All posts by José Carlos Bessa Machado

A sabedoria que um sofá nos dá…

Nos olhos, no pensamento e nas críticas dos outros, nós somos bons ou maus, simpáticos ou arrogantes, espertos ou inocentes, tímidos ou “destravados”, competentes ou “abaixo de zero”. Somos o que somos, tão iguais e tão diferentes, numa diversidade de personalidades tão grande quanto variada. Mas há um lugar especial que tem o poder e a capacidade de nos tornar “especiais”, porque ali nos transformamos e assumimos novos poderes, novos conhecimentos, novas identidades que ninguém imaginava que tivéssemos. Nem nós mesmos. Ali somos outro, raramente nós. Somos juízes, treinadores de futebol, atletas de alta competição, comentadores desportivos ou analistas de política nacional e internacional, ativistas e contestatários, revolucionários,

moralistas, homens de ciência sem ciência nenhuma. É um lugar mágico que nos transforma como nenhum outro e, por isso, no dia a dia, fazemos questão de o ocupar, por pouco tempo que seja. Quem não experimentou essa sensação ao ficar “sentado no sofá diante da televisão”? Quem nunca sofreu essa metamorfose e se viu feito outro “figurante”, quando não “figurão”?

“Sentados no sofá” a ver um jogo de futebol da equipa do coração, não paramos de gritar: “Ladrão, não vês que é penalti?” ou “aselha, essa até eu marcava”. Lá está, tão depressa somos um árbitro melhor do que “aquela viúva negra” que corre no campo de um lado para o outro, como de repente ganhamos qualidades de avançado com veia goleadora de que tanto está a precisar o nosso clube. Se a equipa está a perder, o treinador “é um nabo, devia estar a jogar com dois defesas e reforçar o ataque” ou “tem de jogar com dois extremos”, já para não falar das vezes em que nomeamos os jogadores que devem entrar ou sair, criticar a tática ou o estilo de jogo. Se a equipa está a ganhar, “aquele gajo já devia ter metido um médio defensivo”.

Comodamente “sentados no sofá” a ver um jogo de futebol, se possível com uma cerveja na mão para nos dar inspiração e transmitir confiança, somos os melhores treinadores, jogadores, árbitros, dirigentes, adeptos, comentadores e até arruaceiros ou gorilas. Comemoramos aos saltos e com gritos de euforia ou insultamos tudo e todos, desde o guarda-redes ao roupeiro. Espumamos de raiva com cara de “esgroviados” ou temos um sorriso aberto a toda a largura da cara, como a pessoa mais feliz deste mundo. Roemos as unhas como quem quer poupar na manicure ou falamos como papagaios sobre as virtudes dos nossos jogadores, como se eles fossem “nossos” e “virtuosos”.

“Sentados no sofá” ouvimos as notícias do telejornal em que se dá conta das buscas da polícia judiciária à casa e escritório do político A ou do dirigente desportivo B, como suspeitos de corrupção, desvio de fundos ou tráfico de influências, presos e levados a tribunal onde lhe é aplicada a prisão preventiva ou outra medida menos gravosa.

E nós, sem estarmos documentados, conhecermos o que se passa ou termos acedido ao processo, tomamos posição imediata: “Eu bem dizia que ele era um grande ladrão” ou “esse artista nunca me enganou”. Ou ainda, se o “artista” for do nosso partido político, da cor do clube do coração ou doutra associação à qual estejamos ligados, assumimos uma posição contrária, de defesa clara e inequívoca “daquele santo” que merece uma estátua: “Vejam lá o que a oposição anda a inventar” ou “coitado do homem, o que ele tem de aturar destes invejosos”. E, com o “rabo” comodamente enfiado no sofá, julgamos, condenamos e ilibamos conforme o nosso próprio interesse no assunto, a nossa ligação ao “artista” ou mera simpatia.Ás vezes dou comigo a tomar partido, a dizer “é impossível” ou “já se estava à espera”, porque o sofá “dá-nos sabedoria” e “independência” (muitíssimo duvidosa, por sinal) para julgar os outros, mas insuficiente para nos olharmos a nós próprios. Isso já não interessa…

Pensando bem, com a televisão sempre ligada nem precisamos de ir trabalhar. Já nos basta o trabalho difícil e cansativo de “corrigir” os “imbecis” que temos de ver e aturar no pequeno ecrã. “Vejam lá se aquilo são maneiras de aparecer na televisão…” Com este, vamos ter de ser “consultores de moda” ou de lhe ensinar o “manual das boas maneiras” e as “boas regras da etiqueta”. Só os concursos televisivos já nos ocupam o suficiente: “Essa é de caras. O campeão europeu de futebol é Portugal. Toda a gente sabe” ou “como é que um gajo destes se mete num concurso se não dá uma para a caixa”? “Este gajo é um nabo” …

O sofá é um sítio “maravilhoso” para se ver telenovelas. Se possível, “entalado” entre mulheres, para se entrar no espírito da “coisa”. E ali, no sofá, tão depressa nos revoltamos contra o mau da fita que anda a enganar a miúda e a roubar a patroa velhinha, como choramos “feitos Madalenas” por aquela cara bonita feita “gata borralheira” não ter que comer nem sequer um pouco de leite para dar ao bebé, entrando no espírito da “equipa feminina” que nos envolve. Num filme de ação, tanto podemos optar por estar ao lado do protagonista como assumir as dores por aquele malandro que tem jeito para a ladroagem e rouba só ricalhaços bem “encanados”, convencidos e presunçosos, que até parece um cavalheiro encantador, merecedor de acabar por ficar com a moça mais bonita do elenco.

Sentados no sofá com “o nariz enfiado na televisão” e concentrados no “trabalho”, sofremos grandes transformações, passando de fracos a fortes, de estúpidos a inteligentes, de burros a sábios enquanto o “diabo esfrega um olho”. E somos capazes de alcançar os maiores “sucessos” sem termos de provar nada, sem fazer o mínimo esforço. Ali, o êxito é garantido. Pensando bem, se calhar, o melhor lugar para se “morar” …

Ena! O carro serve para tanta coisa!!!

Dizem os entendidos que o automóvel é o resultado de um processo evolutivo e não de uma invenção. Começou por ser um carro a vapor que foi evoluindo até aparecer a “lei da bandeira vermelha”, que fez parar esse desenvolvimento ao impor que “qualquer carro levasse à frente um homem a pé, acenando com uma bandeira vermelha e a tocar corneta”. Será que os ingleses eram assim tão inteligentes? Os carros a vapor deram lugar aos com motores que queimavam uma mistura de ar e gás de iluminação, só mais tarde substituída por álcool combustível, gasolina ou gás. E tudo isso, para transportar pessoas e bens, mais depressa, com mais comodidade, se bem que já Fernando Pessoa dizia que “nos movemos muito rapidamente de um ponto onde nada se faz, para outro onde não há nada para fazer…” Mas cedo se percebeu que os automóveis teriam muito mais funções para além de levar pessoas de um lado para o outro, como se pôde comprovar pouco tempo depois da chegada da primeira viatura a Portugal em 1895. Logo na viagem inicial de Lisboa para Santiago do Cacem, o automóvel fez uma vítima: um burro. Nada se sabe nesta história qual dos “burros” foi o culpado, se aquele que morreu ou se “o outro” que conduzia aquele veículo estranho… Reza a história que só quatro anos mais tarde foi “abatido” lá para os Estados Unidos o primeiro “pedestre”, inaugurando uma campanha de “caça ao peão” que veio sempre aumentando até aos dias de hoje. Já no Brasil, foi um conceituado poeta o primeiro condutor a acertar numa árvore, que ele nunca soube explicar, nem em prosa nem em versos, como é que ela foi parar ao meio da estrada …

