Fui ao bruxo, para conhecer o futuro

Há dias acordei ansioso, querendo conhecer o que nos está reservado para o futuro. Não para conhecer antecipadamente os números do euromilhões, algo em que “ninguém está interessado”, mas somente aquelas coisas que são parte da nossa vida comum, como saber onde guardar o dinheiro (se é que ainda existe dinheiro e algum local seguro…), quem vai ser o campeão nacional (e não importa de quê) ou até onde vai a seleção portuguesa no próximo mundial, agora que carrega o “fardo” de ser campeã da Europa. Mas, a adivinhação tem muito que se lhe diga e só está acessível a cartomantes, astrólogos e bruxos. Ora, como não sou nem uma coisa nem outra (tanto quanto sei…), como “não tenho morada aberta” nem quaisquer “ligações ao além”, apesar de tentar fazer algumas previsões, “ainda não dei uma para a caixa”, nem sequer numa rifa foleira.

Tendo sido criado num tempo em que, desses três “dotados” com tais “dons”, só havia bruxos, achei por bem recorrer aos serviços de um, até porque segui o velho dito popular de que “não acredito em bruxas mas, que as há, há”. Confrontei-me logo com um problema: Como nunca fui um “utilizador” deste tipo de “ajudas”, tive de perguntar a pessoas que recorrem a elas com certa regularidade, gente essa bem “informada”.

Outrora, ouvia falar no “bruxo de Figueiras” e no “bruxo de Fafe”, mas não sei sequer se ainda “veem” o futuro ou se estão na reforma e já são coisa do “passado”. Daí o meu pedido de informação aos “clientes habituais”, com cartão de assiduidade e direito a pontos, como nos supermercados. Ora, isto não é tão fácil como eu pensava. Para me darem a informação correta, quiseram saber o que é que eu verdadeiramente pretendia. Perguntaram-me se andava à procura de “amor”. Se fosse o caso, tinham uma “receita caseira”, um método simples de bruxaria sem ter de ir ao bruxo (tal como os remédios que prescrevemos uns aos outros, como se fossemos médicos…), que implicava incenso de rosas, pétalas de rosas a decorar um altar, uma fita cor de rosa, a imagem de Vénus, papel e caneta. “Não, não é nada disso”, disse em tom firme. Então, o que eu pretendia era “rogar uma praga” ou fazer “um mau olhado” a alguém? Para não arranjar mais confusões, tive de os informar que somente queria saber “umas coisas” sobre o futuro.

Foi assim que acabaram por me “recomendar” um bruxo que vive isolado e muito longe, suficientemente longe para me dissuadir de ir lá apresentar qualquer reclamação no caso das suas previsões “saírem furadas”, inclusive de pedir a devolução do valor cobrado. Marcaram-me “consulta” e lá fui eu satisfazer esta necessidade que sentia em mim, acabando por sair satisfeito com o “serviço” que me prestou, apesar de se fazer pagar antes e bem.

Esta coisa de “ir ao bruxo”, apesar de já não ser o que era, é algo que se faz, mas que não se confessa. Não faltava mais nada. Olha se o povo soubesse que aquele fulano vai ao bruxo? Seria motivo de cochichos e conversas de esquina. Mas, na verdade, há muito mais gente do que pensamos a recorrer aos seus serviços. É que, diz-se, quem precisa recorre a tudo. Na doença, começa-se pelo médico, depois o endireita (agora medicinas alternativas), além da “mulher com morada aberta” e, esgotadas as opções sem que o mal esteja resolvido, alguém sugere a cartomante, o astrólogo e o bruxo, para não falar no espiritismo. E, por fim, o exorcista. E não se diga que quem lá vai não tem formação cultural nem condição económica. Puro engano. Vão lá de todas as condições sociais, unidos por um fator comum: Todos carregam um problema para resolver. Dinheiro, negócio, saúde física e psíquica, amor, conflitos com alguém, são os motivos mais comuns para quem procura o bruxo (e eu nem sou bruxo).

Ora, como as “previsões” da minha ida virtual ao bruxo podem ser do interesse dos leitores, não quero deixar de as partilhar neste jornal, para os manter a par de informações de tão doutos visionários. Recomendo que a sua leitura deve ser feita na companhia de outras pessoas porque as revelações poderão “chocar” os espíritos mais sensíveis. Vá lá, chame a vizinha e deem a mão, mas não se aproveite para “apertar” com ela. Assim, vamos às previsões:

“Tanto o Tondela como o Arouca, não serão campeões esta época”. Ora, uma previsão deste tipo é realmente chocante para os habitantes das duas cidades.

“Não há corrupção em Portugal”. O homem vai acertar na “mucha”… Todos os processos contra cidadãos que, por acaso, e só mesmo por acaso, passaram a ter uma vida muito boa de repente, vão cair de maduros. Isto só vem provar o que eles afirmam: São inocentes e até vítimas do zelo da polícia e de juízes invejosos, que gostariam de ganhar tanto como eles, sem ter de se esfalfar a julgar montanhas de processos. Não têm culpa de ganhar tanta “massa” com facilidade. Saibamos “aprender” com eles, pois são “autênticos profissionais” …

“Neste mês de Dezembro, há Natal”. Não conseguiu prever com exatidão o dia pois, no momento em que o ia fazer, deu um espirro monumental e fiquei sem saber se foi provocado pelo frio ou por alguma alergia ao pó que se acumulava em cima da mesa…

“Os portugueses vão ter um futuro mais amargo”. Que visão. Será que foi por isso (previsão) que o governo “azedou” os impostos sobre o açúcar e produtos açucarados?

“Quem gastar mais do que ganha, tem de ir às poupanças ou fica a dever”. Ora, nesta é que eu não acredito, nem nenhum português. Porque, o que nos andaram a dizer nas últimas quatro décadas, foi precisamente o contrário: “Gastem, como se não houvesse amanhã”.   

Quando contei a um amigo que tinha ido ao bruxo, a sua primeira reação foi: “E ele acertou”? Respondi instintivamente: “Se acertou… Foi mesmo em cheio!!! Antes de fazer as previsões, disse-me: -Passe-me cento e cinco euros da consulta. Ora, como é que ele sabia que era precisamente o dinheiro que eu tinha no bolso”???

Afinal, quem é dono de quem?

Ser dono da sua habitação, é o sonho da maioria dos portugueses. Eu incluído. E se puder ser uma moradia … É uma “tontice”, como tantas outras que nos passam pela cabeça ou, pior, que nunca de lá saem. Mas sonhar ser dono da sua própria habitação é assim tão estúpido? Não. Se for só sonhar, não é. Estúpido mesmo, é ser proprietário, “suposto dono”. Sim porque, a partir do momento que tal acontece, pensamos que somos “donos”. E eu disse “pensamos”.

Depois de casar, fui viver para um apartamento arrendado. O “dono” mandou-o pintar antes de me entregar as chaves. A meu cargo, ficou a mobília para a cozinha, um quarto e parte da sala, tal como os eletrodomésticos que o “Guerrilha” me vendeu. Não havia dinheiro para mais. Os fornecedores montaram tudo. Trabalho meu, pouco. E pedi a ligação de eletricidade e água. Com o apartamento em si, não tive de me preocupar. Nem antes, nem depois. Se havia um problema, comunicava ao senhorio e este mandava compor. Não era comigo. Ele que se “desunhasse”. Mas, nesta vida nunca estamos satisfeitos com o que temos e, como qualquer bom estúpido, pensei construir a minha própria casa.

