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Obrigados a viver 100 anos… Ou mais…

Se a estatística estiver correta, os portugueses já vivem em média até aos oitenta anos. Aliás, para ser mais correto, as mulheres passam acima dos oitenta e três enquanto os homens ainda não chegam aos setenta e oito anos de idade. E todos sabemos as razões pelas quais elas duram mais do que nós … 

Isto quer dizer que, nos últimos vinte anos, os homens viram a sua esperança de vida aumentar em cerca de cinco anos, enquanto elas tiveram um acréscimo de quatro. Será caso para perguntar se vamos continuar a durar mais e mais, até passar a média dos cem anos, ou se daqui para a frente as melhorias vão ser mais lentas e reduzidas. A ver vamos, se cá estivermos. 

Mas apetece-me dizer que, por todas as razões e mais uma, temos a obrigação de chegar aos cem anos e até ultrapassá-los muito. Porque não cento e vinte ou cento e trinta já nesta geração? É que temos tudo para lá chegar: o conhecimento, a sabedoria, a informação, os técnicos de nutrição, os alimentos e a internet. E nem falo dos clínicos e todos os meios que estão ligados à medicina, cuja evolução das últimas décadas é uma das causas de sucesso no aumento da nossa esperança de vida.

Para se viver mais anos e melhor só é preciso ser dogmático e saber utilizar a informação que circula na internet. Porque lá, está tudo o que precisamos. Não é preciso mais nada. Basta seguir as instruções.Senão, vejamos: se não queremos sofrer de doenças cardiovasculares, que são das principais razões que nos passam a “guia de marcha”,  só temos de seguir à risca as “boas práticas alimentares” prescritas, comendo, pelo menos, duas vezes por semana peixe grelhado ou assado, feijão, aveia, tomate, beterraba crua ou cozinhada (apesar de odiada por muitos), meia cebola crua, três dentes de alho (reduz o colesterol mau e aumenta o bom), airelas vermelhas (uma baga que vem da Finlândia), abacate, banana, laranja, morango, kiwi e goiaba. O menu pode e deve contemplar um copo de vinho tinto ao almoço e outro ao jantar e uma pequena porção de chocolate negro para fazer a boca doce. Se formos bem comportados, nada de comer gorduras, açúcares, sal e de beber álcool (excluindo o copito de vinho tinto). E usando estes produtos com regularidade, vamos ter um coração mais forte do que o motor de um camião, a acreditar naquilo que dizem os “entendidos da net”. É difícil? Nada, mesmo nada …

Mas se o problema é o envelhecimento, a fórmula recomendada para o travar também passa pelo controle da boca, por forma a combater os chamados “radicais livres”. Por isso, se quer ficar por cá muitos e bons anos com cara de quem tem dezoito, há duas coisas que tem de se preocupar: não se deixe matar antes do tempo de forma estúpida debaixo dum automóvel e pratique um regime alimentar que o não deixe envelhecer. Assim, faça uma dieta “detox”, aquele preparado de chá verde, alcachofra, própolis, legumes, limão, fruta e verduras, tudo bem batido. Se não gostar do resultado e não for capaz de olhar para essa “mixórdia” nem sequer de cheirá-la, feche os olhos e engula, se não quer envelhecer. Além do “detox” deve comer abóbora, cenoura, batata doce, germe de trigo, mamão, laranja, limão, castanhas, açaí, maçã, pera, uvas, morangos, nozes e amêndoas. É capaz de cumprir estas indicações tão “simples” e “agradáveis”? Não sabe onde pode encontrar alguns destes produtos de nome estranho? A internet fornece-lhe todas as indicações para os conseguir. E vai ver que se o fizer a rigor, mantem-se jovem e fica com a pele lisinha e macia como de um bebé. Ou não acredita nas “verdades” da internet?

Como vê, é muito fácil (a acreditar no que nos dizem…) de impedir o envelhecimento e as doenças cardiovasculares. Mas já o ouço dizer: “E as outras doenças e males que nos limpam o sebo”? Tenha calma, pois também há soluções para tudo. Quer emagrecer? Deixe-me só procurar uns instantes e … cá está. Comece por comer brócolos crus ou em saladas. São excelentes para perder peso. Vá por mim. Até ouvi uma médica dizer que “é comida de gajas”, pois é habitual comerem para andarem “na linha”. Mas não basta. Nas carnes, vá pelo frango, peru e lombo de porco e nos peixes o salmão e outros peixes gordos. É que eles são gordos, mas não engordam. Têm Òmega-3. Grelhados, claro. Acompanhe com arroz castanho, sem o pintar, muitos legumes como repolho, cenoura, couve flor, além de aveia, cevada perolada, lentilhas, vinagre, grãos integrais e abóbora. Como sobremesa coma banana, maçã, pera, laranjas, abacate e acompanhe com um copito de vinho tinto, mas não abuse. Para fazer boca doce, chocolate negro, uma porção. E noutras ocasiões, use ovos, chá verde, chia e mirtilos. Se der resultado e ficar com o peso ideal, registe a receita e pode ganhar uns tostões na internet. Vá por mim… 

Pensando bem, o seu (e o meu) problema para não ultrapassar muito a barreira psicológica dos cem anos, é que não levamos a sério estas “bíblias da nutrição” de que a internet está bem “abastecida”. E falo por mim. Estou “condenado” a comer um “arroz de frango pica no chão”, um “cozido à portuguesa”, um “cabrito assado no forno” seja na Pitarisca ou mesmo em casa, uns “rojões” à nossa moda ou à moda do Minho e é melhor não continuar para não abrir mais o apetite – o seu e o meu. A verdade é que hoje temos demasiada informação, muitas vezes contraditória.

E, mais ainda. Quando nos dizem que este ou aquele produto é bom porque tem antioxidantes, não resolvemos nada se comermos “à fartazana”, pois a necessidade que temos deles pode ser mínima. E, se abusarmos, o mais certo é ficar de “caganeira”, pois o excesso não serve para nada. Devemos comer com peso, conta e medida, numa alimentação variada quanto rica, se queremos chegar lá. Mas não basta. É preciso muito mais do que isso … 

As (boas) recordações duma época…

Há sessenta anos atrás, fizesse chuva ou sol, ia da casa dos meus pais à vila de Lousada de bicicleta para frequentar as aulas no Colégio Eça de Queirós, um pequeno farol a brilhar no meio do deserto do ensino secundário de então. De tal forma que, para fazer exames do segundo, quinto e sétimo ano, tínhamos de ir … ao Liceu de Guimarães. Mas fui um felizardo porque a maioria dos meus colegas de escola primária não teve essa chance. Aliás, muitos deles nem sequer completaram o ensino primário. Outros tempos e muito mais dificuldades. 

No Eça de Queirós vivi boa parte dos primeiros anos da adolescência, alguns dos que mais marcaram a minha vida. Foi lá que desenvolvi o saber e o gosto pela matemática, disciplina que viria a ser muito importante em numerosos aspetos do meu futuro como homem e profissional. Também foi ali que encontrei o professor que mais me influenciou enquanto estudante. Apesar da sua licenciatura ser em medicina, o doutor Abílio soube conduzir-me pelo mundo infinito dos números. A ele devo muito mais do que o simples ensino da matéria para passar nos exames. Nunca cheguei a manifestar-lhe quanto lhe sou devedor. Lá vivi experiências e momentos inesquecíveis, tal como o torneio de futebol do Colégio que a minha turma ganhou, as sessões mágicas de hipnotismo do padre Jorge, o espetáculo de variedades organizado e ensaiado pela D. Palmira Meireles e levado a efeito na antiga sala de espetáculos dos Bombeiros de Lousada, a ida de carroça até Paredes para um jogo de futebol contra o Colégio local, os torneios internos de ténis de mesa e voleibol, a participação nos torneios de atletismo e tantos outros momentos. E fiz amigos para a vida ao longo desses anos de que guardo gratas recordações.