A partir destas “habilidades”, os carros de quatro rodas passaram a substituir as guerras na “arte de matar gente”, mesmo em tempo de paz. Só nas estradas chinesas em 2010 “limparam o sebo” a 275.000 cidadãos, fora os feridos ligeiros e graves que foram de alguns milhões. Ainda nesse ano, nos dez países onde o automóvel foi mais mortal, a chacina andou muito perto das 800.000 pessoas. Só em dez países, além dos milhões de feridos … Por cá, no ano passado a matança passou de quinhentos mortos. Olhando pelo lado positivo, ainda sobrou a maioria do total de dez milhões de portugueses que somos. Mas, fica o aviso para nos cuidarmos. Senão, faremos parte das estatísticas nos próximos anos. No entanto, tenho de reconhecer que a cama (apesar de silenciosa) é mais “mortífera” do que o automóvel (apesar de barulhento). E é nela onde passamos mais tempo e onde morre mais gente …

Mas o automóvel serve também para coisas mais agradáveis. Que o digam os americanos, pois foi no banco de trás de um carro qualquer que a maioria deles fez a iniciação à vida sexual … Não há estatísticas conhecidas entre nós, mas todos sabemos serem mais usados do que os hotéis para tal “função”. São mais baratos, apesar do mau jeito que a alavanca de velocidades dá quando a pressa não deixa saltar para o banco de trás… E, nas “acrobacias” às escuras, tem de se evitar que a alavanca entre onde não é chamada. Até de dia “me esbarro” com os carritos escondidos à entrada dum terreno que tenho nas franjas da vila, o que não é mal pensado. Há melhor visibilidade para se desviar da tal alavanca e acertar no alvo. Para se perceber quanto o carrito é importante para a prática desta “atividade desportiva”, basta ver a quantidade de preservativos que cobrem os locais escondidos onde se acoitam os carros, feitos “despojos de guerra”. E é um desperdício, pois podiam ser aproveitados e ajudar à recuperação económica do país. Colocavam-se “preservatões” nesses locais para recolha das tão célebres “camisinhas” usadas. Eram enviadas às fábricas e, depois de esterilizadas, seriam recicladas como pastilha elástica para venda ao estrangeiro, num contributo importante para a redução do deficit pela via do aumento das exportações pedido pelo primeiro ministro António Costa …

Os automóveis funcionam ainda como sala para reuniões de família onde se conversa, discute, berra, grita, amua, come (quando o carro não é novo), canta, abraça, beija e se ama. Para fora do carro, acena-se aos amigos, insultam-se os que atrapalham o trânsito (“anda lá, morcão” ou “compraste a carta, imbecil”), buzina-se para reclamar, assobia-se quando a miúda é jeitosa ou atira-se-lhe um piropo agora feito assédio sexual. E, quando sala de refeições, atira-se o lixo e os restos janela fora, para esse contentor enorme que é a “berma da estrada”. Em certas ocasiões, especialmente nas estradas de muitas curvas, funciona bem como “sala de vómito” para enjoados, contra a vontade dum pai furioso ao volante. E é melhor que um soporífero para adormecer e dormir bem … ao tombar para o colo do vizinho.

Para satisfazer os seus sonhos e desejos o homem criou objetos e instrumentos como o automóvel, cujo valor e função vão muito para além da finalidade e uso. Como o carro, tornaram-se um símbolo de sucesso, nível social e felicidade. E foi por isso que a partir de certa altura as marcas passaram a criar modelos diferentes em tamanho, qualidade e preço, para servir e fomentar a ânsia de estratificação social, a mania de que se é melhor do que o outro. Nós assumimos o carro como o nosso espaço privativo, símbolo de liberdade e poder, onde somos reis e senhores. E, atrás do volante colhemos informação permanente sobre o seu comportamento e desempenho, bem como da reação dos outros à nossa passagem, nos olhares, nos cochichos. Porque o automóvel, muito para além de transportar pessoas, é um ícone da sociedade atual e tem várias representações atribuídas pelo nosso comportamento e estilo de vida. Ao tornar-se “diferenciador social”, as fábricas aproveitaram mudando regularmente os modelos e levando os clientes a trocar e consumir para estar na moda. E, como extensão do próprio corpo que é e da nossa cultura onde importa mais “parecer” do que “ser”, quanto mais caro é o automóvel maior é o “bom gosto”, melhor o “estatuto social” e mais o ego transborda de “felicidade” …

A invasão do ruído e morte do sono…

“Cócórócócó”!!! Acordo estremunhado ao cantar do galo. Mal consigo abrir os olhos. “Cócórócócó”, insiste ele, como despertador que não foi desligado e teima em cumprir a sua missão. Agarro no telemóvel, primo a tecla e o mostrador ilumina-se: “4H00”. É de madrugada e o galo tem um problema, pois está a “despertar” fora de horas, se bem que quem fica com o problema sou eu. Precisamente quando estava na fase daquele sono profundo que nos faz descansar, é que vem este bicho estúpido fazer barulho. E logo hoje, que deixei a janela aberta e a persiana meia corrida para entrar o ar fresco da noite e deixar o quarto mais suportável!!! Afinal, o que entrou foi o canto do galo, bem mais alto … É a fatura que pagamos por estarmos no limbo, no “nim”: nem no campo nem cidade. No campo, a natureza segue o seu curso e a noite só é rasgada pelo luar. Não há luz artificial para enganar a natureza e o galo e ele canta só ao romper da aurora. Na cidade há luz artificial toda a noite, mas não há galos nem outros bichos para nos interromper o sono. E aqui, que “nem somos carne nem peixe”, temos luz pública a iluminar caminhos, mas também temos galos e outros bichos que alteram as rotinas com os “enganos” da civilização …

Mas não é só o canto do galo em horas inapropriadas que nos entra casa dentro, quando só devia entrar o sono.

Ainda há dias, às três da manhã, pelas frinchas entreabertas dos estores e sem pedir licença, infiltrou-se a voz rouca dum cantor africano para me acordar ao som da “quizomba”. Presumo que estivesse nalguma romaria da região onde eu não quis ir e achou por bem incluir-me no concerto, apesar de eu não estar interessado. Esta coisa de tocarem para quem está junto ao palco e para quem está em casa a quilómetros de distância merece uma pergunta: “E temos mesmo de gramar com aquilo que não pedimos”? Ainda se fossem “Cantigas ao Desafio” por cantadores populares ou mesmo o Quim Barreiros, apesar de me interromper o sono teria motivos para sorrir com a brejeirice das letras … para compensar a insónia. Agora “quizomba”!!! Como dizia o Flávio, só se for para dançar com “pele roçando a pele”, no mais importante movimento feminino que se conhece: “O movimento de quadris”. Não sei de onde vinha a música nem ninguém me perguntou se podiam incomodar o meu descanso num dia de semana. Também não estava à espera pois com certeza tinham licença, esse “papelinho mágico” que legaliza a possibilidade de poderem “chatear” os outros, mesmo que estejam a descansar, a troco duns euritos que não vão parar ao bolso dos lesados, mas ao “saco” que não dorme nem tem insónias.

E tudo isto para dizer que o sono, esse bálsamo reparador do nosso corpo, devia ser mais protegido, protegendo-se o silêncio nas horas de repouso natural. Os países mais evoluídos fazem-no, preservando a saúde física e mental de quem trabalha, porque sabem que só assim estão a defender a produtividade. Quem não dorme e não descansa, não pode produzir aquilo de que é capaz. Há três décadas atrás estive na Suíça integrado num grupo e dormimos em casa dum conterrâneo que fez questão disso. A sua maior preocupação connosco foi a de não fazermos qualquer barulho que pudesse ser ouvido no apartamento de baixo, pois seria motivo para lhe aparecer a polícia à porta e ter problemas. Ora, para quem ia de um país onde cada um achava que tinha o direito de fazer o “chinfrim” que quisesse sem “ter de dar cavaco a ninguém”, aquilo era ridículo. Mas, acabamos por cumprir as regras, como acabamos por fazer outras coisas muito bem quando estamos lá fora …

Trinta anos depois, apesar de termos um Ministério do Ambiente e montes de leis muito avançadas a que ninguém liga, a verdade é que estamos pouco ou nada melhor do que nessa altura. Na época de festas, que dura pelo menos seis meses, somos “assaltados” em casa pelo foguetório a horas impróprias, pelos berros bem amplificados e mais ou menos ritmados de todo o tipo de artistas, pela batida forte da música “tecno” dos bares de rua até ao nascer do sol e todo o tipo de ruídos festivos em dias que já extravasaram há muito os do fim de semana. E é o roncar de camiões a trabalhar de madrugada, dizem que para aquecer, mais parecendo que os motores estão dentro das nossas cabeças; são as conversas de clientes saídos de restaurantes, tascos e cafés após o fecho, parados na rua debaixo da varanda, que até parecem estar a falar dentro do quarto; são todos aqueles que, por razões diversas, se levantam de madrugada para viajar e falam alto, chamam, insultam, gritam e fazem acordar a vizinhança toda; e são os geradores, compressores e todo o tipo de aparelhos, feitos a pensar resolver um problema funcional sem pensar que criam um problema auditivo; são os “corredores de rua” montados em carro ou moto com os decibéis no máximo, como se fosse sinal de serem mais velozes.

