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Entre a franqueza honesta e as delicadezas falsas …

Em 2009 M. Manson largou o apartamento onde vivia e partiu numa viagem pelo mundo que o levaria a viver temporariamente em 55 países como nómada digital a alimentar o seu blogue. Nessa viagem, em 2011 viajou para São Petersburgo, na Rússia. Nas suas palavras, “a comida era péssima, o tempo era péssimo e o meu apartamento era péssimo. Nada funcionava. Era tudo caríssimo. As pessoas eram malcriadas e tinham um cheiro esquisito. Ninguém sorria e todos bebiam demasiado. E, contudo, adorei. Foi uma das minhas viagens favoritas”. Porque existe um sem cerimónia na cultura da região que, normalmente, desagrada aos ocidentais. Não há delicadezas falsas nem as tiradas verbais polidas, mas que não dizem nada. Não se sorri para estranhos nem se finge gostar de algo de que não se gosta.                                                               Porque ali, se uma coisa é estúpida as pessoas dizem que é estúpida. Se alguém está a ser cretino, dizem-lhe que está a ser cretino. Se gostam de uma pessoa e estão a passar um bom bocado com ela, dizem-lhe que gostam dela e que estão a passar um bom bocado. Não importa se a pessoa é um amigo, um estranho ou alguém que acabou de se conhecer cinco minutos antes na rua.                                                     Durante a primeira semana ficou desconfortável com esta realidade. Teve um encontro num café com uma rapariga russa e três minutos depois de estarem sentados juntos ela olhou-o cara a cara e, sem rodeios, disse-lhe que o que ele acabara de dizer era estúpido. Quase se engasgou com a bebida. Não falou de forma exaltada, mas disse-o, apenas, como um facto trivial fosse ele o estado do tempo no dia ou o número que calçava. Mas ele ficou chocado, pois essa franqueza no Ocidente era considerada muito ofensiva, especialmente vindo de alguém que acabamos de conhecer. Mas era assim com toda a gente. Todos lhe pareciam constantemente rudes e a sua mente ocidental mimada sentia-se atacada por todos os lados. Mas, à medida que as semanas passavam, habituou-se àquela franqueza clara, tal como se habituou aos pores do sol à meia-noite e à vodca que se bebia como água gelada. E depois começou a apreciá-la exatamente pelo que era: expressão não adulterada. Honestidade no verdadeiro sentido da palavra. Comunicação sem condições, sem segundas intenções, sem motivo ulterior, nada de conversa fiada de um qualquer vendedor ou com o desejo desesperado de querer ser apreciado.                                                                         Diz ele que, após anos de viagem, foi provavelmente no lugar menos americano de todos os lugares, que experimentou pela primeira vez um gosto particular de liberdade: a capacidade de dizer tudo o que pensava e sentia, sem receio de repercussões, sem medo de ofender ou chocar a outra pessoa desde que fosse honesto e dissesse o que sentia e não o que era conveniente para lhe agradar. Sentiu uma estranha forma de libertação através da aceitação da rejeição. E, sendo alguém a quem faltava muito este gênero de expressão desempoeirada durante a maior parte da vida, embriagou-se nela como … bem, como se esta fosse a mais requintada vodca que já bebera. Quando chegou ao fim o mês que passou em São Petersburgo conforme programara, não queria ir embora. E nada do que sentiu tem a ver com o sistema político e muito menos com os governantes e criminosos de guerra de hoje, mas com o povo da região onde viveu.                                                                                                                     Viajar é uma excelente ferramenta de desenvolvimento pessoal pois retira-nos dos valores da nossa cultura e mostra-nos que, noutras sociedades, pode viver-se com valores completamente diferentes e, ainda assim, funcionar e não se odiar a si mesmas. Esta exposição a valores culturais e critérios diferentes força-nos então a reexaminar o que parece óbvio na nossa vida e a considerar que, talvez, este não seja afinal o melhor modo de viver. Neste caso, o povo desta região russa fez-lhe ver e reexaminar a comunicação de treta e a falsidade que são tão comuns na cultura ocidental e perguntar a si mesmo se esta não estaria, de certa forma, a tornar-nos mais inseguros em relação uns aos outros e a prejudicar a nossa intimidade.                                                                      O seu professor de russo tinha uma teoria interessante sobre estas grandes diferenças entre as duas culturas: “Tendo vivido sob o comunismo durante tantas gerações, com poucas ou nenhumas oportunidades económicas e engaiolada numa cultura de medo em relação ao sistema governante, a sociedade desta região descobriu que a moeda mais importante era a confiança. E, para construir confiança, é preciso ser honesto. Isso significa que, quando as coisas são uma porcaria, isso é dito abertamente e sem desculpas. As demonstrações de honestidade desagradável eram compensadas pelo simples facto de serem necessárias para a sobrevivência – as pessoas tinham de saber em quem podiam e não podiam confiar e tinham de o saber depressa.                                                                          Porém, no Ocidente “livre”, continuou o seu professor de russo, “existe uma abundância de oportunidades económicas, tantas que se tornou muito mais valioso uma pessoa apresentar-se de uma certa maneira, ainda que falsa, do que ser efetivamente dessa maneira. A confiança perdeu o seu valor. A aparência e a capacidade de venda tornaram-se formas de expressão mais vantajosas. Conhecer muitas pessoas superficialmente é mais benéfico do que conhecer poucas intimamente. Foi por isso que se tornou muito normal nas culturas ocidentais, sorrir e dizer coisas de cortesia, mesmo que não sentidas, dizer pequenas mentiras inocentes e concordar com alguém mesmo que não se concorde. É por isso que as pessoas aprendem a fingir que são amigas de outras de quem nem sequer gostam, a comprar coisas que, de facto, não querem. É o sistema económico que promove estas ilusões. A grande desvantagem é que, no Ocidente, nunca se sabe se é possível confiar completamente na pessoa com quem falamos. Por vezes, isto acontece mesmo entre bons amigos ou familiares. Existe uma tal pressão para se ser apreciado que, muitas vezes, as pessoas reconfiguram completamente a sua personalidade, dependendo de com quem estão a lidar e das intenções que têm”.                                 Ainda há dias me dizia um amigo que a sua frontalidade em dizer as verdades a qualquer pessoa, sem meias palavras nem dourar a pílula, tem-lhe trazido bastantes dissabores porque há quem não as queira ouvir. Mas ele não gosta de fingir que está tudo bem quando não está, que gosta do que não gosta, que tem de elogiar o que não merece um elogio. Dizia-me ainda que “se finge muito, abraça-se e beija-se quem se detesta porque é conveniente e, logo de seguida, nas suas costas, se dizer o que realmente se pensa.                                                                               Olhando para este confronto de atitudes culturais antagónicas e sem introduzir na equação a toxidade dos governantes, será caso para perguntar qual das duas deveríamos escolher: se a atitude franca e honesta do povo daquela região russa ou a atitude das sociedades ocidentais feita de delicadezas falsas onde é mais importante parecer que ser, com muita falsidade e hipocrisia que tantas vezes só deixa palavras de conveniência, não sinceras, que não correspondem aos sentimentos nem à prática de todos os dias …

E os lobos mudaram o curso dos rios!

Para além das catástrofes naturais, a ação humana é um dos grandes responsáveis do desequilíbrio ambiental, um enorme problema da atualidade. Se num ecossistema, o ambiente e os seres vivos estão em sintonia perfeita, qualquer perturbação pode levar a uma reação em cadeia que afeta vários seres vivos, incluindo nós, seres humanos. E o homem não para de fazer asneiras e dar cabo da “casa onde habita”, de tal forma que muitas vezes nem se apercebe como uma ação bem simples pode desencadear reações negativas em cadeia, tanto para o mal como para o bem. Prova-o esta história real, mas com final feliz:

O Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, criado pelo presidente Ulysses S. Grant, o primeiro a nível mundial e com quase o tamanho do Minho e Algarve juntos, já foi terra das nações índias durante mais de 10.000 anos e é coberto por pradarias, montanhas e florestas em grande parte, para além das áreas vulcânicas que vão do majestoso geiser denominado Old Faithful até à magnética fonte termal Grand Prismatic. Perdi a oportunidade de conhecer um pouco desta maravilha da natureza há alguns anos, numa viagem em que visitá-lo fazia parte do roteiro quando, ao chegar a Salt Lake City, tomamos conhecimento que uma tempestade se instalara sobre o Parque, fazendo-nos mudar o rumo para outro local mais ameno. Diz-se que as maravilhas são tantas que os mais céticos insistem em vê-las com os próprios olhos, por não acreditarem que a natureza foi capaz de esculpir tal cenário. E ficou-me a pena de as não ter visto.

