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A despedida de um amigo …

Não gostamos de falar da morte e até achamos que o simples facto de a mencionar pode atrai-la. Daí ser assunto que não é tema para uma conversa simples e toda a gente foge dele “como o diabo da cruz”. É sabido por nós que nascemos, vivemos e morremos e não há como fugir à morte. Todos temos um “prazo de validade”, que só não vem impresso na testa ou noutra parte mais discreta do corpo como nos produtos do supermercado porque os políticos andam distraídos. No dia em que algum achar que isso pode dar votos, irá propor aos seus correligionários uma lei que obrigue o “fabricante” a gravar o prazo numa qualquer parte do corpo à “saída da fábrica”, indicando a data a partir da qual “estamos impróprios para consumo”, que é com quem diz, “para deitar fora”.  

Vendo bem, ainda não andamos com rótulo nenhum à vista a indicar o nosso “prazo de validade”, mas temos de andar permanentemente com um cartão onde, indiretamente, esse prazo está explícito. Assim, quando o agora “cartão de cidadão” indica a data de nascimento, é o mesmo que dizer há quantos anos fomos “fabricados”. E o consenso é geral: “estamos impróprios para consumo” a partir de certa idade, a idade da reforma, que tem vindo a aumentar só por conveniência do orçamento de estado, já que não há como “alimentar tantos inúteis”. A partir daí somos tratados como qualquer produto descartável do tipo “use e deite fora”. Mas, como nos produtos do supermercado em que ainda há quem os consuma muito para além do prazo de validade que vem escrito no pacote sem receio de apanhar uma intoxicação, também com nas “pessoas fora de prazo” se verifica essa tolerância, o que me permite continuar a andar por aí e ser “consumido” por quem não tem medo de “morrer intoxicado”, numa última oportunidade. Claro que também nos tornamos mais baratos, tal e qual os produtos que estão em fim de prazo e que os supermercados vendem a metade do preço ou menos, para ver se recuperam algum, caso contrário vai tudo para o lixo a rendimento zero, como com todos nós.

No período do Renascimento era vulgar as pessoas deixarem crânios sobre a mesa sem qualquer problema. Não passavam disso mesmo, mas tinham uma mensagem implícita: “lembra-te que vais morrer”. O objetivo desse lembrete era para se encarar sem receio a existência da morte e a certeza de que não somos eternos, passando a dar mais valor a cada dia e conseguir aproveitar plenamente a vida. Ora, meia dúzia de séculos depois temos muito mais medo dela. E a prova disso é que antigamente morria-se em casa e em casa se fazia ainda velório e funeral. Mas pouco a pouco fomos afastando tudo isso, escondendo, ao ponto de hoje se morrer nos hospitais para além de ter empurrado tanto o velório como o funeral para fora de casa, dando toda a razão a Woody Allen quando diz: “Eu não tenho medo da morte. Só não quero estar lá quando ela acontecer”.

Tudo isto para dizer que recebi uma chamada telefónica de um amigo que há muitos anos emigrou para França, “a salto”, e onde fez toda a sua vida de adulto até se reformar. Ali constituiu família e viu nascer dois filhos, tendo nos últimos anos vivido numa roda viva entre Paris e Lousada. Estranhei a voz muito arrastada e sofrida que revelava um grande esforço para falar. Começou por perguntar pela minha saúde e da família e depois disse: “Estou a telefonar-lhe para me despedir de si. O meu tempo está a chegar ao fim e restam-me poucos dias de vida”. Surpreendido pela chamada telefónica, mas especialmente pela razão que acabava de me revelar, perguntei-lhe o que se estava a passar. E ele, a muito custo, foi dizendo: “Apareceu-me um cancro nos pulmões e tenho andado a fazer tratamento aqui em França. Agora descobriram outro nos intestinos e já não há nada a fazer. É o fim e os médicos já nem me deixam sair aqui do hospital. É por isso que me venho despedir de si e agradecer-lhe por ter sido um bom amigo com quem pude contar sempre”. Enquanto ele falava, permaneci calado, estupidamente calado perguntando-me o que se podia dizer a alguém nestas circunstâncias? Mentir-lhe piedosamente, tentando fazer crer que havia esperança quando os médicos já o haviam desenganado? Naquele momento o que melhor me pareceu fazer foi ouvi-lo, estando ele totalmente consciente de que a morte se aproximava a passos largos e que lhe restava pouco tempo para fazer o que desejava: despedir-se de algumas pessoas. Falou tranquilamente embora com muita dificuldade sobre como a doença ficou fora de controle e de estar muito próximo o seu fim. Consegui retribuir o agradecimento e dizer-lhe que a nossa amizade continuava para lá do que viesse a acontecer hoje, amanhã ou na semana que vem. A nossa despedida, apoiada na fé de ambos, foi a promessa dum reencontro numa outra dimensão, numa outra vida.

A caminho de Lisboa, a chamada telefónica acompanhou-me sempre durante toda a viagem, como um recado a lembrar-me que podemos receber “guia de marcha” a qualquer instante, sem pré-aviso, apesar da sociedade manipular tudo para nos fazer crer na eterna juventude, escondendo a existência da morte como algo que faz parte da vida. E pensei no meu amigo e na sua coragem ao pegar no telefone e ligar-me com três objetivos claros: Dizer que iria morrer (sem citar esta palavra) dentro de poucos dias, despedir-se com um “até breve” e agradecer-me por ser seu amigo. Confesso que não sei como reagiria no seu lugar e se seria capaz desta chamada telefónica, embora diga frequentemente que não tenho medo da morte nem sequer de falar dela, mas sim do sofrimento, especialmente do sofrimento inútil que não tem esperança. 

E estou com o filósofo brasileiro Mário Costella quando diz que “não temos que ter medo da morte, mas sim de uma vida inútil” …      