Por norma, durmo com a janela e estores fechados, além dos cortinados, tentando não ser “violado” nem violentado pelo ruído que vem de fora. À Luísa, já lhe basta o suplício de aguentar o ruído dos meus “motores” feito “ressonar”. E a mim, ouvir pela manhã as rolas e os melros ao desafio, é “música” bem mais agradável para os meus ouvidos …    
O Agostinho espera realizar o sonho de poder gozar das delícias de uma reforma antecipada em casa térrea isolada na encosta de um rio Douro qualquer, longe do ruído artificial da civilização, poder “deitar-se com as galinhas” e acordar com o chilrear matinal das aves. Sonha viver em harmonia e ao ritmo da natureza, afastado da civilização que nos trouxe noites mal dormidas, insónias, stress, medicamentos às carradas para combater esse flagelo de não dormir e, pior, não descansar. Já não nos “deitamos com as galinhas. Estamos mais perto da hora dos morcegos e tem fatura que estamos a pagar com juros. Respeitamos pouco o silêncio noturno e, consequentemente, todo o direito ao descanso dos outros.

Pois eu, como não tenho a sorte do Agostinho, vou continuar a deitar-me depois da Luísa adormecer, o que me afasta do “deitar-me com as galinhas”. Assim, dorme tranquila e fica livre de ouvir o meu “ronco”. Vou continuar a fechar muito bem as janelas e persianas pois, apesar de insistirem, não quero ouvir mais “concertos” na cama sem querer e sem sequer ver os “atributos da artista”. E vou rezar para que o galo mais próximo não acorde com os lampiões a acender e cante só ao nascer do sol.

Se conseguir, vou sentir-me mais perto da natureza, dormirei melhor e deixarei de ser um “zombie” pela manhã, feito “barata tonta”.

Um pinguim no meio de papagaios…

Em Portugal, associamos o luto à cor preta. Foram os nossos reis que começaram a adotar essa cor para fazer o luto, embora só no reinado de D. Manuel I se tenha generalizado no país. E, a partir daí, quando alguém se vestia de preto podia querer dizer que estava de luto, tal como na maior parte das culturas ocidentais, onde o vestir de negro podia revelar esses sentimentos de perda e respeito pela morte de alguém. Mas, noutras culturas, optaram por cores diferentes para manifestar esse sentimento. Assim, na África do Sul usam o vermelho para chorar a morte de alguém, mas na Tailândia é o roxo, na Índia o castanho ou branco, no Irão o azul e no Egipto o amarelo. Um amigo questionava-me, muito admirado: “O amarelo”? Porque não? A cor símbolo do luto é uma opção cultural, muito variada, mas as mais comuns são o branco nos países orientais e o preto nos países cristãos. Embora o luto não seja uma questão de cor da roupa a usar, de qualquer aspeto visual, de assumir um ar triste ou alegre, de manifestar o sentimento de perda do ente querido durante mais ou menos tempo. O luto é um estado de espírito, algo muito íntimo que depende e varia de pessoa para pessoa. É algo que se faz sozinho, de acordo com a forma de aceitação ou revolta pela perda, cabendo aos mais próximos dar espaço, tempo, compreensão e respeitar. Não é pelo facto de alguém se vestir de azul que sofre menos pela morte de uma pessoa do que outro que vive “fardado” de preto. Nada disso. Uma coisa é senti-lo e não o exibir e outra coisa é exibi-lo e não o sentir. Já nem falo do luto violento da Idade Média, em que os homens arrancavam cabelos e barbas e as mulheres arranhavam a cara …

A memória mais distante que possuo sobre manifestações de luto já tem várias décadas. Tinha quatro anos e ia a pé para a Carreira da Areia quando ouvi gritos estridentes e choro convulsivo. À entrada de uma casa térrea estavam várias mulheres vestidas de preto, de alto a baixo, com ar desesperado e aos gritos. A imagem foi tão forte que, a esta distância temporal, ainda hoje “vejo” aquela cena com gente a entrar e sair num movimento desusado, mas “pintado” de negro, a cor do nosso luto. Ainda me lembro das “carpideiras”, as mulheres que eram contratadas para chorar de forma “desalmada”, em prantos e lamentos continuados. Toda a família tinha de vestir-se de preto cerrado durante um certo tempo, variando esse tempo em função do grau de parentesco com o(a) falecido(a). Quanto ao viúvo(a), tinha o destino marcado: andar de preto no resto da sua vida.

No funeral vestia-se de forma formal – homem com fato e gravata e mulher de vestido – por norma em preto ou, quando muito, de cor escura. Não havia exceções, nem mesmo nas crianças. Até os velórios, que “atravessavam” a noite na casa da família com broa e aguardente a acompanhar, impunham vestes conservadoras. Este ritual na cor da noite tinha um aspeto positivo: toda a gente sabia como se devia vestir nessas ocasiões …

Lembrei-me disto porque nos últimos tempos, sempre que vou a um funeral fico na dúvida sobre o que devo usar. E há dias, em conversa com um amigo, conservador nos costumes e tradições, dizia-me que, nalguns deles dá consigo a olhar à volta, sentindo-se uma espécie de “ave rara” por estar em contraciclo com a maioria dos participantes. E que, como vai de fato ou calça e casaco clássicos, camisa e gravata, os outros “convivas” devem perguntar: “Este vem armado em quê”? Às vezes ainda aparecem outros “encasacados”, mas em regra, faz parte da minoria. Na realidade, hoje as roupas são muito variadas no funeral, indo do clássico ao informal de calça e camisa, quando não com roupa desportiva de qualquer cor. Até se chega a ver gente com calças de ganga “convenientemente rasgadas” conforme os ditames da moda, além de um ou outro vestido com decote ousado o que, no meu ponto de vista, até está correto, pois pode ajudar a “levantar o morto”. Penso que cada um é livre de se vestir da forma que entende e que não é isso que define o sentimento de perda, o respeito, o pesar e o luto por quem partiu. Já lá vai o tempo da “viúva negra”. Deu lugar à “viúva alegre”. Mais do que na cor da roupa ou no estilo, no funeral, a cerimónia onde nos despedimos de um familiar ou amigo com um “até breve”, o que importa é respeitar o momento e, especialmente, quem “partiu”. Esse amigo dizia-me que se está a acabar com as tradições e a quebrar regras sociais. E esta é uma delas.

E daí não ficar surpreendido que, um dia destes, a família do morto contrate barracas de cerveja como existem nas Festas e tenha “bar aberto” acompanhado de “música tecno” com batida forte, onde se possam “afogar” mágoas, “anestesiar” a dor da perda e arranjar “speed” para animar o momento. Pensando bem, seria uma boa solução para atrair “clientela” jovem que, sempre que pode, evita estas cerimónias.  Só o morto não poderá “enfrascar-se”, se bem que não viria nenhum mal ao mundo, pois não tem de “soprar ao balão” na última viagem e até seria excelente para a sua “saúde”, já que o álcool é excecional a conservar corpos … Tanto em África como num país europeu, já vi algo de semelhante, onde a morte é celebrada com festa, alegria e álcool. Muito álcool. Se pensarmos que quando morrermos deixamos este mundo de sofrimento e vamos para o paraíso celeste, porque havemos de chorar em vez de celebrar? Porque temos de ficar tristes quando devíamos alegrar-nos? Ou será puro egoísmo?

