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Não conheces nem sabes? Não julgues

Não nascemos juízes nem somos juízes. Mas julgamos os outros sem os conhecer. Tal como não sendo réus, tantas vezes somos julgados por quem não nos conhece. Quando não, condenados. Já julguei quem não conhecia de lado nenhum, tal como já fui julgado por quem nunca me tinha visto. Está errado, mas é vulgar entre os seres humanos …

Agora que tem os filhos praticamente “arrumados”, a doutora Isabel, médica amiga, deu numa de fazer caminhadas. Sente-se bem com isso e os “médicos” recomendam, normalmente aos outros. Mas ela optou por dar o exemplo. Uma das últimas e mais marcantes caminhadas, foi como peregrina a Fátima, integrada num grupo numeroso onde as pessoas são tratadas pelo nome próprio, nada mais. Não há títulos, profissões, classes sociais. Fez-se à estrada e lá foi cumprindo o seu papel nessa longa viagem até à Capelinha das Aparições. Um dos elementos desse grande grupo era um jovem coberto de tatuagens sinistras, com cobras, dragões, caveiras e outras imagens radicais. As partes do corpo livres de pintura, só mesmo a cabeça e as mãos. Tudo o resto estava tatuado ao milímetro. Para além da “decoração”, usava “piercings” e “extensores” nas orelhas, que lhe deixavam abertos dois grandes buracos. “Tem um ar de vagabundo e drogado”, pensava ela. E ao longo do caminho evitou-o, imaginando o pior. Era alguém com quem não gostaria de se cruzar à noite…

No último dia e já na parte final da caminhada, desgastada e diante de uma longa e acentuada subida, parou e anunciou aos companheiros de viagem: “Para mim, acabou. Já não consigo subir isto”. E sentou-se. A notícia correu o grupo e o rapaz das tatuagens aproximou-se e disse em tom imperativo: “Não, agora que estás tão perto, não vais desistir. Vais conseguir como os outros, ainda que eu tenha de te levar às costas”. Ajudou-a a levantar-se e, com o auxílio de outro elemento do grupo, empurrou-a lentamente ladeira acima até alcançarem o alto. Ali chegados, ela agradeceu-lhe, mas ele declinou o agradecimento dizendo: “Já me agradeceste”. “Como é que eu te agradeci?”, quis ela saber. “Conseguindo chegar aqui”. A partir daí, compreendeu que se equivocara e julgara-o sem o conhecer. E quis “conhecê-lo”. Finalmente. Então, a surpresa ainda foi maior quando ele lhe disse que gostava muito de três coisas: Tatuagens, música “metálica” e… Deus. Sim, DEUS. Além de católico praticante, até era… catequista. Só então se apercebeu de quem ele realmente era, ao vê-lo na sua disponibilidade para os outros, na solidariedade, numa alegria sem limites. Errara por completo no juízo prévio que fizera, baseada somente no aspeto. Como todos nós erramos tantas vezes…

Em garoto alguém me disse para “não falar sem conhecer e não julgar sem saber”. Já adolescente, levei uma reprimenda, sendo aconselhado a “não falar, criticar ou fazer juízos prévios sem estar bem informado, para saber daquilo de que se fala e de poder ter opinião. Mas nunca o poder de julgar”. É um facto, porque não somos juízes e nem temos mandato. Vai-se enganar (quase) de certeza aquele que julga pela aparência, pelo nome, pela roupa ou porque sim. Mas existe em cada um de nós essa veia para o ser, uma tendência para condenar sem ouvir, discriminar sem pensar, em função de alguns estereótipos que criamos ou nos incutiram e condicionam. Em linguagem futebolística, temos o hábito de ser “treinadores de bancada” …. 

De autor desconhecido, não quero deixar de partilhar esta história:

“Eram dois vizinhos. Um deles comprou um coelho para os filhos. Os filhos do outro vizinho também quiseram um animal de estimação e os pais compraram-lhes um filhote de “pastor alemão”. Então, começou uma conversa entre os dois vizinhos: – Ele vai comer o meu coelho! – De jeito nenhum. O meu pastor é filhote. Vão crescer juntos e “fazer amizade”!!! E, parece que o dono do cão tinha razão. Cresceram juntos e tornaram-se amigos. Era normal ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa. E as crianças, felizes com os dois animais. Até que um dia o dono do coelho foi viajar no fim de semana com a família e não levou o coelho. No domingo à tarde, o dono do cachorro e a família lanchavam tranquilamente quando, de repente, entrou o pastor alemão com o coelho entre os dentes, imundo, sujo de terra e morto. O cão levou uma tremenda surra! Quase mataram o cachorro de tanto o agredirem. Dizia o homem: – O vizinho estava certo. Só podia dar nisto!

Mais algumas horas e os vizinhos iam chegar. E agora? Todos se olhavam. O cachorro, coitado, gania lá fora lambendo os ferimentos.   – Já pensaram como vão ficar as crianças? Não se sabe exatamente quem teve a ideia, mas parecia infalível: – Vamos lavar o coelho e deixá-lo limpinho. Depois vamos secá-lo com o secador e colocá-lo na sua casinha. E assim fizeram. Até perfume puseram no animalzinho. Ficou lindo. – Parecia vivo, diziam as crianças. Pouco depois, ouvem os vizinhos chegar e os gritos das crianças. – Descobriram! Ainda não tinham passado cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma. – O que foi? Que cara é essa? – O coelho, o coelho … – O que tem o coelho? – Morreu! – Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem. – Morreu na sexta-feira! – Na sexta-feira?!!! – Foi. Antes de viajarmos, as crianças enterraram-no no fundo do quintal. E, agora, ele reapareceu!!!

A história termina aqui. O que aconteceu depois fica à imaginação de cada um de nós. Mas a grande personagem desta história, sem dúvida alguma, é o cachorro. Imagine o coitado, desde sexta-feira a procurar em vão o seu amigo de infância. Depois de muito farejar, descobre o seu amigo coelho, morto e enterrado. O que faz ele? Provavelmente com o coração partido, desenterra o amigo e vai mostrá-lo aos seus donos, imaginando que o fizessem ressuscitar. E o ser humano fez o que fez? Continuando a julgar, sem saber, deu-lhe “porrada” …

Este (mau) hábito de nos precipitamos a tirar conclusões, costuma dar asneira, mas temos dificuldade em aprender, em aceitar que não o podemos nem devemos fazer. Histórias como esta aconselham-nos a pensar bem nas atitudes que tomamos. Porque, demasiadas vezes nos colocamos do lado errado …” 

Uma luta inglória. Ou talvez não…

O jovem autista teve um ataque de pânico. Agitado e descontrolado, batia com as mãos no peito e na cabeça. Porém, o seu cão envolveu-o, puxou-o com as patas fazendo com que se sentasse. E não o largou um segundo. Enrolados um no outro, lambendo-o e acariciando-o, pouco a pouco conseguiu fazer parar a crise, com os dois abraçados numa sintonia incrível. Fica a pergunta: “Este cão tem sentimentos”? Há dois meses que o João não ia a casa. Quando chegou, Pateta, o seu cão, correu para ele, saltou-lhe para o colo numa agitação frenética e lambeu-o no pescoço, na cara, em todo o lado, como que a desforrar-se do tempo de ausência. Fica a pergunta: “Este cão teve saudades? E gosta do dono”? Como estes, são inúmeros os momentos de cães e outros animais a revelarem em plenitude o medo, a tristeza, a alegria, o frio, o calor, a raiva, o amor e tantos outros estados de espírito. Ou não será bem assim? Quando a Becas espera pacientemente atrás da porta de vidro pela manhã até que eu apareça no corredor e entra em euforia quando a abro e lhe faço os mimos obrigatórios, será que não sente alguma coisa? Quando se deita aos meus pés, não está a sentir- se segura e protegida? Sempre que a Diana, a minha anterior cadela, se encostava a mim e roçava com a cabeça ou me chamava a atenção com a pata na minha perna como quem diz “estou aqui”, era sinal de quê? E sei bem que todos eles são animais tidos por “irracionais”!!! Não deixa de ser curioso e elucidativo que, burros e elefantes, podem sofrer depressões. Ora, para ficar deprimido não é preciso sentir e ter sentimentos? Em comparação, o pai de Valentina, a menina de 9 anos que morreu assassinada, é o quê? Um “animal racional”? A amostra de ser humano, capaz de matar a própria filha, aquilo que nenhum animal dito “irracional” faz? Terá “essa besta” sentimentos de amor paternal, bondade, compaixão e outros, tidos como exclusivos do ser humano? Onde guarda ele o sentimento de proteção dum filho que é devido a um pai, seja ele o “animal” que for? 

