O dinheiro e as tretas do costume…

Dizem que “o dinheiro não dá felicidade”, mas ainda não encontrei ninguém que não queira experimentar. Até já me disseram que, “se não dá felicidade, pelo menos paga tudo do que ela gosta”. Há quem diga que “essa história de que o dinheiro não dá felicidade é um boato espalhado pelos ricos, para que os pobres não tenham muita inveja deles”. Se calhar, é. Se virmos bem, não é mais feliz aquele que tem 100 milhões de euros do que o que só tem … 99 milhões. Certo é que, se “o reino dos céus é regido pela justiça este reino onde temos os pés se rege pelo dinheiro”. Quem negar esta evidência ou está a mentir ou a enterrar a cabeça na areia para não ver a realidade. Ter dinheiro, é bom, dá confiança e tranquilidade. Problema é de quem não o tem. Alguns estudiosos, que provavelmente não têm mais nada que fazer, para medir a influência do dinheiro no grau de felicidade e depois de muitos inquéritos, chegaram à conclusão que setenta e sete mil euros por ano é a quantia mínima para atingir a satisfação que garante a felicidade. Já com quarenta e nove a sessenta e um mil euros anuais, só se consegue obter “o bem estar emocional”. Não vi no estudo nada sobre os que ganham pouco. Não contam. Por estas estatísticas, em Portugal há pouca gente feliz. Afinal, isto confirma que é preciso algum dinheiro para a gente se sentir minimamente bem. Não propriamente por ele, mas por aquilo que proporciona.

Sempre tive uma relação de amor/ódio com o “vil metal”, estando bastante empenhado em conseguir o necessário para viver, mas sem ser seu escravo nem viver só para ele. Há muito mais vida para além do dinheiro… Mas cedo comecei a aproveitá-lo bem ao ser pago pela presença nos chamados “atos únicos”: Funerais. Quando integrava a “cruzada”, recebia uma “coroa” (cinco tostões). Em cerimónia triste, para nós, miúdos de então, era uma alegria. Uma coroa!!! Punha logo a minha a “render”, “investindo” na loja do Tio Peixoto na compra de rebuçados com cromos de jogadores de futebol. Mas, para atingir a “felicidade suprema” (completar a caderneta), precisava de muitos funerais, como quem diz, muitas “coroas” … Em Coimbra fiz trabalho de “mercenário” aos colegas mais endinheirados e nada empenhados no estudo, a troco de dinheiro, apesar de algumas “borlas” a colegas mais “lisos” do que eu. E quando entrei na vida profissional, saltei de uma situação para outra na procura de melhores condições e … mais dinheiro.

Para a sociedade, dinheiro significa poder, aceitação social, conforto e segurança. Muito dinheiro dá estatuto, prestígio e prazer. Torna o cretino inteligente, o escroque homem sério e o estúpido esperto. E, sem se perceber porquê, até o feio vira bonito e o covarde herói. Pelo dinheiro se mata, se engana, ludibria, mente e trai. O que importa é consegui-lo. O como, não interessa. Com o dinheiro compra-se o pão, o azeite, as batatas e o bacalhau, tal como se compra a bicicleta o carro ou o avião. E também se compra gente de todas as profissões e estratos sociais, de porteiros a políticos, de dirigentes a servidores. “Se é fácil dobrar uma nota de quinhentos euros, um monte delas dobra qualquer um”.

Na cidade de Cabedelo, no Brasil, houve golpe no baú do dinheiro da prefeitura. De onze vereadores, cinco foram presos e outros cinco “afastados”. Sobrou um e nem se sabe bem porquê. Perguntam os

Munícipes: “Cadê o Dinheiro Que Tava Aqui”? Como de costume, ninguém sabe. Mas sabe-se que dinheiro é tentação e facilmente corrompe. A vontade de ganhar muito e depressa vence preconceitos e princípios, faz esquecer valores em troca de outro valor palpável.

O meu chefe, que também era deputado na Assembleia da República, dizia-me muitas vezes: “Todo o homem tem um preço. Eu só ainda não sei qual é o meu”.

Óscar Wilde foi um escritor irlandês, mestre do sarcasmo e da ironia. Escreveu: “Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza”. Ele deve ter percebido que, quem tem dinheiro, tem muitos amigos. Ou, melhor, comensais. É o mesmo que juntar amigo com dinheiro emprestado: é razão para perder os dois. Daí não ser a melhor atitude emprestar dinheiro. Mais vale dá-lo. Quando se dá, faz-se um ingrato. Mas, ao emprestar, arranja-se um inimigo.

O dinheiro é o motor da economia, mas não tem “cartão de cidadão”, identidade, nem responsabilidades legais pelos problemas que nós geramos. Cabe-nos a nós a responsabilidade de o conseguir, de saber como, quanto e de que forma. E, sobretudo, de o saber usar. Porque não é rico quem ganha muito, mas quem muito poupa. Com alguma ponta de inveja, um amigo falava-me de uma pessoa que tem vindo a acumular património à custa de muito trabalho e sacrifício, como se fosse caso único. Tive de lhe “lembrar” que podia ter um património ainda maior do que o outro, pois ganhara muito mais dinheiro que ele, não fosse tê-lo “derretido” em jogo, mulheres e carros, a ilusão normal do dinheiro fácil. E o problema, é que se transmite aos filhos o hábito do consumismo desenfreado e irresponsável, dando-lhes a ideia que o dinheiro cai das árvores sempre que se precisa, bastando um pequeno abanão, que é como quem diz, “oh pai, dá-me dinheiro”. E o pai dá, sem conta, peso e medida. São erros que nós pagamos, são lições erradas que as gerações seguintes sempre vão pagar.

O dinheiro é um ditador que tanto faz apelo ao trabalho, à força de vontade, à dedicação, ao sacrifício, à persistência e a tantos atributos positivos do ser humano, como aos mais baixos instintos, levando a que não se olhe a meios para atingir um único fim: ter dinheiro, até muito dinheiro ou talvez muito, muito dinheiro. Como se o acumular dinheiro seja o fim em si, o objetivo e não um meio para…

Nos cemitérios, encontramos jazigos onde se perpetua a memória dos que ali estão sepultados, com epitáfios diversos, lembrança dos entes queridos. Nesta corrida infernal pelo dinheiro, só me falta ver num desses jazigos: “Aqui jaz o homem mais rico do cemitério”.

Mas, com a competição feroz que há, é título que se pode perder a qualquer momento…

Esta mania de “meter o bedelho onde não se é chamado”…

Os dois automóveis chegaram quase em simultâneo vindos de lados opostos e, ao encontrarem-se em pleno cruzamento, pararam já que cada um queria virar à esquerda, cortando a linha de trânsito do outro. De repente, como que impelidos por um comando único, arrancaram ao mesmo tempo e chocaram de frente. O estrondo foi grande, alguns os estragos e espectadores… nenhum. Só os dois condutores “viram” o acidente. Com o barulho da colisão o dono do café próximo e os poucos clientes, movidos pela curiosidade, saíram a correr para ver o que se passara, rodeando os carros sinistrados. De dentro de um deles, muito combalido, saiu um homem de idade enquanto no interior do outro a jovem condutora deitava as mãos à cabeça incrédula. Logo a seguir, dois automobilistas encostaram à berma e pararam, ao verem que havia acidente. E juntaram-se “à festa”, querendo saber o que acontecera. Instalou-se uma grande confusão quando a mulher de meia idade que saíra de um dos carros apontou o automóvel da jovem sinistrada e acusou: “Aquela é que foi a culpada, porque não parou no cruzamento” … Mas não ficou sem resposta, pois o rapaz de cabelo encaracolado encostado ao carro da adolescente, saiu em sua defesa: “Você não vê que foi ele que não lhe deu passagem”? Quase todas os que iam passando, de carro ou a pé, paravam e juntavam-se ao grupo, fazendo engrossar a multidão ao redor dos sinistrados: “O que foi que aconteceu”? “De onde vinha”? “Quem foi o culpado”? “É alguém conhecido”? “Para onde ia”? E, umas vezes devagar, outras vezes “de cabeça”, entravam na conversa, quando não na discussão, em que cada um já contava a sua própria versão do acidente e tomava partido por um dos sinistrados, como se tivesse presenciado e fosse testemunha ocular do acidente.