Sonhava com uma moradia, onde não tivesse de ouvir o vizinho de cima a puxar o autoclismo ou mesmo a “gemer” enquanto fazia força na sanita ou a vizinha do lado a “gemer”, mas por outras boas razões. Quando arranjei dinheiro para o terreno, comprei, paguei e fiquei tão “liso” como um pneu usado. E, como pensava que sabia alguma coisa de desenho de construção civil, fiz o projeto de uma casa, linda de morrer naquela fotografia da revista francesa de onde o copiei. Mas, quando um empreiteiro me deu o orçamento provisório, a “casa de sonho” ficou só no sonho. Nessa noite fiz um projeto mais “acessível” para uma bolsa vazia. Se agora é uma dor de cabeça mandar construir moradia, naquela época nem se fala. Como qualquer português que se preze, optei pelo orçamento mais baixo. O empreiteiro era da minha aldeia e, para me influenciar, “vendeu” as suas supostas qualidades de construtor ao meu pai, nesse tempo já cego e muito doente. Entreguei-lhe a obra porque não tive orçamento mais baixo e meti-me num rico sarilho e numa carga de trabalhos.

Seria penoso para quem lê esta crónica ter de seguir a “Via Sacra” que percorri durante a construção da moradia e que só terminou quando me consegui livrar de tal “feitor de casas”, antes sequer de a concluir. Ora, para abreviar, vamos dar a casa por concluída e passar adiante, para ver se tenho descanso. Engano, puro engano. Em primeiro lugar, tive de me esfalfar a trabalhar para pagar o que me emprestaram. Foi a “massa” toda. TODA. E quando me livrei desse encargo, meti-me a construir anexos, muros, e mais anexos, e jardim, e mais anexos… Trabalhei muito para arranjar dinheiro, mas também “dando o corpo ao manifesto” na construção dos muros e anexos, com a ajuda do senhor Teixeira, onde fiz de pedreiro, soldador, trolha, serralheiro, pintor e não sei quantos ofícios mais. E foram muitos os trabalhos, gastos, sacrifícios, consumições e problemas, que davam para um filme que “nunca mais tinha fim”. Igual às telenovelas onde estão sempre a inventar mais enredos, problemas, traições, zangas de namorados, faltas ao casamento e tudo o que der para prolongar a sanha, numa “história interminável”.

Se quisermos ser realistas, somos pouco “donos” da nossa casa, mas muito escravos dela. Quantos de nós não tivemos de fazer enormes sacrifícios para a construir, abdicando de tantas coisas? Certo é que, depois de pronta, quando o nosso “Ego” está satisfeito, vem o estado “dizer-nos” que temos de “pagar renda”, pela casa que pensávamos ser nossa. Afinal, é nossa ou do estado? Se temos de pagar “renda” a alguém (e o estado chama à “renda” IMMI), quem é o “dono”? Para além dessa “renda”, ainda temos de investir constantemente sempre que o tubo rebenta, entope a fossa, entra água no telhado, a parede está rachada. E alguns investem mais para dar satisfação ao sonho antigo de ter uma piscina … Custa um dinheirão, mas ficam de bem consigo (atenção: fui burro, mas não cheguei a tanto). E o estado agradece, aumentando a “renda” … Mas não era suposto sermos só “donos”? Se a casa for do senhorio, ele que pague. O problema é dele. Mas, se nós formos tidos por “donos”, quem é que “está à pega”? Nós. Pagamos e não bufamos.

Também pensamos que, ao construir uma casa grande, vamos gozar a vida melhor, com os filhos… Eu disse filhos? Enquanto estão no berço, talvez. Estão por perto. Mas, mal crescem (e crescem muito depressa, talvez devido às vitaminas, à poluição, às hormonas e às alterações climáticas…), descobrimos que estamos sós, os velhos, a viver numa parte da casa porque o resto, já sobra. Mas continuamos a pagar “renda” da casa toda … “Ah, mas assim vamos deixar um património para os filhos, uma casa para viverem”, dirão alguns. Como? Para eles morarem? Só se não tiverem mais para onde ir. Caso contrário, não vão querer um casarão e vai ser um problema nas partilhas entre eles. O habitual. Se os pais que já partiram tivessem permissão para vir do “Além” corrigir um único erro dos muitos que fizeram em vida, é certo e sabido que, na grande maioria, desfaziam-se dos bens, a começar pela casa de família. Evitariam desavenças familiares e partilhas pela via judicial.

Cá por mim, há muito que perdi as ilusões e deixei de me considerar “dono” da minha casa. De maneira nenhuma. Não fui, não sou, nunca serei. Porque acho mesmo que “ela”, a casa, é que é dona de mim. De tal forma que, um dia destes, sem me pedir opinião, “despacha-me para o Além” e troca-me por outro “dono”. E eu não tenho direito a ter opinião, a reclamar e dizer que não quero ir, que eu ainda mando. Porque não é verdade. Eu vou e ela fica por cá, já com outro “pateta” a pensar, tal como eu o fiz, que é o “dono”. Como se fôssemos “donos” de alguma coisa…

Como andamos enganados. E iludidos!!!

Um americano foi à Índia ouvir os conselhos de um “Guru”. Ao entrar na sua casa, encontrou-o sentado numa esteira. Não havia mobília. Estranhando, perguntou ao “guru”: “Onde estão os seus móveis”? Mas ele respondeu-lhe com outra pergunta: “E onde estão os seus”? O americano, sem hesitar, disse: “Mas eu estou aqui de passagem”. E o indiano (e homem sábio), rematou a conversa: “Também eu”.

Não o calamos? Haja quem o faça…

O que se consegue fazer com este pequeno aparelho que os homens trazem sempre no bolso e as mulheres na carteira, é impressionante. Ao ver as inúmeras capacidades dum telemóvel, agora na versão “smartphone”, dou comigo a pensar que sou do “tempo da Idade da Pedra”. Só pode. Os muito poucos telefones que existiam na minha infância cá na terra, eram uma novidade. Para se telefonar, dava-se à manivela para chamar a telefonista que estava no edifício dos CTT na Vila e pedia-se a ligação para o número pretendido. Ela estabelecia a conexão de um telefone com o outro, enfiando a cavilha da extensão da uma linha no ponto de ligação do número pedido. Tudo manual. Por isso, estar agora sentado no meio da serra e poder fazer uma ligação direta para o meu filho na Colômbia, com imagem, é algo de surreal. Para quem veio de uma sociedade agrícola e com rudimentos de tecnologia, ainda parece inconcebível.

Também sou dos que andam com ele sempre enfiado no bolso das calças, com exceção dos fins de semana em que fica a “dormir” na sala. Estou (quase) sempre “on”. É bom? Não, não é. Apesar da utilidade, já tenho idade para ter juízo e usar o “animal” só mesmo quando é preciso. No entanto, ainda penso que os filhos podem precisar de mim ou tenha de resolver alguma coisa com urgência. Uma mania como outra qualquer. Se fosse à cinquenta anos, em que as comunicações à distância eram quase só por carta, resolviam-se os assuntos à mesma.

Hoje, o telemóvel faz parte da própria identidade da pessoa, havendo quem sofra e se sinta desconfortável sempre que não o tem à mão. “É como se estivesse nu”, dizia um jovem adolescente. Daí o problema que as escolas têm com o seu uso no espaço escolar. E não deve ser nada fácil conciliar posições tão divergentes sobre o proibir ou ser permitido em tal espaço. Mas existem muitas situações onde, das duas uma: Ou não há respeito pelo lugar onde se está e pelas pessoas ou é-se muito distraído ou… burro. Porque não há outra explicação.