A “Lei dos Azarados” e a vida …

Existe um adágio da cultura ocidental, normalmente citado como “qualquer coisa que possa correr mal, correrá mal e no momento pior possível”, conhecido por Lei de Murphy. Sendo conhecidos alguns relatos antigos sobre esta “Lei”, a expressão só viria a ganhar esse nome em 1949 a partir do resultado num teste de tolerância à gravidade por seres humanos, feito pelo engenheiro aeroespacial Edward A. Murphy. Ao ensaiar o equipamento que registava os batimentos cardíacos e a respiração dos pilotos, aconteceu uma anomalia pelo facto de ter sido montado de forma errada. Nessa altura, Edward pronunciou o seguinte: “Se alguma coisa pode dar errado, dará”. A frase viria a ser repetida vezes sem conta, acabando pelo nome de Murphy ser usado para o batismo dessa regra da nossa vida, que hoje é conhecida em todo o mundo por Lei de Murphy, também tida por Lei dos Azarados.                                               As frases, quase sempre com uma boa dose de humor, não são mais do que a constatação de que qualquer coisa que tenha de correr mal … vai correr. E temos de viver com isso. Ao longo do tempo as “Leis” foram aumentando em número e variedade, num contributo de muitos para um resultado que nunca é final, já que a lista está sempre aberta a novos conceitos e visões da vida.                               A primeira da lista é mesmo a expressão de Murphy, “se alguma coisa pode dar errado, dará”, hoje acrescentada de: “E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”. E todos nós já nos confrontamos com uma ou outra situação em que tal aconteceu, a provar que tinha razão. Para dizer coisas sérias a brincar com os “atalhos” e confirmar o ditado “quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos”, nasceu a expressão que “um atalho é sempre a distância mais longa entre dois pontos”. Na mesma linha, são interessantes “nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual” e ainda “tudo leva mais tempo do que todo o tempo que você tem disponível”. Tal como “quando um trabalho é mal feito, qualquer tentativa de melhorá-lo piora” ou “os acontecimentos infelizes acontecem sempre em série”, enquanto “todas as vezes que se menciona alguma coisa, se é bom, acaba, se é ruim, acontece”. Nós revemo-nos em praticamente todas as expressões da Lei de Murphy porque não são mais do que registos precisos, preciosos, com bom humor, de situações comuns a todos.                              O que dizer desta: “Se tens alguma coisa há muito tempo de que não precisas, podes deitá-la fora. Se a deitares fora, vais precisar logo dela”. Isto já me aconteceu algumas vezes e acabei por ter de comprar coisas que tinha há muito tempo, mas que tinha dado ou atirado ao lixo pouco antes de fazer falta. Acaso? Lembro mais: “O modo mais rápido de encontrar uma coisa é procurar outra. Vocêencontra sempre aquilo de que não está procura”. Em relação ao telefone, há uma Lei que diz: “Quando te ligam, se tens caneta não tens papel; se tiveres papel, não tens caneta; se tiveres ambos, ninguém liga; quando ligares para um número de telefone errado, nunca estará ocupado; todo o corpo mergulhado numa banheira faz tocar o telefone”. Não passamos já por isso? É como a expressão que revela o conhecimento pela experiência: “Só sabe a profundidade da poça quem cai nela”. 
Vi uma notícia na televisão sobre um homem que andou algumas dezenas de quilómetros na autoestrada em contramão e lembrei-me daquela: “Se consegues manter a cabeça fria enquanto à tua volta todos a estão perdendo, provavelmente tu não entendes a gravidade da situação”. Já para quem quer tirar um curso ou afins:
“Se o curso que mais desejavas fazer só tem “25” vagas, podes ter certeza de que serás o aluno “26” a tentar matricular-se. E no exame final, 80% será baseado na única aula que tu perdeste e baseado no único livro que não leste. E a citação mais valiosa da tua redação será aquela de que não consegues lembrar o nome do autor”. 
Já agora, quando for às compras, lembre-se desta Lei: “Se estiver escrito “tamanho único” é porque não serve a ninguém”. E tenha atenção às quedas, sejam elas quais forem, respeitando o que a elas diz respeito: “Qualquer esforço para agarrar um objeto em queda provocará mais destruição do que se deixássemos o objeto cair naturalmente. Tal como a probabilidade dum pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor da carpete”. E sobre as filas: “A fila do lado anda sempre mais rápida e não adianta mudar de fila, pois a outra é sempre mais rápida”. Já lhe aconteceu isso nas filas do supermercado ou noutra fila qualquer? A mim já, muitas vezes, deixando-me a resmungar comigo mesmo por não acertar na fila certa. Às vezes até tenho mudado e o resultado chega a ser pior.
Já se deu conta de que “tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda”. Há quem acrescente: “Ou engravida”. É como a atração das partículas: “Toda a partícula que voa sempre encontra um olho aberto”.                                                                                 Na vida pensamos que tudo vai dar sempre certo, mas não dá. E temos de estar preparados e disponíveis para encarar isso como uma probabilidade, por muito que nos custe. As expressões a que alguém resolveu chamar Lei de Murphy, são provocações sérias às nossas certezas, em tom de brincadeira, mas que vale a pena ter em conta para não sermos surpreendidos quando as coisas correm mal. Até porque, como diz uma das Leis, “a Natureza está sempre a favor da falha” ou “tudo o que começa bem acaba mal e tudo o que começa mal, termina pior”, até porque “nada é tão ruim que não possa piorar”.  As “conversas sérias que são necessárias, só acontecem quando estamos com pressa”, é uma das máximas deste conceito.                                                                                    Ora, e apesar de eu estar com pressa de acabar esta crónica porque o diretor do jornal já me fez um “ultimato”, não quis fazer desta uma conversa séria, se bem que algumas coisas são sérias, mas ditas a brincar. E por isso o lembro antes de terminar que, “o único filho que ronca é aquele que quer dormir consigo” e ainda, “nenhuma bola acerta no vaso que você detesta”. É que a realidade nem sempre está de acordo com os nossos desejos … 

Heróis à força, mas … Heróis

Ninguém quer estar doente, muito menos receber a notícia de que tem uma doença grave pois nunca imaginou que um dia lhe bateria à porta. Mas pode chegar a qualquer momento e quando menos se espera já que não somos diferentes dos outros. Na roleta da vida as doenças vão sendo distribuídas por toda a gente, sem exceção, numa lotaria em que o “prémio”, grande ou pequeno, pode tocar a qualquer um e não há como dizer “não quero”. É de aceitação obrigatória.

Rosalinda (nome fictício) ainda estava distante dos sessenta anos quando começou a sentir algumas dores na mama até notar um pequeno nódulo com os dedos. Conhecendo o historial de algumas vizinhas, começou a supor o pior e falou disso ao marido. Ao outro dia foram ao médico, que a mandou fazer uma mamografia. Estava sozinha no hospital quando recebeu o resultado e viu confirmada a sua suposição de que tinha cancro da mama. Apesar das suspeitas, foi “como se o mundo lhe caísse aos pés”, confessa. “Chorei como já não o fazia há muito tempo. De tal forma que, quando liguei à minha nora que estava ali perto, não consegui sequer dizer-lhe o que era. Mas ela entendeu e apareceu para me apoiar. A partir daí percebi que não valia a pena chorar. Aquilo era para mim e tinha de o enfrentar sem receio, mas com esperança, tendo a Nossa Senhora de Fátima como minha protetora. Fui tratada no IPO onde fiz cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Aceitei com resignação todo o tipo de tratamentos que os médicos e enfermeiros me aconselharam, seguindo à risca os seus conselhos, pois eles é que sabem qual a melhor maneira de cuidar de nós. Avisaram-me sempre previamente do que iria acontecer a seguir e quais as consequências. Quando me disseram que o meu cabelo iria cair e me aconselharam a cortá-lo curto para que o choque não fosse tão grande, eu assim fiz, se bem que nunca quis usar peruca porque não senti vergonha de mim por não ter cabelo. O choque sempre foi para as outras pessoas. Hoje dou graças a Deus por poder fazer a minha vida normal e estar de volta”. 

Há algo que Rosalinda valorizou muito durante o combate à doença: o extraordinário apoio da família e amigos, um pilar fundamental da sua recuperação. E a sua Fé e devoção a Nossa Senhora de Fátima, que lhe deu forças e esperança de vencer o cancro, essa doença cujo nome só por si, é um monstro que causa muito medo. 