Somos assim. Faz parte da natureza humana este desejo mórbido de “meter o bedelho onde não somos chamados”, de espiolhar a vida dos outros. Daí o sucesso do “Big Brother” e outros programas que tais. Porque queremos saber dos podres dos outros (talvez para esquecer os nossos). Nos acidentes, não só queremos estar informados do que aconteceu, como aconteceu e porque aconteceu, ainda que ninguém nos consiga elucidar. E até tomamos partido e tendemos a inclinar-nos a favor de um dos lados, como quando vemos um jogo de futebol em que não conhecemos nenhuma das equipas. Ao fim de poucos minutos, estamos a desejar que ganhe uma delas, seja pela cor das camisolas, pela cara de um jogador, por uma ou outra atitude que nos tocou. É difícil ficar neutro.

Também num acidente onde se chegou atrasado, normalmente toma-se partido e tantas vezes sem saber qual a razão. E depois de “colher a informação completa”, as pessoas vão-se embora e replicam a história do acidente com muitos outros “acidentes” à mistura, transformando um pequeno sinistro neutro e vulgar, numa história com enredo próprio de guião de filme. E ao fim de contarem a história do acidente uma dúzia de vezes, cada vez mais alterada, resulta em algo como: “Conheces aquela senhora de cabelo ruivo, comprido e liso, que anda a passear todas as manhãs na rua com um cão pequenino e que tem uma tia velhota a viver por cima da senhora Miquelina, que mora ao lado daquele senhor doente que anda sempre a tossir, pai daquela solteirona de cabelo preto? Ora, a prima dela, que trabalhou na casa de roupa de criança que fica perto dos Bombeiros e agora faz limpeza na loja da esquina, casada com um homem grande e barrigudo que tem um Mercedes preto, entrou no cruzamento da sapataria sem dar sinal, bateu com a frente ao de leve num Skoda azul que vinha da esquerda conduzido por um coxo que é primo daquela boazona que está naquela loja de roupa …”

Num acidente, o grande perigo de que temos de nos precaver vem dos mirones. Param de qualquer maneira, sujeitos a provocar ou ser vítimas de alguém que não consiga parar a tempo. Porque, ao ver um acidente qualquer, mesmo que já lá esteja alguém a dar assistência, a curiosidade manda parar para saber o que aconteceu. Fazemos disso questão de honra para depois contar aos amigos em primeira mão, como se tivéssemos assistido ao acidente em lugar privilegiado e sejamos o “juiz” mais habilitado para contar, comentar, julgar e condenar o culpado.

O meu amigo Zé teve um acidente. Em conversa afável o condutor da outra viatura deu-se como culpado e aceitou o acordo amigável. Tudo estava bem até ao momento em que os “mirones” entraram em cena. Tomaram partido e fizeram com que o culpado “desse o dito pelo não dito” e se recusasse a assinar a declaração amigável que acordara. Com a interferência dos mirones alheios ao ocorrido, foram parar a tribunal e … perderam os dois. O habitual… Como se não bastasse, ao parar para satisfazer a curiosidade inata ao comum dos portugueses, também se tem de tomar posição e defender convicções de culpado ou inocente, mesmo sem ter visto nada.

É este voluntarismo ingénuo e espontâneo que nos caracteriza, onde em regra se põe o coração e não a razão, que nos torna especiais. E nos permite comentar sem ver, criticar sem conhecer e julgar sem saber. O curioso é que, anos mais tarde, quando já ninguém se lembra do que aconteceu nem como aconteceu, alguns destes mirones ou outros que nem sequer o foram, são arrolados como “testemunhas isentas e sérias” por um daqueles sinistrados, para jurarem a pés juntos e pela saúde da sua rica mãe”, que viram o acidente, relatando-o com pormenores de romance policial e fazendo inclinar a balança para o lado da “injustiça”, sem que nada lhes pese na consciência. E até se compreende, porque só pode acontecer a quem a tem …

Por favor, não “inferem” a Becas…

A raiva é uma infeção provocada por um vírus e transmite-se através do contacto da saliva, por mordedura. Foi erradicada em Portugal há muito tempo, mas como precaução, a vacina é obrigatória para cães com mais de três meses de idade. E a Becas, a minha nova cadelita, está vacinada e protegida. No entanto, tenho andado preocupado, muito preocupado mesmo, porque corre sérios riscos de poder vir a ser infetada com uma nova “variante” desse vírus mortal e não sei como protegê-la. O novo “vírus” tem-se espalhado a uma velocidade incrível, maior do que a dos incêndios do verão passado no centro do país, tornando-se já uma epidemia que o Ministério da Saúde deve reconhecer a qualquer momento. E o meu grande receio é que um dos infetados apanhe a Becas distraída e lhe pregue uma mordidela “à falsa fé”.

O problema é grave e todos os dias podemos ver gente infetada com o novo “vírus”. Basta assistir a qualquer programa de televisão sobre futebol e ouvir comentadores “isentos”, para ver as manifestações da “doença,” em convulsões violentas. Arreganhando os dentes de forma agressiva, “infetam” todos os que não estão imunes às “mordeduras”, transmitindo o “vírus” pessoa a pessoa, em contágio sucessivo, dos cafés ao emprego, das tertúlias aos tascos. Os dirigentes inflamam os adeptos e estes as redes sociais, onde vertem o “vírus”, convencidos de que são opinião avalizada e não sectária, disseminando a doença de forma avassaladora. E são tantos os “infetados” que, nesse jogo da bola, “mordem” com violência, sem já se aperceberem que o fazem. Como se fosse natural.

Mas, se passarmos do futebol à política, as manifestações de “raiva” são mais que muitas, porque não são admitidas opiniões contrárias. Há que denegrir os adversários, atingi-los na sua vida pública ou pessoal com tudo o que há de pior, “mordendo” de qualquer jeito e em qualquer sítio para tentar abatê-los e diminuir a concorrência. E “ataca-se” com a estratégia da “alcateia”, em grupos organizados, não se limitando a “morder” só os inimigos externos, de outros “credos”, mas também os próprios companheiros de grupo que possam ser um estorvo para as suas ambições pessoais. Da Assembleia da República às Assembleias Municipais, dos Congressos partidários aos comícios, a doença está disseminada. Ouvi-los e vê-los, é assistir ao contágio do “vírus” em direto e a cores, nalguns casos na forma mais “virulenta”. E infetam legiões de seguidores, que o reproduzem com mais ou menos intensidade, num “efeito bola de neve”.

É por isso que não deixo a Becas ver televisão, ler jornais ou ouvir rádio. Muito menos entrar nas redes sociais e ler opiniões inflamadas e agressivas, ofensivas da boa educação. São “mordeduras” graves e muito contagiosas, que a podem “infetar”. E sei que a “raiva” pode degenerar em ódio, um derivado ainda mais perigoso e fatal porque atrai a vingança, num círculo de “ferro e fogo” que não para.

Os acessos de “raiva” não são um exclusivo do mundo do futebol, da política e das redes sociais. Nada disso. A “infeção” já alastrou a toda a sociedade e é visível em manifestações mais ou menos públicas. Algumas delas são feitas às escondidas, com o “raivoso” a “morder pela calada”, atrás do anonimato cobarde e mesquinho.