Estava numa missa fúnebre com a igreja repleta de gente, onde imperava um silêncio pesado, só interrompido pelas palavras do celebrante e pela resposta dos fieis. Quando o padre fez o sinal da cruz para dar início à celebração, no silêncio da igreja ouviu-se uma música roqueira saída de um telemóvel, algures no meio dos fieis. A música tocou quatro ou cinco vezes e a maioria dos presentes ficou sem saber se foi interrompida pelo dono do telemóvel ou se quem chamou se cansou de esperar. O padre fingiu não ouvir e continuou, enquanto ao meu lado um homem tirava o telemóvel do bolso e o colocava no silêncio. O toque do outro lembrou-lhe que não “calara” o seu e deveria ter servido de aviso para todos os presentes. Situação normal, que pode acontecer a qualquer um, embora não devesse acontecer… Um pouco antes do padre fazer a homilia, no fundo da igreja ouviu-se outro a tocar, desta vez com um toque clássico de telemóvel. Senti mais uma mexida entre algumas pessoas, talvez para desligar ou verificar se estava desligada a sua “caixa de ruído”. Durante o resto da missa, “só” tocaram mais três telemóveis. Quanto ao primeiro, até admito que houvesse um esquecimento ou distração, que não deveria ter existido. Vamos dar-lhe o benefício da dúvida. Mas os outros… Com franqueza, não podia acontecer. Ou são surdos – e nesse caso ficaram a saber que têm de ir ao otorrino fazer um exame de audiometria para confirmar se há necessidade de prótese auditiva – ou são irresponsáveis – e pensaram ser aceitável e normal deixar que o telemóvel tocasse num lugar daqueles e naquela cerimónia – ou já conseguiram ser promovidos a imbecis. Será que não ficaram sequer um pouco incomodados quando tocou o primeiro telemóvel? Não se deram conta do “incidente”? Ou acharão mesmo que os telemóveis são para ser usados, seja em que espaço for? Não era nada comigo e senti-me constrangido…

Mas já assisti a outra situação semelhante, mas mais embaraçosa. Quando o celebrante distribuía a comunhão e no momento em que um homem abria a boca para receber a hóstia, do seu bolso saiu o malfadado toque musical, em jeito de contestação. E ele ficou tão “encavacado”, que já não sabia se havia de receber a comunhão ou “cortar o pio” ao telemóvel que, teimosamente, continuava a “berrar” dentro do seu bolso. Confrangedor… é o mínimo que se pode dizer. Tenho de reconhecer que a dignidade tem estado do lado dos celebrantes. Em regra, não reagem ou, quando muito, suspendem por instantes a celebração, como que a dar tempo (e oportunidade) para o “infrator” tomar consciência e desligá-lo. Só numa ocasião houve reação verbal do padre. Com muita subtileza, disse que “este não é o melhor momento nem o melhor local para se atender o telemóvel. Por isso, recomenda-se que esteja no silêncio ou desligado”.

Mas o mesmo acontece em sessões solenes e cerimónias diversas, onde os aparelhos electrónicos não são convidados nem devem ter voz… mas têm. E quando não é conveniente. Não adianta, somos como somos. Na realidade não somos um bom exemplo no respeito pelos outros e pelo local onde estamos em certos momentos. Talvez porque o telemóvel esteja primeiro. É sagrado.

Só encontro uma saída para resolver estes incidentes. Por muito que nos custe, devemos ser tidos por irresponsáveis compulsivos e, por isso, ser tratados como tal. Assim, só colocando um equipamento técnico que bloqueie todas as comunicações dentro do espaço que se pretende livre de “intrusões” indesejadas será possível acabar de vez com elas. Senão, vem sempre a desculpa do “esqueci-me”, “pensava que estava no silêncio”, “estava à espera de uma mensagem”.

Diz o povo que, “para grandes males, grandes remédios”. E isto precisa de um remédio. E grande…

Quem decide o que compramos? Nós?

Sábado de tarde. Tive de ir a três supermercados cá da terra para comprar aquilo que desejava. E não enchi nenhum carrinho de compras. Eram só quatro artigos. Numa das superfícies comerciais encontrei o senhor João, que já não via há alguns anos, desde que se reformou. Entre cumprimentos, perguntar pela família e o que faz, fiquei a saber que vai lá três dias por semana, uma delas ao sábado. Para quê? Para ver os produtos em promoção e comprar o que lhe interessa. Mas só mesmo aquilo de que precisa. A reforma é pequena e tem de aproveitar os descontos para ir fazendo as compritas, conseguindo assim um abatimento na conta mensal. Mas não se deixa iludir nem entusiasmar. No entanto, observa isso noutras pessoas que conhece. “Não podem ver um desconto acima dos trinta e cinco por cento. Tentam-se logo, mesmo que seja uma coisa que não usam. Eu cá não embarco na publicidade. Tenho uma lista mensal e só vou comprando o que me falta. Nada mais”.

Os “shoppings” são tidos como as catedrais do consumo mas os supermercados não lhes ficam atrás. Para além dos produtos de consumo básico e essenciais, pouco a pouco foram alargando a oferta a outros artigos, muitos deles supérfluos mas que, posicionados em pontos estratégicos da loja e com preço promocional em grande destaque, acabam por ir parar à maioria dos carrinhos de compras. Não precisam daquilo mas “o preço é tão baixo, que vale a pena comprar. É uma oportunidade…”

O primeiro passo começa com os folhetos despejados nas caixas de correio em nossas casas, com regularidade semanal. Abri-los e dar-lhes uma vista de olhos, já é meio caminho andado para ceder à tentação. Se os lermos com cuidado, descobrimos a razão: Logo na capa do folheto, em letras grandes, anuncia “5 Super oportunidades. Desconto imediato de 50%”. E os artigos são interessantes… Já não falo nas outras frases de impacto: “Super Fim de Semana”, “Se encontrar mais barato, devolvemos a diferença”, “Só domingo, 50% em toda a loja” ou então “Preços à prova de qualquer comparação”. Alguns folhetos têm sequências bem conseguidas. Assim, na folha dos congelados dizem: “Aqui, os preços também estão congelados”. Na peixaria, “São preços baixos, sem espinhas”. No talho, “Os preços estão bem cortados”. Na perfumaria, “Cheira a preços baixos”. E na padaria, “Preços baixos são o pão nosso de cada dia”. Por outro lado, as fotografias e a apresentação dos produtos são atrativas. É assim que está lançada a semente da “necessidade”, ainda que falsa.

A segunda fase é na loja. Não se entra por qualquer lado. Tem de ser por “ali”. Se a intenção é comprar só um quilo de arroz, temos de atravessar a loja toda para o fazer. O arroz, como todos os bens de primeira necessidade, está ao fundo. Para lá chegar, passamos por um mar de “pechinchas”. Que nos querem impingir. (Quase) tudo o que não nos faz falta. “Olha que… E é tão barato. Vou aproveitar”. E vai para o carrinho das compras. Quando chega ao fundo da loja, já não há espaço para o pacote de arroz… Quem resiste ao “Mega preço”, ao “Super desconto” ou ao “Preço imperdível”? “Vejam lá que nem chega aos trinta euros” (o preço é de 29,99 €)!!!

A tudo isto, juntam-se os cartões, os descontos em cartão, os pontos acumulados, os selos, as mensagens para o telemóvel que arranjam mais “corredores” para a loja que a Maratona de Lisboa ou o anúncio de “ganhe um carro novo ao volante de um carrinho de compras”. É tentação a mais para um homem/mulher só…Como pode resistir? E para não falar na associação de descontos, e grandes, no sector de artigos de confecção ali mesmo ao lado, onde há muito que ver e comprar… E no sector dos eletrodomésticos… E nas bicicletas de montanha… E nas malas de viagem… E nos combustíveis…

Vivemos “acampados” na sociedade de consumo, onde o problema não está na capacidade de produção mas sim na dificuldade de venda. Capacidade produtiva não falta, daí haver excesso de produtos que é preciso escoar de qualquer jeito. “Compre três paga dois”. “Um custa 20 e dois 30”. “Compre uma caixa de seis garrafas, duas são de graça”. Tudo isto, para “impingir” mercadoria. E nós vamos carregando para casa e acumulando… lixo. Porque é aquilo que somos: Acumuladores de lixo.