Já são poucos e, em regra, mais velhos, aqueles que veem no funeral um momento solene que é preciso respeitar. E que, na solenidade desse momento único, se impõe roupa escura e conservadora, tal como num casamento ou noutra cerimónia similar. E argumenta-se que, se as pessoas se vestem para um casamento com roupa formal, clássica, apesar de alegre, celebrando uma “união passageira” para “viagem” de períodos cada vez mais curtos, porque não devem vestir-se formalmente na “cerimónia de despedida” de alguém que também vai fazer uma “viagem”, a “última”, mas que não tem retorno? Será por no casamento, que mais não é que uma “despedida de solteiro” dos noivos, se celebra a felicidade e a vida mesmo que se preveja de curta duração, enquanto no funeral, que é a “despedida” do morto, a única coisa que se pode celebrar é a certeza do “eterno descanso” e sabendo-se que é de duração “longa” e “para sempre”? Será porque os primeiros vão passar à “atividade plena”, apesar de esmorecer com o stress e a rotina, enquanto o segundo fica “sem atividade nenhuma” e a título definitivo?

Com todo isto, continuo “como o tolo no meio da ponte” quando me tenho de vestir para ir a um funeral. E, para acabar com esse grande “problema”, que deve ser só meu, das duas uma: Ou a Paula Bobone, professora de Imagem e Etiqueta “Vestimentária” e figura mediática da nossa praça, escreve um novo capítulo no seu “Dicionário da Etiqueta” destinado a “orientar-me” nesta matéria ou salvem-me o governo e o parlamento e ponham a casa em ordem “parindo” mais uma daquelas leis inúteis que não serve para coisa nenhuma, mas que venha “regular” matéria tão importante para a nossa felicidade. Senão, eu que até nem gosto de andar “engravatado”, um dia destes num qualquer funeral vou sentir-me como “pinguim solitário” no meio dum bando de “papagaios” …

Cá entre nós, será que o luto ainda tem cor?

Agora,sim, já há assunto. E vida…

Até que enfim”, dizem eles. “Já não era sem tempo”. É que as semanas haviam perdido a graça, os encontros com companheiros de trabalho ou amigos já não tinham assunto para conversa e faltava-lhes aquela adrenalina duma época. As mulheres desabafavam em desespero: “Eu já não aturo o meu marido. Bem lhe digo para ir até ao café falar com os amigos ou jogar as cartas e não adianta”. Mas, finalmente, acabou-se o sofrimento pela ausência. Voltou o “Futebol”. Acabou-se o tempo de férias, as semanas sem assunto e os fins de semana sem jogos. Já tudo voltou à normalidade. Começa-se a semana a ler e comentar os jornais desportivos, o jogo da nossa equipa, exaltando as vitórias, arranjando culpados para as derrotas. Os árbitros são corruptos, os adversários trapaceiros e nós fomos os melhores. Até quarta-feira fala-se do jogo que passou. Revive-se o passado. A partir do meio da semana já só se fala no próximo jogo, a espectativa do futuro. É no café e no tasco, no emprego e fora dele. Veem-se todos os programas televisivos dedicados à bola, com adeptos ferrenhos disfarçados de comentadores “encartados”, onde o mais sábio é o que nos defende. Sim porque, ao defender a nossa equipa, está a defender-nos a nós. Ganha-se ânimo quando se juntam as hostes, os correligionários, quando não se desanimam uns aos outros com “estamos sem ponta de lança” ou “com este treinador não vamos lá”. “Aferroam-se” os adeptos adversários para espantar medos, criar a ilusão de que já ganhamos.

Começou o campeonato, agora chamado de Liga, se bem que de liga não tem nada. Estão todos desligados, de costas voltadas. Mas a bola já rola e há assunto para as conversas de café. Os adeptos (dos três chamados de “grandes”), embora possam ver os jogos na televisão bem instalados em casa, com copo de cerveja na mão e o comando na outra para, no caso de começar a correr mal mudar de canal para não ver o desastre, sempre que podem preferem ir ao “templo” do clube, em “peregrinação” assistir no local ao “cerimonial” que é um jogo de futebol. Porque lá é que se vive com a adrenalina no máximo, no meio dos “crentes”, irmãos daquela “religião”, solidários tanto na alegria da vitória como no “melão” com que ficam se a “coisa” correr mal.

E não há nada como estar integrado em “comunhão” com aquela multidão de “fieis”, vivendo intensamente cada momento e participando no “coro” de gritos, insultos, incitamentos e apelos ao linchamento do árbitro. “Matem esse ladrão”, “és o maior”, “vai para…” e mandam-no ir ter com a mãe que não tem nada a ver com o jogo. Quando há um golo, parece que levaram uma picadela no traseiro em simultâneo, pois todo o mundo se levanta do lugar ao mesmo tempo e salta feito canguru, de braços no ar e punho cerrado. Abraça-se o vizinho que se não conhece, alarga-se o sorriso, agitam-se bandeiras, cachecóis e todo o tipo de adereços. No canto dos adeptos contrários reina um silêncio de morte, à espera da vingança. Quando o golo é da outra equipa, invertem-se as posições e o alegre vira triste, o silencioso eufórico e o herói bandido.

O árbitro, a eterna “viúva” de que ninguém gosta, já nem se veste de preto para não ser tão sinistro. Mal entra em campo recebe um coro de assobios como saudação. Contava-me um antigo árbitro que, para ficar imune aos insultos, antes de entrar em campo olhava os adeptos espalhados pelas bancadas e pensava para si: “Ena tanto filho da …” a partir daí, dizia ele, já tinham razões para lhe chamarem de tudo. Não sei qual é o gozo de andar de apito na boca, a correr o campo todo do princípio ao fim durante o tempo de jogo e nem sequer dar um chuto na bola. Mas é preciso gente para tudo, inclusive para bode expiatório dos adeptos. É nele que descarregam as suas frustrações em primeiro lugar. Por isso, um árbitro precisa de muito “poder de encaixe”…

Futebol e política sempre andaram de braço dado, porque se servem um do outro. Ambos têm um interesse comum: ganhar com o adepto, porque é este o palerma que os alimenta. O futebol sobrevive do seu contributo financeiro e os políticos do seu voto. Daí que se casem os interesses, sem concorrerem um com o outro. Chama-se “casamento perfeito”, que devia servir de “modelo” para outros casamentos …

O adepto vive da emoção, daquele sentimento único do “ganhamos” se bem que isso não passe de um carinho psicológico. Ele até acha que pertence à equipa. Daí o “nós ganhamos”. Contenta-se com pouco e nem repara que o futebol se tornou um negócio e uma das maiores indústrias mundiais, de que ele é um mero consumidor. Porém, os jogadores, treinadores, dirigentes de clubes, associações, federações e confederações nacionais e internacionais, empresários e todo um leque de empresas de interesses cruzados vivem da bolsa de valores que se gera em negócio de tamanha envergadura, nem sempre clara e transparente. Daí os “assaltos” e “apegos ao lugar” a que de vez em quando assistimos pelos lugares “maiores”, em espetáculos tristes e com pouca dignidade, de que nem sempre temos conhecimento.

Já lá vai o tempo em que o futebol era um prazer, uma diversão. Não esqueço os jogos que fazíamos no caminho de Recemonde depois de sairmos da escola, com uma bola feita de uma meia velha cheia de trapos ou folhelho. Uma dúzia de garotos acabavam suados, mas felizes, depois de dar uns quantos chutos na bola improvisada. Era só um jogo de futebol. Hoje já não é só um jogo de futebol …

E com o regresso do campeonato, ou melhor, da Liga, os adeptos voltam a ter jornais desportivos com matéria quanto baste para ler, programas televisivos para ver e rever se o seu clube ganhar (se o clube perder, esqueçam), informação preciosa para argumentar com amigos e colegas de trabalho. E ainda têm a possibilidade de estar em “celebrações” no estádio para “desopilar” e soltar o “animal” que há dentro de cada um. Liberta tensões acumuladas e é muito melhor que ir ao psiquiatra ou “descarregar” na mulher e no cão …

Afinal, quem é a “vaca leiteira”?