Um amigo, dirigente conceituado de uma instituição social à qual dedicou parte da sua vida, desabafou comigo, triste e revoltado, por ter recebido uma carta anónima onde o acusavam de vários absurdos inimagináveis. Estava chocado com tanta maldade e mentira, que só tinha um pensamento: demitir-se. Ele, que dera uma boa parte da sua vida à instituição como voluntário, era vítima da “raiva” vertida por um “covarde”, que só o queria destruir. Quando li a carta, não reagi e ele, ansioso, perguntou-me: “Não achas revoltante? Porque é que eu tenho de aturar isto”? Vou-me embora e não quero ouvir falar mais na Instituição” … Não foi fácil, mas consegui acalmá-lo. Mas ainda o ouvi: “Eu pensava que dediquei a minha vida a cuidar de desgraçados e, afinal, o desgraçado sou eu”. Tive então de lhe dizer umas quantas coisas a que ele estava alheio. É que, nem sequer sabia que as cartas anónimas viraram praga e os dirigentes das IPSS são os mais visados. Usa-se e abusa-se desse meio para, a coberto do anonimato, denegrir, vilipendiar e tentar manchar a reputação de gente séria que dá o seu melhor ao serviço dos outros. A vez dele chegara, como chegara a de tantos outros. E vai continuar.

A delação dos informadores no tempo da PIDE era criticada e hoje a lei alimenta e protege os “bufos” que condenava no tempo da ditadura. O que não deixa de ser curioso… E disse-lhe ainda que eu também já tive o “privilégio” de receber umas quantas cartas anónimas enquanto dirigente da instituição a que presido. Para mim, são um bom indicador. Se não as tivesse recebido, era sinal de que era “um banana”, “um gajo porreiro”, mas que não zelara pelos interesses da Instituição. Já me acusaram de bater nos idosos do Lar, de os roubar, dar-lhes fome e outras mentiras mais que mirabolantes, que só uma mente em delírio seria capaz de inventar. E até enviaram cópias ao Presidente da República, Polícia Judiciária, Segurança Social e outras entidades.

Preocupado? Nada, nem sequer um pouco. Estou de consciência tranquila, tal como os restantes dirigentes da Instituição. Com esta autoridade moral, participamos ao Ministério Público e informamos a Segurança Social porque, “quem não deve não teme”. Há que alertar as autoridades para o perigo de mentes “raivosas” à solta. E temos de proteger os calcanhares…  Por isso, o meu amigo só podia sentir-se ofendido por ter recebido uma única carta anónima. Já tinha estatuto para ter mais no currículo…

Cartas anónimas são habituais quando a Instituição está bem e é ano de eleições. Porque, quando está mal, ninguém lhe pega. Carregam a “raiva” e, ao mesmo tempo, a cobardia dos seus autores, incapazes de denunciarem os factos (se os tiverem) nos locais próprios e de cara destapada, como gente de bem. Que não são. Ao ouvirem relatos de ilícitos numa ou outra instituição, “medem todos pela mesma bitola” e julgam os outros em função daquilo que eles próprios são.

Se os “acessos de raiva” que vemos na televisão e redes sociais são o sintoma triste e deprimente de que parte da sociedade é intolerante e doente, as cartas anónimas são reveladoras de gente com “raiva” e incapaz de se assumir, o que a torna mais perigosa para a Becas. É que, jovem e ingénua como é, pode deixar-se “morder pelas costas” por “cão raivoso que não dá a cara”. Por isso, vou ter de protegê-la com a única vacina que conheço ser eficaz contra esse perigo: “Uma consciência perfeitamente tranquila” …

Pelo sim, pelo não, árvores abaixo…

Ando muito atarefado e já quase não tenho tempo para escrever a crónica da semana. E isso traz-me uma preocupação: a possibilidade de ser despedido pelo diretor do jornal e ficar sem emprego. E sem ordenado… A razão principal está nas árvores do meu jardim e no malfadado decreto de limpeza das florestas. Não tenho uma floresta à volta de casa, mas tenho árvores que se tocavam umas às outras e cuja copa estava perto de casas, a começar pela minha. Como sou burro e não sei interpretar a lei, ao que parece tal como os seus autores, pelo sim pelo não achei que era melhor deitar abaixo a maior parte das árvores que plantei já lá vão quarenta anos, com muito amor e carinho. Algumas têm troncos que não consigo abraçar. É a forma de me ver livre de autoridades à porta de casa e de receber um “papelinho” de que ninguém gosta, para ir pagar um certo valor em euros, que me faz mais jeito a mim do que ao estado (embora este tenha uma dívida bem maior do que a minha). Quem está feliz com esta decisão é a minha família. Já estavam fartos de me repreender, pois não querem que ande pendurado nelas, feito macaco, a esgalhá-las e limpá-las, às vezes a mais de quinze metros de altura. Chegam a dizer-me que tenho idade para ter juízo. Feliz também está minha a mãe porque, com o abate das árvores, de porte considerável, vou arranjar-lhe uma boa rima de cavacos (porque eu não gasto).

Ao abatê-las, fico dividido. Triste por ter de matar aquilo a que dei vida. Plantei-as há tanto tempo e deram-me muito, em sombra, verde, sinfonia de pássaros, beleza, frescura de verão e prazer. Daí que não seja nada fácil uma decisão destas. Mas, na sua morte, encontro a compensação de usar a força dos braços para cortar, serrar e rachar os troncos em cavacos. E, por estranho que pareça, gosto de rachar lenha. É uma mania como outra qualquer. Tenho jeito para pegar no machado, o que não é de admirar, porque o “carrego” todos os dias… no nome.

Como ainda ficaram quatro ou cinco em pé, vou ter de decidir se mando tudo abaixo e deixo o terreno mais careca do que eu ou se arrisco, deixando alguma delas já sem “família”, plantadas na encosta sem ter quem as proteja dos ventos fortes que vêm do lado do mar em dias de tempestade. E são cada vez mais. Também tenho de decidir o que fazer com os arbustos, trepadeiras e tufos de ervas rasteiras, pois dizem que o terreno tem de estar limpo, não sei se igual ao interior da moradia ou como nalgumas casas de banho públicas em dia de feira…

Bom. Não fiquem preocupados porque ainda não perdi o juízo. Gosto do meu jardim e são outras razões, que não as de um decreto lei feito à pressa para “tapar olhos”, que me leva a medidas tão drásticas. Mas é certo que, isto de limpar os terrenos florestais bem limpos até ao dia quinze de Março, tem muito que se lhe diga. E eu não acredito e ninguém acredita, que o país vai fazê-lo da forma que o governo quer e obriga (será que sabem o que querem dos cidadãos?). Para limpar uma faixa de dez metros de largura ao longo das estradas deste país já é tarefa impossível. Seriam precisos meios que não temos, dinheiro que não há e gente que está lá fora (e não está cá). E tempo. Por outro lado, é uma estupidez pegada querer que a limpeza seja efetuada até quinze de Março. É que, lá para meados de Agosto, os terrenos terão outra vez mato e todo o tipo de infestantes tão desenvolvidas, que vai ser necessária nova limpeza, com novos custos. E quem vai passar a vida a fazer limpeza e gastar dinheiro nos terrenos que produzirão nada? Serão só um custo que não gera rendimento. É melhor dá-los a quem queira gabar-se de ser proprietário, se houver quem. Caso contrário, será conveniente entregá-los ao estado… e o estado que os mande limpar, se é que o vai fazer. Que se saiba, não o faz naquilo que já tem. Basta ver bermas e taludes de estradas que são propriedade sua, já para não falar nas matas nacionais…

A nossa região é caracterizada por aquilo que se chama “povoamento disperso”. Isto é, há casas “plantadas” por todo o lado. Ao contrário de outras regiões onde as construções estão concentradas em pequenas ou grandes povoações, nós espalhamos as habitações ao longo das estradas à medida que elas se foram abrindo, fosse no interesse das populações ou dos proprietários… Por isso, é fácil encontrar essa mistura explosiva de casas e matas (não costumamos chamar-lhe floresta, até porque raramente as matas são de grande dimensão), o que, à luz da lei, vai obrigar os proprietários a limpar tudo num perímetro entre cinquenta e os cem metros a partir da parede exterior das casas (o que acho ser muito pouco. Seria preferível o raio de um quilómetro e, mesmo assim, num incêndio como o de Outubro passado, não era suficiente).