Inscrito na lista de Património da UNESCO tem algumas más histórias ambientais para contar. Entre elas, a introdução de trutas não nativas no lago dizimou as espécies que já lá viviam e em 1925 foi ali caçado o último lobo-cinzento. Hoje, o elevadíssimo número de turistas é um dos problemas ambientais mais graves.                                                                                   Mas a razão por que abordo aqui o Parque Nacional de Yellowstone é precisamente pelas consequências resultantes do abate do último lobo-cinzento em 1925, caçados impiedosamente pelas suas peles e má reputação. Os lobos são talentosos caçadores e, naquele Parque, a sua dieta era feita, basicamente, de veados, o que mantinha o número destes animais controlados. Com o sumiço dado aos lobos, o número de veados, cervos, alces e gamos cresceu drasticamente. E, resultado disso, as árvores do Parque começaram a secar, uma grande área do local virou pastagem e, consequentemente, os pássaros e os insetos passaram a ser mais raros. Além da população de veados ter crescido, também os coiotes passaram a ser vistos com mais frequência. Os moradores da região ainda tentaram controlar o número de veados, porém o esforço foi em vão.

Em face disso, em 1995, setenta anos depois de ter sido abatido pelo ser humano o último lobo do Parque, os lobos foram reintroduzidos naquele habitat através de um programa especial, numa tentativa de conter o crescimento assustador dos veados pois estavam a destruir toda a vegetação da região. Assim, com a chegada dos lobos, as suas necessidades alimentares levaram-nos a ir matando alguns veados e,

perante isso, os outros veados passaram a evitar as zonas do Parque onde poderiam ser encurralados mais facilmente pelos lobos, muito especialmente vales e desfiladeiros. Ao fim de seis anos, nessas áreas as árvores já tinham crescido até cinco vezes mais e até a vegetação rasteira ficou mais verde e mais alta. As circunstâncias associadas fizeram com que a vegetação nesses locais começasse a regenerar-se imediatamente e as bordaduras dos vales que antes estavam secas, transformaram-se em florestas rapidamente, atraindo mais castores porque gostam de comer árvores. E estes, que com os lobos são tidos de engenheiros do ecossistema, criaram barragens de ramos, galhos e troncos nos rios, fornecendo um habitat ideal para as lontras, ratos almiscarados, patos, peixes, repteis e anfíbios. Além disso, como os lobos iam matando coiotes que dizimavam os camundongos, ratos e coelhos, estes, sem os coiotes para os caçar, começaram a crescer em grande número e o mesmo é dizer mais presas para os falcões, as doninhas, raposas e texugos, que se mudaram também para o Parque face ao aumento de “comida” para caçar. Juntaram-se-lhes ainda os corvos e as águias que começaram a pousar na região para comerem os restos das carcaças que os lobos deixavam. Com o ressurgimento das florestas veio um enorme número e variedade de pássaros e aves migratórias, enriquecendo o novo ecossistema. E, finalmente, à caça de veados jovens ou à procura das bagas produzidas pelos muitos arbustos que se desenvolveram, chegaram os ursos, hoje residentes certos do Parque. 

Mas algo de mais surpreendente veio a acontecer na região: como as margens dos rios estavam agora ocupadas pelas florestas, passou a haver menos erosão, o curso dos rios foi-se tornando mais estreito, estabilizou e formaram-se piscinas naturais, reativando afluentes, fazendo surgir cascatas que tinham desaparecido e evitando que secassem como já era habitual. Em resumo, a reinserção dos lobos no Parque de Yellowstone, mesmo em pequeno número, conseguiu não só transformar a geografia física, mas também a paisagem natural do Parque, restabelecendo o delicado equilíbrio dinâmico da teia da vida ao resultar em algo totalmente inesperado até para os responsáveis do projeto pois constatou-se que não só fizeram regressar ao Parque um elevado número de espécies, como os próprios rios mudaram em resposta ao regresso dos lobos, passando a ter maior estabilização  e fluidez do seu curso, o que redundou na alteração do próprio meio ambiente e no ressurgimento da vida selvagem na sua plenitude.

Este extraordinário evento mostra-nos que todos os seres vivos estão interligados e interdependentes entre si e podem manter o equilíbrio na natureza quando o homem decide ajudar ou, pelo menos, não atrapalhar. Se for retirado ou afetado negativamente um só nó dessa teia, todo o ecossistema de milhões de anos de evolução pode entrar num enorme colapso. E não serão apenas os seres vivos a sofrer as consequências, mas também a civilização humana já que a economia é totalmente dependente da ecologia … 

Viver a vida com corpo e mente presentes?

As autoestradas vieram dar-nos muito mais segurança e rapidez nas deslocações, mas fizeram-nos igualmente abandonar antigas estradas nacionais e, com isso, esquecer terras, nalguns casos por completo, ao ceder ao conforto das novas vias. Um dia destes dei comigo a pensar que já não passava na estrada nacional 15 a caminho do Porto há um bom par de anos e nem me lembrava da última vez que atravessara Valongo. Por isso, fugi à tentação da rotina e rumei a Paredes pela estrada nacional, seguindo depois para Baltar e Valongo. Na verdade, mais valia ter ido pela autoestrada como de costume. Por muito que me custe dizer, tive consciência de atravessar Paredes e seguir pela nacional 15 em direção a Valongo e Porto, mas entrei no modo de “piloto automático” e, quando dei por mim, estava no Alto da Maia. 

Valongo ficara para trás sem que me tivesse apercebido. Mas, afinal, o que aconteceu?

Quando entrei pela primeira vez num automóvel para aprender a conduzir, agarrei-me ao volante com força, concentrado na “roda” e na forma de orientar o carro para onde queria, como se só houvesse aquilo no mundo. Estava completamente focado no que estava a fazer e não havia distrações. Com o tempo, a concentração na condução foi esmorecendo, as mãos aprenderam a segurar o volante de forma apropriada fazendo os ajustes sempre que necessário, mas de forma automática. Passei a conduzir o carro de um lado para o outro sem prestar atenção às mãos e, a partir de certa altura, sem que a minha atenção estivesse sempre concentrada na estrada. Isto acontece com toda a gente. Conseguimos conduzir e, ao mesmo tempo, comer, ouvir o rádio e sintonizá-lo, conversar, falar ao telefone e algumas coisas mais. Conduzimos em “piloto automático”. Já se deu conta disso? Não faz certas viagens em que não se apercebe ter passado localidades do percurso? Não se lembra se o semáforo estava verde ou vermelho, se o trânsito era intenso ou não? Enquanto o corpo conduzia o carro habilmente através do trânsito, a mente viajava de férias para algum lugar agradável ou foi estudando a forma de resolver um assunto que tinha pendente. E, quando acordou, chegou ao seu destino sem se dar conta. Isto é mau? Não tem de se culpar nem envergonhar, pois toda a gente o faz. E se conduz em “piloto automático há anos e nunca teve um acidente, é sinal de grande habilidade!

Pensando bem, o “modo automático” como conduzimos, também é usado para comer, tomar banho e fazer toda a higiene pessoal, vestir roupa e calçar, correr, etc. Enquanto o corpo executa todas essas tarefas, a mente viaja para outras paragens ou vai a trabalhar noutra coisa. E não é descabido afirmar que até nas relações pessoais com a família também acontece. Quer isso dizer que, em todas as situações, não estamos completamente presentes, de corpo e mente. Ou seja, não usufruímos em pleno do que acontece.