Como a casa dos meus pais ficava a mais de três quilómetros da Vila de Lousada, o meu pai comprou-me uma bicicleta “roda 26” (mais pequena que o normal, porque eu só tinha dez anos quando entrei no colégio) para me deslocar no dia a dia. Dessas viagens de bicicleta de casa para o colégio e de regresso a casa, guardo memória do perigo que representavam as curvas atrás do Hospital de Lousada. Passar por ali em dias de “neve” (termo pelo qual se designava o gelo na estrada), era um desafio arriscado, um perigo constante. Apesar de tomar sempre as cautelas necessárias, dei alguns “sopapos” naqueles “paralelos”, pois tão depressa estava sentado no selim da bicicleta como, de repente, estava estendido no chão. Uma manhã o Arnaldo estatelou-se à minha frente, apesar de estar confiante de que nada lhe aconteceria. Quando o vi estendido ao comprido na estrada, não consegui conter uma grande gargalhada porque o que “estava a ver”, era a “arrogância apeada do pedestal”. Um pouco antes de chegar ali, vinha-se a gabar que não havia “neve” que o deitasse ao chão. Mas não cheguei a acabar e tive de engolir o riso, pois vi-me “acampado” ao seu lado, com o rabo a congelar do frio dos “paralelos” da estrada. Quando recordo esse episódio, vem-me à cabeça o provérbio “não te rias do vizinho que o teu mal vem pelo caminho”. Nessas curvas atrás do hospital, onde o sol não chegava no inverno para derreter o gelo, este tornava o piso muito escorregadio, fazendo cair ciclistas como o Arnaldo e eu, despistar automóveis, patinar e cair pedestres por mais cautelas que tivessem. Num desses dias de geada, até a leiteira levou consigo na queda a bilha cheia de leite e a perna. Ambas ficaram em péssimo estado … Retive a imagem do leite derramado na estrada, se bem que “não vale a pena chorar” sobre ele …

Desse tempo, recordo as idas à festa da Santa Águeda, em Sousela, em romagem anual a que não podíamos faltar, além do pequeno/grande merendeiro improvisado com aquilo que cada um conseguia desviar de casa, fosse um salpicão, uma garrafa de vinho ou algum pedaço de broa, para comermos em grupo, acantonados na encosta sobranceira à capela. E se o convívio e animação eram motivo mais que suficiente para ir àquela romaria, petiscar e beber alguma coisa era o perfeito complemento. Porque nesses tempos de “cinto apertado”, qualquer patuscada que incluísse “comes e bebes” só por si era uma benesse. 

E dei eu esta volta por esses tempos do colégio Eça de Queirós para recordar o meu primo Luís. Quando entrei para o primeiro ano ele ainda por lá andava e, confesso, já não sei dizer quantos anos ainda estivemos juntos. Saiu para a vida ativa muito antes de eu deixar o colégio, mas não se esqueceu dos companheiros que ali deixou. Foi trabalhar na Repartição de Finanças de Lousada e, de vez em quando, no final do trabalho ia ter connosco e desafiava três ou quatro de nós para o acompanhar. O local de destino era sempre o mesmo: a “loja do Meireles”, situada na rua de Santo António, ali a dois passos do estabelecimento escolar. Não era preciso perguntar ao que íamos pois sabíamos de antemão que ele mandaria servir duas ou três latas de atum com cebola picada e broa a acompanhar. Para “molhar a palavra”, um jarro de “remessa”, feita de vinho com cerveja e açúcar. Invariavelmente, o programa era este, em convívio muito animado. Ele tinha prazer em convidar amigos e pagar a despesa, não só por ser o único que já tinha salário, mas por um desprendimento natural e invulgar. 

Esses tempos, da chegada da televisão a Portugal, do Elvis Presley e do rock and roll, do Pelé e do Sputnik, o primeiro satélite lançado pelo homem a atingir a órbita ao redor da Terra, deixaram-me gratas recordações, imagens de uma adolescência distante onde os amigos ocupam lugar de destaque. E a amizade é sempre um bom motivo para celebrar a vida …

Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não…

Julgo que ninguém sabe ao certo qual foi o valor que os portugueses tiveram de pagar por dívidas que não eram suas, mas sim de bancos, banqueiros, vigaristas e ladrões, por decisão unilateral de políticos e burocratas. Dizem que já passa de dezassete mil milhões, embora os buracos que se vão descobrindo irão fazer com que ultrapasse em muito os vinte mil milhões de euros. Dinheiro que saiu e continua a sair do bolso de todos nós, através de múltiplos impostos silenciosos, em que os políticos são peritos. Mas há povos que resistiram a esse “assalto administrativo” e não aceitaram que os governantes se ajoelhassem perante os poderes, político e económico.

“No ano de 2011, pela segunda vez, a população disse não às ordens do Fundo Monetário Internacional (FMI). O FMI e a União Europeia tinham decidido que os 320.000 habitantes da Islândia deveriam assumir a bancarrota dos banqueiros e pagar todas as suas dívidas internacionais, que dava a base de doze mil euros por cabeça. Essa sociabilização pelo avesso foi rejeitada em dois plebiscitos. Diziam:

“Essa dívida não é nossa. Por que vamos pagar”? Num mundo cego e enlouquecido pela crise financeira, a pequena ilha perdida nas águas do Norte deu-nos, a todos nós, uma saudável lição de bom senso”.

No seu livro “Os filhos dos dias”, o escritor Eduardo Galeano”, nascido no Uruguai, dá-nos conta deste e de outros contrassensos que alguns políticos e dirigentes assumiram em nome do povo, mas que o povo rejeita liminarmente “quando é consultado”. Mas quase sempre não é ouvido, nem no seu sentimento nem nas suas aspirações. Alguém nos perguntou se queríamos pagar as dívidas que os banqueiros fizeram? Alguém nos questionou se deveríamos aderir à União Europeia? Ou ao euro? Como em tantas outras coisas, alguém decidiu por nós. Até acham que não temos “maturidade democrática” para tomar certas decisões e recusam ouvir-nos. Mas, às vezes, como dizia a letra da canção, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. E o povo toma a decisão nas suas mãos.

Ainda de Eduardo Galeano: “Há uns trezentos e sessenta milhões de anos, as plantas vêm produzindo sementes fecundas sem nunca receberem um tostão por esse favor que fazem a todos nós. Mas, em 1998, foi outorgada à empresa Delta and Pine a patente que santifica a produção e venda de sementes estéreis, que obrigam a comprar novas sementes a cada semeadura. E, em meados de 2006, a empresa Monsanto apoderou-se da Delta and Pine e também dessa patente. E assim, a Monsanto consolidou o seu poder universal. As sementes estéreis, chamadas de “sementes suicidas” e ainda de “sementes Terminator”, integram o muito lucrativo negócio que também obriga a comprar herbicidas, pesticidas e outros venenos da farmácia transgénica. Na Páscoa de 2010, poucos meses depois do terramoto, o Haiti recebeu um grande presente da Monsanto: sessenta mil sacos de sementes produzidas pela indústria química. Os camponeses juntaram-se para receber a oferenda e queimaram todos os sacos numa imensa fogueira”.

De vez em quando, vinga esta consciência coletiva do que é realmente importante para a sociedade e melhor serve o seu futuro, mesmo que os “rótulos” nos vendam o contrário. Neste caso, todos precisamos de perceber as consequências a longo prazo da utilização daquele tipo de sementes, que vêm eliminando as sementes naturais, fecundas e com capacidade de se multiplicarem. Ao seguir por esse caminho, colocamos todo o potencial reprodutivo das culturas importantes para a alimentação humana nas mãos de uma empresa monopolista, sem escrúpulos pelos reais interesses da humanidade, para quem o lucro é o objetivo sagrado. E só. Os camponeses do Haiti perceberam isso, como perceberam os de Valpaços quando se confrontaram com uma grande plantação de eucaliptos na sua região, falha de água e onde tal árvore é estranha e problemática. Sem medo, disseram não.  

