“Quando a tempestade passar” …

Terminou mais um ano que não vai deixar saudades e será um marco nas nossas vidas. Nunca tínhamos passado por algo tão difícil, não só enquanto pessoas, mas também enquanto país e humanidade. Ficará para a história como o ano da pandemia covid-19, com gravíssimas consequências sanitárias, económicas e sociais cuja dimensão ainda se não conhece. 

Perderam-se familiares, amigos, vizinhos, conhecidos e muita gente de que nem ouvimos falar. Tem-se sofrido muito, tanto física como psicologicamente, até porque as medidas de proteção nas, quais se inclui o confinamento, por prolongadas no tempo, são uma violência terrível, em especial para idosos e crianças. E como é difícil manter distantes os que nos são próximos, acenar ao longe a quem se queria abraçar bem perto, ter de dar um carinho sem o necessário toque de que todos sentem falta. E as despedidas de entes queridos que nunca se deram, o luto que não foi feito, o adeus que se perdeu. Será que alguém ficou indiferente às imagens televisivas das enormes valas comuns com que as televisões nos chocaram contendo milhares e milhares de urnas alinhadas como em parada militar e onde foram a sepultar (quase) na clandestinidade pessoas como nós, sozinhos e afastados daqueles a quem amavam? Foram-se empresas, empregos, economias, projetos de vida e sonhos. As promessas que cada um fez para o 2020 no final do ano anterior esfumaram-se com a chegada de algo invisível, mas que se revelou superior a todos nós. Temos muito a lamentar pela pandemia que virou do avesso este nosso mundo, temos muitas lições a tirar se as quisermos aprender ou assobiamos para o lado “quando a tempestade passar” e retomamos o caminho errado que nos trouxe até aqui. A escolha será nossa.

Mas se quiser ver o 2020 com outro olhar, acho que no meio da luta brilhou de forma cintilante uma enorme legião de heróis anónimos na solidariedade, na dedicação, na entrega aos outros, ainda que em muitos casos pagando tudo isso com a sua vida. Na linha da frente do combate estão, sem dúvida, todos os profissionais de saúde, mas não podemos esquecer também os que cuidam de idosos, crianças e das pessoas com deficiências, com os minutos feitos horas e horas feitas dias ou semanas. Ficou essa lição de superação e sacrifício pessoal, da família, da saúde e descanso. E vi isso na maioria dos colaboradores da Misericórdia de Lousada, dos Lares ao Hospital, do Infantário ao Apoio Domiciliário, numa entrega sem precedentes, uma lição de como é importante o reconhecimento e valorização das pessoas. 

No final do ano que findou chegou, finalmente, um sinal de esperança com a vinda das primeiras vacinas num programa comum da União Europeia e de entrega proporcional à população de cada país, num caso raro de solidariedade real. Mas não nos iludamos nem baixemos a guarda, porque é muito cedo para pensar que “são favas contadas”. Vamos ter ainda de penar muito, vamos continuar a ver partir gente de quem gostamos, a ter de ficar contidos com vontade de abraçar, a ser pacientes e esperar que chegue a bonança, que ainda não chegou. Até lá acreditemos que tudo isto vai mudar as nossas vidas, a forma de olhar, ver e nos relacionarmos uns com os outros, de respeitar a terra que nos dá abrigo e se há algum verdadeiro significado para a nossa presença aqui que não seja o “Ter” só para pensar que somos donos do que quer que seja. E vale sempre a pena acreditar … 

Neste momento em que se começa a vislumbrar uma pequena luz ao fundo do túnel, faz todo o sentido transcrever um poema cuja autoria se atribui a Kathleen O’Meara durante a epidemia de peste em 1800, mas que, afinal, terá sido escrito pelo cubano Alexis Valdés em plena pandemia de Covid-19. Por um ou por outro, vale o momento:

“Quando a tempestade passar

As estrelas se amansarem

E formos sobreviventes

De um naufrágio coletivo,

Com o coração choroso

E o destino abençoado

Nós sentir-nos-emos bem-aventurados

Só por estarmos vivos.

E daremos um abraço ao primeiro desconhecido

E rejubilaremos por ter a sorte de ter um amigo.

E aí lembraremos tudo aquilo que perdemos;

E de uma vez aprendemos tudo o que não aprendemos.

Não teremos mais inveja, pois todos sofreram,

Não teremos mais o coração endurecido,

Pois seremos todos mais compassivos.

Valerá mais o que é de todos do que eu nunca consegui,

Seremos mais generosos

E muito mais comprometidos.

Entenderemos o quão frágeis somos

E o que significa estarmos vivos!

E sentiremos empatia por quem está e por quem se foi …

Sentiremos falta do velho que pedia esmola no mercado,

Aquele de quem nunca soubemos o nome e sempre esteve ao nosso lado.

E talvez o velho pobre fosse Deus disfarçado …

Mas nunca perguntamos o nome dele

Porque estávamos com pressa …

E tudo será milagre!

E tudo será um legado

E a vida que ganhamos será respeitada!

Quando a tempestade passar,

Eu te peço, Deus, eu te suplico,

Que nos tornes melhores.

… Como Tu, Deus, nos sonhaste!”

Cozidos em lume brando. E felizes…

Há muitos anos atrás fui visitar uns tios que não via há algum tempo, absorvido no ritmo do trabalho e dos afazeres do dia a dia. O meu tio era muito formal comigo, mas gostava de falar e por isso tivemos de pôr a conversa em dia durante mais de uma hora, recostados em dois cadeirões na varanda da casa. Já a meio da tarde e com as novidades em dia, pediu à minha tia para arranjar um lanche, confidenciando-me em voz baixa, mas com orgulho: “vai provar uma pinga especial que eu cá tenho. É uma maravilha”.

Esperei para ver. Quando ela colocou os petiscos na mesa sobre uma toalha de linho branco, ataquei a broa e as rodelas de salpicão muito finas, mesmo a meu gosto. Depois de ter feito uma “boa cama” para a pinga prometida, ele segurou na cântara de barro, encheu-me o copo e disse com entusiasmo: “prove e diga-me lá se é ou não é bom”. Não sendo propriamente considerado provador, levei o copo à boca e bebi um trago, bochechando para apreciar melhor as características do vinho. Então, fui apanhado por um intenso choque gustativo: O raio do vinho era praticamente vinagre. Desprevenido, de repente vi-me num dilema diante do seu olhar expectante: entre o ter de dizer uma mentira piedosa e preservar-lhe o sorriso confiante naquele bom vinho ou contar-lhe a verdade nua e crua e matar-lhe a candura da ignorância. Claro que não tinha outra saída senão mentir-lhe. Era a chamada “mentira piedosa”, que não trazia nenhum mal ao mundo, mas que era muito importante para ele, até porque “a ignorância é feliz”.