Quando nessas ocasiões a nossa cabeça não está no presente, a nossa mente tem tendência a ir para um destes lugares: o passado, o futuro ou o reino da fantasia. E tais lugares não existem fora da imaginação. O único lugar que existe é o “aqui” e o momento em que realmente estamos vivos é o “agora”.

Ora, quando a mente nos foge do presente para ir recordar o passado, não tem mal nenhum pois a capacidade de se lembrar do passado é um dom. Ajuda-nos a aprender com os erros cometidos e a alterar o rumo da vida quando não está a ir bem. Mas muitas vezes a mente ao voltar-se para o passado é para nos mortificar pelos erros cometidos: “As coisas correram mal porque eu disse o que não devia” ou “paguei antes de me fazerem o serviço e fiquei pendurado” … Infelizmente, a mente traz à tona os erros do passado, repetidamente, muitas vezes para nos criticar ou culpar sem parar e nós deixamos que continue a trazê-los de volta vezes sem conta para sofrermos a mesma angústia e vergonha. E, se não se puxa 100 ou 200 vezes as orelhas a ninguém por um erro, porque temos de ser sempre massacrados por ela?

Quando a mente nos foge para o futuro, nada de mal. A capacidade da mente humana para planear o futuro é outro dom incomparável. Com isso ela dá-nos os meios para nos orientarmos no caminho a seguir, diminuindo a probabilidade de ir pelo caminho errado e perdermos tempo no desvio, aumentando as hipóteses de atingirmos os nossos objetivos. Infelizmente, na sua ansiedade, a mente procura planear um número muito grande de futuros a maioria dos quais nunca vai acontecer e essa fuga constante para o futuro é um desperdício de energia mental e emocional. Assim, o melhor jeito de preparar o futuro desconhecido é fazer um plano razoável e focar-nos no que está a acontecer aqui e agora, com a mente clara e coração aberto para modificar o plano conforme a realidade do momento que passa.

A mente também gosta de nos levar para o reino da fantasia, criando filmes dentro de nós, protagonizados por um novo “eu”, diferente, famoso, bonito, poderoso, talentoso, bem-sucedido, rico e amado. A capacidade de fantasiar é admirável, estando na base de toda a nossa criatividade. Isso permite-nos imaginar novas invenções, criar arte e música, elaborar outras teorias científicas e fazer planos para tudo, desde novos edifícios a novos capítulos da nossa vida. Até já criamos as armas e tecnologias adequadas para derrotar a Rússia e eliminar esse criminoso que dá pelo nome de Putin.

 Infelizmente, isso pode só ser um escape, uma fuga à realidade e a tudo que é desconfortável no momento presente. Fuga da ansiedade por não saber o que vem aí, fuga do medo de que o momento seguinte (ou a hora, ou o dia, ou o ano) nos possa trazer dificuldades, doenças ou coisa pior.

Enfim, quando deixamos a mente descansar no presente, plena do que acontece aqui e agora, evitando idas repetidas e infrutíferas ao passado, ao futuro ou à fantasia, estamos a conservar a sua energia, para permanecer fresca e aberta, pronta para responder a tudo o que se exigir dela, pois normalmente a mente não descansa, ficando ativa mesmo à noite durante o sono, gerando os sonhos que misturam ansiedades com acontecimentos da nossa vida. E, tal como o corpo, a mente precisa de repouso, mas só consegue fazê-lo quando está no presente, em descanso, relaxada do fluxo de tudo o que acontece.

Tudo isto para dizer que passamos muito tempo da nossa vida sem estarmos conscientes do que está a acontecer e do que nos rodeia no momento. Olhamos e não vemos as flores dos arbustos no separador da autoestrada. Mas elas estão lá. E não vemos os melros a brincar no jardim apesar dos nossos olhos os mirarem sem que a mente os veja. Nem sequer vemos um dia bonito de sol. Como brincamos com as crianças sem estar verdadeiramente lá com elas, sem registar as suas gargalhadas de alegria. Precisamos de recuperar o grande segredo da infância, de “estar sempre presente”, de corpo e mente. Ou já não seremos capazes? Afinal, como será viver a vida tendo o corpo e a mente concentrados no presente?

O meu Ego quer ter um “exclusivo” …

Como vivemos num mundo onde vinga a mania de possuir exclusivos, sejam eles modelos de roupas, joias, motas, automóveis, telemóveis, relógios, casas ou o que quer que se destaque pelo simples facto de ser único, raro ou caro, mania essa associada às estrelas e aos novos-ricos, o meu Ego está a querer exigir de mim que arranje uma coisa que ninguém ou pouca gente tem, para provocar a inveja do costume. Depois de matutar no assunto e para não ter de aturar a minha mente e a minha vaidade, vou adotar um animal que não seja habitual, para poder chamar a atenção e pôr os outros a roerem-se da tal inveja. 

Está fora de questão adotar um gato, pois tanto é capaz de ronronar à minha volta como de usar as suas unhas aguçadas para me marcar a parte do corpo que lhe estiver mais “à pata”, além de não se tratar de algo “exclusivo”. Até agora tenho entregado a confiança totalmente aos cães que, diga-se desde já e em bom abono da verdade, nunca me traíram. Mas também não têm nada de “exclusivo”. Pensei na girafa, mas como dorme menos de duas horas por dia pode-me tirar o sono à noite, além de me ser muito difícil olhá-la “olhos nos olhos”, porque o meu pescoço, bem mais pequeno que o dela, já não me deixa olhar para cima. Também estudei a possibilidade de ter um papa-formigas, mas, ao que parece, adora dormir dentro da máquina de lavar e tem um cheiro “intenso”, podendo sobrar para mim cá em casa: “Andas a cheirar a chulé”! O tigre também está fora de questão pois nunca vou competir com os monges que o põem a comer à mesa e até metem a cabeça na boca dele. Cheguei a pensar numa víbora, mas os amigos aconselharam-me a esquecê-la. Tinham sido mordidos por “víboras” de duas pernas e foi mau. Ora, como é preciso ser diferente e desafiar a tradição, vou abraçar, não um elefante pois nunca tive braços que cheguem, mas o desafio de adotar um, pois são muitas as vantagens:

Não ladra, não morde e nem mia. Não arranha nem sequer anda pelos telhados quando chega o mês de Janeiro, a acordar o bairro todo …

Muitas vezes perde-se um cão ou um gato, mas um elefante não se perde, nem é coisa que se roube. Claro que não canta tão bem como um canário ou um grilo, mas tem a sua beleza natural e os seus sons harmoniosos, sem ter de andar enfeitado com penas ou vestir fatos italianos. E compreende-se. O meu elefante, a que eu chamarei Fifi, não se mete em política, seja ela de esquerda ou de direita. Nem é extremista. Evita sempre os jantares de homenagem, as cunhas, a acumulação de lugares. Nunca aquece nenhum. E não é corrupto, até porque não precisa de “luvas”. Fifi nunca vai engraxar, trair ou virar a casaca. E sei que seria mais fácil deixar-se cavalgar por um operário da construção civil do que por um artista da bola ou da canção, por não gostar de aparecer nas revistas de fofocas.

Ao contrário das moscas que achamos nojentas, o elefante nunca nos vai cair na sopa nem conspurcar o pastel de nata. Também não entra a voar pela janela do quarto em noites de verão a zumbir e picar qual mosquito, como não tem nada a ver com as pulgas pois não provoca comichão nas costas ou em qualquer outra região mais íntima do corpo. Não corremos o risco de lhe pisar a pata sem querer, muito menos de tropeçar nele e deitá-lo ao chão. Dizem-me os amigos que é uma estupidez e é caro ter um elefante, porque bebe 100 lts de água e come 200 kgs de alimento por dia. Ora, a água do meu poço é à borla e o alimento também é à borla quando o soltar nas muitas matas que precisam de ser limpas para evitar os incêndios. Se bem programado, o “bichinho” ainda me vai ser uma rica fonte de rendimento. Aliás, quando o fogo chega perto das casas, há alguma máquina que o consiga bater a arrancar árvores para preparar uma “barreira de proteção”?