A 31 de Março de 1989, o povo de Valpaços invadiu uma quinta no vale do Lila para arrancar 200 hectares de eucaliptos que a Soporcel tinha plantado na região. Quando o sino da aldeia tocou a rebate, oitocentas vozes entoavam juntas “oliveiras sim, eucaliptos não” e arrancaram à mão os eucaliptos plantados pouco antes, enquanto fugiam à ação da polícia que as tentava impedir. Hoje, o Ermeiro é terra de nogueiras, amendoeiras, oliveiras e pinho. E nunca ardeu …

E, tal como o povo de Valpaços não permitiu que os eucaliptos lhes invadissem e ocupassem a região, também os bolivianos souberam escolher entre a ilusão publicitária da “comida de plástico” e a sua cozinha tradicional, sem alardes, mas com sabedoria. E, mais uma vez, retiro do livro de Eduardo Galeano este registo “alimentar”: 

“Em 2002, fecharam as portas os oito restaurantes McDonalds na Bolívia. Apenas cinco anos demorou essa “missão civilizadora”. Ninguém a proibiu. Aconteceu simplesmente que os bolivianos lhes viraram as costas, ou melhor, se negaram a abrir-lhes a boca. Os “ingratos” negaram-se a reconhecer o gesto da empresa com mais êxito no planeta que, “desinteressadamente”, honrava o país com a sua presença. Os “anos de atraso”, impediram que a Bolívia se atualizasse com “comida de plástico” e os vertiginosos ritmos da vida moderna. As “empanadas caseiras” derrotaram o progresso. Os bolivianos continuaram a comer sem pressa, em lentas cerimónias, teimosamente apegados aos antigos sabores nascidos no fogão familiar. Foi-se embora, para nunca mais, a empresa que no mundo inteiro se dedica a “dar felicidade às crianças”, a mandar embora os trabalhadores que se sindicalizaram e a multiplicar os gordos”.

As democracias modernas, muitas vezes mais não são que regimes de milhentas pequenas ditaduras contra as quais nos devemos impor ao assumir uma cidadania plena, para as denunciar e dizer “Não”. Poder político e poder económico andam de braço dado e associam-se com demasiada frequência por “interesses comuns”, que nem sempre são os interesses dos cidadãos. A recusa dos islandeses em pagar a conta que não lhes pertencia, a consciência dos agricultores do Haiti de que a oferta daqueles sacos de sementes era “um presente envenenado”, a determinação do povo de Valpaços em não permitir que o poder económico, sob a capa de “investimento”, lhes ocupasse as terras com árvores invasoras e desajustadas à região e a escolha acertada dos bolivianos pela cozinha tradicional contra a “comida de plástico” como se fosse sinal de desenvolvimento (quando é de colonização), mais do que um sinal de esperança, são exemplos de determinação na defesa do que verdadeiramente interessa.    

Só que não passam de pequenos oásis no deserto da indiferença dos cidadãos de todo o mundo, incluindo o nosso … 

Escravos da tecnologia, perdemos o momento …

Noite de Natal. À roda daquela enorme mesa de madeira maciça, mais de trinta elementos da família estavam reunidos para a Ceia de Natal, na celebração do amor, da partilha e da pertença. À chegada dos que vieram de mais longe, dois deles do outro lado do oceano, a alegria do reencontro e o entusiasmo por estarem juntos tinham enchido a casa de vozes animadas, em conversas cruzadas de quem quer saber tudo ao mesmo tempo. Já sentados à mesa e depois das crianças pequenas terem comido, serviu-se o tradicional bacalhau com batatas cozidas e o ruído das conversas foi baixando de tom, com as bocas ocupadas noutra função. Numa ponta da mesa, uma “jovem” viúva de sessenta anos que viera da cidade, com o garfo na mão esquerda e o telemóvel na direita, ao mesmo tempo que “dava ao dente” tirava fotografias a tudo e a todos, escrevia e publicava de imediato as imagens da Ceia e ia lendo mensagens e os comentários em voz alta, numa comunicação permanente com todos os “amigos do Facebook” a quem se dedicava de alma e coração, em “pescaria” para “fisgar” algum “peixão” que lhe acabasse com a solidão. Enquanto recebia mensagens de cada um dos seus “amigos”, comentava os “resultados” dos encontros com eles. Na verdade, foi uma Ceia de Natal em que quase só esteve “presente” lá longe, ligada em direto ao aparelho que a sua mão direita manipulava muito bem apesar das seis décadas de uso, até regressar à cidade.

Apesar de já alimentada, a pequena Catarina que ainda não tinha três anos de idade, ora corria à volta da mesa obrigando o pai a atenção redobrada, que não evitou duas quedas, ora choramingava para pedir atenção ou colo. Quando a mãe manifestou sinais de incómodo pelo comportamento da criança, o pai resolveu o problema depressa e da forma habitual: levantou-se, foi ao móvel da entrada recolher o seu moderno telemóvel e, sem se dar ao trabalho de o ligar, entregou-o à “pequerrucha” que o agarrou com as duas mãos. Foi como quem deita água no lume. A pequena Catarina, que mal podia com o sofisticado aparelho, desatou a carregar aqui e ali, ligando-o, abrindo a aplicação que tinha o jogo com os bonecos preferidos e não mais foi vista aos gritos ou a correr. Acabou por adormecer sozinha, com o telemóvel entre as mãozitas, provavelmente cansada de matraquear nas teclas da tecnologia que parecia dominar melhor que os mais velhos ali presentes.

Como as coisas evoluíram: se antigamente as mães, para calar as crianças pequenas lhes enfiavam na boca a “boneca”, um pequeno embrulho de pano de linho embebida em aguardente e açúcar, fazendo “adormecer” as mais impertinentes “por anestesia”, agora dá-se-lhes para a mão um pedaço de tecnologia que manipulam instintivamente e as deixa “pedradas”, “ausentes” e anestesiadas para o que se passa em seu redor. Já nem sei o que é melhor …

O João, adolescente de quinze anos, intercalava cada garfada com as mensagens que escrevia a grande velocidade à namorada, com a mão debaixo da mesa e sem olhar ou lendo as respostas que lhe punham algum brilho nos olhos. Quando a Ceia ia a meio, mais de metade dos “participantes” estava “ausente” através desses aparelhos que toda a gente carrega no bolso ou na bolsa, mais preocupados em comunicar com quem está longe do que com quem lhe está encostado, ombro com ombro ou “de caras”, pelo “Facebook”, “Instagram”, “Twitter” e outras redes sociais. Talvez a dificuldade seja no ter de olhar o outro olhos nos olhos … Até uma jovem mãe “despachou” o ainda bebé para a madrinha ali presente, que teve de se haver com duas “descargas” intestinais da criança e uma “borradela” dos pés à cabeça, para se dedicar a essa “ingrata e difícil” tarefa de se “agarrar” ao “Facebook” enviando mensagens e fotografias dos doces de Natal da sua ceia, enquanto recebia outras, numa oportunidade para criticar: “Esta não tem vergonha de pôr farturas à mesa” ou ainda “vejam se isto é um arranjo de flores que se ponha numa mesa de Natal…”. Entretanto, a madrinha cuidava de limpar o rabinho à criança!!!

Perto do final da sobremesa, dos trinta e tal comensais só quatro continuavam “a cear” em “amena cavaqueira”. O que já não era mau. Todos eles tinham alguns fatores em comum: idade avançada, não dominavam as novas tecnologias e, quanto a redes, certamente só conheciam as de arame … Além disso, com as dificuldades de audição próprias da idade, se alguém lhes falasse no “Instagram” poderiam reagir como alguém que conheço: – Se “está grande”, não é meu.

Quando um elemento desta família me relatou esta Ceia de Natal, percebi o sentimento de “frustração” na voz e no olhar porque, no seu imaginário, gostaria de ter encontrado ali um espaço de convívio e partilha da família num momento que é único, em vez de uma triste manifestação da “dependência tecnológica” de que a maioria de nós hoje enferma, para se entregar ao instinto básico de “exibicionista”, de “mirone” e “comentador encartado”, quando não cáustico, nas “trocas de galhardetes”.