Afinal, o que se tinha passado para alguém como ele beber um vinho avinagrado e considerá-lo excelente? A minha conclusão em função do que soube depois, é que se tratou de um fenómeno bem simples: os meus tios viviam sozinhos e só eram visitados ao fim de semana pelos filhos que residam fora. Ora, apesar disso, tinham aberto uma pipa de mais de quinhentos litros de vinho bom, mas era vinho a mais para duas pessoas com a sua idade consumirem em espaço de tempo razoável sem que se alterasse. Se o vinho era bom quando a pipa foi aberta – e admito que sim – com a entrada de ar na vasilha por força da saída do vinho criaram-se condições para o desenvolvimento das bactérias responsáveis pela acidificação, o que se veio a verificar, por aquele vinho ter sido consumido ao longo de muitos meses, tempo mais que suficiente para que a transformação do vinho em vinagre se tivesse verificado. Então como é que não se aperceberam que o vinho estava avinagrado? Por uma razão simples: começaram por beber um vinho bom ou até muito bom, durante algumas semanas. No entanto, com as condições de oxigenação ideais para se dar a acidificação, esta foi acontecendo muito lentamente e, também lentamente, foram-se adaptando ao novo paladar do vinho pois as alterações diárias eram mínimas e não lhes permitia aperceberem-se da diferença. Como não contrapunham com outra amostra, o seu gosto ia sendo “modelado” pelas mudanças lentas do vinho e mantiveram assim a classificação de “bom” para um vinho que de bom já nada tinha. É como quando temos um filho e não nos apercebemos de que ele cresce diariamente, porque as diferenças são sempre pequenas de um dia para o outro. Só quando vem alguém de fora que já não o vê há algum tempo, é que se apercebe do “salto” que ele deu e diz com grande espanto: “Como o rapaz cresceu desde a última vez que o vi”!!!

Lembrei-me deste acontecimento com o meu tio quando há pouco li uma breve história em que Olivier Clerc, através duma metáfora, põe em evidência as graves consequências de não termos consciência das mudanças que afetam a nossa saúde, as nossas relações, a evolução social e até o ambiente. E, como ela é uma pequena grande lição de vida que cada um de nós pode e deve guardar para si e dela tirar os proveitos mais convenientes, o caso do vinho só vem confirmar que podem ser efetuadas grandes mudanças em muitos aspetos da vida de cada um ou de todos nós se não nos apercebermos das pequenas alterações que forem sendo feitas ou se não lhe dermos importância. Porque muitas pequenas mudanças podem facilmente transformar-se numa mudança profunda. Mas vamos à história de Olivier Clerc:

“Imagine uma panela de água fria na qual nada tranquilamente uma pequena rã. É acesa uma chama debaixo da panela e a água começa a aquecer muito lentamente. E, como a água aquece devagar, a rã não se apercebe de nada. Pouco a pouco fica morna e a rã, acha-a muito agradável e continua a nadar. A temperatura continua a subir …

Às tantas, a água está mais quente do que a rã gosta. Sente-se algo cansada, mas não fica com medo. Até que a água fica bem quente e ela começa a achar desagradável. No entanto, já está muito debilitada e então suporta e nada faz. A temperatura continua a subir sem que a rã tenha forças para sair e acaba por ser cozida e morre. Se a mesma rã tivesse sido lançada diretamente na água a 50 graus, com um golpe de pernas teria saltado de imediato para fora da panela. Isto mostra que, quando alguma mudança acontece lentamente, escapa à nossa consciência e perceção e não desperta, em regra, qualquer reação, oposição ou tipo de revolta.

Se olharmos para o que tem acontecido na sociedade há décadas, veremos que temos sofrido uma mudança lenta no modo de viver e que nos estamos a habituar. Uma série de coisas que há 20, 30, 40 ou 50 anos nos teriam horrorizado, foram lentamente sendo tomadas como normais, deixando a maior parte das pessoas indiferentes. Em nome do progresso, da ciência, do lucro, vão sendo efetuados ataques contínuos às liberdades individuais, à natureza, à beleza e alegria de viver, lenta e repetidamente, com a cumplicidade das vítimas, desavisadas e, agora, já incapazes de se defender. As previsões para o futuro, em vez de suscitarem reações e medidas preventivas, preparam as pessoas para, psicologicamente, aceitar algumas condições decadentes e até dramáticas. Quando falei destas coisas a primeira vez, era para amanhã. Agora, é para hoje!!! Consciente ou cozido, precisa escolher! Então, se você não está como a rã já meio cozido, dê um saudável golpe de pernas antes que seja tarde demais” …

Ao recordar o orgulho que o meu tio tinha no seu “vinho”, que já não passava de vinagre em que fora transformado lentamente e entender a mensagem de Olivier Clerc, tomo mais consciência de que “estamos a ser cozidos em lume brando”, adormecidos e tornados coniventes das múltiplas transformações profundas que afetam a sociedade de que fazemos parte e o meio ambiente desta nossa casa comum, que podem pôr em causa o futuro das próximas gerações que são nossa responsabilidade. Conseguiremos reagir a tempo de manter o planeta habitável e evitar a descaracterização da sociedade efetuada muito sorrateiramente, em nome do radicalismo e de pretensas liberdades?

Um eterno presente de Natal …

Já foi há muito tempo. Tinha eu oito ou nove anos e fui com a família à Missa do Galo, onde já se podia “beijar o Menino Jesus” que, nesse tempo, era a Personagem central do Presépio e do Natal (mais tarde viria a ser substituído pelo homem das barbas brancas com fatiota vermelha a que chamam pai natal, pela árvore de natal e um montão de produtos comerciais impingidos pelas indústrias que capturaram a Festa). No órgão, estava um padre relativamente novo que eu nunca tinha visto, que foi tocando ao longo de quase toda a celebração ora a acompanhar o coro local, ora a solo como música de fundo. 

