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O encontro dos amigos da saudade…

A maioria da malta estava lá, jovens de outrora, velhos de agora, em mais um encontro de curso, uma forma de romagem a amizades antigas mas perenes, para rever o seu “estado físico e mental”. Trinta anos depois de deixarmos Coimbra tomei a iniciativa de tentar reunir a malta num primeiro encontro, tarefa que se viria a revelar algo complicada pela dificuldade em localizá-los. Eram mais de sete dezenas… Mas, de contacto em contacto, com a indicação de um que sabia do outro e outro do outro, acabei por comunicar com a maioria deles numa primeira carta, já com data para o “almoço de curso”. A adesão foi excelente e o convívio ainda melhor. Mas, no reencontro, não consegui identificar alguns com a “fisionomia” alterada por uma grande careca, pelo físico “escondido” atrás duma barriga avantajada ou a cara disfarçada atrás de barbas grandes e bigodes farfalhudos, coisas que não tinham há trinta anos. No entanto, depois de falarem, lá estavam eles nos seus trejeitos particulares. Valera a pena. A partir daí, a rotina anual instalou-se, assumindo eu sempre a iniciativa e a responsabilidade porque, apesar de gostarem da confraternização, ninguém se voluntariou para a função. Deste modo, a iniciativa destes encontros continua a ser um encargo meu, que faço com muito prazer pelo prazer que tenho em rever os amigos.

Num desses encontros anuais uns quantos fomos na véspera e o Grilo recebeu-nos na sua “Lavra”, a propriedade agrícola que possui no vale do Mondego. Entre petiscos variados e garrafas de vinho de várias proveniências, contavam-se histórias, anedotas e vidas, tudo à mistura como é usual nestas patuscadas. No cruzamento das conversas o Sebastião falava do papagaio que comprara uns meses atrás e das suas habilidades: “Pois fiquem a saber que ainda só ando há meio ano a ensinar o meu papagaio a falar e ele já diz Olá”. A malta riu-se, brincou com a história e lá do canto o Souto e Melo não demorou a retorquir: “Ora, grande coisa. Até parece que o teu papagaio faz alguma coisa de extraordinário. Pois fica a saber que lá em minha casa tenho um bidé só há uma semana, nunca lhe ensinei nada e ele, desde o primeiro dia, diz: “Vista Alegre”. E foi gargalhada geral…

Encontros de curso são uma forma de rever amigos da juventude, recordar histórias, matar saudades, dos amigos, do que fomos, da nossa inocência e de uma santa ingenuidade. Por algumas horas até esquecemos os dramas, as dificuldades, a vida lá fora. E o tempo volta atrás. Mudamos o rosto, a barriga, o cabelo voou ou pintou-se de branco, a pele encarquilhou, curvaram as costas. E andamos devagar. Para ir, ignoram-se distâncias, custos, cansaços, filhos e netos. O que importa? As memórias. Reencontrar amigos de escola, de curso, é rever-nos a nós mesmos num tempo que existiu, que foi real mas se foi, mas onde é importante regressar de tempos a tempos, em romagem, ao encontro de velhas histórias comuns. Para que não se percam.

O Óscar era o colega à volta do qual a turma se reunia, porque tinha sempre uma boa história que sabia contar como ninguém. Para lhe dar realismo, colocava-se no meio dela como se tivesse acontecido com ele, quando na realidade na maior parte das vezes não passava de mais uma anedota. Entrou na Escola Agrícola comigo e, enquanto eu não passava de um jovem imberbe, ele já era homem casado e pai de uma menina, não sei se por ter “metido a pata na poça” antes do tempo (e nesse tempo não havia outra saída senão “dar o nó”) ou para ter “mandato legal” para o fazer. Fora das aulas, eram mais que muitos os que lhe faziam companhia não só pela sua boa disposição, pelas histórias e anedotas que tinha sempre para contar e pelo prazer de usufruir da sua amizade. Uma manhã chegou à Escola afogueado. Como de costume, o grupo rodeou-o e ele desabafou: “Nem queiram saber o que me aconteceu. Ontem o João foi lá a casa e, depois de conversarmos um bocado, perguntou-me se tinha alguma coisa para beber. Como estava a trabalhar, disse-lhe para ir à cave, como era costume. E ele lá foi, mas eu sabia que o vinho engarrafado acabara. Passado um bocado regressou e disse-me que o vinho era bom. Encontrara uma garrafa. Estranhei, mas talvez me tivesse escapado. Mais tarde foi-se embora e quando me deitei ainda ia a pensar na garrafa. Hoje de manhã, mal me levantei, fui à cave e lá estava a garrafa em cima da mesa. Olhei o rótulo e fiquei chocado: “Ácido clorídrico”. C’um caneco, o João matou-se. Fui a correr a casa dele, que é ao fundo da rua e, quando toquei a campainha, foi ele que me apareceu à porta. – Que cara é essa, perguntou-me. – Tu estás bem, estás mesmo bem?, perguntei-lhe, sem acreditar que não tinha sinais visíveis de mal estar. – Estou. Mas porque perguntas com esse ar aflito, quis saber. – Sabes o que bebeste ontem à noite? – Sei, respondeu-me. Foi vinho. – Não foi nada, foi ácido clorídrico, esclareci eu. – Ah, bem me parecia que alguma coisa não estava bem. Então foi por isso que, quando esta manhã dei um “p…um”, queimei as cuecas” … E foi a risada do costume.

Rever os amigos é reencontrar peças que se encaixam, experiências que nos formataram. São os amigos da saudade, para os quais só existem reencontros. Podemos ficar anos e anos sem os ver, mas isso nada muda, porque o tempo não apaga nossa amizade. Como o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor. E, na alegria do reencontro, há a ansiedade de um abraço forte, como para garantir que nada do que nos une se perdeu. E voltamos atrás no tempo, à ilusão própria dos jovens que fomos…

“És surdo ou quê?” “O quê?”

Eu integrava aquela reunião de trabalho com mais de trinta participantes realizada num auditório. Em espaço tão grande para tão pouca gente, ainda por cima ouvindo-se o ruído de fundo do trânsito lá fora em hora de ponta, tinha dificuldade em perceber o que diziam. Uma confusão auditiva. Sentei-me na fila da frente, de perna cruzada e um pouco de lado, por forma a que o som do orador me entrasse diretamente no ouvido. Mas, como não estava a perceber patavina do que ele dizia, às tantas dei comigo com a cabeça virada para o lado e de forma a colocar-me no melhor ângulo, na tentativa desesperada de participar na reunião. Foi quando me apercebi que a mulher que estava a meu lado me olhava com cara de poucos amigos, talvez a pensar que o meu posicionamento fosse para “mirar” os seus “para choques””, aliás bem visíveis mesmo sem ter de procurar o ângulo mais favorável. Corrigi a postura mas, quanto a compreender o orador, nada. O que é que ele disse? Não sei. É a triste sina de alguém que tem “deficiência auditiva”. Ou antes, “que está mouco”…

A partir de uma certa idade, tendemos a ouvir mal o que, dizem os entendidos, se deve a múltiplos factores. A música altíssima das discotecas, os concertos roqueiros e ruidosos, os sons metálicos agressivos a que muitos trabalhadores estão ou estiveram sujeitos durante anos e outros, são tidos como “barulhos nocivos”, que fazem com que as chamadas “células ciliadas” dos ouvidos morram, numa espécie de suicídio (talvez em desespero, por não suportarem as agressões sonoras). Ou, pondo o dedo na ferida: A idade não perdoa… É assim que começam os nossos problemas de audição…

Cá por mim, comecei a notar cá em casa. Quando falavam comigo, como não percebia, respondia: “Hem”? E esperava que repetissem, se possível mais alto e comigo mais atento. E os “Hem” começaram, pouco a pouco, a serem cada vez mais frequentes. Ou então era um “que é que disseste?” ou “repete lá?”. Mas, muitas vezes, nem assim. E vieram os erros: !”Vais ao Porto”? e eu perguntava: “O que é que está torto”? ou um “corra” alterava para “porra”. Mas havia alguns bem piores… E de lá de dentro vinha a pergunta: “Estás surdo ou quê”? E, como continuava a não perceber, perguntava: “O quê”??? É por causa desses desacertos sonoros, provocadores de trocadilhos e absurdos, que se diz “a surdez é cómica e a cegueira é trágica”.