Já sei à partida que os elefantes andam sempre de trombas, mas com essa posso eu bem. É por isso que os elefantes não gostam de praticar boxe, pois têm medo … que lhes vão à tromba. Mas, pelo contrário, há muitas pessoas que mesmo sem ter, andam com ela frequentemente e esses, “incomodam”! Já a tromba do bichinho não é sinal de falta de empatia, pois usa-a para nos acarinhar, ajudar a subir para o seu dorso ou para nos pregar uma partida embora o elefante nunca ria às gargalhadas. Ele disfarça e ri silenciosamente, com a subtileza de um cavalheiro, aguentando todas as graças frívolas sem mexer um único músculo. Passa sempre indiferente perante os que o tentam insultar com piropos ordinários e provocantes como estes: “Vê lá onde pões essas patorras” ou “Mandas cá uma tromba!”. 

Não ergue a pata junto de qualquer árvore, candeeiro ou pneu de viatura para fazer o chichi do costume e não precisa de coleira, açaime ou trela. Além disso, é o único animal que toma banho de “chuveiro” sem a nossa ajuda ou nos pode dar uma “chuveirada”. E se ele um dia cair no Mar Vermelho, já sei como o vou tirar: “Molhado”! O principal defeito que encontro no elefante é de não ser portátil …

Com um elefante não há meios termos, meias doses, meias medidas. Tem “memória de elefante”, tal como as mulheres, pois são os únicos seres vivos que não esquecem uma ofensa. 

Sobre os elefantes há um mistério que parece ter sido desvendado por dois homens sentados à sombra de uma azinheira quando passa um elefante a voar. Os dois homens olham com cara de espanto pelo sucedido, mas não dizem nada. Passado algum tempo passou outro a voar e continuaram a passar até ao final da tarde. Então, disse um ao outro: “Ó compadre, só há uma explicação para isto” … E pergunta o segundo com alguma curiosidade: “Diga lá então, qual é”? Responde de pronto o primeiro compadre: “O ninho deve ser aqui perto”!!! 

Talvez tenha um problema quando sair à rua com o Fifi e andar pelo centro da vila. A sua fama vai persegui-lo e será assediado pelos fãs a pedir-lhe um autógrafo. Mas a forma de passar despercebido sem ser reconhecido aqui no centro de Lousada é … de óculos escuros e andar descontraído. E resulta? Para provar esta teoria pergunto: Já alguém viu um elefante a passear no centro de Lousada? Não? Então, é sinal de que funciona … 

Aviso: Desde já, aceitam-se inscrições para limpeza de matas, banhos de chuveiro animal, sessões de autógrafos e selfies. Aconselho a não tentarem “ir-lhe à tromba” e a quem “andar de trombas” não bater de frente com ele porque será uma “trombada” que pode correr mal. E, para quem sofre da coluna com hérnia discal ou “bicos de papagaio”, é melhor não tentar levantá-lo …

Um hino à juventude e à alegria …

No momento em que o avião da TAP “Gonçalo Velho Cabral” prepara a sua partida do aeroporto Figo Maduro para levar de volta a Roma o Papa Francisco, penso cá para mim que, se me fosse possível soltar o Génio da Lâmpada de Aladino e este me concedesse a realização dum desejo, escolhia voltar a ser jovem durante um ano, tempo suficiente para me permitir participar na Jornada Mundial da Juventude 2023 que acaba de terminar, integrando o grupo de mais de 25.000 jovens voluntários, nacionais e internacionais, que ajudaram a pôr de pé e organizar o maior evento algum dia realizado em Portugal. Estaria lá na condição de peregrino à procura de um novo alento para a minha espiritualidade, sob a égide do Papa Francisco, o primeiro jesuíta a ocupar o lugar supremo da Igreja Católica, um missionário militante que faz dos mais desfavorecidos a sua bandeira, numa Igreja onde ninguém é excluído, mas também como jovem nesse encontro único de jovens de todo o mundo.  

Hoje invejo os jovens de agora por esta enorme oportunidade que a minha geração nunca teve, nem de perto nem de longe, de encontrar outros seres de todos os cantos do mundo no mesmo local, unidos no mesmo espírito de confraternização, para celebrar e aprender sobre a fé católica, construir pontes de amizade e esperança entre culturas e povos de continentes diferentes, mas imbuídos de espírito comum na procura de um mundo melhor.

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi instituída pelo Papa João Paulo II em 1985, ele que dizia: “A esperança de um mundo melhor está numa juventude sadia, com valores, responsável e, sobre tudo, voltada para Deus e para o próximo”. A primeira Jornada aconteceu em Roma e a realizada em Manila, nas Filipinas, foi a que reuniu o maior número de peregrinos com cerca de 4 milhões. Foi no Panamá que o Papa Francisco anunciou Lisboa como a cidade escolhida para a realização da Jornada que acaba de findar. Nunca houve em Portugal nenhum acontecimento desta envergadura e é certo que não voltará a acontecer em terras lusas durante o resto da minha “estadia” cá por este mundo.

A JMJ de maior visibilidade foi feita nas grandes concentrações dos peregrinos, em Lisboa, com a presença do Papa Francisco, o grande líder e mobilizador desta enorme multidão de jovens vindos de mais de cento e cinquenta países, do Norte ao Sul, do Oriente ao Ocidente, para quem o primeiro objetivo era ver, e se possível tocar as vestes do Papa Francisco, até porque ele é hoje o único líder global com uma grande dimensão ética e moral. O seu pontificado é marcado pela luta por uma vida melhor para o outro, o próximo e o distante, a luta pelas pessoas e as suas vidas nas suas violências, injustiças, fragilidades e incapacidades de assumir o seu destino e os seus sonhos, na missão de dar mais esperança, justiça e mais vida a quem vive no desespero. Por isso ele fala dos migrantes que arriscam a vida no “mar da morte”, por uma vida. E fala de exploração que mata. E luta pela paz, indo a sítios como o Sudão do Sul onde chegou ao ponto de beijar os pés dos “fazedores da guerra”, em nome da paz. E fala da urgência de proteger o planeta, de combater as desigualdades, da diversidade sexual e das mulheres na Igreja. Como dizia Miguel Romão, “a grande virtude de Francisco não é ser Papa, é ser um homem, que adora futebol, se irrita, usa o humor sem medo e dispensa os véus de santidade. Mesmo quem não tenha fé, quem não goste da Igreja, sente-se tocado por este homem que vive forçosamente fora dos homens, mas que quer ser homem e não um semideus”. Mas esta Jornada também foi os muitos eventos realizados pelas dioceses, preparatórios desta semana com o Papa em Lisboa. E, mais ainda, o acolhimento de milhares e milhares de peregrinos vindos dos quatro cantos do mundo no seio de outros muitos milhares de famílias no país, de norte a sul, totalmente solidárias com esta iniciativa e numa manifestação extraordinária de hospitalidade e partilha tão única na nossa história, que constitui, só por si, um legado para o futuro dos que acolheram e de quem foi acolhido, para o enriquecimento de uns e outros, uma lição de vida, integração e solidariedade que ficará na memória de cada um dos milhares e milhares de intervenientes e na nossa história coletiva como algo irrepetível. Para além de registar a presença em alguns momentos de elementos do grupo numeroso de jovens peregrinos que foram acolhidos pelas famílias de Lousada antes do começo da JMJ, também tive a felicidade de poder assistir ao concerto na Capela do Senhor dos Aflitos de um coro integrante da comunidade italiana acolhida, como um agradecimento pela forma extraordinária como foram recebidos e tratados. Confesso que me emocionei várias vezes.                                                                                       As imagens da Jornada Mundial da Juventude que nos chegaram pela televisão são impressionantes, não só pelo número de peregrinos que se deslocaram a Lisboa, mas mais ainda pelo hino à alegria que sai de forma espontânea de todos eles, quase sempre integrados em grupos que fazem questão de identificar as suas origens pelas bandeiras que carregam orgulhosamente, em comunhão e convívios interculturais extraordinários. O entusiasmo contagiante de toda aquela juventude foi desafiado pelo Papa Francisco ao dizer-lhes “não tenham medo”. Esta Jornada foi, seguramente, um desafio à nossa capacidade para organizar um evento de tão grande dimensão, seguramente o maior de todos os tempos que já tivemos em Portugal. E o grande retorno que o país teve e terá em termos mediáticos, de projeção do país em todo o mundo e mesmo em termos económicos, não só no imediato, mas em especial no futuro, transformará os montantes gastos neste evento num excelente investimento para o país, talvez mais do que o foram a Expo 98 e o Euro 2004.                                                                                                            Das palavras-chave desta Jornada Mundial da Juventude, um hino à juventude e à alegria, sobram-me, sobre tudo, as palavras repetidas várias vezes pelo Papa Francisco aos jovens “não tenham medo” e a reafirmação de que “a Igreja é para TODOS”.