Ao ficarmos vidrados nos telemóveis, tabletes e outros aparelhos com que a tecnologia nos vem brindando como se fossem o caminho para sermos felizes, ligados à net porque sim, ao Facebook porque é baril, ao Instagram porque está na berra, a quem está longe talvez porque não tem rosto, durante as refeições de família e, muito em especial nesse acontecimento único que é a Noite de Natal, perdemos momentos que não se repetem, conversas a que devíamos pertencer e estar integrados, pormenores, respeito e dedicação aos outros e a capacidade e dever de “estar presente”. Mas não. Estamos muito mais empenhados e interessados em fazer publicidade do que se está a passar connosco e à nossa volta, armados em “repórteres do diabo” e mirones, em lugar de sermos “parte integrante desse momento”. De que, estupidamente, nos demitimos …

Ela perguntou: “Du yu espic inglish”?

Há alguns anos atrás (o que é caso para dizer: “ao tempo que isto dura”…), questionava aqui “porque não mudar de língua”? É que o português, português (de Portugal), morreu, já não existe. Tirando alguns “nativos” das aldeias do interior que ainda incluem no seu vocabulário palavras como “bloques”, “presigo”, “lapada”, “tringalha”, “borra-botas”, “indireita” e muitas mais que os jovens de hoje já não conseguem “traduzir”, já não se fala o português de Portugal. Nem se quer, nem se sabe falá-lo e, pior, até parece que temos vergonha de o falar. Porquê? Porque é uma língua de pacóvios, arcaica, ultrapassada e tão fora de moda. Tentamos espalhá-la pelo mundo e o que se vê nos países “ditos de língua portuguesa”? Adulteraram-na de tal forma que não os entendemos. À mistura com palavras da nossa língua, têm muitos outros vocábulos que ignoramos ou nos induzem em erro e até podem provocar-nos embaraços. Ora, façamos um teste: quando um brasileiro fala em “veado” julgamos que se refere a um animal selvagem de grande porte. Errado. Quer dizer “homossexual”. Ou se disser “galera”, não se refere a uma nau, mas a um conjunto de pessoas. E muitas mais poderíamos citar. Se saltarmos do português do Brasil, para o de Angola, Moçambique ou Timor, torna-se ainda mais complicado.

Mas o que mais incomoda é que, a cada dia que passa, substituímos mais e mais palavras nossas por “estrangeirismos” que nada têm a ver connosco. É só uma questão de moda, de querer dar um ar de que se sabe estar, se é culto, como dizia uma velhota da aldeia, “de armar ao pingarelho”. E tem razão. E desses “estrangeirismos”, o maior uso e abuso é de palavras inglesas. Por tudo e por nada, lá estamos nós a “gramar” com o know-how ao falar de experiência técnica, report quando temos “relatório” para dizer o mesmo, budget no lugar de orçamento ou dá-me o teu feedback quando se pede “só” opinião. Já Eça de Queirós no episódio das corridas do hipódromo em “Os Maias” exagerava de propósito dos “estrangeirismos” para mostrar quanto é ridícula essa mania.    

Engolimos a selfiequando nos estamos a fotografar a nós próprios, tudo é topquando devia ser bom ou fantástico, o que até graduava melhor. Já não corremos, fazemos running. Dizer que criamos uma “marca” é para atrasados mentais. Tem de ser brand. Até os tascos, tão tipicamente portugueses, já têm escrito à porta take awayou hot-dog. Onde é que vamos parar? Nem falo nos festivais de música que enchem os verãos deste palco à beira mar de norte a sul. NOS Alive, Freedom Festival, EDP Beach Party, Rock in Rio,EDP Cool Jazz, e muitos outros, que “não seriam nada se não fossem “vendidos” em inglês, como se a maioria dos espectadores fossem ingleses ou estivéssemos na terra dos “camones”. E não é de admirar. Quando o poder político, num gesto claro de submissão e “baixar as calças” aos reformados ingleses que povoam o extremo sul do país, pôs a sua chancela na mudança do nome dessa região para “ALLGARVE”, é caso para perguntar: “O que vem a seguir”.

Hoje deu-me para voltar a “pegar” com esta mania, esta “vergonha” ou medo de falar em português, porque um amigo me fez chegar a

carta que uma senhora escreveu a um canal de televisão para que a lessem em direto, intitulada “Du yu espic inglish?”. E eu, não tendo qualquer indicação do nome da autora, transcrevo-a em homenagem:

“Desde que aos emblemas chamam pins, a maricas gays, às comidas frias lunches e aos elencos de filmes castings, este país não é o mesmo: agora é muito, muitíssimo mais moderno. Antes as crianças liam banda desenhada em vez de comics, os estudantes colavam posters pensando serem cartazes, os empresários faziam negócios em vez de business, e os operários, tão ordinários que eles eram, pegavam numa caixa ao meio-dia em vez de tupperware.

Eu, no colégio, fiz aeróbica muitas vezes, mas, que tonta que era, pensava estar a fazer ginástica. Ninguém é realmente moderno se não disser todos os dias cem palavras em inglês. As coisas noutra língua soam-nos muito melhor.

É evidente que não é o mesmo dizerbaconem vez de presunto, ainda que tenham a mesma gordura, nem vestíbulo em vez de hall, nem deficiente em vez de handicap… sob este ponto de vista, nós, os portugueses, somos moderníssimos.

Já não dizemos biscoito, mas cup-cake, nem temos sentimentos, mas feelings. Compramos tickets, tablets, comemos sandwiches, vamos ao pub, praticamos rappele raffting, em vez de acampar fazemos camping, e quando vem o frio, assoamo-nos com kleenex.

Estas mudanças de linguagem influenciaram os nossos costumes e melhoraram muito o nosso aspeto. As mulheres não usam meias, mas panties, e os homens não usam cuecas, mas slipse depois de se barbearem deitam after-shaveque deixa a cara muito mais fresca que o tónico.

O português moderno já não corre, mas faz jogginge footing; não estuda, mas faz masterse nunca consegue estacionar, mas encontra sempre um parking. O mercado agora é o marketing, o auto-serviço o self-service, a escala o rankinge o diretor, o manager.

Os importantes são vips, os auriculares walkmen, os postos de venda, stands, os executivos, yuppies, as babás, baby-sitterse até nannies. No escritório, o chefe está sempre em meetingsou brain stormse quase sempre com public-relations, enquanto a assistantenvia mailingse organiza trainings. Depois irá ao ginásio fazer gim-jazze encontrar-se-á com todas as do jet, que acabam de fazerliftings e com algumatop-modelamante de iogurte light e do body-fitness.

O arcaico aperitivo deu lugar aos cocktails, onde se oferece roast-beef. Ainda que pareça o mesmo, engorda muito menos que a carne.

Uns trabalham num magazine, não num programa. Na televisão, quando o apresentador diz várias vezes O.K.e dança rodando pelo palco, a isso chama-se show, muito diferente, como sabem, do antiquado espetáculo; já não põem anúncios, mas spotsque, para além de serem muito melhores, permitem-lhe fazer zapping.

Espero que tenha gostado … e que não tenha ficado com stress”.

E eu paro por aqui, sem dizer “stop”, que seria mais moderno e muito mais chique …

Chá de limonete e água das Pedras…

Era dia de casamento lá na terra. Casava-se a irmã do Alberto e o que mais o estava a entusiasmar era a possibilidade de “tirar a barriga de misérias”. Passara o ano a comer praticamente caldo e broa, tirando uma ou outra ocasião em que a mãe matara uma galinha gorda que já não punha ovos e fora assim que “metera o dente” numa coxa de ave que teve de dividir com o irmão mais novo. Naquele dia a “conversa” seria outra. O almoço de casamento era obrigação dos pais e a mesa foi colocada debaixo da ramada, no quinteiro, para ficarem abrigados do sol intenso daquele dia quinze de Agosto. A mesa comprida para acomodar tantos convidados era composta por mais de dúzia e meia de pequenas mesas emprestadas pelos lavradores vizinhos a quem o pai recorrera. Cobertas com toalhas de linho branco, dava gosto olhar aquele alinhamento todo dos pratos, copos e talheres prontos para o que viria a seguir à missa de casamento. No seu fato domingueiro, ele foi dos primeiros a chegar a casa, tendo esperado somente pela saída dos noivos da igreja para lhe atirar os “confeitos”, enquanto as irmãs os cobriam de flores. Viera logo a seguir porque tinha de ajudar a preparar as canecas de vinho tinto da pipa que o pai mandara abrir de propósito para a boda.