Já Mariana não teve a mesma sorte. Também diagnosticada com um cancro da mama teve de retirar uma completamente, para além de se sujeitar a tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Depois do choque inicial que a fez chorar muito, acabou por aceitar e encarar os tratamentos como o caminho certo para ultrapassar esse momento difícil. Mas, apesar da doença ser um fardo seu, houve quem não se tenha aguentado e aproveitou a sua fragilidade para a abandonar no momento em que ela mais precisava de solidariedade e apoio: o seu marido pediu o divórcio deixando-a só, com um filho de tenra idade. Valeu-lhe o apoio incondicional de algumas amigas e ainda de outras doentes do IPO a quem se dedicou de alma e coração, ajudando-as a levantar o ânimo de que tanto precisava também.                                                              O diagnóstico do cancro é quase sempre o momento mais crítico da doença. Perde-se o chão, o mundo desaba e parece que é o fim, pois trata-se de uma doença com uma carga negativa muito forte e que carrega um estigma, embora hoje já não corresponda à realidade.  Nos primórdios do século XX a sociedade via o cancro como uma condenação à morte, o que ainda faz com que muitas pessoas não acreditem que um tratamento adequado pode levar à cura. A falta de informação e a crença de que não tem cura acabam por gerar o medo e esse medo muitas vezes faz com que a pessoa não queira saber se tem algum tumor maligno, adiando o diagnóstico e a possibilidade de um tratamento eficaz.

Com 27 anos Liliana nem queria acreditar no que o médico lhe dizia: “Tem cancro”! Ficou apática até entrar num choro convulsivo. Pensou que ia morrer, porque sempre ouvira muita coisa má sobre a doença. “Será que vou morrer? Será que vou ficar sem seios? Irei aguentar o tratamento”? Apesar de se considerar uma pessoa forte, percebeu que não era assim tão forte quando quis desistir do tratamento logo na segunda sessão de quimioterapia. Mas, com a ajuda da mãe e dos amigos não desistiu. Acabou por descobrir no tratamento um meio para atingir o fim e o medo e a incerteza iniciais foram diminuindo com o tempo. A cirurgia da mama foi uma etapa vencida, tal como a quimioterapia, apesar dos enjoos, náuseas e outras reações. Mas foi a queda do cabelo que mais lhe custou, apesar de estar de sobreaviso. Chegou a cortá-lo tipo Chanel, mas não adiantou. Quando começou a cair em tufos, ficou chocada e acabou por aceitar rapá-lo, mas achou horrível. Inicialmente nem se queria ver ao espelho, mas depois foi-se acostumando até festejar o nascimento de qualquer cabelo. Como também se foram as sobrancelhas, pestanas e todos os pelos do corpo o que viu como uma vantagem: “Já não precisava de gastar dinheiro a depilar-se”. E, com o tempo, passou a olhar o lado bom das coisas, em especial o sentimento de gratidão. Gratidão a Deus que, diz, sempre esteve na sua vida, embora ela andasse tão desatenta da sua fé. Mas Ele nunca a abandonou. Gratidão por ter a mãe por perto, sempre a cuidar dela. Gratidão pelos amigos maravilhosos que estiveram bem presentes o tempo todo, apoiando e incentivando. Gratidão por ter um namorado compreensivo, paciente e companheiro. Gratidão por ter perdido o cabelo e não a cabeça. Gratidão ao passar a ver a vida de forma diferente, com mais amor e paciência.  

Apesar dos grandes avanços conseguidos na luta contra o cancro, não temos dúvidas que continua a ser uma doença assustadora que deixa em pânico os mais informados. E de tal forma o é, que muitas pessoas ainda hoje se recusam a pronunciar a palavra “cancro”, substituindo-a por “mal ruim”, como se ao dizê-lo o possam atrair. Fazer frente à doença depois do choque terrível a que ninguém escapa ao ouvir o diagnóstico como se fosse uma sentença, é um ato heroico, o desafio de uma vida que merece ser relevado e digno de louvor.

As mulheres que aqui trouxe, todas elas com cancro da mama, fazem parte de um número imenso de pessoas que fez da sua vida uma luta constante e persistente no combate à doença, caindo e levantando-se de seguida, sofrendo, mas fazendo das tripas coração, percorrendo um caminho de derrotas e vitórias, tantas vezes a lutar ao mesmo tempo contra outras adversidades da vida pessoal num combate de várias frentes que se torna violento e difícil, num manancial infinito de histórias comoventes e heroicas. Trazê-las aqui é render homenagem a gente que nós conhecemos, mas a quem tantas vezes não soubemos ou não conseguimos levar conforto e força de ânimo por múltiplas razões, a começar pelo nosso egoísmo e falta de solidariedade. E percebemos melhor que nunca a importância dessa solidariedade quando somos nós a apanhar o choque de um diagnóstico que, apesar dos avanços da medicina, continua a ser terrivelmente assustador …     

Somos mesmo um animal de hábitos…

Cá em casa sou eu que preparo o meu pequeno almoço. O ritual e os passos são sempre os mesmos: ainda em jejum, bebo um copo de água (no inverno aqueço-a ligeiramente no micro-ondas durante 35 segundos. Sempre). Depois, coloco na mesa da cozinha um tabuleiro com uma colher de sopa e uma tigela (a minha). Encho-a até um dedo abaixo do bordo com bebida de soja (vulgarmente conhecida como leite de soja), um quarto de litro mais coisa menos coisa. Levo-a ao micro-ondas durante 1 minuto e 30 segundos e, enquanto aquece, vou à sala retirar um medicamento e dois do armário na cozinha bem como o pacote de flocos de cereais. E é quando toca a campainha do micro-ondas a avisar que está quente. Com duas pegas retiro a tigela que volto a colocar no tabuleiro e tiro da lata de bolachas uma para a cliente do costume: a minha cadela Becas. Sento-me, mexo a bebida e, à medida que vou colocando flocos vou comendo, porque gosto de os sentir a estalar na boca. A cada quatro colheradas a Becas tem direito a um bocado da bolacha Maria. Faço coincidir o final do meu pequeno almoço com o último bocado de bolacha e arrumo tudo pela mesma ordem. Todos os dias cumpro este ritual, sem alterações de monta, como se o momento fosse reproduzido por uma cassete gravada. A mesma cena repetida ao longo dos dias, semanas, meses e anos. 

Esta é uma cena diária, repetitiva, um hábito que não sofre qualquer alteração. Mas há muitos mais. Desde que acordo, a forma como o faço, como me levanto, o roupão, o telemóvel, a casa de banho, o cortar a barba, o banho e tantos outros ritos que se repetem dia após dia, ano após ano, sendo cada gesto, ato ou tique algo muito pessoal, mas sempre igual. Porquê? Porque sou um animal de hábitos.

Ao longo da vida, especialmente quando adultos, adquirimos hábitos. Uns podem ser bons e outros ruins. Alguns ajudam-nos a progredir e seguir em frente, enquanto outros não passam de um travão. Daí que a qualidade da nossa vida é o reflexo dos nossos hábitos, bons, ruins ou nem uma coisa nem outra. Aliás, há hábitos tidos como maus, mas que podem ser geradores de algo bom. Se um jovem tem o costume de usar e abusar da internet e dos jogos eletrónicos, isso pode dar-lhe capacidades que, bem orientadas e aproveitadas, podem vir a ser uma mais valia.

