Category Archives: Uncategorized

As “frinchas” no vestido…

Ela trazia um vestido que, com toda a propriedade, classifico de “político”. É que, tal como os políticos, prometia muito, mas mesmo muito. Só havia uma pequena diferença entre ela e os políticos: Ao contrário deles, que prometem muito mas não fazem nem dizem nada, as promessas dela eram reais, “diziam” muito e algumas bem visíveis, “palpáveis”. O vestido tinha no seu corte umas quantas “frinchas” estrategicamente colocadas para, a espaços, umas vezes mostrar e outras esconder lugares de deleite e prazer, como que um pronuncio da entrada no paraíso terreno… ou, quem sabe, uma descida ao mais profundo dos infernos. Era um jogo de sombra e de luz, de tapa e destapa, prometendo muito sem dar nada, abrindo e fechando o lugar à visão de espaços secretos cujo encanto hipnótico só existe enquanto se não conhecem. Tal como o truque do mágico que nos deixa de boca aberta mas perde a magia quando nos ensinam como se faz. Há encantos que só o são enquanto os imaginamos…

E é assim que mordemos o “isco” e ficamos presos ao “anzol”, qual truta a sacudir o rabo quando a tiram da água. Mas, somos como somos. E não há nada a fazer: Os homens são brutos, broncos, insensíveis e estúpidos. E simples. Em rapazola já ouvia dizer que “um homem para ser homem, deve ser forte, feio e cheirar a cavalo”. E não pode chorar… Será que é disso que elas gostam (e não tenhamos dúvidas de que muito do que os homens fazem é sempre com o intuito de lhes agradar)? Ou gostavam? O ditado antigo do “quanto mais me bates, mais gosto de ti” fazia jus ao homem bruto e machista de outrora, que ainda se não perdeu de todo. E basta ver a pancadaria que ainda distribuem por aí… Ora, nós homens, não temos remédio. Por mais que elas nos queiram educar, ensinar, domesticar, não vamos lá ( e sabemos quanto elas têm essa vontade…). Se calhar, é por burrice, por sermos tacanhos. Alguns, mais novos, já vão aprendendo qualquer coisa, mas não chega. Não basta saber cozinhar, trabalhar com o robô de cozinha e limpar a casa. É preciso mais. Muito mais. É preciso dar ter atenção aos pormenores, àquilo que é realmente importante… para elas. Se lavamos as mãos, temos de limpá-las àquela toalha muito bem dobrada em três, pendurada no toalheiro. Tudo bem. E depois? Voltamos a pô-la no toalheiro… de qualquer maneira, desde que fique pendurada. Algum homem tem o cuidado de a voltar a dobrar em três e alisar-lhe as pregas? Não acredito… Com a tampa da sanita, nem se fala. É uma guerra pegada. E nem compreendo para que serve a porcaria da tampa. Só dá trabalho. Era mais saudável e higiénico a “padaria” ficar assente diretamente na porcelana. Esquecemo-nos de pôr a tampa para cima ou para baixo conforme o caso e… “temos conversa”. Salpicamos a tampa quando “atiramos” de cima, diretamente na água do fundo e… “temos conversa”. E porquê? Porque não aprendemos. Que é isso de entrar em casa com os sapatos sujos e deixar marcas de terra e lixo por todo o lado? Lá vem ela atrás de nós com a vassoura, o espanador e a pá do lixo. E uma certa conversa… Que é isso de agarrar num pedaço de pão, em biscoitos ou qualquer coisa que largue migalhas e andar pela sala a comer? “Pega num tabuleiro ou num prato. Não vês que estás a largar lixo por todo o lado”? E lá vem ela atrás de nós com a vassoura, o espanador e a pá do lixo, como se a sala tivesse ficado pior que uma padaria no fim de um dia de trabalho… Que é isso de entrar em casa, tirar os sapatos e deixá-los na sala, enquanto se descansa um pouco? “Isto aqui é alguma sapateira”? Se te sentas no sofá e tiras as almofadas do sítio, “ai meu Deus, que cai o Carmo e a Trindade”.

Um homem bem ensinado, melhor, bem aprendido, nunca toca nas jarras, nos objetos que estão em cima da mesa, nos enfeites e nas muitas bugigangas que estão espalhadas por todo o lado. Ai dele se as desloca um centímetro do sítio. Pior que o cão a detetar coelho, elas apercebem-se que o objeto não está no “seu lugar” (que é o lugar imaginado por elas) e vai ouvir, de tabela: “Quem foi que tirou esta jarra do sítio”? E, de imediato, pega na jarra e desloca-a um ou dois centímetros, porque isso é que faz a diferença entre “estar ou não estar no sítio”. Porque tem de ser ali. Porque o ”SÍTIO” da jarra é ali e em mais lado nenhum. Não percebes nada. Ou fazes-te de burro?

Se ela te disser que a torneira está a pingar ou a porta a chiar, não te armes em parvo continuando a ver o jogo de futebol ou o filme do teu agrado na televisão, fazendo orelhas moucas. Esquece. Levanta o rabinho do sofá e vai a correr buscar a ferramenta (se é que não andas com ela…). E toca a dar o aperto na torneira e a pôr óleo nas dobradiças da porta porque custa tanto fazê-lo logo como passados três meses( que é aquilo que qualquer homem que se preze, faz). E, claro, todos os dias vais ter de ouvir aquela ladainha do costume: “Não tenho quem me ajude”, “só sabes estar alapado a ver televisão” e outras tiradas bem menos simpáticas que não convém escrever aqui para não nos deixar envergonhados nem desmotivar os mais novos a espreitar pelas “frinchas”… E, quando decidires tirar umas férias da televisão para lhe fazer a vontade, depois de resolveres o problema em cinco minutos e se estiveres à espera de um elogio como o cão de mimos, prepara-te para ouvires: “Já agora, corta a relva, leva o lixo ao contentor e varre o passeio”. Por amor de Deus, isto não é aproveitar-se da tua boa vontade? Um “gajo” já não pode fazer uma obra de caridade que se aproveitam logo dele… Mas a culpa é tua, meu estúpido. Porque é que ficaste com os olhos pregados nas “frinchas” do vestido? E porque ficaste à espera das suas promessas? Quem te mandou querer conhecer os segredos escondidos com mais “profundidade”? Eu não te disse que poderia ser “um pronuncio do paraíso terreno… ou uma descida ao mais profundo dos infernos”?

Quem quer cuidar de mim?

“Olá, eu sou a Shakira, jovem, bonita e meiga, muito meiga. Ainda não completei a adolescência e procuro quem queira cuidar de mim. Prometo que serei sempre agradecida, fiel e uma boa companhia. Não trairei quem me acolhe nem serei ingrata. Nunca. E serei com certeza a alegria da casa onde me acolherem, alguém com quem podem desabafar, uma companheira para passear, para os bons e maus momentos da vida, espalhando felicidade e ajudando a aliviar a tristeza. Então, quem quer cuidar de mim?

Minha humilde mãe foi abandonada por aqueles a quem cabia cuidar dela muito antes de eu nascer. Somos seis irmãs e um irmão e passamos fome, muita fome. E até sede. Desde que nasci valeu-nos a Sílvia fazendo-nos chegar comida e bebida através de uma janela, pois morávamos na zona abandonada de um estaleiro ao qual não tinha acesso e de onde nunca saíamos. Só a minha mãe conseguia ir a casa da Sílvia de vez em quando, para lhe agradecer o que fazia por nós. E estamos-lhe muito gratas por ter sido o nosso anjo da guarda. Sem ela, não teria sobrevivido. Nenhum de nós. Foi ela que nos alimentou, que nos matou a sede, que nos deu atenção, que falava connosco, que nos deu amor e nos fez acreditar que ainda há gente boa. Gente responsável para cuidar de nós: CÂES. Umas senhoras da Associação levaram cinco dos meus irmãos para entregar a famílias de adoção. Só fiquei eu e uma irmã, por nos termos escondido entre o silvado. Tivemos medo, não sabíamos o que nos iam fazer. Porém, algum tempo depois, uns homens levaram-nos à força para o canil municipal. Nem sequer tivemos tempo para nos despedirmos da nossa protetora, a Sílvia, que deve ter ficado preocupada com o nosso desaparecimento. E o que pode esperar um cão preso no canil se no espaço de poucos dias não aparecer alguém para o adoptar? O mesmo que podiam esperar os judeus nos campos de concentração nazis. Vieram buscar à cela do lado dois cães que já lá estavam quando chegamos… e não voltaram. Por isso, percebemos bem o que nos espera…”