Alguém dizia: “Na sociedade de consumo, o marketing e a publicidade são uma espécie de máquinas que abrem buracos em nós, as “falsas necessidades” que nos fazem tomar o desejo pela falta”. E acabamos por sentir a “falta” desses bens supérfluos como se fossem essenciais. E compramos, para tapar o “buraco”, a “necessidade desnecessária”. Quase sempre os produtos são “embelezados” pela publicidade, como sendo portadores do bem estar e da felicidade: “Compre e terá estatuto social”. “Compre e terá a mulher dos seus sonhos”. E nós até pensamos (se é que pensamos) ser verdade, que temos de comprar para nos sentir bem, porque é uma excelente oportunidade. E é… para quem vende.

Mais do que nunca, tal como o senhor João, cada um tem de criar as suas próprias defesas a esse assalto que a publicidade e o marketing fazem às nossas mentes, ao nosso inconsciente. Caso contrário, não passaremos de marionetes em “mãos” que nos manipulam, embora estando convencidos que somos livres de escolher o que queremos. Mas não somos…

Já tenho com quem caminhar…

O escritório, que a Teresa e o Luís “dirigem e onde eu, às vezes, até trabalho”, é um misto de empresa imobiliária com atividade na compra e venda de propriedades e de sede provisória da Associação Lousadanimal, para além de “família de acolhimento” da “Clarisse”, uma cadelita abandonada e maltratada por um energúmeno que a cegou intencionalmente. Ora, tendo no escritório a Teresa, elemento da direção da Associação, extremamente dedicada à causa e uma defensora acérrima dos direitos dos animais e da sua proteção, tinha a certeza que não iria passar muito tempo após a morte da minha cadela Diana sem que ela “sugerisse” ser a altura de adoptar um novo animal. Não podia esperar outra coisa, até porque a Associação que representa tenta promover a adopção de vários animais ainda sem dono e que estão entregues a “famílias de acolhimento”. E, diga-se de passagem, apesar do pouco tempo de existência e da falta de recursos, tem sido extraordinário e digno dos maiores elogios, o trabalho da instituição, bem visível nas cerca de duas centenas de adopções já concretizadas. É obra!!!

Pois bem. A Teresa deixou correr o tempo para que eu fizesse o luto da Diana e um dia disse-me: “Temos uma cadelita numa família de acolhimento, que recomendo lá para casa. Encontrava-se num estado miserável mas já está recuperada. É meiga, sossegada e muito afetiva. Acho que a devia levar por uns dias, à experiência”. Foi desta forma que começou o “filme” da vinda de um novo membro para o seio da nossa família que, transitoriamente, se chamou “Bela”, durante uns dias ainda deu pelo nome de “Pintas” e “Pintinhas” e acabaria por se vir a chamar “Becas”. Independentemente do nome, já estamos todos apaixonados por ela… Quem não ficaria? É de uma doçura fora do comum, afetuosa e com um olhar muito profundo. Só lhe falta falar… Mas não precisa, porque diz muito com o seu olhar… Começou a acompanhar-me nas caminhadas matinais ou, pensando melhor, arranjei alguém a quem posso fazer companhia… Porque é ela que, no entusiasmo do passeio, me puxa com força, como quem arrasta um peso morto. E só é “metade de um cão”… Eu explico: Pesa menos de metade da Diana, daí a “metade…”. De raça “Epagneul Breton”, com pelo curto, branco e muitas pintas castanhas no corpo todo (daí o nome Pintas).

Só mais tarde me contaram a história da “Becas”, ela também um animal abandonado. E é uma história que merece ser partilhada…

Terá sido um caçador que, provavelmente por achar que não era bom cão de caça, se quis ver livre dela. Para o efeito, amarrou-a com uma corda a um pinheiro no meio da mata e ali deixou abandonada. Ora, um animal abandonado, amarrado a uma árvore no meio do nada, sem comida nem água, só pode esperar uma coisa: Morrer. E com muito sofrimento… Mas ela não se entregou e lutou pela vida, até conseguir roer a corda que a amarrava e que lhe deixou marcas visíveis da luta que travou para se soltar do pinheiro. Quando foi recolhida, ainda trazia a “gravata” de corda, bem justa no pescoço… O curioso é que, depois de se soltar, não abandonou o local onde foi deixada pelo dono. Como um bom cão de caça, permaneceu firme à espera que “ele” a viesse buscar. Porque ela não sabia nem sabe que os homens fazem coisas que os cães não fazem: Traem quem neles confia, abandonam quem se lhes entrega e matam quem já não lhes serve. Enquanto durante o dia se mantinha no lugar onde fora atada, à noite ia de contentor em contentor junto às casas, à procura de comida, para regressar ao mesmo local e continuar a espera. E assim se manteve ao longo de dois anos até que, um acaso da sorte (e aqui pode-se verdadeiramente dizer que “há cães que têm sorte”…) a recuperou para a vida: Em Maio, a Farmácia Fonseca organizou uma caminhada em Lousada. Num ponto do percurso, já em Meinedo, alguns dos participantes desviaram-se do trilho e, ao atravessar um monte, encontraram duas cadelas num estado lastimável. Mãe e filha. Muito desnutridas e completamente parasitadas, “eram uma dor de alma”. A informação passou de imediato e nesse mesmo dia já lhe fizeram chegar comida e água para, de seguida, serem resgatadas por dois voluntários da Lousadanimal.

Recolhidas numa caixa, foram de imediato levadas a um Centro Veterinário, alimentadas e tratadas. Já depois de efetuada a sua recuperação, viriam a ficar numa família de acolhimento até há pouco tempo.

Ao longo dos dois anos que permaneceu naquele monte, teve quatro ninhadas que foram recolhidas por alguns dos moradores próximos, excepto uma das cadelitas da última gestação, a que a acompanhava quando foi encontrada, para quem a Associação já conseguiu família…

Hoje ainda lhe noto alguns medos, os fantasmas de uma vida à espera do dono que, afinal, a rejeitara. Mas depressa nos conquistou e está a adaptar-se e a tomar conta do seu espaço. E de nós…

É legítimo que qualquer pessoa, por um ou outro dos imponderáveis da vida, possa não ter condições para continuar a ter o seu cão. Sem problemas. Pode acontecer a qualquer um. Mas já é criminoso fazer o que o dono desta cadelita lhe fez. O que é que ele merecia se fosse identificado? Que se apresentasse queixa ao Ministério Público? Presumo que a lei e a pouca tradição judicial nestes casos iriam, na melhor das hipóteses, aplicar-lhe uma pequena multa. Por isso mesmo, o que a sociedade devia fazer era amarrá-lo ao mesmo pinheiro onde deixou a cadela, também sem comida, nem água, mas com açaime, para não roer a corda nem morder a quem passasse. E de mãos atadas atrás das costas, para não se poder coçar quando os parasitas o cobrissem e mordessem, como cobriram a cadelita.