Se analisarmos ao pormenor cada dia da nossa vida, veremos que a maioria deles é quase uma cópia dos anteriores, como que tirada a papel químico. Nenhum de nós é igual ao outro nos seus hábitos, na sua maneira de ser. Cada um tem a sua forma de executar uma ação com frequência e regularidade até a tornar um hábito.

Para quem trabalha numa indústria em que os procedimentos fabris estão bem estandardizados, como é a de confeções, os gestos, os procedimentos, os movimentos de braços e pernas não passam de cópias ritmadas em cadências muito semelhantes ao longo da vida profissional. Se olharmos bem, até o levantar da cabeça, o ajeitar a peça com o braço, acionar o marcador das peças fabricadas, o respirar fundo, coçar o pescoço ou outra parte do corpo, são gestos automáticos, instintivos, fotocópias umas das outras ao longo de dias, semanas, meses, anos, vidas. Tudo é uma eterna repetição, como quando em criança cometia um erro no ditado ou cópia e a professora, por castigo, me obrigava a escrever a mesma palavra cinquenta vezes seguidas para não voltar a cometê-lo. E, na fábrica, essa repetição faz-se indefinidamente, vezes sem conta, como numa aprendizagem sem fim à vista …

Como procedemos quando vamos tomar banho pala manhã? Será que variamos a sequência dos passos a seguir ou cumprimos à risca uma “cartilha” sem um mínimo de variação? Eu dispo-me, coloco a roupa no mesmo lugar, entro no chuveiro, corro a cortina, abro a água e espero até ficar temperada, molho o corpo na mesma sequência do dia anterior (e dos outros), fecho a água, ensaboo-me, volto a abrir a água, enxaguo e retiro a espuma seguindo sempre o mesmo ritual, fecho a misturadora, limpo-me com a toalha a partir da cabeça, para terminar nos pés. E passo à fase do vestir. Todos os momentos são os mesmos do dia anterior e dos outros, como se já não soubesse tomar banho doutra forma. Como se fosse um robô programado e em piloto automático. 

Tenho um amigo que tem horror aos hábitos e às rotinas. Quando vai a qualquer lado, a pé ou de automóvel, faz questão de voltar por um caminho alternativo. Acha ele que toda a repetição é monocórdica, entediante. Por isso, varia em tudo o que pode, desde o restaurante à comida, do que faz à música que ouve. Já lhe perguntei porque é que ainda está casado com a mesma mulher há quase quarenta anos, mas não me respondeu, nem eu quis saber se “quebra” essa rotina e com que frequência o faz …

É natural que cada um de nós tenha os seus hábitos, bons e maus, que definem muito quem somos e como somos. É verdade que podemos, e em muitos casos devemos trabalhar alguns deles, no mínimo para ter melhor qualidade de vida. Cá por mim preciso de “dar um jeito” a todos aqueles hábitos a que chamamos “males da vida moderna”, tais como alimentação não saudável, horários de sono desorganizados, vida sedentária, falta de descanso, excesso de trabalho e outros tidos como normais na nossa sociedade, mas que, mais dia menos dia, nos vão cobrar o seu preço.  

Diz-se que somos um animal de hábitos. E, se olharmos bem para os nossos comportamentos e atitudes, temos de reconhecer que é bem verdade. A questão verdadeiramente importante é saber se somos capazes de manter os bons hábitos, os que funcionam a favor de uma saúde física e mental equilibrada, ao mesmo tempo que reduzimos o peso dos outros que não ajudam, naquilo que faz da vida “uma eterna repetição” …   

O divórcio antes do casamento …

Vera e Artur, nomes fictícios como se percebe, juntaram os trapinhos e, depois de quase quatro anos a viverem juntos e com dois cães de companhia, decidiram casar. Cá para nós que ninguém nos ouve, ela é que tomou a decisão quando uma das amigas “deu o nó com pompa e circunstância”. Desabafou com a irmã que também tinha de conseguir e Artur, como qualquer homem que pensa ser ele que toma a decisão, depois de muitos “ses” e “mas” acabou por engolir as objeções e deu o “ámen”, ainda por cima sem aquele ar contrariado que punha quando falavam no assunto, para “não ter de a ouvir” o resto da vida. Eles (ou ela?) escolheram a igreja, “aquela quinta de eventos”, o mês de Abril de 2020, a ementa “premium”, os arranjos florais, a música, fogo de artifício e tudo o mais, para além de uma longa lista de convidados a ultrapassar os trezentos, já reduzida depois do noivo ter conseguido eliminar alguns convivas que nenhum dos dois conhecia bem nem sabia como ali tinham ido parar. Escolheram e compraram o fato e o vestido de noiva, alianças, viagem para a lua de mel nas Maldivas e todos os pormenores, desde os convites às prendinhas surpresa, sem deixar nada ao acaso. Mas, diz-se que “o homem põe e Deus dispõe”. Em Março desse ano chegou a pandemia e virou tudo do avesso. E o confinamento e todas as restrições que o acompanharam, fizeram com que só restassem duas opções ao casal Vera e Artur: escolher um novo modelo de casamento com muito poucos convidados e mesmo assim com todas as condicionantes de proteção e distanciamento ou adiar à espera de dias melhores. Ora, para quem queria o casamento espetacular como era o caso, não restou outra opção senão o adiar, acabando por ser consensual remarcarem para o mês de Setembro. Talvez as coisas já estivessem mais calmas. Artur não se opôs e até teria mais tempo para se adaptar à ideia da nova situação de vida. Conseguiram alterar a marcação na quinta dos eventos, não para um sábado como desejavam, mas para o único domingo livre na agenda e tudo passou a ser reprogramado para o novo dia, com novos convites porque os primeiros não puderam ser aproveitados, mas as alianças seriam as mesmas, se bem que tendo a gravação da primeira data, o que eles consideraram ser um pormenor sem importância.

Mas quando Setembro já estava próximo, a situação mantinha-se sem hipótese de poderem realizar o casamento conforme o planeado e fez com que voltassem a alterar a data, regressando ao mês de Abril, mas desta vez de 2021. Com isso, tiveram de se sujeitar à disponibilidade da quinta, tendo desta vez a escolha recaído numa sexta-feira pois já foram dos últimos a decidir a mudança. E voltaram a refazer o plano e os preparativos para a nova data, esperançados de que a pandemia em Abril estaria ultrapassada. Mas, à medida que os meses passavam com a situação sanitária a agravar-se e o confinamento a provocar os estragos de uma convivência intensa e anormal, aconteceu a rotura no casal e toda a relação se esfumou em poucos dias.

Ora, não há no país quem queira festejar o primeiro aniversário do Covid-19 em Portugal, embora alguns tenham “engordado” em época tão difícil. Mas os períodos de crise “nunca são maus para todos”. Daí o provérbio “não quero que ninguém morra, mas quero que a minha vida corra”. A pandemia virou-nos a vida de pernas para o ar e desfez num instante quase todos os planos e sonhos, brincando com a nossa saúde num jogo de lotaria russa onde nunca sabemos se já chegou a nossa vez. Consigo trouxe mais pobreza, exclusão, medo, quebra nas exportações, aumento da dívida pública, ansiedade, falências, stress, instabilidade, vítimas de violência doméstica, incerteza no futuro e um rasto de mortos.