Não é preciso ser muito letrado para perceber que os animais não são coisas. São alguém. Como nós, têm medo, prazer, emoções. E sofrem, coisa que muita gente ainda não aceitou. Merecem ser tratados com respeito, até porque são capazes de nos entender. É nossa obrigação moral fazê-lo, com dignidade, garantindo o seu bem-estar. Fomos nós que os domesticamos e colocamos à nossa guarda. Por isso, cabe-nos a sua responsabilidade. E o que fazemos?

Avisaram a Associação Lousada Animal que um cão de grande porte se encontrava ferido no monte. Lançado o alerta, em pouco tempo os voluntários procuraram e localizaram o animal. Mas, ao encontrá-lo, o horror estampou-se nos seus rostos: no dorso traseiro, por cima do rabo, uma chaga feita de várias pústulas ocupando mais de 30 cm de diâmetro, com um intenso corrimento de pus com cheiro pestilento, onde medravam vermes, dava-lhe um aspeto horrível. Aquele animal estava num sofrimento tremendo e fugiu do voluntário, sinal de que temia os homens. Só se aproximou quando viu uma jovem, aceitou a segurança da sua proteção e acabou por repousar a cabeça nas suas pernas para receber mimos de que tanto carecia. Permanecera lá, no lugar onde o “seu dono” o abandonara e ali ficara à espera que viesse buscá-lo. Mas a sua fidelidade não teve recompensa, pois o seu dono traiu-o. Magro, esfomeado, sedento e doente, comeu e bebeu o que lhe ofereceram, retribuindo tudo com extrema docilidade. E agora? O caso era muito grave e a Associação precisava de meios que não tinha para tentar salvá-lo e libertá-lo do martírio. Para isso, lançou o apelo dramático nas redes sociais, expondo o horror a que a negligência de alguém deixou chegar o animal que, entretanto, seguira diretamente para a clínica, entregue aos cuidados do corpo técnico.     

A partir daí, os voluntários da Associação viveram numa roda viva de emoções, alimentada pela solidariedade expressa no contributo dos anónimos tocados com o drama e o sofrimento daquele cachorro que fez correr tantas lágrimas e pela esperança de conseguirem curá-lo e dar-lhe um lar onde pudesse sentir que o ser humano também tinha um lado bom. Na clínica a luta continuava. A desidratação e magreza extrema do “Menino” não ajudavam à recuperação, apesar de bem cuidado, posto a soro e medicado para conter a infeção. Fez análises, RX, ecografias e, logo que foi possível, citologia, TAC e biópsias, para se chegar a uma conclusão não desejada: o tumor era maligno. Ficou ainda uma interrogação: “E a possibilidade da intervenção cirúrgica para remover aquela massa”? Agora não podia ser, pois além de duas bactérias multirresistentes diagnosticadas na citologia, o seu estado físico piorara e o corpo definhara. Era o princípio do fim. Mas ficavam intactas a dedicação, empenho, disponibilidade e amor pelos animais do grupo de pessoas envolvidas, de uma generosidade incrível, além da onda de solidariedade dos cidadãos anónimos sensibilizados pelo drama deste cão, em cujo destino se centrou a atenção e ajudas de tanta gente, o que é um sinal de esperança no ser humano.

Mas os voluntários, apesar de impotentes para o salvarem, quiseram dar-lhe mais uns dias de vida, num gesto que surpreendeu o próprio corpo clínico, onde pudesse usufruir provavelmente do que nunca teve: companhia humana, guloseimas e mimos, na última recordação e se calhar única, da “humanidade” dos seres humanos. E, revezando-se, fizeram desses dias um tributo invulgar de dedicação, compaixão e amor por um animal maltratado, abandonado e traído pelo homem e que, seguramente, sofreu muito. Porque, e nunca o esqueçamos, os animais também sofrem … como nós …

A Teresa foi a voluntária da última caminhada, da última guloseima, dos últimos mimos, dos últimos minutos. E fez questão de o ser ainda do último suspiro, exalado no seu colo, num adormecer suave. É que, no momento final, os cães precisam de um carinho e procuram um rosto familiar. Como os humanos, não querem morrer sozinhos. E é precisa uma grande coragem e muito amor para estar ali, presente. Por isso, ninguém melhor que ela para assegurar que aquele animal sentiu muita dor, sofreu, teve medo, fome, sede, tristeza e carência afetiva. Como (quase) todos nós! Mas ainda foi muito amado por esse grupo de pessoas, que se entregou por completo, sem reservas nem condições. 

Uma luta inglória? Seguramente que não … porque sentiu tudo o que fizeram por ele. E agradeceu mais no silêncio e doçura do olhar, do que se o tivesse feito com mil palavras …

Como se alguém pudesse ainda ter dúvidas …

Trabalho de “todos e cada um” …

A provar que somos animais de hábitos, está o facto do confinamento me ter criado “habituação”, uma dependência como qualquer droga barata, mas viciante. É verdade. Agora quando tenho de ir à rua, não passo muito tempo sem me dar a vontade de regressar a casa, vestir as calças de ganga rotas (eu sei que estão na moda …) e uma T-shirt, calçar botas de cano alto e ir tratar no jardim/horta, para arranjar… uma dor de costas. É que eu faço batota no confinamento. Em vez de estar enfiado em casa como um eremita, “vou para fora, cá dentro” (como na publicidade que nos aconselha a fazer férias em Portugal) “dar cabo do canastro” e, estupidamente, fico feliz. Corro o risco de, se isto durar muito mais tempo, a habituação poder passar a “vício” e depois nem sequer querer sair à rua, muito menos ter de assumir responsabilidades lá fora. E, cá para nós que ninguém nos ouve, se calhar não perco nada. Se o novo coronavírus é um grande problema que não podemos ignorar nem esquecer, a verdade é que, através do confinamento, acabou por nos fazer refletir sobre a vida desenfreada que levamos e que há muito coisa importante que deixamos para trás no dia a dia da vida. Ora, nesta fase, houve tempo para dedicarmos à família, à leitura e à casa, nos conectarmos regularmente com aqueles de quem gostamos, além de tirar partido das curiosidades, anedotas e histórias sem fim que esta crise proporcionou, ajudando a amenizar o enorme problema sanitário, económico e social. 