Quando toda a gente estava sentada, com os noivos instalados ao meio ladeados pelos padrinhos, “começou o trabalho” logo que da cozinha saíram as panelas de canja de galinha que as moçoilas foram servindo em grandes tijelas, amarelinha da muita gordura a boiar à tona, enquanto os convivas enchiam as tigelas com bocados de pão para fazer sopas. Seguiu-se o lombo de porco assado no forno com batatas, em assadeiras de barro, acompanhado de arroz em caçoilas, tostado por cima e amarelinho do açafrão, mas com bom aspeto. A cozinheira, que viera da aldeia vizinha era muito conhecida pelo seu arroz de forno. Toda a gente se serviu mais que uma vez e comiam muito calados, ao princípio. Mas, depois de emborcarem as primeiras canecas de vinho, a conversa animou. Desapertaram-se as gravatas, tiraram-se casacos, arregaçaram-se mangas e comia-se a bom comer. Quando o lombo começou a rarear, serviram o cozido à portuguesa, preparado com carne dos dois porcos que o pai da noiva matara para o repasto. Tinha carne da barriga, costela, colada, coração, salpicão, chouriça de sangue e muita tronchuda, além de arroz a acompanhar. O Alberto comia com sofreguidão, como se estivesse com medo que a comida acabasse e pudesse armazenar na barriga o suficiente para mais duas ou três semanas, como os camelos. Quando veio o cabrito assado, a barriga negou-se. Não cabia mais. “Não pode ser”, pensou. Olhava a assadeira e o apetite mantinha-se … na cabeça. Só. Agora que tinha ali comida à farta, não era capaz? Não hesitou. Levantou-se da mesa e foi ao fundo do quintal. Meteu dois dedos à boca e … “atirou a carga ao mar”. Não foi caso único, muitos outros fizeram o mesmo. E sentiu que podia voltar à liça, pois já tinha espaço para “armazenar” o cabrito e o que mais viesse a seguir.

No final, o pessoal ficou por ali encostado, alargando dois furos ao cinto para atenuar o incómodo da barriga inchada como um balão, de tanto enfartamento. Para “ajudar à digestão”, veio “bagaço”, que agravou mais do que ajudou. Numa boda cá da terra, alguém “enfardou” mais de “uma cesta de vindima de comida”. E ficou a chorar, com pena de não conseguir continuar …

O enfartamento por comer demais já vem de longe. Se nesse tempo só nos casamentos se podia “tirar a barriga de misérias”, nos dias de hoje, de outras formas, são muitíssimo mais as lautas “comezainas”, a sensação do estômago cheio que não passa, a indisposição que é um desassossego, a pança inchada de “vaca prenha” e a dor remoendo a parte superior da barriga. Os casamentos são o “mal menor”, porque nem são muitos. Mas os almoços e jantaradas, com parceiros do jogo da bola semanal, do grupo de ginásio, encontros de família, batizados, comunhões, Páscoas e Natais, nas festas de aniversários, celebrações e outras festas pelos motivos mais estranhos, são frequentes, muito frequentes. E, quando ainda não se recuperou de um, já temos de ir a outro. Então, nesta quadra natalícia, tudo serve para se organizar um almoço, jantar ou mesmo um lanche ajantarado, servido com comida que dava para várias refeições e o triplo de pessoas, que teimamos em comer numa só. Os amigos “vendem-nos a ideia” que se “come um cabrito espetacular” em Lamego, “lampreia à bordalesa” como não há outra em Monção, boas enguias em Benavente, um javali maravilhoso em Bragança, chanfana (cabra velha) de “morrer e chorar por mais” nas Beiras e o tradicional leitão à moda da Bairrada, mas noutro local qualquer, para não falar em mais algumas centenas de especialidades que nos levam a um roteiro gastronómico diferente para cada dia dos anos da nossa vida e onde, seguramente, comemos demais, bebemos melhor e saímos enfartados e com dor de barriga, a clamar por uma garrafa de “água das Pedras” para ajudar à digestão. E, chegados a casa, só resta apelar para a mulher: “Fazia-me tão bem um chá de limonete”!!!

Hoje comemos demasiado, como nunca. E por isso, “sofremos mais agora ao comer demais do que se sofria antigamente por comer de menos”. É que achamos espetacular “aquele restaurante” que tem entradas de arromba que, só por si, seriam um lauto almoço. Mas nós comemos as entradas (e acompanhamos com gin ou whisky) e ainda o almoço de um ou dois pratos (regados a vinho tinto) e atacamos as sobremesas, “fechando a porta” com café e “digestivo. É demasiado. E esse demais repete-se muitas vezes. Ainda sem recuperar de ontem, já estamos a “enfardar” hoje noutro. E não há barriga que resista …

Quem vai para uma “guerra” dessas onde sai sempre a perder, tem de tomar providências: “Engolir um “omeprazol” em jejum, pela manhã, beber água das Pedras antes de “começar a dar ao dente” e meter um “imodium rapid” na boca a derreter, pelo sim, pelo não”. Fica pronto para a refrega e o abuso nos “comes e bebes”.  Com isso, talvez evite as dores de barriga, o “roncar” da pança, os afrontamentos, arrotos e até os “gases”, mais ou menos sonoros, mais ou menos “perfumados”.

Cá por mim, que já ando “nesta vida” há muitos anos, prefiro seguir outra estratégia: “Muita conversa enquanto os outros comem. Comer um só prato de que goste e, na sobremesa, um pouco de fruta”. E isso resulta? Não posso afirmar que sim. A intenção é boa, mas como não costumo cumprir a rigor, quando chego a casa só me resta tomar chá de limonete e beber três ou quatro garrafas de água das Pedras para “desmoer”. E então, a tal pressão abdominal começa a abrandar. Quando abranda …

Quando morre a avó, perde-se tanto …

Avó também é mãe. Mas, muito mais que isso, é mãe de mães, o saco de histórias feitas belas prendas para os netos, a experiência de vida transformada em sabedoria, o rosto engelhado com alma macia, um coração de mãe adoçado pelo mel da idade. Quem tem uma avó ao longo de muitos anos tem um tesouro e pode orgulhar-se de viver com a história. Avó verdadeira marca a infância dos netos, é alguém especial que ensina coisas sábias da vida até pelo exemplo, que conta histórias de encantar, quer saber da vida dos netos, ser a confidente que compreende e não repreende, ouve e não acusa, ensina e não cobra. Sempre sabe dar um abraço quando todos querem dar castigo. Avó é cabelos brancos, olhos vivos, rugas profundas. Também regaço de netos e ajuda de filhos, sorriso tranquilo, armazém de paciência. Mas avó é mortal, é uma despedida, é perda, é adeus, um “até breve”.

Foi assim que morreu uma avó, de seu nome Maria, já na última etapa para chegar ao centenário. Teve vida plena e, por isso, deveríamos celebrar a sua partida para uma outra vida, se acreditamos nela, em vez de chorar a perda, uma manifestação do nosso egoísmo. Mas seus netos fazem o luto e choram, porque no luto não há certo nem errado já que a perda pode trazer tristeza, confusão, raiva, choro e solidão. O tempo curará tudo isso. E ajuda pensar no que se aprendeu com ela, na felicidade de a ter tido na vida, de saber que teve de atravessar o sofrimento e a dor, mais moral que físico, para chegar até aqui.