Todos nós sabemos que, na natureza, a vaca produz leite suficiente para alimentar as crias, os bezerros. No entanto, como o ser humano fez do leite uma base da nossa alimentação, para conseguir obter produções que possam suprir as nossas necessidades usou a seleção e manipulação genética para obter animais com mais capacidade produtiva. É assim que hoje há vacas a produzir dez vezes mais leite por dia que há cem anos. Com isso, a vaca leiteira transformou-se literalmente numa máquina de produção de leite em quantidades industriais, usada e abusada como mera indústria produtiva. E foi por isso que a “vaca leiteira” passou a ser o termo de comparação quando nos queremos referir a algo onde todos querem “mamar”. E vimos isso à pouco com o ex-ministro Manuel Pinho ao ser interpelado no parlamento (que mais me pareceu um “para lamento”), sem dizer nada aos deputados sobre os seus “ganhos adicionais” que o “dono disto tudo” de então lhe pagava enquanto foi ministro.

Ora, para desviar a conversa e “fugir com o rabo à seringa” das perguntas dos deputados, acabou por “revelar” o que todos já sabiam: “A fatura de eletricidade é uma vaca leiteira”. “Porque”, diz ele, “cobra-se tudo através da fatura da eletricidade”. Traduzido isto em miúdos e para a gente perceber, quis ele dizer que os políticos feitos Estado, usam a fatura de eletricidade para “sugar” mais e mais impostos. Seguindo a sua lógica, os políticos (onde ele está incluído) criaram não uma, mas muitas “vacas leiteiras”, sendo as faturas de eletricidade, gás natural e combustíveis algumas delas, que “alimentam” um “Estado mamão” difícil de satisfazer. Mas há mais, muito mais. Ora, como Manuel Pinho nos chamou a atenção para a “vaca” da fatura de eletricidade – e sem esquecer que ele esteve lá e não fez nada para evitar que ela fosse “usada e abusada” – fui ver com atenção a quem o seu “leitinho” alimenta e engorda. Se pensava que estava preparado para o que ia ficar a saber, confesso que nunca me passou pela cabeça que fossem tantos os “vitelos” que vivem à conta dela. E, pior, não se sabe ao certo quantos são.

Na fatura da eletricidade, além da “energia consumida” ainda nos fazem pagar pela “potência contratada” e até pelo “serviço urgências elétricas” (nem sabia que existia e era pago, usando-o ou não). Mas também estão lá uma data de taxas e impostos, tantos, que é preciso tirar um curso para os identificar. Começam logo com o “Imposto Especial de Consumo”, tão especial que não consegui saber para que é. Depois, aplicam-nos a “Taxa de Exploração DGEG”, dizendo-nos que é para financiar a Direção Geral de Energia e Geologia. Para que a conta não fique por aí, a taxa de IVA é a máxima que a lei permite ou seja, vinte e três por cento, apesar de se tratar dum bem de consumo essencial. E a lista de taxas vai mais além com a “Contribuição para o Audiovisual”, que foi a forma que os políticos encontraram para financiar o serviço público de rádio e televisão, mesmo que o cliente não use nenhum deles. Mas paga. É a justiça … estatal. Podemos sorrir um pouco, embora com “sorriso amarelo”, porque a “Contribuição do Audiovisual” só é onerada com IVA a seis por cento. Nada mau … Como ainda a procissão vai no adro, a fatura inclui a “Tarifa de Acesso às Redes Elétricas”, que é uma taxa paga pelo uso das redes (transporte e distribuição) e uso geral do sistema. E inclui ainda os CIEG, que são os “Custos de Interesse Económico Geral”, que nada têm a ver com eletricidade e servem para pagar custos de natureza ambiental, autoridade e concorrência, rendas de concessão pela distribuição em baixa tensão, ajustamentos comerciais de último recurso e muitos outros custos com descrições obscuras e complexas. Em suma, está lá tudo metido. Só a sobrecarga de impostos e taxas no setor elétrico representa quarenta por cento da fatura da luz – e não vemos luz ao fundo do túnel que nos tire deste “sugadouro” …

Mas este aproveitamento que o Estado tem dos nossos consumos para nos “sacar” mais e mais dinheiro, usando como argumentos principais a “sustentabilidade do Estado Social”, que diminui a olhos vistos, e a “redução da Dívida Pública”, que aumenta mais do que bolo no forno, não se limita à fatura de eletricidade. Estende-se à fatura de gás natural (com o imposto especial de consumo, taxa de ocupação de subsolo e IVA a vinte e três por cento), ao preço dos combustíveis onde o desaforro já ultrapassa, e muito, os cinquenta por cento em impostos, ao consumo de tabaco (que bate o record de impostos a rondar os oitenta por cento), à indispensável água (com a tarifa de saneamento, a taxa de recursos hídricos, a taxa de resíduos sólidos urbanos e, claro, o IVA), bebidas alcoólicas e açucaradas e um sem fim de bens que usamos no nosso dia a dia, como se fosse pecado capital ser consumidor.

Agora que “está fora do poleiro” e para “dar tanga” aos deputados que estavam lá para saber outras coisas, Manuel Pinho “batizou” a fatura da eletricidade como uma “vaca leiteira”, com a intensão de desvalorizar as chamadas “rendas da edp” a que ele está associado e passando o ónus da energia cara para quem “mama” na dita “vaca”.

O ex-ministro da economia errou ao tomar a “parte pelo todo” ou não quis dizer a verdade aos deputados, como não lhes havia dito nada daquilo que eles queriam saber. A “fatura da eletricidade”, tal como a “fatura do gás natural”, o “preço dos combustíveis” e outras faturas, não são nenhuma “vaca leiteira”. Longe disso. Para mim, mais não são do que simples “tetas” onde os políticos puseram a “boca” do Estado a “mamar”, muito mais do que seria aceitável, escandalosamente, sem respeito pela verdadeira “vaca”. Porque, afinal, a verdadeira “vaca leiteira” que tem de sustentar este Estado, “faminto e insaciável”, é o desgraçado do “Contribuinte”. E “Contribuintes” somos todos nós que consumimos, trabalhamos e produzimos, mas que nem sempre temos consciência que, para os políticos, não passamos de “vacas leiteiras” … E, das duas uma: Ou damos um coice em quem “mama demais” ou a maioria destas “vacas” vai morrer “seca como um carapau” …

Além de Festa, “ponto de encontro”…

Acabou a festa. Agora, é o desmontar das barracas, o carregar dos contentores, o retirar de cabos elétricos e arcos de iluminação, o desfazer do palco em peças, o mudá-lo para o próximo local. E vão-se os carroceis, os carrinhos de choque, o “canguru” e outras diversões mais ou menos radicais dum parque improvisado com curta duração. Há gruas, camiões grandes e pequenos, furgões, carrinhas, caravanas e gente a carregar as tralhas feitas entretenimento e negócio nas Festas Grandes de Lousada. Só ficou a barraca das farturas para nos empanturrar de frituras de farinha e água, polvilhadas com açúcar e canela, feitos pedaços de tentação que nutricionistas desaconselham. Durante os dias de festa a Vila acordou atapetada de lixo espalhado pelo chão em tudo quanto é sítio, menos nos locais onde devia ser colocado. É curioso como ninguém conseguiu acertar com os copos de plástico nos “ecopontos” nem com o lixo nos contentores. Devia haver algum problema, pois muito desse lixo foi parar ao chão pela mão de gente civilizada, mas que estava afetada pela “síndrome da manada” – fazer o que a manada faz. O trabalho ficou para o pessoal da câmara e da empresa de recolha. E foi muito para lá do razoável. Além do lixo as Festas também “pariram” dejetos humanos em cada canto mais ou menos escondido, odor intenso a urina em cada porta como se a rua fosse uma latrina coletiva (as portas de madeira que sofreram tal “tratamento” estarão protegidas dos ataques do bicho da madeira durante o próximo século porque, se aproximar, morre com o pivete), preservativos, moradores com sono e mal humorados por noites em branco e jovens adolescentes a deambular, anestesiados a álcool e pensando que a noitada ainda não terminara e com cara de aparvalhados, enquanto os paizinhos dormiam na “paz do Senhor … dos Aflitos”.