A surdez muitas vezes é um mal incurável, sem reversão, que só tende a piorar com a idade. Quem “gosta de me dar alento e ânimo”, diz que… é o meu caso. Ora, a minha dúvida é saber se vou morrer antes de “ficar surdo como uma porta” ou se “fico surdo como uma porta” antes de morrer. Qual das duas a melhor? Se me deixassem escolher, preferia ficar por cá, mesmo que não conseguisse ouvir sequer o foguetório das festas Grandes… O que até seria uma bênção… Aliás, não ouvir pode mesmo ser um privilégio em muitos casos, para além do foguetório… Quem não gostaria de ver algumas pessoas a falar, falar, mexendo a “queixada” para cima e para baixo, mas sem ter de ouvir o que dizem? Nesses casos, pode-se dizer que “há males que veem por bem”… A surdez também é uma desculpa bem conseguida para nos desligarmos da conversa e nos voltarmos para dentro, envolvidos nos próprios pensamentos. Já dei comigo em reuniões com muita gente e ruído de fundo intenso, totalmente “desligado” por não conseguir “apanhar o fio à meada”. E, se calhar, não perdi nada…

Para quem ouve mal, deveria ser proibido ter conversas em locais barulhentos, onde se cruzam sons diversos em confusão total. Nessas ocasiões, quando não se consegue perceber o que as pessoas dizem, há duas opções: Ou se fica “de bico calado” abanando com a cabeça para cima e para baixo, como um burro, murmurando, sorrindo e mostrando os dentes, fingindo compreender o que o interlocutor está a dizer mas correndo o risco de cair em situações embaraçosas, ou então perde-se a vergonha, assume-se a conversa por inteiro e fala-se sem parar não dando hipóteses ao outro de dizer o que quer que seja, para não ter de ouvir… Melhor, de não ouvir.

Se a mulher nos chateia quando aumentamos o volume de som da televisão e o filho nos pergunta constantemente “estás surdo ou quê?”, é certo e sabido que a seguir vem uma ordem: “Tens de ir ao otorrino porque não andas a ouvir nada”. “O quê”? E nós vamos, para a não “ouvir”… O otorrino enfia-nos um tubo no ouvido e espreita, espreita. Ainda bem que é no ouvido e não noutro buraco qualquer… E muda de ouvido e espeita. Será que vê de um ouvido para o outro? E como enxerga ele com o olho qual a nossa capacidade de ouvir o silêncio? Ou só finge que nos examina porque percebeu logo à entrada que estamos surdos, quando cumprimentou dizendo: “Está bom” e “o quê?” é a nossa resposta? Percebeu logo tudo… E manda-nos fazer um exame com uns auscultadores nos ouvidos. Levantamos a mão sempre que ouvimos um “pi…” e muitas vezes até levantamos a mão só para não parecermos tão surdos quanto somos… No final, mostram uns traços no papel e dizem que perdemos cinquenta por cento da audição. Mas perdi onde? Nem a deixei cair… “Está na altura de usar umas próteses auditivas”, que é uma forma simpática de nos dizer “estás mouco, pá”. E estamos. E investimos em equipamentos, para poder ouvir o que não queremos. Se calhar, mais valia ficar surdo de vez… Mas nada será como dantes e as próteses são o remedeio possível e, em confusões acústicas, não apanhamos uma. Nada a fazer. Por isso, meus amigos, quando me falarem em surdina, do tipo contar um segredo, se o meu ouvido trocar a primeira consoante do “corra”, “lerda”, “luta”, “poder” e outras, para… (não vou dizer, senão dizem que, para além de surdo, também sou mal educado…), provocando um “incidente auditivo”, desde já estão avisados que a culpa não é minha. E nem precisam de me perguntar “estás surdo ou quê?”. Porque, já sabem que vou responder: “O quê”?

Uma fossa e um poço sumidouro…

Andava na escola primária e, como os pais não tinham de nos levar à escola, a aldeia era o nosso recreio. Assim, conhecia bem a maioria das casas, quase todas muito pobres. Térreas em regra, com paredes exteriores em granito e cobertura em telha vã, quando não em colmo, e pavimento em terra batida. Para além da cozinha, escura, defumada e com a estrumeira à porta (para os despejos e as necessidades fisiológicas), havia uma ou duas divisões onde dormia a família, fosse qual fosse o número de pessoas do agregado familiar. Em suma, as condições de habitabilidade eram miseráveis e diziam bem da má qualidade de vida de então.

Só a partir dos anos sessenta foi possível melhorar as habitações, resultado do aumento de rendimento familiar, não só pela criação de indústrias como, e sobretudo, a partir do momento em que as mulheres começaram a trabalhar fora de casa. Cá em Lousada, José Dias foi o primeiro a abrir-lhes as portas do emprego na Estofex,. Já Hans Hisler, viria a ser o Homem com quem milhares de mulheres ficaram a ter uma dívida de gratidão pela sua entrada no mercado de trabalho, empregadas diretamente na Fabinter (mais conhecida por Kispo) de que era proprietário ou indiretamente através das muitas empresas que produziam para esta e em muitas outras que dela copiaram o conhecimento e tecnologia por ele trazidas para Portugal. Mas, o desenvolvimento da construção de novas habitações deu-se sobretudo a partir dos anos setenta e oitenta e a autoconstrução de moradias deu uma boa ajuda.

Muitos foram os trabalhadores que, depois de comprarem o terreno num primeiro esforço, se aventuraram à construção da “casita”, quase sempre aos fins de semana, arregimentando mão de obra voluntária entre familiares e amigos, muitas vezes num processo de troca de favores em que “hoje ajudas-me tu e amanhã ajudo-te eu”. Só se pagavam os materiais de construção e… os comes e bebes. O primeiro “lanço” era até preparar o rés do chão pois, provisoriamente, já dava para se meter lá dentro e deixar de pagar renda, economia essa que seria mais uma ajuda à sua conclusão. E muitas foram as moradias que se ficaram na primeira placa ao longo de anos e anos, à espera de dias melhores…

O João foi meu condiscípulo, amigo de infância e das malandragens. Fiz-lhe o projeto da casa quando ainda era um processo simples. Dei-lhe conselhos e orientações, apontei caminhos. E ele mal apanhou a licença, meteu mãos à obra. Ao fim de semana, inclusive ao domingo, era vê-lo sozinho ou acompanhado a “mourejar” na construção da sua casa, levantando paredes, chapando massa, preparando a cofragem… Também ali se “abrigou” logo que deitou a primeira placa e só volvidos alguns anos daria a obra por concluída. Foi uma alegria imensa, a realização de um sonho impossível… Mas chegou lá apesar de “ter passado as passas do Algarve”, “de ter comido o pão que o diabo amassou” porque, foram muitas as vezes que “teve de o tirar da boca para o ter para materiais”. Mas valera a pena. Agora tinha uma casa digna para a família, o seu palácio…

Um dia apareceu-me no escritório a pedir para lhe tratar “da vistoria da casa”, a sua forma de dizer que desejava requerer a licença de habitabilidade, coisa a que ninguém ligava. Tratei-lhe da papelada, assinou o requerimento e o pedido deu entrada na Câmara Municipal, ficando a aguardar a marcação do dia para a vistoria. Dias depois fui procurá-lo para saber se tinha construído a fossa séptica e o poço sumidouro obrigatórios. “Não, não construi”, respondeu-me. “Liguei os esgotos para uma mina desativada que atravessa o terreno. Não serve”? “Não. Então não te avisei de que tinhas de fazer fossa e poço sumidouro?”, respondi-lhe um pouco agastado. “E agora”? A pergunta ficou no ar. Conversamos um bocado à procura de uma solução, até porque a vistoria seria efetuada dois ou três dias depois.