Mas, pensando bem, quando houver uma vacina e isto acabar, vamos todos retomar a nossa vidinha, esquecer todas as reflexões sobre o consumismo, os problemas do degelo com o aquecimento global, as ilhas de plásticos e qualquer forma de poluição, o esgotamento dos recursos naturais, os desastres ecológicos, o stresse e a agitação do dia a dia. Voltaremos a “entrar de cabeça” na “vida antes do vírus” e seremos novamente “felizes” …

A questão do momento é o passo dado esta semana para o regresso à normalidade com a segunda fase do “desconfinamento”, palavra que não fazia parte do nosso vocabulário habitual, mas que passamos a conhecer desde que este vírus entrou nas nossas vidas, as virou de pernas para o ar e até nos obrigou a usar palavras novas. Abriram as creches, restaurantes, escolas e várias instituições e serviços, sendo certo que a preocupação é grande, porque é um processo de risco e, como tal, sujeito a recuos que ninguém deseja. Até o presidente da república, primeiro ministro e outras figuras da governação foram “almoçar fora”, num espetáculo desnecessário com a imprensa atrás, para nos mostrar que se come bem nalguns restaurantes da capital e que já se pode ir … vale a pena lá ir … se houver dinheiro para ir … 

É uma fase delicada, que exige responsabilidade de todos nós para não correr mal. É que não deixou de existir o risco de contágio e, por isso, podemos ter uma segunda onda de contágios que nos obrigue a “regressar a casa”, como em Singapura. O vírus não desapareceu por decreto, embora há quem acredite que sim. Relata a história que no caso da “gripe espanhola” ocorrido há cem anos, o grande desastre veio na segunda vaga, com a morte de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. O facilitismo de então foi tal que se chegou a criar a Liga Anti-máscara nos Estados Unidos para combater o seu uso e deu no que deu.

Se há quem tenha receio e tome precauções – muitos foram os pais que se recusaram a levar os filhos para a creche neste primeiro dia do pós-confinamento, com medo – também se encontra quem ache que tudo terminou e são horas de voltar a fazer a vida normal, numa “normalidade perigosa”. Hoje mesmo dizia-me uma senhora que entrou num café/restaurante de máscara e … teve de a tirar. Sentiu-se mal ao ver que, estando completamente cheio, ninguém usava e nem sequer mantinha qualquer “distanciamento”. “Parecia que estavam a festejar o fim da pandemia. Tomei o café e saí com medo”, disse ela.    

O segredo do sucesso desta fase está na responsabilidade de todos, o que parece não ser fácil. Haverá sempre riscos e temos de os correr, mas usando das cautelas e precauções aconselhadas, mesmo que por mais absurdas que possam parecer. Ao proteger-nos, estaremos a proteger também os outros. O texto que se segue, de autor anónimo, ajusta-se como uma luva ao momento presente: 

“Era uma vez quatro indivíduos que se chamavam TodosAlguémCada Um e Ninguém.

Havia um trabalho importante (o regresso à vida normal depois do tempo de confinamento em casa) que tinha de ser feito (com toda a segurança) e pediram a Todos para o executar. Todos tinha a certeza que Alguém o faria. E Cada Um poderia tê-lo feito, mas na realidade Ninguém o fez. Alguém se zangou pois era trabalho de TodosTodos pensaram que Cada Um poderia tê-lo feito e Ninguém tinha dúvidas que Alguém o ia fazer.

No fim de contas, Todos fizeram críticas a Cada Um porque Ninguém fez o que Alguém poderia ter feito.

Moral da história:

Sem querer recriminar a Todos, seria bom que Cada Um fizesse aquilo que deve fazer, sem alimentar a esperança de que Alguém vai fazê-lo em seu lugar …

A experiência mostra que lá onde se espera Alguém, geralmente não se encontra Ninguém”.

Hoje, todos somos chamados a fazer “o nosso trabalho”, que é “cuidar de proteger o outro”, com responsabilidade e segurança. E medo … como o fizeram muitos pais na abertura das creches. Se calhar, bem. Será preferível que se vá lentamente pois o processo é novo e tudo vai ser diferente. Nas creches, hospitais, restaurantes, praias e tudo o mais.

E é velho o ditado: “Mais vale devagar e bem que depressa e mal” … 

Faça uma lista de grandes amigos …

Gosto de música, uma terapia para os sentidos e um prazer que me provoca bem-estar. Gosto de músicas, embora não de todas, independentemente do gênero e estilo. Se há música clássica que ouço com prazer, há muitas que dispenso, o mesmo acontecendo com o jazz, blues, pop, rock e outras. Até com o folclore e música religiosa. Apesar de tudo, gosto sobretudo da música feita canção, com um bom texto, muito especialmente se tiver “mensagem”. Na maior parte dos casos, apesar da melodia ser agradável, a letra “não diz nada” e não passa de banalidades repetidas à exaustão. Daí que, apesar dos “ganchos” usados na letra para dar “ênfase” à canção, na maioria dos casos vale a composição musical e então é só usufruir dela, sem pensar. Muito raramente se conjuga uma harmonia musical boa com um texto inteligente, que também ele nos leve “na viagem”. Por tudo isso, eu como toda a gente, tenho as minhas canções preferidas, muitas delas já com décadas de caminho, porque são intemporais. Em quase todas é a harmonia da música que tem evidência e, em regra, fico indiferente à letra que nada acrescenta, tantas vezes em língua que nem entendo. Basta-me o som da melodia e as lembranças que a ela associo.

Há dias um amigo reencaminhou-me um vídeo, gravação de uma canção interpretada por dois cantores brasileiros de que nunca ouvira falar, de cabelos compridos já brancos. Música e letra são da autoria de um deles, Oswaldo Montenegro, lançada há mais de vinte anos e cantada nesta versão com Renato Teixeira. Uau!!! Que música e, sobretudo, que texto!!! Tocou-me de tal forma que já não sei dizer quantas vezes seguidas a ouvi!!! E quanto mais a ouvia, mais apetecia voltar a ouvir. A letra é fabulosa. Questiona-nos sobre a vida como nenhuma outra que conheça. E ao sentir as palavras numa melodia envolvente, com elas também viajei na minha história de vida, dos afetos presentes e passados, pessoas, sonhos de que desisti, convicções que deixaram de ser, certezas que já eram, princípios ignorados e contradições. Mas aquilo que a torna espantosa, é como foi possível em apenas seis quadras (já que as duas últimas são uma repetição) conseguir resumir um leque de questões essenciais da nossa vida, que são transversais a todos, apesar das nossas diferenças!!! 

O título da música é “A Lista” e vale a pena “saborear” o texto e aprofundar todo o sentido da letra, porque ela desenterra-nos o passado, os desvios da estrada, os erros e fracassos. Mas será preferível, para acompanhar a leitura, ouvi-la com a música, de preferência na versão interpretada pelos dois músicos referidos e que pode ser encontrada com facilidade na internet. Aí vai a letra:       

“Faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás … Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?

Faça uma lista dos sonhos que tinha … Quantos você desistiu de sonhar? Quantos amores jurados pra sempre … Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora? Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava, quantos você conseguiu entender? Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava, quantas você teve que cometer? Quantos defeitos sanados com o tempo, era o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver? Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?

Faça uma lista de grandes amigos … quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia … quantos você já não encontra mais.

Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber … Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?”

Esta música é oportuna para este período de “confinamento”, que pode muitíssimo bem ser de recolhimento, reflexão e introspeção. De forma clara e intencional, o autor faz apelo às lembranças de cada um de nós, numa “romagem” ao passado, e desafia-nos a ter a coragem de fazer uma Lista sobre vários aspetos do que foi a nossa vida tendo como ponto de partida há dez anos atrás, como podia ser de há vinte, trinta, quarenta ou cinquenta, e completá-la com a situação no momento presente. Questiona-nos sobre os relacionamentos, dos amores aos amigos, sobre os sonhos que sonhamos e dos que desistimos e o quanto nos pode ter afetado e, por tal, se nos revemos na imagem de agora no espelho ou na foto de outrora. De forma inteligente, faz-nos perceber que coisas havia a que dávamos muita importância e de que hoje “ninguém quer saber”, tal como aquilo que condenávamos por questões de princípio acabamos por cometer em função das contingências da vida.