Ora, como as matas não são grandes, é certo e sabido que algumas pessoas vão pensar que têm uma bouça, de onde, eventualmente, podem retirar algum rendimento. Mas, na realidade, o que têm é um problema, pois pode estar toda dentro do tal perímetro e lá se vai o rendimento, mas fica o custo.

Isto não vai resultar? Vai… durante os dois primeiros anos. Enquanto não há nada para arder. E depois? Logo se verá. Tal como não vai dar certo ter meia dúzia de sapadores por aí, a trabalhar oito horas por dia pelo que se diz, como num escritório. Ao que sei, os incêndios não param de “lavrar” para ir dormir… E se não resolver? Os governantes têm joelhos que servem de mesa e é fácil lançar novas medidas e com elas outros custos para os mesmos (que somos todos, especialmente os proprietários). E já ninguém se lembrará destas medidas avulso, a não ser aqueles que as pagaram e que vão ficar sem os “cavaquitos” para o inverno. Em bom abono da verdade, não é um mal para todos. Que o digam chineses e espanhóis, quando tivermos de consumir mais um bocado de eletricidade para não “raparmos” frio, vendida pelas suas empresas. Eles agradecem, cobram… e nós pagamos.

Quem tem coragem de se esquecer?

A dona do café estava muito surpreendida. Quase na hora de começar o jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Liverpool para a Liga dos Campeões, o café continuava praticamente vazio. Ao contrário do que era habitual neste tipo de jogos, os clientes não apareceram. Desconhecendo a causa de tal debandada, comentou isso com uma colaboradora e amiga. E ela deu-lhe uma boa razão: “Hoje é o Dia dos Namorados. Tu achavas que os clientes tinham coragem de vir ver o futebol e deixar a namorada ou a mulher em casa, sem irem jantar fora? Desengana-te”. E, tirando um ou outro cliente mais idoso, certo é que a grande maioria de clientes habituais, não apareceu. O café ficou “às moscas”. Os que não gostam da equipa dos “dragões”, é natural argumentarem que os adeptos portistas já adivinham o “desastre” em casa e temiam apanhar uma “abada” como veio a acontecer, mas a realidade é que a razão foi mesmo a invocada pela amiga: “não podiam faltar ao compromisso, que implicava jantar fora com a namorada ou mulher. O resto, era conversa”.

Se recuarmos alguns anos atrás, o Dia de S. Valentim mais conhecido por Dia dos Namorados, era ignorado pela maioria da população e, tirando casos isolados de casais de namorados, passava despercebido ao comum do cidadão. Mas isso era há uns anos atrás. Agora entrou na moda sair e comemorar. Por isso, quem é que tem coragem de esquecer uma data destas? Ninguém. Melhor, nenhum homem.

Nós temos tendência para não dar importância a datas, esquecendo o aniversário da mulher, do casamento e da sogra, do dia em que conhecemos a cara metade, do dia da mulher e tantas outras que agora são tidas como datas importantes e têm de ser festejadas, doa a quem doer. E, entre essas datas, está o Dia dos Namorados. Quem é o homem que arrisca esquecer tal dia? Nenhum. Nem sequer os que são casados (e que na grande maioria já nada têm de namorados) se permitem correr o risco. Tal como a malta mais ou menos nova, têm de vestir a sua melhor “fatiota” para estar à altura da “toilete da madame” e ir jantar fora. No mínimo. Mas não pode ser a um sítio qualquer. Que é isso? “Ir comer àquele “restaurantezeco” da esquina? Não faltava mais nada”, diz a mulher ou a namorada.

E o homem, como macho convencido que quem manda lá em casa ou na sua relação é ele, tem sempre a última palavra: “Sim, querida. Vamos onde tu quiseres”. É que, nas “fofocas” com as vizinhas, quando uma mulher sabe que a outra vai ao restaurante X, ela decide logo que tem de ir jantar a uma quinta. Está-se a ver porquê…

Mas, há que ter em conta que é preciso reservar lugar “naquele” restaurante ou “naquela” quinta com muito tempo de antecedência, caso contrário, corre-se o risco de “bater com o nariz na porta” e ter de ir comer uma febra grelhada à Tia Maria ou um hambúrguer com maionese no MacDonalds e, mesmo nesses, esperando na “bicha”. E isso não ajuda nada ao “bom nome” do homem junto da mulher ou namorada. E estou a lembrar-me dos pais de uma pessoa amiga. Como o pai está a trabalhar no estrangeiro, quando veio gozar uns dias a Portugal, em cima da hora decidiram ir jantar fora. Mas era o Dia dos Namorados. Correram os restaurantes que conheciam e acabaram por jantar muito bem… em casa. Estavam todos esgotados. Por isso, é melhor fazer a reserva já para o próximo ano. Se até lá terminar com a relação, não se preocupe, pois pode servir-lhe para a relação seguinte ou mesmo ganhar alguns euros ao revender a sua reserva ao “desgraçado” que se tenha esquecido e esteja “à rasca” …

Mas se o homem pensa que levar a sua querida a jantar fora já é suficiente para o “manter em alta” na sua consideração, quem sabe com direito a “prémio” depois da janta, desengane-se. E o resto? Sim, o raminho de flores (e não pode ser um ramo qualquer)? Se não “andar da perna” e deixar a compra para a última hora, é certo e sabido que já não vai encontrar as rosas vermelhas de que ela tanto gosta e que são o símbolo do amor e da paixão. E depois? Oferece-lhe um ramo de cravos amarelos ou de jarros brancos? Mais valia pegar numa corda e enforcar-se, pendurado pela cintura (pelo pescoço não, porque lhe falta o ar …). E ficamos por aqui? “Alto e para o baile”. Há mais qualquer coisa. E a prenda? Sim, a prenda? Pode ser uma peça pessoal em ouro ou prata. Cai sempre bem e marca pontos junto da sua “mais que tudo”. Se a “massa” não sobrar muito depois de pagar o jantar, tem de saber escolher algo que permita um brilharete sem ultrapassar o orçamento. Como alternativa aos objetos pessoais, deve optar por uma dormida fora em hotel com spa. Pode acabar por ser um pouco mais caro, mas um dia não são dias e tem duas vantagens: por um lado, ela gosta (e vai a pensar nas massagens no spa) e por outro, o homem também gosta (e vai a pensar nas “massagens” noutro local, que não o spa…).