No dia da vistoria só pensava nele e, mal esta acabou, o João veio a minha casa contar-me o “filme”: “Ao fim da manhã chegaram dois senhores de carro, um da Delegação de Saúde e outro da Câmara Municipal. Com os papéis na mão, quiseram ver a casa toda. No final, perguntaram-me onde tinha ligado os esgotos. Disse-lhes que estavam ligados à fossa, como manda o projeto. Pediram então para lhes mostrar a fossa e o poço sumidouro. Levei-os ao fundo do quintal enquanto lhes explicava que os tinha feito ali para ficarem a mais de vinte metros do poço da água e evitar contaminações. Como levei comigo pá e picareta, comecei a cavar no canto do quintal e fui-lhes dizendo que deixara as tampas enterradas cerca de meio metro para poder cultivar o terreno todo. Fui cavando, cavando e tirando a terra para o lado, até a picareta bater numa peça de betão. “Cá está a tampa da fossa”, e continuei a cavar para alargar o buraco. Às tantas, o representante da Delegação de Saúde disse: “Não vale a pena cavar mais. Já chega”. E deram meia volta. Informaram-me depois que a vistoria seria aprovada.

“Como é que em dois dias conseguiste fazer a fossa e o poço sumidouro”, perguntei-lhe meio desconfiado. “Eu não disse que construi a fossa, nem o poço. Não, não construi. Só tive tempo para enterrar lá duas tampas de betão. Foi nelas que eu bati com a picareta. Por baixo, não há mais nada. Nem poço, nem fossa”… “E como é que sabias que não te obrigavam a cavar mais, a teres de abrir a tampa e mostrar a fossa?”, disse eu. “Não sabia e arrisquei, pois ainda acredito na bondade das pessoas. E duvido que, em cem

pessoas, houvesse um único cara de pau que não confiasse”…

Heróis do meu dia a dia. Nunca abandonou quem a abandonou…

Foi a Teresa que me falou na história de vida desta senhora e eu quis conhecê-la e ouvir o relato pessoal. No final, pus o meu pensamento em Deus e agradeci-Lhe por me ter dado tanto e concedido uma família e uma vida “normal”. É que, por tudo o que ela passou, seria motivo suficiente para abater o mais forte, criar um revoltado da sociedade, senão mesmo um marginal do sistema. Ao falar-me do seu trajeto, tranquila mas com as lágrimas a quererem saltar-lhe dos olhos, bem lá dentro em sofrimento, encontrei uma mulher forte que está de bem consigo e com o círculo familiar que a rodeia, o castelo onde se refugiou para se proteger de um mundo que lhe foi hostil e onde só recebeu amor desinteressado e puro, dos animais. Dos ditos seres humanos (quase) só tem péssimas recordações: Abandonada várias vezes por quem tinha a obrigação de lhe dar amor, explorada pelos que deveriam protegê-la, agredida física e emocionalmente por quem dizia amá-la, reprimida, abusada, ofendida, sofreu de tudo o que de mau um ser humano pode fazer a outro. Com isso, tornou-se adulta à força, prematuramente, vítima das circunstâncias.

Nasceu no sul de Angola, onde viviam os pais, mas não tem qualquer recordação pois fugiu da guerra ao colo da mãe e com a irmã quando tinha dezoito meses, logo após a independência, tendo o pai ficado. Mas, mal chegaram ao Porto, a mãe abandonou-as num colégio de crianças órfãs e foi à vida, para a qual elas seriam um empecilho. Ora, quando o pai regressou a Portugal, viu-se sem mulher, sem filhas e sem sinal delas. Mas não desistiu e foi procurando até que o acaso (ou talvez não) fez com que, cerca de um ano depois, as identificasse pelo cabelo no meio da criançada do colégio, quando estava sentado num café do Porto. Confirmaria essa identificação ao reconhecer a letra da mulher no bilhete que deixara junto das crianças no dia em que as abandonou. No entanto, por razões burocráticas, só voltaria a ficar à sua guarda aos quatro anos. Como ficou feliz por receber o amor do pai extremoso, apesar da madrasta… Mas o sol na sua vida seria de pouca dura. O pai faleceu tinha ela sete anos e sobrou-lhe a madrasta, que “não a largou de mão” a favor do tio, por ver nela a herdeira legítima e uma oportunidade de “herdar” também, mesmo sem direito… E, tal como as madrastas más das histórias, fez-lhe a vida negra. Cedo a pôs a trabalhar numa fábrica de confecções mal completara doze anos, para lhe ficar com o salário por inteiro. Quando três anos depois a patroa lhe deu cinco contos como compensação pelos subsídios de férias e de Natal não pagos, recomendou-lhe que os escondesse por saber do quilate da “fada má”. Mas ela, que não passava de uma miúda que nunca vira dinheiro, foi ao Brás e Brás e gastou-o em louças para o enxoval, tendo-as escondido em casa. Nesse mesmo dia a madrasta descobriu, partiu-as de raiva e pôs-lhe a trouxa à porta e a ela na rua. Assim, aos quinze anos, viu-se novamente abandonada… Então, só, sem família nem dinheiro, fez da rua a sua casa, de uma caixa de cartão a sua cama, da solidão a companheira. Viria a ganhar a companhia de um cachorro, companheiro de abandonos e desgraças, o seu parceiro dos restos de comida que procurava nos contentores, alguém que se lhe dava sem nada pedir, sem abandonos, sem se importar quem ela era. Mas até esse pouco (ou muito?) aconchego dado pelo cachorro lhe foi roubado quando o fizeram desaparecer, eventualmente levado para o canil. Questionou-se então se o problema não estaria em si, se não seria a culpada. O que teria de errado consigo?

Voltaria para casa da madrasta pela intervenção firme de uma amiga da família, com acordo de partilha do salário. A fábrica fechou, foi trabalhar para um café mas teve de deixá-lo porque a madrasta lhe impôs outra confecção, até a expulsar novamente de casa. Mais uma vez abandonada… Já com algum dinheiro, alugou um quarto junto do novo emprego, vindo ali a conhecer aquele que se tornaria seu marido. Casou e foi viver para o rés do chão da casa da sogra, mas também ela não lhe tornou a vida fácil, fazendo até desaparecer os cães que adoptara.

Já mãe de três filhos, viria a pedir o divórcio quando descobriu por uma filha que o marido a traia há muito. E este, em retaliação, deu uma tareia tão grande na filha, que lhe partiu a coluna (ainda hoje usa uma prótese de platina). Separou-se mas acabou perseguida e ameaçada com arma branca pelo ex-marido, tendo só encontrado sossego depois de recorrer à APAV e fugir para longe. Entretanto, tinha em si uma sensação de vazio, uma angústia que não lhe dava descanso: O que seria feito da mãe? Por onde andaria? Porque razão a abandonara? Ainda estaria viva? Imaginou como seria ver-se diante dela quando recorreu ao programa de televisão “Ponto de Encontro”, num desejo incontido de recuperar o amor maternal. Como seria ela? Iria encontra-la? Ao fim de alguns anos, conseguiram localizá-la. Contactou-a, restabeleceu a relação perdida, mas acabou por ser novamente vítima de uma mente manipuladora, sem escrúpulos nem princípios, cuja filosofia de vida é explorar o outro em seu proveito.

Apesar de ter sido vítima da madrasta, quando descobriu que vivia trancada em casa pelo sobrinho, espoliada da reforma, abandonada e à fome, protegeu-a e ajudou-a num final de vida complicado. À mãe, continuou a servir de pronto-socorro nos momentos difíceis ou que ela encenou como tais. Encontrou no seu marido atual a alma gêmea e, apesar das adversidades, fez dos seus filhos adultos livres e responsáveis, com princípios e valores, o seu mundo, o seu refúgio. Abandonada pela mãe e pela madrasta, acabou por servir-lhes de amparo em momentos difíceis. Mas nunca esqueceu. Nunca esqueceu aquele cachorro que lhe deu amor incondicional e cuja recordação guarda com muito carinho. Um coração grato aos companheiros de solidão. Por isso, pela sua lembrança e em sua honra, hoje tem cães e gatos em harmonia perfeita como parte da família e faz acolhimento de animais abandonados, porque ela sabe melhor que ninguém o que é ser-se abandonado. E faz tudo o que pode e não pode para os salvar, como ela se salvou neste mundo de abandonos, de homens e animais. Mas onde só os homens são capazes de abandonar alguém…

Um “engenheiro” com arte no ofício…

Há longos anos, “sem saber ler nem escrever” fui parar ao Hospital/Prisão da Guarda, não como um condenado doente mas de visita a um recluso. E como? Andava a fazer estudos agronómicos e comerciais para a empresa onde trabalhava e cobria uma basta região do interior que ia de Bragança à Guarda. Como tive de passar o fim de semana naquela cidade beirã, fui almoçar com um colega ali residente que, depois do almoço, fez questão que o acompanhasse àquele presídio/hospital, onde ia visitar um amigo.