Mas o mais extraordinário da música é que ela nos faz “viajar” no tempo, transportados nas asas da letra com o acompanhamento de uma melodia suave e muito bem interpretada, através desse passado que se faz presente. E percebemos o quanto mudamos, desistimos, esquecemos, perdemos e deixamos para trás, como humanos que somos …    

“Vamos (quase) todos ficar bem” …

Estou farto. Já não tenho pachorra para ouvir e ver os telejornais a falarem do “novo corona vírus”. É dose a mais. O assunto é grave? É, muito grave mesmo. E as consequências sanitárias e económicas vão ser de tal dimensão, que ninguém as consegue calcular. Nem mesmo os “adivinhadores” que nos vão atirando com projeções, estimativas, cálculos e todo o tipo de números, mas não passam disso. É certo que alguém vai acertar nas previsões, da mesma forma que “um relógio parado está sempre certo duas vezes ao dia”. Precisamos de notícias sobre a pandemia? Com certeza, mas não temos de assistir todos os dias a um noticiário onde, do princípio ao fim, não se fala de outra coisa. É a contabilidade dos infetados do dia e os totais, os mortos do dia e os totais, os hospitalizados do dia e os totais, os recuperados do dia e os totais, quando não vão ao pormenor por concelho ou ainda mais especificamente. Depois são os comentários dos especialistas mais variados, todos com voto na matéria: virologistas, matemáticos, infecciologistas, pneumologistas, investigadores e psicólogos, sempre acompanhados de muitos números, gráficos com curvas ascendentes e descendentes, picos, vales e planaltos. E as suas opiniões técnicas, muitas vezes discordantes entre si e até com a opinião oficial. E as estatísticas, nacionais e por regiões, mas onde os mais velhos têm “protagonismo”, a começar pelos utentes dos Lares. Só os “estragos” que essas notícias demasiado incisivas e pormenorizadas fazem a esse grupo etário, vivendo em instituições ou em suas casas, é caso para dizer, “basta, haja moderação”. O massacre noticioso acerca deles como maior grupo de risco tem-lhes provocado consequências psicológicas graves, como medos, confusões, ansiedade e stress, que os leva a achar mesmo que “já não têm chances de continuar a viver e que o coronavírus é a sua sentença de morte”. Como ficarão ao saber que, se morrerem com o Covid-19, não terão sequer a oportunidade de se despedirem da família, nem esta deles, e serão enfiados num saco com o letreiro de “contagioso”, que só os deixará de acompanhar se forem cremados? E já nem falo na “volta ao mundo” das notícias sobre o mesmo tema, de Espanha a Inglaterra, dos Estados Unidos ao Brasil …

Tenho de confessar que, ao fim de algumas semanas a ouvir noticiar, dia após dia, que “já há mais 252 infetados e 25 mortos”, “foram 28 os mortos nas últimas 24 horas” ou “subiu para 32” … não tenho reação. De certo modo, tornei-me insensível. Ouço falar de mortos aqui, nesta terra a que pertenço, mas parece-me que não é comigo. Só quando eu ouvir o nome de alguém que conheça possa acordar deste transe que me deixa alheado do que se passa. E não é só comigo, pois já falei com alguns amigos e estão igualmente apáticos. O Abel até dizia “que Deus me perdoe, mas ouvir falar de mais mortos ou de nada, é igual. Já não sinto, estou anestesiado”. Os mortos tornaram-se uma banalidade nas estatísticas diárias dos comunicados oficiais, embora nunca o sejam para os familiares e amigos de cada um deles, numa dor redobrada e ainda mais triste por não haver lugar a despedidas, homenagens ou tão só, velar o corpo …

Mas as conferências de imprensa das autoridades sanitárias, ou seja, do governo, onde pontificam a ministra da saúde, a diretora geral de saúde e um secretário de estado, são mais do mesmo. Todos os dias. Será por castigo? Percebo que a imprensa queira esses comunicados, perguntas e respostas e todas as pequenas questões à volta do tema. Mas não havia necessidade de ser em direto, pois os jornalistas são suficientemente inteligentes para nos fazerem a súmula daquilo que interessa e livrarem-nos da “seca”. Porque é uma grande “seca” … 

Mais do que explorar noticiosamente a pandemia, seria importante que as autoridades divulgassem orientações claras e precisas sobre o uso dos equipamentos de proteção individual, como as máscaras e os desinfetantes, para que tenham verdadeira utilidade. E estou a ver as imagens daquele homem a querer desinfetar as mãos usando para o efeito o extintor pendurado na parede …   

Apesar de todas as contradições, avanços e recuos do governo e seus mandatários, a coisa até tem corrido relativamente bem e muito se deve ao comportamento da população que respondeu positivamente ao isolamento social, salvo raras exceções. Mas tem faltado uma voz de comando única que não ande para trás e para a frente, seja isenta, faça com que as leis sejam iguais para todos e as regras não sejam meros conselhos, que tanto podem ser verdade como não o ser. Como é que num “estado de emergência”, em que não pudemos estar em grupo, impedidos de participar no funeral até de quem nos é muito próximo, de participar numa missa ou outra cerimónia religiosa, de assistir a um espetáculo ou qualquer ajuntamento social, os poderes instituídos se permitem subverter as regras e celebrarem o 25 de Abril ou deixar-se subjugar à CGTP e ao PCP, ao arrepio do “estado de emergência”, permitindo-lhes a manifestação do 1º. de Maio, como se estivessem acima da lei? Será mais importante essa manifestação ou a cerimónia de despedida de alguém que amamos e não voltaremos a ver mais? Porque se permite a primeira e se recusa a segunda sem justificação credível? De tal forma se “meteu a pata na poça” que, depois de dizerem que não havia lugar às celebrações de Maio em Fátima, agora dá-se o dito por não dito, recua-se e até parece que já são possíveis!!! Bem melhor estiveram os responsáveis religiosos. “Surpreendidos” com o recuo e agora abertura do governo, decidiram manter as Celebrações, sem peregrinos no local. Chama-se a isso, coerência e responsabilidade …

As contradições da diretora da DGS a propósito do uso das máscaras mereceram forte discordância da classe médica, pois começou por dizer que não serviam para nada, só os contagiados deviam usar por puro “altruísmo” com os outros. Só os resultados do seu uso noutros países e as pressões da classe médica fizeram mudar o discurso, com avanços, recuos e contradições. Isso mereceu críticas, caricaturas e comentários jocosos, como a mensagem seguinte: “as máscaras não servem para nada, mas até servem. Se puderes, usa-as. Mas, se calhar, não é nada preciso, porque só servem se estiveres contagiado. Mas podes estar contagiado e não saber. Por isso, será melhor usar. Não tens? Então não uses” … Veja-se que uma norma da DGS diz que “as máscaras cirúrgicas não protegem quem as usa” e, ao mesmo tempo, aconselha a quem está frágil a usá-las!!!   

