Carro novo ou velho? A pé, é pior…

O mecânico não conseguia descobrir a origem daquele ruído anormal que se ouvia na parte inferior do automóvel. Para tentar identificá-la, decidiu levar o carro à estrada nacional, em direção a Sequeiros. E lá foi pela estrada, acelerando e travando ou fazendo-o passar em pisos mais ou menos irregulares, até que parou junto à berma. Então, com o motor a trabalhar e a porta aberta, deitou-se debaixo da traseira do automóvel, porque lhe pareceu que o tal barulho incomodativo vinha dali. E, quando se encontrava deitado na estrada a tentar identificar a chave do problema, viu o carro arrancar de repente e a sair-lhe de cima, deixando-o “com cara de parvo” e os olhos postos no céu, sem saber o que se estava a passar. “Só pode ser brincadeira de algum amigo”, pensou com os seus botões. E ficou à espera que o autor da partida voltasse para o gozar. Mas ninguém apareceu nem mandou recado. O carro “voara” mesmo nas suas barbas e ele ficou apeado, tendo de regressar a pé à oficina para contar o insólito… E não deixava de pensar no sucedido e como é que o acaso o havia feito parar precisamente junto do ladrão, deixando-lhe a porta aberta e o motor a trabalhar, facilitando a vida do “artista” que não vira e só podia estar ali por coincidência. Que raio de coincidência … O carro até podia ter um barulho, mas era melhor do que ter de andar a pé.

Velho ou novo, o automóvel é “ferramenta” indispensável de trabalho e lazer a que nos habituamos ou, quando não, estamos dependentes. E são mais que muitas as peripécias bizarras que acontecem a quem usa (e abusa) deste tipo de veículo. Eu próprio tenho algumas dessas histórias com estas “sucatas ambulantes” que sobrevalorizamos para além do que o bom senso recomendaria. A esse propósito, lembro-me de uma frase de autor brasileiro desconhecido, que diz tudo: “Eu me achava lindo. Agora que tenho um automóvel, tenho a certeza disso”. Eram onze e meia da manhã de um lindo dia de sol. Vindo do hospital de Lousada, quis ir ao escritório que tenho no centro da vila. Quando vi um lugar de estacionamento livre, apesar de ser do lado esquerdo da rua, aparquei. Com calma, saí para o passeio com as chaves na mão e, quando ia fechar a porta, ouvi atrás de mim uma voz autoritária: “As chaves”. Parei o movimento e olhei de lado. Tinha uma “shotgun” (caçadeira de canos serrados) encostada à cabeça, mas apontada ao céu, empunhada por um encapuzado. Pensando ser brincadeira ou garotice, esqueci o “pistolão” e olhei de novo para a minha carrinha. Vi então um carro parado no meio da rua ao lado do meu e, com a mão na porta do outro lado da carrinha, um segundo assaltante de cara tapada. “Pum”, ouvi um tiro junto ao ouvido, que ficou a zoar. O “meu vizinho” queria apressar-me e voltou a repetir: “As chaves” … Virei-me com as chaves na mão. Ele agarrou-as e ainda com a porta aberta, atirou-se para dentro da carrinha, enquanto do outro lado entrava o assaltante que estava à espera. O terceiro ladrão, condutor do outro carro, arrancou e logo atrás dele a minha carrinha. Fiquei ali “plantado” no passeio, como que a sair de um sonho e a pensar: “Roubaram-me a carrinha”. Não cheguei a ter medo, nem sequer tive tempo de apanhar um susto. Apareceu alguém que vira a cena duma varanda muito preocupado, mas agradeci e disse-lhe que estava bem, só não tinha a viatura. Depois, tranquilamente fui para o escritório. Só contei a história ao meu filho e à Teresa ao fim de alguns minutos. O Luís levou-me ao posto da GNR para participar a ocorrência e segui para casa. Era hora de almoço. Ao terminar, telefonou-me um amigo: “O meu empregado acaba de me contar que lhe roubaram a carrinha. Ora, estou a ir para o Porto. Entrei agora na autoestrada e, logo na primeira subida à saída de Paredes, está uma carrinha na berma. A matrícula da sua não começa por SI”, perguntou ele? Quinze minutos depois parava junto dela. Estava intacta, mas não andava. No esforço da fuga, depois de roubarem outro carro em Paredes, deram-lhe cabo da junta de colaça e abandonaram-na. A avaria veio na hora certa. O ditado “há males que vêm por bem” não podia ter melhor aplicação … Ou então, teria de ser mais um a andar a pé …

Mas não é só por nos roubarem o carro que ficamos apeados. Há mais formas. A noiva do meu amigo Guilherme vivia num apartamento em Gaia, na rua que vai direita à estação das Devesas. A noite já caíra e o Guilherme estava sentado dentro do carro à espera dela, encostado ao passeio e com a estação das Devesas nas suas costas. E, como é habitual nas senhoras, já passara quase uma hora sem que ela desse sinal de vida. Para ocupar o tempo e tentar conter a impaciência, o meu amigo travava e destravava o carro, acendia e apagava os faróis e mexia na alavanca de velocidades. Já farto de tanto esperar, saiu do carro e foi tocar à campainha da porta de entrada do prédio. Atendeu a mãe dela: “Já não demora”. O Guilherme virou-se para o automóvel e ficou de boca aberta: “Desapareceu”. Sem um bater de portas, sem o barulho do motor a trabalhar e sem acelerações, o carro esfumara-se. Incrédulo, olhou rua acima e abanou a cabeça. Por ali, não. Tinha de ser para o outro lado. Então, correu rua abaixo até encontrar um dos poucos transeuntes àquela hora e perguntou-lhe se vira o seu Toyota. Nada. Continuou a correr feito tolo em direção à estação. Ao dobrar a curva da estrada, viu três homens a segurá-lo e a perguntarem: “De quem é este carro? De quem é”? Descobriu depois que, ao mexer no travão e na alavanca de velocidades, acabou por deixar o carro destravado e desengatado. Quando saiu e foi tocar à campainha do prédio, como a rua tem certa inclinação em direção à estação, o carro começou a andar lentamente em marcha atrás e, como que conduzido por mão invisível, foi junto ao passeio e fez mesmo a curva ligeira antes de chegar à estação. Os três homens estavam ali parados a conversar e aperceberam-se do movimento do carro em marcha atrás, até darem conta de que não tinha condutor. Foi assim que decidiram evitar que fosse embater na estação, travando o avanço até o fazer parar. E logo a seguir chegou o Guilherme, que assim se livrou de ter de andar a pé …

Real ou ficcionado, narrador anónimo conta a sua história: “Pela primeira vez na vida, na semana passada, fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal e participei das práticas e orações dos presentes. De repente, o Pastor aproximou-se do lugar onde eu estava. Olhou-me fixamente e apontou-me o dedo. Piedosamente, ajoelhei-me e ele colocou as mãos na minha cabeça e clamou em voz alta: – Você vai caminhar! Eu, respondi-lhe baixinho: – Mas, eu não tenho nenhum problema de locomoção. Ele ignorou a minha resposta e, quase gritando, voltou a exclamar: – Irmão, você vai caminhar! Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a bradar: – Você vai caminhar! Mais uma vez, tentei explicar que não tinha problema com meus membros inferiores, mas foi em vão… Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu: -Você vai caminhar! Enquanto a Assembleia, em transe, gritava ainda mais forte: – Irmão, você vai caminhar! Optei por me calar e não dizer mais nada… Quando o ato acabou, deixei a Assembleia e, acreditem ou não, o maldito Pastor tinha razão: TINHAM-ME ROUBADO O CARRO!!!”