O preso era o Cardoso. Com mais de sessenta anos, simpático e de trato excelente, viria a proporcionar-me uma tarde agradável. Quem diria!!! Acabada a visita, perguntei ao meu colega porque razão o Cardoso “tinha ido dentro” pois, por aquilo que vira, achava-o um indivíduo afável e cordato. Então ele contou-me a história.

“Ainda não se sabia o que era um telemóvel e até poucos telefones existiam quando o Cardoso chegou a uma aldeia do interior transmontano, acompanhado por outro homem que dizia ser seu ajudante. Carregando um velho teodolito, aparelho usado para efetuar levantamentos topográficos, alguns mapas enrolados debaixo do braço e mais alguns apetrechos, fez constar através do seu “ajudante” que fora destacado pelo Estado para executar o traçado de uma nova estrada. Para começar, assentou o aparelho em posição e apontou-o aos terrenos do homem mais rico da aldeia, não por acaso mas por se ter informado previamente “quem era quem”. E começou a trabalhar… Ao fim da tarde o dono da propriedade apareceu e falou com o “ajudante”: “Já fui informado que estão aqui para marcar uma nova estrada e, pelo que vejo, vai atravessar-me os melhores terrenos de cultivo. Não gostava de ver os terrenos partidos ao meio. Não haverá maneira de darmos a volta a isso e desviar um bocadito o traçado”? O ajudante, fazendo um ar de lorpa, respondeu: “Isso não é comigo. Tem de falar ali com o senhor “engenheiro””… E ele foi falar com o “engenheiro” Cardoso. Este ouviu a sua pretensão com ar muito sério e depois levantou algumas dificuldades porque, “mudar o traçado de uma estrada era complexo e seria necessário mexer alguns cordelinhos”. O proprietário manifestou logo compreender a situação mas dispôs-se a “compensá-lo” pelo incómodo e pelas implicações que isso traria para o projeto. Claro está que, apesar das “muitas dificuldades” que o “senhor engenheiro” foi identificando, chegaram a acordo e o Cardoso embolsou uns contos largos. Resolvido aquele “negócio”, Cardoso e ajudante mudaram-se “de armas e bagagens” para outro local e repetiram o procedimento, apontando a mira aos terrenos de um novo proprietário, também ele senhor de bons teres e haveres e que também se viria a manifestar interessado em que a estrada fizesse um “pequeno desvio” para não atravessar os seus domínios. Mais ainda, também tomou a iniciativa de se propor “compensar” o “senhor engenheiro” dos incómodos que isso lhe viria a trazer… E o “senhor engenheiro”, embora “muito contrariado”, aceitou fazê-lo e voltou a embolsar mais um bom par de contos.

Durante meses e meses o Cardoso e ajudante foram saltando de aldeia em aldeia, sempre com o repetido argumento (mas não gasto) de que se encontravam ali para traçar uma nova estrada e os resultados foram semelhantes e compensadores quanto baste para ambos. Mas um dia, há sempre um dia, o velho teodolito foi orientado à propriedade de um homem rico mas com influências no concelho. Quando soube da construção da “estrada” e que esta lhe iria retalhar os terrenos, meteu os pés ao caminho e foi diretamente ter com o presidente da câmara municipal, seu amigo pessoal, questionando-o em tom exaltado: “Então vomecês vão fazer uma estrada lá na terra, atravessar as minhas vessadas e tu não me dizes nada”? “De que é que tu estás a falar”, perguntou-lhe o presidente? “Da nova estrada que andam a marcar lá na aldeia e que me vai retalhar a propriedade” disse-lhe ele. “Mas eu não sei de nada. Alguma coisa não bate certo”, contrapôs o presidente. E foi a partir daí que a vida do “engenheiro” Cardoso começou a andar para trás… Com o desmascarar da tramoia, depressa se deram a conhecer uma boa parte dos lesados pela dupla de vigaristas. E não se denunciaram todos porque muitos deles preferiram manter o anonimato para, por um lado não serem motivo de chacota e gozo pelo povo (tal e qual como no caso recente cá na região com aqueles que emprestaram dinheiro a juros de dez por cento ao mês mas que deu raia e em que os lesados se calaram que nem ratos…) e, por outro, não serem tidos como corruptores ativos. E, pelo que me disse o meu colega, entre os muitos atingidos estavam pessoas de reconhecido prestígio e importância local, gente com formação superior e fortuna, que caiu na esparrela do Cardoso, homem sem qualquer formação mas afável e divertido, requisitos muito importantes para quem se dedica à vigarice, neste caso à “nobre arte de enganar quem quer sacudir a água do capote para cima dos outros”.

Não voltei a visitar o Cardoso, um excelente “engenheiro” na arte da vigarice. Nem sei se a sua estadia gratuita, com cama, mesa e roupa lavada na “estância hoteleira” onde o conheci, se terá prolongado por muito mais tempo. Só sei que nisto tudo me ficou uma dúvida: Se, além do Cardoso e ajudante, não deveriam também “bater com os costados na prisão” muitos daqueles que “compraram” o Cardoso, “corrompendo-o”, sem se preocuparem por a alteração do traçado da “estrada” por si proposta ir fazer a outros aquilo que não quiseram para si. É que, como diz o ditado, “pimenta no cu dos outros, é refresco”…

Nos momentos difíceis, afundamos…

A propósito da tragédia no desastre aéreo na Colômbia e que vitimou quase toda a equipa brasileira de futebol do Chapecoense, achei muito interessante a afirmação de Jorge Costa, antigo jogador do Porto, quando disse: “E reclamava eu por uma paragem um pouco mais demorada para reabastecimento do avião, num aeroporto da Namíbia”… É natural. Concentramos tanto a atenção em nós próprios, nos “grandes” problemas da nossa vida, que nem nos damos conta do que se passa à volta e, comparativamente, da pequenez do que nos afeta. Foi assim que também fui apanhado há alguns dias. Andava cá por casa, mal disposto e irritável como se carregasse um pesado incómodo, quando tocou o telemóvel. Era o Zé, meu amigo, companheiro de escola e de curso, atualmente a viver no sul do país. Com voz cansada, desanimada e triste, em poucas palavras deu a entender a gravidade do seu problema: “Já não há nada a fazer. É tarde demais”… Mal o ouvi, “rebobinei” o filme do último mês e compreendi tudo.

O seu filho, com pouco mais de quarenta anos, está a trabalhar em Angola e, há cerca de um mês, veio a Portugal com a família passar uns dias de férias, aproveitando para fazer alguns exames de rotina. Quando foi saber dos resultados, o médico disse-lhe sem rodeios: “Vá a Luanda buscar as suas coisas e esqueça Angola, definitivamente. Tem um problema na tiroide, já com vários gânglios no pescoço”. Quando o Zé soube, foi como se o mundo lhe desabasse em cima. Ele que sempre fora um homem forte, sem medo de enfrentar as dificuldades da vida, sentiu-se impotente ao ver-se à beira de perder o seu único herdeiro. Enquanto o filho foi a Luanda arrumar as coisas, o Zé passou quinze dias sem dormir uma única hora, esgotado e cansado física e psicologicamente. Quando um dia lhe telefonei e me falou disso, tive com ele uma longa conversa tentando chamá-lo à razão, pois não era o momento para desistir. Tinha de ser a força do filho e, para isso, deveria ser o primeiro a acreditar na cura porque as coisas que têm de dar mal, dão, mas muitas há que podemos reverter. É preciso tentar. E acreditar. Dois dias depois a mulher disse-me que valera a pena “ter-lhe dado na cabeça”. Quando o filho regressou, foi para Coimbra ao cuidado do hospital e de um especialista que o mandou efetuar novos exames, mais específicos. Os resultados seriam conhecidos dias depois. Logo que que tomou conhecimento desses resultados, o Zé telefonou-me, dizendo tudo naquelas poucas palavras: “Já não há nada a fazer. É tarde demais”… Percebi o drama mesmo antes de ouvir o resto: “Já está espalhado pelos ossos, pulmões e traqueia. Não dá para operar nem fazer quimioterapia”… “C’um caraças”, dou comigo a pensar. “Oh meu Deus, ajudai-me a ajudar. O que posso eu dizer-lhe num momento destes”? Fiquei calado sem saber que palavras usar para consolar e animar o meu amigo. Não sabia mesmo. Ele “estava na fossa”, revoltado com tudo e com todos, descrente da vida e de Deus. “Porquê o meu filho? Porquê isto com um homem honesto, trabalhador, bom pai? Porque não morrem os bandidos, os ladrões e os criminosos em vez de gente boa como ele”? A revolta era enorme e senti-o desorientado, desprotegido, como se o chão o estivesse prestes a engolir. Mais refeito, fui-lhe dizendo algumas palavras de esperança e ânimo, o que não foi fácil. Não podia desistir do filho. Ainda estava vivo e bem vivo e ninguém sabia quanto tempo ainda andaria por cá. Qualquer um de nós poderia partir primeiro. Por isso, tinha de agradecer todo esse tempo, usufruir cada minuto como se fosse o último, aproveitar para fazer com ele o que, provavelmente, nunca tinha feito. Será muito tempo? Pouco? Será o que Deus quiser… E tinha de continuar a ter esperança na medicina e na possibilidade de se curar. Porque muitos outros se têm curado…

