O cães “ladram” e a caravana…

Quando pela manhã consigo vencer a preguiça e arrastar o traseiro para fora da cama, visto o fato de treino, calço as sapatilhas (não percebo porque raio agora teimam em chamar-lhe “ténis”) e ponho um boné. A Becas, a minha nova cadelita, corre para mim com o rabo a abanar tanto que, qualquer dia, ainda se desaparafusa e cai. É a sua forma de exprimir alegria pelo passeio que se avizinha. E não acalma enquanto não lhe colocar a trela e caminhar para a porta da rua. Ao atravessar a soleira e dar os primeiros passos lá fora, a “sinfonia” começa de imediato, tocada pela “cãozoada” dos arredores: “Ão, ão, ão. Béu, béu, béu”. Gostava de saber como é que os cães, alguns deles distantes e em lugares de onde é impossível verem-nos, dão conta de que estamos a passear. Ou melhor, de que ela está a passear… E ao longo de toda a caminhada a cena repete-se constantemente, com cães grandes e pequenos, presos ou soltos, escondidos ou à vista, mais próximos ou mais distantes, todos a ladrar. Às vezes, até dou comigo a imaginar no que cada um estará a dizer, eventualmente em “conversa” com o cão vizinho porque, se for para ela, dá-se ao luxo de não lhes responder. Não sei se algum dos cães a cumprimenta com um “bom dia” ou “olá” ou se até tem o atrevimento de lhe atirar um piropo (que se cuide, pois ainda pode ser acusado de assédio sexual). Pela forma vigorosa e agressiva como alguns cães ladram, penso que as suas intenções não são nada simpáticas, postura de seguranças à entrada de discoteca. Calculo que os cães mais “convencidos”, talvez dececionados porque ela não lhes liga, vão dizendo entre dentes e rosnadelas para os que os rodeiam: “Esta cadela tem a mania e não nos liga nenhuma”. E “quem será esta meia-leca sarapintada”? Ou, num lamento latido, afirmam: “quem me dera poder também passear o meu dono, em vez de estar aqui amarrado o dia todo ao cadeado, sem água nem comida”. Há também os atrevidos, geralmente cães vadios, que se aproximam devagar para lhe cheirar o rabo, ladrar duas ou três vezes e urinar na parede mais próxima a marcar terreno. Chega a ser curioso observar os seus rituais, as reações com a cauda para cima (amistosa) ou para baixo (agressiva), o medo e a simpatia, a curiosidade e a indiferença. A Becas não se dá por achada. Só num ou outro caso é que se permite dar-lhes atenção, abanando a cauda de satisfeita. Caso contrário, cheira em volta e, em resposta, também “marca terreno”, urinando.

Tudo isto não será muito diferente do comportamento dos seres humanos… Basta passearmos na rua e vemos logo que temos muito em comum, embora com procedimentos diferentes. Se homens ou mulheres passam na via pública, especialmente em meios pequenos como o nosso, como é que reagem as outras pessoas à sua passagem? “Ladram” também, não da mesma forma que o fazem os cães, mas à maneira humana.

Em regra, os cães são mais “transparentes”, pois exteriorizam bem alto a sua “fala”. Nós “ladramos” em surdina para alguém que esteja ao nosso lado, disfarçadamente, para os visados não nos ouvirem. Na minha (in)capacidade de tradução das “falas” caninas, os seus “comentários” à passagem da Becas são muito de regozijo por ela estar em liberdade, sinal de solidariedade canina, do que de inveja ou fofoca sobre a sua vida privada.

Ora, já o mesmo não se poderá dizer do “latido” dos humanos ao verem outro humano a circular na rua. Em regra, são muito mais críticos que simpáticos. Se for mulher, que passou a andar bem vestida, é algo assim: “Como é que esta gaja arranja dinheiro para andar tão bem arriada, se só ganha o salário mínimo? Há moiro na costa…” Ou algo como “já viste o corte de cabelo daquele? É tão ridículo…” E, “não sei de que é que este fulano vive”. Quando o visado é homem, pode ser: “este tipo comprou carro novo, mas não paga o que me deve”. Ou “vejam lá aquele senhor, com a posição social que tem e anda tão mal vestido”. Pior ainda, se um homem passa três vezes em frente da casa de uma mulher, mesmo que por acaso: “Aquele anda a rondar a porta da Maria. Aqui há gato” …

Para além disso, ao contrário dos cães que só ladram enquanto sentem a presença do outro cão, nós ficamos a “ladrar” do visado muito para além da sua passagem. E a duração do “corta e cose” só depende de ter ou não quem faça coro e alimente a conversa. Fala-se do que se vê e do que se não vê, do que se sabe e muito mais daquilo que se não sabe. Num ápice, conta-se a vida do transeunte mesmo que, de facto, nem se conheça. Relatam-se os locais onde se viu, o que disse, se sorriu ou chorou, com quem estava, o que fez e, com algum jeito, o que estava a pensar.

Os cães são frontais. Se não gostam, ladram. Se têm medo, ladram. Se estão contentes, ladram. E ladram sempre, sem subterfúgios, sem disfarces, sem alibis. Nós não. Temos dificuldade em ser diretos, em assumir os comentários que fazemos. Por isso, falamos escondidos atrás da vidraça, do balcão ou do muro, quase sempre baixinho e “à boca pequena”. “Ladramos pelas costas”, muitas vezes sem saber de quê e porquê. A necessidade imperiosa que temos de “desenferrujar a língua”, “de morder pela calada”, “de cortar na casaca” dos outros, põe-nos a matraca a dar, a dar.

Para quem passa “na caravana”, tem de agir como a minha cadelita: Levantar a cabeça e seguir em frente, sem dar importância ao ladrar da “cãozoada”, nem valorizar os cochichos e olhares indiscretos.

Os cães só cheiram o cu dos outros para os identificar. Porque é pelo cheiro que os reconhecem. Nós, não. Tentamos “cheirar” quem passa para saber da sua vida e “meter o nariz onde não somos chamados”.

Mesmo que seja no mesmo sítio onde os cães cheiram os cães…

 

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