Na pressa dos dias, inventaram-se os dias com nomes para não haver pressas. E as empresas comerciais, através do marketing agressivo e da publicidade intensa, encarregaram-se de gravar a fogo na mente de todos nós, a imperiosidade de os comemorar condignamente. Ou não estejam elas interessadas no negócio que isso gera. É uma forma de escapar à pressão das rotinas diárias, que torna os dias iguais. E nisso, as mulheres estão aí para nos lembrar, quando algum de nós tem o atrevimento, a ousadia ou a coragem de se esquecer. É que, se o esquecermos, durante os próximos cem anos (se tanto durarmos) e nos momentos certos, vão cobrar-nos esse lapso de memória infeliz e atirar-nos à cara: “porque tu há cinquenta e dois anos, esqueceste-te de me levar a jantar fora no Dia” … É que elas nunca esquecem…

O cães “ladram” e a caravana…

Quando pela manhã consigo vencer a preguiça e arrastar o traseiro para fora da cama, visto o fato de treino, calço as sapatilhas (não percebo porque raio agora teimam em chamar-lhe “ténis”) e ponho um boné. A Becas, a minha nova cadelita, corre para mim com o rabo a abanar tanto que, qualquer dia, ainda se desaparafusa e cai. É a sua forma de exprimir alegria pelo passeio que se avizinha. E não acalma enquanto não lhe colocar a trela e caminhar para a porta da rua. Ao atravessar a soleira e dar os primeiros passos lá fora, a “sinfonia” começa de imediato, tocada pela “cãozoada” dos arredores: “Ão, ão, ão. Béu, béu, béu”. Gostava de saber como é que os cães, alguns deles distantes e em lugares de onde é impossível verem-nos, dão conta de que estamos a passear. Ou melhor, de que ela está a passear… E ao longo de toda a caminhada a cena repete-se constantemente, com cães grandes e pequenos, presos ou soltos, escondidos ou à vista, mais próximos ou mais distantes, todos a ladrar. Às vezes, até dou comigo a imaginar no que cada um estará a dizer, eventualmente em “conversa” com o cão vizinho porque, se for para ela, dá-se ao luxo de não lhes responder. Não sei se algum dos cães a cumprimenta com um “bom dia” ou “olá” ou se até tem o atrevimento de lhe atirar um piropo (que se cuide, pois ainda pode ser acusado de assédio sexual). Pela forma vigorosa e agressiva como alguns cães ladram, penso que as suas intenções não são nada simpáticas, postura de seguranças à entrada de discoteca. Calculo que os cães mais “convencidos”, talvez dececionados porque ela não lhes liga, vão dizendo entre dentes e rosnadelas para os que os rodeiam: “Esta cadela tem a mania e não nos liga nenhuma”. E “quem será esta meia-leca sarapintada”? Ou, num lamento latido, afirmam: “quem me dera poder também passear o meu dono, em vez de estar aqui amarrado o dia todo ao cadeado, sem água nem comida”. Há também os atrevidos, geralmente cães vadios, que se aproximam devagar para lhe cheirar o rabo, ladrar duas ou três vezes e urinar na parede mais próxima a marcar terreno. Chega a ser curioso observar os seus rituais, as reações com a cauda para cima (amistosa) ou para baixo (agressiva), o medo e a simpatia, a curiosidade e a indiferença. A Becas não se dá por achada. Só num ou outro caso é que se permite dar-lhes atenção, abanando a cauda de satisfeita. Caso contrário, cheira em volta e, em resposta, também “marca terreno”, urinando.

Tudo isto não será muito diferente do comportamento dos seres humanos… Basta passearmos na rua e vemos logo que temos muito em comum, embora com procedimentos diferentes. Se homens ou mulheres passam na via pública, especialmente em meios pequenos como o nosso, como é que reagem as outras pessoas à sua passagem? “Ladram” também, não da mesma forma que o fazem os cães, mas à maneira humana.

Em regra, os cães são mais “transparentes”, pois exteriorizam bem alto a sua “fala”. Nós “ladramos” em surdina para alguém que esteja ao nosso lado, disfarçadamente, para os visados não nos ouvirem. Na minha (in)capacidade de tradução das “falas” caninas, os seus “comentários” à passagem da Becas são muito de regozijo por ela estar em liberdade, sinal de solidariedade canina, do que de inveja ou fofoca sobre a sua vida privada.

Ora, já o mesmo não se poderá dizer do “latido” dos humanos ao verem outro humano a circular na rua. Em regra, são muito mais críticos que simpáticos. Se for mulher, que passou a andar bem vestida, é algo assim: “Como é que esta gaja arranja dinheiro para andar tão bem arriada, se só ganha o salário mínimo? Há moiro na costa…” Ou algo como “já viste o corte de cabelo daquele? É tão ridículo…” E, “não sei de que é que este fulano vive”. Quando o visado é homem, pode ser: “este tipo comprou carro novo, mas não paga o que me deve”. Ou “vejam lá aquele senhor, com a posição social que tem e anda tão mal vestido”. Pior ainda, se um homem passa três vezes em frente da casa de uma mulher, mesmo que por acaso: “Aquele anda a rondar a porta da Maria. Aqui há gato” …

Para além disso, ao contrário dos cães que só ladram enquanto sentem a presença do outro cão, nós ficamos a “ladrar” do visado muito para além da sua passagem. E a duração do “corta e cose” só depende de ter ou não quem faça coro e alimente a conversa. Fala-se do que se vê e do que se não vê, do que se sabe e muito mais daquilo que se não sabe. Num ápice, conta-se a vida do transeunte mesmo que, de facto, nem se conheça. Relatam-se os locais onde se viu, o que disse, se sorriu ou chorou, com quem estava, o que fez e, com algum jeito, o que estava a pensar.

Os cães são frontais. Se não gostam, ladram. Se têm medo, ladram. Se estão contentes, ladram. E ladram sempre, sem subterfúgios, sem disfarces, sem alibis. Nós não. Temos dificuldade em ser diretos, em assumir os comentários que fazemos. Por isso, falamos escondidos atrás da vidraça, do balcão ou do muro, quase sempre baixinho e “à boca pequena”. “Ladramos pelas costas”, muitas vezes sem saber de quê e porquê. A necessidade imperiosa que temos de “desenferrujar a língua”, “de morder pela calada”, “de cortar na casaca” dos outros, põe-nos a matraca a dar, a dar.

Para quem passa “na caravana”, tem de agir como a minha cadelita: Levantar a cabeça e seguir em frente, sem dar importância ao ladrar da “cãozoada”, nem valorizar os cochichos e olhares indiscretos.

Os cães só cheiram o cu dos outros para os identificar. Porque é pelo cheiro que os reconhecem. Nós, não. Tentamos “cheirar” quem passa para saber da sua vida e “meter o nariz onde não somos chamados”.

Mesmo que seja no mesmo sítio onde os cães cheiram os cães…

 

Só com sacrifício e muito trabalho é possível realizar os sonhos…

Não sou dos que tem horror a chefes. Nunca tive qualquer complexo em relação a quem mandava em mim, porque sempre pensei que é muito importante haver quem mande. E saiba mandar. E uma boa parte da minha vida fui subordinado, tanto em organismos públicos (onde não parei muito tempo, felizmente), como em empresas. E recordo com saudade alguns dos meus chefes de serviço, com quem aprendi e de quem fui amigo. Mas há um por quem nutri uma admiração especial, pela sua história de vida, pela seu trabalho e luta para perseguir e atingir um sonho. Em tempos difíceis e ainda garoto, partiu para Angola, onde começou como marçano, servindo ao balcão de um estabelecimento comercial. Como não queria que fosse esse o seu futuro, foi estudando à noite, num regime de disciplina rigorosa até completar o liceu, o que viria a conseguir sem perder um único ano. Mas ainda não alcançara o seu objetivo, o seu sonho. Queria ser agrónomo. Matriculou-se na faculdade, continuou a trabalhar e estudar com um programa rigoroso onde definia ao minuto os tempos de trabalho, de estudo e lazer, sem ceder à tentação do desleixe ou do convite imprevisto. Cumpria o horário com rigor espartano, mas concluiu agronomia sem uma reprovação e com excelente média. Quando no final do curso um amigo lhe disse “tu tens cá uma sorte!!!”, ele só lhe conseguiu responder: “se tu soubesses quanto custa ter sorte”??? Sempre que me lembro dele, vem-me à memória a sua história de vida, da perseguição de um sonho que conseguiu somente à custa de trabalho, muito trabalho mesmo, a quem só a má fé ou ignorância poderia estupidamente chamar de “sorte”. Seria caso para dizer: “tive sorte uma ova…”

Mas, se a história do meu antigo chefe pode e deve inspirar qualquer um, há quem invoque argumentos facilitadores desse sucesso, como o caso de ter começado muito jovem e com emprego estável, que lhe permitiu um rendimento seguro. E não ter quaisquer compromissos nem responsabilidades, fatores que fizeram toda a diferença. Até certo ponto, são circunstâncias que deram o seu contributo para o sucesso. Mas não apagam de forma alguma o empenho e dedicação, que saem intocáveis e podem servir de modelo a muita gente.