Elogia-se ou critica-se a organização pelos artistas contratados para dar espetáculo e animar as noites de acordo com o gosto de cada um, se o fogo de artifício foi bonito de se ver e fazem-se comparações com as Festas de Paredes e, especialmente, as de Freamunde, porque se mantem essa rivalidade absurda, de um bairrismo da Idade da Pedra.

As Festas Grandes são cada vez “mais grandes”. Porque tem que ser.  Não se pode ficar atrás da concorrência nem das outras comissões de festas. Quando era criança, a Festa Grande era “Grande”, mas “curta”. Vi-a crescer no número de dias que ocupa a vila, anima forasteiros e desanima moradores. No estender da iluminação a mais avenidas, ruas, praças e vielas da vila. Na crescente quantidade e, às vezes, qualidade, de artistas “cabeça de cartaz”, cuja escolha nem sempre é consensual. As Festas já se estendem por vários dias seguidos, sem falar dos “preliminares” que acontecem ao longo do mês de Julho. Se a intensão é atrair cada vez mais forasteiros, não me parece que o paradigma escolhido com a introdução das “barracas de cerveja” seja o caminho certo. Pelo contrário, a venda sem controle de bebidas alcoólicas associada à música em ambiente de “discoteca de rua” tipo “rave” é um erro que já outros cometeram há muitos anos. E nós não quisemos aprender a devida lição e teimamos em repeti-lo e insistir nele, em nome de uma receita adicional tida como importante para o orçamento da organização. Haverá mais recursos para prolongar os dias festivos, recrutar mais cantores do top nacional ou consumir em “foguetório”, coisa em que a minha cadela, se tivesse voto na matéria, estaria contra. Detesta foguetes. Mas o acréscimo de forasteiros nas Festas não pode nem deve ser conseguido à custa do sacrifício dos adolescentes, queimados em lume brando no consumo de álcool sem limites, sem idades, sem razões sérias de interesse público. Se Aquele que é o Patrono das Festas viesse a tomar posição sobre o que estão a fazer em Seu Nome, tenho a certeza que voltaria a correr com os “vendilhões do Templo”, a chicote …

Sempre fui um entusiasta das Festas Grandes. Enquanto criança e até adolescente, pelos doces que os meus pais compravam, pelo “jantar” depois da procissão junto aos “tanques”, pela diversão nos carroceis e carrinhos de choque, pelo “picadeiro”, pela “cascata de luz” que era o monte do Senhor dos Aflitos nas tigelinhas, pelas vacas de fogo que eu via protegido no carro do meu pai, na Avenida Senhor dos Aflitos. Com a passagem à idade adulta as Festas Grandes, para além da festa e do entretenimento, passaram a funcionar como verdadeiro “ponto de encontro” onde ia reencontrar familiares, amigos e condiscípulos que a vida conduzira para outras paragens, mais ou menos distantes, mas sempre perto de nós. E era ali que a cada ano revia uns quantos, relembrava histórias, recebia informações de outros que estavam ausentes e se aplacava a saudade. Seguramente, a cada ano as Festas traziam-me novidades enquanto “ponto de encontro”. E era como voltar às nossas origens, ao encontro do passado, selado num abraço. Há dez anos que me marcam falta nesse “ponto de encontro”, mas os amigos sabem porquê. Apesar da lista de “participantes” diminuir a cada ano que passa, sei que alguns são resilientes e marcam o ponto, porque é dos últimos locais onde ainda nos encontramos, além dos casamentos e funerais.

Fiquei feliz quando perguntei à Teresa se tinha gostado das Festas e ela me disse: “Foram excelentes. Divertimo-nos imenso. Encontramos vários amigos que já não víamos há muito tempo e que vivem fora. Veja lá, que nem sequer reconheci um deles porque está barrigudo e de barbas. Teve de ser ele a vir cumprimentar-nos. Foi um excelente “ponto de encontro”, instalados numa esplanada a rever amigos”. E fiquei a pensar que ela já chegou à fase seguinte, de olhar as Festas também como “ponto de encontro” que são.

E o João, jovem adolescente que os pais “soltaram” à meia-noite, foi com um colega até às barracas de bebidas onde, para “aquecer os motores”, começou com dois “shots” e depois “foi sempre a abrir”. É preciso “molhar os pés” para ganhar asas e desinibir-se, agarrar-se ao copo para estar integrado e parecer um homem, “abanar o capacete” ao som da música. Também para ele as Festas serviram de “ponto de encontro” com a miúda loura de copo na mão que não conhecia. E ainda hoje não sabe quem é, como se chama, nem de onde veio. Sabe que se “colou” a ela grande parte da noite e que “despertou” sozinho já o sol se levantara, deitado junto a um portão de garagem quando este começou a abrir. Foi também um “encontro”, mas não sabe “de que falaram”, que parte do corpo usou para “comunicar” ou até mesmo se chegou a “entrar em contacto”. Os vapores do álcool “apagaram” o registo. Valerá a pena insistir na “fórmula” – e no erro – para termos mais “forasteiros” destes? Em nome de quê?   

Em que posso ajudar?

Até parece mentira, mas não é: Há pessoas “condenadas” a serem… boas pessoas. Diria mesmo, excelentes. Não têm como fugir a esse desígnio. Não sei se é inato, se lhes está na “massa do sangue” ou se aprenderam a ser assim tendo alguém como exemplo. Nalguns casos, copiando-o por ser bom, noutros, usando-o como modelo a rejeitar, por ser mau. O seu principal objetivo de vida é ajudar os outros e fazem-no com toda a naturalidade, como se tivessem vindo a este mundo só para servir. Nos últimos tempos tenho acompanhado ações de algumas delas, de cariz humanista e solidário. E o curioso também, é verificar que uma boa parte são jovens e meio jovens, contrariando esse mau hábito que temos de ver e dizer mal da juventude de hoje.

Ainda há dias fui surpreendido com a atitude de uma mulher que vive momentos difíceis. Quando lhe falaram da situação crítica de outra, a sua reação imediata foi: “Em que posso ajudar”? Como é possível alguém na sua situação oferecer-se para ajudar os outros? Só por um desprendimento total de si mesma, colocando sempre o próximo em primeiro lugar. Como se as dificuldades dele sejam sempre as mais importantes, as mais urgentes, aquelas que têm de ser resolvidas… Uma lição de vida a confirmar que todos podem ajudar de uma ou outra forma e quaisquer desculpas para o não fazer, não passam de desculpas esfarrapadas. Há sempre algo que podemos fazer pelo “outro”, até porque há muitas coisas que não custam nada, para as quais não se exige dinheiro, só boa vontade ou um pouco de tempo.

Há dias foi-me permitido aceder à mensagem de uma senhora ainda jovem, também um exemplo de solidariedade, partilha e dedicação aos que precisam, quer sejam pessoas ou animais com necessidades. Não discrimina quem precisa, não olha para o lado quando se depara com um caso. Abdica de si para acorrer a um necessitado, é feliz por poder ajudar e partilhar. A mensagem era dirigida a uma sua amiga, também ela jovem, também ela solidária. Um desabafo que, só por si, revela uma alma generosa, um coração cheio de bondade e espírito de bem fazer. São razões mais que suficientes para a transcrever:

“Eu adoro ajudar. Acredite, sinto-me mesmo feliz… da outra vez não ajudei com mercearia. Por isso, compro algumas coisinhas agora… Amanhã, às 12h, deixo tudo aí…

Muitas vezes dizem-me que não posso ser assim e que nunca vou mudar o mundo. É verdade. Mas, pelo menos, quando ajudo o meu mundo, faz a diferença. E muitas vezes essa diferença, por mais pequena que seja, é entre comer ou não comer…  Sejam pessoas ou animais. Ajudar não tem que ser caro, nem ter idade, nem estatuto. Muitas vezes ajudei sem abrigos quando estudava no Porto. Comia menos gelados ou ia menos vezes ao shopping depois das aulas. E trocava isso bem por lhes poder dar uma baguete ou sopa quente … enche-me o coração e sinto-me útil.