Já depois de ter desligado o telefone, fiquei a pensar na fragilidade da vida e na fraqueza da nossa força. Quando a adversidade nos atinge, afundamos. E se esse alguém é um filho, e ainda por cima filho único como no caso do Zé, vamos ao fundo por completo. Os fortes dão parte de fracos, os arrogantes viram humildes, os entendidos logo passam a ignorantes e os ateus apelam ao Deus em que não acreditam. De uma forma ou de outra, praticantes ou não, nesses momentos “ajoelhamos e rezamos”. Todos. Porque nos momentos difíceis da vida, precisamos de “Alguém” a quem recorrer.

Voltamos a falar depois do plano de combate à doença estar definido. A médica responsável preconizara um tratamento novo de uma injeção mensal. Renascia a esperança. Mas era o filho que o animava e lhe transmitia serenidade e confiança, de tal forma que persistia na ideia de continuar a trabalhar em Angola e vir a Portugal todos os meses para o tratamento. Manifestei ao Zé a minha opinião de que seria um erro enorme andar nesse vaivém, nada favorável à cura e acabei mesmo por falar com o filho, apoiando-o na decisão de dar prioridade à saúde e secundarizar o trabalho. Agora, é esperar. Mas, a semente da esperança está lá e desejo muito que germine e se transforme em realidade. Pelo meu amigo Zé e pelo seu filho. Único. E pela esperança, que deve ser sempre a última coisa a morrer. Tanto neles como em cada um de nós…

Uma luta que cabe a todos nós…

Ando com uma dúvida: Não sei se estou em luta contra o desperdício ou se me tornei num forreta. Depende do ponto de vista. O último acontecimento que me tem deixado a pensar nisso e a ficar “como o tolo no meio da ponte”, tem a ver com a pasta de dentes. Isso mesmo, o meu tubo da pasta de dentes. Já há mais de quinze dias que está praticamente no fim e todas as noites, antes de me deitar, espremo daqui e dali e empurro com os dedos até conseguir tirar mais um bocadinho de pasta, a necessária e suficiente para lavar o “corta palha”. Nem mais, nem menos. E ainda deve dar para hoje… Sempre achei um desperdício cobrir todos os pelos da escova com um “cordão” de pasta. Mal se mete na boca, logo na primeira escovadela mais de metade cai no lavatório. Não há volta a dar. Para quê pôr um “tutano” tão comprido se a maior parte vai pelo esgoto abaixo? Ou teremos também de lavar o esgoto sempre que lavamos os dentes? Claro, é isso que os fabricantes querem…

Tendo sido integrado numa nova empresa resultante da fusão de várias, pelas minhas novas funções tive de participar numa formação em marketing. Entre outros, um dos exemplos que lá foi referido para definir que o marketing é qualquer procedimento que contribui para a subida das vendas de uma empresa, dizia precisamente respeito a uma grande marca de pasta dentífrica. A empresa organizou um concurso de ideias entre os empregados, com o objetivo de aumentar a faturação e, das muitas propostas apresentadas, a escolhida sugeria simplesmente isto: “Aumente-se o diâmetro da boca da bisnaga”. Como toda a gente põe sempre o mesmo comprimento de fio de pasta na escova, ao ser aumentado o diâmetro desse “tutano” em dois ou três milímetros, algo de que ninguém se apercebe, os cento e vinte e cinco gramas de pasta da bisnaga “vão-se à vida enquanto o diabo esfrega um olho”, indo uma boa parte pelo esgoto abaixo. Verdade? Ou alguém pesa a quantidade de pasta que põe na escova?

Se pensarmos bem, isso também acontece com o gel usado nos lavatórios. Damos duas ou três “bombadas” com uma das mãos enquanto aparamos com a outra e, ao começarmos a ensaboar, metade do gel… vai para o esgoto. A quem aproveita? A quem produz e a quem vende. Só… Ora, luto contra isso. Cá por mim, ponho o suficiente para ensaboar, nada mais.

Até para limpar e secar as mãos aprendi um truque para reduzir gastos. Depois de lavar as mãos, sacudo-as várias vezes sobre o lavatório e com isso retiro a maior parte da água. Molho muito menos a toalha ou gasto um terço dos toalhetes. Será forretice ou combate ao desperdício? A dúvida persiste.

A água potável é um bem essencial à vida, que não valorizamos. Nada. Todos temos acesso fácil à água, se calhar fácil demais. Está somente à distância do abrir de uma torneira. Muito fácil mesmo. Quando garoto, o acesso à água era mais complicado. As mulheres tinham de ir buscar água à fonte num cântaro de barro, transportado à cabeça até casa… quando não partia. E algumas fontes estavam distantes. Mais tarde passaram a tirar a água do poço, com o sarilho e um balde. Hoje, ter água é um dado adquirido e pode-se esbanjar à vontade que não há problema. Porque, sempre que se abre a torneira, a água corre. E se não correr? Reclama-se com a Câmara Municipal, com o governo ou com a mulher que, em último caso, é a culpada. Ao outro dia a torneira volta a jorrar água como se nunca tivesse faltado. E quando chegarmos ao outro dia e continuar a não haver água? E quando for racionada ou tivermos de lutar por ela? Depois se verá, não é verdade? Enquanto não chegar esse dia, vamo-nos dando ao luxo de desperdiçar, porque, desperdiçar é um luxo que gostamos de nos permitir. Se pouparmos, não vamos salvar o mundo? Claro que não, mas contribuímos. É um desperdício abrir a torneira com o jato na pressão máxima, salpicando tudo à volta. Para quê? Permitimo-nos desperdiçar água estupidamente, como se não tivesse valor. Mas tem e só daremos conta disso quando não houver. Como acontece a milhões e milhões de pessoas por esse mundo fora… Eu lavo as mãos com pouca água, a suficiente para ensaboar e enxaguar. No total, gasto menos de um copo… Só tenho dificuldade com as torneiras de mono comando, são difíceis de regular. Ou deitam jato forte ou fecham, o meio termo não é fácil. Por isso, abaixo as torneiras de mono comando… No banho também se estraga muita água. Em média, gasta-se cinquenta a oitenta litros por banho. Há quem cante, ensaboe, enxagúe, volte a ensaboar, enxagúe, aplique champô, enxagúe, use amaciador, continue a cantar, enxagúe, sempre com a água a correr. Às vezes até se faz a barba pelo meio, espremem borbulhas ou cortam-se as unhas… com a água a correr. Será isto desperdício ou eu é que sou forreta por fechar a torneira quando me ensaboo e por gastar menos de dez litros por banho?

Mas se o esgoto é o ponto por onde se desperdiça água em barda, o caixote do lixo é outra porta para o desperdício de algo que também nos é indispensável: Bens alimentares. Todos os dias vão parar ao lixo toneladas e toneladas de alimentos, de forma irresponsável, quando não intencional e criminosa. Porque são bens que fazem falta a muitos outros seres humanos. No nosso egoísmo, na estupidez das nossas vaidades, na arrogância dos exibicionismos, estragamos, destruímos, deitamos fora e desperdiçamos toneladas e toneladas de alimentos, que alterariam a vida de tantas pessoas ao passarem do “não ter nada para comer” para “ter alguma coisa para comer”. Uma diferença que faz toda a diferença. Ou será que a nossa indiferença não nos permite lutar por essa diferença?