Infelizmente, não é caso único. Todos os dias somos confrontados com este tipo de crimes, porque de crimes se tratam, sem que os seus mentores sofram as consequências, até porque a sociedade ainda pouco ou nada os penaliza. Mais ainda, fazem questão de passar esta “cultura” aos filhos, como sendo “educação a preservar”. Porque há impunidade. Por isso, rezemos para que acabe depressa…

É que os animais não podem continuar a ser vítimas de todo o tipo de crimes e esperar por uma justiça adiada…

Hoje sou catalão. E independentista

Hoje sou catalão. Catalão e independentista. E só não tenho a bandeira oficial da Catalunha, a “Estelada”, pendurada na janela ou num mastro do jardim porque, se a colocar, vão pensar que… sou adepto do Estoril. E não sou. Sou catalão por uma questão de princípio, mas também pelo respeito à Constituição Portuguesa e ao seu artigo 7, número 3: “Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão”. E diz-me a história que a Catalunha é uma nação, um povo com cultura e língua próprias, que sempre foram reprimidas de forma mais ou menos violenta pelo poder de Madrid. Como o fazem os poderes centrais, alegando a lei, mas não a democracia… E se a Catalunha não é uma nação independente há muito tempo, deve-se somente ao facto de ter sido traída pelos ingleses em 1714 (por aqueles que sempre se disseram nossos amigos e que de nós se aproveitaram…), faltando-lhe na hora da verdade…

Também o sou por solidariedade de português para catalão. É que, quando em 1640 nos revoltamos contra o domínio espanhol e foi restaurada a nossa independência, tal parece dever-se, e muito, à Catalunha, que também estava num processo semelhante. Castela terá enviado a maioria das suas tropas para lá, enfraquecendo a frente ocidental contra Portugal, o que nos permitiu recuperar a soberania. Hoje, como no passado, o autismo de Madrid ignora o grito de um povo, apesar da democracia… e usa a Constituição, a justiça e, sobretudo, a força bruta, que não faz mais do que ativar o incêndio do separatismo.

Mas, a luta do povo da Catalunha inspirou-me para dar alento a outros povos, a outras comunidades, algumas até dentro das nossas fronteiras.

É o caso do Algarve. Já há muito tempo se justifica a sua independência dos poderes de Lisboa, por muitas e boas razões, que qualquer português atento pode atestar. E eu atesto. Já têm língua própria. Pois é, todos sabemos que lá, (quase) só se fala o inglês. Ah, e um dialeto que é uma “algaraviada”. Em qualquer restaurante, seja “gourmet” ou uma tasca algarvia, somos brindados pelo empregado mais foleiro com um arrazoado em inglês. “Mas que raio se passa. Pensava que estava em Portugal…”, digo eu com os meus botões. Como se isso não bastasse, temos de ter em conta que os residentes são todos “estrangeiros de fora”, formando uma comunidade eclética (fica bem a palavra?) onde poucos portugueses encaixam. Algarvios de Portugal, muito poucos. Já só se veem no interior serrano, junto de jumentos, burros e do lince ibérico, para turista ver. Algo como as “reservas de índios” na América e noutras Américas do mundo…

Mas há mais razões. Houve tempos em que qualquer um de nós ia da sua terrinha ao Algarve sem ter de atravessar “fronteiras”, até porque os preços ali praticados estavam ao nosso alcance. Agora, até parece que lá, o euro tem metade do valor. É outro mundo. Aquilo já não é para o nossa carteira… Mais uma razão para haver cada vez menos portugueses. Nos hotéis, somos raros. Tão raros, que é mais fácil encontrar uma barata num hotel do que um português. Já não temos carteira para aquela vida… Ora, se já não somos capazes de comprar estadias curtas, morar lá está fora de questão. Em absoluto… E grande parte do património há muito tempo pertence a gente da “estranja”. Por isso, cá por mim, independência imediata. Pode ser que depois fique mais barato ir lá de férias. Nas promoções. E nos saldos. E, se formos, podemos exibir-nos e fazer inveja aos amigos, dizendo que fizemos férias no estrangeiro…

Do Alentejo, não tenho dúvidas. Já devia ser independente desde os tempos da reforma agrária, por razões menos abonatórias. Mas, nos dias de hoje, há algumas razões comuns ao Algarve. O Alqueva é dos espanhóis e os milhares de hectares de propriedades dedicadas ao cultivo de framboesas, são internacionais e trabalhadas por gente vinda dos quatro cantos do mundo. Sobreiros ainda há muitos, mas não votam (ou será que votam?). Está na moda, tem mais azeite, vinho e reformados. Pode tornar-se independente porque assim, quando contarmos anedotas sobre a lentidão dos alentejanos, estaremos a gozar com estrangeiros e não portugueses como nós.

Dos transmontanos, nem vale a pena falar. Desde que me conheço que os ouço dizer: “Para cá do Marão, mandam os que cá estão”. Que não precisam do resto do país até porque, se houver incêndios, ninguém lhes vai acudir. Se o não fizeram no centro do país, ali tão perto, como vão dar alguma ajuda lá, “para trás do sol posto”? E poderia falar de mais umas quantas regiões do país a quem é legítimo o direito (ou torto) à autodeterminação, ainda que não saibam o que fazer a seguir (mas esse é o desígnio de qualquer governo nacional…).

Mas tudo isto, para chegar a uma conclusão: Quero proclamar a independência da minha casa. Não quero estar mais sob a tutela de governos que me são estranhos e que só me metem a mão no bolso em nome de políticas desastrosas, sem que os conheça de lado nenhum (nem da televisão pois, quando aparecem, mudo de canal). Não quero estar mais dependente de políticos que têm o dever de assegurar a nossa segurança e deixam o país arder e dizem que nós, cidadãos, é que somos culpados. Nós e o passado. Que nos dizem que temos de criar meios de autodefesa e que se lamentam por não terem ido de férias (para ficarem a estorvar a Proteção Civil). E que não pedem desculpa, nem lamentam os mortos. São mortos, já não votam. Nem demitem os ministros incompetentes. Também são mortos, só que ainda não o sabem.

Por isso, quero proclamar a independência da minha casa e chegar a presidente. E ser chefe do governo do meu país, que é a minha casa, para assumir os méritos e as culpas, sem ter de esconder a incompetência e a falta de decoro, com desculpas para o não fazer.

Porque a culpa não pode morrer solteira…

Somos tão estranhos.Nós e o mundo…

Ser estranho é sinónimo de invulgar, excêntrico, fora do comum. Às vezes, insólito. E há coisas realmente muito estranhas. Só que, de tão absorvidos nas nossas vidinhas, nem damos conta do quanto o são. Nalgumas ocasiões, paro, observo o absurdo e chego mesmo a rir-me sozinho pelo insólito. É o caso do Cemitério dos Prazeres. Que raio de nome para um local de onde o “prazer” foi banido. Fica lá para a capital e, ao que dizem, dá “abrigo” a muitas das figuras e figurões mediáticos que vão desde políticos a artistas. Será por ali estarem enterrados alguns dos que eram ouvidos e vistos com prazer? Ou pelo prazer de saber que, afinal, esses também “vão de vela” e estão ali sepultados? Afinal, é tudo uma questão de “prazer” ou melhor, “prazeres”. Também se sabe que naquele cemitério foram a enterrar muitas pessoas da chamada classe alta lisboeta, que usufruíram bem dos prazeres da vida. A ser assim, também pode ser mais uma das razões para a atribuição do nome, sinal de que os “prazeres” da vida foram a enterrar. Mas, até por isso, o nome não está bem adaptado àquela “quinta das tabuletas” pois, tratando-se de um lugar de recolhimento e oração associado à dor da perda, não deveria ser confundido com os risos de alegria do prazer, mesmo com gritos à mistura…

No entanto, as coisas estranhas não se ficam pelo cemitério e chegam às nossas aldeias. Em Castro Daire existe uma chamada “Chiqueiro”. Será que se pode dizer que os seus habitantes são… porcos? É que, que eu saiba, são eles que costumam viver no chiqueiro… Também em Oliveira de Azeméis existe a aldeia dos “Traseiros”. Julgo ser inquestionável que, em todas as aldeias de Portugal onde ainda há população… há “traseiros”. E são tantos quantas as pessoas, pois nunca soube existir por cá alguém com dois ou mais…

Não deixa de ser curioso como duas aldeias, que ficam a distância considerável entre si, têm nomes que sugerem ser uma útil à outra: Enquanto na Lousã uma delas tem o nome de “Terra da Gaja”, a outra, que é pertencente ao concelho de Vila Franca de Xira, dá pelo nome de “Cama Porca”…

Agora sei que há uma terra onde se vende um certo “instrumento”. É em Pedrógão Grande e chama-se “Venda da Gaita”… Já mais a sul, em zona de planície pertencente a Viana do Alentejo, encontra-se o “Vale da Rata”. Não faço comentários, para não ser mal interpretado. Caso contrário, ainda me mandam para Mafra, à “Venda das Pulgas”.