No fim da Missa e quando o celebrante iniciou a cerimónia para “dar o Menino Jesus a beijar”, daquele velho órgão saiu uma música sublime, tocada com delicadeza e elevação num controle perfeito na altura e duração do som, que me deixou maravilhado. Nunca ouvira aquele hino nem vira alguém tocar tão bem. Dei comigo concentrado naquela música que o organista conseguia tirar do velho órgão da igreja. Emocionado pela beleza dos acordes, senti os olhos húmidos. E continua a ser uma bênção e um privilégio ouvi-la, especialmente nesta época do ano. Por alguma razão a Unesco não ficou indiferente e considerou-a em 2011, e bem, Património Cultural Imaterial da Humanidade. 

O nome original dessa linda canção de Natal é “Stille Nacht” e já foi traduzida e cantada em numerosos idiomas. Na versão portuguesa é conhecida por “Noite Feliz”, se bem que na tradução do original devia ser “Noite Silenciosa”.

Vale a pena saber quem foram os seus autores e a história da pressa na sua criação para resolver um problema. Ainda bem que aconteceu:

Oberndorf é uma pequena aldeia austríaca à beira do rio Salzbach, na região de Salzburgo. Naquela véspera de Natal do ano 1818, o padre Joseph Mohr estava desesperado porque o órgão da igreja avariara, ao que parece com os foles roídos pelos ratos. Sem o órgão, o habitual concerto de Natal seria um fiasco. E logo no primeiro Natal naquela paróquia! No limite, pediu orientação a Deus. Então lembrou-se que, dois anos antes escreveu um poema simples, também na véspera de Natal, após uma caminhada pelos bosques nas montanhas da região. Encontrou o manuscrito do poema numa gaveta da sacristia e correu para casa de um professor e músico humilde chamado Franz Xaver Gruber a quem perguntou se podia musicar a sua letra para que toda a gente a pudesse cantar na Missa do Galo desse dia. Depois de ler o poema, Gruber disse que sim pois a letra era simples e permitia uma melodia fácil. Mas teria de ser tocada só com viola porque não havia tempo para fazer algo mais elaborado. Ele respondeu que não era um problema. Pelo contrário, até vinha a calhar já que o órgão estava avariado.

O padre Mohr agradeceu e voltou à igreja para organizar os detalhes da Missa do Galo, enquanto Gruber se entregou à tarefa de fazer em tão poucas horas a música para o seu amigo. O músico chegou cedo à igreja com a viola e reuniu o pessoal do coro para lhes ensinar o hino improvisado, já que a hora da Missa se aproximava. E naquela noite de Natal de 1818, os participantes nessa Missa do Galo da igreja de S. Nicolau de Oberndorf, em Salzburgo, cantaram maravilhados o hino singelo e tocante escrito por Mohr e musicado por Gruber, que viria a tornar-se na canção natalícia mais conhecida no mundo. 

E como se espalhou? Semanas depois, o técnico que foi consertar o órgão ouviu a história e pediu para tocar essa música. Impressionado com a riqueza melódica da composição, decidiu divulgá-la por todas as igrejas por onde passava, até que o caso chegou aos ouvidos do rei, Friedrich Wilhelm IV da Prússia, em 1838 e difundida de forma ativa. Depois, o Cristianismo levaria a música para todo o mundo através dos missionários, tornando-a global.  

O que começou como um momento de pânico e promessa dum fiasco, terminou com um eterno presente de Natal para toda a humanidade em forma de música.

A canção a que o padre austríaco Joseph Mohr deu letra, inspirada no humilde Natal de Jesus em Belém e o seu amigo professor e organista Franz Xaver Gruber a linda música, emergida das marcas das guerras napoleónicas e em tempo de pobreza, incêndios, inundações, falta de segurança e fome, tornou-se popular e um dos temas musicais mais conhecidos. A tal ponto, que conseguiu parar por uma noite a Grande Guerra. O poema foi criado em tempos muito difíceis para Salzburgo. Daí as palavras deste cântico expressarem uma ânsia de redenção e paz. A letra original do padre Joseph Mohr, em alemão, fala de Jesus que, “como irmão, abraça carinhosamente os povos do mundo”. E, passados 200 anos, a classe de Franz Gruber tem o tamanho de uma civilização.

A divulgação da canção pelo mundo em muitos idiomas resultou em traduções nem sempre fieis ao texto original, como é o caso da versão portuguesa. No entanto, geralmente mantiveram o sentido principal da canção: O Natal como festa da redenção e sinal de paz. Mas, nem sempre isso foi respeitado, como aconteceu com a versão nazi deste cântico. O regime nazi tinha um problema óbvio com o Natal: Jesus era judeu. Por isso, a sua equipa tentou remover todo o contexto religioso da celebração sem conter referências a Deus, Cristo ou fé e torná-la um louvor a Hitler.

Na versão do americano Bing Crosby, que aparece na terceira posição entre os singles mais vendidos em todo o mundo com cerca de 30 milhões de cópias comercializadas em todo o mundo ou na naquela versão simples que ouvi pela primeira vez na minha infância, “Noite Feliz” é um cântico celestial que nos toca os sentidos, conforta a alma e faz “regressar a casa” na noite de Natal …

Vai um cigarro? Não, obrigado…

A imagem mais remota que eu tenho de alguém a fumar é a do senhor Moura, jornaleiro de profissão. Já lá vão “uns anitos” … Encostado à enxada, tirava a caixa de mortalhas do bolso e um pequeno saco com tabaco a granel. Pegava numa mortalha, dobrava-a ligeiramente para lhe pôr dois dedos de tabaco e enrolava-a com as mãos. Terminava levando à boca a aba da mortalha, que molhava com a língua para a colar à parte de dentro e rematar o cigarro. Para o acender, usava um fósforo da caixa que trazia no bolso das calças. E retomava o trabalho com o cigarro pendurado no canto da boca. Cedo me apercebi que os cigarros feitos na hora, como os do senhor Moura, eram comuns nos pobres. Os cigarros “Fortes” já eram mais caros. Muito parecidos com os que o senhor Moura fazia, já vinham prontos, amarrados com uma tira de papel. Mais caros ainda eram os “Provisórios” e o “Português Suave”.

Já agora, posso dizer que tive a sorte de “ter passado entre a chuva sem me ter molhado”. Ou seja, nunca peguei sequer num cigarro para fumar, apesar de ter sofrido uma grande pressão própria dos tempos de juventude em que a malta apertava connosco para fumar, usando expressões fortes para nos convencer como “se não fumares não és homem” ou “fumar é para homens de barba rija”. E ainda hoje não sei se o nunca ter fumado se deve ao facto de não ter havido fumadores em casa dos meus pais ou à imagem que me ficou de certas pessoas agarradas ao cigarro, como se disso dependesse a sua vida. Bem cedo me ficou um sentimento de desconforto ao ver pessoas conhecidas a fumar com sofreguidão, escravos desse fumo na queima de folhas de tabaco enroladas, a arder lentamente.