São muitos os exemplos desse esforço para ir mais além em busca de um sonho, de uma vida melhor, de mais instrução. Em cada um há uma história com mais ou menos sacrifício, mais ou menos empenho, mas sempre com muito trabalho. Conheço uns quantos mais, que me merecem o maior respeito e admiração. Até porque nesse caminho de sacrifício, onde foram recebendo vozes de estímulo e alento, também encontraram inveja, raiva e maldade, onde só deveria haver apoio incondicional.

A senhora andava entusiasmada e feliz, pois conseguira passar a todas as cadeiras do primeiro período, o que era um acontecimento. E tinha muitas e boas razões para se sentir orgulhosa, embora não o demonstrasse, escondida atrás da sua simplicidade e humildade: fora dos poucos alunos que “limpara” o período, entre as dezenas que frequentavam aquele primeiro ano da faculdade, a grande maioria muito mais jovens do que ela; voltara a pegar nos livros quase duas décadas depois de deixar a escola secundária, tempo que dedicara a cuidar da família; para poder estudar e continuar a sustentar a casa, tem três empregos onde trabalha à hora a cuidar de idosos e doentes e até a fazer limpezas, sendo a sua única fonte de rendimento; e seria uma omissão grave não dizer que tem a seu cargo uma criança de que é mãe e de quem cuida com responsabilidade, zelo, carinho e amor, fruto de um casamento que acabou em divórcio há muito tempo. E isso fez com que tivesse de “agarrar a vida pelos cornos” para “poder dar conta do recado” e “levar a água a bom porto”. Por essas razões e muito mais, tinha bons motivos para se poder orgulhar. Foi com esse estado de espírito que encontrou uma amiga de longa data, que conhecia bem a sua vida de trabalho e sacrifício desde o colapso do casamento.

Falaram disto e daquilo e, na sua simplicidade, disse-lhe que ganhara coragem e voltara a estudar, matriculando-se no curso com que sempre sonhou. E que tinha passado em todas as cadeiras do primeiro período. Enquanto contava o que lhe estava a acontecer, a “amiga” foi perdendo o tom alegre com que alimentara a conversa, esmoreceu e depressa se foi embora. Não voltaria mais a procurá-la. Inicialmente surpreendida, viria a reconhecer nela o sentimento de perda, por já não a ver na “mó de baixo” e não ser mais a “coitadinha”. Para além da inveja, que terá feito com que a “amiga” se fosse… E o mais triste, é que esta mistura de sentimentos negativos, de raiva e inveja, tanto ela como a mãe já os têm encontrado noutras pessoas, até mesmo na família, como se o seu sucesso educativo as diminua, como se fosse crime “levantar a cabeça” e querer olhar mais além.  Porque, bom, bom, era vê-la a trabalhar de segunda a segunda, todas as semanas do ano, sem descanso semanal nem mensal como o vinha fazendo desde que se divorciara, feita “gata borralheira” enfiada no canto, aquele canto onde não se provoca invejas nem se faz sombra a ninguém. Como se já não lhe bastasse a vida de trabalho e estudo, para ter ainda de “aguentar” estes “atrasos de vida” …

Ao conhecer este caso, não posso deixar de lembrar o sentimento que descobri entre agricultores de uma região do país há bastantes anos, que me deixou incrédulo: “Não estavam preocupados, nem sequer interessados em ter bons campos de milho. O que os deixava verdadeiramente felizes e lhes bastava, era que os campos de milho dos vizinhos fossem piores do que os seus” …

Após a revolução de Abril e em pleno período de convulsões, um dos militares que assumiu mais protagonismo mediático foi convidado para realizar uma conferência na Suécia. No final, um dos elementos da organização, perguntou-lhe qual era para ele o principal objetivo da revolução portuguesa. A resposta foi imediata: “Acabar com os ricos”. Ao que o sueco contrapôs: “Pois a nossa intenção por cá é de acabar com os pobres” …

Esta nossa tendência para o “fado da desgraçadinha”, de ver sempre o “copo meio vazio” e puxar para baixo quando se devia empurrar para cima, foi motivo de anedota nesse período revolucionário. “Um operário americano, quando via passar o patrão no Cadillac, dizia: “Um dia vou ter um carro maior do que o teu”. Já na Inglaterra, o operário ao ver o patrão num Rolls Royce, comentava: “Vais ver que um dia, se não tiver um carro igual ao teu, não vou andar longe”. E em Portugal, o operário ao ver o patrão no Mercedes, previa o seu futuro comum: “Um dia, vais ter de andar a pé como eu”.

Porque será que há quem fique desconfortável e com medo que “o outro” persiga ou realize o seu sonho e atinja o Céu???

A vingança das vacas…

A vida não é justa e, por mais que a gente berre, vai ser sempre assim. Que o digam as vacas. Sim, as vacas, esses animais enormes, lentos e com grandes cornos (para ser politicamente correto, deveria dizer “chifres”), que foram explorados das mais diversas formas ao longo de séculos. Mas não é preciso recuar tanto no tempo. Quando miúdo, a sua força era usada para transportar objetos muito pesados e puxar o arado, vindo só a deixar tal tarefa quando chegaram os tratores, embora ainda há algumas regiões onde continuam a “alombar”. Além disso, foram e são uma fonte de fornecimento de numerosos bens de consumo e entram no fabrico de múltiplos produtos, tornando-se assim mais valiosas que qualquer animal de estimação. Por essa razão, há até quem diga que a vaca devia ser promovida a “melhor amigo do homem”, destronando o cão. Essa deve ser a razão pela qual os indianos ou, mais propriamente, os hindus, as chamem de “segunda mãe” (e até nem se importam que a mãe seja uma “vaca”…). Como as adoram, não as matam nem lhe comem a carne. Porque são sagradas. No entanto, acreditam que tudo o que vem delas é uma bênção. Até mesmo a urina e a bosta…

Andei uma vida a gozar com os indianos por viverem em situações de carência alimentar enquanto aqueles “pedaços de carne” se passeiam pelas ruas sem serem incomodadas, mas eles lá têm as suas razões. No respeito pela vida do animal, e apesar da recusa em comer a sua carne, consomem tudo o que podem tirar dela. Até os dejetos, vulgarmente conhecidos por “bosta”, usam como fertilizante nas terras de cultivo, no fabrico de incenso e, depois de secos, queimados para produzir energia.

Mas nós, também “esmiframos” as vacas “até ao tutano”. Usamos o leite, tanto no consumo em natureza como no fabrico de lacticínios. Comemos-lhe a carne, da cabeça ao rabo, do lombo à “mão de vaca”. Utilizamos a pele no fabrico de sapatos, carteiras, estofos, roupa e sei lá bem que mais. E até são ingrediente para gelatina, cosmética, fita adesiva, chicletes e medicamentos em cápsulas. Do sebo fabricamos sabões e sabonetes, detergentes e shampôs, rações, lápis e tinta. Os ossos, são usados no artesanato, cabos de talheres, botões, pentes, velas e outros. E até os chifres servem para o fabrico de adubos (se bem que há quem os use só para “enfeitar”).

