As calças que têm a ver com o …

Nas questões de “andar na moda”, estou sempre desatualizado. Não leio nada sobre o assunto, nunca sei quais são as tendências do momento ou da próxima estação e só um acaso me faz entrar nessa onda e me veste de acordo com o modelo mais em voga. A minha opção é sempre pelo mais confortável, sem saber sequer jogar com as cores, perceber que camisa “diz bem com aquelas calças”, que gravata liga com o casaco. E sou capaz de repetir as mesmas roupas semanas a fio, trocando entre dois conjuntos só enquanto um deles vai para lavar, como se não houvesse mais nada no roupeiro. Até mesmo no calçado. E é preciso que alguém me vá chamando a atenção para os colarinhos que estão puídos, as camisolas com fios puxados ou os polos descorados pelo uso.

No meu ponto de vista, a moda procura dar satisfação a duas necessidades fundamentais: por um lado, à permanente insatisfação do ser humano, a necessidade de mudança, de andar diferente de ontem e amanhã. E dos outros. Por outro, para satisfazer a indústria de confeção e o seu desejo de que o ser humano continue a ter sempre vontade de mudar … de vestuário, atirando para o caixote do lixo a roupa “fora de moda”, para poder continuar a produzir e ter quem compre. Ora, por muito mais que me digam, eu não sinto essa atração. Nem me importo de “andar fora de moda”. Qual é o problema? Porquê ser obrigado a desfazer-me de roupa nova e confortável só porque quem decide as “tendências” da moda assim o ordena? Mas aceito que haja quem goste e faça disso uma obsessão. Reconheço ainda que a vida é feita de mudança.

Já passei por modas que o foram, caíram no esquecimento e voltaram à ribalta por mais que uma vez. As calças. Foram moda apertadas em baixo, depois largueironas, voltaram a ser justas e alargaram para além do razoável. No comprimento, já arrastaram pelo chão, ficaram curtas do tipo “para regar” ou medida normal, subindo e descendo, apertando e alargando conforme a vontade dos “ditadores”. Diz-se que “na moda, só é novo o que está esquecido”. E é verdade. Hoje os modelos são mais que muitos, para satisfazer todo o tipo de gostos, dos mais clássicos aos radicais, dos ousados aos excêntricos. Podem ser de corte clássico, chino, skinny, elefante, hip hop, street style, harém, cargo, casual cintura alta, média ou baixa, militar, saruel e muitos mais. Só não me parece que estejam na moda o “boca de sino”.

Foi nesta minha ausência do que “está na moda”, que um dia destes uma pessoa amiga me falou das “calças à cagão”. Pensei que estivesse a brincar comigo e que fosse o nome que ela, pessoalmente, dava a um determinado modelo. Mas, vim a confirmar que é a designação corrente. Então, movido pela curiosidade, quis ver que calças eram essas com nome tão “sugestivo”.

Procurei na internet e encontrei vários modelos e depois, mais atento, vi na rua diversos jovens com esse tipo de calças. Ao vê-los, fiquei convencido: a escolha do nome foi acertada. Revelou até perspicácia, pois a sensação que se tem ao ver alguém sair da casa de banho com “calças à cagão”, é de que “tudo o que fez” ficou nas calças. Talvez nos bolsos, sei lá, a fazer peso. Daí a malta andar com a cintura pelo meio da “padaria”, como se um peso extra puxe as calças para baixo, deixando à mostra uma boa parte das cuecas, quase sempre de cores apelativas. Ao ver as calças a “fugir” do rabo de um adolescente, não pude deixar de concordar com o “à cagão”. Revelam a irreverência e excentricidade próprias dos jovens.

Sendo um defensor da roupa prática e funcional, acho que seria o modelo certo para eu usar quando andava na escola primária, especialmente quando tinha de ir à retrete. Como lá havia sanitas turcas (aquelas que são rasas, com dois apoios para colocar os pés e um buraco onde é conveniente acertar), seriam excelentes para a função pois não era preciso desapertar os botões ao “arriar as calças”. Bastava aninhar-me e, nesse movimento para me colocar na “posição de tiro”, elas desciam de forma automática, o suficiente para poder “fazer o serviço”. Sem mais. Seriam muito funcionais. “E as cuecas”, perguntam-me? Não seriam problema. Bastava usar o “modelo do Amílcar”. “E que modelo é esse”, querem saber? Bom. O Amílcar era o vocalista do nosso conjunto (leia-se “banda” na versão atual) no início da década de setenta. Deixou a faculdade e dedicou-se à música, mas era um tanto “apanhado do clima”. Tornou-se tão bom, que chegou a tocar com o Cat Stevens, embora mais tarde se viesse a perder nos caminhos da droga. Um dia, o grupo tocava na Assembleia Penafidelense. Ao ajustar as calças no intervalo, o Amílcar mostrou ligeiramente a parte de cima das cuecas. O Nelo meteu-se com ele: “Oh Amílcar, tens umas cuecas giras”. Tímido e meio a gaguejar, respondeu-lhe: “Não são cuecas. É só o elástico…” E mostrou que, abaixo do cinto, não havia mais nada… Ora, aproveitando o “modelo” do Amílcar, as cuecas completavam na perfeição a funcionalidade das “calças à cagão”.

Se eu me satisfaço com a comodidade e simplicidade da roupa, tenho de concordar que há quem prefira a excentricidade e irreverência, tornando este nosso mundo mais colorido, original e alternativo. E a indústria, como toda a sociedade de consumo de que fazemos parte, precisa disso pois, por mais estranha e ousada que seja a moda, por mais esquisita ou feia (e o feio é relativo e às vezes, de tão feio que é, passa a original e de original a bonito), vai haver sempre quem adira e consuma… E cá estaremos nós a “olhar de lado” a excentricidade, quando não a dizer: “olha que até são giras e ficam-lhe bem” …

Alto e para o baile. Apalparam…

Num tempo em que namorar com uma moça tinha regras apertadas de comportamento, para além da vigilância serrada da mamã, dançar agarradinho era coisa doutro mundo. Mas raro, muito raro. Porque eram muito poucas as raparigas que o permitiam. Estrategicamente, colocavam o braço esquerdo sobre o nosso ombro direito e, à menor tentativa de a puxarmos mais para nós, esse braço esquerdo impedia o “avanço” e mantinha-nos “descolados”, à distância. A vigilância da família e não só, eram obstáculos de peso. Mas a rapaziada tentava sempre, à espera que lhe saísse a sorte grande…

Na minha infância só conhecia as danças populares nas desfolhadas e outras atividades e festas da aldeia. E foi nas Festas Grandes que vi pela primeira um baile através da janela da Assembleia Lousadense, que era um espaço de acesso muito restrito. Já adolescente, tive de aprender um tanto à pressa os primeiros passos da valsa, do tango e do cha cha cha, quando alguém me convidou para um baile em casa particular. Eram os melhores. Organizados em casas onde havia “meninas casadoiras”, tinham sempre um segundo aliciante nesse tempo de “escassez”: além das raparigas, havia comida “à fartazana”, angariada através de “multas” aos convidados, especialmente às mulheres. Os donos da casa eram os “guardiões morais”, a quem as mamãs entregavam a responsabilidade das filhas. Mas, quando em bailes de coletividades como as Assembleias Recreativas ou Clubes e bailes de Finalistas, os pais das “meninas” tinham mesa própria de onde controlavam as “pequenas” e, especialmente, os candidatos. Em muitos casos, até eram seletivos ao aprovarem ou não o “rapaz”. Contava-se uma história ou anedota sobre esse controle: em plena dança, um dos papás gritou: “Alto e para o baile. Apalparam o c. à minha filha”. O visado, terá reagido de imediato: “Fui eu, mas quero casar com ela”. O pai da rapariga desarmou logo e gritou: “Siga o baile…” Os interesses do pai estavam assegurados.