Naquele dia, quando a Sílvia chegou a casa, a mãe disse-lhe logo: “As cadelitas desapareceram”. Correu à janela e chamou-as, mas nem sinal delas. Ficou preocupada. Estava-lhes muito afeiçoada. Dormiu mal, melhor, não dormiu. Ao outro dia mal se levantou, foi à janela espreitar para o terreno do estaleiro e nada. Só apareceu a mãe da ninhada. Quatro dias depois continuava sem notícias. Foi ao estaleiro perguntar aos trabalhadores e disseram-lhe: “Foram recolhidas por gente da Associação”. Não acreditou e foi falar com a Teresa. Rapidamente chegaram à conclusão de que deviam ter sido levadas para o canil municipal. A confirmar-se, tinham de andar depressa se as queriam salvar. E, ao outro dia, quarta-feira, veio a confirmação: As duas cadelitas estavam no canil e seriam abatidas na sexta-feira. . Sem mais, como todos os animais que lá vão parar e não têm a sorte de ser adotados… em poucos dias. Começou então uma corrida contra o tempo para as salvar. Tinham de encontrar alguém que as adotasse. A Sílvia bem gostaria de o fazer mas não tinha condições. Não podia ficar com elas. E a Teresa, responsável na Associação local que promove a adoção de animais, muito menos, tantos são os casos que tem entre mãos. Foram para casa e nem uma nem outra dormiram. Só havia uma preocupação nas suas cabeças: Como salvá-las? O tempo escoava-se. Ao outro dia, a Sílvia conseguiu o adiamento da execução por mais uma semana através de um responsável camarário. Uma semana, nada mais, uma pequena folga para tão grande tarefa. Seguiram-se dias de muitos contactos mas nenhum resultou, não encontraram família de adoção. O que fazer? O tempo escasseava e a Sílvia mais sofria com a antevisão do abate das suas “meninas”. Então, para evitar a condenação à morte daqueles dois animais inocentes (só porque a maioria dos políticos deste país aprovou regulamentos municipais que assim o determinam – e louve-se a Madeira, por ser a exceção), entre as duas acordaram que a Sílvia as adotaria (transitoriamente) com a ajuda da Associação e, a partir daí promoveriam a sua adoção definitiva. Ao recolhê-las no canil, encontraram as cadelitas tristes, cheias de medo e deprimidas, como que pressentindo o que as esperava. Mas, quando a Sílvia as chamou, os olhos iluminaram-se ao reconheceram a sua protetora. Tinha valido a pena…

“Quando o tratador do canil nos quis agarrar, lutamos e esgadanhamos deixando-o marcado nos braços, porque sabíamos que não voltaríamos, como todos os outros. Já dentro duma viatura, ouvimos uma voz a chamar-nos. E então reconhecemo-la. Era a mesma voz que tantas vezes nos falou, nos mimou, nos deu atenção e amor. Era a Sílvia. Como é possível? Soubemos então que estávamos salvas porque a Sílvia não nos trairia. Tínhamos essa certeza. O sofrimento estava a chegar ao fim. É que nós sofremos como os seres humanos, embora haja quem pense que não. E será bom que se saiba que os cães também têm a capacidade de se emocionar, de sentir alegria e tristeza, raiva e mágoa. Sentimos quando somos abandonados e caímos em depressão. E até temos pressentimentos, se o nosso dono estás triste ou alegre, feliz ou zangado, assustado ou furioso. Mas temos sobretudo a capacidade de ser uma companhia meiga, fiel, leal e desinteressada, que pode ser uma parte importante da sua vida. Por isso lhe pergunto e peço com toda a humildade: Quer ter a bondade de me adotar? É que eu preciso de adotar um dono, com urgência”…

O que acabo de vos contar é real, estes animais precisam de vós. Por isso, quem quiser dar à Shakira e à Beyoncé o acolhimento e alegria de um lar que nunca tiveram, podem contactar a Sílvia ou a Teresa pelos números 912948258 e 912568785.

E porque havia de ser a mim?

A vida é uma sucessão de factos e neles estão incluídas as últimas despedidas. Na maioria das vezes, nem nos apercebemos que é disso que se trata quando nos separamos de pessoas e bens. Muitas dessas situações, que acabaram por dar em adeus, aconteceram com um simples “até logo”, “até amanhã” ou “até um dia destes”. Mas, na verdade, transformaram-se num “adeus para sempre” quer porque horas depois sofreu um AVC, uns dias mais tarde teve um acidente e morreu, porque emigrou e por lá ficou ou por uma outra qualquer razão. E assim deixamos de poder rever algum familiar, amigo da infância, companheiro da escola, do liceu, da faculdade, da tropa, do desporto, da música ou de um qualquer grupo em que estivemos envolvidos ao longo da vida. Ou então, cada um conformado, ao ponto de me dizer ent de nós seguiu por diferentes caminhos que não mais se cruzaram, não havendo por isso lugar ao reencontro. É assim que a maior parte das vezes nos separamos das pessoas temporariamente sem tomarmos consciência de que, efetivamente, se trata de um adeus definitivo.

Numa despedida em que estamos conscientes de tal, o mais triste é a incerteza da volta porque, se tivéssemos a certeza de que seria um eterno reencontro, não haveria lugar à tristeza. Temos de nos acostumar às despedidas para poder seguir em frente, por mais ou menos dolorosas que sejam, caso contrário viveremos presos a uma eterna ansiedade que provoca mais ou menos sofrimento. Mas provoca.. A despedida está associada ao sentimento de perda, de algo que deixamos de ter, de possuir, se bem que toda a sensação de perda vem da falsa sensação de posse. Sim, porque temos em demasia a sensação que “temos” isto ou aquilo, este amigo ou aquele, esta coisa ou aquela. Como se fôssemos donos de alguma coisa…

Naquela casa, a notícia caiu como uma bomba: O chefe de família que tinha ido trabalhar pela manhã foi vítima de atropelamento e faleceu a caminho do hospital. O desespero instalou-se perante uma realidade que ninguém imaginava horas antes quando saiu de casa. “Porque havia de acontecer a mim” repetia indefinidamente a mulher dele em desespero sem obter qualquer resposta, como se alguém devesse responder. E porque não? Essa pergunta é colocada por milhões de pessoas nas mais variadas vivências de situações dramáticas, como se cada pessoa fosse a única a ser atingida por uma qualquer calamidade, acidente, doença ou morte de alguém que lhe é próximo. De certa forma, somos egoístas na nossa dor. Julgamo-nos únicos. E é natural pois as nossas dores são sempre as maiores, aquelas que vivemos e sentimos verdadeiramente, como nenhuma outra. Porque, com as dores dos outros, podemos nós bem… As nossas é que são uma chatice. Ficam-nos agarradas como lapas tal e qual nós ficamos agarrados a elas feitos escravos.

Já há muitos anos alguém me dizia que as doenças, os acidentes, o sofrimento e a morte vão um dia chegar a nossa casa. Não há como fugir-lhes, é só uma questão de tempo. É certo que alguns carregam desde bem cedo o fardo do sofrimento enquanto outros, por um capricho da sorte, só se confrontam com ele bem lá para diante. Mas, cedo ou tarde ele vai chegar e não adianta perguntar “porquê a mim”. Seria caso para responder: “Chegou a tua vez”. Mas veio uma dor atrás de outra, uma doença atrás de outra, uma morte atrás de outra morte, sem tempo para recuperar? “Não interessa, chegou outra vez a tua vez”.