Como será que se chamam os habitantes de uma aldeia de Santo Tirso chamada… Cabrões? Serão mesmo “cabrões”? Presumo que não devem andar por aí a dizer que o são ou… vão ser motivo de grande gozo.

Por esse mundo fora são inúmeros os sinais de que somos estranhos. Mas, não precisamos de ir longe. Basta vermo-nos ao espelho:

Somos incapazes de andar cem metros a pé para levar o filho à escola ou carregar as compras do supermercado, mas depois fazemos caminhadas de quilómetros e levantamos pesos no ginásio, para fazer exercício. Não há aqui uma grande dose de estupidez e contradição? Passamos a vida a cortar árvores para o fabrico de papel e depois usamos o papel para fazer campanha contra o abate das árvores.

Um nosso concidadão comprou no cemitério local onze campas, sem que o motivo fosse por estarem em saldo. Não estavam. Esgotou o “stock” de disponíveis. Não é para fazer negócio enquanto está vivo, porque é proibido, não é para fazer negócio quando estiver morto, pois “está impedido”. Talvez queira espaço para fazer “caminhadas” quando estiver “do lado de lá” ou para receber os amigos. Como será um encontro de ossos? Com tanta “propriedade”, o difícil é escolher…

Até o Dai Lai Lama tem opinião formada sobre o quanto estranho é o ser humano. Diz ele: “O que mais me surpreende na vida, é o homem, pois perde a saúde para ganhar dinheiro e depois perde o dinheiro para recuperar a saúde. Vive pensando ansiosamente o futuro, de tal forma que acaba por não viver o presente, nem o futuro. Vive como se não fosse morrer e morre como se não tivesse vivido”.

Mas somos mesmo estranhos. Se um pobre diabo rouba um pão, todo o mundo o chama de “ladrão”. Mas, se um gestor ou político rouba, ou melhor, “desvia” um ou muitos milhões, então já se diz: “Aquele é que foi fino”. É por isso que o Isaltino Morais não se cansa de apregoar: “Digam o que quiserem. Eu sou a prova viva de que a reinserção social funciona em Portugal!!!”

O próprio papa Francisco, apesar da sua grande tolerância e bondade com os homens, não deixa de pensar também que o ser humano é estranho, porque:

  • “Briga com os vivos, mas leva flores para os mortos;
  • Lança os vivos na sargeta e pede um bom lugar para os mortos;
  • Afasta-se dos vivos e agarra-se desesperado quando estes morrem;
  • Fica anos sem conversar com um vivo, mas tem o dia todo para ir ao velório do morto;
  • Critica, fala mal e ofende o vivo, mas santifica-o quando este morre;
  • Não liga, não abraça, não se importa com os vivos, mas se autoflagela quando estes morrem;
  • Aos olhos cegos do homem, o valor do ser humano está na sua morte e não na sua vida…

É bom pensarmos nisto, enquanto estamos vivos”…

Quem dobrou o seu paraquedas hoje?

Não gosto de fardas. São monocórdicas, embora niveladoras. Prefiro ter a opção de me vestir mal… Sei que muitas vezes são práticas, indispensáveis, importantes e eficazes mas, “não é a minha praia”. Que me lembre, só andei fardado na tropa por não ter alternativa. Mal saía do quartel, “mudava de farda”. Um aluno de psicologia da Universidade de S. Paulo vestiu a farda do “pessoal de limpeza” na própria Universidade e desempenhou o lugar como qualquer outro trabalhador, como parte do estágio de uma das disciplinas do curso. Quando pensava surpreender professores e colegas com essa atitude, ficou profundamente impressionado porque, tanto uns como outros, não o identificaram nem reconheceram. Ignoraram-no sem um cumprimento sequer, como se ele fosse invisível. Nem se apercebiam da sua presença. Mas, o que mais o chocou, foi a sensação de não ter sido ignorado ou desprezado. Muito pior. Foi de “não o verem”, como se não estivesse lá, como se fosse uma coisa. Esta experiência não é caso único e mais pessoas puderam comprovar essa “invisibilidade social” quando se veste uma farda ou assume o papel de profissão socialmente subalternizada.

O mais impressionante é que a maioria de nós nem tem a noção desse marginalizar de gente que é gente como nós. Que desempenha uma tarefa com a mesma dignidade daqueles que os ignoram. Quantas vezes não cometemos esse pecado? Como fomos capazes de passar sem olhar, de olhar sem ver, pessoas de carne e osso iguais a nós? Até parece que as excluímos do nosso campo de visão de forma seletiva.

Há muitos anos, conheci uma senhora que trabalhava na limpeza de sanitários públicos no Porto, com quem gostava de meter conversa, para a fazer falar sobre as “anomalias” que costumava encontrar no exercício da sua profissão. Um dia, desabafou muito sentida: “Sabe que há gente que deve achar que somos lixo. Somos invisíveis aos olhos de muitos daqueles que passam por aqui”.

“Charles Plumb foi um dos muitos pilotos de aviões americanos que fez a guerra do Vietname. Ao fim de muitas missões, o seu avião foi atingido e ele, para se salvar, teve de saltar de paraquedas, tendo sido capturado e preso durante seis anos numa prisão norte-vietnamita. Depois de libertado, quando regressou aos Estados Unidos dedicou o seu tempo às palestras, fazendo destas a sua vida, contando a sua experiência e tudo o que aprendeu enquanto esteve na prisão.

Um dia foi saudade num restaurante por um homem que, sorrindo, lhe disse: “Olá, você é Charles Plumb, piloto de um avião abatido no Vietname, não?” “Sim, sou. Como é que sabe isso?”, perguntou Plumb, admirado. “Porque era eu que dobrava o seu paraquedas. Ao que parece, funcionou bem. Não é verdade?”, respondeu o desconhecido. Plumb ficou surpreendido e disse-lhe, agradecido: “Sim, funcionou na perfeição, caso contrário eu não estaria aqui para o contar. Pensando bem, devo a minha vida a si”.

Quando ficou sozinho naquela noite, Plumb não deixava de pensar: “Quantas vezes vi aquele homem no porta aviões e, verdadeiramente, nunca o “vi” e não o cumprimentei. Nem sequer um “Bom dia”. Afinal, eu não passava de um piloto arrogante, ignorando o aprendiz que cuidava da minha segurança”. E pensou nas horas que aquele marinheiro passava a dobrar paraquedas, tendo nas suas mãos a vida de homens que não conhecia…

A partir daí, passou a iniciar as suas palestras sempre com um : “Quem dobrou o seu paraquedas hoje?”

Novos, velhos, ricos, pobres, altos, baixos, bonitos, feios, bem vestidos ou maltrapilhos, todos são importantes porque, independentemente de outras razões, todos são pessoas. Mas, em nome da pressa, do ser distraído, da falta de tempo ou de mil e uma razões mais, a verdade é que ignoramos gente que está à nossa volta e que muitas vezes até faz parte da nossa vida, mas não as chegamos a “ver”, com ou sem intenção, em tantos casos de forma seletiva e automática.