Dançava-se o tango, o slow, o passo doble e a valsa, agarrados, não tanto quanto os rapazes queriam, mas o quanto as circunstâncias e elas permitiam. Mais tarde apareceria o rock e o twist, essas sim, dançadas com um para cada lado. Eram boas para animar o ambiente mas, gostosas, gostosas, eram as outras… Para um adolescente como eu, o baile era sempre algo de especial, uma oportunidade para ter nos braços a mulher de quem gostava. Mas nem sempre concretizada. Porque, nos bailes públicos, estava-se sujeito a apanhar “uma nega”. Quando começava a tocar a música, tinha de ir até à mesa onde a moça estava sentada com a família e fazer um aceno de cabeça para “formalizar” o convite. Se ela aceitasse (e tivesse autorização da “vigilante”), levantava-se para dançar. Caso contrário, olhava para o lado ou fingia que não via. Para um adolescente tímido, a recusa era um golpe na autoestima. Para os “sabidolas” e descarados, já muito habituados a esse contratempo, não era problema. Quando uma moça se mostrava demasiado seletiva, armavam bagunça, como aconteceu em Santo Tirso num baile do tipo “arraial minhoto” onde fui com um amigo. Encontramos lá um conterrâneo mais velho. Durante o baile, tanto eu como o amigo que me acompanhou tentamos dançar com uma moça loura, de cabelo comprido, mas fomos rejeitados. O nosso conterrâneo não gostou e fez questão de a ir convidar, fazendo-lhe uma vénia a curta distância. Ao receber também um não, deu um passo atrás e, em voz alta, bradou: “Que me diga que não dança, está no seu direito. Mas, mandar-me à m… é que não”. E deu meia volta, com a dignidade de quem tem razão. Toda a gente ao redor ficou a olhar. E ela sentiu-se tão envergonhada, que saiu logo de seguida.

Os bailes eram relativamente restritos, até porque não havia muita gente a saber dançar as chamadas “danças de salão”. Para além disso, como uma boa parte dos bailes eram em casas particulares onde só ia quem fosse convidado, mais limitado ficava tal acesso. Nos bailes em instituições, em que as Assembleias Recreativas eram as mais ativas, a entrada era igualmente condicionada…

Fomos mais de meia dúzia os convidados por um amigo comum para rumar a uma aldeia de Santo Tirso numa noite de fim de ano, onde ia haver dança. O anfitrião era um tio desse nosso amigo, que tinha duas filhas a ultrapassarem o “prazo de validade” (e nesse tempo o limite situava-se entre os vinte e os vinte e cinco anos), pelo que urgia fazer alguma coisa. A condição exigida ao grupo que ia cá de Lousada era cantar as Janeiras. Por isso, paramos no alto de Lustosa para ensaiar uma música do conjunto de António Mafra e versos feitos por mim para o efeito, à luz dos faróis. Devia ser um quadro lindo… Apesar de tudo estar “nos conformes”, o baile não correu muito bem. Uma das raparigas convidadas era muito bonita e tinha uma particularidade: a dançar, a sua camisola azul celeste “colava-se” ao par, irradiando um calor anormal. Com isso, a rapaziada fazia fila para ver quem era o felizardo da dança seguinte… E o anfitrião não gostou de ver as filhas “sem clientela”, enquanto “aquela galdéria” tinha a malta toda presa pelo beicinho. Ia sendo um problema dos diabos, que teve de ser resolvido com alguma diplomacia…

Em poucos anos, a vigilância e controle das moças foi abrandando e sendo substituída por uma liberdade condicionada, até chegar a não ter condições. Os bailes, ponto alto de entretenimento, encontro e prazer, onde tudo começou para muitos casais, perderam o encanto e foram substituídos pelas discotecas e bares, em que já não se valoriza as pequenas conquistas, mas somente o tudo ou nada. O prazer dos avanços e recuos no “assalto ao castelo”, perdeu-se nas facilidades da “rendição sem luta”. E os locais, como as Assembleias Recreativas e Clubes, também perderam a mística, a “clientela”, o brilho e o (quase) exclusivo dos bailes.

Mas as mamãs, tinham e continuam a ter um papel importante na vigilância e segurança das filhas adolescentes, agora mais ajustada à realidade do século XXI: “Tomaste a pílula? Como vais ao cinema com o António e vai acabar tarde, fica em casa dele. Mas não se esqueçam de usar preservativo. Pratica o sexo seguro” …

Clima temperado. E passamos frio…

“Está um frio de rachar”, dizem-me quando entro numa loja. Não sei o que é que ele “racha” mas, na realidade, esta manhã tive de colocar várias camadas de roupa para proteger este corpinho daquele vento gelado que parece atravessar-me os ossos. Não é tanto o frio que nos gela. O pior é quando ele aparece agarrado ao vento, uma dupla que mete medo. Até me faz crer que ando nu na rua, tal a facilidade com que trespassa a roupa e a carne.

Felizmente, hoje já temos vestuário adequado para as intempéries, coisa que não havia quando ia a pé para a escola primária. Nesse tempo, sim, havia mesmo frio, porque não havia com que o parar. A maioria ia descalça a pisar a terra levantada pela geada, com calças rotas (que nesse tempo eram sinal de pobreza e hoje estariam na moda) ou remendadas, uma camisa velha e, com sorte, camisola feita à mão lá em casa. Para proteger da chuva e do frio, uma “capa” com o saco de sarapilheira. E era preciso ter um saco de sarapilheira, o que não era para todos…

Mas o frio também se fazia sentir bem forte dentro das casas, sem condições de habitabilidade. A maior parte delas tinha o pavimento em terra batida. Húmidas e frias. O vento e o frio entravam pela cobertura em telha vã e pelas largas frinchas de portas e janelas. Só o peso dos cobertores (para quem os tivesse), enganava o corpo, que ficava dividido entre dois problemas: o peso dos cobertores e o frio. Para os que tinham mais posses, uma botija de água quente, feita em lata pelo latoeiro da terra, dava um grande conforto, a não ser que se rompesse a solda… Os pobres, como não tinham como comprar tais botijas, aqueciam um pedregulho na lareira e enfiavam-no entre os cobertores embrulhado em trapos…

Os “Kispos”, desse revolucionário do nosso modo de vestir conhecido pelo nome de Hans Isller, para além de nos darem um ar desportivo, descontraído e colorido (acabando com o cinzentão das roupas de então), também nos vieram dar proteção contra a chuva, o vento e o frio, de forma irreversível. Bem agasalhados, até passou a dar prazer andar ao arrepio dos elementos, como as crianças quando teimam em dar saltos numa poça de lama.

A riqueza trazida pela industrialização permitiu-nos ter casas novas, com outro aparato que não o da casa de pedra tradicional. Modelos importados da “estranja”, caixilhos de alumínio e outras modernices, ficavam bonitinhas depois de pintadas em cores garridas. E, para os mais abastados, nasceram casas maiores, casarões e outros que tais, que enchiam de orgulho os donos pelo aparato, pela beleza exterior, mas cuja comodidade pouco correspondia ao aspeto. A preocupação maior era sempre, e só, com a beleza da moradia e muito pouco com a comodidade. A qualidade do isolamento térmico e acústico não existia e, quando se começou a falar nisso, fingia-se, brincando aos isolamentos, ao colocar na caixa de ar das paredes exteriores placas de esferovite com um a dois centímetros de espessura, como se isso resolvesse alguma coisa. Resultado: as casas novas tinham problemas velhos: Frias, quando não, húmidas. Sem aquecimento a sério, enganava-se o inverno e o frio com o aquecedor a gás ou elétrico, a lareira ou uma salamandra na sala. E nos quartos?  Um montão de cobertores na cama e botijas de água quente, agora de borracha…

Há cerca de trinta anos fiz uma viagem a França com a família e quis visitar uma prima que morava em Lyon. Estávamos no mês de Agosto e, ao meio dia, a temperatura ultrapassava os trinta e cinco graus. Ao encontrar a casa de rés do chão, muito simples, disse à Luisa: “vamos assar lá dentro”. Mas nada disso aconteceu. Fui surpreendido por uma temperatura amena, onde se estava muito bem. Perguntei-lhe se tinham ar condicionado. “Não, o que temos é um bom isolamento térmico”. E, quando me referiu a espessura das placas de isolamento, tanto no interior das paredes como na cobertura, disse para comigo: “isto, é isolamento a sério”. Ainda hoje, apesar de obrigados pela lei, estamos longe de usar espessuras de isolamentos como eles o fizeram.