Mas, toca a ter esperança e a acreditar nas frases de motivação que mais ouvimos, vemos e lemos neste tempo difícil, em especial nesta: “vamos todos ficar bem”. Acredito que isso venha a acontecer, mais dia, menos dia, mais ano, menos ano. Mas, por muito que me custe dizê-lo, “já não seremos todos” … 

Somos tema mediático, mas de baixa cotação…

Na corrida dos dias e na estranha pressa de viver o amanhã à espera de que seja bem melhor que hoje, não chegamos a usufruir de tudo aquilo que temos no presente, no agora. E a prova disso é que não nos demos conta do quanto nós éramos felizes até há somente dois meses atrás, um passado tão recente e que todos nós, sem exceção, queríamos ter de volta. Como não nos apercebemos de muitas outras coisas que são parte da nossa vida, mas que os dias de pressa deixam ficar para trás, esquecidas ou abandonadas, enquanto o nosso tempo se perde. E nessa pressa, aqueles que têm mais idade seguramente são os primeiros a ser descartados, ignorados, abandonados à sua sorte. Numa pequena frase, Domingos Lopes disse mais que muitos num grande tratado: “num mundo dominado pela implacável mão justiceira do mercado, o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para inventário”. Por isso, é marginalizado, contentado com pouco, deixado preso a um qualquer lugar onde não incomode e não seja visto, para sossego de consciências. Mas às vezes alguém olha para o mundo que o rodeia com olhos de ver e levanta a voz. Aconteceu com o economista Jorge Silveira Botelho no momento em que o seu olhar atento se fixou naqueles a quem o tempo já não cede muito tempo: 

“Só um imbecil é que é indiferente ao sofrimento dos outros, mas não é por isso mesmo, uma maior prioridade, defendermos como maior princípio procurar dar condições dignas aos que são abandonados pela sorte e que querem viver, mas não têm como? Não é por esses idosos que se amontoam nos sítios mais inóspitos, que devemos lutar pelo seu direito também a terem uma vida decente e não a continuar a fingir que não existem? Se calhar andamos a esfregar as mãos há demasiado tempo, desviando as atenções para causas que se fecham em si mesmas e ignorando deliberadamente o flagelo oculto que está a assombrar a terceira idade. Porque a continuar assim, a pobreza envergonhada que se esconde por detrás do envelhecimento desta sociedade, vai ter como destino uma paragem obrigatória na “Boa Morte”.

É bom que tenhamos consciência que vamos ser o fardo de amanhã e que corremos o risco de que também ninguém queira pegar em nós, nesta sociedade envelhecida, endividada, desigual e profundamente egoísta. Somos os próximos a querer ocupar o tempo que os outros não têm para nos dar e que nos vão querer fazer sentir que estamos a mais, porque somos uma fonte enorme de desperdício de recursos …

Talvez nem nos vamos aperceber, mas podemos ser os próximos a sentirmo-nos envergonhados, simplesmente por querer reivindicar o direito de viver!”

Sejamos realistas, usando o chavão “este país não é para velhos”. É a sociedade que criamos e temos, política, económica e culturalmente. Salvo em momentos pontuais, como é o caso dos períodos eleitorais em que são muito requisitados, adulados, distinguidos, considerados, reconhecidos, elogiados e, sei lá, objeto de inúmeras promessas (que não passam disso mesmo, de promessas), por regra são ignorados e esquecidos pelos poderes públicos, quando não pela família. Se houve um tempo em que eram respeitados na família e na sociedade pela sabedoria, experiência e história de vida, os ventos da sociedade do século XXI e o aumento da longevidade fizeram deles um peso morto para o estado e família (salvo muitas e boas exceções), condenados ao canto do esquecimento como trastes inúteis e descartáveis. E nem sequer o facto de viverem com familiar é garantia de serem tratados com respeito e consideração e de estarem protegidos de maus tratos físicos e psicológicos.

Ora, estes mais de dois milhões de portugueses (é, ainda continuam a ser portugueses!), como se não lhes bastasse os problemas referidos, são agora o alvo privilegiado para essa “coisinha” que anda por aí e não se vê. Um alvo em função do “bilhete de identidade”, agora feito cartão de cidadão, por terem nascido há muitos anos. Pelo que dizem, o vírus discrimina os velhos, ataca-os e leva-os à morte antes daquele tempo que eles julgavam ser o seu. Nada a que os velhos não estejam habituados, pois a sociedade de mercado em que vivemos, onde vale só quem produz, também os discrimina, pois além de não produzir, ainda ocupam espaço necessário, consomem grande quantidade de recursos à sociedade, são um empecilho e não se sabe bem que fazer com eles. E, com franqueza, isso é cá uma grande chatice …

O aparecimento desta pandemia, trouxe à ribalta “esta faixa etária da população” (como agora se diz), deu-lhes visibilidade e até são muito falados, coisa que não acontecia há muito tempo. Esse pequeno vírus 

deu-lhes protagonismo, fez deles o tema principal das notícias, pois todos os dias aparecem na imprensa como “objeto de estatísticas” na contabilidade dos números apresentada nos telejornais à hora das refeições. “Morreram 15 idosos num Lar em …” ou “60% dos mortos tinham mais de 70 anos”, relatam os apresentadores. O vírus dá-lhes a prioridade nos noticiários que nunca tiveram e agora “compõem” os números, fazendo com que as estatísticas tenham dimensão, diria até, grandeza. Mas, não tenhamos ilusões. Quando esta crise passar e tudo voltar ao normal, os que por cá ficarem voltarão à sua condição de ignorados, esquecidos e abandonados, o lugar que tem sido o seu.

Na impossibilidade, verdadeira ou não, da família ser o seu “porto de abrigo”, os Lares são a alternativa, o mal menor para quem não pode nem deve estar só. E tem sido precisamente nestes locais que o vírus tem provocado a maior razia, qual “raposa em galinheiro”, quando o contágio não consegue ser contido. Sinto o drama, a incapacidade, o desespero e o medo daqueles que nesses lugares têm de travar uma batalha continuada e difícil, numa missão quase impossível “para salvar os seus velhinhos” de uma doença que lhes pode ser fatal. 

Eu sinto-o profundamente porque, na grande maioria, as Instituições não têm recursos adequados para este combate, que exige espaços, colaboradores substitutos para as “baixas em combate” e todos os equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade. E o Estado, a quem cabe a responsabilidade de cuidar dos idosos, “passa a bola” às instituições a troco de uma comparticipação ridícula que as deixa “em maus lençóis” para a gestão do dia a dia, quanto mais para travar um combate como este para o qual não têm “nem armas nem munições”. O Estado comparticipa os custos duma pensão rasca, mas exige hotel de cinco estrelas. E sinto muito as críticas que têm sido feitas a instituições que fizeram o seu melhor, com os (poucos) meios que o (pouco) dinheiro lhes permite. Seria muito mais justo que o Estado relevasse o trabalho excecional das Instituições, em vez de salientar nas conferências de imprensa a contabilidade de mortos em Lares, como se estes fossem local de “condenados à morte”. Uma luta inglória que, essa sim, é bem injusta …

E nem na hora da verdade o Estado assume a responsabilidade dos idosos ainda infetados, empurrando-os à pressa de volta aos Lares como se estes fossem aquilo que não são: hospitais … E não tenhamos ilusões: para um Estado pobre e demasiado endividado, quando tiver de deliberar sobre onde fazer o investimento, seguramente os velhos vão ser esquecidos, como o foram noutros países quando, por falta de ventiladores, foi preciso decidir quem vivia e quem morria. É, já não compensa “ligá-los à máquina”, porque são “Velhos” …   

Homens, estou solidário convosco …

Este tempo de “isolamento social” pode ser “delicado”, senão mesmo perigoso, ao alterar profundamente as horas de “convivência” entre marido e mulher, companheiro e companheira. Em situação normal só estão juntos à noite (a maior parte do tempo a dormir) e ao fim de semana. Mas agora, o “fim de semana” é permanente e convivem dia após dia. Sejamos realistas, não é fácil. Sobretudo para os homens. É que todos nós sabemos quem é lá em casa o “homem” da relação! Mas há que ter cuidado com o sorriso da mulher. Se ela for capaz de sorrir quando tudo está mal … é porque já pensou em quem deitar a culpa.