Em criança não conheci nenhuma mulher que fumasse, pois era vício (quase) exclusivo de homens. Não “ficava bem uma mulher de cigarro na boca”, nem se imaginava um pai a autorizar. Se já era difícil para um rapaz, muito pior era com as raparigas, senão mesmo impossível. Só os homens podiam ficar horas seguidas a engolir fumo …

Já adulto, dizia-me um amigo que eu nunca conheceria o prazer que o cigarro dava a um fumador. E eu contrapunha sempre com o mesmo slogan: “Não conheço, nem quero conhecer”. Ele insistia, enumerando algumas (supostas) vantagens dos “inaladores de fumo ambulantes” como lhes chamava. Dizia então que “os fumadores sabem que vão morrer, enquanto os outros andam enganados”; “não preciso que me façam radiografias aos pulmões, pois sei o resultado mesmo antes de as fazer”; “os fumadores divertem as crianças a fazer anéis de fumo e têm o cigarro por companhia quando meditam”; “fumar é uma boa razão para ter cancro, mas quem não fuma não tem razão nenhuma”; “o cigarro aceso na mão dá estilo, uma aparência sexy e faz-nos mais homens”. Ora, terá sido precisamente o cigarro que lhe antecipou os dias, confirmando então uma outra suposta vantagem: “Os fumadores vivem menos, mas só deitam fora os últimos anos, ou seja, os piores”.

Para um fumador, pior do que não fumar, é não ter tabaco no bolso. É ter a sensação que, quando lhe vier a necessidade, pode faltar-lhe o produto.  É como sentir-se despido no meio do nada. Por isso, tem de encontrar rapidamente um local onde possa abastecer-se, ainda que não seja para fumar logo. Só o facto de sentir o tabaco no bolso já lhe dá tranquilidade. 

Nos anos 80 a Tabaqueira fez uma longa greve, que provocou falta de tabaco no mercado nacional. A partir de certa altura, era muito difícil encontrar cigarros à venda. Para quem se dispusesse a observar um qualquer centro urbano, rapidamente identificava o “corrupio” de pessoas a caminhar apressadas e cabeça baixa, de um café para outro, entrando e saindo sem se demorar, à procura de cigarros. Já nem se davam ao cuidado de pedir a marca que fumavam, pois a resposta era sempre a mesma. De tal forma era um drama que um dia o Lourenço, motorista de camião, num desabafo sentido, disse-me: “Sabe, nem imagina quanto sofro com a falta de tabaco. Nem é só pelos cigarros. Como ando por lá, sempre que vejo um café paro para ver se arranjo tabaco. Mas como fica mal entrar e pedir logo um maço, tomo uma bica e só depois pergunto se têm tabaco, para ouvir quase sempre: “Não temos”. E o que mais me custa é que tenho de tomar café atrás de café e … não gosto de café”. Nesse período, já um colega e amigo me confessava viver em pânico, com medo de ficar sem cigarros. “Só a possibilidade de não conseguir abastecer-me para o dia seguinte gera-me uma ansiedade terrível” … 

Não sendo objetivo desta crónica fazer qualquer campanha para que os fumadores deixem de consumir tabaco pelo respeito que tenho pelo livre arbítrio e o direito de cada um poder fazer as suas escolhas, boas ou más, não posso deixar de dizer que, não sendo fumador, fui muitas vezes incomodado no “meu canto” por aquela pequena coluna de fumo irritante que vinha dum cigarro qualquer, direitinha ao meu nariz, como de propósito, nalguns casos a vários metros de distância. No estádio, três filas à frente sentava-se um homem que fumava com muita frequência durante o jogo. E não é que aquele fiozinho de fumo saído do seu cigarro acertava sempre com o meu nariz!!! E não posso deixar de lembrar o ocorrido com o Vasco Lemos. Depois de fazer um exame aos pulmões, o médico ao olhar os resultados disse-lhe: “Você deve ser um grande fumador”!!! E ele, surpreendido, respondeu-lhe: “Senhor doutor, nunca na minha vida fumei qualquer cigarro”. Então o médico retorquiu: “Nesse caso, passa muito tempo junto de alguém que fuma, pois os seus pulmões parecem de um fumador crónico”. Aí, o médico acertou. A mulher dele fumava muito e até na mesinha de cabeceira tinha um maço de cigarros para fumar durante a noite, na cama … 

Os fumadores são uma legião com cerca de dois milhões de pessoas em Portugal, um campo que os governantes sempre exploraram com impostos obscenos sobre o tabaco, alegadamente para aliviar o custo que eles são para o Serviço Nacional de Saúde, já para não falar na poluição que provocam através das beatas e isqueiros descartados, além do fumo que se entranha nos espaços e roupas, mesmo dos não fumadores. Com tão grande “população votante”, não sei como ainda ninguém se lembrou de formar o PTA (Partido do Tabaco e Afins), capaz de vir a eleger um grupo parlamentar semelhante ao PAN para, em tempo de geringonças, exigirem redução de impostos, liberdade de fumar e incomodar os outros sem serem confinados. 

Recordo quando, em época de dificuldades, se ouvia com frequência um convite expresso na pergunta “vai um cigarro?”, efetuado por um qualquer fumador. Fui convidado muitas vezes e, apesar de “não ser fumador”, não deixava de responder com o agradecimento que esse gesto, de partilha e solidariedade, merecia: “Não, obrigado”.     

Vizinhos e o perigo de ficar em casa

Quando comprei o terreno para construir a casa onde moro, estava convencido que seria o único proprietário e residente deste pedaço de terra, que já cá estava quando nasci e por cá vai ficar quando eu “for de vela”. Ideia estúpida de quem não sabia o que dizia. Depressa viria a descobrir que, antes de aqui me instalar, já ele era ocupado por um grande grupo de residentes, na sequência do que já haviam feito os seus antepassados ao longo de muitos anos, talvez séculos, sem registo predial, escritura pública ou qualquer documento legal à luz da lei dos homens. Os primeiros que vi foram os pássaros, embora pensasse que estavam de passagem, e a seguir as cobras, que julguei desalojar facilmente ao saibrar o solo, construir casa e anexos, além de semear o relvado. Novo engano porque, nem uns nem outros me atribuíram grande importância, tendo a passarada, especialmente os melros e pardais, continuado a mostrar-se usufrutuários do espaço à descarada, a fazer ninhos e vir esgravatar no terreno à procura das minhocas e insetos, o que para mim foi um bónus tal o meu gosto por tais “clientes”.  Já as cobras, mantiveram-se escondidas como é seu hábito, mostrando-se somente de longe a longe, em duas ocasiões com a ninhada atrás. 