A verdade é que somos um país de clima temperado, onde se passa mais frio dentro de casa do que em qualquer casa de um país frio da Europa central ou norte. O que é um paradoxo. Até se compreende no caso das famílias que construíram a habitação com muito sacrifício e não disponham de meios para um sistema de aquecimento e a sua manutenção. Mas, para muitos outros, não faz sentido nenhum.

Nos países frios, o aquecimento é uma prioridade imprescindível, sejam ricos ou pobres. Os prédios de apartamentos têm aquecimento coletivo. E já vi isso na antiga Checoslováquia há mais de trinta anos…

Um amigo serralheiro, quando foi pela primeira vez a França colocar a caixilharia numa moradia, ficou muito admirado porque a casa só tinha os alicerces e as paredes exteriores em tosco, com os blocos à vista. Nem telhado. Nunca vira nada daquilo e disse ao empreiteiro que não a podia assentar. Naquelas paredes toscas, sem reboco, só havia os buracos para portas e janelas. O construtor disse-lhe para colocar a caixilharia porque os acabamentos viriam depois. E ele fez o que lhe mandaram. Mais tarde pode ver como se acabava a casa. Só precisaram de um quinto do cimento que nós gastamos e ficou com tal comodidade que, em pleno pico do inverno, andavam lá dentro descalços e em t-shirt, como se fosse verão. Porque a preocupação deles é a comodidade e o conforto.

O sistema construtivo conhecido por “capoto” melhorou muito o isolamento das casas que hoje construímos, mas ainda temos muito caminho a percorrer. Quanto a aquecimento? Ainda ficamos muito pela pré-instalação e depois usamos aquecedores elétricos ou o que calha, que consomem dinheiro, sem proporcionar comodidade e conforto. E nestes picos de frio, anda-se agasalhado em casa como na rua…

Temos um clima temperado. Mas, as nossas opções em relação à climatização caseira, nem sempre são temperadas… pelo bom senso. Questão de prioridades…

Já agora, para quê tanta pressa?

 

Apesar de gostar da comodidade do “meu canto”, quando preciso (e tem de ser), vou ao Porto. Aquele aglomerado de “pressas” já não me motiva a ser mais um “com pressa”. Na última ida à capital do Norte, foi uma confusão danada, porque só vi gente apressada. O trânsito estava caótico, as pessoas impacientes por chegarem a sítio nenhum, os carros, esforçados do “para e arranca”, continham os “cavalos de potência” que não lhes servia de nada naquela teia de desencontros. Mesmo os polícias, depressa se escaparam da confusão. Sem pressa, mas querendo chegar, feito observador em palanque, assisti ao vai e vem de grandes vagas de carros no mar agitado do trânsito, ao som febril de buzinas inquietas, pressionadas por condutores com pressa, irritados e impacientes por “marcar passo”, quando já queriam estar algures, mas atrasados para nenhures…

É nestes dias que mais nos apercebemos que anda toda a gente com pressa, essa doença da vida moderna. Já Fernando Pessoa há muito tempo identificou o problema: “Movemo-nos muito rapidamente de um ponto onde nada se faz, para outro onde não há nada para fazer e chamamos a isto a pressa febril da vida moderna. Não é febre de pressa, mas sim pressa de febre. A vida moderna é um lazer agitado, uma fuga ao movimento ordenado por meio da agitação”. Se há mais de cem anos Pessoa já fez este diagnóstico, é caso para perguntar o que diria ele agora, em que tudo acelerou de forma descontrolada, como quem passa do passo de boi para a velocidade da luz?

A pressa é um dos grandes males das sociedades modernas e conduz as nossas vidas a uma agitação e preocupação permanentes. Somos por isso dominados pela ansiedade, apesar de usufruirmos de meios tecnológicos que deveriam facilitar-nos a vida, como os transportes rápidos, o computador, a internet, o telemóvel e tantos outros. Estranhamente, acabamos sempre por andar atrasados, correndo de um lado para o outro e sem ter tempo para nada.

A qualidade da nossa vida é afetada pela pressa constante, refém de agendas sobrecarregadas como se o dia tivesse mais de vinte e quatro horas. Aliás, estamos ligados e em serviço todas as horas do dia e até mesmo de noite. Onde fica o lazer, o descanso e, mais que isso, o “viver”? Relegados para o canto do “mais tarde” ou “quando for possível” ou ainda “quando me reformar”, como se a felicidade só vá chegar na velhice… Mas não vai.

Já pouco ou nada usamos o relógio que trazemos no pulso, talvez por estarmos em conflito com ele. É tempo de fazer as pazes com o ritmo de vida e usufruir das coisas boas, simples e calmas. Não fomos feitos para andar sempre acelerados, nem viver “a cem à hora”. Não temos paciência, esperar irrita-nos e achamos que a espera é só para quem não tem nada que fazer. Queremos tudo agora, agora mesmo. Porque temos urgência de chegar, como se tivéssemos urgência de chegar ao fim, como se no fim estivesse a felicidade…

Manuel Barros é um poeta brasileiro. Na sua filosofia, valoriza as insignificâncias e questiona as opulências. Dava mais importância aos passarinhos do que aos senadores. Tinha cisma com lesma, por achar que ela andava muito depressa. Dizia uma verdade que deveríamos guardar e até seguir: “A gente só chega ao fim, quando o fim chega! Então, para quê atropelar”?

Apesar do homem ter trocado os braços pelas asas, as pernas pelas rodas, a calma pela pressa e o perto pelo longe, está sempre atrasado, não conseguindo cumprir a agenda e os horários. Incapaz até de ter tempo para os filhos, para a família, para os amigos. Já não se dá tempo ao tempo, porque tudo tem de ser feito antes do tempo, como se o tempo não tivesse um tempo. Mas tem o seu tempo…

No supermercado, zangamo-nos connosco porque escolhemos a fila errada, fulminamos o cliente à nossa frente, porque é lento e não tem o dinheiro à mão para pagar logo e encaramos mal o caixa, porque não é despachado. Como se ninguém visse que temos pressa… Toda a semente tem um tempo para germinar, crescer, dar flor, frutificar e amadurecer o fruto. No ciclo da vida vegetal, ainda não há forma de saltar etapas, de fazer florir antes de germinar ou de colher antes sequer de se semear. E não adianta ter pressa. Apesar de recusarmos fazer da vida como no ciclo do reino vegetal: semear, regar, adubar e cuidar para colher.

Conta-se que o célebre pintor francês Renoir, já em idade avançada, foi procurado por um jovem admirador, muito interessado em aprender a arte do desenho. Porém, alegando ter pouco tempo para a tarefa da aprendizagem, o apressado discípulo queria saber quanto tempo demoraria a empreitada, pois ficara assombrado ao ver que o mestre fez uma bela pintura com uma rapidez espantosa. Perante tanta pressa, Renoir disse-lhe: fiz este desenho em cinco minutos, mas demorei sessenta anos para consegui-lo”.

Todas as últimas descobertas vão no sentido de acelerar a nossa vida e os nossos atos. Comunicamos à velocidade da luz, voamos acima da velocidade do som, inventamos o computador para nos resolver em segundos problemas que demoravam anos e inventamos máquinas para nos substituírem no trabalho. Mas estamos mais escravos da pressa, do ter de fazer mais ainda e mais rápido, porque não basta fazer. E nessa pressa, despachamos à pressa as coisas importantes da vida, porque temos pressa do resto, de ter o que não temos antes mesmo de usufruirmos daquilo que já temos.