Um dia conversava com um amigo que acabara de perder o filho muito jovem. Conversar com um pai que passa por uma tragédia destas, não é nada fácil. Que se pode dizer a alguém que perde um filho, algo contrário ás leis da natureza? Não há palavras. E sem palavras fiquei quando o encontrei com ar tranquilo e conformado, ao ponto de me dizer que estava em paz e tinha muito que agradecer a Deus. E nem precisei de lhe perguntar porquê. Com toda a calma e convicção, acrescentou. “Tenho muito que agradecer-Lhe, por todo o tempo que nos concedeu para estarmos juntos. E houve tantos momentos felizes”… A partir daí, a conversa foi longa e fácil, se bem que tenha sido ele quase sempre a falar. Entre muitas coisas disse-me que o que aconteceu com o filho foi na hora em que tinha de ser, porque tudo tem a sua hora. E os momentos felizes, os alegres, os tristes e os silêncios também têm a sua. Assim, não tinha razões para ficar zangado com quem quer que fosse, muito menos com Deus. Se para uns tal resulta do caminho que cada um escolhe, aquilo a que vulgarmente se chama o “livre arbítrio”, para outros é o destino ou determinismo ao qual ninguém foge. Para ele, “é simplesmente a mão de Deus e Ele sabe muito bem o que faz”. A verdade é que esses momentos acontecem a todos nós em qualquer hora, em qualquer dia, em qualquer lugar. “A questão”, dizia ele, “é sabermos tirar partido do tempo que nos é concedido e que nunca sabemos quanto durará. Quantas vezes, perante a perda de alguém, as pessoas choram, gritam e revoltam-se, como se não possam viver sem esse alguém. E, em muitos casos, apetece-me perguntar: Será que souberam valorizar o tempo que tiveram? É que não adianta pedir mais tempo se não se soube aproveitar todo aquele que nos foi dado. Seria só mais desperdício”… Quando o deixei, dei comigo a meditar sobre o “meu desperdício” e em como ele tem razão…

A respeito do respeito…

O automóvel entrou com excesso de velocidade no parque de estacionamento do supermercado e “enfiou-se” no lugar vago mesmo junto da entrada, como se lhe estivesse destinado. O motorista saiu do carro com ligeireza, trancou as portas e entrou na loja. Normal? De maneira nenhuma. Como não fosse suficiente a condução perigosa dentro do parque, estacionou num lugar reservado, mas não para ele. Bem visível pela pintura, a reserva era para… deficientes. Pela forma ágil como se movimentou, não tinha deficiência… visível. Mas era um “deficiente”… no respeito pelos outros, pelas regras da sociedade. E o curioso é que aquele era o único lugar vago dos quatro reservados a pessoas com limitações, junto da entrada do supermercado… Afinal, havia mais gente com o mesmo “tipo de deficiência”. E pude comprová-lo depois de fazer as compras, quando vi um dos outros “deficientes” a empurrar o carrinho das compras, meter os sacos no carro e deixar vago um dos tais lugares reservados.

O automóvel deveria ser um simples meio de transporte mas é usado demasiadas vezes como instrumento de força, vaidade, competição e, especialmente, como meio de manifestação da falta de respeito pelos outros. Ora, o respeito é um dos valores mais importantes do ser humano e é fundamental nas relações entre as pessoas. É um sentimento que leva ao cumprimento das regras, das leis, a ter consideração pelos outros. Aprendemos a tê-lo em criança, com os pais, e é algo que nos acompanha desde o berço e não se baseia em imposições mas na educação. Esquecemo-nos muito dele e, com uma “roda” na mão, é todos os dias… E isso acontece quando paramos lado a lado com outro carro para conversar, impedindo a circulação normal das outras viaturas, “esquecidos” dos outros… Ou quando estacionamos indevidamente sobre o passeio que é destinado aos peões, obrigando estes a caminhar pela rua… Ou quando estacionamos em segunda fila, impedindo a saída de carros corretamente estacionados…

Eu estava parado perto de um restaurante que serve refeições para casa, quando chegou um automóvel e parou por detrás dos carros que estavam na baía de estacionamento. O condutor saiu, trancou a viatura e “foi à sua vida”. Logo de seguida saiu do restaurante o dono de um dos automóveis “entalados”, com um saco na mão contendo o almoço ainda fumegante. Olhou ao redor à procura do dono da viatura que lhe impedia a saída, mas não viu ninguém. Entrou no carro e buzinou algumas vezes, mas nada. Ficou “a secar” durante mais de quinze minutos até aparecer o “amigo”, tão pouco preocupado que nem sequer pediu desculpa, acabando por ouvir “algumas” de que não terá gostado. Com toda a calma meteu-se no carro e foi embora, enquanto o outro fazia o mesmo, com “cara de poucos amigos” e não deveria ser por já ter o almoço frio…

Numa rua estreita de sentido único em Lousada, um condutor teve de parar quando encontrou um automóvel a obstruir a rua e com o dono lá dentro, à espera da mulher que tinha ido às compras. Esperou um pouco mas, como o homem no carro não lhe ligou nada, buzinou para lhe chamar a atenção. Mas, nada, o homem sentado ao volante não se mexeu. Voltou a buzinar por mais que uma vez, até que o homem sentado no carro parado abriu o vidro, pôs o braço de fora e fez um sinal com a mão que significa “passa por cima”. Impetuoso como é, o condutor não se fez rogado: Engrenou a primeira e acelerou, acertando em cheio no carro com grande estrondo. De dentro deste saiu o homem com as mãos na cabeça: “Ai o meu carro novo…” O condutor, que também havia saído, disse-lhe com ar cínico: “O senhor mandou-me passar por cima e eu tentei, mas não consegui…”

Algo semelhante aconteceu com uma mulher jovem e bonita cá da terra quando circulava numa rua do Porto. A fila era grande e o trânsito estava parado já há algum tempo. O condutor do carro atrás de si deu algumas buzinadelas, provavelmente a reclamar ou chamar a atenção para os responsáveis do engarrafamento lá para a frente da fila. Mas ela, farta de o ouvir buzinar, abriu o vidro e também fez o tal sinal de “passe por cima”. Mal a fila se começou a movimentar, o homem que buzinara aproveitou um espaço e colocou o carro a par do dela, abrindo o vidro. Como ela ainda mantinha o seu em baixo, ele não se inibiu de dizer àquela mulher jovem e vistosa: “Bem gostava de lhe passar por cima…”

Quando nos confrontamos com alguém à nossa frente que, por opção ou falta de agilidade conduz devagar fazendo com que o trânsito se arraste, numa reação instintiva pela nossa pressa permanente, entre dentes deixamos escapar “mexe-te lesma” quando não o manifestamos em buzinadelas ou impropérios. Parece mesmo que estamos quase sempre zangados com os outros, talvez até com o mundo. Estas são só amostras das múltiplas situações em que o carro, que deveria ser só um meio de transporte, se transforma numa arma de arremesso para agredir os outros quando os devíamos respeitar – diz-se que o respeito é algo que exigimos dos outros mas que não temos por eles. E temos tanto para aprender…

Um português está a trabalhar na Suécia e vai todos os dias para a fábrica à boleia, no carro de um colega sueco. No primeiro dia chegaram cedo e, apesar do enorme parque de estacionamento estar praticamente vazio, ele deixou o carro num dos lugares mais distantes da entrada. Nos dias seguintes continuou a estacionar longe da entrada das instalações, apesar dos muitos lugares vagos perto desta. Estranhando esse comportamento porque entre nós qualquer um faria o contrário, isto é, estacionava junto da entrada (mesmo nos lugares reservados a pessoas com deficiência…), perguntou-lhe porque razão o fazia. A resposta foi uma lição para ele e é uma lição para cada um de nós: “Como chegamos cedo, temos tempo. Por isso, estaciono nos lugares mais distantes porque, por um lado permite-nos fazer exercício caminhando e, por outro, deixamos os lugares mais próximos da entrada para aqueles que vêm atrasados e que não têm esse tempo para chegar a horas ao trabalho…” Algum dia chegaremos a ter esta mentalidade, este respeito???…

Em plena hora de ponta, dei comigo numa fila numa das ruas de Lousada. Quando consegui chegar ao entroncamento, os automóveis que vinham da minha esquerda também em fila, encostavam-se uns aos outros para impedir que do meu lado alguém entrasse. Fiquei ali uns minutos a resmungar, não propriamente pela demora no trânsito mas pela total falta de respeito dos condutores. Em muitas situações semelhantes, noutros locais, noutros países ( e mesmo nalgumas localidades do nosso), a regra é entrar um carro de cada fila, alternadamente e respeitosamente. Ali, a regra era “cada um por si”, o típico comportamento do “chico-esperto”.