Quando o relvado cresceu e se transformou num lindo tapete verde, vim a descobrir que havia outros moradores de que não me tinha apercebido.  Um dia, de manhã, encontrei vários montículos de terra a manchar o tal “tapete”, sinal de que eu também tinha a companhia das toupeiras. Na gíria popular, são “de levantar”, porque atiram a terra escavada para a superfície. Ora bem: na minha estupidez, declarei-lhes guerra. Comecei por fazer “esperas” logo ao nascer do sol, à hora em que elas “entram de serviço”, escavando as galerias. E bem cedo lá estava eu, de enxada em punho, de olhos fixos nos montículos esperando ver a terra a mexer, sinal de que estava ali a empurrar a terra. Depois, levantava a enxada e cravava-a no monte, arrancando-o para o relvado e, com ele, a toupeira. Mas como não sou profissional, só resultou uma vez. Então, passei às armadilhas, mas o resultado foi pior. E finalmente, usei cianeto em pastilhas, sem sequer apanhar uma. Como não ganhei a guerra, elas ficaram por cá, na terra onde devem ter mais direitos naturais de propriedade e de residência do que eu e que, por isso, decidi abster-me de contestar e combater. 

E como não quero “recorrer à justiça” para revindicar os direitos que julgava só meus, chegamos a um acordo de convivência saudável, tendo elas se comprometido a viver “debaixo do solo”, enquanto eu e a família nos movimentamos “acima do solo”, sem que tenhamos de nos cruzar no dia a dia. Presumo que as famílias desses simpáticos “condóminos” se vão sucedendo por cá, geração atrás de geração, construindo a “residência” com várias “divisões” ligadas entre si por uma rede de galerias, “caminhos” do seu mundo por onde apanham as minhocas com que se alimentam. Pensando bem, tenho obrigação de respeitar ainda mais estes meus vizinhos porque, além de serem praticamente invisuais, passam a vida enfiados em túneis escavados “à pata”, sem qualquer iluminação, nem sequer um pequeno holofote na testa para “ver luz ao fundo do túnel”. Além disso, ainda têm de se cuidar pois a sua pele é muito cobiçada para fabrico de casacos para reis, aliás, rainhas. As minhas condóminas já não têm esse problema comigo e devem saber que deixei de as caçar e não as quero esfolar.

E contei esta pequena história deste “condomínio” onde vivo, porque cheguei à triste conclusão que a decisão do governo nos manter em casa “confinados” não foi bem pensada, pois não só não resolve esse problema do maldito vírus que veio da China (e ainda ninguém disse se ele fala chinês ou a língua de Camões), como nos arranja um monte de problemas, pelo facto de estarmos demasiado tempo em casa, ao contrário do que é habitual. Já bastava o agravamento dos conflitos pessoais e as discussões sem fim, em que os homens ficam sempre a perder. Ao ficar por casa, as pessoas têm tendência a “meter-se em trabalhos”, fazendo as coisas que foram adiando à espera de terem tempo (desculpando-se com a falta dele), e que agora, sem alibi, têm mesmo de fazer. Ora, ao quererem resolver os biscates pendentes lá por casa, num excesso de voluntarismo e sem cuidar da forma, acaba por dar asneira, conforme provam as estatísticas. Nestes dias em que a gente teve de ficar enfiada em casa, esta virou um lugar perigoso para viver. De tal forma, que os acidentes domésticos aumentaram e muito. 

E eu posso atestá-lo. Nunca na minha vida tinha caído de uma escada, mas foi desta que experimentei. No primeiro fim de semana de condicionamento resolvi aproveitar o bom tempo para fazer uma intervenção profunda numa sebe que me trava o vento há décadas. Vai daí, toca a cortar de um lado, do outro e por cima. Quando andava lá no alto, confiante que a escada se portaria bem, ao querer cortar um ramo um pouco mais distante tive de me inclinar e pressionei mais o lado direito da escada. Esqueci-me que tenho cá a tal família de toupeiras a viver no subsolo. Ora, ao colocar a escada no relvado junto à sebe deixei o apoio direito precisamente sobre “o telhado” de uma das suas galerias, por negligência, colocando em perigo a família desses meus simpáticos vizinhos. Quando o meu peso exerceu mais pressão sobre o apoio direito, este enterrou-se na galeria e, de repente, a escada tombou para o lado. Sem capacidade de reação, deixei-me ir. Do alto da escada à relva húmida foi um instante, tendo consciência de já não ter a força muscular de outrora para reagir em tempo. Meio atordoado, senti uma dor na perna esquerda, enquanto o meu filho corria para me ajudar a levantar. A canela da perna deve ter roçado pela escada abaixo pois estava esfolada e bem pisada, pelo que achei conveniente ir ao hospital. Sem nada partido, trataram-me da ferida e colocaram-me uma ligadura de proteção. Soube então que nesse dia aquele serviço tinha atendido muito mais sinistrados do que é habitual, vítimas de acidentes domésticos com consequências mais ou menos gravosas, resultado destas “estadias prolongadas em casa”.

Afinal, ao contrário do que diz a DGS, ficar em casa “não é nada bom para a saúde”. Eu diria, “nada recomendável”. E a minha perna, que três semanas depois continua a ser objeto de tratamento, é a prova provada que estão errados.

Ou serei eu que não estou a ver bem as coisas? 

O vinho, para celebrar a amizade…

Alentejano, produtor de vinho da “talha” e médico, falava na televisão num apelo bem disposto: “Salvem a Terra, porque é o único planeta que tem vinho”. E, mais adiante, num conselho já na sua qualidade de médico, acrescentou: “O vinho pode ser um bom remédio. Mas, como remédio, tem de ser tomado à colher como qualquer outro remédio e não bebido pelo frasco”. Aliás, mesmo Platão já escrevera: “O vinho é medicamento que rejuvenesce os velhos, cura os enfermos, enriquece os pobres”, enquanto um dito popular diz que “o vinho é excelente, tanto para o sadio como para o doente”.