Não te preocupes e sê Feliz …

Hoje andamos quase todos sob pressão e, por isso, a maioria vive com stress. Corremos de um lado para o outro porque a pressa faz parte da nossa vida. Queremos tudo para ontem. Além disso, esperam de nós que sejamos o melhor pai e mãe, melhor trabalhador, melhor aluno, o melhor professor, etc. e somos avaliados pelo resultado: se formos bons no que fazemos, seremos recompensados, mas se formos maus, a pressão aumenta sobre nós. Daí que muitas pessoas passam horas e horas preocupadas com o amanhã, temendo as consequências daquilo que fazem e das atitudes que terão de tomar. Na gíria popular, o povo diz que “sofremos por antecipação”, ficando muito apreensivos por causa de uma coisa que ainda nem sequer aconteceu.

“Será que o médico vai dizer que tenho uma coisa grave”? “Vai correr bem a entrevista de emprego”? “Vou passar no exame”? “Os pais dele irão gostar de mim”? “Como vou arranjar dinheiro esta semana para pagar aos empregados”? Ora, se a preocupação se torna excessiva, não conseguimos raciocinar, ficamos paralisados. Às vezes, nem sequer conseguimos viver saudavelmente. É verdade que uma preocupação pode ter certa utilidade e ser satisfatória quando nos permite antecipar a resolução de um determinado problema. No entanto, quando se torna exagerada, aumenta a sensação de mal-estar e a capacidade de reagir fica comprometida, podendo aparecer a ansiedade.

Dizem-nos que a preocupação excessiva é um produto da sociedade contemporânea. É o preço da vida muito atarefada, com pouco tempo para descontrair, acalmar e descomprimir. Queremos controlar tudo, mas é impossível controlar o comportamento dos outros. Aconselham-nos a relaxar, escutar o silêncio e meditarmos, pois não podemos estar sempre a galopar na vida. Muitas pessoas preocupam-se demais ou até desnecessariamente e as preocupações, em regra, privam-nas da paz de espírito, do entendimento claro e julgamento sensível. Nesse estado, exitamos fazer algo que, em situação normal, fazemos bem. É fácil dizerem-nos “não te preocupes” e até não falta quem nos ensine a tentar evitar fazê-lo, através do controle e treino, mas muitas vezes nada disso resulta.

Na Bíblia também encontramos palavras sobre as preocupações e o conselho é bem claro: “Quem de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida”? E a seguir: “Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal”.

É verdade que cada dia nos traz as suas próprias preocupações, seja a falta de dinheiro, o aumento crescente da inflação, a doença do filho ou a necessidade de obras urgentes na casa que pode ser agravada com a falta “daquilo com que se compram os melões”. Por isso, há que relativizar as preocupações e não fazer a “antecipação do sofrimento” que só contribui para agravar o problema.

Barroes diz-nos: “Não te preocupes com o tempo que não chega, pois ele conhece a tua cidade e tem o teu endereço”. Também não te deves preocupar com quem mente nem com quem prejudica os outros. Não te preocupes com quem passa a vida a olhar para o próprio umbigo e muito menos para os que julgam os outros na praça pública. Esquece os “todo-poderosos”, os arrogantes e aquele que acha que tu és burro e ele é que é esperto. Ignora os que te humilham e magoam e não te preocupes com os oportunistas. E nunca te preocupes em ser melhor do que o teu vizinho, o teu irmão ou o teu inimigo, mas tenta sempre ser melhor hoje do que foste ontem. Convence o teu filho para não se preocupar porque um dia vai chegar a adulto. Aí, vai desejar ser outra vez criança. Já eu e os da minha idade não temos de nos preocupar com a velhice, pois continuaremos a fazer as mesmas asneiras, porém mais devagar …

A mente de muitas pessoas vive lá no futuro, apesar de, fisicamente, estarem aqui presentes. E, a verdade, é que o futuro quase nunca se realiza como esperamos. Por isso, as preocupações e medos parecem ser um desperdício de pensamentos e tempo, pois enquanto tiveres medo e te preocupares, nunca irás melhorar. Daí que o conselho do “Não te preocupes” seja a resposta às dúvidas e medos. Assim, se um problema não tem solução … não te preocupes! 

E se tiver solução, porque é que tens de estar preocupado?

Para concluir e seguindo o conselho de um autor anónimo, há apenas duas coisas com que tu te deves preocupar: 

     Se tu estás bem de saúde ou se estás doente.

     Se estás bem de saúde, não tens de te preocupar! 

     Se tu estás doente, há duas coisas com que tu te deves preocupar:

     Se tu te vais curar ou se vais morrer.

     Se tu te vais curar, não tens de te preocupar!

     Se tu vais morrer, há duas coisas com que tu te deves preocupar:

     Se tu vais para o céu ou se vais para o inferno.

     Se tu vais para o céu, não tens de te preocupar!

     Se tu vais para o inferno, estarás tão ocupado a cumprimentar os velhos amigos que nem terás tempo para te preocupares!

     ENTÃO, PARA QUE TENS DE TE PREOCUPAR?

Esquece as preocupações, vive e sê Feliz!!!

Que seria de nós sem solidariedade?

A vida passa tão depressa que, se demorarmos um pouco mais a pensar no dia de hoje, quando mal nos acordarmos já estamos a recordar o dia de ontem sem que tenha sobrado grande tempo para pensar no amanhã. Uma vida representa um momento muito breve, mas mesmo assim podemos fazer a diferença na vida de outros que vivem connosco neste mundo e que tantas vezes precisam de nós.

Por vezes, uma só palavra faz toda a diferença. E é aqui que entra a palavra “solidariedade”, com um enorme significado, embora cada um de nós o faça à sua maneira. Uma palavra tantas vezes esquecida num mundo impessoal, de egoísmo, ganância e individualismo, mas que faz tanta mais falta quanto mais é ignorada. Constata-se que os seres humanos são muito solidários e altruístas nas desgraças. No entanto, em estados de graça são sempre egoístas e exclusivistas. Em suma, até parece que precisamos de tragédias para nos dispormos a ser solidários. Felizmente, ainda há muita gente que a tem guardada no coração e vive para ela.

Como explicar o que é a solidariedade? Há muitas formas de o fazer, mas solidariedade significa identificar-se com o sofrimento do outro e, principalmente, dispor-se a ajudar a solucionar ou amenizar o seu problema. É ter interesse pelo próximo, é ajudá-lo a não se perder, a não ser enganado, a não ter a saúde e vida em risco. É oferecer ajuda a alguém que conhecemos ou não e que passa fome, sofre violência, discriminação, preconceito e qualquer outro tipo de diferença social.

A solidariedade é uma qualidade imprescindível para vivermos em sociedade e para tornar o mundo melhor. Quantas vezes pessoas que conhecemos passam por necessidades? Ajudá-las, é ser solidário. Mas se essas pessoas nos são desconhecidas, ajudá-las será um ato ainda maior. 