Até temos pressa de chegar ao amanhã. De o antecipar. Como se fosse o que mais importa. A tal ponto, que até nos esquecemos de viver o presente, o dia de hoje, o agora. Bem vistas as coisas, no fundo, no fundo, até nos esquecemos de viver…

Te quero, Bem. Não te quero, Mal…

Não tenho qualquer memória sobre o dia do meu nascimento, apesar de ter participado como protagonista principal desse “filme”. E nem sei se estive de olhos abertos ou fechados, se vi a cena “do lado de quem sai” ou se não tive tempo nem disposição para ver nada. É que, bom, bom, é andar na barriga da mãe: Não temos de nos preocupar com tomar banho, comer, vestir, trabalhar, ouvir discursos chatos, aturar estúpidos, nem correr atrás do dinheiro. Nada. Assim, quando tudo nos empurra para atravessar a “porta” que nos traz a este mundo, quem é o tolo que vem de boa vontade? Nenhum. É por isso que a “ganapada” entra toda nesta vida a berrar. Pudera. Lá dentro é que se está bem, sem necessidade de “ter de fazer pela vida” …

Aterrei neste mundo e vi a luz do dia em casa dos meus pais e só o sei porque a minha mãe me contou. Não havia maternidade e o hospital era para outros males. Também fiquei a saber que saí a berrar, como os outros. Não fui diferente. Sou feito da mesma massa. E, mais ainda, que a minha avó materna foi quem ajudou a “puxar-me” cá para fora (provavelmente com medo que eu fizesse “finca pé” e não saísse), assumindo o papel de parteira. Nesse tempo, em que a assistência médica no parto era residual. Quem “ocupava o lugar” de parteira era, em regra, uma mulher com muitos filhos. E a avó teve uns quantos. É que, aquela que tivesse muitos filhos, pela lógica, tinha experiência prática, aquilo a que hoje se chama “currículo” … Era um curso da vida, sofrido, muito sofrido pela experiência própria. Tanto o era, que as mulheres nem sequer “davam à luz”. Pariam.

Também não sei se nasci com os genes do Bem e do Mal. Não me lembro, não me perguntaram e o ministério público não investigou nada desse assunto. Mas também é uma discussão que não tem fim, pois há muitas teorias. Da treta? Talvez. Umas dizem que o homem é mau e nasce mau. Outras, defendem o contrário: que os homens nascem livres de qualquer maldade. E há ainda as que acham que nascemos como um livro em branco, sem nada escrito, sem maldade nem bondade. Ora, nas minhas memórias mais remotas, vejo-me a ser solidário com outras crianças. Nesse caso, um sinal de que já tinha o Bem comigo. O que é bom. Mas também me recordo nessa altura, de andar à “batatada” com o Tónio. Outro indicador, de que o Mal já cá estava também. O que é mau. Tinha cinco a seis anos e já carregava os dois: O Bem e o Mal. Mas, pergunto eu, quando nasci, naquele preciso momento em que berrei ao ver a luz do dia, já trazia os dois em mim? Fica-me a dúvida, apesar de todas as teorias que nada têm de consensual e que só aumentam as minhas interrogações.

Não posso negar que, ao longo dos anos, os meus atos e atitudes foram consequência da maior ou menor influência de cada um desses dois “manipuladores”, sem nunca me ter conseguido libertar por completo do segundo, apesar de me esforçar e da arma que os meus pais usaram para o eliminar: A Educação.

Na minha linguagem e desde o tempo de criança, praticamente nunca usei palavrões, inclusive os mais vulgares cá na região. É que, a minha mãe, bem cedo avisou que me punha pimenta na língua se me ouvisse dizer um palavrão sequer. Levei de tal forma a ameaça a sério, que excluí o calão mais ordinário do meu vocabulário. Até hoje, apesar da enorme pressão feita pela malta que estudava comigo. E isso também aconteceu com os cigarros: para a “maralha”, quem não fumasse, não era homem. Por isso, eu tinha de fumar como os outros, para poder ser integrado e … ser homem. Mas resisti. De tal maneira, que nunca meti um único cigarro à boca. E, que eu saiba, “cheguei a homem” …

O meu pai ensinou-me a cumprir a palavra. Se acordava com alguém alguma coisa, bastava um aperto de mão para selar o acordo e ficar refém da palavra. Não era preciso papel escrito. E ambos fizeram questão de me ensinar ainda a respeitar os professores, os mais velhos, as autoridades e as pessoas em geral. Respeitar, diziam, para poder ser respeitado ou para exigir respeito. E a ter valores.

Mas, apesar da educação que me incutiram baseada na “liberdade com responsabilidade”, não deixei de ter o meu lado negro, como toda a gente. Quando na escola o Tónio, mais velho e maior do que eu, me fez uma patifaria, dei-lhe um valente pontapé no traseiro, que me deixou a sensação de o ter levantado do chão. Ainda hoje pergunto como é que lhe acertei tão bem no “centro”!!! Felizmente para mim, não reagiu como seria de esperar. Já rapazote, a jogar futebol pelo Macieira, um adversário rasteirou-me, fazendo-me estender ao comprido, indo com os joelhos a raspar no areão do campo. Ficaram a sangrar. Levantei-me e não vi mais nada além do “inimigo”. Corri atrás dele com a raiva estampada no rosto e sede de vingança, dando uma volta ao campo de futebol sem o conseguir apanhar. Era o meu lado “Mau” a comandar a minha reação. E esta luta sempre existiu em mim quando perante casos de agressão, prepotência, violência ou qualquer tipo de injustiça. O lado negro reclamava por vingança e justiça. Resisti sempre? De maneira nenhuma, não tenho nada de santo. Mas tenho orgulho ao dizer que, a educação que os meus pais me deram, resguardou-me e protegeu-me de muitos desses apelos. Ela foi fundamental na escolha do trilho e ainda bem que não a deixaram ao cuidado de outros. Tive influências de companheiros de caminhada? Claro que sim. Mas naquilo que era essencial, segui pela via que os meus progenitores me indicaram.

Para os pais de hoje, os desafios são muito maiores que os daquele tempo. Mas não são impossíveis. Têm, à partida, mais preparação, mais informação e meios. Não podem demitir-se da responsabilidade, nem sequer delegar em terceiros, muito menos em quem tem só a missão de instruir, porque não lhes cabe educar, apesar de fazerem o que podem quando existe esse vazio. Aos que não estão disponíveis para tal responsabilidade, um único conselho: é melhor não terem filhos. Eles não têm culpa.

Circula na internet que um recluso condenado à pena de morte e a aguardar pela execução solicitou, como último desejo, papel e lápis. Escreveu alguns minutos e depois chamou pelo guarda prisional, pedindo-lhe que a carta fosse entregue à mãe. A carta dizia:

“Mãe, se houvesse justiça no mundo, seríamos os dois executados e não apenas eu. És tão culpada quanto eu sou pela vida que tenho levado. Lembras-te quando roubei e levei para casa a bicicleta de um menino como eu? Tu ajudaste-me a escondê-la, para que o meu pai não descobrisse. Lembras-te quando roubei o dinheiro da carteira do vizinho? Tu foste comigo gastá-lo ao centro comercial que havia mais perto. Lembras-te quando discutiste com o meu pai e ele se foi embora? Ele só queria corrigir-me por ter roubado o exame final do curso, em que acabei por ser expulso.

Mãe, eu era só uma criança. Pouco tempo depois tornei-me um adolescente problemático e agora sou homem muito mal formado. Mãe, eu era uma criança que precisava de correção e não de aprovação. Mas, mesmo assim, perdoo-te, mãe.