Enfim, perdemos a vida que julgávamos segura, ao ponto de serem impedidos os contactos físicos como os abraços e beijos, encerradas numerosas atividades, proibidos ou reduzidos a muito poucas pessoas espetáculos e celebrações diversas como as missas, batizados e até casamentos. Foi assim que, para aqueles que, como a Vera, queriam uma cerimónia muito participada por amigos e familiares para festejar esse momento importante das suas vidas, não lhes restou outra solução senão adiar a celebração. E isso aconteceu com milhares de casais em 2020 e, ao que tudo indica, continuará a acontecer este ano, sem fim à vista. E os mais devotos por cerimónia com muitos convidados correm o risco de ver o casamento adiado eternamente, esperando-se que um pouco antes de terem netos. Há dias dizia-me a mãe de uma noiva: “A minha filha ia casar-se agora, mas só podia ter um pequeno número de convidados e a festa na quinta tinha de acabar às nove da noite. Que raio de festa ia ser essa com hora de fecho e restrições à diversão? Claro que lhe disse para a adiar”. 

Em Portugal o número de casamentos tem vindo a baixar, para se vir a manter um pouco acima dos 30.000/ano na última década. Já no que diz respeito aos divórcios estamos muito bem, colocados entre os três primeiros da Europa, lugar do pódio que muito preocupa aqueles que estudam a nossa demografia. É que, por cada 100 casamentos, há em média mais de 65 divórcios, no casa e descasa que quase não dá tempo para juntar mesmo os “trapinhos”.

Com o confinamento, a pandemia veio trazer pressão à relação e nos casais com fragilidades, fechados em casa sem o escape de uma saída a jantar fora ou uma ida à praia ou ao centro comercial, elas foram agravadas ou romperam-se. Como se já não fosse suficiente o tempo indefinido em que é possível viverem juntos sem ter de casar, dando tempo para ensaiar e experimentar a vida em comum sem passar pelo casamento e todo aquele peso da responsabilidade, além dos custos da “festa”, ao atrasar as celebrações como o fez em 2020 e continua a fazer este ano, o Covid-19 permite que um número bem significativo de casais que já tinha a boda marcada como foi o caso da Vera, se separem ainda a tempo de cancelarem definitivamente o casamento, poupando na fatura da “festa”, lua de mel incluída, bem como no divórcio que viria a seguir e divisão dos “trapinhos”, que da outra forma é (quase) sempre conflituosa. A isto chama-se “divórcio antes do casamento”, que é bem mais económico, fácil e saudável que depois. E parece que não são tão poucos …

E alguém fica a perder? Claro que sim. A quinta do evento que perde uma receita. Os convidados, que perdem uma farra. Os patronos da celebração, que perdem a oportunidade de se gabar e fazer inveja à vizinha. E a estatística do país pois é menos um casamento a estragar a média nacional …

Um sorriso, para derreter o gelo …

A primeira imagem com que ficamos de uma empresa, instituição, serviço ou repartição pública é-nos sempre dada pela pessoa que nos atende. Boa, má ou assim, assim, agradável ou desagradável, pode perdurar para sempre e fazer com que passemos a ser clientes fieis ou, pelo contrário, nos deixe péssimas recordações pela forma como fomos tratados e nos aconselhe a nunca mais lá voltar. Por isso se diz que quem nos atende é “o rosto” visível da empresa ou da instituição. Dele guardaremos a simpatia de um sorriso e as palavras amáveis ou uma cara arrogante, quando não de trato grosseiro e desrespeitoso. Tenho encontrado de tudo. Homens e mulheres, altos e baixos, feios e bonitos, magros e gordos, jovens e velhos, de quem recebi o brilho de um raio de sol ou o vendaval de uma chuva gelada. E se há alguns que fiz questão de reter na memória pela excelência da receção, outros houve que foram atirados de imediato para o rol do esquecimento e em dois casos, dei-me ao cuidado de telefonar ao proprietário dando-lhe a sugestão de que deveria melhorar a qualidade do atendimento para não “espantar a clientela”.       

Nos seus oitenta anos, o senhor Domingos era um solteirão alegre e bem disposto, mas muito respeitoso. Naquele dia precisou de tinta e dirigiu-se à drogaria mais próxima. Quando entrou, duas funcionárias que estavam ao balcão conversavam, contando detalhadamente entre si as histórias do fim de semana, com pormenores a mais, sem sequer se preocuparem com a presença do senhor Domingos. E ele ficou ali, do lado de fora do balcão à espera de ser atendido durante mais de vinte minutos, enquanto as duas balconistas tagarelavam como dois papagaios à solta pela manhã, esquecidas do resto. Só quando uma delas avisou que ia à casa de banho é que a outra se “virou para o cliente” com ar insolente e fez a pergunta de quem está a fazer um frete, incomodada: – O que é que quer? O senhor Domingos fingiu não notar o tom desagradável e tirou do bolso um bloco de notas onde registara a referência da tinta que o pintor lhe solicitara, entregando-a à empregada, dizendo: – Por favor, desejo uma lata de cinco litros desta tinta. Levando consigo o bloco de notas, ela foi ao armazém e pouco depois apareceu com a lata de tinta que poisou em cima do balcão. E, naquele ar insolente, perguntou: “É só?”, como querendo saber se ele só queria aquilo ou se precisava de mais alguma coisa. E o senhor não deixou fugir a oportunidade para lhe “dar troco” pela sua indelicadeza: “Não sou só, não. Tenho lá em casa mulher, dois filhos e um cão” …

A qualidade do atendimento ao cliente é um ponto fundamental em qualquer empresa. Sem um bom atendimento, não há clientes, sem clientes não há negócio e, sem negócio, não há empresa. Também o é nas instituições e repartições públicas, onde de vez em quando ainda encontramos gente que teima em querer fazer de nós, cidadãos com direitos, meros pedintes do que nos é devido e que essa gente pensa ser favor só porque estamos do outro lado do balcão. E, confesso, já por mais que uma vez abandonei a fila por não querer ser atendido por alguém “com cara de poucos amigos”, com falta de educação e arrogância. 

Felizmente hoje já temos em muitas empresas e instituições gente que “sabe sorrir”, um sinal que encurta a distância entre as pessoas e que é tão importante como os conhecimentos e preparação de quem atende. E, pensando bem, o sorriso não custa nada, mas pode não ter preço; é leve, mas tem um poder imenso, é breve, mas a lembrança pode ficar para o resto da vida; não se compra, não se vende, não se empresta, não se rouba. Oferece-se, troca-se, dá-se. E o sorriso atrai e provoca sorriso, tal como o espelho nos devolve a imagem.

Tive de ir ao Departamento de Urbanismo de uma câmara do Alto Minho para solicitar uma informação ao técnico responsável de que só conhecia o nome. Quando cheguei, estavam três pessoas na fila. Com a intenção de saber se o técnico em causa estava de serviço, aproximei-me do balcão e, num momento que me pareceu oportuno, abordei o funcionário que estava a atender: “Desculpe. Por favor, pode-me só informar se” …  mas fui logo interrompido num tom seco e ríspido com um “vá para a fila e aguarde a sua vez”. Nem sequer quis contestar a indelicadeza da atitude e voltei à fila para aguardar a minha vez como me fora ordenado. As pessoas que estavam à minha frente foram sendo atendidas muito lentamente e, quarenta minutos depois, chegou a minha hora. Repeti parte do que já tinha dito: “Por favor, pode-me informar se o senhor arquiteto Afonso está”? E aquele rosto fechado e sisudo, respondeu-me no mesmo tom que já ouvira: “Não sabe que hoje não é dia de atendimento? Tem de fazer marcação se quiser falar com ele”. E a conversa acabou. Estive ali a secar nos últimos quarenta minutos quando ele, se soubesse ouvir, só perdia 5 a 10 segundos e tinha resolvido o meu problema sem prejudicar as outras pessoas.  