Figos, amigos e compota…

Gosto muito de provérbios. Entre outras razões, porque encerram conhecimentos empíricos adquiridos através da observação, do bom senso e da experiência, apesar de não comprovados cientificamente. Tais conhecimentos são condensados numa simples frase, quase sempre curta. Há um que me intrigou desde sempre porque não lhe conseguia ver o sentido, nem a lição que encerra: “Em tempo de figos, não há amigos”. Será que, quando há figos, cada um “faz pela vida” sem respeitar os amigos? Será que os figos são motivo de discórdia? A minha experiência diz-me o contrário. Ainda há pouco e no espaço de três dias, recebi figos frescos de alguns amigos, algo que fazem amavelmente há anos. E duas das caixas eram bem grandes. Nunca se esquecem que os figos, a par dos dióspiros e das cerejas, estão no topo das minhas preferências frutícolas. Quando recebi os primeiros no sábado, excedi-me e apanhei uma “barrigada”. E, por isso, estive dois dias a correr para a casa de banho, com o trânsito intestinal acelerado… Antigamente, quando “atacava” a figueira no quintal da minha avó, encostada ao fundo junto da casa da Emilinha “Séria” e abusava da “comezaina”, apanhava uma “caganeira” e ia a correr para o monte durante dois dias. Agora, é tudo mais delicado, mais politicamente correto. Não se apanha uma “caganeira”, tem-se diarreia. Não se corre para o monte, vai-se à casa de banho. Talvez até se lave o “rabiote” para não ficar vermelho e a “arder”… A figueira da minha avó era das que dão figos em duas épocas distintas. Entre Maio e Junho amadureciam alguns figos grandes, menos doces e mais raros. Para nós, eram os “figos de S. João”. Já adulto soube que se chamam “figos lampos” embora, para mim, serão sempre “de S. João”. Sendo poucos, acabavam por ser disputados pela pequenada, entre a qual eu me incluía. Será daí que vem o provérbio? Soube também que que crescem em ramos do ano anterior. Todos os outros (os que frutificam em ramo do ano), amadurecem mais tarde, entre Agosto e Outubro. São chamados de “figos vindimos”. E aí, sim, quase acampava debaixo da figueira, despreocupado das consequências dos excessos. Por isso, era comer até não poder mais…

Há muitas variedades de figos mas os mais comuns entre nós são os “pingo de mel”. Doces, muito doces. Cá em casa sou eu que tenho o encargo de os comer. Por isso, três caixas (duas delas nada pequenas), deram-me que fazer, para não falar nos reforços de stock vindos na semana seguinte (já meios “pecos” e, por isso, ainda mais doces). E, claro, o trabalho continuou na sanita… Mas não faz mal porque, ao contrário do que se pensa, o figo é um fruto rico, excelente até para fazer funcionar o intestino. Os cientistas dizem mesmo ser o fruto mais saudável do mundo. Por alguma razão é tido como fruto sagrado pelos judeus e faz parte dos sete alimentos que crescem na “Terra Prometida”. Sendo Portugal um produtor de figos, praticamente de norte a sul, não se compreende que nunca façam parte das sobremesas dos restaurantes. Preconceitos? Mesmo nos supermercados, é raro encontrarmos figos frescos. Já secos, vemos com frequência vindos da… Turquia. Também gosto deles secos, se possível com “pão de Padronelo”. Antigamente os melhores vinham em seiras e os mais comuns em sacos. Como este ano a simpatia dos amigos fez com que os figos se acumulassem na cozinha, entendi, e bem, que devia fazer compota de figo. O resultado foi excelente e é uma experiência para repetir porque ficou deliciosa. É caso para dizer que “lhe chamei um figo”…

Com tudo isto, acabei por descobrir algo que faz com que o provérbio de que falei no início faça algum sentido. Dizem-me que, quando se diz que “em tempo de figos não há amigos”, quer dizer que não há tempo para os amigos porque, sendo um fruto que amadurece rapidamente, não há tempo a perder, nem com os amigos. Tem de se ser rápido a apanhá-los. Embora para mim, e repito-o, os figos têm sido uma experiência interessante no que aos amigos diz respeito. É a forma que algumas pessoas encontraram para expressar a amizade, traduzida na simpatia dum gesto simples. Numa simples caixa de cartão ou madeira forrada com folhas de figueira, cheia de figos a “pingar” mel. Como se os “pingos” correspondessem à doçura da atitude. E, não posso deixar de dizer, que dou muitas graças a Deus e me sinto muito feliz por receber estes mimos, ainda que depois me acelerem o trânsito intestinal e façam correr para a casa de banho…

Deste ano de figos vou guardar duas recordações: A dos amigos que me queriam “pôr de caganeira” (tantos foram os figos que me enviaram) e o sucesso da compota de figo, orientada por mim mas trabalhada pela Ana Maria. E cá por casa gostaram tanto que, não sendo cozinheiro, não resisto a partilhar a receita, se é que ainda vai a tempo de algum curioso fazer a experiência. E, se ainda tem figos, faça compota porque vale a pena. Aí vai:

Ingredientes: 1 kg de figos, 700 grs de açúcar, 2 dls de água, 1 pau de canela, 1 cravinho, sumo de 1 limão. Lave os figos e limpe-os de impurezas mas deixe a pele. Parta-os em quatro. Na panela ponha todos os ingredientes (menos os figos), mexa bem e deixe ferver em lume brando durante 10 a 15 minutos. Depois junte-lhe os figos e deixe ferver em lume brando durante uma hora, mexendo bem, até atingir o “ponto estrada” (atinge o ponto quando deitar um pouco do doce no prato e, ao fazer-lhe um risco com o garfo, este (a “estrada”) não se fechar. Passe os frascos por água quente, encha-os, feche-os hermeticamente e ponha-os de boca para baixo, até arrefecerem.

Ah, não se esqueça de deitar um pouco de compota num prato de sobremesa. Para quê? Para se deliciar logo, como eu fiz…

Para conseguires, acredita em ti…

Se tivesse de escrever o currículo, nele teria de constar que também já fui jogador de hóquei em campo durante vários anos. Tinha regressado do Ultramar e deixado o serviço militar quando um dia o Joaquim Valinhas me encontrou e disse para aparecer no treino de hóquei em campo. Confesso que nunca tinha visto um jogo sequer mas não podia recusar o convite de um amigo de longa data. E lá fui eu de calções e sapatilhas, nada adequadas à função. Arranjou-me um stique, deu-me algumas instruções e fui para o campo dar umas “varadas”, termo usado quando se falava de pancadas mais fortes. Corri, “stiquei” e tive muita dificuldade em acertar na bola quando ela vinha na minha direção. Era difícil pará-la… No final do treino, o Quim pediu-me uma fotografia, o bilhete de identidade e assinei uma folha para ser inscrito na Associação de H. C. do Porto. No fim de semana seguinte, sem qualquer treino mais, fui convocado para o jogo oficial… Confesso nunca me ter imaginado um atleta de tão grande gabarito para, só com um treino de um desporto que nunca tinha visto, ser convocado para jogar. Tinha qualidades que desconhecia… Como nesse tempo o hóquei em campo era um desporto amador, verdadeiramente, tive de comprar um stique (como não percebia nada da “poda”, entrei numa casa de desporto no Porto e saí de lá com um que mais parecia uma moca de Rio Maior serrada ao meio), luvas, caneleiras e chuteiras pois a única coisa que a Secção tinha era o equipamento. À distância, penso que a minha convocatória se deveu não só à falta de atletas (para jogar fora de casa era difícil tirar da cama onze preguiçosos) como também ao facto de ter automóvel, importante para carregar metade do “pessoal” porque o transporte também era da nossa conta.

Talvez por a minha habilidade para jogar não ser muita, colocaram-me à defesa onde a preocupação era cortar a bola, estorvar os avançados adversários e dar umas “varadas” lá para a frente, para que a bola ficasse bem longe da nossa área. Com o tempo, comecei a acertar mais na bola, a saber pará-la, mas fintar não era comigo. Para isso, havia na equipa outros artistas, se bem que o Lousada nessa altura ficava do meio da tabela para baixo. Aliás, a existência de hóquei em campo em Lousada é tida como atípica pois a modalidade é característica só das grandes cidades. Lousada está fora desse contexto e o jogo só apareceu na terra graças ao senhor Jaime (que havia sido jogador numa das equipas da cidade do Porto), ao seu empenho e dedicação alguns anos antes de eu “cair ali de paraquedas”.