Nasceu pobre, igual à maioria das gentes do seu tempo e desde bem cedo teve que trabalhar como “criada de servir”, a profissão de uma vida, longa. Quando ainda solteira engravidou. Os pais, condicionados pela moral espartana de então, não aceitaram e, clamando desonra e vergonha da família, expulsaram-na de casa. Foi acolhida pelos donos do lar onde “servia”, que a trataram não como empregada, mas antes como filha. Dali saiu para casar na igreja com o amor da sua vida, um mês antes de nascer a filha. Dizia que nunca casaria com um lenhador ou pedreiro, pela vida dura que levavam. E o que lhe saiu na rifa foi … um lenhador.

Encontrou na sogra aquilo que perdeu da mãe, em proteção, carinho, compreensão e amor. Mas retribuiu-lhe em dobro, ao ponto de fazer questão de tirar para ela o melhor bocado do almoço de domingo e levar-lho a casa mesmo antes de comer. Trabalhou em diversas casas de família, sendo profissional excelente, zelosa e merecedora de toda a confiança. Por onde passou deixou amizades para a vida, respeitou e fez-se respeitar. E até soube manter na ordem um patrão conhecido por “abusar” das empregadas. Ignorou-o quando simulou doença só para a atrair e quando na cozinha lhe apareceu por trás e a abraçou pela cintura, não hesitou um segundo e passou-lhe a faca ao correr dos dedos fazendo-lhe um golpe em todos eles que o fez dar um salto, recuar e gemer a sério. Acabou-se ali o “assédio” …

Em casa, acendia o lume no lar com pinho, lenha e tonas de eucalipto que apanhava no monte e carregava à cabeça atado molhes. Por duas vezes foi chamada à GNR, acusada por um proprietário forreta que aos pobres nada dava. Só lhes tirava o suor. A sua vida ficou marcada pelo trauma da expulsão de casa pelos pais. Só conseguiu apaziguar a mágoa quando voltou a ouvir deles o “Deus te abençoe, minha filha”. Ao morrer a avó Maria perderam-se histórias, sabedoria, experiência, memórias e tantas coisas mais. Mas ela ganhou: regressa finalmente à casa paterna e ao convívio dos pais …

Porque é um hino maravilhoso e sentido à “Avó Maria”, a “Guerreira”, da autoria de uma neta, não posso deixar de partilhar este poema:

“Onde estão teus cravos Mulher?

Gastaste seu cheiro para abafar tuas lágrimas

Abafaste um regime para vencer tua luta

Desafiaste autoridades para sustentar tua casa.

Mulher de trabalho árduo

Que sempre ajudaste quem por ti clamou

Trabalhaste na dura labuta para seres alguém.

E foste, e és.

Irmã mais velha de uma imensa família.

A ti eram imputadas todas as fainas

Grávida e sem matrimónio consumado

Por teus pais foste excomungada

Verteste lágrimas de sangue.

Mas tua força maior não vacilou

O Homem que ao teu lado estava

E que teu coração cedo roubou

Não te abandonou, sempre te amou.

Tua força era medonha

Teus dias completavam muitas horas

Tuas mãos concebiam trabalhos muitos

Tua cabeça molhos de lenha carregou

Para tua lareira arder e bocas alimentares.

Onde estão teus cravos Mulher?

Cortaste-os para as sepulturas asseares

Dos entes que partiram sem deixares

Mulher a quem os anos levaram

A força braçal imensa

A destreza de tuas pernas

O sorriso e as palavras poucas.

Onde estão teus cravos Mulher?

Estão agora em teu jardim

Que admiras com prazer

Nos dias que descontam

Tuas histórias de Mulher

Teus conselhos prudentes

Tuas palavras parcas.

Onde estão teus cravos Mulher?

Para sempre em teu coração…

Quer um conselho? Não roube. Desvie …

Não sou juiz, nem pretendo julgar ninguém. Sou um simples cidadão que, dos tribunais, só gostaria de ter notícias através da comunicação social. Mas não, também tenho a minha dose, especialmente no que toca a esperar. Esperar no átrio da entrada para saber se há ou não há julgamento. Esperar anos e anos para que o julgamento tenha um fim. Ir a tribunal para ser ouvido como testemunha e esperar toda a manhã ou a tarde sem sequer ser ouvido, tendo de lá voltar outra vez, quando não mais algumas vezes, sem que alguém tenha respeito por nós testemunhas, como se fossemos escravos que podem ser usados quando e como o sistema quiser. E sem direito a reclamar. Mas não é sobre isso que hoje escrevo, mas de algo que me parece um paradoxo. Julgo que a Justiça portuguesa é só uma, com as mesmas leis para todos os tribunais e que, à luz dessas leis, julgamentos e sentenças devem ter uma linha comum, com coerência, onde ninguém se sinta discriminado por ser rico ou pobre, mais gordo ou magro, mais alto ou baixo, da religião A ou B, do partido centrista ou comunista, ou por ser branco ou negro. A verdade é que, às vezes, não parece que assim seja. “Todos somos iguais, mas um são mais iguais do que outros”. Ou parecem …

O tribunal de Aveiro julgou um antigo funcionário bancário por ter “desviado” 286.000 euros de clientes, tendo sido condenado a três anos e meio de prisão … com pena suspensa por igual período. Ainda foi condenado ao pagamento de 35.000 euros, a serem pagos em sete prestações de 5.000 euros cada. Só vai “bater com os costados na cadeia” se não pagar a “multa”. Caso cumpra, pode fazer com o resto do dinheiro ROUBADO o que quiser, sem que tenha de pagar por isso. O que “até acho bem”, pois o homem precisava de ser recompensado pelos momentos de angústia – se é que os tinha – sempre que “estava a meter a mão no prato”, ou melhor, “na conta dos clientes”. Daí ser justa a “pena suspensa”, até porque eu nem era cliente do banco …

Que é que isto tem de original? Nada, até porque o bancário não fez nada de mal. Não roubou. Ele “DESVIOU”, o que é bem diferente de ROUBAR. Que não haja confusões. Ladrão, ladrão é aquele malvado que o tribunal de Braga acaba de condenar a um ano e meio de prisão efetiva por ter roubado a avultada quantia de … 6,00 euros. Repito e por extenso: SEIS EUROS!!! No julgamento, o arguido confessou o crime, mostrou-se arrependido e pediu desculpa à vítima. Disse que na altura consumia estupefacientes e “andava desesperado” por falta de dinheiro para comprar droga. Segundo a acusação, ele abeirou-se da vítima, disse-lhe que tinha uma faca e exigiu que lhe desse todo o dinheiro que tinha consigo. E a vítima deu-lhe a carteira com 6,00 euros, que ele levou, pondo-se em fuga. Mas este, sim, é um ladrão a sério, que diz que roubou. E logo na rua, à vista de quem passa, o que é uma ousadia maior. Ainda se fosse escondido num gabinete, mesmo foleiro, vá que não vá. Mas, na rua, é obra. Merece ir “ver o sol aos quadradinhos”, até para que na próxima aprenda a não roubar, mas a “desviar” ou a “governar-se” para nós, opinião pública, o absolvermos automaticamente quando dissermos: “Este é que foi esperto” …

Eu confesso, não assisti a nenhum dos julgamentos e reproduzo o que a comunicação social informou, tendo mesmo questionado se devia o “ladrãozeco” apanhar tanto por tão pouco. Presumo que a imprensa não tenha mentido e comparam-se critérios, se é que são os mesmos. Leio outras notícias sobre outra sentença. Que posso pensar ao ler a notícia que “o conhecido banqueiro que levou um banco à falência foi condenado a cinco anos de cadeia … com pena suspensa. O roubo terá sido também suspenso? E ainda a informação de que um maestro foi condenado a cinco anos de prisão … com pena suspensa. “Utilização indevida” de 720.000,00 euros do erário público e falsificação de documentos. Porque será que estes “dois ladrões”, com penas bem maiores, tiveram direito a que fosse suspensa a aplicação efetiva da sentença, enquanto o “pilha-galinhas” que roubou seis euros – sendo certo que a carteira podia conter alguns milhares, que não tinha – não teve a mesma “benesse” de ver a pena suspensa? Acho que o dito não usa suspensórios, com toda a certeza … Por uma questão de transparência, convém dizer que o “pilha-galinhas” já era reincidente, mas, “por seis euros” deve-se pô-lo “à sombra” por mais ano e meio? Custa a entender a lei. Daí o espanto dos jornalistas … e o meu.