Durante séculos, foi o animal perfeito para o ser humano, como base da alimentação e matéria prima para todas estas coisas. Só que, assim como acontece nos casamentos, ao fim de séculos “descobrimos” que não são “perfeitas”. As “brigas” começaram quando alguém, começou a dizer que a lactose do leite é “culpada” de provocar alergias a muita gente. “Mas que culpa temos nós que o leite lhes provoque gases (e vão ter de dar uns “traques” em locais inapropriados), comichões e outras maleitas”, questionam as vacas? “Até aqui, o leite sempre foi o alimento perfeito para o ser humano. O que mudou? O mundo ou o ser humano? É que, as vacas, são as mesmas”.

Não satisfeitos com “isto”, os homens (provavelmente com falta de dentes), inventaram novo problema: Não podemos comer “carnes vermelhas” que é como quem diz, não se pode comer carne de vaca. É vermelha”. Até podemos comer as brancas, as pretas e as mestiças, mas as “vermelhas”, não. É caso para perguntar: Afinal, como é que ainda não morremos todos ao longo destes anos, em que andamos a “papar” bifes mal passados e costeletas na grelha? Só agora é que passaram a fazer mal? Quem será que faz campanha contra as vacas, ao ponto de já não lhe darmos a honra e o privilégio de terem lugar à nossa mesa? Já não podemos apreciar uma “boa vitela”?

Como se isso não bastasse, os ambientalistas querem-nas riscar do planeta. Acusam-nas de consumirem mais espaço e água do que as sementeiras de cereais e que, para as alimentar, o homem tem de destruir muita floresta. Ora, tudo isto é injusto para quem tanto fez pelo ser humano. E agora, é esse mesmo ser humano a retirar-lhes importância e a fazer delas bode expiatório. Não têm elas motivos para se revoltar? Claro que sim. Pois, a revolta já começou…

Sem que a imprensa nacional e internacional o soubesse, reuniram-se em “plenário” num descampado do Brasil (porque é o país com maior número de vacas e, por isso, exportam-nas para todo o mundo. Por cá, já tiveram “muita saída” … E não fiquem a pensar que me refiro a outro tipo de “vacas”. Não. É mesmo à picanha e outros bons pedaços de carne…). Num referendo “vacário” realizado durante a noite e à socapa, entre mugidos, marradas e por unanimidade, decidiram levar a efeito a “conspiração das vacas”, para se vingarem do bicho homem, através de uma ação de toda a família bovídea, para boicotar a Terra, lançando para a atmosfera gases com “efeito de estufa”, naquilo a que chamam “peido coletivo”. Se bem o pensaram, melhor o fizeram. E aí estão elas a lançar para a atmosfera milhões e milhões de metros cúbicos de metano por segundo, pondo os ambientalistas com a cabeça à roda, a começar por Al Gore, já que o Trump (em bom português lê-se “Trampa”) não acredita nos malefícios da poluição.

Ora, segundo os entendidos nestas coisas, o metano vai para o ar e cria buracos no “ozono”, a camada que nos protege. Pelos buracos, os raios ultravioleta aquecem o planeta e derretem os glaciares, a temperatura sobe, o clima muda e fica tudo maluco (e não está já?). É assim que vem a seca e as ondas de calor, que nos provocam escaldões, fazem crescer os pelos e as peles e… É isso mesmo, “a vingança das vacas”.

Ora então, vamos lá deixar de provocar as vaquinhas, esses animais tão lindos e uteis. Não é preferível consumirmos leite, ainda que seja só no “leite creme”? E comer a vaca, mesmo que tenha de ser às escondidas? É que, se a “revolta das vacas” continua, não ganharemos para protetores solares… E teremos de nos render. E nenhum homem se quer render a uma vaca qualquer, ainda por cima com cornos grandes. Seria o seu pior pesadelo…

O que se faz com cem escudos?

Quando fui estudar para Coimbra levava o rótulo de aluno sofrível, com notas a rondar o dez. Cheguei mesmo a reprovar no segundo ano do liceu (que equivalia ao sexto ano de agora). Apesar de ter sido um bom aluno na escola primária e de até ter feito o exame de admissão ao liceu com distinção, não gostava da maioria das disciplinas nem sequer me sentia estimulado pelos professores. Só gostava das aulas do doutor Abílio e da sua forma de explicar a matéria, tornando a matemática e a física atrativas. No resto, era um sacrifício. Por essa razão, cheguei a dizer aos meus pais que não queria estudar mais. Como sabiam que eu gostava da agricultura e para evitar que fosse por diante com a ideia de abandonar os estudos, estimularam-me a continuar o liceu para poder entrar na Escola Agrícola, o que viria a acontecer. Ora, logo no primeiro trimestre, de aluno sofrível do liceu transformei-me num dos melhores de um grupo de mais de sessenta alunos. Era uma sensação nova e estimulante, que me levou no final do primeiro período a assumir para mim próprio que iria fazer tudo para conseguir notas que me dessem acesso à bolsa de estudo que o estado concedia na altura, pois os meus pais estavam a fazer um enorme sacrifício comigo. A mensalidade era alta já que, além das propinas, incluía também o custo do internato. Foi um ano de estudo intenso, mas compensador. Quando no fim do primeiro ano me dirigi ao professor da cadeira mais difícil e lhe disse que precisava de um dezassete para poder candidatar-me à bolsa, no seu sorriso tímido, disse-me: “Não precisas de pedir nada. A tua nota final é dezanove”. Foi assim que, nos anos seguintes, concluí o curso a custo zero. A bolsa era total.

Enquanto estudei em Coimbra, no início de cada período escolar o meu pai dava-me uma “mesada” para fazer face às minhas despesas pessoais. E era sempre o mesmo valor: cem escudos… Nem mais, nem menos: cem escudos. E tinha de fazer com que rendessem para todo o período. Ora, “todo” esse dinheiro dava-me para pagar a viagem na camioneta da Pacense até à Avenida dos Aliados e, a partir da Estação de S. Bento, o comboio para Coimbra. E fazer o caminho inverso no final do trimestre. Sim, porque só regressava a casa e voltava a ver os meus pais e família no final do período. Mas a “mesada” também me permitia acompanhar os colegas mais endinheirados nas idas a Coimbra ao sábado à noite, uma ou duas vezes por mês.

E essa fuga até à cidade, normalmente tinha no programa uma ida ao Texas, um restaurante pequeno que acabara de abrir na Baixa, inspirado na comida americana. Sentado ao balcão onde só cabiam quatro ou cinco clientes, a comida era sempre a mesma: “um prego com batatas fritas e um ovo a cavalo”, uma originalidade que me era desconhecida até então. Depois disso, íamos ao cinema Sousa Basto ver um filme de cowboys, que estavam em voga. As duas coisas, proporcionavam-me um fim de semana em cheio. Mas, apesar dessas “extravagâncias”, ainda conseguia poupar algum dinheirito para as férias, a que juntava alguns cobres mais ganhos nos trabalhos que fazia aos colegas menos estudiosos, mas de carteira mais recheada… Enfim, os cem escudos que o meu pai me dava rendiam muito…

E lembrei-me dessa quantia porque, há dias, fui apanhar o comboio Alfa a Campanhã e, contrariamente ao que é normal, cheguei meia hora antes da partida. E ainda bem porque, o antibiótico que andava a tomar, deu-me volta ao intestino e tive de procurar uma casa de banho mal cheguei à estação. Para minha surpresa, tinha à entrada um torniquete e ao lado uma máquina do tipo “papa-moedas”, com a indicação de que precisava de cinquenta cêntimos (cem escudos na moeda antiga) para ter acesso àquela “catedral do alívio”. E, confesso, não gostei. Era a primeira vez que pagava este tipo de “portagem” em Portugal. Até então, só me cobraram a “entrada” em locais de turismo intenso no centro de Praga e Paris.