O cliente ou utente não pede nem merece um discurso ou lição de moral, mas sim um bom atendimento, se possível excelente, com simpatia, educação e bom humor. E, claro, com um sorriso, sabendo escutar quem estiver disposto a falar, sejam críticas, sugestões ou pedidos, porque todas as pessoas são importantes. Mesmo nestes tempos difíceis que todos estamos a viver, é mais importante que nunca para quem está na linha da frente do atendimento saber ouvir com paciência, atenção e preocupação real pelas pessoas. Se fosse numa empresa onde o objetivo é vender, nunca mais eu lá punha os pés …

Há momentos em que a vida nos é madrasta e perdemos alguém que amamos, a vida não correu bem, temos um problema de saúde com um familiar ou uma derrocada financeira. Sentimo-nos zangados com a vida, zangados com tudo e com todos. Mas devemos perceber que temos de deixar os nossos problemas cá fora, à porta da repartição ou da empresa, porque os clientes/utentes não têm culpa das pedras que a vida nos põe no caminho. Ou então optamos por ficar afastados de cena até recuperar o ânimo e alegria de viver, por nós e pelos outros. Quem sabe se o conseguimos pela força de um sorriso, aberto e genuíno, de alguém durante um atendimento em que fomos capazes de pôr alguma humanidade com uma boa dose de humor e empatia …    

Prisão ou rua? Dá para escolher?

Já lá vai o tempo em que a cadeia de Lousada funcionava na cave da Câmara Municipal. Quando andava por ali junto do pelourinho, via os presos atrás das grades de ferro e metia-me impressão vê-los com os braços de fora a pedir um cigarro ou uma moeda a quem passava. E por vezes, havia um ou outro conhecido de algum que ficava ali em amena “cavaqueira”, ajudando a matar o tempo, fazendo da rua a “sala de visitas da cadeia”, no tempo em que as prisões não tinham “condições de habitabilidade”. Mas hoje a realidade é bem diferente e as prisões improvisadas e sem condições, como era o caso, acabaram. Agora são edifícios especiais com outros requisitos, tanto em termos de segurança como condições para presos e pessoal, além de regalias para detidos que até há quem pergunte se são parte de um castigo ou alguma estância balnear para retiro espiritual. Os políticos defendem sempre a melhoria das instalações prisionais e lá têm as suas razões para o fazer. Conta-se que um governante andou pela região a visitar equipamentos diversos, ouvindo sugestões, revindicações e pedidos da população. Numa escola deram-lhe uma longa lista de reclamações por o edifício estar muito degradado. Já na penitenciária os presos exigiram melhor qualidade de vida, melhor comida, mais tempo de recreio e acesso às novas tecnologias. No regresso o governante deu instruções à secretária que o acompanhava: “desencadeia o processo para reparar as janelas na escola. Nada mais. Quanto à penitenciária, manda satisfazer todas as exigências dos prisioneiros”. Escandalizada com a ordem recebida, respondeu-lhe: “Mas o que me disse, senhor ministro, não faz sentido nenhum” … Ele, sem a deixar concluir o seu raciocínio, continuou: “Pensa bem. Nós já andamos na escola e jamais voltaremos para lá. Mas, quanto à prisão… nunca se sabe”. Por alguma razão se diz que “governar é prever”. 

Circula na internet uma paródia de alguém que considera absurdo as condições nas prisões se comparadas com as condições de vida de muitos idosos cujo único crime foi terem uma vida de trabalho. Por isso, propõem uma solução inovadora para dar dignidade aos velhos e castigar os que prevaricaram na sociedade: “Que os idosos ocupem na prisão o lugar dos reclusos e estes sejam obrigados a morar nas casas dos idosos.  E assim se faria mais “justiça social”. Vejamos:

“Com esta simples medida, os idosos teriam um duche diário, lazer e passeios. Não precisavam de preparar refeições, ir às compras, lavar a roupa e a loiça, arrumar a casa e outras tarefas diárias. Ser-lhes-ia assegurada assistência médica e medicamentos, gratuitamente, bem como as refeições quentes a tempo e horas, devidamente controladas pela ASAE. Não tinham de pagar renda pelo alojamento, a roupa da cama era mudada duas vezes por semana e tinham a roupa lavada e passada a ferro com regularidade. Deixavam de sofrer com a solidão de casa pois estariam sempre acompanhados, com direito a vigilância permanente através dos meios tecnológicos mais avançados, com garantia de assistência imediata em caso de acidente ou emergência, tudo a custo zero. Até teriam alguém que os iria visitar a cada vinte minutos e entregar o correio em mão. Das regalias desta “hotelaria”, constaria o acesso à biblioteca para cuidar da mente e ao ginásio para cuidar do corpo. Eram encorajados a arranjar terapias ocupacionais adequadas, com formador, instalações e todo o tipo de equipamentos a título gratuito, com acesso a sala de leitura, computador, televisão, rádio e chamadas telefónicas na rede fixa. Teriam roupa e produtos de higiene pessoal, bem como assistência jurídica, sem ter de dispor de um cêntimo. Além de terem enfermeiros, médicos, psiquiatras e dentistas, beneficiariam ainda dum secretariado de apoio, psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, mais as visitas dos políticos, das televisões, grupos de voluntários e defesa dos seus direitos, para lhes dar atenção e atender reclamações. Em suma, viveriam num “condomínio privado” e seguro, com zona de convívio, exercícios ao ar livre e ginásio, vigiado de dia e de noite por guardas obrigados a respeitar um código de conduta, sob pena de serem severamente penalizados, além de lhes serem reconhecidos os direitos humanos internacionalmente convencionados e subscritos por Portugal”.

“Já os delinquentes, ao ocuparem as casas dos idosos, teriam de viver com 200 euros por mês ou pouco mais numa pequena habitação que já não via obras há 50 anos. Para comer, teriam de confecionar as refeições, comê-las muitas vezes frias e fora de horas e, quando se esquecessem de comer ou tomar a medicação, não teriam ninguém para os ajudar. Eram obrigados a tratar da sua roupa, viveriam sós e sem vigilância sujeitos a ser vigarizados, assaltados ou até violados, sem ter quem lhes acudisse. As instituições e os políticos não lhes ligariam nenhuma, a não ser em períodos eleitorais. Estariam anos à espera de uma consulta ou cirurgia, se é que a tinham antes de “bater a bota” e não teriam ninguém a quem se queixar. Tomavam banho de 15 em 15 dias, sujeitos a não ter água quente e a caírem na banheira velha da casa. O único entretenimento diário seria ver na televisão as telenovelas, o Goucha, a Júlia Pinheiro e afins, bem embrulhados em cobertores grossos no inverno para se protegerem do frio, pois a reforma de 200 euros ou pouco mais não dava para aquecer os pés, quanto mais a casa. E, se morressem, podiam ficar dias, semanas, meses ou anos, até que alguém os encontrasse”.