Só peço que faças esta carta chegar a todos os pais do mundo, para eles saberem que o que faz todos os homens tornarem-se pessoas de bem ou criminosos, é a educação ou a falta dela” …

Galinheiros, galinhas e outros…

Já não há galinheiros como os de antigamente, onde tudo era natural. Era natural serem barracos improvisados, mal cheirosos, com rede velha e “caca” por todo o lado. Era natural terem galinhas grandes e gordas, a porem ovos quando lhes apetecia e onde lhes apetecia (à vizinha da minha mãe um dia entrou-lhe casa dentro uma galinha que já não via há vários dias, seguida por uma dúzia de pintainhos. Tinha feito um “ninheiro” no monte, atrás da casa, onde foi pondo os ovos que chocou, até nascerem os pintainhos). Era natural comerem do que havia, desde couves, restos de comida, grão de milho partido (o grão inteiro era bem preciso para fazer a broa de milho caseira) e, em especial, minhocas, sementes e outros bichitos. Ora, era natural terem liberdade total. E era natural haver um galo de crista grande na capoeira (era o chefe; o felizardo, invejado pelo típico macho latino que sonha ter um lugar desses, de galo mor, onde possa ser o dono e único senhor da “galinhada e das frangas” … se bem que, em regra, “tem mais olhos que barriga”; servia de despertador da casa, embora cantasse a horas erradas; só tinha como missão “tratar” das galinhas para que os ovos saíssem “galados”, condição essencial para darem pintainhos no caso de serem postos a chocar). Era natural ainda que, ao fim do dia, se metessem os “bicos” na capoeira, bem fechados, para não serem comidos pela raposa ou pelo texugo, que andavam por perto.

Podia-se contar com “o ovo no cu da galinha”? Podia, pois a mulher da casa, para controlar a produção e saber quantos ovos ia ter nesse dia, enfiava o dedo no “tal buraco” e sabia de antemão se tinha ovo ou não. Com isso, evitava que pusessem o ovo em local desconhecido ou que alguém os recolhesse indevidamente. Também eu fiz algumas vezes essa “prospeção anal” com o meu pequeno dedo … Mas ficava uma dúvida na minha cabeça de criança inocente: se os ovos saíam cá para fora pelo mesmo buraco por onde também saíam as cagadelas das galinhas, como é que se formavam os ovos lá dentro? A partir da m. de galinha e de uma forma que eu não entendia? Como é que a m. se transformava em gema e clara? Ou havia algum canal lateral que entroncava no “tubo de esgoto” das galinhas, com sistema de “válvula de passagem” só para deixar sair o ovo? Era estranho. Se fosse num hospital nos dias de hoje, teria de haver um corredor de “sujos” e um outro corredor de “limpos”. Ora, cagadelas de galinha e ovos, teriam de ter “corredores” diferentes e separados. Mas, ali, não tinham.

Naquele tempo as galinhas tinham liberdade. Não sofriam qualquer tipo de pressão psicológica, nem física (para além da exercida pelo galo). Claro que, o seu final, era sempre como protagonista principal do assado no forno e da canja de galinha caseira. Mas essa liberdade acabou e hoje já (quase) não há galinheiros à moda antiga, onde as galinhas gozem de liberdade plena. Pelo contrário. São encafuadas em gaiolas apertadas, aos milhares, onde só comem ração, bebem água com medicação e … poem ovos. Liberdade? Nenhuma. Estão ali para produzir, produzir, produzir, a ritmo alucinante. Só comparável às operárias em linha de fábrica de confeções, confinadas a pequeno espaço. Estas têm a vantagem de lá estarem só oito horas, cinco dias da semana, enquanto as outras estão vinte e quatro sobre vinte e quatro. Bom, as galinhas têm a vantagem de poder olhar para o lado, cacarejar com as outras das gaiolas vizinhas sem que lhes chamem a atenção ou lhes “caia” um palavrão em cima. E não precisam de dar com o cotovelo no contador para marcar mais um ovo produzido. A gaiola está feita de tal forma que, ao cair o ovo, rebola acionando um marcador automático e entra no tapete rolante, que o leva quase até à boca do consumidor. Assim, automaticamente, os donos sabem quem produz e quem já não produz o suficiente para ficar no ativo. Mais ou menos como nas operárias… Só que, as galinhas consideradas improdutivas e inúteis, são produto descartável, vendidas “ao preço da uva mijona” a um qualquer galinheiro que, de porta em porta e nas feiras, as despacha rapidamente “ao preço da chuva”, como petisco em casa de pobre. Já as operárias com poucas “cotoveladas” no contador e daí, com baixa produção, também não deixam de ser “produto descartável”, não abatidas em matadouro, mas ao ativo, passando a integrar as legiões de reformados considerados inúteis ao sistema produtivo vigente, onde só vale quem produz…

Vem-me à memória os galinheiros de casa dos meus pais e da minha avó paterna, onde se “botavam” galinhas a chocar, criando ninhadas atrás de ninhadas. Aí se abrigavam à noite galinhas e galos, frangos e frangas, das intempéries, dos larápios, da raposa e outros animais. Mas não havia separação por sexos, como nos liceus e colégios de outrora e nos aviários de hoje. E tanto a mãe como a avó, conheciam bem cada galinha e davam conta se faltasse alguma. Agora, já não se “botam” galinhas a chocar. Dá trabalho, já não se usa. Compram-se os pintos num aviário, onde são “fabricados” aos milhares, como quem fabrica pás ou parafusos. E, “para adiantar serviço”, mandam-se vir com duas ou três semanas de idade, o que é meio caminho andado para quem tem pressa de ver os frangos criados. Já os ovos, é mais fácil apanhá-los na “ponta” do tal tapete rolante onde as “poedeiras” os largam, que fica precisamente nas estantes dos supermercados…

Se os pintos já nascem em aviários através de processos industriais, os seres humanos vão ter um futuro semelhante, mas muito mais avançado. Passarão a ser gerados só em “humanários”, os “aviários de humanos”, com milhares de “úteros artificiais” onde será possível manipular os genes e escolher as características de cada criança, a gosto.

São só vantagens. As mulheres não terão de “andar a empurrar o mundo para a frente” nem sofrer as dores de parto. E o sexo passa a ser só diversão. As regras serão: produzir somente por encomenda de casais “normais”, de lésbicas, gays ou do ministério da guerra; os “clientes” podem até querer com os seus genes pessoais, fornecendo óvulos e esperma, seus ou de ”um filho da mãe” qualquer; têm direito a escolher o sexo do “filho”; podem ainda selecionar a cor do cabelo e olhos; e até a raça; encomendar as qualidades físicas, se jogador de futebol (e o tipo, Ronaldo ou Messi), atleta de velocidade ou fundo, halterofilista ou remador; optar por cientista, político, banqueiro, militar, ladrão ou pirata (é possível ter várias coisas em simultâneo, como alguns dos “modelos” que já existem no mercado); marcá-lo com um sinal ou verruga, para o identificar à distância ou quando andar perdido; e se o querem parecido com o “papá”…

Mas há um pormenor importante, que vem ao encontro do desejo de muitos pais: a partir do momento que o “filho” for dado como “pronto e parido”, podem decidir quando o querem levar para casa, se vai a tempo inteiro (o que é uma chatice, dá um trabalhão e não se ajusta à liberdade do casal) ou a tempo parcial. A liberdade será tal, que podem mesmo optar por um horário das três às cinco da tarde, ao domingo. SÓ e nada mais. É tempo mais que suficiente para dar a “voltinha dos tristes”, mostrar que têm um filho e que vai ser o futuro “Ronaldo”. Será um sucesso e um orgulho para os “progenitores” …

O verdadeiro perfume de Natal…

Cheira a Natal. Desde Novembro que se sentem os ares natalícios nas alterações da publicidade, nos sons, nas imagens, nas campanhas. Na televisão, em cada dez anúncios seis são muito “bem cheirosos”, pois promovem a venda de perfumes. Mulheres sofisticadas, vestidos arrojados, decotes longos, muito longos mesmo, para que se associe ao perfume a imagem de beleza e sensualidade de corpos jovens e bonitos. O mundo estoira sempre que ela bate com o tacão no chão, como se o perfume fosse um estoiro!!! É tempo de dar prendas e nada melhor que um perfume de marca. Mulheres desmaiam quando ele perfuma o corpo, não sei se pelo perfume se pela parte do corpo onde ele se perfuma. E as marcas competem entre si para ganharem a corrida às vendas através da melhor imagem, da que atrai e leva o espectador a tornar-se comprador. É neste jogo da publicidade que se ganha influência sobre o inconsciente do ser humano e se manipula. E a mulher são mais sensíveis. E eles sabem e aproveitam.