Ora cá está mais um que teve de “ir à pata” para casa. Por isso, com carro velho ou novo, sempre é melhor do que andar a pé …

Mês de Maio, mês de “peregrinações”…

Enquanto esperava sentado no carro que chegasse a hora da reunião, dei comigo a observar para lá das montras de uma loja de vestidos de noiva e comunhões numa tarde soalheira. Foi quando vi entrar três mulheres e uma criança que me pareceram ser mãe, filhas e neta, com um objetivo: arranjar o vestido para a comunhão da mais nova. Pela idade, seria a comunhão solene. Através dos vidros pude então ver o desfilar de alguns “vestidos de noiva” em ponto pequeno, provocando sorrisos ou acenos discordantes com a cabeça durante mais de uma hora, até eu ter de me retirar de cena. É cada vez mais assim nestes meses de comunhões (primeira e solene), com toda a excitação que isso provoca, principalmente entre as progenitoras das crianças que entram na cerimónia. É um ato solene na vida da criança que está em causa? Nada disso. O que está em jogo é a “competição” entre as mulheres da terra. O resto, é o motivo …

Nalgumas paróquias da região os padres conseguiram impor uma veste comum para todas as crianças, evitando dessa maneira que a “competição” pelo melhor vestido e melhor fato – e mais caro – se estendesse a elas. Foi a forma encontrada para travar desvarios, evitar gastos supérfluos e retirar as pequenas estrelas da cerimónia ao “circo de vaidades” – o “acessório” – focando-as no essencial – a cerimónia. Mas em muitas outras, apesar das tentativas do pároco local, não foi possível chegar a consenso com os pais das crianças (melhor dizendo, com as mães…) que exigiram liberdade de escolha na vestimenta. A vaidade colocada no pedestal, acima do bom senso… A “peregrinação” com a mãe levando a reboque a criança e mais uma mulher da família (os homens, se forem na “procissão”, só são uteis como motoristas. De resto, não lhes é permitido emitir opinião ou, se o fazem, é por mera formalidade pois não conta para nada…), começa cedo e consome algumas tardes. Em cada dia visitam duas ou três casas da especialidade e já é preciso andar depressa porque, entrar numa loja, dizer ao que vão e virar o stock de alto a baixo à procura “daquele modelo especial e único”, não é coisa fácil. Num dia, correm as lojas de Penafiel, Lousada e Longra e noutro, uma casa de Lordelo, outra em Paredes e a estilista da Lixa. Para o Porto, uma tarde nunca é suficiente. E a criança veste e despe modelo atrás de modelo, num ataque continuado à paciência. É preciso gostar do vestido ou fato e poucos são os que condicionam o preço. Por um vestido dito modelo único (provavelmente repetido inúmeras vezes!), paga-se sempre de seiscentos euros para cima, conforme o número de lantejoulas e mais ou menos enfeites. Mas não se pode poupar numa competição destas senão, “fica-se mal na fotografia”. Ao fim de alguns dias, a veste para a criança está escolhida, ficando pendente dos ajustes finais. Mas a tal “peregrinação” continua até se encontrar vestido para a mãe e a avó, que em regra só serve para este tipo de cerimónias. E os vestidos para as outras mulheres da família? Isto não é fácil. São mais umas quantas tardes no “põe e tira” até descobrir o vestido certo, aquele que “cai a matar”.

Na aldeia o padre reuniu com os pais para preparar os pormenores da comunhão e dar algumas indicações. Entre outras recomendações, com algum cuidado por saber o “terreno” que pisava, apelou ao bom senso e contenção nas vestes, tanto das crianças como dos familiares. Enquanto falava com as mães, algumas cochichavam entre si dando a entender que não era para levar a sério pois a “competição” estava acesa e a maioria já tinha concluído a “peregrinação”, que é como quem diz, já havia comprado as “toilettes”. Era corrida que não tinha retorno e o “recado” viera a destempo. Nem elas estavam para aí viradas …

E há mais uma escolha. Quando a mulher diz ao marido que tem de comprar um fato, a resposta é a do costume: “Mas eu tenho o armário cheio de roupa” … “Pois tens”, diz-lhe ela, “mas já foi usada noutras cerimónias”. E ele não tem outro remédio senão deixar que ela lhe compre “qualquer coisa”, porque é ela quem escolhe. Daí que, entre arranjar roupa para a criança, pai, mãe e avós, é tarefa gigantesca que implica dias e dias de “peregrinação” pelas casas da especialidade, já para não falar no calçado, acessórios, almoço na Quinta da moda e tudo o mais. Nessa procura, por vezes frenética, encontram-se outras pessoas com problemas comuns, gente “solidária no sofrimento”.

Com a neta (que vai comungar) já “despachada”, depois de mais de uma semanada de “peregrinação” pelas lojas da região, mãe e filha voltaram à “capelinha” por onde já haviam passado para comprar novo vestido, porque o que a mãe havia adquirido “não era o tal”. Enquanto reviam as opções, entrou um casal de meia idade. A mulher começou logo a percorrer a loja revirando o stock, “à caça” do modelo de vestido ideal. Ele, cansado de servir de ama seca, perguntou: “Oh mulher, será que é desta vez que encontras alguma coisa”? E ela, que já repetia a passagem por aquela loja, resmungou com ar de “poucos amigos”: “Vamos ver, vamos ver” … Mãe e filha sorriram em sinal de solidariedade e ele aproveitou a deixa: “A senhora está-se a rir? Nem imagina o que já corri com ela. Olhe que até a Fafe fomos. Estivemos em Guimarães, em Felgueiras, em Lousada, Longra, Porto e sei lá bem que mais”. A esposa interrompeu-o para dizer: “É que eu sou a mãe do noivo” … Ele não a deixou continuar e cortou: “E eu sou o pai e não demorei nada disto a arranjar fato”. A senhora, com simpatia, tentou acalmá-lo: “O senhor tem de compreender que estas coisas não são simples”. Agastado, ele desabafou: “Isto não há homem que aguente. Ando para aqui feito Boby. “Oh Boby para aqui. Oh Boby para ali”. E não encontra nada!!! Como é possível”?

A vaidade é natural e desejável enquanto reforço da autoestima e gera competição salutar, desde que não vire obsessão. Quem pensa que a preocupação das mulheres com o seu visual tem como objetivo encantar o olhar dos homens, está enganado. Porque ao homem basta que a mulher use peças que realcem os “predicados naturais” e nem sequer repara se sapato combina com cinto, se o vestido já foi usado noutro evento. O que verdadeiramente atormenta mulher é a opinião das outras. Porque elas sabem que o mundo feminino é um circo de feras, de olhar atento para condenar vestidos imperfeitos e errados, sapatos mal escolhidos, maquilhagens desastrosas e outros deslizes da concorrência. E as comunhões, tal como os casamentos, batizados e outros atos religiosos ou não, são “palco” onde o olhar inquisidor e crítico das outras está em alerta total e perante o qual todas querem passar incólumes. Isso faz com que a procura normal de um simples vestido vire obsessão, fazendo dela uma autêntica “peregrinação” sem ser a local sagrado ou de devoção, mas esperando encontrar o “tal”, capaz de fazer o “milagre” e merecer a aprovação, ao enfrentar esse “tribunal implacável” que é a opinião feminina local …

É mais fácil dizer-lo, que fazê-lo…

Foi um sábado louco. Meti na cabeça que tinha de completar alguns trabalhos de “jornaleiro” cá em casa e só parei quando começava a anoitecer. E, para quem tem o “chassi” empenado, “ferrugem” nas dobradiças e o “motor” a gripar, qualquer esforço suplementar pode ser demasiado para a máquina. Mas, vá que não vá, aguentou-se bem e deu conta do que lhe foi pedido. Mas eu explico: como tanta gente, tenho uma moradia construída há mais de quarenta anos. Tem quase a idade da nossa democracia. E jardim à volta, algum com bastante inclinação. Havia o quintal, mas tive de fazer dele um pequeno campo de jogos no tempo em que os meus filhos queriam jogar. E não foi um tempo muito longo. Passou depressa, como lhes passou a vontade de jogar. Uma parte do jardim tornou-se autêntico bosque com árvores frondosas, algumas com a idade da casa. No ano passado mandei abater umas quantas para a casa poder apanhar sol e deixar de ter cá dentro um ambiente húmido. Não satisfeito com isso, este ano pedi a um amigo ajuda para me cortar dois carvalhos e um castanheiro mas, ao contrário do ano transato, fiquei com os toros e lenha espalhados pelo campo de jogos, que passou a ter alguma utilidade. E para quê? Para fazer cavacos e lenha miúda picada, tudo destinado à minha mãe e à salamandra que lhe faz companhia no inverno. Foi a pensar nos “trabalhos” em que me estava a meter, que ela me ofereceu a prenda ideal: uma motosserra. Ora, ao receber tal oferta, o “compromisso” de lhe fornecer material combustível ficou implícito. Como praticamente só ao fim de semana é que me vinha dedicando à tarefa de fazer dos “roletes” cavacos, isso já se arrastava ao longo do último mês. Daí que neste sábado disse cá para os meus botões: “hoje vou ter de arrumar com este assunto”. De manhã dei uma volta mais aligeirada com a Becas e, mal cheguei a casa, comecei a empreitada.