Pela minha condição e vivência, estou solidário com os homens (elas que me desculpem), permitindo-me fazer-lhes algumas sugestões.  Quando perguntamos à mulher “o que se passa?” e ela responde “não é nada” ou, num tom seco e ríspido diz “naaaaaada”, de cara amuada, (que em gíria popular se traduz “de trombas” ou “de quem está com o toco”), é precisamente o contrário. Ela sabe, e nós sabemos, que algo não lhe caiu bem, que alguma coisa a incomoda. O quê? Se julgarmos que vai ser fácil descobrir “que mosca lhe mordeu”, estamos muito enganados. Em regra, não é nada fácil perceber ou só será possível depois dela “fazer muitas fitas”. E vai ser precisa uma grande dose de paciência, num jogo de (falsa?) preocupação, porque é isso que ela quer. Que fiquemos preocupados. Porque gosta de sentir essa nossa preocupação (real ou falsa). Dá-lhe um enorme prazer “assistir” ao “sofrimento” do “escravo”, como se aí esteja a sua redenção.

Se ela perguntar “este vestido faz-me gorda?”, é preciso ter cuidado a responder, porque “podemos ser presos por ter cão e presos por não ter”. A pergunta tem rasteira, porque ela tem consciência que aquele vestido a faz gorda. Assim, como já conhece a verdade, mas não quer ouvi-la da nossa boca, precisa de arranjar um “bode expiatório” pelo facto de o ter comprado e sentir-se desapontada por lhe ficar justo demais, fazendo realçar aqueles pequenos pneus à volta da cintura. Atenção, não lhe podemos dizer que a faz gorda, porque é disso que ela está à espera, para nos cair em cima dizendo que “não gostas de mim” ou “achas mesmo que sou gorda?”. Mas se cairmos também na patetice de lhe esconder a verdade, que é evidente, a reação poderá ser ainda pior com um acalorado “estás a mentir” ou “não é isso que estás a pensar”. Entre uma resposta e outra, há que escolher terceira via, uma alternativa e optar por não responder, porque nestes casos ela não quer ouvir resposta nenhuma da nossa parte. É uma pergunta somente para se ouvir, um desabafo atirado ao “vento”, que somos nós. E o vento nunca lhe responde, porque é mais inteligente do que nós. Ainda podemos optar pela fuga, inventando uma desculpa bem conseguida e fundamentada, para não dar azo a sermos “apanhados a mentir”. O argumento de que “temos de ir urgentemente à casa de banho” ou outro bem consistente, não pode deixar dúvidas para que a saída seja airosa. Lembremo-nos sempre que “a esposa é a mulher que está ao nosso lado para nos ajudar a resolver os problemas … que não teríamos se não estivéssemos casados”.

Por norma nunca estão satisfeitas, nada lhes agrada. Senão, vejamos: foi inaugurada em Nova Iorque The Husband Store (Loja do Marido), uma loja moderna e incrível onde as mulheres podem ir escolher um marido. Na entrada, as clientes recebem instruções de como a loja funciona: podem visitá-la APENAS UMA VEZ! São seis andares e os atributos dos maridos à venda melhoram à medida que vão subindo os andares. Mas há uma regra: podem comprar o marido escolhido num andar ou optar por subir mais um. MAS NÃO PODEM DESCER, a não ser para sair da loja diretamente para a rua. 

Foi assim que a mulher entrou na loja para escolher um marido. No primeiro andar havia um cartaz na porta: “1º Andar – Aqui todos os homens têm bons empregos”. Não quis ficar por ali e subiu mais um andar …

No andar seguinte o cartaz dizia: “2º Andar – Aqui os homens têm bons empregos e gostam de crianças”. Mas ela não ficou satisfeita e subiu ao seguinte …

No terceiro andar, o aviso dizia: “3º Andar – Neste piso, os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças e são bonitões”. “Uau!”, disse ela, mas achou que no andar de cima seriam melhores.

No andar seguinte o cartaz anunciava: “4º Andar – Aqui os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças, são bonitos e gostam de ajudar nos trabalhos domésticos”. “Ai meu Deus”, disse a mulher. Mas não resistiu à tentação e continuou a subir …

No piso seguinte lia-se no letreiro: “5º Andar – Aqui os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças, são bonitões, gostam de ajudar nos trabalhos domésticos e ainda são extremamente românticos”. Mas, como ainda não estava satisfeita, subiu até ao sexto andar, onde encontrou o letreiro seguinte: “6º Andar – Você é a visitante número 31.456.012 deste andar. Cá não existem homens à venda. Este andar existe apenas para provar que as mulheres nunca estão satisfeitas e é impossível agradar-lhes!!!” Obrigado por visitar a Loja dos Maridos.

Anos mais tarde abriu uma loja do outro lado da rua, a Loja das Esposas, também com seis andares e idêntico regulamento para os compradores masculinos. O primeiro andar anunciava mulheres que adoram sexo. No segundo andar, propunham-se mulheres que, além de gostarem de sexo, gostam de cerveja. Sabe-se que os andares três, quatro, cinco e seis nunca foram visitados. Caso para dizer: “que tipo de gente é esta, que se contenta com tão pouco!!!”

E, cuidado com o telemóvel. Não sei se já conhece aquela nova loja de tecnologia, com um grande cartaz na porta a anunciar: “Conseguimos recuperar as mensagens apagadas do telemóvel do seu marido”. Se for lá espreitar, encontrará sempre quatro filas ao longo do passeio que até dão a volta ao quarteirão, todas de mulheres a querer entrar na loja …

Falta o Cristo na minha cruz de flores

A campainha da rua tocou. Era o senhor José que queria falar comigo. Abri-lhe a porta, mandei-o entrar e dirigi-me a ele de mão estendida. De imediato, ele deu dois passos atrás e olhou-me muito admirado, como se eu tivesse cometido o maior sacrilégio. Só então me lembrei que já não há lugar a cumprimentos, muito menos a beijos e abraços. Temos de ficar à distância uns dos outros, afastados, até daqueles de quem gostamos … 

Este é mesmo um tempo único, algo que nunca vi, nem imaginei ver. Se me falassem em algo do gênero, diria que só acontecia nos filmes de ficção científica. No entanto, há cinco anos atrás o multimilionário Bill Gates já fazia palestras a alertar que isto viria a acontecer mais dia menos dia e que os países se deveriam preparar para quando esse momento chegasse. Por alguma razão se tornou no homem mais rico do mundo … por muitas razões ninguém o quis ouvir … 

Ora, sendo este um tempo único, veem-se as coisas mais invulgares, originais, estranhas e absurdas, tal como os comportamentos de uns e outros: algum dia pensei ver mais de dois mil milhões de pessoas enclausuradas em casa, naquilo a que chamam “isolamento social”, caso único na história da humanidade? Como é possível um mundo parado, com milhões e milhões de fábricas e todo o tipo de recintos desportivos, recreativos e culturais encerrados? Algum dia imaginei ver missas e todo o tipo de celebrações religiosas sem fieis? De ver as lojas, ginásios e estabelecimentos de ensino diversos sem a atividade que os caracteriza, sem dia nem hora para reabrir? Não é no mínimo estranho ver uma fila em que as pessoas estão dois metros ou mais separadas umas das outras? Que se passa para que, das pequenas vilas às cidades de milhões e milhões de habitantes, as ruas, praças e avenidas estejam desertas, como se os seres humanos tivessem ido para nenhures? Se há gente a cumprir religiosamente os cuidados recomendados na prevenção contra o vírus, há também quem nem sequer acredite que ele existe (como houve e ainda há, quem não se convença que há cinquenta anos Neil Armstrong foi à Lua).