Cheira a Natal. Multiplica-se a publicidade aos chocolates, para um Natal mais doce, mais requintado, mais elegante, como se isso de elegância tivesse alguma coisa a ver com a qualidade do chocolate. “Ambrósio, apetecia-me algo”, é a deixa num deles. E cada um de nós tem de conhecer o requinte de um desejo.

Cheira a Natal. Por todo o lado ouvimos música com sinos e sinetas a repicarem e a perseguir-nos rua acima. E vemos árvores de Natal em plástico produzidas na China, cobertas de luzinhas tão sofisticadas, a piscarem, como se estivessem a piscar-nos o olho. E as iluminações natalícias nas ruas de maior concentração e poder do comércio, num apelo ao “venha comprar aqui as suas prendinhas de Natal”.

Cheira a Natal. Sobram bonecos do “Pai Natal”, como se represente o nosso Natal, como se fosse uma tradição nossa. Não passa de tradição importada da “estranja”, porque tudo o que é importado é que é bom e fixe. Feitos de plástica, madeira ou trapos, de barbas brancas e fatiota vermelha, enchem montras e vendem-se aos montes vindos, como sempre, da China. E até os há por aí, ao vivo e a cores, à entrada das lojas, a dar beijinhos às criancinhas e a tirarem “selfies”, como registo para a história do “espírito natalício” …

Cheira a Natal. E já se fala no peru, como se o peru fosse tradição. Que eu saiba, só se for para apanhar as migalhas debaixo da mesa. Por cá, não é, nem nunca foi. É mais uma, vinda do outro lado do mar. O peru começou a ser consumido nos Estados Unidos no Dia de Ação de Graças. E ali virou tradição. Mas importamos a ideia e tem-se vindo a infiltrar na Ceia de Natal, havendo já quem o ponha a substituir o bacalhau, como se este seja coisa do passado, ultrapassado, fora de moda. E negamos a nossa tradição.

Será que temos mesmo de nos “estrangeirar” para nos sentirmos tão bons como os outros? A riqueza de um povo está na sua cultura, nas suas tradições, na sua língua. E nós tendemos a recusá-las, como se tivéssemos vergonha de falar português, de sermos o que somos. Estamos a negar-nos enquanto povo com história, com passado, que deixou a sua pegada cultural por esse mundo fora e não foram muitos os que o fizeram como nós. E porquê recusarmos ser quem somos? Porquê negar o bacalhau e as rabanadas como nossa tradição natalícia? Porquê, querermos aculturar-nos?

Cheira a Natal. Porque se fala de solidariedade muito mais do que no resto do ano, como se a solidariedade fosse sazonal. E lembram-se os “sem abrigo”, os desprotegidos, os refugiados, os mais idosos, os que não vão ter Natal. Organizam-se almoços solidários, campanhas e angariações, festas e espetáculos, a puxar pelo espírito de Natal ou nele inspirados. É bom, melhor que nada, mas é tão pouco tempo, tão curto o Natal…

Cheira a Natal. Pelos centros comerciais passeia-se a euforia, a pressa de comprar as últimas prendas, muitas vezes perdidos por não saber o que oferecer, de que é que ela gosta ou não poder atender o pedido do filho. Nas últimas semanas antes dessa noite mágica, os centros comerciais são locais de alta concentração humana, não aconselhados a impacientes ou claustrofóbicos. As lojas são um sufoco para quem tem falta de ar, tanto nos pulmões como na carteira.

Cheira a Natal. Prepara-se uma refeição de dez pessoas que daria para um regimento. Como se fosse destinada a engordar porcos para a matança. Não se usa o bom senso, a contenção, a moderação. Natal não tem de ser sinónimo de orgia alimentar, de “enfarta brutos” nem de sobras que ninguém vai conseguir acabar antes do Carnaval. Já sabemos que o caixote do lixo vai esconder muito desses excessos. É o medo de que a comida não chegue, o querer ter um pouco de tudo.

Cheira a Natal. Apesar de tudo, é bom ser Natal. Ao menos lembramo-nos uma vez no ano dos que precisam, se bem que eles precisam o ano todo.

Cheira a Natal. Nessa noite de amor, junta-se a família à volta da mesa e em comunhão, quase sempre a única reunião do ano. Só por isso, o Natal já é um milagre. E apesar das derivas de uns e outros, das birras em partilhas e zangas de comadres, o Natal é o ponto de encontro, a resposta ao toque a reunir, o regresso a casa patrocinado por Ele.

Cheira a Natal. Mas esquecemos o essencial: o Protagonista do presépio e a sua mensagem. Perdidos no espetáculo comercial que montamos à volta do Natal, já nem sabemos verdadeiramente o que ele significa, o que é importante e o que representa. O Menino Jesus foi esquecido, ignorado, escondido entre as palhinhas da manjedoura. Até o presépio passou a ser palco de todo o tipo de figuras e figurões, numa miscelânea de épocas e desencontros de história, que remetem para segundo plano a essência do presépio e a figura do Menino. Já nem sabemos o porquê do Natal, perdidos no acessório. Não vamos encontrar nas caixas das prendas o espírito natalício, mas somente no nosso coração. Ao menos paremos para descobrir como a nossa vida é abençoada com a família e os amigos que temos.

Cheira a Natal. Saibamos ser capazes de secundarizar o folclore das prendas e dos gastos, para nos focarmos na Festa do Nascimento de Cristo e no seu significado. Porque é o momento de nos renovarmos, de recuperarmos o espírito da mensagem natalícia.

E então, sim. Sentiremos o verdadeiro perfume do Natal…

Afinal, nada adianta. Está tudo na cara…

O doutor Abílio Moreira foi meu médico e professor. Graças a ele, fiquei com o gosto pela matemática. Era bom médico, um excelente professor, um excecional ser humano e dele guardo muitas e boas recordações. Já com idade avançada, quando lhe dizia “o senhor doutor está com bom aspeto”, dava-me uma daquelas respostas que tinha sempre na ponta da língua e que lhe eram tão características: “Se eu sofresse do aspeto”!!!…

Ontem disseram-me que “eu estava com má cara”. Fiquei a pensar no que diria o doutor Abílio. Provavelmente, levantaria a dúvida se “estava com má cara” ou se “era mal encarado”. Ora, tendo em conta o que me disseram, coloquei-me diante do espelho para verificar se levava a cara que costumo usar no dia a dia ou se era emprestada por alguém com “má cara”. É que, normalmente, ando com “cara que se veja”. No entanto, não posso negar que passei mais de um ano sem falar com ninguém, sem dizer uma única palavra. É verdade, mais de um ano!!! Isso, sim, pode ser preocupante ou querer dizer alguma coisa…  Aconteceu durante o meu primeiro ano e tal de vida…

Há coisas que ouço algumas vezes e me deixam intrigado: “Estás com cara de caso”. Será que os “casos” têm cara para que a minha seja comparada à deles? Nunca conheci nenhum “caso”, melhor, nunca conheci nenhum “caso” com cara. Se ouvir dizer que “o Afonso teve um caso com a Miquelina”, qual é a cara do “caso”? Do Afonso e da Miquelina posso conhecer, mas do “caso” não, não lido com ele. Os advogados sim, tratam de casos, mas também não me parece que lhes conheçam a cara…

Diz-se que “o mal e o bem à cara vem”. Provavelmente, deve ser por isso que algumas vezes ficamos com “cara de parvos” diante de algo que nos deixa surpreendidos. Ou mesmo com “cara de burro quando foge”, apesar de não ser fácil ver a cara de um burro a fugir… Só não concordo quando me dizem mesmo, que “tenho cara de burro”. Não concordo, nem gosto. E, por mais que me olhe ao espelho, não vejo aquelas orelhas grandes e espetadas, nem sequer o característico focinho de burro.