Ser solidário não é só dar bens materiais. Há muitas formas de o fazer. Umas vezes, por palavras, outras na presença silenciosa, pois há ocasiões em que a maior necessidade é de “colo”, para ser ouvido e desabafar. 

O sentido mais básico da solidariedade pressupõe que seja exercida sem discriminação de sexo, raça, religião ou outra e deverá ser feita no anonimato, sem alardear aos ventos o que se fez, sem que uma mão saiba o que a outra deu. Mas o termo tem sido desprestigiado pelo abuso do discurso político e do “marketing” solidário. É que a verdadeira solidariedade é “dar sem receber nada em troca e sem que se saiba”. É ser desinteressado, fazendo-o por convicção, justiça e igualdade.  É indispensável a reanimação da solidariedade social como virtude e denunciar o seu uso como instrumento político, usado e abusado à exaustão para colher dividendos pessoais e partidários. E há que desconfiar do entendimento da “solidariedade social” como coação sobre o dinheiro alheio, num saque brutal aos contribuintes porque, “é fácil ser solidário … se os outros estão sendo forçados a pagar os custos”. 

A solidariedade é a forma de tornar a vida das pessoas um pouco melhor e mais digna, daí que a solidariedade humana assenta no respeito pela dignidade individual. Pensamos sempre “quem somos nós para mudar o mundo”? A verdade é que o mundo só pode ser mudado por nós, por cada um de nós, em conjunto, pois podemos formar uma força capaz de provocar a mudança. 

A solidariedade é mais que um conceito a merecer atenção de todos. É algo a pôr em prática no dia a dia e que deve fazer parte do nosso crescimento pessoal, ao apoiar a construção de uma sociedade mais inclusiva, a auxiliar pessoas vulneráveis e a dar resposta a desafios sociais. Não se pede para salvar o mundo, mas todos temos um papel importante na comunidade e adotar hábitos e comportamentos mais solidários é uma boa forma de contribuir para um futuro melhor.

Apoie uma instituição de solidariedade social, procure um projeto social com que se identifique e dê um contributo. Doe sangue, faça voluntariado numa instituição, dê uma volta às suas tralhas e doe roupas, brinquedos e outros objetos que já não usa.

Comece a fazer solidariedade à sua volta, pela família, vizinhos e amigos em situação de necessidade. Preste atenção às dificuldades, descubra como ajudar e disponibilize o seu tempo para confortar, apoiar e escutar com atenção. Tente colocar-se no lugar do outro, compreenda qual a sua realidade e perceba de que forma poderá ser útil. Como dizia Rozilda E. Costa, “abrace como quem quer acolher, acolha como quem deseja ser solidário, ajude como quem se coloca no lugar do outro”.

Um conceito interessante de solidariedade está nestas palavras de um autor desconhecido, cujo título é: “Se fizerem o que peço, viverei para sempre”. E reza assim: “Em certo momento um médico vai dizer que o meu cérebro parou totalmente de funcionar e, para todos os efeitos, a minha vida acabou aí. Quando isso acontecer, não tentem inserir vida artificial no meu corpo através das máquinas. Mas não chamem isso de meu leito de morte. Chamem-lhe de Leito de Vida. E deixem o meu corpo ser retirado do invólucro para outros terem uma vida mais rica. Deem a minha vista a um homem que nunca viu o sol nascer, o sorriso de um bebé ou o amor nos olhos de uma mulher. Deem o meu coração a uma pessoa cujo coração nada provocou, além de dias de dor. Deem o meu sangue ao jovem retirado da amálgama de chapas do seu carro acidentado e que ele possa viver para ver os seus netos a brincar no parque.

Deem os meus rins a quem depende de uma máquina três vezes por semana para continuar a existir. Deem os meus ossos, cada músculo e cada nervo do meu corpo e descubram uma maneira de fazer andar uma criança aleijada. Examinem todos os cantos do meu cérebro. Peguem nas minhas células, se necessário for, e deixem-nas crescer para que, algum dia, um menino mudo possa gritar “GOLO” e uma menina surda possa ouvir o barulho da chuva na vidraça. Queimem o que restar de mim e espalhem as cinzas ao vento, para ajudar as flores a brotar. Se for preciso enterrar alguma coisa, que sejam as minhas faltas, as minhas fraquezas e todo o preconceito.

Deem os meus pecados ao diabo e deem a minha alma a Deus. Se por acaso quiserem lembrar-se de mim, que seja com uma boa ação ou uma palavra gentil a alguém que precise”.Num tempo de promoção do individualismo, do aumento do número de pessoas em risco de pobreza, do número crescente de idosos em situação de abandono, de inflação descontrolada e salários baixos, o que seria da comunidade sem a solidariedade?

A arte, e arma, do “desenrascando” …

Os portugueses julgam ter uma capacidade especial para resolver qualquer problema encravado, seja ele de que espécie for. Aliás, até pensamos que somos os campeões mundiais nessa nobre arte a que demos o nome artístico de “desenrascanso”. Assim, a capacidade de resolver um sarilho do pé para a mão, com uma perna às costas, em curto espaço de tempo e sem grandes meios, é um feito que, aos olhos dos portugueses, merece ser exaltado, ainda que o caso tenha sido resolvido em cima do joelho. Verdade seja dita, ainda está por demonstrar se essa suposta virtude não se trata mais de um defeito, quase sempre mal-escondido. É pena que Luís de Camões não esteja vivo para cantar em verso essa suposta qualidade dos lusitanos, mas pode ser que algum poeta do nosso tempo agarre no assunto e eleve bem alto tal “arte” nacional, que revela uma luta entre a inteligência e a esperteza. Porém, não sabemos se essa capacidade é genuinamente portuguesa, mas quem vive cá entre nós tem de reconhecer que a improvisação muitas vezes é a única forma de lidar com o que nos acontece. E, como o“desenrascanso” implica algo feito à pressa, pode dizer-se que nunca se sabe se a solução encontrada não vai acabar por gerar um problema maior. Ora a verdade é que, no momento do desenrasque, quando o “artista” proclama a palavra mágica “pronto”, pode gabar-se do seu feito, de ter resolvido o problema encravado, possivelmente há muito tempo, ainda que depois a coisa dê para o torto, algo vulgar quando ele “percebe pouco ou nada da poda”. Mas, como diz o povo, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” e ele pode usufruir do sucesso, mesmo que seja temporário.

Desenrascar algo é conseguir o impossível. É encontrar uma solução como agulha num palheiro. É apelar à criatividade e safar-se contra todas as espectativas. É encontrar uma chave, sabe-se lá como nem onde. É sair do canto onde ninguém dá por si, dar o braço à Fortuna, virar o jogo e resolver o problema numa jogada impensável. É por não saber muito bem o que fazer que agimos de forma imprevista e conseguimos uma vantagem momentânea que pode ser explorada a nosso favor. O resto é sentido de oportunidade. Ou oportunismo, conforme o caso. Por exemplo, uma das características distintivas da gestão em Portugal parece ser o desenrasque. Um estudo feito com gestores portugueses e expatriados em Portugal assim o indicava, traduzindo de resto uma intuição corrente. 

Os portugueses parecem ser mestres na arte do desenrasque e, aparentemente, demonstram algum orgulho nisso. Aliás, não sei se é mais uma “arma” do que uma “arte”, tal a oportunidade de um “tiro certeiro”. 

Podíamos, como outros fazem, tentar mudar a situação, educar os incompetentes, punir os prevaricadores, pedir responsabilidades, criar padrões de conduta e processos claros de recompensa, mas aprendemos com o tempo que nada disso vale para a nossa maneira de ser. 