Cresci numa sociedade em que videiras e vinho faziam parte da nossa vida. E da ementa. Aliás, era mais fácil faltar alimento na maioria das casas humildes da terra, do que não haver vinho. E bebiam todos, dos adultos às crianças. À volta das casas, até das mais pobres, a primeira coisa que se fazia era … plantar videiras e fazer uma ramada. Pode-se dizer que era o “jardim da casa”. Porque jardim mesmo, só me lembro de haver em três ou quatro casas dos proprietários tidos por “os ricos da aldeia” e, mesmo esses, rodeados de … ramadas. Até Salazar dizia que “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”.

Daí me ter habituado a beber vinho às refeições … e fora delas, embora nunca tivesse passado tarde nenhuma a “jogar a malha”. Nas tardes de domingo, a cada jogo os perdedores pagavam um copo de litro. E eram muitos os jogos ao longo duma tarde, tal como os litros de vinho bebidos pelos quatro participantes em jogo “tão difícil”. É que esses “atletas” defendiam a tese de que “com bom ou mau comer, vinho sempre a valer.

Na região o vinho era praticamente vendido a granel, em pipas, por regra na “venda” (que se pronunciava como “benda”), misto de tasco e mercearia. Muito pouco era engarrafado pois mesmo nas casas onde havia ramadas, era conservado e consumido a partir da pipa. A estudar no Colégio Eça de Queirós, era um momento especial sempre que o Adriano me convidava com mais dois ou três, para ir a sua casa em Meinedo beber uma garrafa de vinho, claro está, com alguma coisa a acompanhar. Como sabia bem!!! Anos mais tarde, depois dos ensaios dos “Moscas”, em Bustelo, era na adega do senhor Belmiro Melo, tio de alguns elementos do grupo, que celebrávamos a vida com vinho tinto em caneca de porcelana, tirado diretamente da pipa.

O vinho era a bebida. Como dizia Alexandre Dumas, “o vinho é a parte intelectual da comida”. Não havia lugar para a cerveja, muito menos para a coca-cola que, dizia-se, Salazar proibiu de entrar no país. Nem sequer o uísque, um ilustre desconhecido de então. O que importava era a quantidade, não tanto a qualidade. Só com o passar dos anos, a exportação e as exigências qualitativas, o vinho verde tinto, que não ia além dos oito graus, deu lugar aos vinhos brancos cada vez mais graduados, ao ponto de quase se não diferenciarem dos maduros. E assim, “com o passar dos vinhos os anos ficaram melhores”, no dizer de um inteligente.

Os franceses, grandes produtores mundiais e, por isso mesmo, parte interessada no negócio, fizeram apurados estudos para chegarem a conclusões interessantes, reveladoras dos benefícios para quem bebe vinho. Dizem eles que o vinho “faz bem ao coração, evita algumas doenças, ajuda a emagrecer, melhora o sono e o humor, torna-nos mais inteligentes, ajuda na digestão, prolonga-nos a vida, é calmante natural, combina bem com a gastronomia e é bebida sociabilizante”. Não é necessário pôr os cientistas a investigar para chegar a algumas destas conclusões. Eu não tenho dúvidas que uma ou duas garrafas de vinho fazem qualquer um dormir melhor, dão audácia ao tímido, alegria aos tristes e bom humor ao sério. O calado torna-se indiscreto e é da tradição popular que o vinho (e o álcool) conserva os corpos.

A. Fleming, o homem que descobriu a penicilina, dizia que “esta cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes”. No entanto, Benjamim Franklin já foi mais cauteloso ao lembrar: “Toma conselhos com o vinho, mas toma decisões com a água”. Enquanto uns o aconselham sempre, como Napoleão Bonaparte quando escreveu que o vinho “nas vitórias é merecido e nas derrotas é necessário”, já Cícero se deu ao cuidado de escrever sobre a importância da idade: “Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram”.

Fernando Sabino lembra-nos que “Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola. Consagrou o pão e o vinho como alimento do corpo e do espírito”. E as Sagradas Escrituras referem que “o bom vinho alegra o coração dos homens”.

Eu acrescentaria que Cristo também não consagrou a cerveja e hoje, sobretudo entre os jovens, a cerveja destronou o vinho como fator “sociabilizante”, apesar deste combinar melhor com qualquer prato, tornando-se a “parte intelectual da comida”. O vinho sempre foi e é a minha bebida preferida. No entanto, como em minha casa era o único que bebia pois nem a Luísa nem os filhos estavam para aí virados, a partir de certa altura deixei de beber e só o fazia nas refeições fora. Até que, ao fim de alguns anos e para regularizar o intestino, fui bem aconselhado por um médico a beber à refeição um copo de vinho tinto. A verdade é que foi um sucesso e desde então faço do vinho, moderadamente, o complemento de uma refeição, alterando a antiga filosofia do “muito” para o “pouco, mas bom”. 

Já lá vai o tempo do vinho a granel. Hoje o bom vinho é engarrafado, dando sentido à afirmação de Pasteur: “Existe mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os livros”; e a Robert L. Stevenson, ao escrever: “Um bom vinho é poesia engarrafada”.

Estou como Silas S. quando diz “nunca fiz amigos bebendo leite. Por isso, bebo vinho”. Ou será que alguém faz algum convívio “com os pés debaixo da mesa” e celebra a amizade com água ou leite? Até porque amigos são comos os vinhos: quanto mais antigos, melhores. Por isso, conserve-os e celebre … 

Um transporte que passou à história

Às vezes penso que nasci na Idade da Pedra ou algo muito parecido, tais as diferenças entre esses tempos e os dias de hoje. Basta lembrar     que um dos irmãos da minha avó, meu tio avô, tinha a profissão de “carreteiro”. “O que é isso”, perguntaram-me há dias? “Carreteiro” era aquele que fazia transportes de mercadorias diversas em “carro de bois”. Eu ainda sou da era do carro de bois como meio de transporte mais usado nas zonas rurais, como era o caso da minha aldeia. Neles se carregavam os produtos agrícolas, das espigas de milho às pipas de vinho, da palha de centeio ou milho ao mato para “encher “cortes”, além de materiais de construção tais como pedras de perpianho de granito ou toros de madeira. 