Por tudo isto e muito mais, estou numa atitude de combate ao desperdício, uma incumbência que deveria ser de todos. Ou estarei enganado e não passo de um forreta disfarçado?????????

Ando com uma dúvida: Não sei se estou em luta contra o desperdício ou se me tornei num forreta. Depende do ponto de vista. O último acontecimento que me tem deixado a pensar nisso e a ficar “como o tolo no meio da ponte”, tem a ver com a pasta de dentes. Isso mesmo, o meu tubo da pasta de dentes. Já há mais de quinze dias que está praticamente no fim e todas as noites, antes de me deitar, espremo daqui e dali e empurro com os dedos até conseguir tirar mais um bocadinho de pasta, a necessária e suficiente para lavar o “corta palha”. Nem mais, nem menos. E ainda deve dar para hoje… Sempre achei um desperdício cobrir todos os pelos da escova com um “cordão” de pasta. Mal se mete na boca, logo na primeira escovadela mais de metade cai no lavatório. Não há volta a dar. Para quê pôr um “tutano” tão comprido se a maior parte vai pelo esgoto abaixo? Ou teremos também de lavar o esgoto sempre que lavamos os dentes? Claro, é isso que os fabricantes querem…

Tendo sido integrado numa nova empresa resultante da fusão de várias, pelas minhas novas funções tive de participar numa formação em marketing. Entre outros, um dos exemplos que lá foi referido para definir que o marketing é qualquer procedimento que contribui para a subida das vendas de uma empresa, dizia precisamente respeito a uma grande marca de pasta dentífrica. A empresa organizou um concurso de ideias entre os empregados, com o objetivo de aumentar a faturação e, das muitas propostas apresentadas, a escolhida sugeria simplesmente isto: “Aumente-se o diâmetro da boca da bisnaga”. Como toda a gente põe sempre o mesmo comprimento de fio de pasta na escova, ao ser aumentado o diâmetro desse “tutano” em dois ou três milímetros, algo de que ninguém se apercebe, os cento e vinte e cinco gramas de pasta da bisnaga “vão-se à vida enquanto o diabo esfrega um olho”, indo uma boa parte pelo esgoto abaixo. Verdade? Ou alguém pesa a quantidade de pasta que põe na escova?

Se pensarmos bem, isso também acontece com o gel usado nos lavatórios. Damos duas ou três “bombadas” com uma das mãos enquanto aparamos com a outra e, ao começarmos a ensaboar, metade do gel… vai para o esgoto. A quem aproveita? A quem produz e a quem vende. Só… Ora, luto contra isso. Cá por mim, ponho o suficiente para ensaboar, nada mais.

Até para limpar e secar as mãos aprendi um truque para reduzir gastos. Depois de lavar as mãos, sacudo-as várias vezes sobre o lavatório e com isso retiro a maior parte da água. Molho muito menos a toalha ou gasto um terço dos toalhetes. Será forretice ou combate ao desperdício? A dúvida persiste.

A água potável é um bem essencial à vida, que não valorizamos. Nada. Todos temos acesso fácil à água, se calhar fácil demais. Está somente à distância do abrir de uma torneira. Muito fácil mesmo. Quando garoto, o acesso à água era mais complicado. As mulheres tinham de ir buscar água à fonte num cântaro de barro, transportado à cabeça até casa… quando não partia. E algumas fontes estavam distantes. Mais tarde passaram a tirar a água do poço, com o sarilho e um balde. Hoje, ter água é um dado adquirido e pode-se esbanjar à vontade que não há problema. Porque, sempre que se abre a torneira, a água corre. E se não correr? Reclama-se com a Câmara Municipal, com o governo ou com a mulher que, em último caso, é a culpada. Ao outro dia a torneira volta a jorrar água como se nunca tivesse faltado. E quando chegarmos ao outro dia e continuar a não haver água? E quando for racionada ou tivermos de lutar por ela? Depois se verá, não é verdade? Enquanto não chegar esse dia, vamo-nos dando ao luxo de desperdiçar, porque, desperdiçar é um luxo que gostamos de nos permitir. Se pouparmos, não vamos salvar o mundo? Claro que não, mas contribuímos. É um desperdício abrir a torneira com o jato na pressão máxima, salpicando tudo à volta. Para quê? Permitimo-nos desperdiçar água estupidamente, como se não tivesse valor. Mas tem e só daremos conta disso quando não houver. Como acontece a milhões e milhões de pessoas por esse mundo fora… Eu lavo as mãos com pouca água, a suficiente para ensaboar e enxaguar. No total, gasto menos de um copo… Só tenho dificuldade com as torneiras de mono comando, são difíceis de regular. Ou deitam jato forte ou fecham, o meio termo não é fácil. Por isso, abaixo as torneiras de mono comando… No banho também se estraga muita água. Em média, gasta-se cinquenta a oitenta litros por banho. Há quem cante, ensaboe, enxagúe, volte a ensaboar, enxagúe, aplique champô, enxagúe, use amaciador, continue a cantar, enxagúe, sempre com a água a correr. Às vezes até se faz a barba pelo meio, espremem borbulhas ou cortam-se as unhas… com a água a correr. Será isto desperdício ou eu é que sou forreta por fechar a torneira quando me ensaboo e por gastar menos de dez litros por banho?

Mas se o esgoto é o ponto por onde se desperdiça água em barda, o caixote do lixo é outra porta para o desperdício de algo que também nos é indispensável: Bens alimentares. Todos os dias vão parar ao lixo toneladas e toneladas de alimentos, de forma irresponsável, quando não intencional e criminosa. Porque são bens que fazem falta a muitos outros seres humanos. No nosso egoísmo, na estupidez das nossas vaidades, na arrogância dos exibicionismos, estragamos, destruímos, deitamos fora e desperdiçamos toneladas e toneladas de alimentos, que alterariam a vida de tantas pessoas ao passarem do “não ter nada para comer” para “ter alguma coisa para comer”. Uma diferença que faz toda a diferença. Ou será que a nossa indiferença não nos permite lutar por essa diferença?

Por tudo isto e muito mais, estou numa atitude de combate ao desperdício, uma incumbência que deveria ser de todos. Ou estarei enganado e não passo de um forreta disfarçado?????????