Que a estratégia, o planeamento e a capacidade de execução, combinados com mecanismos de avaliação e metodologias para a melhoria contínua são insubstituíveis. Mas, quando estas falham, o desenrascanço pode ser solução extrema, reservado para situações limite onde se torna então indispensável. O desenrascanço baseado em soluções de recurso tem o seu âmbito de aplicação. É importante quando o planeamento falha e a situação ameaça descontrolar-se. Mas, gerir pessoas, empresas, projetos e tarefas somente com base no desenrascanço, é um pouco como não arranjar os travões do carro porque ele tem airbag.

Pela Lei de Murphy, “se alguma coisa pode correr mal, vai mesmo correr mal”. Ora, diz-se que isto não tem aplicação em Portugal pois há sempre a possibilidade do “desenrascanço” para sair de situação difícil e, “entre mortos e feridos, alguém há de escapar”. Além disso, sabe-se que uma boa crise traz sempre oportunidades a quem tiver esta capacidade ou habilidade.

O horror ao desenrasque é muitíssimo maior junto dos profissionais oriundos de países com práticas de gestão mais desenvolvidas ao longo de décadas, de gestão moderna do Norte da Europa e não na que se difundiu no Sul da Europa, onde ainda persiste. Nos países do Norte, os planos são tomados a sério, pois as regras são universais e os desvios devem ser excecionais. Já cá no Sul, os planos terminam muitas vezes com a apresentação em “power point”, mas as regras admitem um sem número de exceções e o seguimento do plano é a exceção e não a regra. A planificação e, muito mais, o cumprimento das regras, não são connosco.                                                                                                                 Está mais que provado que, administrativamente, quando um projeto                                                                                                                      esbarra na burocracia, na cunha, no compadrio, na incompetência generalizada, na incapacidade de tomar decisões rápidas e assumir a sua responsabilidade, na falta de visão, na inveja e falta de liderança, o azar e o mau-olhado paralisam-nos e só nos resta mesmo apelar ao desenrascanço porque, o especialista no desenrasque, é alguém que sabe bem “mexer os cordelinhos” e como “olear a máquina”, além de conhecer “a porta onde há de bater”. E não adianta ficarmos a remoer por o nosso processo estar parado, não ser despachado nem sequer informado. O típico português sabe bem como arranjar maneira da coisa ser desenrascada e onde encontrar um “artista com arte”, ainda que isso tenha um preço que para um cidadão nórdico seria, de todo, inconcebível.                                                                                                         Na realidade, nós temos orgulho na nossa capacidade de resolver as situações imprevistas ou enrascadas, usando soluções nem sempre confiáveis ou “ortodoxas”. Daí que, no rol das anedotas europeias conta-se esta: “A fábrica ideal na Europa teria gestores holandeses e operários alemães. Mas, no centro da fábrica e dentro de uma redoma de vidro, estaria um português. No vidro haveria um autocolante com o aviso: “Em caso de emergência e necessidade de desenrasque, deve quebrar o vidro”.

Heróis do dia a dia. Uma lição de vida!

A pandemia e a Guerra da Ucrânia vieram alterar profundamente as nossas vidas, especialmente no que à economia familiar diz respeito, com a inflação a atingir valores que já havíamos esquecido há muito. E, nesse processo inflacionário atribuído às quebras na produção de bens e à falta de matérias-primas, sabe-se que a especulação também deu uma grande ajuda para que os preços chegassem tão alto, pois o oportunismo comercial não deixou de se intrometer para retirar mais alguns ganhos do que seriam devidos. E fomos sabendo, aqui e ali, da maneira como existências de artigos e produtos em armazém foram dadas como inexistentes para, de um dia para o outro, aparecerem no mercado com preços abusivamente superiores. 

Nestes casos, foi a ganância e a obsessão de ganhar muito e depressa quem comandou a decisão desses oportunistas, que se esqueceram do respeito pelas regras do jogo e da confiança que tem de existir entre fornecedores e consumidores para que na sociedade não impere a lei da selva. É verdade, toda a atividade comercial tem como principal objetivo a criação de uma mais-valia a que vulgarmente chamamos lucro. 

E eu, que tenho trabalhado na compra e venda de imobiliário, não escapei a essa regra pois ao comprar um património qualquer para revender tive como objetivo fazê-lo com algum ganho, o que nem sempre terá acontecido, mas isso são as exceções à regra. Por norma, todo o lucro reverte para o vendedor deduzido de eventual comissão a pagar a alguma mediadora imobiliária, se for caso disso e, posteriormente, dos devidos impostos. Ora, o que me leva hoje a escrever estas linhas é um caso raro que sai fora do habitual no que ao lucro diz respeito. E passo a contar: 

O senhor António chamou o filho mais novo com quem costumava conversar mais sobre os seus negócios e disse-lhe: “Conheces bem aquela propriedade que comprei à família Teixeira por duzentos mil euros. Quando fiz o negócio nem sequer discuti o preço e paguei-lhes o valor que me pediram. Pois acabei de a vender a uma empresa do centro do país por quinhentos e cinquenta mil euros e já assinamos o contrato promessa de compra e venda”. O filho ficou entusiasmado, felicitou o pai por ter feito um negócio excelente que lhe tinha gerado uma mais-valia superior a 150% e, mais ainda, porque a propriedade fora comprada há pouco mais de dois meses, pelo que era uma mais-valia extraordinária num prazo de tempo bem curto. Depois do filho acalmar um pouco, o pai continuou: “No entanto quero-te informar também que vou devolver há família Teixeira uma parte desse lucro, porque considero que aquilo que eu ganhei neste negócio é excessivo e não seria justo que ficasse com a mais-valia toda em desfavor do anterior proprietário que, por uma razão ou por outra, não soube vender a propriedade pelo seu valor real. Já lhes comuniquei a minha decisão”. O filho “passou-se dos carretos” e disse ao pai que não tinha nada que partilhar o lucro com os Teixeiras dado que o trabalho e habilidade comercial fora somente dele e não deles. E, em tom muito enervado, usou todos os argumentos possíveis para tentar demover o pai de fazer aquilo que ele considerava ser uma grande asneira que não fazia sentido. Mas, apesar da insistência e discordância do filho, o senhor António manteve a decisão como uma “questão de princípio” até porque, disse-lhe ele, “o dinheiro não é tudo na vida”. A história, verídica, foi-me relatada há dias pelo filho do senhor António, aquele que se opôs ao “esbanjamento”. E hoje, vários anos volvidos, o filho disse-me muito comovido: “Esta foi a maior e melhor lição de vida que recebi do meu pai, numa altura em que a minha juventude não me deixava ver para além do dinheiro que eu achava que ele estava a desperdiçar. Só o tempo me fez perceber a grandeza da sua atitude”. Disse ainda que a família Teixeira nem queria acreditar que alguém tivesse um gesto desses e se, antes o respeitavam, a partir de então passaram a ter por ele uma adoração enorme, diria mesmo devoção, que os levou a consultá-lo sempre que queriam vender alguma coisa por saberem ser alguém de confiança que não pensava só em si. 

Confesso que, para mim, este é um caso único. Nunca conheci nem ouvi falar de alguém que, sem compromisso algum com o anterior proprietário, voluntariamente se dispôs a dividir com ele os lucros colhidos na transação da propriedade que ele lhe vendera sem nada a obrigá-lo ao que quer que seja, mas somente por considerar que teve “ganhos excessivos” e que, por isso, moralmente se sentia obrigado a fazê-lo. É uma atitude duma nobreza invulgar de que muito poucos se podem gabar e o cidadão comum, ao saber que ele entregou parte do lucro a troco de nada e “à nossa maneira”, pensará: “Grande estúpido. Eu não lhe daria um “chavo””. 

Mas António revelou uma preocupação que vai para lá do benefício financeiro, demonstrando uma consciência social e ética rara, já que não é normal vermos alguém abdicar de uma boa fatia de dinheiro a troco de nada, a não ser da sua convicção de que era uma obrigação.

Mais do que tudo, a lição de António deve servir para meditarmos se “o dinheiro é tudo na vida” ou se há outros valores que, em muitos momentos, devem estar acima do “vil metal”. 