Como todos os campos eram em terra batida, o jogo era pouco técnico, não muito agradável para o espectador, o piso autêntica lixa para quem caísse e, acertar na bola em terreno tão irregular, motivo de satisfação pessoal. Jogar com o Ramaldense era derrota certa (se lhes corresse mal o árbitro, que era sempre daquelas “bandas”, encarregava-se de ajudar) e a pressão e agressividade do seu público em casa não davam hipóteses. Mas com outras equipas já conseguíamos equilibrar, marcar golos e até ganhar. Apesar dos balneários sem condições, dos chuveiros sempre com água fria, de jogarmos muitas vezes com falta de jogadores, da falta de condições a todos os níveis e do amadorismo completo, o convívio era saudável, o esforço valia a pena e os petiscos no bar (quando havia) no fim do jogo uma delícia e guardo esses momentos no coração. Pensando bem, as minhas qualidades eram tais que cheguei a ser dirigente da Secção, treinador, capitão, motorista e jogador. Tudo ao mesmo tempo…

Mas a razão que me levou a recordar com saudade esses tempos de hoquista amador foi porque uma vez jogamos com o Futebol Clube do Porto no campo da Constituição. Apesar de ser uma Secção daquele grande clube nacional, jogar contra o Porto dava-nos sempre uma motivação extra. E, nessa partida, conseguimos equilibrar o jogo de forma surpreendente. Na baliza o Camelo defendia tudo o que havia para defender e no meio campo o Quim estava a fazer um jogo excepcional. Ao intervalo mantinha-se o nulo e assim continuou até perto do final. Foi quando aconteceu: Pela direita um dos nossos avançados foi à linha e fez um cruzamento com toda a precisão, pois o guarda redes adversário saiu para defender a bola mas esta passou-lhe pela frente. Eu ia pelo centro do terreno a acompanhar a jogada e quando vejo a bola cruzada passar pelo guarda redes e vir direita a mim, com a baliza escancarada e sem ninguém à minha frente, meti o stique à bola para fazer golo e… falhei. Ali sozinho, diante da baliza, quando estávamos empatados com o Porto a zero em sua casa… E o pior é que eu sabia porque falhei. É que quando coloquei o stique para fazer golo, disse para mim mesmo : “Vou falhar, vou falhar”. E falhei. Fiz-me ao lance derrotado, sem autoconfiança. Por isso, “só podia falhar”. Se eu próprio não acreditei em mim, na minha capacidade de fazer golo, quem iria acreditar? E de seguida o árbitro inventou uma falta, expulsou o Joaquim Valinhas sem motivo e no canto curto inventado, marcaram o golo. Uma perda inglória.

Falhar acontece com qualquer um, mas não pode ser opção própria de quem tenta. Ganhamos força, coragem e confiança em cada tentativa de enfrentar o medo de errar. Por isso é importante fazermos aquilo que achamos não conseguir. A lição serviu-me para acreditar em mim mesmo, nas minhas capacidades, mesmo que aqui ou ali erre. E preciso de ser o primeiro a acreditar em mim, para os outros acreditarem. Ainda hoje estou convencido que, quando me dirigi para a bola, se tivesse acreditado e pensado para mim “vou acertar”, teria feito golo. E faria toda a diferença. No jogo, como na vida…

Agradecidos temos de estar todos nós…

Durante a primeira quinzena do mês de Agosto o inferno entrou-nos casa dentro através das imagens televisivas dos noticiários, de matas, casas, culturas e palheiros a arder sem controle. Mas, o verdadeiro inferno foi vivido por aqueles que viveram esse drama e viram as chamas devorarem-lhe os bens, o fruto de uma vida de trabalho. Dizia-me um homem que lutou para salvar o “seu canto”, muito impressionado: “Nunca imaginei como somos tão pequenos diante de uma barreira de chamas tão alta e violenta. E, o que mais me surpreendeu, foram as línguas de fogo que voavam por cima de mim e a facilidade com que ateava novas frentes, obrigando-nos a lutar até à exaustão”. No conforto de nossas casas e à distância, as notícias sobre os incêndios cada dia maiores e mais devastadores, impressionavam. Mas, pouco depois, outros programas, outros afazeres, faziam esquecer o drama que se vivia em muitas regiões do país. Em desespero e aflição ficavam as populações atingidas e, em sobrecarga, os bombeiros deste país, na sua maioria voluntários dedicados à causa, dedicados aos outros.

Quando a dimensão dos incêndios atingiu proporções anormais, para além das notícias e imagens dos mesmos passamos a ser bombardeados com os comentários de analistas, especialistas, ambientalistas, políticos e todo o tipo de entendidos (ou não) neste fenómeno, apontando todos soluções, recomendações, estudos, sugestões de leis, penalidades e planos, coisas que na sua maioria já ouvimos repetidamente noutros anos a quando de outros picos de crise incendiária. E depois, quando chegou a chuva e acabou de apagar os últimos vestígios de fogo, os planos de ordenamento da floresta, o reequipamento das Corporações de Bombeiros e todos os planos de prevenção caíram no esquecimento. Claro, quem é o tolo que é capaz de se lembrar de fogos em pleno inverno?

Tal como noutras ocasiões, ouvimos guardas e vigilantes a acusarem o estado de abandonar a floresta. Mas não sabemos todos que já fez isso há muito tempo? Que os bons Serviços Florestais que existiam desapareceram e hoje fingimos que os temos?

Lemos e ouvimos que os aviões custam “uma pipa de massa por hora” e passam muito tempo em terra, com críticas de todos os lados a dizer que “quase não chegam a lado nenhum”. E, para evitar que o combate aos incêndios por meios aéreos não seja um “rico negócio” como tem sido, porque é que não temos aviões desses entregues à Força Aérea? E ouvimos os pedidos para se fazerem leis mais severas para os incendiários, como se isso resolvesse o problema. Ou que as autoridades devem ser mais duras com os proprietários que não limpam as matas, como se um reformado que ganha a pensão mínima e tenha um ou dois hectares de mata algures no meio do monte possa dar-se ao luxo de gastar muitos euros que não tem para a limpar, se os vizinhos não o fazem? E ouvimos os gritos de alerta contra a plantação, indiscriminada e só, de eucaliptos, fazendo com que nalgumas regiões já sejam os donos exclusivos das matas. Mas não ouvimos isso há tantos anos? E o que se fez?

Evacuaram-se aldeias, populações realojadas, passadiços do Paiva outra vez queimados, centenas de casas devoradas pelas chamas, milhares e milhares de hectares de mata de luto, mobilização geral dos bombeiros cansados e levados à exaustão, numa luta inglória contra o fogo que tinha a seu favor os ventos fortes e temperaturas altas. E as queixas habituais do subfinanciamento das corporações, das viaturas e material a precisar de ser renovado, do insuficiente avanço tecnológico e das condições de segurança.