Comparando com outros julgamentos e outras sentenças, para quem não é juiz nem quer julgar nada, “a bota não bate com a perdigota”. E se basculhar na imprensa por notícias de sentenças diversas, tanto de roubos como de crimes económicos (que não são outra coisa senão roubos), já para não falar em violações, pedofilia e outros, encontro com certa frequência a aplicação de prisão, mas com pena suspensa. Provavelmente as prisões estarão com excesso de lotação e há que travar o fluxo de mais “clientes” para aqueles “hotéis”, cuja fatura é paga por todos nós. Não acredito que seja pela cara mais ou menos bonita do “artista”, pela sua capacidade oratória e desempenho como ator dramático ou pela roupa que veste no momento.

De tudo o que li e ouvi, fico com a convicção de que, quem um dia quiser “governar-se”, deve começar por manter a “ficha limpa” até ao momento do “golpe”. Depois, não se proponha roubar, mas fazer um “desvio” para satisfazer um vício, verdadeiro ou falso, ainda que o tenha de inventar. E, por fim, não caia na patetice de “desviar” seis euros, nem nada parecido. Faça a coisa em grande, na ordem dos milhões, muitos. Quando for julgado, declare que está arrependido (chore para ser convincente) e diga que gastou tudo no casino, nas mulheres ou no “pó”. “Que tudo o vento levou”. Vai apanhar alguns anos de prisão, mas como é a primeira vez, terá certamente … a pena suspensa. Pode ter de pagar uma multazita, “aos bochechos”, mas vai sobrar-lhe muita “massa” para ter a reforma antecipada num paraíso qualquer, onde não terá tentações para ser reincidente.

E nunca será um ladrão, mas um homem “esperto” …  

E se esquecer, atrapalhar o dia a dia?

A meio do jantar levantei-me, fui à cozinha, abri a porta do frigorífico e … fiquei ali parado, sem saber o que ia fazer. Deu-me uma “branca”, um apagão, tive um lapso de memória. “Mas o que é que eu queria?” pensava com os meus botões. Voltei à sala, sentei-me e só depois me lembrei do que ia buscar ao frigorífico. Será isto normal? Sou um caso único ou toca a todos? Diz quem sabe que é coisa que acontece a toda a gente, embora a uns mais do que a outros, havendo fatores que podem contribuir para que isso aconteça mais. E o principal, e mais comum, é a idade. Quantas vezes não vamos fazer uma pergunta a alguém e, só porque somos interrompidos no momento, esquecemos o que queríamos perguntar? Sob o stress de um exame, quantos alunos não bloquearam perante uma pergunta que sabiam e não são capazes de “dar mais uma para a caixa”?

Esquecimentos ocasionais fazem parte da vida, sendo certo que, com a idade, os “lapsos de memória” começam a ser mais frequentes. Não lembrar o nome de alguém, onde se deixaram as chaves do carro ou os óculos de sol, em regra mais não é do que o envelhecer normal do cérebro, até porque um cérebro de 80 anos não tem as capacidades de um de 20. Para me defender, tento usar o sistema da organização pessoal. Coloco as chaves do carro e da casa sempre no mesmo local, tal como os óculos, o telemóvel, o relógio e todos os outros objetos pessoais. E não são só os pequenos.

Algumas vezes no centro da vila dou comigo à procura do carro, pois não me lembro do local onde o estacionei. E ele nem é assim tão pequeno. Mas há sempre quem faça mais que a gente. Um conceituado advogado de Lousada um dia foi ao Porto e levou a esposa consigo. Depois de a deixar no centro a fazer compras, foi tratar do assunto profissional que o fizera ir à cidade. Ao fim da tarde regressou a Lousada e, quando chegou a casa, perguntou ao filho: “Onde está a tua mãe”? “A mãe não foi consigo ao Porto?”, contrapôs o rapaz. “Ei, que me esqueci dela” …

Com o passar dos anos, aumentam os esquecimentos, a demora em aprender coisas novas. Se tenho muitas recordações do passado, não posso deixar de reconhecer que muitas outras já se varreram para as profundezas do cérebro onde não sei como as “desenterrar”. E ainda bem que esqueci certas coisas … até deu jeito. Aliás, costuma-se dizer que ter péssima memória pode ser divertido, pois usufrui-se diversas vezes das mesmas coisas, como se fosse a primeira vez. E convém, se não se quer ser agradecido, quando se não pretende pagar dívidas e até para não sofrer de saudades. A questão passa a ser preocupante quando os esquecimentos começam por atrapalhar o dia a dia de cada um, quando não se consegue ir de casa ao supermercado ou ser capaz de regressar, de lembrar como se tira um café, se frita um ovo ou se corta a barba. Daí que se conte a história de três irmãs com 80, 83 e 85 anos de idade que viviam juntas e se ajudavam. Ora, uma delas foi tomar banho e, quando estava com um pé dentro e outro fora da banheira, gritou: “Meninas, alguma de vocês sabe-me dizer se eu estava a entrar ou a sair da banheira”? Outra das irmãs ouviu-a chamar, começou a subir a escadaria, parou de repente e perguntou: “Sabem-me dizer se eu ia a subir ou a descer as escadas”? A irmã mais velha estava sentada na sala. Ao ouvi-las, abanou com a cabeça e disse: “Cruzes, estão mesmo velhas e cada vez piores”. E, batendo três vezes na mesa, disse: “Ainda bem que não estou tão mal como vocês. Eu já vos ajudo, mas antes tenho de ir atender à porta que alguém está a bater” …

No final da minha adolescência tive um gravador de fita, onde gravei a música que estava “na berra”. Com o uso e o desgaste, foi perdendo capacidades, tanto de gravação como de reprodução. Julgo que com a memória é algo semelhante e há quem ache que não se está a fazer tudo o que se deve para investigar doenças que a afetam, ao contrário de outras áreas. Foi a pensar nisso que o médico brasileiro Drauzio Varella comprovou que o mundo investe cinco vezes mais dinheiro em estímulos para a sexualidade masculina e em silicone para a beleza feminina do que no estudo e descoberta da cura da doença de Alzheimer.

Por essa razão, o médico profetizou: “Daqui a alguns anos, teremos velhas de seios grandes e firmes e velhos com “paus” duros, mas nenhum deles se lembrará para que servem”.

Tudo isto para dizer o quê? Que, graças aos avanços constantes da medicina e de um conjunto de outros fatores, passamos a viver mais tempo, a “durar mais”, embora nem sempre com a qualidade de vida mínima que seria desejável. É certo que, nesse aumento da esperança de vida, não se prolonga a juventude. Prolonga-se a velhice, muitas vezes num “arrastar” penoso, com doenças crónicas e debilitantes, entre as quais está a “doença de Alzheimer”. Já são muitos os idosos com incapacidade e demências, sendo esse acréscimo galopante bem evidente nas listas de espera dos lares institucionais que, em regra, foram construídos a pensar nos utentes autónomos. Já lhes basta os que ali acabam por ficar nessa situação.