A rematar a conversa que tive com o filho do senhor António, ele disse-me que, a partir deste acontecimento e ao longo da sua vida, teve a felicidade de confirmar uma velha “máxima” que se ajusta perfeitamente ao que lhes foi acontecendo ao longo dos anos: “Na vida, quanto mais damos, mais recebemos”. 

“Uma luzinha ao fundo do túnel” …

Uma sondagem recente mostra a elevada descrença dos portugueses no Parlamento, governo e partidos e a altíssima insatisfação com os governantes pela situação a que chegamos, da habitação à justiça, da saúde à corrupção, de impostos muito elevados ao alto custo de vida, que os faz andar “com cara de enterro”. E não é para menos, pois já há “quem ande com uma mão à frente e outra atrás”, “passe a vida a contar os tostões” e esteja “entre a espada e a parede”, isto é, ou paga a renda ou compra comida. Era para arranjo de vida a rede de apanha ilegal de ameijoa no Montijo descoberta recentemente. Se fossem apanhadores de caranguejos, “viam a sua vida a andar para trás”, o que não era o caso. Nem sequer eram pescadores, pois “ficavam a ver navios” e muito menos vendedores de “jaquinzinhos”, porque se sabe que eles “andam tesos que nem carapaus”. Apesar dos imigrantes não serem peixes, viviam “como sardinhas em lata”, pelo que foram parar a um pavilhão com condições ainda piores, acabando por voltar ao local onde moravam.

Foi uma “descoberta” do que já muitas pessoas sabiam, mas “ficaram caladas que nem ratos” porque “o calado é o melhor”. É que, a vida em Portugal está muito difícil. Senão, vejamos: Os relojoeiros “andam com a barriga a dar horas”, os padres “já não comem como abades” e os talhantes, “estão feitos ao bife”. Mas ainda há gente que está bem pior, como os cabeleireiros que “arrancam os cabelos” e os cavaleiros, que “perderam as estribeiras”, enquanto às manicures já “estalou o verniz” há muito.

O presidente Marcelo diz que “os números da economia demoram a chegar ao bolso das famílias”, apesar do governo se vangloriar que ela “vai de vento em popa”. Talvez por isso, os padeiros “estejam com falta de massa”, aos cardiologistas foi detetado “um aperto”, os bebés “choram sobre o leite derramado” e os coveiros “vivem pela hora da morte” pelo que, o que encontram, são sempre e só, “ossos do ofício”. 

Ora, os governantes devem estar desfasados da realidade pois já nem veem que os jardineiros “engolem sapos”, os neurologistas “estão à beira dum ataque de nervos”, os picheleiros “têm ar na canalização” e, muito para além disso, “os criadores de galinhas estão depenados”.

As greves sucedem-se umas atrás das outras para reclamar contra o custo de vida, principalmente da inflação na alimentação e dos baixos salários. É por isso que os pedreiros “andam com duas pedras na mão” e “com uma pedra no sapato”, os eletricistas “têm os fusíveis queimados” e “estão ligados à corrente” e os mecânicos “griparam o motor”. Os farmacêuticos “não têm remédio”, os atores “já não sabem o que hão de dizer” e não se pode ver um concerto pois “as entradas custam os olhos da cara” só para ouvir os pianistas “bater sempre na mesma tecla”, enquanto os astrónomos “veem o céu por um canudo”. Os veterinários “já não aguentam uma gata pelo rabo” a dizer “cobras e lagartos”, os pneumologistas “estão com falta de ar”, os barbeiros “põem as barbas de molho” e os dentistas “andam a bater o dente”.

Mas há mais, porque as dificuldades chegam a todos. “Os madeireiros, arranjam lenha para se queimar” ao provar que “as árvores morrem de pé”, os empresários de espetáculos, “já não ganham para mandar cantar um cego”, os ginecologistas, “ficam com a criança nos braços”, e os funileiros “não têm lata”. E, nalguns casos, “é preciso ter muita lata” para “dar a cara”. No bar, os salva-vidas “afogam as mágoas” e os médicos “dão de beber à dor”. E, nesta vida difícil, são os caloteiros a dar esperança ao credor: “Deus lhe pague”!

Neste estado de coisas, não pense eliminar as pragas em casa porque os desinfestadores estão “piores que uma barata”. Ora, os sinaleiros, sendo profissão em vias de extinção, “andam de mãos a abanar”, o que é mais um sinal, não de trânsito, mas de que a vida está difícil para todos. Assim, os coxos “já não andam com a perna às costas”, os pastores “procuram um bode expiatório” que “não tenha culpas no cartório”, pois o custo de vida está ainda mais alto que as folhas a que não chega e os fabricantes de cerveja “perderam o seu ar imperial”. Agora, os domadores “estão maus como as cobras” e “a ferro e fogo” estão os ferreiros, que se recusam a “malhar em ferro frio”, enquanto os carpinteiros “fazem tábua rasa”. Só o matador diz que “é agora que a porca torce o rabo”. Ora, nesta paródia breve sobre o custo de vida, as cozinheiras “não têm papas na língua” e “põem tudo em pratos limpos”, fazendo com que os olivicultores “fiquem com os azeites” e os trefiladores “vão aos arames”, para além dos elefantes “ficarem de trombas” e os músicos “porem a boca no trombone”. No meio desta situação de crise grave, os criadores de gado só “pensam na morte da bezerra”, “os sobrinhos dizem “Ó tio, ó tio””, os aviadores “caem das nuvens que nem tordos” e os golfistas “não batem bem da bola”.

Só os governantes que “nos saíram na rifa”, parte deles “feitos às três pancadas” e que “não percebem nada da poda” “nem dão uma para a caixa”, “com ideias que não lembram ao diabo” e capazes de “mentir com quantos dentes têm na boca”, especialistas em “tirar o cavalinho da chuva”, “quando a coisa cheira a alho” e “lhes descobrem a careca”, andam para aí “armados em carapaus de corrida”, “nariz empinado” e “a viver à grande e à francesa”, “de mula cheia”, “gordos como chinos” de tanto “puxar a brasa à sua sardinha”. Mas “não encontram o fio à meada” e por isso deviam “meter o rabinho entre as pernas”, “a viola no saco”, “limpar as mãos à parede” e “ir pregar para outra freguesia” “onde não lhes conheçam o cu”. Para se safar, vêm com a “conversa para boi dormir” e “lágrimas de crocodilo”, fazendo até “chorar as pedras da calçada” enquanto o Zé “tem de comer o pão que o diabo amassou”. 

Ora, esses políticos “de carregar pela boca”, fartam-se de “vender banha da cobra” e “tapar o sol com a peneira” para depois “meter a pata na poça” e “a montanha parir um rato”. O que lhes vale é que o povo, “sendo o bombo da festa” e “estando de saco cheio”, “não sabe da missa a metade” e vai-se “aguentando nas canetas”, mas à rasca, até “dar o peido mestre” e “esticar o pernil”. Caso contrário, não faltava quem “lhes acertasse o passo” e dissesse para se “porem finos”, pois se forem “apanhados com a boca na botija” e “a meter a mão na massa”, vão ter de “assentar o cu no mocho” porque “a culpa não pode morrer solteira “e não adianta “armar-se ao pingarelho”, como se “isto aqui fosse da mãe Joana”, pois “podem bater com os costados na choldra”. 

É verdade que o povo “anda com a pulga atrás da orelha”, com “a mostarda a chegar ao nariz” e faz “cara de poucos amigos” ao ver que lhe “estão a comer as papas na cabeça”, estando na altura de dizer “alto e para o baile” que “isto nem lembra ao diabo” e “não andamos neste mundo por ver andar os outros”. Assim, como os governantes andam para aí “a “pintar um país cor-de-rosa” “só para enganar meninos”, é tempo de lhes “bater com a porta na cara”, “mandar dar uma volta ao bilhar grande” e dizer que “são uma carta fora do baralho!                                                                                                          Talvez assim se possa voltar a ver “uma luzinha ao fundo do túnel” … se o comboio que vier não trouxer mais “farinha do mesmo saco”!