” seja maior, o que não é para admirar quando se trata de bens, numa ganância e invejas desmedidas muito típicas dum ser humano. Foi o que aconteceu com os filhos de um agricultor na região, “caseiro” de uma quinta que tinha nos vários filhos, como era habitual, a sua maior riqueza. Entre eles estava Maria, moçoila bonita apesar de humilde, que não passou despercebida aos olhos de um tio, emigrante no Brasil que conseguira amealhar um património interessante em terras do Pica Pau Amarelo. E, apesar dos cochichos e ditos que isso viria a gerar pela diferença de idades, o tio brasileiro pediu-a em casamento, tendo ela aceitado e rumado com o já marido para o outro lado do Atlântico, depois de se despedir da família que amava tanto e onde havia sido feliz.  Passados anos, querendo ajudar a família que por cá ficara, mandou ir um irmão que, com a ajuda do seu marido, montaria uma padaria (negócio típico de portugueses naquelas bandas), vindo a subir na vida com o sucesso do negócio. Em certa altura foi posta à venda uma casa com um grande quintal muito bem localizada na terra natal e uma pessoa amiga informou-a de que seria uma excelente oportunidade de negócio. À distância, pediu ao pai para lha comprar o que viria a acontecer e para o efeito foi enviando remessas de dinheiro com que ele liquidou o valor do prédio, tendo este sido posto em nome dele. Mas os anos “voaram”, a filha brasileira foi envelhecendo e o pai faleceu. Quando o pai morre os filhos juntam-se para conversar sobre as partilhas dos “tarecos” e, apesar do prédio ter sido comprado com o dinheiro da filha e para a filha, os irmãos ignoram-no e consideram que é parte integrante da herança e, como tal, tendo de entrar nas partilhas de que eles são “legítimos” herdeiros. Dum momento para o outro, estalou a guerra naquela família tão unida, feita de acusações, rancores, traições e ameaças, numa questão em que a filha “brasileira” viria a sair bem prejudicada por aqueles que considerava e deviam ser, seus irmãos e amigos. Anos mais tarde ela confidenciaria a um amigo de infância que tinha muitas saudades do tempo em que era pobre, pois tinha uma família grande e feliz, com todos os irmãos a darem-se muito bem e em que era um por todos e todos por um. Porque tudo aquilo que o dinheiro lhe trouxera não compensara o muito que perdera. Fora a pior coisa que lhe aconteceu não por ter de ceder aos outros parte dos direitos que eram só seus, mas porque a partilha destruíra a união da sua família de que sentia tantas saudades e não gostaria de ter perdido por preço nenhum.

Ainda hoje um pai questionava se valerá a pena deixar alguns bens de herança aos filhos, temendo que em vez de serem meios que os possa unir, sejam antes armas de arremesso numa guerra que transformará amor fraternal em ódio, falsidade e traição.  

Como às vezes a pior coisa que se pode receber é uma herança, vale a pena pensar se devemos deixar cair essa “bomba” no meio dos filhos e demais família no momento em que “recebemos guia de marcha” e que pode “rebentar” com a união familiar, deixando feridas em várias gerações. Ou se temos a obrigação e dever de deixar tudo preparado atempadamente, funcionando como árbitros isentos num “jogo” onde todos devem sair vencedores. 

Mas, ao enveredar por esse caminho, é bom não esquecer que não se pode cair na tentação de entregar tudo a eles antes do “fim do nosso tempo” sem salvaguardar os meios para viver condignamente, só por que se continua a pensar demasiado nos filhos, apesar de já terem a obrigação de “voar” sozinhos. Por isso devo lembrar as lições de um velho provérbio que é preciso ter presente: “Quem dá tudo o que tem antes que morra merece levar com uma cachaporra” …

E conheço tantos casos num caminho cheio de arrependimentos!!! 

Cuidado, já abriu a “época de caça”…

Estava eu a dormitar, mais para lá do que para cá, quando senti um arrepio na espinha sem saber se estava a sonhar ou acordado porque descobri que, para mal dos meus pecados, eu também sou um “ele”. E

este ano esse “ele” é bem importante. “Ele”, aquele que se vai levantar da cama, enfiar uma roupa limpinha, sair à rua faça chuva ou faça sol, se dirija à escola local, sede da Junta de Freguesia ou até, em caso de recurso, à capela mortuária, se deixe ficar na fila de máscara colocada a aguardar a sua vez para ser identificado e depois lhe entregarem um papelinho onde vai pôr uma cruzinha (se quiser pôr, porque tem esse direito) e onde quiser, mesmo que não escolha os quadrados. Porque “ele”, o “eleitor”, é uma espécie rara em vias de extinção. Não basta estar inscrito como eleitor para o ser. É preciso ir lá, votar, caso contrário não conta, a não ser para efeito das estatísticas. Basta olhar para o nível da abstenção em eleições autárquicas, tal como noutras eleições e que tem vindo a subir de ano para ano. Se continuar assim, temos de concluir que o “eleitor” é cada vez mais valioso. Neste ritmo crescente dos preguiçosos e desiludidos da política, qualquer dia só aparecem os candidatos e famílias, para se elegerem a si próprios …