No entanto, recordo-me que um “amigo da onça” me disse uma vez que “me ia partir o focinho”. Será que nesse dia levava focinho e não sabia? Nem o meu cabelo é assim parecido com o de um burro. Pelo contrário. Uso uma risca larga, muito larga até. E ao meio. O que me dá algum sossego, pois parece que está provado cientificamente, “não haver nenhum burro careca” …

Mas se há coisa que não consigo ver na cara de quem quer que seja, é quando dizem “tens cara de cu”. Miro e remiro e não noto parecenças, embora exista um fator comum: tanto uma como a outra cara, têm bochechas. Duas cada uma. Será daí que veem as semelhanças? Para mim, nem olhando de pernas para o ar… Mas há mais pessoas a ver coisas onde eu não as vejo. Por exemplo, quando conseguem “ler na cara como num livro aberto”. Até posso imaginar ali um livro e ainda admito que esteja aberto. Mas, ler? Não vejo nada escrito na testa ou nas “bochechas”. Como posso ler? No entanto, aceito que haja caras em que me é possível ver coisas, que me permitem tirar conclusões. Quando digo “és a cara do teu pai chapado”, é porque há traços no rosto que me levam a concluir de quem é filho. Isto é motivo para um pai ficar orgulhoso? Em princípio, sim, mas pode tornar-se um problema, se revelar aquilo que se quer manter em segredo…

Quando se tem cara bonita, dizemos que “tens cara que se veja”. No entanto, no caso inverso em que a cara não é nada apelativa, quase sempre para ferir a sensibilidade de quem anda com ela todos os dias, muda-se o discurso para “devias andar com a cara enfiada num saco”. Como se fosse grande feito dizer uma coisa destas “cara a cara”. Quem faz uma afirmação destas, provavelmente “não tem vergonha nenhuma na cara”. Apesar de que, também é caso para se perguntar, como é que se consegue detetar a vergonha na cara? Se eu fosse chamado à polícia para identificar entre meia dúzia de “melros” aqueles que têm ou não vergonha na cara, não conseguia.

Claro que caracterizamos as pessoas muito em função da cara e dos estereótipos. “Aquele tem cara de bom homem” ou então, “aquele tipo tem cara de ladrão”. Mas não passa de um juízo que muitas vezes não passa disso mesmo e não corresponde à realidade. Já não é a mesma coisa quando afirmamos “tens cara de sono”. Só o afirmamos porque o dono boceja com frequência (pode indiciar cansaço) ou precisa de uns palitos para manter os olhos abertos.

Trabalhei numa empresa onde um dos chefes andava sempre de sobrolho franzido, manifestamente com “cara de poucos amigos”. Um colega de trabalho gostava de o catalogar como “cara de pau”, tendo em conta de que era incapaz de um simples sorriso. Dizia-me ele: “É incapaz de sorrir porque a madeira não tem flexibilidade”. Um dia encontramos numa rua de Londres uma mulher vestida com “burka”, aquela roupa em que nem se consegue ver o rosto. Ele aproveitou logo para pôr em causa a minha teoria das caras e perguntou-me: “Como é que consegues ver que lhe está tudo na cara”?

O homem diz da sua mulher: “és muito cara”. Mas também se refere a algumas pessoas: “tens boa cara para apanhar um par de estalos”. E distribui elogios e apupos ao classificá-los com “cara de anjo” ou com “cara de demónio”, se bem que, como dizia um tio meu, “há caras para todos os gostos e feitios”.

Neste mundo de mil caras, dizem os especialistas em linguagem gestual que “está tudo na cara”. Todos nós somos de fácil leitura, pois transportamos para o rosto o bom e o mau, a alegria e a tristeza e, se os olhos são o espelho da alma, a cara é o reflexo das nossas emoções. Está lá tudo. Em muitas ocasiões tentamos encobrir o sentimento, a emoção, usando o sorriso como disfarce. Mas não é eficaz. Apesar do ditado dizer “que quem vê caras não vê corações”, como somos maus atores, continua a “estar lá tudo”. É só uma questão de estarmos bem atentos e saber “ler”. Porque somos humanos.

Afinal, parece que somos mesmo como um livro aberto…

“Acasos” agrícolas. E ainda bem…

Não perca mais tempo a procurar as causas do seu problema. Tem um grande “pneu” à volta da cintura? Anda com barriga de grávida sem o prazer de o ser? São simpáticos consigo quando lhe dizem que está “um pouco forte” em vez de dizerem que está gordo? Tem boa solução para tudo isso e nem precisa de fazer dietas, exercício diário ou tomar aqueles comprimidos para emagrecer que lhe fazem mal aos rins. O remédio é bem mais simples: ponha um adesivo na boca. Não coma tanto. É o seu mal … e o meu. Comer demais é o nosso problema. Não resistir quando nos oferecem mais uma fatia de carne, repetir os rojões ou comer outra fatia de bolo quando devia ter parado há muito ou comer o que ainda está na mesa, só para que não sobre. Por isso, tape a boca com um adesivo largo e deixe ficar só o buraquinho para poder beber líquidos e o “caldo” por uma palhinha (sopa, não, não é a mesma coisa…), e vai ver que, em pouco tempo, estará elegante como nunca esteve. Melhor do que se acompanhado por nutricionista consagrado. Esse, vai querer “negociar” consigo sobre o que deve ou não comer, quando, como e em que doses. Mas não está consigo para lhe evitar as tentações … vai dizer-lhe que tem de comer seis refeições por dia e, nas principais, metade do prato deve estar cheia de legumes. “Verduras, pode e deve comer muitas”. No dia em que o médico (e sobrinho) disse ao meu sogro que tinha de comer muitos legumes, ele respondeu-lhe: “Por este andar, qualquer dia tenho de aprender a pastar”.

Numa região da China onde uma grande percentagem de habitantes ultrapassa os cem anos, quiseram conhecer as razões de tão raro fenómeno. Perguntaram a um velho médico local qual era o segredo para tal longevidade e ele respondeu: “Comer pela metade, fazer exercício pelo dobro e rir pelo triplo”. Ora, como eu quero completar um século de vida e comemorar esse aniversário aqui em casa, com toda a família, incluindo a minha mãe, já comecei a treinar com base na teoria do médico chinês. Agora, só como metade nos dias em que não tenho apetite. É meio caminho andado… Também comecei a fazer exercício a dobrar: sempre que caminho, levo a minha cadela comigo (eu e ela, é exercício duplo). Rir a triplicar é o problema maior pois: Não convivo com palhaços, embora conheça alguns (mas não me fazem rir…). Tenho cócegas, mas não entro em programas onde se coçam uns aos outros. E também não consigo fazer como aquele homem que, sempre que viajava no comboio, ia o tempo todo a dar gargalhadas e, às vezes, desfazia-se a rir. Perguntaram-lhe um dia porque se ria assim e ele respondeu que, para se entreter na viagem, contava anedotas a si mesmo. “E quando se ri mais alto?”, quiseram saber. “Ah, isso é naquelas anedotas que eu ainda não conheço”.

Mas, para ajudar a controlar os “quilitos” que tenho a mais, sigo os conselhos de quem nos manda “pastar”. Se no quintal dos meus pais se cultivava a couve galega, couve nabiça, nabiças, cebolas, alhos, alfaces, tomates, nabos e pepinos, na minha pequena horta de vinte a trinta metros quadrados roubados ao pavimento, já tenho novos vegetais, que são “vendidos” como excelentes para a saúde e bons a diminuir o “pneu”. A Ana Maria inovou a minha horta ao trazer um chuchu. É uma trepadeira que se estende por tudo quanto é sítio. Quando começou a produzir, não o valorizei. Cá em casa usaram-no na sopa, substituindo a batata com vantagens. Produziu bastante. Congelou-se e distribuiu-se por amigos e família. Este ano plantaram-se mais dois pés e, como o tempo foi favorável, treparam pelas estacas, passaram à rede e chegaram às árvores. Havia chuchus por todo o lado. Quis saber como o consumir e fiquei surpreendido: excelente vegetal com baixo teor de calorias, rico em água, em fibra dietética, vitaminas, minerais e antioxidantes. Ideal para quem quer perder peso. E eu quero. Usei em diversos pratos e, para além da sopa, está aprovado em todos os assados, substituindo muito bem a batata no todo ou em parte. Vale a pena. E a produção deste ano? Uma loucura. Comemos, congelamos, distribuímos e ainda tenho seis caixas cheias, para além dos que estão por colher. Em tão poucos pés, colhi quase quinhentos quilos… Sem tratamentos, sem cuidados especiais.