De motosserra e machado na mão, fui-me aos últimos “roletes”, os mais difíceis por terem “nocas”. E só parei quando estavam feitos em bocados. Depois, foi acabar a rima de cavacos, onde já só chegava com escada, fazer outra com a lenha miúda, arrumar e despachar todo o lixo que fiz e, finalmente, lavar o campo de jogos com água à pressão. Enfim, a tarefa estava concluída … pensava eu. A noite caía quando fui tomar banho, satisfeito pelo “dever cumprido”.

Dormi bem nessa noite, apesar de me doerem todos os ossos e músculos (é nestes momentos que me dou conta que temos muitos), mas no dia seguinte acordei para a realidade: ainda tinha muito trabalho a fazer pois o jardim da encosta tem ervas com quase um metro de altura, é preciso cortar a relva noutra parte, tratar dos tomateiros e alfaces plantados há poucos dias e umas quantas coisas mais que, bem vistas as coisas, nunca mais têm fim.

Ora, esta é a sina de quem tem um pedaço de terra ao redor da casa e não gosta de o ver a monte. É a sina e a desdita. Enquanto se tem força de vontade e energia, é um prazer enorme e a coisa bem vai. Mas, quando a “máquina” geme ao mínimo esforço, o prazer vira maldição e vemo-nos confrontados com o dilema de ter um pedaço de terra, de que gostamos, e a incapacidade de cuidar dele conforme deve ser, e que é sacrifício. Quantas pessoas não há por aí que não conseguem ver o seu “quintal” por cultivar ou o jardim descuidado? E, para que isso não aconteça, vão-se arrastando atrás da enxada, da tesoura de poda ou da máquina de cortar relva (e um relvado dá muito trabalho), a querer “evitar o inevitável”, porque ninguém vai ficar a “morar” cá eternamente, só para tratar dessas questões. É fácil dizermos a alguém que já não pode cuidar da horta ou das vides, algo como: “Deixe ficar a monte e não se rale mais com isso”. É muito fácil mesmo. Difícil é a esse alguém, que cuidou do seu cantinho durante uma vida inteira, deixar de o fazer. “Fica mal. O que vão pensar de mim os vizinhos”, diz o dono. “Não consigo ir ao terreno e vê-lo a monte. Era uma vergonha” …

O senhor Manuel já comemorara os seus noventa anos de idade há alguns meses, quando o médico o proibiu de fazer esforços e de se incomodar. “O coração está preso por um fio”, disse-lhe o doutor. “Não puxe por ele, que pode partir-se a qualquer momento”. Mas, quem é que conseguia convencê-lo a deixar de pegar na enxada e tirar as ervas que nasciam no meio da horta? Os filhos, casados e com as suas vidas organizadas, já só lá iam ao fim de semana … se a vida o permitisse. E não cultivavam terreno … nem sabiam. Por isso, não valia a pena contar com eles. Só podia contar consigo pois, por eles, o terreno ficaria votado ao abandono. “Era o que faltava”, dizia ele. Normalmente, essas pessoas que estão “agarradas” ao seu canto, conquistaram-no a pulso e com muito sacrifício. E, como lhes custou tanto, dele tiraram sempre tudo o que era possível, quase sempre em trabalhos para além da hora laboral e ao fim de semana, rendimento extra para compor o orçamento familiar, não traduzido em dinheiro, mas em hortaliças, vinho ou fruta. E no prazer de colher e saber o que se está a comer …    

Não tenho pretensões de ser como o senhor Manuel e a minha horta é coisa pequena … mas dá que fazer. Pior é o jardim. Também sou dos que não gostam de os ver descuidados, mas prometo a mim mesmo não ficar “apanhado do clima” se os vir votados ao abandono.

É tão fácil de dizer. Só não sei se o vou conseguir fazer …

Não há maior prova de amor…

A função do sono é, sem dúvida, repor as energias do corpo. É como se lá entrasse uma equipa de limpeza e manutenção para despejar o caixote do lixo das toxinas, reparar tecidos, fazer descansar os órgãos e filtrar os acontecimentos do dia. Alfred Vogel dizia que “o sono é o remédio do qual não podemos abdicar” e é por isso que andamos um terço da vida a dormir. Eu tenho de “aterrar” seis a oito horas por noite, caso contrário, ando por aí com “um melão na cabeça”, a abrir a boca como se fosse anormal. Já o nosso presidente Marcelo só dorme metade, tal como Napoleão e Margaret Tatcher. Para quem dorme tão pouco, a tarefa de recuperação fica difícil. E, das duas uma: ou a sua “equipa de manutenção” é mais numerosa ou trabalha de empreitada. Mas, dormir nem sempre é sinal de descanso, de recuperação da energia perdida. Quantas vezes não dormimos um número de horas tido como mais que suficiente e acordamos ainda mais cansados? Foi o que me aconteceu esta noite. De manhã estava tão cansado e com o corpo tão dorido, que mais parecia ter dormido a noite dentro da máquina de lavar roupa, aos trambolhões.

Por norma, depois de deitar a Luísa ainda fico pela sala até ela “pegar o sono”. Aproveito para ler, escrever ou ver se há algum filme de ação na televisão porque, como ela não aprecia, só tenho essa ocasião para ver. Se houver, deito-me tarde. E há uma boa razão para a deixar adormecer antes de me deitar: quero poupá-la ao sacrifício e tortura do meu “ressonar”, com que já sofreu quanto baste.

Sei que não sou caso único nem sequer o maior “roncador”, pois quase um quarto da população “toca trombone” à noite, se bem que a maioria não tem essa perceção (nem quer ter). Entre todos eles, há os que afirmam a pés juntos que não ressonam, ainda que não saibam se sim ou não. Depois, existe o grupo dos que admitem ressonar “ligeiramente” nos dias em que estão muito cansados ou quando “enfardaram” um jantar mais pesado. São as desculpas esfarrapadas do costume. Segue-se um grande grupo que ressona muito, mas não considera que isso seja um problema (para eles, não é). E, finalmente, os que têm consciência plena de que são “excelentes roncadores”, a tal ponto que se chegam a acordar a si próprios. Já passei por essa fase, mas agora estou mais contido, com “registo” suave. A Luísa já dorme bem … se adormecer antes de mim.

O ressonar (ronco) é um fenômeno natural, mas pouco agradável, que não é exclusivo dos humanos (a minha cadela Diana brindava-nos frequentemente com algumas “sinfonias caninas” …). Classifico os “roncos” em função da intensidade, começando pelos “sopradores”. Não são mais que respirações profundas tipo “vendaval” ou “bufo”, como quem está a soprar ao lume. Depois vêm os “diplomatas”. São roncos sem nível sonoro elevado e de registo variável. Incomodam, mas parece que não. Seguem-se os “motoqueiros”, pois o ruído que sai da boca dos “roncadores” mais parece o trabalhar de uma moto Harley Davidson em momento de aceleração. O barulho produzido passa a porta e chega ao quarto vizinho. Por fim, os “grunhidores”. Devem ter alguma costela de suíno pois o som produzido através da boca é uma boa imitação do GRRRRRR, GRRRRRR do porco, com os lábios a tremer tipo BRRRRRRRR. Às vezes misturam estes sons com bufos fortes, num GRRRRRR, GRRRRRR — FUUU, FUUU. O ronco atravessa a porta, chega à sala, faz ricochete e inunda a cozinha e tudo fica a vibrar. E então, se estiverem a dormir “de papo para o ar”, o aparelho sonoro vibra no máximo, fazendo o som ecoar pela casa toda, qual terramoto…

Ressonar pode perturbar tanto o sono de quem ronca quanto o da pessoa que dorme ao lado. De tal forma afeta o parceiro(a), que é a terceira causa de divórcio. Ora, só quem passa pela experiência pode avaliar da tortura que pode ser querer dormir ao lado de alguém com esse problema. A situação mais traumatizante que vivi colocou-me um roncador no outro canto do quarto onde dormia. Mal ele pôs a cabeça na almofada, adormeceu de imediato, sem me dar tempo a “passar para o lado de lá” e começou a “grunhir” com tal vigor, que já não consegui adormecer. Fiquei para ali de cabeça enfiada debaixo dos lençóis, coberta com a almofada, na tentativa de atenuar aquele som tenebroso no silêncio da noite. Já a hora ia adiantada e eu sem pregar olho, quando me lembrei duma situação que a Luísa viveu na viagem de comboio de Lisboa para o Porto. Um dos passageiros adormeceu e começou a ressonar, incomodando as outras pessoas. Uma jovem que viajava na mesma carruagem, levou o caso para a brincadeira e disse: “eu calo-o já”. Meteu os dedos à boca, sacou um assobio forte e o roncador calou-se logo. Mas, pouco depois, voltou a ressonar. E a moça assobiou de novo e continuou a assobiar ao longo da viagem, enquanto os outros passageiros se divertiam com a situação. Foi assim que naquele enorme quarto, a meio da noite, dei comigo a assobiar. E ele calou-se … mas voltou ao mesmo de seguida. Dei mais duas ou três assobiadelas e, não sei se foi por ele deixar de roncar ou se foi do cansaço, adormeci. Pensando bem, há uma certa analogia entre os humanos e os perus: ao ouvir um assobio, se nós estivermos a ressonar, calamo-nos. Os perus, sempre que ouvem o assobio, fazem em coro, “Glu, Glu, Glu … Glu, Glu, Glu”.