Às vezes dizem que, com tantas pessoas a precisar, eu só ajudo animais. Dou a mão a quem precisa e, infelizmente, essas pessoas que dizem isso, nem ajudam pessoas nem animais. E nada me deixa mais feliz do que ser útil aos outros… e até ajudo muitas vezes naquilo que não é visível, mas faz toda a diferença para a qualidade de vida e bem-estar das pessoas…”.

Há quem pense que só as pessoas com posses e bem instaladas na vida podem ser solidárias. Que só essas podem ajudar, partilhando um pouco do que lhes sobra. Não é verdade. Todos e cada um à sua maneira e em função da sua situação, podem ajudar o seu próximo, se souberem partilhar o muito ou pouco que têm, libertos do egoísmo que nos domina. Esse desprendimento de si não tem a ver com idade, estatuto social, cor da pele ou situação financeira, pois encontramos excelentes exemplos em todas elas, com naturalidade, apesar de não termos uma cultura e educação de base para a solidariedade.

Como é o caso da senhora Maria, cuja história real conheci há dias. Ela anula por completo a idade como desculpa para se não poder ajudar e não partilhar. Mulher simples de uma aldeia de Lousada, já ultrapassou os oitenta anos de idade. Viúva, reside numa casa térrea sem grandes condições de habitabilidade. Ainda é ela que cultiva o quintal, apesar das limitações físicas (anda permanentemente curvada, derreada, em função de um problema de saúde na coluna). Para sobreviver, vai gerindo e esticando a sua mísera pensão de reforma, que não dura tanto como os dias do mês, além de retirar do quintal o que pode. No entanto, apesar da situação precária, durante muitos anos manteve um ritual diário, com pontualidade e rigor britânico: às quatro horas da tarde sempre teve preparado o lanche para um casal de irmãos vizinhos adultos. De tal forma, que o vinho que produz no quintal era todo bebido por eles ao lanche. Além disso, sempre comprou pão suficiente para os abastecer, dia após dia. E, ano após ano, todos os dias, à mesma hora, aquela senhora recebia os seus convidados em sua casa, partilhando alimento e companhia. Depois de falecer um deles com doença grave, em nada alterou a sua atitude com aquele que ficou. Aos olhos do cidadão comum, seria ela que devia beneficiar da atenção e solidariedade de quem lhe está mais ou menos próximo, mas é precisamente o inverso. E sente-se muito feliz por poder dar-se aos outros, partilhar com eles o pouco que tem, o que torna o seu gesto muitíssimo mais raro e valioso. Diria mesmo muito mais nobre, porque a grandeza do gesto é tanto maior quanto menor é o tamanho da sua bolsa …

Há exemplos em que vale a pena meditar e que nos devem servir de guia e inspiração para uma prática de vida que começa na pergunta: “Em que posso ajudar”?

Onde é que a beleza está a mais num jogo de futebol?

Devia estar vaidoso (mas não estou) porque a FIFA, o organismo que superintende o futebol mundial, talvez com base numa das minhas crónicas (isto é presunção a mais …) decidiu proibir a filmagem de mulheres atraentes nas bancadas durante a transmissão dos jogos de futebol no Mundial. E só pode haver uma justificação: “São um perigo para a navegação”. Além de não aparecerem mais na televisão neste Mundial por imposição dos “manda-chuvas da bola”, não me admiro que um dia destes os restantes órgãos do futebol mundial e nacional proíbam também a sua entrada em todos os estádios, precisamente pelo perigo que continuam a representar. Sim, se uma mulher bonita, sensual e com vestido “atrevido” sai à rua e caminha junto à berma do passeio com “aquele andar que os gatos demoram anos a aprender”, é certo e sabido que alguns carros vão chegar a casa com a “lata amolgada”. Só pode. Algum condutor vai estar atento à luz de travagem do carro da frente, quando o seu olhar “está preso” naquela “bomba” sobre a berma do passeio? Claro que não, a não ser que seja cego ou a mulher lhe tenha posto umas palas para não ver os lados da rua. Ora, o que aqueles ditos senhores, que supostamente sabem o que é melhor para o futebol (há quem pense que só sabem o que é melhor para o negócio) viram nas imagens das caras coloridas e lindas que a televisão nos foi mostrando para dar alguma alegria à tristeza de alguns jogos do Mundial, foi somente uma “concorrência desleal” aos pontapés e cabeçadas na bola. Como são quase sempre velhos e chatos que estão nesses lugares, além de já não “tourearem”, provavelmente já nem sequer são “aficionados”. Daí o verem numa jovem loura enrolada na bandeira da Croácia, com a cara pintada com as cores do seu país, uma forte concorrente, que tira o protagonismo aos artistas da bola e vá-se lá saber porquê. E ainda não mostraram aquela morena de minissaia e com camisola da argentina de decote generoso, onde se podia ver tatuado um longo texto em letra miúda, parte do qual ainda ficava escondido por debaixo da camisola no bico do decote. Seria caso para perguntar, como é que um telespectador podia ter acesso à leitura do “texto integral”, para “ajuizar da sua valia”. Caso contrário, seria como ler um livro onde faltam algumas páginas …

A FIFA é uma entidade abstrata, de que só tenho a imagem da careca do presidente atual e a lembrança do custo absurdo da suite onde se encontrava instalado o presidente anterior durante um dos últimos Mundiais, um tal Blatter, que foi despedido sem honra nem glória.

Mas, voltando à proibição da filmagem de mulheres atraentes na bancada, é caso para perguntar: “E se elas estiverem num camarote ou na Tribuna presidencial? E se o presidente de um qualquer país for uma mulher, como é Kolinda, presidente da Croácia, com todos os “atributos” que devem constar no catálogo da “censura”, não pode ser filmada durante o jogo, nem mesmo quando toca o hino nacional do seu país e ela se levanta? Além disso, coloca-se uma questão muito intrigante: Não se podem mostrar mulheres atraentes. OK. Será que é distribuído um catálogo a mostrar quem são as mulheres atraentes e as que estão excluídas da categoria e que não estarão sujeitas ao veto FIFA? E se for uma daquelas que mete medo ao susto, pode aparecer nas filmagens televisivas a “ocupar tempos mortos” enquanto algum jogador finge que também está morto? Ou será que a partir de agora, nessas paragens do jogo vão-nos mostrar só os “cromos da bola” habituais, homens feios e barrigudos, em tronco nu e com a barba por fazer, de olhos esgazeados pelo fanatismo ou com fatiotas exóticas e chifres na cabeça, não sei bem a que título? Que raio de gosto …

É preciso bom senso e, se for caso disso, um grande movimento que faça aquela gente ponderar e ver que não tem pés nem cabeça tal diretiva. O futebol é um espetáculo no seu todo e a beleza faz parte dele. Mais ainda: Num Mundial de futebol, onde se juntam claques de todos os países participantes, dando um colorido e alegria que fazem do evento uma festa e um convívio universal, seria enorme estupidez esconder as imagens dessas claques, porque são parte essencial do espetáculo. Muitas vezes recordo o Euro 2004 e aquilo que vi nas ruas do Porto e no estádio do Dragão com a onda laranja da Holanda. Valeu a pena acompanhá-los na rua e foi excecional assistir ao belo espetáculo que foram dentro do espetáculo do jogo de futebol. E a partir de agora isso não pode ser mostrado porque no meio daquela onda laranja pode haver “curvas de fruta” que a FIFA considera “impróprias para consumo visual”, porque é disso que se trata.

Ao que nós chegamos com este “moralismo bacoco”, que mais não é senão uma deriva absurda do movimento contra o assédio sexual. Se fosse mulher, considerava-me discriminada por não estar em pé de igualdade com qualquer homem, por mais feio que Deus o tenha feito. Porque é que um brutamontes de cara mal pintada e com os dentes arreganhados pode aparecer na televisão no meio de um jogo de futebol, enquanto a uma mulher bonita, por mais puritana que se apresente, não lhe é concedido esse direito? Como diz o povo, “ou há moralidade ou comem todos”.