E o mais impressionante em relação a esse meu tio-avô é que fazia o transporte de mercadorias de Lousada para o … Porto. Imaginemos a aventura que era fazer a viagem num desses carros, todo ele feito em madeira incluindo as rodas (que só eram revestidas por uma grossa chapa de ferro), sempre puxado por uma “junta de bois”, carregado com uma pipa de vinho de quinhentos litros ou mais (que queria dizer mais de meia tonelada) e enfrentar as estradas difíceis de então até à cidade do Porto para, depois de ali ter descarregado e arrumado a pipa no cliente, regressar a Lousada carregado com outras mercadorias!!! É preciso ter noção do que é um desses “carros” para avaliar corretamente o que era exigido a todos os níveis, tanto ao “carreteiro” como à “junta de bois” e ao “carro”, nessa viagem de ida e volta, que ele fazia com regularidade, porque era necessário transportar para a “cidade” produtos agrícolas como vinho, milho, batata, feijão, centeio, etc., além de madeiras e outros materiais.

Todos os lavradores tinham pelo menos um carro para seu serviço, fundamental nas lides do campo. E, para o puxar, pelo menos uma “junta de bois”, isto é, dois bois que tinham de ser emparelhados e treinados para puxarem solidariamente. Lavrador que não tivesse uma “junta”, não era lavrador. Andei muitas vezes de “carro”, ainda criança, ao ritmo do chiadoiro dos rodados, resultado do roçar de madeira contra madeira, mesmo quando eram untadas com azeite para facilitar a tração. Segurava-me nos “fueiros”, uns paus de altura variável “espetados” a toda a volta do carro para segurar as cargas, como no caso de mato, madeira, lenha e palhas diversas. Para poder transportar milho, espigas, melões, abóboras ou outros produtos do género, os “fueiros” eram trocados por taipais e percebe-se porquê.

Várias vezes acompanhei a minha avó paterna e o senhor Moura ao monte onde iam cortar mato. Começavam muito cedo, ao nascer o dia e a meio da manhã já tinham cortado mato mais que suficiente para carregar um carro. Eu também levava enxada, mais pequena que as deles de acordo com os meus sete ou oito anos de idade e ia fazendo a minha (pequena) parte. Como a minha avó não tinha carro de bois, encomendava o serviço ao caseiro de uma quinta, conhecido dela, e era interessante assistir ao carregar, com o “carreteiro” em cima e o senhor Moura em baixo a “chegar-lhe” o mato usando uma forquilha, fazendo com que a carga fosse subindo e subindo, até chegar a uma altura em que era preciso uma escada para subir ao alto da carga. Mas, no meio daquilo tudo, o que mais me impressionava era que, apesar do mato ser “bravo”, de picos aguçados, ninguém se picava, embora andassem calçados com “socos”, quando não descalços.

Quase todas as casas eram construídas em perpianho de granito, a pedra da região rachada ou mais ou menos trabalhada. Cortada nas pedreiras locais, era toda transportada em carros de bois. Ainda trago na mente as imagens dos homens a carregar pedras daquelas, algumas com dois metros de comprimento e mais, pesadíssimas, mas todas levadas para cima do carro de bois à força de braço porque não havia mecanismos para o fazer. Rachadas na pedreira também à mão, eram levadas até junto do carro aos tombos ao ritmo cantado de um “Upa! Upa! Upa” e subidas sobre duas traves de madeira de forma semelhante, até serem acondicionadas no carro. 

Recordo a história da mulher do caseiro duma das quintas de um proprietário abastado da região. Estava em construção a casa do senhorio na propriedade e este tinha convocado uns quantos “carreteiros” para levar as pedras da pedreira para junto da casa em construção. À mulher do caseiro coube a tarefa de fazer um cozido à portuguesa para alimentar todos os homens que participaram no transporte. Quando eles chegaram, o caseiro ficou muito preocupado pois, ao contá-los, verificou que eram quase o dobro do que lhe tinha dito o senhorio, tendo ido logo contar à mulher o que constatara. “E agora”, dizia ele, “não vai haver comida que para todos”. Mas a mulher não se apoquentou: “Não te preocupes que eu cá me arranjo. Vai à adega e traz presunto, azeitonas, algumas broas de milho e o pipo de vinho maior. Antes de virem almoçar vais pô-los a petiscar bem e a beber melhor e vais ver que a comida vai chegar e sobrar”. E assim fizeram. Os “carreteiros” e outro pessoal ajudante fartou-se de comer broa, presunto e azeitonas, regado com vinho tinto. E, quando foram almoçar, nesse tempo de dificuldades, já não foram capazes de dar conta do cozido que aquela mulher serviu com humildade, honra e sabedoria … 

O carro de bois, que serviu gerações e gerações ao ponto de deixar a sua marca bem vincada na rocha dos caminhos rurais da região pelo desgaste do ferro que cobria os rodados, ao moer a pedra no dia a dia ao longo de muitas décadas, talvez séculos, passou à história e hoje já não passa dum objeto de museus, substituído pelos tratores e outras máquinas que a evolução tecnológica impôs, sem que a sociedade se tenha apercebido verdadeiramente dessa transição, ignorada pelos mais novos e esquecida no tempo por muitos outros …     

Histórias de quem ensina … e educa

Ao longo da vida tive muitos professores a quem devo a maior parte daquilo que sou. Uns formais, com o “canudo” de um curso médio ou superior para dar aulas, e outros às vezes sem curso nenhum, quando não analfabetos, mas que me deram grandes lições de vida e moral. E fiquei devedor para uns e outros com uma conta tão grande, que não vou conseguir pagá-la nunca. Algo como a dívida do país que vai ficar connosco para sempre … 

Se há professores que se limitam a ministrar conhecimentos relativos à matéria da disciplina que lecionam, também existem outros que vão mais longe e ainda conseguem ser educadores, algo muito importante para a vida duma criança ou adolescente. Neste processo, a subtileza de alguns e os meios utilizados para educar sem ferir suscetibilidades às vezes chega a ser extraordinária. Circulam na internet algumas das histórias que nos fazem sorrir e pensar neles como “professores do catano”!!!  