Outra forma de calar o parceiro(a) que dorme connosco é usando a técnica da cotovelada. Sempre que ele(a) ressone, aplique-lhe uma cotovelada. O roncador para e, normalmente, procura outra posição. Pode não resolver à primeira, mas ao fim de algumas cotoveladas, acaba por encontrar posição que não o obriga a “cantar”. Ou então está a evitar receber mais cotoveladas. Senhora amiga diz que “o cala a pontapé”. Aproveitem. Ao que parece, resulta…

Em conversa entre amigos, questionava-se qual é a maior prova de amor que alguém pode dar ao parceiro(a). Um dizia que é fazer uma declaração pública, de joelho no chão, oferecendo o anel de noivado. Outra, achava que seria ser surpreendida com uma viagem ao destino dos seus sonhos. Um terceiro entendia que o máximo, era um fim de semana romântico em casa, sem mais ninguém, com ele a levar-lhe o pequeno almoço à cama. Por fim, o homem mais velho, confessou o seu pecado: “A maior prova de amor é-me dada pela minha mulher todas as noites”. Os outros olharam para ele e ficaram à espera, para ver o que iria sair dali. E ele continuou: “O mais natural seria que ela, logo na primeira noite passada comigo e ainda antes de amanhecer, fizesse as malas e “se pusesse na alheta”, para não mais regressar. Porque deve ser um sacrifício terrível tentar dormir junto de mim. É que eu … ressono como um porco”.

Reencarnar como mulher? Não…

Falava-se sobre as vantagens e inconvenientes de ser homem ou mulher e, apesar de estarem três mulheres cá em casa e eu ser o único do sexo oposto, no meio da conversa assumi uma vontade: se um dia vier a reencarnar e puder escolher, não quero ser mulher. Claro que tive de me haver contra a argumentação da “oposição”, o que não foi nada fácil pois, como se sabe, é difícil combater a sua dialética. Nada tenho contra as mulheres. Pelo contrário. Devo até confirmar que continuo a gostar muito do sexo oposto e não alinho em modernices nem “mudo de clube”. É um gosto para a vida. Para debate tão desequilibrado tive de usar argumentação forte, mas não as convenci. Reafirmaram que querem voltar como mulheres. Quem sou eu para as contrariar…

As mulheres acham-se sonhadoras, vaidosas, apaixonadas, bonitas e meigas. Muitíssimo mais do que nós. Fica-lhes bem defender a classe. Deve ser por isso que “enfeitam” carros nas exposições ou aparecem sempre que há promoção de chocolates, perfumes e outras coisas doces e bem cheirosas… E nós? Somos feios, brutos, desarrumados, forretas e chatos, e passamos a maior parte do tempo a pensar em sexo (como sendo obsessão masculina). Eu sei que a sociedade é mais tolerante com elas, talvez por serem tidas como o sexo fraco. Começa por lhes facilitar a vida ao terem sempre alguém que lhes abre a porta, as deixa passar à frente e até paga as contas, um “encargo” que fica ao nosso cuidado. Veja-se que, quando são traídas, o homem é um canalha, mas se o traído for o homem, é promovido a “corno” enquanto “o diabo esfrega um olho”. Ou seja, o homem é sempre o mau da fita, o bode expiatório, seja culpado ou inocente…

Eu gosto de ser homem porque entendo um jogo de futebol e não faço perguntas estúpidas como “o que faz aquele senhor vestido de preto com apito na boca”. Além disso, três pares de sapatos são mais do que suficientes para viver sem stress e nem tenho de experimentar vinte peças de roupa na loja para comprar só uma … ou nenhuma. E, além disso, para fazer uma viagem de cinco dias só preciso de levar uma mochila… se for sozinho. Se acompanhado da mulher, não sei se três malas grandes serão suficientes… Às vezes penso que devem levar nas malas alguma mobília de casa…

A conduzir, deteto quando um pneu está furado e sei como trocá-lo, sem que isso seja um drama nem tenha de telefonar à minha mulher para o vir substituir. O que já fiz muitas vezes, por não ser problema, coisa que por regra não fazem, pois é “um problema”. Aliás, não deixa de ser curioso que os homens são muito breves a falar ao telefone e estacionam num espaço pequeno. E a mulher? Precisa de falar muito tempo, uma necessidade inata, e de muito espaço para estacionar, uma dificuldade inata.

Não me gostava de ver como mulher, porque são complicadas. Muito complicadas mesmo. Em casa, sofrem do complexo da limpeza, que cada coisa tem um lugar e uma posição única que não pode desviar-se um milímetro sequer. E, na verdade, estão sempre a “descobrir” que “a jarra não está no sítio dela”, a toalha não está bem dobrada e mal posicionada no toalheiro e o culpado é o homem. Deve ser um martírio sofrer desta “doença” … Para nós, “está tudo bem” e “não se passa nada”. Quando saem, têm de controlar e esmiuçar o mundo à sua volta, especialmente “as outras”. Como vestem, o que calçam, se estão gordas (satisfação) ou magras (inveja). Deve ser um trabalho cansativo.

E como são mordazes com os “machos”, ao afirmarem que, ser virgem, só é defeito nos homens… ou então, ao insinuarem que

“os meus filhos, tenho a certeza que são meus, mas o meu marido não pode dizer o mesmo” …

Nós somos muito simples, diretos e práticos. Tomo banho em cinco minutos, o único creme meu na casa de banho é o de barbear (entre tanta frascaria) e não preciso de me maquilhar para sair à rua. Aos trinta anos ainda era solteiro e não andava preocupado com isso nem ninguém se importava. Mas mulher de trinta anos já é tia, solteirona e ninguém a atura. E todos ligam, olham e importam… Saio de casa de mãos nos bolsos, sem nada. Mulher não consegue sair à rua sem levar a sacola às costas, com tanta tralha que mais parece uma oficina de reparações ambulante. Ah, e ninguém fica a olhar para o meu decote enquanto conversamos. Mulher pode dizer o mesmo? Não creio…

Elas já se dizem satisfeitas por não precisarem de rapar os pelos da cara todos os dias. Ora, nós andamos muitíssimo mais agradados pois não precisamos de rapar os pelos … da cara para baixo, que é muito mais doloroso. Aliás, não gostamos de fazer sacrifícios em nome da beleza. Daí colocarmos uma grande distância entre cera quente e as partes íntimas… e nem temos complexos que nos obriguem a ter de fazer reduções ou aumentos de algumas partes sensuais do corpo…

Reencarnar em mulher dá-me pavor. Só o facto de pensar que viria com a obsessão da limpeza, das dietas, de que ninguém reparava em mim quando corto o cabelo ou uso um vestido novo e ter de pedir desculpa por estar tudo desarrumado sempre que alguém vai lá a casa, fico com os cabelos em pé. Como se homem se preocupe com isso. E acham que resolvem tudo com choro. É a estratégia crónica para conseguir o seu objetivo, ao tocarem a sensibilidade do homem. Depois, dizem que eles são brutos e insensíveis… Algo não bate certo.