Resta-me uma consolação: O Mundial acabou e a nossa seleção já estava em casa quando “aquelas cabeças iluminadas pariram ideia tão brilhante”. Daí que, aquele interesse que me fazia estar colado ao televisor para ver o jogo do princípio ao fim, acabou quando acabou a nossa estadia na Rússia. “Perdi o apetite” pelo Mundial, com ou sem o enfeite das caras bonitas, se bem que continue a gostar de ver caras de mulheres atraentes, ou a natureza não estaria a funcionar no seu melhor …

Sem explicação. Mas emocionam…

É na natureza que encontramos as obras de arte mais perfeitas, a beleza no seu esplendor, sendo nela que os seres humanos vão beber conhecimentos e inspiração para realizarem as suas obras de arte que, quase sempre, não passam de imitações grotescas da natureza. Curiosamente, também são os animais que mais nos surpreendem, provando-nos frequentemente que estamos longe de saber tudo sobre eles, a começar pelos animais de estimação. Se em parte já se explica a sua perceção em detetar doenças como cancro, diabetes e hipertensão, a identificação do período de ovulação de uma mulher e até as emoções, o seu sexto sentido, que lhes permite muitas vezes antecipar uma situação que ainda não aconteceu, não tem explicação credível. O que é que lhes permite prever terramotos, tempestades, convulsões próximas em seres humanos e até a morte de humanos?

Ainda não há respostas para tais capacidades que vão para além do comum e que, a par de muitas outras, os tornam companheiros para uma vida, com factos que surpreendem e emocionam.

Sempre que posso e o tempo deixa, vou dar uma volta com a minha cadelita a “rebocar-me pela trela”. Para descansar da pressão que faz a puxar, logo que entro nas ruas calmas da Costa e depois no monte, solto-a e deixo-a correr à vontade. Faz exercício e abate a barriga da boa vida que nada tem de “vida de cão”. E ela corre atrás dos gatos, ladra a dois ou três cães habituais ignorando os outros e até quando vê alguma ave, dá-lhe uma corrida para a “espantar”, presumo eu. Depois de uma dessas deambulações, quando cheguei a casa larguei-a no jardim e só à hora do almoço me lembrei dela, pois habituou-se a ficar junto da mesa à espera de algum “aperitivo”. Como nesse dia não apareceu à hora habitual, fui procurá-la e dei com ela deitada e a cheirar a tralha que tenho sob a churrasqueira, como se houvesse ali caça. Só me ocorreu que pudesse ser algum rato. Por isso, coloquei estrategicamente três caixas para impedir a fuga, armei-me com a vassoura e fui tirando as botijas de gás e outras coisas mais ou menos inúteis que ali tenho guardadas. Quando saiu o último traste, vi qual era a causa da fixação da “Becas”: um filhote de melro aninhado no canto da churrasqueira, provavelmente caído do ninho. Peguei-lhe com cuidado e deixou que o colocasse numa caixa de sapatos sem tentar fugir, abrindo somente o bico de fome e sede. A “Becas”, que no dia a dia corre atrás da passarada, não mais saiu de junto da caixa onde permanecia aquela ave indefesa, umas vezes cheirando-a, mas quase sempre permanecendo deitada, de olhar fixo no pequeno melro e com as patas da frente cruzadas uma sobre a outra na expectativa. Levei a caixa para a sala, dei-lhe de comer e beber e nós almoçamos, mas a cadela manteve-se firme como se lhe tivesse sido incumbido o “serviço de guarda” daquele filhote órfão, ignorando-nos e até se esquecendo do seu “interesse” na refeição. E fez disso a sua vida o dia todo. Quando à noite chegou a Alice, com quem costuma brincar, contrariamente ao habitual fartou-se de ladrar, dando de vez em quando pequenas corridas em direção à caixa onde permanecia a avezinha, como que a querer dizer-lhe para ir ver o que estava lá. Só visto. Mas o que mais me emocionou foi aquela quase devoção na função de guarda ao indefeso filhote de melro, como se tivesse compreendido o seu drama e a sua fragilidade.

É frequente assistirmos a comportamentos de animais, em especial cães, que nos deixam estupefactos, quando não emocionados. A sua perceção do estado emocional do dono e o seu comportamento com ele em função desse estado, é reveladora de capacidades que estão para além da nossa sensibilidade. Tal como em função do estado de saúde, quando não da morte. Foi o que aconteceu na casa de um amigo onde há vários cães. Um deles, sempre que alguma pessoa que não faça parte da rotina diária ali entra, ladra insistentemente. Nesse dia, de forma fulminante e inesperada, o dono caiu sem vida, sendo levado para um dos quartos. No choque da tragédia a notícia correu rapidamente, acorrendo ali algumas pessoas em solidariedade com a família. E aquele cão, que em circunstâncias normais se fartaria de ladrar, passou a acompanhar os visitantes até ao quarto onde estava o dono sem soltar um latido sequer, como que percebendo que algo de grave lhe acontecera, quem sabe mesmo, que ele falecera.

Durante algum tempo da minha vida tive residência profissional em Lamego. Um dos vizinhos da casa onde eu estava instalado, para se “desfazer” do cão que tinha, aproveitou uma ida a Vila Real para o levar e abandonar naquela cidade. Para sua surpresa, uma semana depois quando chegou a casa, o cão estava deitado à porta. Conheço outros casos semelhantes, mas o que considero mais extraordinário ocorreu em Paris. O dono de um cão, por razões de trabalho, teve de se mudar dos arredores daquela cidade para um apartamento numa cidade espanhola onde não tinha boas condições para ficar com ele. Apesar de contrariado, entregou-a a um vizinho e foi para Espanha. Alguns meses depois, fazendo mais de mil quilómetros sem se saber como, o cão apareceu-lhe à porta do apartamento para sua surpresa. Como é que ele descobriu a nova morada que não conhecia e onde nunca tinha estado? Ninguém sabe. E o dono compreendeu que esta demonstração de fidelidade era algo de extraordinário e o obrigava a fazer tudo para não mais o abandonar.

Em Moscovo, um grupo de cães abandonados que vive na periferia da cidade, todos os dias de manhã apanha o metro em direção ao centro da cidade, como quem vai para o trabalho. Como é que descobriram que o cento da capital russa é o local onde há mais probabilidades de arranjar comida e que a forma mais rápida de lá chegar é apanhando o metro? Os passageiros já se habituaram a estes companheiros de viagem, sendo vulgar ver-se alguns deles deitados nos bancos ao lado de utentes, quando não com a cabeça no colo de uma criança. Por norma, os cães procuram as carruagens com menos pessoas, onde é mais fácil encontrar bancos livres para se deitarem. E, ao fim do dia, voltam a apanhar o metro, desta vez para fazer a viagem em sentido contrário de regresso ao local da periferia de onde partiram pela manhã. É espantoso como estes animais sem dono conseguem comportar-se como humanos a caminho do trabalho, usando os transportes públicos naturalmente e sem erros. Será que são mesmo cães? Se muitos seres humanos têm dificuldade em viajar nos meios de transporte de uma grande cidade, como é possível que esses animais tidos por “irracionais” o conseguem? Não pude deixar de ficar fascinado com as capacidades deste grupo de cães.

Mas receio que, neste preciso momento, já façam parte da história de crueldade do ser humano: As autoridades russas antes de começar o Mundial de Futebol, deram ordem para se fazer a “limpeza” das ruas das cidades anfitriãs do Mundial, de todos os animais abandonados, de forma clara: “Eliminados”. E foram exterminados milhares e milhares de animais nas diversas cidades, com imagens chocantes do “massacre” que correram o mundo. Provavelmente, com essa matança sem dó nem piedade, os “passageiros caninos do metro” de Moscovo não serão mais atração da cidade. Em nome da “higiene ambiental” para turista ver … Apetece perguntar: E o que fizeram aos sem abrigo e indigentes da cidade, que “ficam tão mal” nas fotografias turísticas? Congelaram-nos na Sibéria ou “limparam-lhes o cebo”?

Os cães, esses cães que viajavam no metro, seriam incapazes de ser tão desumanos. E eu disse “desumanos” …