Ora o “eleitor”, como espécie rara que é, precisa de ser acarinhado, bem tratado, compensado por ter saído da cama só para botar uma cruzinha no boletim de voto, mesmo que não acerte no quadrado. É que ele tem de fazer um grande esforço para escolher, talvez não o melhor, mas o menos mau dos candidatos. Mais ainda, se por acaso sair num dia estival que convida a uma ida à praia, é precisa muita força de vontade para resistir à mulher e filhos que querem lá saber da “botação”. Para atrair esta espécie rara e levá-los a votar, já que não se podem atrair “pelo cheiro da comida” como se fazia nos dias de comício ou convívios partidários, nem pelas “cantigas ao desafio” ou pelo “cheiro a bacalhau” do Quim Barreiros, seria oportuno copiar os americanos de Nova Iorque e pagar 100 euros a cada um para os atrair e levar a votar …

Embora a campanha eleitoral não tenha começado oficialmente, a “temporada de caça ao voto”, por alguns tida por “temporada de caça ao eleitor”, já está aberta e onde vale tudo ou quase. Aliás, diz-se que “para conquistar o poder, os homens praticam todas as ações, mesmo as boas”. É que o voluntariado na política acabou há muito. Já lá vai o tempo em que o presidente da Junta de Freguesia não ganhava nada a não ser uma carga de trabalhos, embora nunca faltassem candidatos para aparecer nas listas por qualquer partido. O importante era ser convidado. Há muitos anos, dizia-me um presidente de Junta, muito sentido ao saber que para as eleições seguintes o partido pelo qual fora eleito havia já anunciado um outro candidato para o substituir sem sequer o avisar: “Sabe, vou-me oferecer ao partido adversário e vou ganhar. É que, isto de ser presidente da Junta não vale nada, não se ganha nada, nem dá prestígio a ninguém. Mas, bem lá no fundo, todos querem ser”.  

A dois meses das eleições autárquicas a “corrida” ainda não começou e tudo parece estar a cozer em lume brando. Os porcos podem andar descansados e rumar ao São Bento da Porta Aberta em peregrinação à pata e agradecer o paradoxo de ter sido precisamente uma doença a poupar-lhes muitas vidas, porque não vai haver “porco no espeto” …

Mas é pura ilusão e os sinais estão aí, disfarçados da forma habitual já que, ano de eleições é ano “anormal” de obras. Por vários razões tive de percorrer alguns concelhos da região e em muitos locais esbarrei com os tais sinais duma campanha eleitoral encapotada: inúmeras estradas interrompidas em reparação, ruas esburacadas, construção de infraestruturas de todo o tipo, pavimentações novas, pinturas de passadeiras e outros riscos mais para dar vida ao piso e segurança a quem passa, passeios lavados. Os trabalhadores municipais não têm mãos a medir, as máquinas não param e, mesmo assim, não dão conta aos tantos pedidos que é preciso satisfazer até Setembro, apesar da arregimentação de empreiteiros e sub-empreiteiros que também não chegam para as encomendas, até porque estão com dificuldades em conseguir mais pessoal. Trabalha-se dentro e fora de horas, por conta da câmara, da Junta de Freguesia ou dos Fundos Europeus, numa luta contra o tempo já que é o “agora ou nunca”. Nestes períodos, vem-me sempre à memória a imagem de um presidente da câmara da região à frente da máquina, qual sinaleiro a orientar o trânsito, tal o empenho na recandidatura e o apego ao lugar, orientando o manobrador sem deixar de fazer conversa com os munícipes beneficiados pelas obras, a lembrar que cumpria sempre o prometido qual propagandista em feira de ano, num espetáculo quase patético e indecoroso. 

Por muito que o poder seja “interessante e agradável”, o objetivo não justifica o uso de todos os “argumentos”, muito menos os “meios públicos” para colher dividendos partidários e pessoais em ano de eleições, atirando areia para os olhos do eleitor e fazendo dele um imbecil que não vê a estratégia por detrás da “obra de última hora”. A ser assim, melhor será que os mandatos sejam anuais e todos os anos sejam também anos de eleições … e de obras. Pobre votante que escolhe, escolhe e (quase) sempre escolhe mal, para depois, feito bobo, ficar a reclamar das taxas, da burocracia, da demora em conseguir uma licença, como se houvesse tempo para cuidar dessas ninharias …

Tenho muita dificuldade em entender este tipo de governação, que é um mal crónico da nossa “democracia”, orientada prioritariamente para atrair a caça ao voto e a perpetuação no poder, defendendo-se a manutenção deste como um fim em si e não como o meio para servir. Aliás, desta mesma doença padecem os governos da nação. Winston Churchill disse que “a diferença entre um estadista e um demagogo é que este decide pensando sempre nas próximas eleições, enquanto o estadista decide a pensar nas próximas gerações”. 

Nos quase 50 anos de democracia não aprendemos nada. Antes pelo contrário, perdeu-se a ética e a transparência, deixando a nu a “chico-espertice” e arrogância do poder, que fizeram dos cidadãos pedintes de serviços públicos que deveriam ser direitos seus, e são, mas pelos quais têm de mendigar quando deveria ser o contrário, agora com o argumento da pandemia como desculpa para tudo. E, quando acabar a pandemia, há de arranjar-se com certeza outro “bode expiatório” “para não sairmos da cepa torta”, da baixa produtividade de que o estado a todos os níveis é o maior responsável e nos faz perceber que a verdadeira democracia é uma miragem, enquanto o país caminha para mais pobre da União Europeia, mendigando a solidariedade com a mão estendida, já que só estaremos em condições de a receber …