Em sua defesa disseram que, quando forem velhinhas, serão vovós simpáticas e elegantes, em contraste connosco, que não passaremos de velhos tarados e chatos. Já nem questiono estes argumentos de desespero, porque são elas que têm problema com cabelos brancos e rugas (que para nós são charme). E com tampas de sanita…

A mulher é complexa, difícil de entender. Para ter sexo é preciso levá-la a jantar fora, oferecer-lhe flores, ir ao cinema ou dançar, levá-la às compras, dar-lhe uma prenda, elogiá-la, mimá-la, referir o penteado novo, a elegância do vestido, sussurrar-lhe ao ouvido e mil e uma coisas mais. Já o homem, só precisa … de um sítio.

E há o estatuto. Quando nos referimos à humanidade, “o homem” é a referência. Podem dizer-me que isso é fruto da sociedade machista em que vivemos, mas não tenham ilusões. A sociedade foi machista (e muito), ainda o é e, quando um dia reencarnar, vai continuar a sê-lo. Provavelmente, ainda mais. Deixem que os islamitas sejam maioria na Europa (quem sabe, em Portugal) e não é preciso esperar muito… Até por isso. Se reencarnar, quero voltar “macho”.

Mas, para concluir, uma preocupação séria: desde a minha infância, em que a mulher era marcadamente secundarizada, verificaram-se avanços notáveis da nossa sociedade no caminho da igualdade de direitos, embora ainda longe de ser atingida. Não sei quanto tempo mais será preciso para tal acontecer, se é que chegará a acontecer. É necessário um esforço continuado e, mesmo assim, em qualquer momento desse percurso tudo pode ser revertido e “voltar à estaca zero”. Já aconteceu noutras sociedades, vai voltar a acontecer e nós não somos diferentes nem estaremos imunes…

Esperar, sim. Mas há limites…

Embora ninguém goste, esperar faz parte da vida. Todos esperamos de várias formas e em mil e um momentos. E, quase sempre, não gostamos. Estamos sempre à espera de alguma coisa: de um filho, uma oportunidade, um amor, uma decisão, um emprego, um sim, um negócio. Esperamos numa fila, uma chamada, resolver algo que nos atormenta, uma cirurgia. Há coisas simples de espera curta e outras mais complexas e demoradas. Se há esperas cujo fim depende de fatores aleatórios, outras estão balizadas nos seus limites, do que é razoável ou não. Quando um hospital público informa que consultas de especialidade estão com mais de cinco anos de espera ou nos fala um governante em “mil dias de espera”, algo não faz sentido e passa além dos limites. Ou é uma forma de reduzir os números da lista de espera, porque muitos já lá não chegarão. Esperar desgasta e cansa. E espera-se meses e anos por licença de construção, cirurgia, justiça…

Ao esperar por ideias para esta crónica, recordei a anedota sobre a mãe brasileira que estava com o filho à espera de ser consultado. A funcionária dos serviços de saúde aproximou-se e perguntou-lhe: “Desculpe, quem é que vai ter consulta, a senhora ou o seu filho”? E ela, de imediato, respondeu: “O meu filho”. A funcionária retorquiu: “Pois então, tem de ir com ele para o serviço de pediatria, destinado às crianças. Aqui, as consultas são só para adultos”. Sem manifestar intenção de sair, aquela mãe disse à funcionária: “Eu sei. Mas, como as consultas estão com tanto atraso, quando o meu filho for atendido já será adulto com toda a certeza. Por isso, estou no lugar certo” …

Diria que somos um país “bipolar”: se nalgumas áreas de atividade estamos na linha da frente a nível mundial e não ficamos a dever nada a ninguém, temos outras onde, pelo contrário, somos parecidos aos países do terceiro mundo. É excelente recebermos galardões de melhor destino para viajar e ver as ruas “inundadas” de turistas e negócio, com alguns até a mudar os “trapinhos” para cá. Mas alguém tem de fazer alguma coisa a sério e acabar com os “atrasos de vida” de que, quem cá mora, padece. Porque o Estado “que nos vende” a teoria de que é preciso aumentar a produtividade, é o principal “pedregulho no caminho” para a alcançar. E por incrível que pareça, há serviços públicos em Portugal que nos fazem esperar tanto ou mais do que a senhora da anedota. Verdade!!! Porém, na anedota, ela estava mentalizada para esperar enquanto nós, crentes de que isto aqui não é o país do Carnaval, não acreditamos que seja possível “apanhar uma seca” de todo o tamanho.

Seria errado generalizar o disfuncionamento dos serviços públicos porque alguns são excelentes, eficientes, onde respeitam os cidadãos e os seus direitos. Mas outros há … que Deus me livre.

A Luísa precisou de uma junta médica. Entre o momento em que me dirigi ao serviço competente para o efeito e o da sua realização, só decorreram quase … nove meses. Não foi uma gravidez, mas mais pareceu. Só para conseguir o relatório médico do hospital onde fora internada a quando do episódio de urgência, esperamos mais de três meses. Não sei se o problema é da falta de meios ou da organização. Eventualmente, das duas. Certo é que, com esta “pressa”, há quem já não venha a precisar …

Nalguns Serviços, esperar é a sina de todo o bom cidadão, num (mau) exemplo de como não deveríamos ser tratados. Mas somos. Visto de cócoras, a “culpa” é do sistema educativo que nunca nos “preparou” nem ensinou a esperar eternamente, a “sofrer com resignação” sem revolta nem espírito de “reclamante suicida”. Nem sequer nos treinou a fazer meditação: enquanto “ausentes da realidade”, não sofríamos o suplício da espera…

O Estado, através da EP-Estradas de Portugal, S. A., expropriou uma parcela de terreno para a construção da autoestrada. É normal e nada tenho a opor. Mas, já lá vão TREZE anos e ainda não recebemos um cêntimo. Nada. Razões? As do costume. Como não concordamos com os valores propostos porque, além do terreno expropriado também havia lugar à indemnização pela desvalorização da parcela restante, recorremos à justiça, que nos deu razão. Mas, como para pagar o que importa é “quanto mais tarde, melhor”, a EP-Estradas de Portugal, S. A. recorreu para a Relação. E perdeu. E continuaram a não pagar. O dinheiro não abunda nos cofres públicos e é preciso “empurrar com a barriga para a frente”. E recorreram para o Supremo. Contra o que é habitual, o Supremo disse que a desvalorização da parcela é assunto… do Tribunal Administrativo. Tudo isto ao fim de TREZE anos. E nós, para receber aquilo a que temos direito, tivemos de apresentar a ação no Administrativo. A segunda fase da “via sacra”. Quando contei o sucedido a um advogado amigo, perguntou-me: “está preparado para esperar outros tantos anos ou mais? O último caso que tive nesse tribunal só demorou… dezoito anos”. Fiz logo as contas de cabeça: juntando os TREZE anos que já esperamos a mais DEZOITO anos que podemos ter de esperar, é uma espera louca, digna de candidatura ao Guiness. Consegue ser superior à espera da senhora brasileira da anedota. Não dá só para o filho ficar adulto. Dá até para fazer um, criá-lo, educá-lo e deixar que ele nos dê um neto. E para envelhecer e “bater a bota”.

A justiça só é proveitosa a cidadãos e empresas se for executada em tempo útil. Caso contrário, pode chegar quando já não faz falta nenhuma. Ou, como diz o povo, “quando chegar a palha, já o burro está morto”. Que me importa uma sentença favorável se, quando for decidida, eu tiver “cansado de esperar” ou nem sequer já andar por cá para usufruir dela? Repito: há serviços públicos exemplares, mas outros há que são como “estrada sem fim”, fazendo cair o labéu da burocracia, da ineficácia e uma imagem de país de terceiro mundo sobre toda a administração pública. Injustamente. Porque se “toma o todo pela parte”, generalizando-se. E não é correto.