Pessoas com dependências graves e demências são sempre um problema para as famílias, sendo evidente que muitas delas não têm quaisquer condições para os manterem em casa. Nem físicas, nem económicas, nem de vida. Temos de compreender que não é legítimo exigir-se que o façam, porque é obrigá-los a “carregar uma cruz” demasiado pesada. E será bom que tenhamos noção dessa realidade e não atiremos cuspe para o ar, porque nos pode cair em cima. Os alojamentos institucionais são muito poucos para tão grave problema e nada se tem feito de há muitos anos a esta parte. Sendo estes doentes uma responsabilidade do estado, cabe aos políticos com funções governativas dar respostas urgentes a problema tão grave, em vez de “assobiarem para o lado” ou esperar que o doente, no vai e vem das viagens de casa para o hospital e do hospital para casa, morra pelo caminho e passe a ser um problema a menos …

Encontro do presente com o passado

Hoje fui a Macieira, a minha aldeia natal, visitar alguns familiares e aproveitei para rever também condiscípulos, vizinhos, amigos e até outros conhecidos de outrora, do tempo em que aquela era a minha casa diária. Como não podia deixar de ser, comecei pela família, num reencontro sempre emotivo em que às vezes não consigo conter as lágrimas. “Estar com os meus” traz-me sempre muitas recordações, memórias, lembranças de vida comum, mas sobretudo o sentimento de pertença. E “falei-lhes” muito, apesar de permanecerem quietos, deitados e num “silêncio sepulcral”, pelos sete palmos de terra que nos separavam.

Os meus irmãos Álvaro e António, roubados desta vida de forma tão abrupta e instantânea como quem desliga a luz no interruptor, sem tempo para despedidas, para dizer um “adeus”, “até breve” ou sequer um aceno, permanecem jovens de vinte e três anos e quase trinta e dois, na memória, no coração e nas fotografias da pedra lapidar. Não vão envelhecer nunca, nem ganhar rugas, cabelos brancos. Não singrarão nas suas carreiras já iniciadas, em trilhos que pareciam seguros e firmes. Não chegarão a formar novas famílias, a ter filhos e netos. Só escaparam de aturar a mulher. Qualquer que fosse. “Falei-lhes” disso e, sobretudo, da grande falta que me fizeram ao longo destas mais de quatro décadas, talvez pelo meu egoísmo.

Na mesma “morada” está o meu pai que pouco lhes sobreviveu. Teve um fim penoso e com muito sofrimento. Os diabetes não o deixaram conhecer o Luís, o seu segundo neto. Ou terá sido o Luís que não chegou a tempo? Não chegou aos sessenta anos, muito menos à idade da reforma, agora mais distante. Ficou-se pelos cinquenta e seis anos, com boa apresentação, a imagem do meu Gregory Peck preferido. E assim permanecerá na minha recordação. “Falei-lhe” das viagens que fizemos em família, dos meus enjoos numa estrada cheia de curvas lá para os lados de S. Pedro do Sul que o obrigaram a parar algumas vezes, da companhia que me fez na primeira viagem a Nova Iorque. E a sua última, pois partiu já lá vão quarenta. Muito cedo para perder o seu conselho, o seu aviso, a sua orientação. Ficou ao lado dos pais: do meu avô António, de que pouco me lembro e da “mãezinha”, a mãe dele que nunca quis ser tratada por avó. Era uma comerciante nata e, tendo levado a vida a percorrer as feiras da região, não deixou de comprar e vender o que calhava pelos caminhos da aldeia quando a saúde e a idade já a tinham “aposentado” das outras andanças. Fui seu “motorista” durante as férias de estudante para as feiras de Fafe, Vizela, Amarante e Felgueiras, ao volante do enorme carro americano Dodge, carregado de mercadoria e ouvindo sempre as histórias do que acontecera na próxima curva, com o “ali despistou-se o Joaquim”, “acolá rebentou um pneu ao sr. João e esbarrou-se naquela árvore”, num alerta permanente à minha condução.

“Vi” o tio Peixoto, que chegou a ser agente da autoridade para depois se ocupar da “loja” ou “benda”, como chamavam então ao misto de mercearia e tasca. Pelos Santos Populares fazia sempre uma “cascata” junto da “loja” ao seu santo padroeiro e mobilizava a catraiada para pedir “um tostãozinho para o S. João” aos poucos que ali passavam. Tornou-se “santeiro”, escultor de santos em madeira com um simples canivete e ainda conservo como relíquia preciosa uma imagem de S. José que me ofereceu. Ali também está a tia Miquinhas, mãe sempre presente de uma mão cheia de filhos, muito tranquila e doce. Percorri todo o espaço e revi velhos amigos. O Zé, da Armindinha, conhecido como Zé Desportista por gostar da bola, meu condiscípulo e amigo. O Domingos Passeira, que regularmente ia a casa dos meus pais para nos cortar o cabelo. O senhor Cunha da Quinta de S. João Velho, de rosto magro e tostado pelo sol. Na memória, vejo-o a amarrar o porco à “cabeceira” do carro de bois e espetar-lhe um “facalhão”. Eu gostava de ajudar a chamuscar os pelos do porco com um molho de palha “centeia” a arder e esfregar depois a pele com pedra e água. Logo que podia, arranjava-nos uma febra que íamos a correr grelhar na chapa quente do fogão. Revi o senhor Marques e a Adelinha, o sr. Cunha e o Fernando da Rosinha, pedreiros de profissão, tendo este procurado uma vida melhor por terras de França com a família. E vi ainda lá os “representantes” de gerações recentes. Nunca chegarão a velhos … Enfim, a geração anterior já lá está quase toda e uma boa parte dos do meu tempo já “foram andando”. Por isso, devo dar graças a Deus.

O cemitério é um lugar especial sobre o qual se criaram mitos, medos e fantasmas, mas onde deveríamos ir com regularidade, no encontro do presente com o passado, para tomarmos consciência de qual será o nosso futuro. Como a morte é um nivelador implacável, ali todos chegam iguais e ninguém é mais do que ninguém. Nenhum é mais importante do que o outro, mais poderoso, arrogante, bonito ou feio, rico ou pobre. Todos lá chegam despidos de “teres e haveres”. Só existe o “Ser”, porque deixaram de ter o que quer que fosse. Fora do portal, ficou o poder, a vaidade, a arrogância, a ganância, a avidez, além dos bens materiais, resultado de uma vida cheia de trabalhos, habilidades, canseiras, ganhos lícitos ou mera exploração de outros. Não passa um cêntimo sequer para pagar a “portagem” de uma vida para a outra. Por isso, o cemitério deveria ser um simples parque relvado onde todos seriam colocados em igualdade de “instalações”, com uma simples cruz para “ostentar” (para aqueles que creem Nele) e uma pequena lápide, sem distinções, sem exibições ou competições. Mas não. Visitar o cemitério é verificar que muitos recusam aceitar o “nivelamento”. E tudo se faz ao contrário, numa estúpida competição pelo mausoléu mais imponente na “guerra” com o vizinho, o familiar.

Nalgumas vezes para “aliviar a consciência” da forma como se tratou o morto em vida ou para se querer mostrar “a dor que se não sente”. E os granitos polidos do Brasil ou Angola e os mármores de Estremoz ou Itália servem na perfeição para “atulhar” o cemitério, colocando homenagens sentidas ao lado de mentiras, sentimentos de dor a par de atos de hipocrisia, sinais de humildade de frente com uma feira de vaidades feita pedras luzidias que se atropelam umas às outras na ânsia de sobressaírem onde tudo deveria ser igual. Sem mentiras, sem vaidades, porque os mortos são todos iguais e já não mentem mais. As mulheres, em regra, são as mais dedicadas aos seus, as mais persistentes em não deixar esquecer. Limpam, lavam, enfeitam, iluminam e embelezam com flores e lamparinas o exterior da campa. E sentem a falta. Mais do que nós.

Pensando bem, talvez faça como os outros e arranje um monumento. Vou mandar construir uma “torre” no meu “talhão”, bem alta, a tocar o céu, dotada de elevador ultrassónico e com um motor de foguetão. Assim, quando “for desta para melhor”, enfiam-me nela e só tenho de entrar no ascensor, carregar no único botão que diz “Céu” e seguir direto ao Reino Celeste sem passar pelo Purgatório nem queimar os pelos do rabo no Inferno, “apeadeiros” que são um “atraso de vida”.

Sei que é difícil largarmos o “Ter”. Só alguns poucos o conseguem em vida. Mas a morte liberta-nos desse “peso” e impede-nos de continuar a ele agarrados. Por isso, sejamos capazes de compreender e aceitar esse desprendimento de bens, títulos, exibicionismos e vaidades para sermos verdadeiramente“livres” e iguais por natureza …