Se há quem respeite e cumpra o isolamento social para conter a pandemia, por acreditar ser a melhor forma de cuidar de si, além dos outros, também sabemos existir demasiada gente que não tem qualquer respeito pelo aconselhamento das autoridades, nem sequer das leis que os obrigam a ficar em casa. Viu-se nas longas filas das estradas e autoestradas deste país, como se fosse um tempo de férias. A par do açambarcamento de alguns, há a partilha de outros. Contrariando a especulação vergonhosa de oportunistas, vimos dádivas solidárias de gente bondosa. Ao lado dos profissionais de saúde entregues à nobre tarefa de salvar vidas cuidando dos outros até à exaustão, há quem não esteja disponível para colaborar nas coisas mais básicas, como se não fosse nada com eles. Enfim, um mundo parado, feito de heróis e do seu oposto, sem atividade, mas com esperança … 

Nunca se viu um dia de Páscoa assim, em que não pudemos celebrar juntos a Ressurreição de Cristo. Ficamos privados da visita pascal, de receber o Senhor em casa, pela mesma razão pela qual a ela estamos confinados. Para compensar a perda e afirmar a condição de crente,

durante a manhã apanhei algumas camélias, abri a porta da rua e fiz uma pequena cruz florida à entrada. Depois, fiquei ali a olhar aquela cruz colorida onde faltava um Cristo que lhe desse sentido e lembrei-me dum texto escrito por Graça Alves, que se ajusta perfeitamente à minha cruz de flores, simples, mas colorida. Como ela, fiquei a pensar que o Cristo que falta na minha cruz, está de Serviço. Mas é preferível deixar que as suas palavras, que reproduzo, emocionem os leitores como me emocionaram a mim:

 “Tenho a cruz à porta. Vazia. Ok. O Cristo da minha cruz foi cuidar de quem cuida, vestiu a bata e anda pelos hospitais do mundo inteiro a segurar a vida que anda suspensa nos beirais da História.

O Cristo da minha cruz vai dentro das ambulâncias que correm pelas cidades desertas, em lutas contra o tempo e contra a morte e foi percorrer o mundo inteiro, evitando os desesperos de quem não sabe como vai ser a vida a seguir.

O Cristo da minha cruz foi suster o ânimo dos que criam as vacinas, os medicamentos, um meio seguro de nos salvar a vida. Foi ajudar quem trabalha na terra, quem foi pescar, quem faz o pão e mo entrega em casa.

O Cristo da minha cruz foi abraçar os braços vazios de abraços, foi dar a mão a quem morre sozinho, foi limpar as lágrimas dos que não podem dizer adeus a quem amam, dos que andam nas ruas vazias a recolher o lixo, a desinfetar as praças, a limpar o medo e a acompanhar as solidões que espreitam as esquinas.

A minha cruz está vazia. E eu sei (sabemos todos) que esta Semana Santa será Maior do que tantas Semanas Santas das nossas vidas: Cristo lavará os pés a todos os que, exaustos, não desistem de lutar pela vida e beijá-los-á, certamente, porque são esses os pés que, nos nossos dias, anunciam a esperança e fará com eles a Ceia de Quinta-Feira; estará à beira dos que sofrem e morrem, ajudando-os a percorrer o caminho que une o chão ao infinito e consolando os que, à beira das cruzes que se erguem no mundo inteiro, têm o coração em frangalhos.

O Cristo da minha cruz (vazia, minha cruz) está vivo. É o rosto cansado dos que não veem os filhos há muitos dias, porque têm de os proteger. Está nas mãos dos que enfrentam o medo (todos têm medo) para ajudar quem precisa. Enxuga as lágrimas dos que estão sós. Está nos que têm de tomar decisões (difíceis, as decisões). Está nos que nos mantêm informados e nos dão esperança no meio do povo. E não o deixa cair na tentação de desanimar, apesar de todos os cansaços, apesar de tudo.

Tenho a cruz à porta. Vazia. O Cristo mudou-se para dentro de cada um”.

“A vida é hoje. Não deixes para depois”

Sem sequer o imaginar, a jornalista da RTP Sandra Felgueiras já me tramou com uma parte do seu trabalho no último programa “Sexta às 9”. E porquê? Porque andei eu a escrever uma crónica durante esta semana a propósito do uso ou não de máscaras de proteção por toda a gente quando sai à rua a exemplo do que fazem os orientais e ela, ao tratar do mesmo assunto, com outros dados que não aqueles a que eu tenho acesso, retirou-me o “protagonismo que tanta falta me faz para a minha vaidade pessoal e o meu Ego”. Paciência, tenho de arranjar outra conversa para esta crónica semanal, senão a direção do TVS corre comigo sem “direito a indemnização. Agora, o artigo já pecaria por tardio, correndo mesmo o risco de ser acusado de copiar algumas informações que ali deu. 

Não sendo médico nem sequer especialista em questões de saúde, ao ler e ouvir diversas opiniões, estatísticas e dados cronológicos da evolução do novo vírus no mundo e usando o senso comum, nesse esboço defendia o uso de máscara por todos nós sempre que vamos à rua porque, boa ou má, certificada ou de fabrico caseiro, tem de reduzir drasticamente o contágio. Se eu usar e o outro com quem falo usar também, há uma dupla proteção por mais fraco que seja o tecido. Já o tinha lido, mas a jornalista desenvolveu bem a comparação entre a República Checa e Portugal, países com a mesma população. Lá, o primeiro infetado surgiu a um de Março, enquanto aqui apareceu no dia seguinte. E se nas duas primeiras semanas a evolução da doença foi em tudo semelhante nos dois países, a partir do momento em que lá foi decretado o uso obrigatório de máscara, o aumento de mortos e infetados disparou em Portugal enquanto por lá foi subindo lentamente, ao ponto de hoje, com pouco mais de uma semana, a perda de vidas na República Checa ser quatro vezes menos do que em Portugal com esta doença. 

Mas estes dados já vinham da China e outros países orientais onde, até por razões culturais, o uso de máscara é normal nestas e outras situações semelhantes, pois as perdas de vidas por milhão de habitantes são muito inferiores ao que se passa no ocidente, onde teimamos em andar na rua ou às compras sem proteção, como se fôssemos imunes ao vírus. Verdade é que até Trump e Bolsonaro já se converteram à realidade, embora à custa de muitas mortes talvez desnecessárias. Por cá, apesar da mudança do discurso oficial, ainda andamos “a ver no que param as modas” … 

Já que me “mataram” o tema que tinha para esta edição, substituo-o pela morte do “depois” provocada por uma razão qualquer, agora até pelo Covid-19. Todos aqueles que andaram a atirar para “depois” uma viagem, encontro de colegas de curso, reunião de amigos, ida à Festa do Fumeiro, das Fogaceiras, dos Tabuleiros ou qualquer festa emblemática que há muito tempo gostariam de fazer mais longe ou mais perto, mas se foi deixando para o “depois”, agora não sabem quando, como, nem sequer se o vão poder fazer. Isso e muitas outras coisas que teimamos em “postergar”, isto é, deixar para depois. Sobre tal, nada melhor (e mais fácil para mim) do que transcrever um texto de autor anónimo que acho encantador.   