E agora, que o tempo está a esfriar, caíram os primeiros chuviscos e quando a meteorologia trouxer uma boa regadela e colocar o ponto final (até ver) nos incêndios, a sirene vai calar-se e os bombeiros, enfim, vão poder descansar e regressar às suas vidas nem sempre fáceis e… ser esquecidos. De heróis de há poucos dias, passarão a ignorados, talvez até criticados por não terem estado a tempo em vinte locais em simultâneo. A solidariedade para com os soldados da paz vai esfriando por contágio do frio que o inverno traz. É que a nossa casa, a nossa mata, já não estará a arder…

E tudo isto porque vi em frente do quartel dos Bombeiros Voluntários de Lousada uma grande lona da corporação, onde se pode ler: “OBRIGADO LOUSADENSES”… Não queria acreditar e não faz sentido. Aqueles a quem todos nós, sem exceção, temos de estar muito agradecidos pelo trabalho duro, violento e incansável que têm e tiveram, especialmente nestes últimos dias, ainda nos agradecem? Pelo contrário, em todas as localidades as populações deveriam sair à rua numa manifestação de agradecimento a esses heróis anónimos que só têm nome quando morrem no combate. E o bom exemplo veio do Funchal, onde a população se manifestou e foi agradecer aos que por ela combateram. Percebo a intenção do “obrigado” dos bombeiros mas está tudo ao contrário. As Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários não são uma qualquer instituição descartável, dispensável, como muitas outras. Têm uma missão de que a sociedade não pode prescindir e, por isso mesmo, deveria ser obrigatório uma quota por cada cidadão e outra pelo património de cada um, para assegurar a sua sustentabilidade e garantir condições adequadas para poderem cuidar da nossa segurança e dos nossos bens, sem terem de mendigar e estar dependentes do estado e do lado para onde os políticos estiverem virados. Porque é da nossa segurança que se trata quando falamos de Bombeiros. E, mais ainda, porque são Voluntários…

Por isso, agradecidos (e muito) temos de estar todos nós…

Quem quer boas “vistas”, que as pague…

Com as alterações agora introduzidas na avaliação predial, vamos pagar mais IMI porque serão tidos em conta a “exposição solar”, as “vistas privilegiadas” e a “qualidade ambiental”. Acho bem, porque não tenho nada disso. E, como diz o brasileiro, “pimenta no c. dos outros, é refresco”. Ficam-me algumas dúvidas, que me fazem deixar algumas perguntas no ar:. No que diz respeito à exposição solar, será que os prédios do Algarve vão pagar mais taxa do que os do norte? É que para lá há mais sol ou os turistas vão mais para as praias algarvias pela noite? E no caso em que temos a casa à sombra das árvores, sejam do jardim ou da mata do vizinho? Há desconto pela redução da “exposição solar”? Alguém disse há muito tempo que “o sol quando nasce é para todos”. Pois é mas a verdade é que nem todos podem pagar o sol nem viver só à sombra…

Esta tentação que os governantes têm de meter a mão no bolso do contribuinte já vem de longe. Vejam lá que “no tempo da outra senhora” criaram uma multa de dois escudos e cinquenta centavos (ou vinte e cinco tostões ou ainda, dois mil e quinhentos reis…) para quem fosse apanhado a andar descalço na via pública, alegadamente para acabar com o “pé-descalço”. Uma mulher pobre de Cristelos foi vista por dois elementos da GNR a atravessar a estrada descalça e chamaram-na para lhe aplicar a dita multa. A pobre coitada, quase se ajoelhou a pedir para a não multarem porque, dizia ela, “eu só rompi a estrada um bocadinho ao atravessar, mas já não a rompo mais”… Ela viu logo que só os descalços é que rompiam a estrada… E, à distância de décadas, que haveria sempre um motivo para se lançar todo o tipo de taxas sobre a utilização (e rompimento) da via pública, quer com o imposto de circulação automóvel, quer com portagens nas SCUTs (que diziam ser sem custos…), quer com todo o tipo de multas alegadamente em nome da segurança.

O governo está atrasado ao taxar a exposição solar e qualidade ambiental. Nos hotéis, os quartos com “vista mar” são mais caros já há muito tempo. Nos teatros e nos concertos, os camarotes sempre foram mais caros que a plateia (que é para a plebe), embora a “música” seja a mesma… Nos estádios, a tribuna e camarotes são mais caros que o peão, embora a “tourada” seja a mesma… E se o governo pode aumentar no preço do IMI só por causa das vistas, eu também estou a pensar montar um restaurante onde, apesar da comida ser igual para todos, tenha três tipos de mesas a que correspondem três tipos de preços. Assim, existirão as mesas normais, aquelas que estão no centro do restaurante com vistas para lado nenhum ou, quando muito, para a parede de um prédio a dois metros de distância. Mas também terei mesas Low Cost e mesas VIP. As Low Cost (que, para quem não for estrangeiro quer dizer “baixo custo”), que terão um desconto de quinze por cento, ficarão em frente de uma vidraça com vistas para uma escola. Dali verá o Passado, sim, o seu Passado, pelo qual já nada pode fazer… As VIP (que, para quem não for estrangeiro, quer dizer para “pessoas muito importantes”), terão um aumento de vinte por cento no preço e serão colocadas em fila, diante de um vidro enorme, de onde se terá uma visão completa do cemitério. São as mais caras porque dali pode ver o Futuro, sim, o seu Futuro. E ao vê-lo, talvez se lembre de fazer alguma coisa por si para que ele chegue o mais tarde possível.. Ou pensa que vai para outro lugar? As vistas dos cemitérios (e do Futuro…) só para o governo é que terão desconto. Será que estão a pensar morrer em breve e com futuro de curto prazo? Eles lá sabem…

Já tinha escrito a maior parte desta crónica quando recebi um email de um amigo dando-me notícia de que um morador e proprietário de um andar em Campolide terá apresentado uma queixa à DECO, ao Provedor de Justiça e às instâncias comunitárias em Bruxelas, por recear que o facto de uma sua vizinha, moradora no prédio frente ao seu, ter por hábito tomar banhos de sol à janela e isso faça com que o fisco lhe passe a cobrar um IMI substancialmente superior, por considerar que a vista de que desfruta é “excepcional”. Com a notícia, remeteu-me também uma fotografia comprovativa da posição pouco convencional da tal mulher à janela, pernas para fora e corpo para dentro. Original, no mínimo… E é natural a preocupação deste cidadão pois, a veia criativa dos governantes não para de nos surpreender na sua febre de taxar tudo (sem austeridade), incluindo o sol, a paisagem e as belezas que o olhar alcança… Não me admirava que, mais dia menos dia, os governantes nos obriguem a andar com um contador, como os de gás natural, para saberem quanto ar consumimos por mês a respirar e juntarem esse consumo na conta da água e esgotos. A conta, é o mal menor. O que me chateia mais é ter de andar com o contador às costas…

A verdade, nua e crua, é dura, muito dura, por mais que nos queiram “dourar a pílula”. Os muitos (des)governos (uns mais que outros) arranjaram-nos uma dívida tal que só pode terminar com bancarrota. E continua, naturalmente, a aumentar, apesar dos pregões… Por isso, a forma de irem vivendo é taxarem tudo. O que se segue? É só uma questão de opção. Deu-se aos funcionários públicos, tirou-se nos combustíveis. Vai-se tapar o buraco da Caixa, tira-se no tabaco, no património, no que lhes passar pela cabeça. É a realidade.

No caso de alguma vizinha me proporcionar “vistas” semelhantes às do homem de Campolide e para não pagar mais IMI, já tenho solução: Vou entaipar as janelas mas, à boa maneira portuguesa, deixo uma frincha disfarçada para espreitar… quando não houver avaliadores das finanças por perto…

A Procissão do Senhor de todos nós…

Fazem parte da minha infância algumas Festas, quando estas eram um momento alto das nossas vidas. As de S. Gonçalo, em Macieira, de onde sou natural, fazem-me recordar o tradicional “macaco de fogo”. As de Sto. Ovídio, em Aveleda, porque era lá que comia as primeiras uvas do ano, vindas não sei de onde. Na feira do gado, todos os anos havia “paulada de criar bicho”. As da Nossa Senhora da Saúde, em Bustelo, porque comi lá muito bons merendeiros levados por não sei quem (anos mais tarde passei a almoçar em casa de amigos. Recordo como era bom o folar que o dr. Mendes trazia lá de cima, da terra natal). As da Senhora Aparecida por ficarmos à beira da estrada (ainda em terra), em Talhos, a ver passar os que iam para a festa, especialmente as rusgas, animados grupos que vinham de longe, a cantar e a dançar, e que ali paravam para se “reabastecer” na pequena barraca da Albertininha. E as Festas Grandes de Lousada. No domingo da festa a minha mãe levava-me para ver a procissão, a que não se podia faltar. Era entalado entre a multidão que se acumulava ao longo das ruas que via desfilar diante dos meus olhos andores e anjinhos mas, sobretudo, o andor do Senhor dos Aflitos. A fechar a procissão, o pálio sob o qual o senhor padre levava a Sagrada Custódia com a Hóstia Consagrada. E à sua passagem, todos nós ajoelhávamos, em sinal de respeito e veneração. Visto à distância do tempo, o povo que se amontoava na berma das ruas fazia como que uma “onda” (semelhante à que se vê hoje nos estádios). Depois íamos até junto dos lavadouros da Vila. A minha mãe estendia a manta sobre a erva onde as lavadeiras coravam a roupa e tirava da cesta a comida para o jantar. O pai tinha comida à parte porque, como trabalhava nesse dia, nunca tinha hora de chegar. À noite, íamos ver o monte iluminado pela luz das tigelinhas.