O escritor Eduardo Galeano no seu livro “Os Filhos dos Dias”, conta: “Na manhã (de 12 de Janeiro) do ano de 2007, um violinista dava um concerto numa estação de metro da cidade de Washington. Apoiado na parede, perto de um cesto de lixo, o músico, que mais parecia um rapaz do bairro, tocou obras de Schubert e outros clássicos, durante três quartos de hora. Mil e cem pessoas passaram sem deter seu passo apressado. Sete pararam durante pouco mais que um instante. Ninguém aplaudiu. Houve umas crianças que quiseram ficar, mas foram arrastadas pela mãe. Ninguém sabia que ele era Joshua Bell, um dos virtuosos mais cotados e admirados do mundo. O jornal Washington Post havia organizado aquele concerto”… Será que daquelas mil e cem pessoas nenhuma tinha sensibilidade musical ou só a “ganham” quando num grande auditório com toda a pompa e circunstância, talvez até “ataviados” para a ocasião? Ou todas tinham pressa de chegar a um qualquer lugar ou a lado nenhum? A pressa, essa doença da modernidade…

Um amigo meu tem há muitos anos lugar cativo no estádio onde joga o seu clube do coração. É discreto e simples, mas raramente falha um jogo. No estádio, perto de si, também tem lugar há muito tempo um seu conterrâneo. Como o conhece bem, tentou cumprimentá-lo por diversas vezes, sem resultado. Ele ignorava-o, pura e simplesmente e nunca lhe dirigiu a palavra, nem sequer um aceno de cabeça. Depois de muito tentar, desistiu e fez-lhe o mesmo: Ignorou-o. Mas um dia, para seu espanto, o conterrâneo foi cumprimentá-lo ao lugar como se fossem grandes amigos e, desde aí, mal chegava à bancada, dirigia-se a ele com um “calor inusitado”. O que mudou? Uma coisa simples: O seu vizinho tornara-se candidato a lugar político na autarquia local… E o meu amigo, já passou a ser “visto”. Não como pessoa, mas como “um voto” com pernas… Milagre… O poder que um voto tem!!! Um simples voto!!! Ao que parece, conseguiu transformar arrogância e hipocrisia em boa educação… Mas nunca deixou de ser hipocrisia…

Um meio de limpeza e cultura…

O papel higiénico foi uma criação do século XX. E, se há quem faça do rolo de papel higiénico uma grande “serpentina” para festejar o carnaval ou a vitória do clube do coração, para a maioria não passa de uma longa tira de papel fino destinado à limpeza do “buraco mais importante do homem”, numa zona do corpo que, na gíria popular, é conhecida por padaria, pacote, traseiro, assento, rabo, “sim senhor”, bunda e outros nomes mais ou menos artísticos. Mas, nem sempre as pessoas tiverem o privilégio de terem papel macio para a “limpeza”. Antes, muito antes, os gregos usavam pedras ou argila, na chamada “limpeza mineral”. Os romanos, já utilizavam esponjas embebidas em água, de uso coletivo, enquanto os árabes faziam da mão esquerda (por ser considerada impura) o “material de serviço”. Enfim, por esse mundo fora, quase tudo servia para a “função”: Pedras, folhas de maçarocas e barbas de milho, erva, penas de aves, folhas de diversas plantas e até cascas de mexilhão (também deviam combater a comichão…).

O primeiro “papel higiénico” que conheci na casa dos meus pais não era mais do que pequenos retângulos do jornal O Primeiro de Janeiro que o meu pai comprava todos os dias. Era a alteração do papel como meio de informação para papel como material de limpeza, naquilo a que hoje chamamos reciclagem… Quando a tinta de impressão era de fraca qualidade, o mínimo contacto com a água fazia com que as letras aparecessem reproduzidas no “pacote” do utilizador. Mas não dava para ler…

Terá sido na China que começou a ser usado papel em tal serviço, apesar de serem os americanos a criar o papel higiénico na forma como hoje o conhecemos. Mas há quem discorde da sua utilização com este objetivo. Os indianos dizem que o papel não limpa bem e, por isso, usam a lavagem como método alternativo. Assim, os mais abastados tomam o duche higiénico depois da “descarga”, enquanto os pobres se servem do balde com água e caneco… Os brasileiros copiaram parte deste procedimento pois criaram condições para lavar o traseiro a “jacto de mangueira”, sem terem de sair da sanita.

E dizem os entendidos em hemorroidal, que é uma boa forma de não o irritar…

Nos primeiros rolos, o papel era áspero e mal amanhado. Mais parecia lixa grossa com boa capacidade de “limpeza”, incluindo dos pelos locais… Era a chamada “limpeza total”, hoje tão em voga nos “metrossexuais”. Mas, pouco a pouco, o papel amaciou e tornou-se cada vez mais fino. Tão fino, que era frequente logo na primeira passagem pela “zona de guerra”, um ou dois dedos aparecerem do outro lado da folha de papel, normalmente em estado deplorável… Para eliminar esse “pequeno inconveniente”, as marcas lançaram o papel com duas e até três folhas, embora o povo, mais avisado, já não caía na esparrela. Em vez de utilizar uma só folha, enrolava umas poucas à volta da mão até ter uma camada espessa que aguentasse a pressão dos dedos (esta prática é mais comum quando quem usa não é quem paga…). O que é bom para as marcas…

No entretanto, chegaram os papéis coloridos, às flores, em relevo (talvez para “agarrarem” melhor) e com aroma perfumado. Nunca percebi porquê (Que eu saiba, não temos nenhum nariz nem qualquer outro órgão olfativo no c.). E veio o papel super, ultra, macio e ultra macio e até o papel neve (talvez para arrefecer o “ânimo”). A Renova inovou, conquistando uma boa fatia de mercado com o papel preto. E só lhe posso encontrar uma explicação para esse sucesso: Quando sentados na sanita nós, seres humanos, em algumas ocasiões sofremos imenso a “fazer força”. Porque há coisas “duras” a deitar cá para fora… De tal forma, que não conseguimos impedir as lágrimas de correr pela face… Ora, como as lágrimas podem ser associadas ao luto, o papel preto faz todo o sentido… A verdade é que a Renova transformou um simples produto de limpar m. num artigo de design e desejo, com cores berrantes e chamativas (como se fosse preciso chamar por alguém…).

Com o intuito de combater alguns problemas de saúde como o tal hemorroidal, foi lançado o “Hemo-Roll”, papel higiénico triplo que foi embebido numa infusão de ervas, para atenuar o problema. Não sei se é eficiente. Nunca usei…

Mas, o grande avanço chegou agora com o papel higiénico “sudoku”, uma forma de educar, entreter e contribuir para a promoção cultural. Assim, se é dos que estão apanhados por esse passatempo que exercita a mente, tome nota: Use o papel higiénico com os quadrados mágicos, que o vão deixar alapado na sanita. Mas não se entusiasme demasiado, para não ficar com a “padaria” colada à “tampa”. Vai passar horas e horas entretido, pondo os neurónios em ação sem que o chateiem (a não ser que precisem de si para arrumar o lixo).

Dizem os entendidos que, estar sentado na sanita, é tempo morto que não deve ser desperdiçado. Daí este passatempo, que faz com que o seu cérebro “vá ao ginásio” sem sair de casa, enquanto você “faz força”. É a associação perfeita entre o exercício físico e o mental…

Claro que existem os detratores da evolução deste artigo. Dizem eles que, quanto mais características tiver o papel, como cor, tintas e perfumes, mais hipóteses nós temos de apanhar uma alergia no “traseiro. Por isso, se é dos que acreditam nos estudos que servem de base a tais teorias e tem medo de ver o seu rabo às pintas, recuse o papel higiénico e volte a usar pedras e barbas de milho…

Há quem diga que a próxima moda nos vai trazer um livro em cada rolo de papel. Isso mesmo. Enquanto está sentado no “tal assento”, toma nas suas mãos o rolo de cultura e vai lendo. Mas tem que ler suficientemente depressa para que a necessidade de limpeza não seja mais “devoradora” de papel do que a capacidade de leitura. Senão, pode perder alguns capítulos do livro, engolidos pela descarga do autoclismo, que não mais recuperará… E não fica a saber o fim da história.