Além do chuchu, também a salsa, o espinafre e o “tomate cereja” me tomaram conta de todos os bocados de terreno. Até nos vasos, entre as flores. E, mais ou menos na mesma ocasião, deu-se cá outro acaso. Nasceu no “quintal” uma planta desconhecida, que viria a tornar-se um belo arbusto. Floriu e as flores deram lugar a pequenos “balões” que, ao amadurecerem, pareciam miniaturas de “balões de S. João”. Lá dentro, um pequeno fruto alaranjado, muito semelhante a um tomate. Chama-se “Physalis”, que em português se diz “fisalis”, também conhecido por “tomate de capucho” ou “saco de bode”. Já vira estes “balões” à venda no supermercado, sempre metidos em embalagem de plástico e a preço pouco convidativo, a tal ponto que nunca ganhei coragem para experimentar. É considerado um dos frutos mais completos, sendo muito rico em vitaminas, proteínas e minerais. É ainda considerada uma planta medicinal para diversos fins (interessante para diabéticos). Atrás da primeira planta, muitas outras têm nascido, não requerendo cuidados. Fiquei cliente e recomendo.

Tanto o “chuchu” como o “fisalis” foram dois “acasos” felizes, pois têm contribuído, tanto para a minha sanidade alimentar como até económica. Não dão trabalho, não exigem cuidados especiais, se bem que se tornaram especiais para mim. Com tais “ajudas”, até me sinto obrigado a acabar com o “pneu”.

Como previa o meu sogro, já aprendi a “pastar”. Só me falta pôr o tal adesivo largo na boca, com o buraquinho para a palhinha. E sugar o caldo com chuchu…

Fui ao bruxo, para conhecer o futuro

Há dias acordei ansioso, querendo conhecer o que nos está reservado para o futuro. Não para conhecer antecipadamente os números do euromilhões, algo em que “ninguém está interessado”, mas somente aquelas coisas que são parte da nossa vida comum, como saber onde guardar o dinheiro (se é que ainda existe dinheiro e algum local seguro…), quem vai ser o campeão nacional (e não importa de quê) ou até onde vai a seleção portuguesa no próximo mundial, agora que carrega o “fardo” de ser campeã da Europa. Mas, a adivinhação tem muito que se lhe diga e só está acessível a cartomantes, astrólogos e bruxos. Ora, como não sou nem uma coisa nem outra (tanto quanto sei…), como “não tenho morada aberta” nem quaisquer “ligações ao além”, apesar de tentar fazer algumas previsões, “ainda não dei uma para a caixa”, nem sequer numa rifa foleira.

Tendo sido criado num tempo em que, desses três “dotados” com tais “dons”, só havia bruxos, achei por bem recorrer aos serviços de um, até porque segui o velho dito popular de que “não acredito em bruxas mas, que as há, há”. Confrontei-me logo com um problema: Como nunca fui um “utilizador” deste tipo de “ajudas”, tive de perguntar a pessoas que recorrem a elas com certa regularidade, gente essa bem “informada”.

Outrora, ouvia falar no “bruxo de Figueiras” e no “bruxo de Fafe”, mas não sei sequer se ainda “veem” o futuro ou se estão na reforma e já são coisa do “passado”. Daí o meu pedido de informação aos “clientes habituais”, com cartão de assiduidade e direito a pontos, como nos supermercados. Ora, isto não é tão fácil como eu pensava. Para me darem a informação correta, quiseram saber o que é que eu verdadeiramente pretendia. Perguntaram-me se andava à procura de “amor”. Se fosse o caso, tinham uma “receita caseira”, um método simples de bruxaria sem ter de ir ao bruxo (tal como os remédios que prescrevemos uns aos outros, como se fossemos médicos…), que implicava incenso de rosas, pétalas de rosas a decorar um altar, uma fita cor de rosa, a imagem de Vénus, papel e caneta. “Não, não é nada disso”, disse em tom firme. Então, o que eu pretendia era “rogar uma praga” ou fazer “um mau olhado” a alguém? Para não arranjar mais confusões, tive de os informar que somente queria saber “umas coisas” sobre o futuro.

Foi assim que acabaram por me “recomendar” um bruxo que vive isolado e muito longe, suficientemente longe para me dissuadir de ir lá apresentar qualquer reclamação no caso das suas previsões “saírem furadas”, inclusive de pedir a devolução do valor cobrado. Marcaram-me “consulta” e lá fui eu satisfazer esta necessidade que sentia em mim, acabando por sair satisfeito com o “serviço” que me prestou, apesar de se fazer pagar antes e bem.

Esta coisa de “ir ao bruxo”, apesar de já não ser o que era, é algo que se faz, mas que não se confessa. Não faltava mais nada. Olha se o povo soubesse que aquele fulano vai ao bruxo? Seria motivo de cochichos e conversas de esquina. Mas, na verdade, há muito mais gente do que pensamos a recorrer aos seus serviços. É que, diz-se, quem precisa recorre a tudo. Na doença, começa-se pelo médico, depois o endireita (agora medicinas alternativas), além da “mulher com morada aberta” e, esgotadas as opções sem que o mal esteja resolvido, alguém sugere a cartomante, o astrólogo e o bruxo, para não falar no espiritismo. E, por fim, o exorcista. E não se diga que quem lá vai não tem formação cultural nem condição económica. Puro engano. Vão lá de todas as condições sociais, unidos por um fator comum: Todos carregam um problema para resolver. Dinheiro, negócio, saúde física e psíquica, amor, conflitos com alguém, são os motivos mais comuns para quem procura o bruxo (e eu nem sou bruxo).

Ora, como as “previsões” da minha ida virtual ao bruxo podem ser do interesse dos leitores, não quero deixar de as partilhar neste jornal, para os manter a par de informações de tão doutos visionários. Recomendo que a sua leitura deve ser feita na companhia de outras pessoas porque as revelações poderão “chocar” os espíritos mais sensíveis. Vá lá, chame a vizinha e deem a mão, mas não se aproveite para “apertar” com ela. Assim, vamos às previsões:

“Tanto o Tondela como o Arouca, não serão campeões esta época”. Ora, uma previsão deste tipo é realmente chocante para os habitantes das duas cidades.

“Não há corrupção em Portugal”. O homem vai acertar na “mucha”… Todos os processos contra cidadãos que, por acaso, e só mesmo por acaso, passaram a ter uma vida muito boa de repente, vão cair de maduros. Isto só vem provar o que eles afirmam: São inocentes e até vítimas do zelo da polícia e de juízes invejosos, que gostariam de ganhar tanto como eles, sem ter de se esfalfar a julgar montanhas de processos. Não têm culpa de ganhar tanta “massa” com facilidade. Saibamos “aprender” com eles, pois são “autênticos profissionais” …

“Neste mês de Dezembro, há Natal”. Não conseguiu prever com exatidão o dia pois, no momento em que o ia fazer, deu um espirro monumental e fiquei sem saber se foi provocado pelo frio ou por alguma alergia ao pó que se acumulava em cima da mesa…

“Os portugueses vão ter um futuro mais amargo”. Que visão. Será que foi por isso (previsão) que o governo “azedou” os impostos sobre o açúcar e produtos açucarados?

“Quem gastar mais do que ganha, tem de ir às poupanças ou fica a dever”. Ora, nesta é que eu não acredito, nem nenhum português. Porque, o que nos andaram a dizer nas últimas quatro décadas, foi precisamente o contrário: “Gastem, como se não houvesse amanhã”.   

Quando contei a um amigo que tinha ido ao bruxo, a sua primeira reação foi: “E ele acertou”? Respondi instintivamente: “Se acertou… Foi mesmo em cheio!!! Antes de fazer as previsões, disse-me: -Passe-me cento e cinco euros da consulta. Ora, como é que ele sabia que era precisamente o dinheiro que eu tinha no bolso”???