Agora, enquanto responsável e Irmão de Misericórdia, integro a procissão. Atrás do andor com o Senhor crucifixado, tenho uma visão diferente de quando era criança. E outra percepção dos pormenores. Logo à porta da Capela organiza-se a procissão: O turíbulo, a Cruz da paróquia, juntas e associações, escuteiros, confraria, cruzes e estandartes, os andores e anjinhos, quadros bíblicos, o andor do Senhor dos Aflitos, a Irmandade da Misericórdia, cruz, acólitos e pálio, comissão de festas, bandas de música e fieis. Pum, Pum, Pum… O foguetório anuncia a saída da procissão. E os nove homens que carregam o andor, levantam o Senhor de todos nós, sim, de todos nós porque, hoje ou amanhã, todos somos ou seremos aflitos. E então, vamos lembrar-nos Dele. E avança a Procissão. Quatro bombeiros de cada lado nas suas fardas de gala e machado às costas, fazem a guarda de honra. Pum… mais uma bomba. Lá atrás a banda marca a cadência com uma marcha. Deveria dar o ritmo à procissão, mas esta não anda como um comboio, com as carruagens todas ao mesmo tempo. Para muitas vezes. O avanço é feito em movimentos ondulatórios, ora avança a frente e para a retaguarda, ora faz o contrário, algo que visto de cima seria tal e qual como uma lagarta gigante em movimento. Neste caminhar, as partes ora se aproximam, ora se afastam. E os homens que carregam os andores aproveitam para descansar. Pum… estoira mais uma bomba para anunciar que a Procissão está fora. Junto dos Bombeiros o andor é colocado de frente para o quartel, como se Cristo o quisesse abraçar. Os soldados da paz prestam-lhe homenagem e a sirene toca três vezes. Ao ver de perto, fiquei na dúvida se é uma homenagem dos Bombeiros ao Senhor dos Aflitos ou se é Ele a agradecer-lhes por serem um dos seus braços que socorrem muitos aflitos deste mundo… Pum, Pum… repetem-se as bombas com intervalos regulares. E outra banda marca a cadência do passo só com a tarola até entrar o instrumental, tocando nova marcha. Nas varandas e janelas ao longo das ruas, tal como outrora, veem-se colchas coloridas a enfeitar “o caminho do Senhor”. De algumas delas, cai uma chuva de pétalas de flores sobre o andor do Senhor dos Aflitos. Pum, mais uma bomba. E ao longo dos passeios, ininterruptamente, uma multidão impressionante de pessoas de todas as idades para ver passar a Procissão, numa atitude mais descontraída e menos reverencial que outrora, mas que atesta a realidade da nossa génese religiosa. Pum… E a banda toca mais uma marcha. Aqui e ali há pessoas que fazem o sinal da cruz ao passar o Cristo cruxificado. E, para mais tarde recordar ou para registar o momento, fazem-se muitas fotografias e gravações de imagens com telemóveis, tabletes, máquinas fotográficas… Alguns colocam-se em posições estranhas para conseguirem o melhor ângulo, a melhor imagem. Pum… Mais foguetes. Alguns rapazes ainda seguram o copo de cerveja na mão e um deles dá uma dentada num cachorro quente, antes que esfrie… Ainda estarão a festejar o europeu de futebol? Todas as barracas param de fazer barulho e respeitam a passagem da procissão. Pum, Pum… Desta vez foram duas bombas. Na Santa Casa há uma montra de idosos e colaboradores ao longo do jardim diante do Lar à passagem da Procissão, muitos deles em cadeiras de rodas. E veem o senhor bispo, D. Gilberto, sair debaixo do pálio e do Cortejo para lhes dar a bênção, num gesto raro e surpreendente. Pum, Pum, Pum… Os foguetes e morteiros estoiram no ar, anunciando o regresso do Senhor à Casa onde permanecerá até ao próximo ano, para receber e escutar as preces dos aflitos. Pum, Pum, Pum, Pum, Pum… e o foguetório acaba na girândola.

Houve momentos únicos em que todos aqueles que assistiam à Procissão, sem exceção, levantavam a cabeça ao mesmo tempo e olhavam o Céu… Às vezes, esse gesto era acompanhado por um “AH, AH, AH… E ficavam assim, de cabeça levantada, alguns de boca aberta, até… libertarem a cruz do andor do Senhor dos Aflitos quando ficava preso num dos muitos cabos de eletricidade que atravessam as ruas por onde passava.

Que se saiba, levantamos muitas vezes os olhos ao Céu, quase sempre para pedir. Porque não, também para agradecer???

O caminho faz-se… caminhando

No último dia do longínquo ano de 1963, o paquete Infante D. Henrique que me levava para Angola onde ia fazer o estágio, atracou no Funchal, talvez para me dar tréguas às horas e horas de enjoos na viagem desde Lisboa. Foi a primeira de muitas vezes que haveria de visitar ilha da Madeira, pela qual me apaixonei. Após essa passagem relativamente rápida, em que a memória gravou especialmente a partida do Funchal um pouco antes das doze badaladas do fim de ano e a cascata de luz que já nessa altura dava uma beleza especial à ilha, voltei ali diversas vezes com a Luísa, instalado em hotéis e fazendo os roteiros turísticos crónicos à volta da ilha. Sempre a achei bonita, apesar de fazer os mesmos circuitos e revisitar os mesmos locais. E este ciclo de visitas acabou quando a Luísa adoeceu. Mas, há alguns anos atrás, a Teresa e o Agostinho programaram as férias na Madeira e desafiaram-me para ir ao seu encontro e passar com eles os últimos dias da estadia. Percebi a intencionalidade e simpatia do gesto. Claro que aceitei, sabendo que teria de acompanhar dois caminhantes por vocação e obrigar-me a “dar à perna” pois não haveria circuitos turísticos de “rabo a tremer” em carrito ou autocarro. Os caminhos, seriam outros e as pernas, o meio de transporte. Ponto. Sem preparação prévia, lá fui eu “para o que desse e viesse”. Quando aterrei no Funchal, os quatro (com a irmã e o cunhado) estavam à minha espera e enfiaram-me logo na velha carrinha que tinham levado de barco a partir do Algarve. Carreguei a tralha e arrancaram. A “função” ia começar e nem tive tempo para respirar. “Seja o que Deus quiser”, pensei. Meio desconfiado do que me podia esperar, já ia vestido e calçado para qualquer eventualidade e adivinhei. Para começar, levaram-me para a levada do Caldeirão Verde. Coisa pouca, seis quilómetros e meio de caminhada. Para lá. Mas, como a intenção não era ficar a dormir no final da levada, tínhamos de regressar pelo mesmo caminho. Mais seis quilómetros e meio, para cá. Foi o batismo, com “padrinhos” muito simpáticos e prestáveis, e tudo o mais. E nesse tudo estava incluída uma paisagem de cortar a respiração, um outro ângulo para ver a ilha, uma faceta extraordinária que desconhecia. Só visto. Mesmo com os ténis que comprara para o efeito mas que me apertaram os pés ao ponto de não voltar a usá-los. Treze quilómetros de prazer, serenidade, encontro connosco. Pelo meio, uma merenda ligeira e líquidos, muitos líquidos. A carrinha levou-nos depois para o “Hotel”, feito tenda no parque de campismo de Porto Moniz. “Hotel de luxo” com vista direta para as estrelas e jantar fora… da tenda.