Mas, branco ou às flores, com aroma ou sudoku, preto ou azul, o papel higiénico é imprescindível na nossa vida. Porém, só sabe isso verdadeiramente, quem alguma vez se deu conta que não tinha papel higiénico muito depois de se ter sentado na sanita e ter o “serviço” adiantado. E, depois de olhar à volta e não encontrar um pedacinho de papel, um só por mais pequeno que fosse, ao ver o canudo vazio e admitir ser esse o único material de recurso, é que se dá conta de como é importante o “papel” do papel higiénico, na limpeza do “cais de descarga do tubo de esgoto”, que carregamos sempre connosco…

Todos, sem exceção…

Por favor, não façam de nós burros

Invocando o interesse público sobre o interesse individual dos cidadãos, os governos tendem a impor cada vez mais regulação pondo cá fora leis atrás de leis, numa “diarreia legislativa” que chega a ser ridícula, muitas das quais são estúpidas e inúteis e cujo destino é o caixote de lixo. Por esse mundo fora multiplicam-se os exemplos, como se tratasse de um concurso de estupidez. Na Suécia, o único sítio onde se podem comprar bebidas alcoólicas é na Systembolaget, uma cadeia de lojas estatal onde o controle de venda é rigoroso e a carga fiscal elevada. Objetivo: Reduzir o consumo de álcool no país. Resultado? Funciona ao contrário: Todos os suecos fabricam bebidas alcoólicas em casa e nunca vi tão grande “bebedeira coletiva” como lá, enquanto no bar só se vendia água e sumos!!! No Reino Unido, já criaram zonas “livres de álcool”, onde é proibido o consumo. Vao dar no mesmo. Nos Estados Unidos, é proibido embebedar… peixes (Ainda se fossem os perus, vá que não vá. Mas, peixes!!!). Noutro estado, não se pode conduzir… de olhos vendados (Esta não lembraria ao diabo…). E também não se pode jogar dominó aos domingos (Claro. As peças do dominó têm direito ao descanso dominical…). Ah, e cada pessoa tem de tomar banho pelo menos… uma vez por ano (Este filme já passou por cá há mais de meio século)… É proibido comer em lugares onde haja… incêndio, tal como as brigas entre cães e… gatos (Será possível?). Já em Israel, não é permitido meter o dedo no nariz… aos sábados (Quer dizer: A limpeza do nariz tem um dia de tréguas). Na Austrália, só os eletricistas podem trocar… lâmpadas (Está visto que é trabalho muito especializado…). Na Inglaterra, as vendedoras podem fazer topless, mas só em lojas de peixes tropicais (Não devem faltar homens a comprar peixinhos…). Em França, não se pode batizar um porco de… Napoleão (O imperador pode-se levantar do túmulo e o caldo fica entornado). Por esse mundo fora, é a estupidez feita lei.

E por cá? Não se chega a tal requinte, mas há uns arremedos de quem não quer ficar para trás…

Vem isto a propósito do anúncio de que “o governo está decidido a impedir a realização de jogos de futebol nos dias de atos eleitorais e a ponderar estender esta medida a todos os espetáculos desportivos, para além do futebol”, tendo a intenção de criar legislação para tal. O porta voz do Conselho de Ministros até argumentou que assim “haverá maior liberdade de tempo e deixarão de haver problemas de trânsito”. O secretário de estado do desporto foi mais longe, dizendo que se “procura reduzir ao mínimo os fatores que distraiam os cidadãos em dia de eleições”.

Com franqueza, não sei se devo rir ou chorar com a pobreza dos argumentos invocados: “Maior liberdade de tempo, acabam os problemas de trânsito e reduzem a distração dos portugueses”!!! Bestial. Vejam só, o que se espera de uma lei… inútil. Era preferível confessar que não sabem o que fazer para combater a elevada abstenção eleitoral. Então, inventam e o resto é conversa para “inglês ver”. Não são capazes de mobilizar os cidadãos para o exercício da cidadania, nem restaurar a credibilidade dos políticos no seio do povo, de quem estão divorciados.

Mas nem precisavam de inventar porque outros países resolveram bem o problema, baixando muito a abstenção. É só copiar. Em vez de proibir espetáculos desportivos ou o que quer que seja, escolheram outro dia e assim, eleições e futebol não coincidem. Difícil? Mas, se querem ser duros, imponham o voto obrigatório. Tenham coragem. E quem não for votar? Vai preso, tem de andar com uma estrela na lapela como os judeus ou obrigado a saber de cor o nome completo de governantes, deputados e autarcas. São homens para isso? Se calhar, vontade não falta, mas precisam de muito mais que isso…

Está claro que, quem quer mesmo votar, vota, ainda que o seu clube jogue nesse dia, que tenha de ir ao centro comercial com a mulher ou com os filhos ao cinema. Mas tem de estar mobilizado para votar e aí é que reside o “busílis” da questão. E metade do povo não está.

O futebol é um fator de distração? Claro que sim. No entanto, que se saiba, até agora foram os políticos que se aproveitaram dessa “distração” para lançar à socapa aumento de impostos, sobretaxas e outras formas de nos irem ao bolso, enquanto estamos distraídos com a bola. “Assim distraídos, não vemos o oportunismo cobarde”. E se a abstenção é grande, não é por haver futebol, mas sim porque é grande a desilusão com políticos e politicas, resultado da corrupção, caciquismo, desvio de fundos, demagogia, clientelismo e arrogância. Fingem que não sabem ou é um jogo de enganos? Por favor, não façam de nós burros.

A lei não vai resultar e o povo continuará a optar pela praia onde há “beldades” para mirar, pelos “shopings”, que tem montras e saldos ou por uma fuga ao Algarve. Mas, se teimarem em aprovar a lei, como o resultado vai ser igual a zero, o que se segue? Fecham teatros, Jardim Zoológico, cinemas e o Oceanário? Museus e discotecas? Esplanadas? Restaurantes e cafés? Vedam as praias para não irmos pôr o cu de molho? Pois eu sou contra. Se o fizerem, não vou votar. Serei mais entre milhões. Quero ter a liberdade de escolher entre ir à bola ou não. Depois de passar metade da semana a ler e ver tudo sobre a jornada e todas as notícias mais estranhas e estúpidas, como me podem tirar o direito de ver o jogo? Não é justo. Nos dias seguintes quero poder discutir os lances polémicos com os amigos e analisar o jogo ao pormenor, ainda que isso pareça demasiado redutor aos intelectuais. Impedir-me disso, é condicionar a minha liberdade. Eu quero que respeitem o meu direito de ir à bola. E não esqueçam que, se aprovarem a lei, será um fiasco total… Vão continuar os problemas de trânsito com filas enormes a caminho do Algarve e do interior, vamos manter-nos distraídos nos copos, a ver um filme ou a gastar a massa no shoping, pois é para isso que eles existem… Ou também nos vão proibir isso?

Ir ao estádio, gritar, chamar “gatuno” ao árbitro e “molengões” aos jogadores, quanto mais não seja para “desopilar”, dá saúde a um homem que não pode desabafar no dia a dia. É melhor do que ir ao psiquiatra ou à bruxa. Por isso, arranjem outro bode expiatório, outro motivo para a abstenção… E deixem-nos em paz, “distraídos” com a bola…

Ah, já agora, ir à bola é um direito e não o quero perder, por questões de princípio… Mas já não vejo jogos de futebol há anos e nem sequer leio jornais desportivos… Então, se não sou afetado? Continuo a defender o direito de poder ir à bola… quando me apetecer. Mesmo em dia de eleições… Mesmo que não vá…