“O tempo não pode ser segurado: a vida é uma tarefa a ser feita e que levamos para casa

Quando vemos, já são 6 horas da tarde

Quando vemos, já é sexta-feira

Quando vemos, já terminou o mês

Quando vemos, já terminou um ano

Quando vemos, já passaram 50 ou 60 anos

Quando vemos, nos damos conta de ter perdido um amigo

Quando vemos, o amor da nossa vida parte e nos damos conta que é  tarde para voltar atrás …

Não pares de fazer alguma coisa que te dá prazer por falta de tempo

Não pares de ter alguém a teu lado ou de ter prazer na solidão

Porque os teus filhos subitamente não serão mais teus e deverás 

 fazer alguma coisa com o tempo que sobrar

Tenta eliminar o “depois” …

Depois te ligo …

Depois eu faço …

Depois eu falo …

Depois eu mudo …

Penso nisso depois …

Deixamos tudo para depois, como se o depois fosse melhor, por que não entendes que: 

Depois, o café esfria …

Depois, a prioridade muda …

Depois, o encanto se perde …

Depois, o cedo se transforma em tarde …

Depois, a melancolia passa …

Depois, as coisas mudam …

Depois, os filhos crescem …

Depois, a gente envelhece …

Depois, as promessas são esquecidas …

Depois, o dia vira noite …

Depois, a vida acaba …

Não deixes nada para depois, porque na espera do depois se podem perder os melhores momentos, as melhores experiências, os melhores amigos, os melhores amores …

Lembra-te que depois pode ser tarde

O dia é hoje, não estamos mais na idade em que é permitido

postergar.

Talvez tenhas tempo para ler, compartilhar ou talvez deixes para depois …”

Nada na vida é dado por adquirido…

Devo ter medo. Devemos ter muito medo, porque o mundo à nossa volta está inseguro, perigoso, eventualmente letal. Nalguns países, descontrolado, a caminho do caos. Se folhearmos jornais dos últimos dias, em Itália e Espanha a secção de óbitos tem mais de uma dúzia de páginas. E tudo por causa do novo “coronavírus” que, no dizer de quem sabe, nem sequer é um organismo vivo, mas “uma molécula de proteína coberta por uma camada protetora de gordura”. Invisível a olho nu? Certamente, mas só é “invisível” para quem não quer vê-lo, tal é a velocidade de propagação e a dimensão das consequências. Um vírus, um simples vírus anónimo, desconhecido e microscópico. Já nos tirou muito, mas pode tirar-nos muito mais. Para começar, já nos tirou a segurança, a certeza de um amanhã tranquilo e saudável. Tirou-nos salários, rendimentos, trabalho, além da possibilidade de exprimirmos os afetos através dum abraço, dum beijo, duma carícia ou de um simples cumprimento. Colocou-nos à distância dos outros, alegadamente para não o espalharmos por aí, mas sem certezas pois não o vemos e nem sabemos se o temos ou o tem aquele com quem falamos. É um jogo de “cabra-cega”, jogado às escuras e de olhos bem vendados. Devemos ter medo? Claro, sem entrar em pânico, tomando as cautelas que todas as entidades sanitárias aconselham. Com rigor, o máximo rigor. Disso depende a sua evolução e a segurança, nossa e dos outros, porque todos estamos no mesmo barco.

Pode-se dizer que esta pandemia é democrática, já que nos nivelou a todos, porque todos estamos expostos ao contágio. Ricos ou pobres, famosos ou anónimos, altos ou baixos, homens ou mulheres, pretos ou brancos, justos ou pecadores, intelectuais ou ignorantes. Ele não exclui ninguém, independentemente da classe, gênero, religião ou raça. Mas não é tão linear quanto isso, pois certamente estará mais protegido aquele que se meteu no seu avião privado e voou para uma ilha isolada onde há poucas possibilidades de contágio, do que aquele morador duma barraca nas favelas de Rio de Janeiro ou da África do Sul. Veja-se o caso do rei da Tailândia: só está em “isolamento” num hotel de luxo na Alemanha, com 20 concubinas …

Também se pode dizer que o novo coronavírus fez de nós exilados na nossa própria casa, obrigando-nos a regressar ao convívio da família. E devemos tirar partido disso, dando aos nossos o tempo que não concedíamos antes da sua chegada. Será que vamos aproveitar ou cansamo-nos depressa uns dos outros? Será que isto nos vai servir de lição para o futuro?

Esta terrível pandemia fez-nos descobrir o melhor e o pior que há no ser humano. Ao sermos confrontados com ela, tanto encontramos a solidariedade de quem partilha o que tem com os outros como damos de caras com o egoísmo de quem só pensa em si, açambarcando e ignorando as necessidades de quem lhe está próximo. E tanto vemos atitudes de generosidade e dedicação aos mais frágeis, como o fazem as senhoras que cuidam dos idosos nos dois Lares da Misericórdia de Lousada, em períodos contínuos de sete dias, noite e dia dentro das instalações com os idosos, sacrificando as famílias e as suas vidas, como vemos os “bem instalados” que não querem, nem se sujeitam a estender a mão a quem precisa, especialmente nos dias que correm, ainda que seja somente para o ajudar a levantar-se.  E tanto vemos os profissionais de saúde numa luta constante e aturada até à exaustão, alvos privilegiados do mal que combatem por nem sempre estarem devidamente protegidos, como topamos negligentes a “fazer turismo em dia de sol”, sem respeitar instruções das autoridades no combate à pandemia. Não devo deixar de citar o contraste entre fornecedores da Instituição a que estou ligado, em que uns ofereceram o que lhes foi possível dos produtos de proteção, enquanto outros apareceram … com propostas vergonhosas de tão especulativas e oportunistas. Uns abutres. Da solidariedade ao egoísmo, da dedicação à indiferença, da generosidade à maldade, do trabalho ao absentismo, são múltiplos os exemplos que nos sensibilizam e fazem acreditar na humanidade, tal como existem os que chocam e nos tornam descrentes. 

Uma das grandes lições que temos obrigação de tirar desta crise que nos afeta a todos e de consequências sanitárias e económicas ainda não mensuráveis, é que “nesta vida, nunca podemos dar nada como adquirido”. Se pensarmos que há pouco mais de um mês fazíamos a vida normal, trabalhando e produzindo riqueza, planeando com a família sobre qual o destino para as próximas férias, eventualmente numa viagem há muito sonhada, programando a conclusão de um negócio, a abertura de mais uma loja, andando por aí livremente sem restrições e sem limitações, podendo “ir à bola”, ao shopping ou ao cinema, jantar com os amigos ou viajar livremente em qualquer meio de transporte, com a certeza de que o amanhã seria risonho, que sentimento nos domina volvidos que são pouco mais de trinta dias e o que poderemos esperar dum amanhã que é uma grande incógnita e em que a maior parte do que estava dado como certo já não o é? 

De repente, deixamos de poder falar de liberdade quando estamos confinados a quatro paredes por tempo indefinido, condicionados a saídas esporádicas e breves; deixamos de poder falar de segurança já que até temos medo da proximidade dos outros, medo de perder o trabalho, medo da doença; deixamos de poder projetar o futuro que estará condicionado, quando não hipotecado por muitas incógnitas; deixamos de poder fazer a vida normal, porque tudo à nossa volta perdeu a normalidade. Refugiados em casa como meros prisioneiros, temos medo do vírus como se de um fantasma se trate, sem saber por onde anda, quando chega, se nos vai assaltar e o que nos vai roubar: é a carteira? O emprego? A saúde? Ou a vida? De repente, perdemos as certezas e só ganhamos dúvidas e medos. Enfim, “não podemos dar nada por adquirido”, pois tudo o que existe na nossa vida pode deixar de existir de um momento para o outro. O sinal que tudo é transitório e nada é nosso … embora haja sempre um amanhã.