Por cá, nunca pagara bilhete para poder “arriar o calhau”. Mas, como em tudo na vida, há sempre uma primeira vez… E não tive outro remédio senão “soltar” a moeda. Já não “aguentava” até apanhar o comboio (presumo que nos comboios o “alívio” ainda continua a ser à borla). Sentado na sanita, como não dava para ir a lado nenhum, ocupei o tempo a meditar no assunto. E então ocorreu-me uma questão absurda: como era possível que a utilização de uma casa de banho pública por uma única vez, me custasse tanto como a “mesada” que o meu pai me dava para um trimestre escolar?

Ora, sentado na sanita da Estação de Campanhã, comparava os cem escudos dos meus pais com estes cem escudos (agora tornados moeda de cinquenta cêntimos) que tinha entregue de má vontade àquela máquina estrategicamente colocada por quem faz dinheiro à custa das nossas “necessidades”. E dizia cá para comigo: “Como as coisas mudam. Os cem escudos do meu pai, chegavam e sobravam para as minhas extravagâncias ao longo de um trimestre. Permitiam-me até fazer algumas refeições num restaurante e ir ao cinema. Em contrapartida, os cem escudos (cinquenta cêntimos) que agora me esfolaram, só vão dar para “despejar o saco” e nada mais”. Ou seja: os primeiros, davam para comer e ir várias vezes ao cinema. E os de hoje, só me permitiam pôr o cu naquela sanita uma única vez. Nada mais. Se estivesse de “caganeira” e precisasse de voltar lá minutos depois, já tinha de largar outro tanto.

Afinal, o que mudou? Já sei que me vão dizer que é a desvalorização da moeda, a inflação e outras tretas que tais. Já ouço falar nisso há uns quantos anos. Mas isso não aplacava a minha discordância, quiçá, a minha revolta. Só me restava uma coisa: vingança. E vinguei-me. Gastei um pedaço extra de papel higiénico para limpar e cobrir o bordo em porcelana da sanita sem tampo. E, uma vez ali sentado, só saí depois de a encher com tudo o que de mal cheiroso tinha dentro de mim…

 

As calças que têm a ver com o …

Nas questões de “andar na moda”, estou sempre desatualizado. Não leio nada sobre o assunto, nunca sei quais são as tendências do momento ou da próxima estação e só um acaso me faz entrar nessa onda e me veste de acordo com o modelo mais em voga. A minha opção é sempre pelo mais confortável, sem saber sequer jogar com as cores, perceber que camisa “diz bem com aquelas calças”, que gravata liga com o casaco. E sou capaz de repetir as mesmas roupas semanas a fio, trocando entre dois conjuntos só enquanto um deles vai para lavar, como se não houvesse mais nada no roupeiro. Até mesmo no calçado. E é preciso que alguém me vá chamando a atenção para os colarinhos que estão puídos, as camisolas com fios puxados ou os polos descorados pelo uso.

No meu ponto de vista, a moda procura dar satisfação a duas necessidades fundamentais: por um lado, à permanente insatisfação do ser humano, a necessidade de mudança, de andar diferente de ontem e amanhã. E dos outros. Por outro, para satisfazer a indústria de confeção e o seu desejo de que o ser humano continue a ter sempre vontade de mudar … de vestuário, atirando para o caixote do lixo a roupa “fora de moda”, para poder continuar a produzir e ter quem compre. Ora, por muito mais que me digam, eu não sinto essa atração. Nem me importo de “andar fora de moda”. Qual é o problema? Porquê ser obrigado a desfazer-me de roupa nova e confortável só porque quem decide as “tendências” da moda assim o ordena? Mas aceito que haja quem goste e faça disso uma obsessão. Reconheço ainda que a vida é feita de mudança.

Já passei por modas que o foram, caíram no esquecimento e voltaram à ribalta por mais que uma vez. As calças. Foram moda apertadas em baixo, depois largueironas, voltaram a ser justas e alargaram para além do razoável. No comprimento, já arrastaram pelo chão, ficaram curtas do tipo “para regar” ou medida normal, subindo e descendo, apertando e alargando conforme a vontade dos “ditadores”. Diz-se que “na moda, só é novo o que está esquecido”. E é verdade. Hoje os modelos são mais que muitos, para satisfazer todo o tipo de gostos, dos mais clássicos aos radicais, dos ousados aos excêntricos. Podem ser de corte clássico, chino, skinny, elefante, hip hop, street style, harém, cargo, casual cintura alta, média ou baixa, militar, saruel e muitos mais. Só não me parece que estejam na moda o “boca de sino”.

Foi nesta minha ausência do que “está na moda”, que um dia destes uma pessoa amiga me falou das “calças à cagão”. Pensei que estivesse a brincar comigo e que fosse o nome que ela, pessoalmente, dava a um determinado modelo. Mas, vim a confirmar que é a designação corrente. Então, movido pela curiosidade, quis ver que calças eram essas com nome tão “sugestivo”.

Procurei na internet e encontrei vários modelos e depois, mais atento, vi na rua diversos jovens com esse tipo de calças. Ao vê-los, fiquei convencido: a escolha do nome foi acertada. Revelou até perspicácia, pois a sensação que se tem ao ver alguém sair da casa de banho com “calças à cagão”, é de que “tudo o que fez” ficou nas calças. Talvez nos bolsos, sei lá, a fazer peso. Daí a malta andar com a cintura pelo meio da “padaria”, como se um peso extra puxe as calças para baixo, deixando à mostra uma boa parte das cuecas, quase sempre de cores apelativas. Ao ver as calças a “fugir” do rabo de um adolescente, não pude deixar de concordar com o “à cagão”. Revelam a irreverência e excentricidade próprias dos jovens.

Sendo um defensor da roupa prática e funcional, acho que seria o modelo certo para eu usar quando andava na escola primária, especialmente quando tinha de ir à retrete. Como lá havia sanitas turcas (aquelas que são rasas, com dois apoios para colocar os pés e um buraco onde é conveniente acertar), seriam excelentes para a função pois não era preciso desapertar os botões ao “arriar as calças”. Bastava aninhar-me e, nesse movimento para me colocar na “posição de tiro”, elas desciam de forma automática, o suficiente para poder “fazer o serviço”. Sem mais. Seriam muito funcionais. “E as cuecas”, perguntam-me? Não seriam problema. Bastava usar o “modelo do Amílcar”. “E que modelo é esse”, querem saber? Bom. O Amílcar era o vocalista do nosso conjunto (leia-se “banda” na versão atual) no início da década de setenta. Deixou a faculdade e dedicou-se à música, mas era um tanto “apanhado do clima”. Tornou-se tão bom, que chegou a tocar com o Cat Stevens, embora mais tarde se viesse a perder nos caminhos da droga. Um dia, o grupo tocava na Assembleia Penafidelense. Ao ajustar as calças no intervalo, o Amílcar mostrou ligeiramente a parte de cima das cuecas. O Nelo meteu-se com ele: “Oh Amílcar, tens umas cuecas giras”. Tímido e meio a gaguejar, respondeu-lhe: “Não são cuecas. É só o elástico…” E mostrou que, abaixo do cinto, não havia mais nada… Ora, aproveitando o “modelo” do Amílcar, as cuecas completavam na perfeição a funcionalidade das “calças à cagão”.

Se eu me satisfaço com a comodidade e simplicidade da roupa, tenho de concordar que há quem prefira a excentricidade e irreverência, tornando este nosso mundo mais colorido, original e alternativo. E a indústria, como toda a sociedade de consumo de que fazemos parte, precisa disso pois, por mais estranha e ousada que seja a moda, por mais esquisita ou feia (e o feio é relativo e às vezes, de tão feio que é, passa a original e de original a bonito), vai haver sempre quem adira e consuma… E cá estaremos nós a “olhar de lado” a excentricidade, quando não a dizer: “olha que até são giras e ficam-lhe bem” …