O autor acha que esta seria uma forma de fazer mais justiça social, de proteger o contribuinte, castigar quem prevarica e defender aqueles que trabalharam uma vida e têm reformas de miséria.

É curioso que o governo holandês, recentemente, deliberou impor à sua “clientela prisional” o pagamento de uma diária por ficarem “hospedados” atrás das grades. Com isso, pretende obrigar todos os criminosos a assumirem o custo dos seus atos e poupar dinheiro ao erário público. O governo considera que o detido é parte integrante da sociedade e que, ao cometer um delito, lhe é devido contribuir para os custos inerentes. 

Nesta miscelânea de notícias e opiniões, é evidente a discrepância do tratamento e das “benesses” atribuídas aos presos e o esquecimento a que são votados os idosos. Os primeiros, apesar de limitados na liberdade de circulação, vivem ociosamente e sem preocupações à conta do estado (isto é, de todos nós), podendo mesmo, se quiserem, tirar qualquer curso profissional, médio ou superior com tudo pago, inclusive o transporte para fazer os exames no estabelecimento de ensino escolhido. Quanto aos “outros”, os velhos, cujo único crime que cometeram foi o terem levado uma vida de trabalho sério, duro e sofrido com trinta ou quarenta anos de contribuições para o estado, em grande número têm de fazer esticar a pensão de miséria pelos trinta dias do mês, num equilíbrio difícil. Não se defendendo que os primeiros não devam ter um “alojamento” digno, com acesso a várias atividades físicas e educativas facilitadoras duma reintegração social, não é justo que “quem cumpriu o seu dever” de cidadão e contribuiu para a sociedade, não tenha, no mínimo, benesses e regalias iguais àqueles que não cumpriram a lei, precisamente quando a saúde física e mental mais o exige.

Será que neste sofisma há verdades que não queremos ver ou ouvir?  

Uma “sociedade” muito difícil …

Diz o povo que o casamento é a “sociedade” mais difícil de manter. E numa “sociedade” tão difícil como é a relação de um casal, seja ela formalizada através de “escritura pública”, o chamado casamento, seja ela informal, a dita união de facto, o risco de “dissolução” ou até mesmo de “ir à falência” é muito alto nos nossos dias, bem maior do que nas sociedades comerciais. E o elevado número de divórcios, separações e muitos outros finais da relação é o sinal evidente da grande dificuldade em encontrar nos “sócios” quantidade suficiente de respeito, diálogo, paciência, resiliência, aceitação e a capacidade de perdoar. E eu disse nos “dois sócios”. Mais ainda, as facilidades (e conveniências) dum “período experimental de utilização”, de duração indefinida, facilita e faz crescer o número de “devoluções” do outro à procedência ao mínimo incómodo, arrufo ou insatisfação. 

Todo o encanto e dificuldade para ser um casal é consequência de se juntarem duas personalidades com identidades próprias e perceções e histórias de vida diferentes, bem como desejos e projetos distintos e que pretendem ser um só. Convenhamos que não é fácil, até porque homem e mulher têm motivos de interesse diversos que raramente são coincidentes e que, mais dia menos dia, se tornam no rastilho de uma explosão caseira. Ora, estando eu do lado dos homens, cabe-me defender a sua visão, o seu olhar sobre o “outro lado”.    

Estamos no século XXI e, apesar de todos os avanços científicos e do conhecimento mais profundo do ser humano, continua-se a afirmar que para o homem, “é difícil entender as mulheres”. E, claro, é difícil entender pessoas quando elas próprias não se entendem. Mais ainda porque enquanto o homem é muito “visual” e prático, já a mulher é emocional e complexa. Confessava um marido não perceber o que se havia passado com a esposa. Quando iam sair à noite ela “descobriu” que o vestido era demasiado decotado. Voltou para trás e trocou-o por umas calças, blusa e casaco, mas ao entrar no carro apercebeu-se que os sapatos não condiziam com o resto e … regressou a casa. Bom, conseguiram arrancar quase uma hora depois. 

Quando perguntamos à mulher “o que se passa?” e ela responde “não é nada” ou, num tom seco e ríspido “naaaada” e com cara de amuada (que em gíria popular se traduz “de trombas” ou “com cara de poucos amigos”), é sinal que algo se passa. Ela sabe e nós sabemos, que algo não lhe caiu bem, que alguma coisa a incomoda. O quê? Se pensarmos que vai ser fácil descobrir “que mosca lhe mordeu”, estamos muito enganados. Em regra, é bem difícil descobrir ou tal só será possível depois de ela “fazer muitas fitas”. E vai ser precisa uma grande dose de paciência, num jogo de (falsa?) preocupação, porque é isso que ela quer. Que fiquemos preocupados. Porque ela gosta de sentir a nossa preocupação, real ou falsa, pois dá-lhe um grande prazer “assistir” ao “sofrimento” do “escravo”, como se isso seja a sua redenção. No fundo da questão, quer atenção, muita atenção quando corta dois dedos no comprimento do cabelo e temos de descobrir imediatamente o “novo look”, fazendo um elogio rasgado e sincero (porque o seu radar sabe se é sincero ou não). Tal como com o vestido novo, os sapatos ou um simples lenço do pescoço. E ai daquele que o não veja …

Se ela perguntar “este vestido faz-me gorda?”, é preciso ter cuidado a responder, porque “podemos ser presos por ter cão e presos por não ter”. A pergunta tem rasteira, porque ela tem consciência que aquele vestido a faz gorda. Ora, como ela já conhece a verdade, mas não quer ouvi-la da nossa boca, precisa de arranjar um “bode expiatório” para o facto de o ter comprado e sentir-se desapontada por lhe ficar justo demais, fazendo realçar aqueles pequenos pneus à volta da cintura. Por isso, não lhe podemos dizer que a faz gorda, porque é disso que ela está à espera para nos cair em cima dizendo que “não gostas de mim” ou “achas mesmo que sou gorda?”. Mas se cairmos também na patetice de lhe esconder a verdade, que é evidente, a reação poderá ser ainda pior com um acalorado “estás a mentir” ou “não é isso que estás a pensar”. Entre uma e outra resposta, há que escolher terceira via, alternativa, que é optar por não responder, porque nestes casos ela não quer ouvir resposta nenhuma da nossa parte. É uma pergunta somente para se ouvir, um desabafo atirado ao “vento” e, já agora, a nós. E o vento nunca lhe responde, porque é mais inteligente do que nós. Ainda podemos optar pela fuga, inventando uma desculpa bem conseguida e consistente, para não dar azo a sermos “apanhados a mentir”. O argumento de que “temos de ir urgentemente à casa de banho” ou outro bem consistente, não pode deixar dúvidas para que a saída seja airosa. E precisamos de ter consciência que a fuga pode ser um ato de coragem em muitas ocasiões … 

Hoje ouço falar na partilha de trabalhos em casa, dos cuidados com os filhos, outras responsabilidades e até no “comando da sociedade” o que pode não passar de uma mera intenção. É que a mulher gosta de mandar e se o parceiro não se cuida, quando der por si já estará “formatado” ao seu gosto. No que veste, porque depressa se torna no seu “gestor de imagem”, no que vê na televisão, pois ela não gosta de futebol, onde vão comer ou passear. E o seu toque também está no planeamento das férias e não só. A maioria dos homens reconhece que a palavra de ordem dentro de casa vem da mulher, além de que preferem mudar de opinião a comprar uma briga com ela …

Devemos ter sempre em conta que “a esposa é a mulher que está ao nosso lado para nos ajudar a resolver problemas … que não teríamos se não estivéssemos casados”. 