Senhora amiga sofre de cancro e está a fazer quimioterapia. Como se lhe não bastasse o sofrimento e o turbilhão de incertezas que carrega dentro de si, para marcar uma consulta, obter a baixa médica a que tem direito e outras coisas mais, tem ouvido “passe amanhã”, “venha para a semana”, “só no próximo mês” e outras piores, aguentando a espera em silêncio. Não é justo. Para cúmulo, nas últimas sessões de tratamento de quimioterapia, traumatizantes e nada fáceis, chegou a esperar horas já no local onde ia ser feito, porque “a sua medicação ainda não chegou”. Se calhar, descobriram agora que a espera cura o cancro! Que se faça esperar o cidadão que está saudável, vá que não vá. Ele já conta com isso e podia estranhar se o não fizessem. Mas, pelo menos, haja respeito pelos que estão em sofrimento extremo, porque “esse”, já lhes é mais que suficiente…        

O dinheiro e as tretas do costume…

Dizem que “o dinheiro não dá felicidade”, mas ainda não encontrei ninguém que não queira experimentar. Até já me disseram que, “se não dá felicidade, pelo menos paga tudo do que ela gosta”. Há quem diga que “essa história de que o dinheiro não dá felicidade é um boato espalhado pelos ricos, para que os pobres não tenham muita inveja deles”. Se calhar, é. Se virmos bem, não é mais feliz aquele que tem 100 milhões de euros do que o que só tem … 99 milhões. Certo é que, se “o reino dos céus é regido pela justiça este reino onde temos os pés se rege pelo dinheiro”. Quem negar esta evidência ou está a mentir ou a enterrar a cabeça na areia para não ver a realidade. Ter dinheiro, é bom, dá confiança e tranquilidade. Problema é de quem não o tem. Alguns estudiosos, que provavelmente não têm mais nada que fazer, para medir a influência do dinheiro no grau de felicidade e depois de muitos inquéritos, chegaram à conclusão que setenta e sete mil euros por ano é a quantia mínima para atingir a satisfação que garante a felicidade. Já com quarenta e nove a sessenta e um mil euros anuais, só se consegue obter “o bem estar emocional”. Não vi no estudo nada sobre os que ganham pouco. Não contam. Por estas estatísticas, em Portugal há pouca gente feliz. Afinal, isto confirma que é preciso algum dinheiro para a gente se sentir minimamente bem. Não propriamente por ele, mas por aquilo que proporciona.

Sempre tive uma relação de amor/ódio com o “vil metal”, estando bastante empenhado em conseguir o necessário para viver, mas sem ser seu escravo nem viver só para ele. Há muito mais vida para além do dinheiro… Mas cedo comecei a aproveitá-lo bem ao ser pago pela presença nos chamados “atos únicos”: Funerais. Quando integrava a “cruzada”, recebia uma “coroa” (cinco tostões). Em cerimónia triste, para nós, miúdos de então, era uma alegria. Uma coroa!!! Punha logo a minha a “render”, “investindo” na loja do Tio Peixoto na compra de rebuçados com cromos de jogadores de futebol. Mas, para atingir a “felicidade suprema” (completar a caderneta), precisava de muitos funerais, como quem diz, muitas “coroas” … Em Coimbra fiz trabalho de “mercenário” aos colegas mais endinheirados e nada empenhados no estudo, a troco de dinheiro, apesar de algumas “borlas” a colegas mais “lisos” do que eu. E quando entrei na vida profissional, saltei de uma situação para outra na procura de melhores condições e … mais dinheiro.

Para a sociedade, dinheiro significa poder, aceitação social, conforto e segurança. Muito dinheiro dá estatuto, prestígio e prazer. Torna o cretino inteligente, o escroque homem sério e o estúpido esperto. E, sem se perceber porquê, até o feio vira bonito e o covarde herói. Pelo dinheiro se mata, se engana, ludibria, mente e trai. O que importa é consegui-lo. O como, não interessa. Com o dinheiro compra-se o pão, o azeite, as batatas e o bacalhau, tal como se compra a bicicleta o carro ou o avião. E também se compra gente de todas as profissões e estratos sociais, de porteiros a políticos, de dirigentes a servidores. “Se é fácil dobrar uma nota de quinhentos euros, um monte delas dobra qualquer um”.

Na cidade de Cabedelo, no Brasil, houve golpe no baú do dinheiro da prefeitura. De onze vereadores, cinco foram presos e outros cinco “afastados”. Sobrou um e nem se sabe bem porquê. Perguntam os

Munícipes: “Cadê o Dinheiro Que Tava Aqui”? Como de costume, ninguém sabe. Mas sabe-se que dinheiro é tentação e facilmente corrompe. A vontade de ganhar muito e depressa vence preconceitos e princípios, faz esquecer valores em troca de outro valor palpável.

O meu chefe, que também era deputado na Assembleia da República, dizia-me muitas vezes: “Todo o homem tem um preço. Eu só ainda não sei qual é o meu”.

Óscar Wilde foi um escritor irlandês, mestre do sarcasmo e da ironia. Escreveu: “Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza”. Ele deve ter percebido que, quem tem dinheiro, tem muitos amigos. Ou, melhor, comensais. É o mesmo que juntar amigo com dinheiro emprestado: é razão para perder os dois. Daí não ser a melhor atitude emprestar dinheiro. Mais vale dá-lo. Quando se dá, faz-se um ingrato. Mas, ao emprestar, arranja-se um inimigo.

O dinheiro é o motor da economia, mas não tem “cartão de cidadão”, identidade, nem responsabilidades legais pelos problemas que nós geramos. Cabe-nos a nós a responsabilidade de o conseguir, de saber como, quanto e de que forma. E, sobretudo, de o saber usar. Porque não é rico quem ganha muito, mas quem muito poupa. Com alguma ponta de inveja, um amigo falava-me de uma pessoa que tem vindo a acumular património à custa de muito trabalho e sacrifício, como se fosse caso único. Tive de lhe “lembrar” que podia ter um património ainda maior do que o outro, pois ganhara muito mais dinheiro que ele, não fosse tê-lo “derretido” em jogo, mulheres e carros, a ilusão normal do dinheiro fácil. E o problema, é que se transmite aos filhos o hábito do consumismo desenfreado e irresponsável, dando-lhes a ideia que o dinheiro cai das árvores sempre que se precisa, bastando um pequeno abanão, que é como quem diz, “oh pai, dá-me dinheiro”. E o pai dá, sem conta, peso e medida. São erros que nós pagamos, são lições erradas que as gerações seguintes sempre vão pagar.

O dinheiro é um ditador que tanto faz apelo ao trabalho, à força de vontade, à dedicação, ao sacrifício, à persistência e a tantos atributos positivos do ser humano, como aos mais baixos instintos, levando a que não se olhe a meios para atingir um único fim: ter dinheiro, até muito dinheiro ou talvez muito, muito dinheiro. Como se o acumular dinheiro seja o fim em si, o objetivo e não um meio para…

Nos cemitérios, encontramos jazigos onde se perpetua a memória dos que ali estão sepultados, com epitáfios diversos, lembrança dos entes queridos. Nesta corrida infernal pelo dinheiro, só me falta ver num desses jazigos: “Aqui jaz o homem mais rico do cemitério”.

Mas, com a competição feroz que há, é título que se pode perder a qualquer momento…

Esta mania de “meter o bedelho onde não se é chamado”…

Os dois automóveis chegaram quase em simultâneo vindos de lados opostos e, ao encontrarem-se em pleno cruzamento, pararam já que cada um queria virar à esquerda, cortando a linha de trânsito do outro. De repente, como que impelidos por um comando único, arrancaram ao mesmo tempo e chocaram de frente. O estrondo foi grande, alguns os estragos e espectadores… nenhum. Só os dois condutores “viram” o acidente. Com o barulho da colisão o dono do café próximo e os poucos clientes, movidos pela curiosidade, saíram a correr para ver o que se passara, rodeando os carros sinistrados. De dentro de um deles, muito combalido, saiu um homem de idade enquanto no interior do outro a jovem condutora deitava as mãos à cabeça incrédula. Logo a seguir, dois automobilistas encostaram à berma e pararam, ao verem que havia acidente. E juntaram-se “à festa”, querendo saber o que acontecera. Instalou-se uma grande confusão quando a mulher de meia idade que saíra de um dos carros apontou o automóvel da jovem sinistrada e acusou: “Aquela é que foi a culpada, porque não parou no cruzamento” … Mas não ficou sem resposta, pois o rapaz de cabelo encaracolado encostado ao carro da adolescente, saiu em sua defesa: “Você não vê que foi ele que não lhe deu passagem”? Quase todas os que iam passando, de carro ou a pé, paravam e juntavam-se ao grupo, fazendo engrossar a multidão ao redor dos sinistrados: “O que foi que aconteceu”? “De onde vinha”? “Quem foi o culpado”? “É alguém conhecido”? “Para onde ia”? E, umas vezes devagar, outras vezes “de cabeça”, entravam na conversa, quando não na discussão, em que cada um já contava a sua própria versão do acidente e tomava partido por um dos sinistrados, como se tivesse presenciado e fosse testemunha ocular do acidente.