Para burro velho, erva tenra…

O homem chegou num “bruto” Mercedes descapotável (poderia dizer que era um “descapotável” dentro de outro) e saiu do carro agarrado à bengala para amparar os mais de oitenta anos de vida, entregando as chaves do carro a um dos porteiros. Pela outra porta da “bomba” saiu outra “bomba”, uma jovem com pouco mais de vinte anos, um regalo para a vista dos homens que ali estavam (e eu era um deles) e a inveja das outras mulheres, ficando sem saber qual o grau de parentesco entre os dois. Depois, de braço dado, entraram portas adentro como se fossem os donos do casino. Mais tarde, ao longo da noite, viria a perceber bem qual o tipo de “parentesco” que os unia… Pode-se dizer que os casinos são o local certo para se encontrar com alguma frequência estes casais… Ali é vulgar observarem-se, em jantares mais ou menos românticos, avô e… “neta”. Não vou dizer que fazem uma parceria contra natura, porque o não são. Homem e mulher adultos fazem um par natural e longe de mim pensar o contrário, mesmo se a diferença de idades for maior que a “Guerra dos cem anos”. Até acho que são uma ousadia, talvez mesmo a expressão do desejo que muito homem idoso tem recalcado, porque o seu sonho é fazer o mesmo, dando crédito total ao adágio popular: “Para burro velho, erva tenra”. E se a “erva” puder ter vinte a trinta centímetros de altura, que é como quem diz, vinte a trinta anos de idade, será a altura (idade) ideal para a “colher”. Porquê? Porque é a altura (idade) de ter tudo no sítio, pele macia e brilhante plena de jovialidade e inocência (falsa ou não, mas sem que isso incomode o interessado). É verdade, o homem é como é e muitas vezes procura eternizar a sua juventude e o seu vigor de macho. Recusa o desgaste da idade e nega as evidências, escamoteando a realidade até aos amigos. Masculinidade é eterna, até à cova!!!… Ora, para provar aos outros (e enganar-se a si próprio), nada melhor que uma mulher nova, boa (boa presença, claro), que provoque inveja e o ajude a levantar o ânimo (e, se possível, outra coisa…). Para tal, compra carro descapotável, bebe whisky velho, leva a menina a restaurantes caros, a boutiques de marca com prendas de luxo e mostra-lhe a moradia na praia… Às vezes, até lhe “bota” casa… Investe em garotas mais novas para estimular a sua sexualidade, embora alguns argumentem que procuram mulheres novas pelo romance, por pensarem que elas ainda acreditam no amor, no conto de fadas, no sonho do amor para sempre. Porém, os mais diretos, dizem que só há uma razão: Sexo. (Costumava brincar com um velho amigo sobre isso, duvidando do seu desempenho, mas ele respondia-me: “Sabes, já não toureio, mas ainda sou aficionado…). E elas? Dizem que sonham ser adoradas, tratadas como senhoras da alta sociedade. A ideia de encontrar o príncipe encantado capaz de lhes satisfazer todos os caprichos e dar segurança, faz parte do imaginário feminino. Ora, um homem velho e com “pasta” personifica esse ideal de segurança, estabilidade e conforto. E, claro, dinheiro conta… É uma atração forte para quem nunca o teve… Dizem até que, em regra, o interesse não está no namorar. Importam muito mais outros interesses como prestígio social, influência política, poder e… dinheiro, pudera. Há jovens que veem nos velhos uma porta para esse mundo fechado do dinheiro. Daí que, muitos deles acabam por ser presas fáceis, vítimas da sua “energia viagreira”, numa inocência quase infantil. Por isso, são muitas as mulheres livres tentando “dar o golpe do baú”, caçando velhos carentes com conta bancária valente.

Quando acontece, a coscuvilhice da vizinhança e dos conhecidos fala à boca cheia: “Vejam o disparate da relação”, “o estúpido do velho não vê que ela só quer apanhar-lhe a massa?”, “ela está com ele pelo dinheiro”. Para os familiares, “o velho está a pôr em causa os bens da família”, “meteu-se com aquela sirigaita acabada de desmamar”, “é preciso declará-lo incapaz”, “uma golpista interesseira que o vai deixar na miséria”.

Já os amigos, permanecem divididos entre aceitar a sua relação ou serem francos e abertos com ele. Conheci um caso em que, na despedida de solteiro em vésperas do casamento, lhe foram dizendo: “Meu amigo, a idade não perdoa e já estás no ponto em que, a única coisa que cresce, são… os pelos e as peles…”,“não te metas naquilo de que não podes dar conta”, “tu tens cabedal para aguentar as necessidades dela”? “E se um garanhão novo te assalta a casa e a mulher”? E um outro, menos subtil, disse-lhe de caras: “Achas que não vais ser corno”? Para surpresa de todos e com o maior descaramento, o “jovem noivo” (de setenta e nove anos), respondeu: “Pelo sim pelo não, é melhor comer “bife de primeira” embora tenha de o dividir com “sócio”, do que comer só “sopa de cebola”, ainda que a “tigela” seja toda para mim”… Com tal argumentação, a malta calou-se, informada daquilo com que ele estava a contar…

“Faz algum sentido um homem velho escolher mulher velha? De jeito nenhum”, dizem os defensores do “remoçar”. Só se for para grandes discussões intelectuais, encontros de antigos colegas de curso, bailes de saudade, viagens em pacotes para seniores e outras coisas que tais. Velho com velha dá velhos ao quadrado. Falam alto em diálogo de surdos, esquecidos dos óculos, do telemóvel, do que fizeram ontem, do que almoçaram hoje, do que são e até de quem são. Por isso, porreiro, porreiro, é arranjar uma “gaja nova” que “dê vida a um morto” ainda que, para ter “capacidade de resposta” seja preciso “enfardar” carradas daqueles pequenos comprimidos azuis e esperar o “milagre da ressurreição”… A ilusão de prolongar a força da juventude… E se, a meio do “esforço”, a máquina não aguenta a “pressão” e estoira? É o risco que corre uma velha locomotiva a vapor, de tubos gastos pelo uso e pela idade, tentando subir a encosta com a pressão no máximo. Quando menos se espera… PUM!!! Vai-se abaixo das canetas…

Como diz a Bíblia, “não se põe vinho novo em odres velhos; de outro modo, arrebentam os odres, derrama-se o vinho e estragam-se os odres”…

A ilusão entre o falso e o verdadeiro…

Estive na fundação e direção do Clube Automóvel de Lousada durante largos anos e contribui para a ascensão vertiginosa do CAL que o levaria a tornar-se um dos clubes mais importantes do desporto automóvel em Portugal. Foram anos loucos. Organizamos muitas provas ”interessantes” que trouxeram a Lousada milhares e milhares de espectadores. Quantos? Nunca o saberemos. Nem pelos jornais? Não me façam rir. Nem pelos dirigentes? De jeito nenhum. A haver alguém que soubesse dizer quantos foram, teria de ser eu, pois as bilheteiras, entradas e segurança também eram um das minhas responsabilidades. Mas, na realidade, só tinha controle sobre os “pagantes”, além dos elementos da organização, representantes da imprensa, convidados, pilotos e suas assistências. Os “borlistas”, escapavam à minha contabilidade, fossem eles autorizados como era o caso dos menores de doze anos, fossem eles “golpistas” que usavam todo o tipo de estratagemas para entrarem sem pagar. Ora, uns e outros, também eram espectadores. E muitos. Quanto aos números dos jornais, será preferível lerem o que se segue para perceberem da sua credibilidade e da forma como eram conseguidos.

Em Maio de 1991 organizamos a primeira prova pontuável para o Europeu de Ralicrosse, modalidade que não existia em Portugal. A prova fora-nos atribuída depois de, no ano anterior, realizarmos uma outra, de candidatura, onde apanhamos uma “banhada” de oito mil contos. Apesar do muito dinheiro perdido, valeu bem a pena o investimento, porque conseguimos trazer para Lousada uma prova conceituada. Como o orçamento para a organização era considerável, a nossa maior preocupação era o tempo, se ia chover ou fazer sol. Se chovesse, estávamos “feitos ao bife”.

Mas S. Pedro esteve connosco e deu-nos um fim de semana de sol. Por isso, no domingo tivemos “casa cheia”. Um sucesso. Até o prédio ao lado da pista, em construção e com uma “placa” carregada três ou quatro dias antes, abarrotava de gente. Ao ver aquela impressionante moldura humana pensei: “Estamos safos”. Já quase no final das corridas, um jornalista fez-me a pergunta sacramental: “Quantos espectadores estão aqui? Cem mil?” Engoli em seco, ignorei a sua ingenuidade e fraco conhecimento da realidade e “dei-lhe corda” sem desfazer a ilusão: “Ainda não sei, mas deve andar por aí”… Foi assim que, ao outro dia, o principal jornal desportivo da especialidade trazia na primeira página, em letras garrafais: “CEM MIL ESPECTADORES EM LOUSADA”. A notícia perfeita, muito para além do que poderíamos desejar. E logo na primeira página… Que melhor poderíamos querer? Tal como nas manifestações, era importantíssimo que os jornais noticiassem a presença de um elevado número de espectadores, uma publicidade gratuita mas valiosa. E aquele era um número gordo, muito gordo mesmo. E, como quanto maior é o número mais importância é atribuída ao evento… A publicidade para a ano seguinte estava meia feita. No entanto, toda a moeda tem duas faces e esta, também tinha o seu reverso, um risco já calculado e previamente assumido por nós, dirigentes. E nos dias seguintes esse risco veio ao nosso encontro através dos críticos do costume, que não se poupavam a comentários pelos cafés e esquinas da vila, do género: “Estes gajos é que se governaram. Vejam lá: Cem mil espectadores a três contos, são trezentos mil contos”. Insinuavam, especulavam, falavam do que não sabiam. Porque a realidade era bem diferente, mas eles não sabiam (nem queriam saber) que, espectadores “pagantes” (que são aqueles que verdadeiramente interessam para o efeito), haviam sido pouco mais de catorze mil e quatrocentos… muito longe dos propagados cem mil, se bem que, no interior do circuito, estivessem entre vinte a vinte e cinco mil pessoas se contássemos os “não pagantes” que referi. E não sabiam também que, antes da prova arrancar, eu e o Jaime Moura tínhamos o nosso nome “atravessado”, a avalisar mais de trinta mil contos de dívidas, fora todas as despesas do fim de semana… Havíamos corrido um enorme risco em nome de um sonho. E valeu a pena. Mas, se tivesse chovido?