As pessoas gostam de ser enganadas

Em 1810 nasceu nos Estados Unidos um homem que viria a ficar conhecido por Phineas Barnum. Embora tenha sido autor, editor, palestrante, filantropo e até político, tornou-se um empresário de sucesso no ramo do entretenimento norte americano, sendo lembrado principalmente por promover as mais famosas fraudes e curiosidades humanas e por ter fundado o mais famoso dos circos. O circo começou por ser um museu de esquisitices e monstruosidades que atraía multidões fazendo fila, inclinando-se diante da escrava cega que tinha 161 anos de idade e amamentara George Washington, beijando a mão de Napoleão Bonaparte que media 64 centímetros de altura e comprovando que estavam bem coladinhos um ao outro os irmãos siameses Chang e Eng, além de verificarem que as três sereias tinham rabos de peixe autênticos. Barnum tornou-se o homem mais admirado pelos políticos profissionais. Ele levou à prática, melhor do que ninguém, a sua grande descoberta: “As pessoas gostam de ser enganadas”. 

Se há duzentos anos essa afirmação era verdadeira, hoje tornou-se mais verdadeira que nunca, até porque vivemos num mundo global onde a informação, boa e má, circula à velocidade da luz. Do futebol à política, das falsas notícias às promessas de ganhos grandes e fáceis, das religiões que vendem a salvação, da publicidade enganosa que dá ideia de uma coisa quando a realidade é outra, tudo é campo fértil de tentações e enganos.  

Há alguns dias um amigo teve um problema elétrico no automóvel. Como conhecia o senhor José, bom eletricista e de confiança, apesar de não o visitar já há algum tempo, foi procurá-lo. Quando o encontrou e relatou o problema, ele disse-lhe que não podia fazer nada porque tinha fechado a empresa. Nem sequer tinha material para lhe fazer o serviço. “Mas você tinha uma empresa tão boa, com tanta clientela. O que diabo aconteceu?”, perguntou-lhe muito intrigado. E então, as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara abaixo. Constrangido, lá conseguiu dizer: “Foi a minha mulher. Meteu-se numa dessas religiões que vieram do Brasil e confiou de forma cega no bispo. Sem eu me aperceber, limpou-me mais de duzentos mil euros da conta. Quando eu quis pagar aos fornecedores estava totalmente desfalcado. Só me restou pedir a insolvência”. 

Este “filme” já o vimos noutras ocasiões, com outros protagonistas. Apesar dos avisos, há sempre quem esteja “disponível” para “embarcar” na conversa das promessas de salvação pelo “desprendimento dos bens materiais”. Só que eles fazem precisamente o contrário. E o expoente máximo e mais mediático parece ser o “bispo” Edir Macedo, dono de um autêntico império, apesar da imprensa ir denunciando as fraudes e o fausto em que vive à conta da sua capacidade oratória. Tal como Barnum, descobriram que “as pessoas gostam de ser enganadas”. Mesmo quando lhes pedem dinheiro no meio do “barulho” …

É mais fácil acreditar em coisas esquisitas e anormais do que pensar, questionar. Acontece isso com os mágicos, bruxos, cartomantes e os adivinhos. Só que o mágico confessa que faz truque, mas não revela o segredo, enquanto os outros dizem que falam com os mortos, leem a sorte e alteram o destino das pessoas só ao olharem as cartas, a bola de cristal ou as borras de café e que têm visões. E as pessoas creem, porque “preferem ser enganadas”. E o mais caricato é que é preciso muito cuidado ao dizer a verdade a essas pessoas pois não querem acreditar nela. Preferem o engano. 

Mas se formos à política a coisa é igual ou pior. Veja-se o louco que esteve à frente de um país como os Estados Unidos, comportou-se como um elefante anormal no meio de uma loja de louças e, mesmo assim, quase metade da população americana continua a estar do seu lado, acreditando sem questionar nos milhares de mentiras que lhes impingiu ao longo do seu mandato. Aliás, nem precisamos de ir lá fora para encontrar “artistas” que, pela sua capacidade oratória, têm vendido todo o tipo de “banha da cobra”, angariando numerosos “crentes”, adeptos incondicionais que não questionam, que não se interrogam se é verdade ou mentira o que lhes sai da boca e nem se dão ao trabalho de pensar. É o mais fácil. Há mentiras vestidas de verdade e verdades irrefutáveis em que não acreditam. Quando são condenados pela justiça, cumprem prisão, voltam e são reeleitos precisamente por aqueles de quem se aproveitaram. O que se pode esperar? Estes políticos são uma espécie de “santos”, cartomantes ou bruxos em que as pessoas querem acreditar. Por isso, vão-lhes dando algumas “migalhas”, para dar credibilidade à mentira. Tal como dizia António Aleixo: “P’ra mentira ser segura/ e atingir profundidade/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade”.

Os “pregadores e vendedores” de grandes ganhos financeiros são um outro bom (mas mau) exemplo de que “gostamos de ser enganados” ou ainda de “nos querermos enganar a nós próprios”. E isso acontece mais nos períodos de crise económica, porque a falta de dinheiro faz com que as pessoas estejam “abertas” às tais “soluções milagrosas”, com promessas de ganhos muito acima da média. Aliás, já Hitler em 1925 no seu livro Mein Kampf diz: “as massas serão mais facilmente vítimas de uma grande mentira do que de uma pequena”. E isto ainda é válido nos nossos dias, porque as pessoas acreditam no que querem acreditar, quando têm de acreditar. Daí que, nas questões financeiras, quanto maior é a proposta de ganhos possíveis, maior é a apetência em aderir à solução proposta. Foi assim que este país viu surgir a D. Branca e todos os seus “discípulos”, seguidores dos princípios básicos que ela utilizou, mas com “outra sofisticação e uma melhor qualidade de imagem”. Os “herdeiros da filosofia” mantiveram a mentira num nível alto com os “10% de juros prometidos ao mês, e até mais”, o que aniquilava toda e qualquer “dúvida” que pudesse pairar na cabeça interessada de gente “obcecada, cega pela tentação de ganhos fáceis”, o que, normalmente, impede de ver além da “promessa fantástica”. E, pelo contrário, é uma rendição de quem quer ser enganado.

Eu sou uma pessoa como qualquer outra e sempre estive exposto às mesmas rasteiras, erros, tentações e defeitos dos seres humanos. Há ocasiões que penso no número de vezes que me deixei ir na “oratória milagreira”, na “ilusão de ganhos mirabolantes”, nas “promessas de políticos demagógicos”, no “conto do vigário” ou outra mentira bem travestida de verdade, por não querer ver o evidente, não questionar, pensar, nem pôr a razão a controlar a emoção. Francamente, quantas vezes também terei pedido para ser enganado?