Somos assim. Faz parte da natureza humana este desejo mórbido de “meter o bedelho onde não somos chamados”, de espiolhar a vida dos outros. Daí o sucesso do “Big Brother” e outros programas que tais. Porque queremos saber dos podres dos outros (talvez para esquecer os nossos). Nos acidentes, não só queremos estar informados do que aconteceu, como aconteceu e porque aconteceu, ainda que ninguém nos consiga elucidar. E até tomamos partido e tendemos a inclinar-nos a favor de um dos lados, como quando vemos um jogo de futebol em que não conhecemos nenhuma das equipas. Ao fim de poucos minutos, estamos a desejar que ganhe uma delas, seja pela cor das camisolas, pela cara de um jogador, por uma ou outra atitude que nos tocou. É difícil ficar neutro.

Também num acidente onde se chegou atrasado, normalmente toma-se partido e tantas vezes sem saber qual a razão. E depois de “colher a informação completa”, as pessoas vão-se embora e replicam a história do acidente com muitos outros “acidentes” à mistura, transformando um pequeno sinistro neutro e vulgar, numa história com enredo próprio de guião de filme. E ao fim de contarem a história do acidente uma dúzia de vezes, cada vez mais alterada, resulta em algo como: “Conheces aquela senhora de cabelo ruivo, comprido e liso, que anda a passear todas as manhãs na rua com um cão pequenino e que tem uma tia velhota a viver por cima da senhora Miquelina, que mora ao lado daquele senhor doente que anda sempre a tossir, pai daquela solteirona de cabelo preto? Ora, a prima dela, que trabalhou na casa de roupa de criança que fica perto dos Bombeiros e agora faz limpeza na loja da esquina, casada com um homem grande e barrigudo que tem um Mercedes preto, entrou no cruzamento da sapataria sem dar sinal, bateu com a frente ao de leve num Skoda azul que vinha da esquerda conduzido por um coxo que é primo daquela boazona que está naquela loja de roupa …”

Num acidente, o grande perigo de que temos de nos precaver vem dos mirones. Param de qualquer maneira, sujeitos a provocar ou ser vítimas de alguém que não consiga parar a tempo. Porque, ao ver um acidente qualquer, mesmo que já lá esteja alguém a dar assistência, a curiosidade manda parar para saber o que aconteceu. Fazemos disso questão de honra para depois contar aos amigos em primeira mão, como se tivéssemos assistido ao acidente em lugar privilegiado e sejamos o “juiz” mais habilitado para contar, comentar, julgar e condenar o culpado.

O meu amigo Zé teve um acidente. Em conversa afável o condutor da outra viatura deu-se como culpado e aceitou o acordo amigável. Tudo estava bem até ao momento em que os “mirones” entraram em cena. Tomaram partido e fizeram com que o culpado “desse o dito pelo não dito” e se recusasse a assinar a declaração amigável que acordara. Com a interferência dos mirones alheios ao ocorrido, foram parar a tribunal e … perderam os dois. O habitual… Como se não bastasse, ao parar para satisfazer a curiosidade inata ao comum dos portugueses, também se tem de tomar posição e defender convicções de culpado ou inocente, mesmo sem ter visto nada.

É este voluntarismo ingénuo e espontâneo que nos caracteriza, onde em regra se põe o coração e não a razão, que nos torna especiais. E nos permite comentar sem ver, criticar sem conhecer e julgar sem saber. O curioso é que, anos mais tarde, quando já ninguém se lembra do que aconteceu nem como aconteceu, alguns destes mirones ou outros que nem sequer o foram, são arrolados como “testemunhas isentas e sérias” por um daqueles sinistrados, para jurarem a pés juntos e pela saúde da sua rica mãe”, que viram o acidente, relatando-o com pormenores de romance policial e fazendo inclinar a balança para o lado da “injustiça”, sem que nada lhes pese na consciência. E até se compreende, porque só pode acontecer a quem a tem …

Por favor, não “inferem” a Becas…

A raiva é uma infeção provocada por um vírus e transmite-se através do contacto da saliva, por mordedura. Foi erradicada em Portugal há muito tempo, mas como precaução, a vacina é obrigatória para cães com mais de três meses de idade. E a Becas, a minha nova cadelita, está vacinada e protegida. No entanto, tenho andado preocupado, muito preocupado mesmo, porque corre sérios riscos de poder vir a ser infetada com uma nova “variante” desse vírus mortal e não sei como protegê-la. O novo “vírus” tem-se espalhado a uma velocidade incrível, maior do que a dos incêndios do verão passado no centro do país, tornando-se já uma epidemia que o Ministério da Saúde deve reconhecer a qualquer momento. E o meu grande receio é que um dos infetados apanhe a Becas distraída e lhe pregue uma mordidela “à falsa fé”.

O problema é grave e todos os dias podemos ver gente infetada com o novo “vírus”. Basta assistir a qualquer programa de televisão sobre futebol e ouvir comentadores “isentos”, para ver as manifestações da “doença,” em convulsões violentas. Arreganhando os dentes de forma agressiva, “infetam” todos os que não estão imunes às “mordeduras”, transmitindo o “vírus” pessoa a pessoa, em contágio sucessivo, dos cafés ao emprego, das tertúlias aos tascos. Os dirigentes inflamam os adeptos e estes as redes sociais, onde vertem o “vírus”, convencidos de que são opinião avalizada e não sectária, disseminando a doença de forma avassaladora. E são tantos os “infetados” que, nesse jogo da bola, “mordem” com violência, sem já se aperceberem que o fazem. Como se fosse natural.

Mas, se passarmos do futebol à política, as manifestações de “raiva” são mais que muitas, porque não são admitidas opiniões contrárias. Há que denegrir os adversários, atingi-los na sua vida pública ou pessoal com tudo o que há de pior, “mordendo” de qualquer jeito e em qualquer sítio para tentar abatê-los e diminuir a concorrência. E “ataca-se” com a estratégia da “alcateia”, em grupos organizados, não se limitando a “morder” só os inimigos externos, de outros “credos”, mas também os próprios companheiros de grupo que possam ser um estorvo para as suas ambições pessoais. Da Assembleia da República às Assembleias Municipais, dos Congressos partidários aos comícios, a doença está disseminada. Ouvi-los e vê-los, é assistir ao contágio do “vírus” em direto e a cores, nalguns casos na forma mais “virulenta”. E infetam legiões de seguidores, que o reproduzem com mais ou menos intensidade, num “efeito bola de neve”.

É por isso que não deixo a Becas ver televisão, ler jornais ou ouvir rádio. Muito menos entrar nas redes sociais e ler opiniões inflamadas e agressivas, ofensivas da boa educação. São “mordeduras” graves e muito contagiosas, que a podem “infetar”. E sei que a “raiva” pode degenerar em ódio, um derivado ainda mais perigoso e fatal porque atrai a vingança, num círculo de “ferro e fogo” que não para.

Os acessos de “raiva” não são um exclusivo do mundo do futebol, da política e das redes sociais. Nada disso. A “infeção” já alastrou a toda a sociedade e é visível em manifestações mais ou menos públicas. Algumas delas são feitas às escondidas, com o “raivoso” a “morder pela calada”, atrás do anonimato cobarde e mesquinho.

Um amigo, dirigente conceituado de uma instituição social à qual dedicou parte da sua vida, desabafou comigo, triste e revoltado, por ter recebido uma carta anónima onde o acusavam de vários absurdos inimagináveis. Estava chocado com tanta maldade e mentira, que só tinha um pensamento: demitir-se. Ele, que dera uma boa parte da sua vida à instituição como voluntário, era vítima da “raiva” vertida por um “covarde”, que só o queria destruir. Quando li a carta, não reagi e ele, ansioso, perguntou-me: “Não achas revoltante? Porque é que eu tenho de aturar isto”? Vou-me embora e não quero ouvir falar mais na Instituição” … Não foi fácil, mas consegui acalmá-lo. Mas ainda o ouvi: “Eu pensava que dediquei a minha vida a cuidar de desgraçados e, afinal, o desgraçado sou eu”. Tive então de lhe dizer umas quantas coisas a que ele estava alheio. É que, nem sequer sabia que as cartas anónimas viraram praga e os dirigentes das IPSS são os mais visados. Usa-se e abusa-se desse meio para, a coberto do anonimato, denegrir, vilipendiar e tentar manchar a reputação de gente séria que dá o seu melhor ao serviço dos outros. A vez dele chegara, como chegara a de tantos outros. E vai continuar.