Tudo isto para dizer que a utilização de falsas verdades ou mentiras descaradas, algumas vezes acidentais mas outras intencionais, são uma das forma pela qual se moldam conceitos, arranjam seguidores, recrutam consciências e mobilizam massas humanas. Todos os dias somos massacrados pelos meios de comunicação com todo o tipo de informação e contrainformação, verdades e mentiras, testemunhos a confirmar a veracidade de afirmações quando não passam de grandes mentiras. Porque nós temos de acreditar para sermos mobilizados e arregimentados para o rebanho de seguidores. Seja nos resultados alcançados pelos (des)governos, das políticas que nos (lhes) são favoráveis, das suas (in)verdades e dos (in)sucessos governativos. A minha irmã já se recusa a ver o telejornal porque “são só desgraças e mentiras”. Mas a minha mãe, à beira dos noventa e quatro anos, não perde um, pois “gosta de estar atualizada”. Quando lhe dizemos para não acreditar em tudo o que ouve, responde com um sorriso: “ Eu ouço tudo, mas só acredito naquilo que quero”.

A velocidade com que uma notícia posta a circular chega aos quatro cantos do mundo é impressionante, seja verdadeira ou falsa. Porque há fotos manipuladas, factos inventados, frases retiradas do contexto, títulos bombásticos e chocantes para notícias sem conteúdo, dados fictícios, números falsos, conclusões erradas, como se fossem grandes verdades mas sem hipóteses do contraditório. E vemos isso todos os dias…

A Bíblia diz que “os ouvidos julgam o valor das palavras assim como o paladar prova os alimentos”. Já o Rei Salomão escrevia: “O ingénuo acredita em tudo o que lhe dizem mas o homem esperto olha onde pisa”.

O Início: “Queres casar comigo”?

Quando o presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa ao condecorar os jogadores da seleção de futebol que venceram o europeu de França afirmou que, por uma questão de igualdade, iria atribuir a mesma condecoração a todos os portugueses que fossem campeões europeus, arranjou um rico “trinta e um”. Ao assumir esse compromisso, vai ter de condecorar também todos os divorciados porque, afinal, somos campeões europeus de… divórcios. Em média, segundo as últimas estatísticas, por cada 100 casamentos há 70 divórcios. É obra… Somos um exemplo de modernidade. Bom ou mau? Que importa? Voltaire dizia que “todo o divórcio começa mais ou menos ao mesmo tempo que o casamento. O casamento talvez comece algumas semanas mais cedo”. Mais recentemente, alguém antecipou o início do divórcio para o “Queres casar comigo?”. E uma das razões que se invoca para tal, baseia-se na teoria de que “a época mais feliz de um homem é depois do seu primeiro divórcio”. Se é assim, tenho de experimentar.. Certo é que Groucho Max, numa descoberta impar, depois de longos estudos, concluiu que “o casamento é a principal causa do divórcio”. Será?

Cresci numa sociedade em que “o casamento era para a vida” e raros eram os casos em que tal não acontecia. Claro que a sociedade nada tinha a ver com a de agora: Muito machista, marcada por valores morais e religiosos muito fortes e qualquer anomalia no casamento era uma desonra para a família. Só depois da revolução de Abril é que se alteraram as leis, os conceitos morais e os procedimentos, passando-se do oito para o oitenta. Mas não se pense que estou para aqui a defender o casamento para toda a vida. Quem sou eu para tal… Vejo até no divórcio muitos aspetos positivos, o primeiro dos quais como dizia Leon E., por “ser uma chance que se dá ao indivíduo para errar outra vez”. Na vida, é como se solteiros e casados estejam separados por uma simples porta. O curioso, é que todos querem passar para o outro lado da porta, independentemente do lado em que se encontrem. O homem não aguenta a mulher durante muito tempo e separa-se, mas também não consegue viver sem ela. E casa.se… E o ciclo repete-se. E o mesmo acontece com elas: Mulher tem que ter homem para sua segurança e exibir perante as outras, e se casa. Mas homem é problema porque é machista, não ajuda em casa, só fala na boa comida da mãe, na simpatia da amiga do casal – e lá está um grande problema. Daí que “o divórcio se torna tão natural que, em muitos casos, dorme todas as noites entre os conjugues”. Os cépticos dizem até que o casamento corresponde à “crucificação” e que o alívio desse sacrifício, a “ressurreição”, só é possível com o divórcio. E que, depois de uma mulher casar, só pode dar duas alegrias ao homem: Um filho e… o divórcio. E hoje a velocidade com que se casa e descasa é tal que, ao perguntar ao filho de um amigo que não via há muito tempo se já era casado, respondeu-me: “Sou divorciado… pela segunda vez”. Antes, uma mulher “experimentada” era ostracizada pela generalidade dos homens. Agora, é muito requerida por ser mais dona de si, mais segura e resolvida, além de ser livre, independente e não se perder com paixonetas. Dizem até que o divórcio a remoça e lhe dá brilho. Daí o “Divorciada? Qual quê, solteira aliviada…” Para alguns, o divórcio é uma prova de fracasso enquanto para outros, é “uma saída de emergência” e um oportunidade para errar de novo.

Mas, com toda a sinceridade, não compreendo como se pode chegar a este número: 70% de divórcios. Não há razões para tanto, de jeito nenhum. Noutros tempos, sim, até podíamos ter motivos, porque antes de casar, homem e mulher, não podiam levar o “produto” à experiência para casa, do tipo “à consignação”. Ou “compravam” ou não “compravam”, não havia meio termo. Era como nos móveis, nos eletrodomésticos ou outro utensílio qualquer. Não havia “período experimental”. Nesse tempo ou se acertava… ou se aguentava. E até mesmo se alguém “provava” antes de “comprar”, tinha de ficar com a “mercadoria”, a bem ou a mal. E agora? É tudo fácil. Já ninguém é obrigado a “comprar” nada. Quando um e outro gostam (ou acham que gostam), não têm necessariamente de se “comprar”. Para quê? A sociedade (e as próprias famílias) até aconselham e recomendam o tal “período experimental” de duração ilimitada, para “testar o produto”, “poder aprender a montar e desmontar a máquina”, “usá-la nas condições mais adversas” para saber se corresponde às exigências e necessidades do utilizador. E, para além do “período experimental” poder ser transitório ou por toda a vida, sem limites temporais nem restrições no seu uso, pode mesmo devolver-se o “produto” à procedência sem direito a indemnização pela utilização temporária, pelo desgaste ou desvalorização. Por isso, não compreendo porque razão se opta pela “compra definitiva” sem se ter a certeza que é aquilo que se quer mesmo. Por que não prolongar o uso “provisório”? Evitavam-se chatices maiores, batalhas jurídicas, guerras familiares e custos, muitos custos. Se acham que o casamento sai caro, esperem para ver a conta do divórcio… Ou então, a malta entende que o casamento é uma oportunidade para dar uma “festa de arromba” (que talvez sirva de festa de casamento e divórcio…) mas paga por uns “camelos” que não são eles. Além disso, têm direito a receber como bónus todo o tipo de prendas e ainda quinze dias num hotel de cinco estrelas nas Caraíbas, com sexo à descrição… E depois? Logo se verá…

Robert Anderson dizia que “em todo o casamento que durou mais de uma semana, existem motivos para o divórcio. A chave, consiste em encontrar sempre motivos para o casamento”. E o sucesso de um casamento não está no amor eterno, na paixão assolapada, na subserviência de quem quer que seja, mas muito mais no diálogo, no companheirismo, na amizade, no respeito e no investir na relação a dois. E ainda mais agora em que existe a possibilidade do tal “período experimental” para conhecer o outro “ a olho nu”, sem máscara nem pintura, sem disfarce e sem ter de representar uma personagem falsa no teatro da vida…