Haveria de voltar com eles à Madeira para fazer outras caminhadas, uma delas do Pico do Areeiro ao Pico Ruivo que me deixou “de gatas”, uma montanha russa montada nas nuvens com paisagens de cortar a respiração. Só fiz a ida porque a volta “deixei-a” toda para eles (irem buscar o carro e recolherem-me feito desistente). Mas é uma outra maneira de ver a ilha da Madeira, única, algo que se deveria ter de fazer uma vez na vida. E tive o privilégio de fazer com eles outras caminhadas, a outros lugares especiais para usufruir de coisas e belezas que de outra forma nunca conheceria. Lá, no local, à chuva ou ao sol. Poder ver urzes centenárias de formas únicas, um sem fim de vegetação, aves lindas. E na Madeira, conhecer essa obra ímpar das levadas, construídas em escarpas onde seria impensável fazê-lo, uma obra de arte do Homem numa paisagem maravilhosa de Deus.

Gosto de caminhar, sinto-me bem, dá-me prazer. Não o faço tantas vezes quanto gostaria, umas vezes por preguiça ou desculpas esfarrapadas, outras porque não. Como na vida, as caminhadas são muito mais fáceis e agradáveis com companhia. Por alguma razão a vida e a existência humana são muitas vezes descritas como um caminho. Talvez por a vida ser um espaço de tempo que temos de trilhar, com subidas e descidas, muitos obstáculos mais ou menos difíceis, que nos abatem ou fazem felizes. E nesse caminho há etapas a vencer, metas para alcançar, paisagens que devemos usufruir. Sim, porque o importante da caminhada não é o ponto de partida nem sequer o da chegada, mas o caminho, todo o caminho e cada momento.

Muitos dos percursos e das levadas que a Madeira tem para nos oferecer, começam ou acabam numa queda de água, num pico, num lugar. Mas, se estamos à espera de chegar ao final da levada para admirarmos a beleza do objetivo alcançado, estamos enganados pois perdemos o essencial ou seja, o encanto do caminho onde havia borboletas e pássaros, flores e árvores, água e céu, montanha e escarpas, silêncios e canto de aves, harmonia e beleza, todo um mundo de pinturas e desenhos que saíram diretamente da mão de Deus. Ao estarmos focados no objetivo final, esquecemos o essencial e não vimos, nem nos apercebemos que existia…

Na caminhada, tal como na vida, os amigos são uma dádiva, uma ajuda para ultrapassar obstáculos, um estímulo para seguirmos em frente quando tudo nos quer fazer desistir, uma lanterna para os túneis, uma companhia para os momentos de alegria e de tristeza. E as pedras e os obstáculos, são muito mais importantes do que o terreno plano porque é com elas que aprendemos mais, crescemos mais, nos fortalecemos mais. Por isso, caminhe seja onde for, na Madeira ou na vida, mas caminhe. Porque, como dizia o poeta castelhano António Machado, “o caminho faz-se caminhando”…

No último dia do longínquo ano de 1963, o paquete Infante D. Henrique que me levava para Angola onde ia fazer o estágio, atracou no Funchal, talvez para me dar tréguas às horas e horas de enjoos na viagem desde Lisboa. Foi a primeira de muitas vezes que haveria de visitar ilha da Madeira, pela qual me apaixonei. Após essa passagem relativamente rápida, em que a memória gravou especialmente a partida do Funchal um pouco antes das doze badaladas do fim de ano e a cascata de luz que já nessa altura dava uma beleza especial à ilha, voltei ali diversas vezes com a Luísa, instalado em hotéis e fazendo os roteiros turísticos crónicos à volta da ilha. Sempre a achei bonita, apesar de fazer os mesmos circuitos e revisitar os mesmos locais. E este ciclo de visitas acabou quando a Luísa adoeceu. Mas, há alguns anos atrás, a Teresa e o Agostinho programaram as férias na Madeira e desafiaram-me para ir ao seu encontro e passar com eles os últimos dias da estadia. Percebi a intencionalidade e simpatia do gesto. Claro que aceitei, sabendo que teria de acompanhar dois caminhantes por vocação e obrigar-me a “dar à perna” pois não haveria circuitos turísticos de “rabo a tremer” em carrito ou autocarro. Os caminhos, seriam outros e as pernas, o meio de transporte. Ponto. Sem preparação prévia, lá fui eu “para o que desse e viesse”. Quando aterrei no Funchal, os quatro (com a irmã e o cunhado) estavam à minha espera e enfiaram-me logo na velha carrinha que tinham levado de barco a partir do Algarve. Carreguei a tralha e arrancaram. A “função” ia começar e nem tive tempo para respirar. “Seja o que Deus quiser”, pensei. Meio desconfiado do que me podia esperar, já ia vestido e calçado para qualquer eventualidade e adivinhei. Para começar, levaram-me para a levada do Caldeirão Verde. Coisa pouca, seis quilómetros e meio de caminhada. Para lá. Mas, como a intenção não era ficar a dormir no final da levada, tínhamos de regressar pelo mesmo caminho. Mais seis quilómetros e meio, para cá. Foi o batismo, com “padrinhos” muito simpáticos e prestáveis, e tudo o mais. E nesse tudo estava incluída uma paisagem de cortar a respiração, um outro ângulo para ver a ilha, uma faceta extraordinária que desconhecia. Só visto. Mesmo com os ténis que comprara para o efeito mas que me apertaram os pés ao ponto de não voltar a usá-los. Treze quilómetros de prazer, serenidade, encontro connosco. Pelo meio, uma merenda ligeira e líquidos, muitos líquidos. A carrinha levou-nos depois para o “Hotel”, feito tenda no parque de campismo de Porto Moniz. “Hotel de luxo” com vista direta para as estrelas e jantar fora… da tenda.

Haveria de voltar com eles à Madeira para fazer outras caminhadas, uma delas do Pico do Areeiro ao Pico Ruivo que me deixou “de gatas”, uma montanha russa montada nas nuvens com paisagens de cortar a respiração. Só fiz a ida porque a volta “deixei-a” toda para eles (irem buscar o carro e recolherem-me feito desistente). Mas é uma outra maneira de ver a ilha da Madeira, única, algo que se deveria ter de fazer uma vez na vida. E tive o privilégio de fazer com eles outras caminhadas, a outros lugares especiais para usufruir de coisas e belezas que de outra forma nunca conheceria. Lá, no local, à chuva ou ao sol. Poder ver urzes centenárias de formas únicas, um sem fim de vegetação, aves lindas. E na Madeira, conhecer essa obra ímpar das levadas, construídas em escarpas onde seria impensável fazê-lo, uma obra de arte do Homem numa paisagem maravilhosa de Deus.

Gosto de caminhar, sinto-me bem, dá-me prazer. Não o faço tantas vezes quanto gostaria, umas vezes por preguiça ou desculpas esfarrapadas, outras porque não. Como na vida, as caminhadas são muito mais fáceis e agradáveis com companhia. Por alguma razão a vida e a existência humana são muitas vezes descritas como um caminho. Talvez por a vida ser um espaço de tempo que temos de trilhar, com subidas e descidas, muitos obstáculos mais ou menos difíceis, que nos abatem ou fazem felizes. E nesse caminho há etapas a vencer, metas para alcançar, paisagens que devemos usufruir. Sim, porque o importante da caminhada não é o ponto de partida nem sequer o da chegada, mas o caminho, todo o caminho e cada momento.

Muitos dos percursos e das levadas que a Madeira tem para nos oferecer, começam ou acabam numa queda de água, num pico, num lugar. Mas, se estamos à espera de chegar ao final da levada para admirarmos a beleza do objetivo alcançado, estamos enganados pois perdemos o essencial ou seja, o encanto do caminho onde havia borboletas e pássaros, flores e árvores, água e céu, montanha e escarpas, silêncios e canto de aves, harmonia e beleza, todo um mundo de pinturas e desenhos que saíram diretamente da mão de Deus. Ao estarmos focados no objetivo final, esquecemos o essencial e não vimos, nem nos apercebemos que existia…

Na caminhada, tal como na vida, os amigos são uma dádiva, uma ajuda para ultrapassar obstáculos, um estímulo para seguirmos em frente quando tudo nos quer fazer desistir, uma lanterna para os túneis, uma companhia para os momentos de alegria e de tristeza. E as pedras e os obstáculos, são muito mais importantes do que o terreno plano porque é com elas que aprendemos mais, crescemos mais, nos fortalecemos mais. Por isso, caminhe seja onde for, na Madeira ou na vida, mas caminhe. Porque, como dizia o poeta castelhano António Machado, “o caminho faz-se caminhando”…