A delação dos informadores no tempo da PIDE era criticada e hoje a lei alimenta e protege os “bufos” que condenava no tempo da ditadura. O que não deixa de ser curioso… E disse-lhe ainda que eu também já tive o “privilégio” de receber umas quantas cartas anónimas enquanto dirigente da instituição a que presido. Para mim, são um bom indicador. Se não as tivesse recebido, era sinal de que era “um banana”, “um gajo porreiro”, mas que não zelara pelos interesses da Instituição. Já me acusaram de bater nos idosos do Lar, de os roubar, dar-lhes fome e outras mentiras mais que mirabolantes, que só uma mente em delírio seria capaz de inventar. E até enviaram cópias ao Presidente da República, Polícia Judiciária, Segurança Social e outras entidades.

Preocupado? Nada, nem sequer um pouco. Estou de consciência tranquila, tal como os restantes dirigentes da Instituição. Com esta autoridade moral, participamos ao Ministério Público e informamos a Segurança Social porque, “quem não deve não teme”. Há que alertar as autoridades para o perigo de mentes “raivosas” à solta. E temos de proteger os calcanhares…  Por isso, o meu amigo só podia sentir-se ofendido por ter recebido uma única carta anónima. Já tinha estatuto para ter mais no currículo…

Cartas anónimas são habituais quando a Instituição está bem e é ano de eleições. Porque, quando está mal, ninguém lhe pega. Carregam a “raiva” e, ao mesmo tempo, a cobardia dos seus autores, incapazes de denunciarem os factos (se os tiverem) nos locais próprios e de cara destapada, como gente de bem. Que não são. Ao ouvirem relatos de ilícitos numa ou outra instituição, “medem todos pela mesma bitola” e julgam os outros em função daquilo que eles próprios são.

Se os “acessos de raiva” que vemos na televisão e redes sociais são o sintoma triste e deprimente de que parte da sociedade é intolerante e doente, as cartas anónimas são reveladoras de gente com “raiva” e incapaz de se assumir, o que a torna mais perigosa para a Becas. É que, jovem e ingénua como é, pode deixar-se “morder pelas costas” por “cão raivoso que não dá a cara”. Por isso, vou ter de protegê-la com a única vacina que conheço ser eficaz contra esse perigo: “Uma consciência perfeitamente tranquila” …

Pelo sim, pelo não, árvores abaixo…

Ando muito atarefado e já quase não tenho tempo para escrever a crónica da semana. E isso traz-me uma preocupação: a possibilidade de ser despedido pelo diretor do jornal e ficar sem emprego. E sem ordenado… A razão principal está nas árvores do meu jardim e no malfadado decreto de limpeza das florestas. Não tenho uma floresta à volta de casa, mas tenho árvores que se tocavam umas às outras e cuja copa estava perto de casas, a começar pela minha. Como sou burro e não sei interpretar a lei, ao que parece tal como os seus autores, pelo sim pelo não achei que era melhor deitar abaixo a maior parte das árvores que plantei já lá vão quarenta anos, com muito amor e carinho. Algumas têm troncos que não consigo abraçar. É a forma de me ver livre de autoridades à porta de casa e de receber um “papelinho” de que ninguém gosta, para ir pagar um certo valor em euros, que me faz mais jeito a mim do que ao estado (embora este tenha uma dívida bem maior do que a minha). Quem está feliz com esta decisão é a minha família. Já estavam fartos de me repreender, pois não querem que ande pendurado nelas, feito macaco, a esgalhá-las e limpá-las, às vezes a mais de quinze metros de altura. Chegam a dizer-me que tenho idade para ter juízo. Feliz também está minha a mãe porque, com o abate das árvores, de porte considerável, vou arranjar-lhe uma boa rima de cavacos (porque eu não gasto).

Ao abatê-las, fico dividido. Triste por ter de matar aquilo a que dei vida. Plantei-as há tanto tempo e deram-me muito, em sombra, verde, sinfonia de pássaros, beleza, frescura de verão e prazer. Daí que não seja nada fácil uma decisão destas. Mas, na sua morte, encontro a compensação de usar a força dos braços para cortar, serrar e rachar os troncos em cavacos. E, por estranho que pareça, gosto de rachar lenha. É uma mania como outra qualquer. Tenho jeito para pegar no machado, o que não é de admirar, porque o “carrego” todos os dias… no nome.

Como ainda ficaram quatro ou cinco em pé, vou ter de decidir se mando tudo abaixo e deixo o terreno mais careca do que eu ou se arrisco, deixando alguma delas já sem “família”, plantadas na encosta sem ter quem as proteja dos ventos fortes que vêm do lado do mar em dias de tempestade. E são cada vez mais. Também tenho de decidir o que fazer com os arbustos, trepadeiras e tufos de ervas rasteiras, pois dizem que o terreno tem de estar limpo, não sei se igual ao interior da moradia ou como nalgumas casas de banho públicas em dia de feira…

Bom. Não fiquem preocupados porque ainda não perdi o juízo. Gosto do meu jardim e são outras razões, que não as de um decreto lei feito à pressa para “tapar olhos”, que me leva a medidas tão drásticas. Mas é certo que, isto de limpar os terrenos florestais bem limpos até ao dia quinze de Março, tem muito que se lhe diga. E eu não acredito e ninguém acredita, que o país vai fazê-lo da forma que o governo quer e obriga (será que sabem o que querem dos cidadãos?). Para limpar uma faixa de dez metros de largura ao longo das estradas deste país já é tarefa impossível. Seriam precisos meios que não temos, dinheiro que não há e gente que está lá fora (e não está cá). E tempo. Por outro lado, é uma estupidez pegada querer que a limpeza seja efetuada até quinze de Março. É que, lá para meados de Agosto, os terrenos terão outra vez mato e todo o tipo de infestantes tão desenvolvidas, que vai ser necessária nova limpeza, com novos custos. E quem vai passar a vida a fazer limpeza e gastar dinheiro nos terrenos que produzirão nada? Serão só um custo que não gera rendimento. É melhor dá-los a quem queira gabar-se de ser proprietário, se houver quem. Caso contrário, será conveniente entregá-los ao estado… e o estado que os mande limpar, se é que o vai fazer. Que se saiba, não o faz naquilo que já tem. Basta ver bermas e taludes de estradas que são propriedade sua, já para não falar nas matas nacionais…

A nossa região é caracterizada por aquilo que se chama “povoamento disperso”. Isto é, há casas “plantadas” por todo o lado. Ao contrário de outras regiões onde as construções estão concentradas em pequenas ou grandes povoações, nós espalhamos as habitações ao longo das estradas à medida que elas se foram abrindo, fosse no interesse das populações ou dos proprietários… Por isso, é fácil encontrar essa mistura explosiva de casas e matas (não costumamos chamar-lhe floresta, até porque raramente as matas são de grande dimensão), o que, à luz da lei, vai obrigar os proprietários a limpar tudo num perímetro entre cinquenta e os cem metros a partir da parede exterior das casas (o que acho ser muito pouco. Seria preferível o raio de um quilómetro e, mesmo assim, num incêndio como o de Outubro passado, não era suficiente).

Ora, como as matas não são grandes, é certo e sabido que algumas pessoas vão pensar que têm uma bouça, de onde, eventualmente, podem retirar algum rendimento. Mas, na realidade, o que têm é um problema, pois pode estar toda dentro do tal perímetro e lá se vai o rendimento, mas fica o custo.

Isto não vai resultar? Vai… durante os dois primeiros anos. Enquanto não há nada para arder. E depois? Logo se verá. Tal como não vai dar certo ter meia dúzia de sapadores por aí, a trabalhar oito horas por dia pelo que se diz, como num escritório. Ao que sei, os incêndios não param de “lavrar” para ir dormir… E se não resolver? Os governantes têm joelhos que servem de mesa e é fácil lançar novas medidas e com elas outros custos para os mesmos (que somos todos, especialmente os proprietários). E já ninguém se lembrará destas medidas avulso, a não ser aqueles que as pagaram e que vão ficar sem os “cavaquitos” para o inverno. Em bom abono da verdade, não é um mal para todos. Que o digam chineses e espanhóis, quando tivermos de consumir mais um bocado de eletricidade para não “raparmos” frio, vendida pelas suas empresas. Eles agradecem, cobram… e nós pagamos.