“Num liceu no Porto estava a acontecer uma coisa muito fora do comum. Um “bando” de miúdas de 12 anos andava a pôr batom nos lábios, todos os dias, e para remover o excesso beijavam o espelho da casa de banho. A Direção andava muito preocupada porque a funcionária da limpeza tinha um trabalho enorme para limpar o espelho ao fim do dia e no dia seguinte lá estavam outra vez as marcas de batom.
Um dia, um professor juntou as miúdas e a funcionária na casa de banho e explicou que era muito complicado limpar o espelho com todas aquelas marcas que elas faziam. E, para demonstrar essa dificuldade, pediu à empregada para mostrar como é que ela fazia para limpar o espelho. A empregada pegou numa “esfregona”, molhou-a na sanita e passou-a repetidamente no espelho até as marcas desaparecerem.
Nunca mais houve marcas no espelho” …

Sem um sermão intimidante à turma, sem uma ameaça de castigo ou repreensão, sem o recurso à presença dos encarregados de educação e somente com uma estratégia bem pensada, aquele professor fez com que as garotas não mais quisessem colocar os lábios no espelho de jeito nenhum. A “demonstração”, valeu mais que mil palavras …

Numa dada noite, três estudantes universitários beberam até altas
horas e não estudaram para o teste do dia seguinte. Ao outro dia de manhã, desenharam um plano para se safarem. Sujaram-se da
pior maneira possível, com cinza, areia e lixo. Então, foram ter com o professor da cadeira e disseram que tinham ido a um casamento na noite anterior e no seu regresso um pneu do carro que conduziam rebentou e tiveram de empurrar o automóvel todo o caminho. Por isso, não estavam em condições de fazer aquele teste.
O professor, que era uma pessoa justa, disse-lhes que fariam um
teste-substituição dentro de três dias e que, para esse teste, não havia desculpas. Eles afirmaram que isso não seria problema e estariam preparados.
Ao terceiro dia apresentaram-se para o teste e o professor disse-lhes, com ar compenetrado que, como aquele era um teste sob condições especiais, eles teriam que o fazer em salas diferentes.
Os três, dado que tinham estudado bem e estavam preparados,
concordaram de imediato. O teste tinha 6 perguntas e a cotação era de 20 valores.
Pergunta 1. Escreva o seu nome —– ( 0.5 valor)
Pergunta 2. Escreva o nome da noiva e do noivo do casamento a que foste há quatro dias atrás — (5 valores )
Pregunta 3. Que tipo de carro conduziam cujo pneu rebentou.– ( 5 valores)
Pergunta 4 . Qual das 4 rodas rebentou ——- ( 5 valores )
Pergunta 5. Qual era a marca da roda que rebentou —- (2 valores)
Pergunta 6. Quem ia a conduzir? —— (2.5 valores)

Sem recorrer à confrontação, este professor começou por fazer com que aqueles alunos prevaricadores estudassem a matéria do teste, para depois os colocar diante de um outro bem diferente, que viria pôr a nu toda a falsidade da sua história sobre a ida ao casamento. O professor conseguiu com facilidade pôr em prática o provérbio de que “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo” …

Um professor encontrou um rapaz que dizia ter sido seu aluno. O jovem perguntou: – Lembra-se de mim? E ele disse que não. O jovem disse-lhe que foi aluno dele. E ele perguntou: – O que faz?

– Sou professor, respondeu o jovem.

– Ah que interessante. Como eu? – Sim. Virei professor porque o senhor me inspirou.

Curioso, o professor perguntou ao jovem qual foi o momento em que ele o inspirou a ser professor. E aí o aluno contou a história:

“Um dia um amigo meu, também estudante, chegou com o relógio novo, lindo, e eu decidi que o queria para mim. Por isso roubei-o do bolso dele. Quando o meu amigo se apercebeu do roubo, falou com o professor. E o senhor avisou a turma: “o relógio do vosso colega foi roubado e quem o roubou deve devolvê-lo”. Porém, eu não o devolvi porque o queria muito. Mas o senhor trancou a porta e avisou-nos para ficarmos de pé, pois iria revistar-nos, um a um, em todos os bolsos até encontrar o relógio. Depois, o senhor disse a todos para fecharem os olhos, pois faria isso com os alunos de olhos fechados…

Todos fecharam os olhos e você foi indo de bolso em bolso e, quando chegou ao meu, encontrou o relógio e tirou-o. Depois continuou a revistar os restantes. Quando terminou disse: “podem abrir os olhos. Já temos o relógio”. O professor nunca me disse nada e nunca mencionou o episódio nem denunciou quem o tinha roubado a ninguém. Nesse dia o senhor salvou a minha dignidade para sempre. Foi o dia mais vergonhoso da minha vida. Mas ao salvar a minha dignidade, salvou-me de me ter tornado um ladrão, uma pessoa má, etc…

O senhor nunca disse nada, nem me deu nenhuma lição de moral. E eu entendi a mensagem. Entendi que é isso que um verdadeiro educador deve fazer. O senhor não se lembra disso professor?

E o professor respondeu: – Eu lembro-me da situação, do relógio roubado, de eu ter revistado todos, etc. … Mas não me lembrava de si. Porque eu também fechei os meus olhos ao revistar-vos …

Nesta história, de autor desconhecido, o professor dá-nos uma lição de como resolver um problema sério com subtileza e sem tocar na dignidade do prevaricador.

Como diz o final de um dos textos, “há professores do catano” …

São muitos anos … a virar frangos!!!

Afinal, ainda há quem me surpreenda …

Admiro a genialidade criativa, científica, artística, intelectual, etc. do ser humano, que ultrapassa tudo aquilo que eu poderia imaginar quando jovem adolescente. No entanto, nesta fase da vida já nada me surpreende e, muito menos, me espanta. Diria mesmo que, o que leio, ouço, vejo ao vivo e nos meios audiovisuais ou me é dado a conhecer de outra forma, tornou-se quase banal, não havendo lugar para abrir a boca de espanto pelo último invento, pelo desempenho ou proeza de um atleta de elite ou pela descoberta de um cientista genial. Se achei admirável comunicar pelo primeiro telemóvel a que tive acesso, a partir da Suécia, quase do tamanho dum tijolo, a chegada de novos modelos sofisticados, cada vez mais impressionantes em velocidade, na redução de tamanho e acréscimo da capacidade, multiplicidade de funções e fiabilidade, foi e é encarada com naturalidade, como sendo só “mais um novo modelo de telemóvel”, enfim, uma banalidade que já não surpreende. 

De igual forma admiro Albert Einstein, símbolo da genialidade, que representa o potencial e a capacidade de uma mente excecional, de alguém que foi mais longe que todos os outros, além de muitos mais cientistas responsáveis por novas descobertas, mas que já não me deixam de boca aberta. São o resultado da mistura de inteligência, persistência e muito, muito trabalho. Uma consequência lógica de quem se dedicou intensamente a uma causa e usou o seu cérebro em pleno. É que, nesta máquina muito complexa que é cada um de nós, o cérebro, além de ser o comando do corpo, molda tudo o que somos. Por essa razão houve um enorme interesse da comunidade científica no estudo do cérebro de Einstein após a sua morte, à procura de algo que fosse responsável pela sua genialidade. 

Até conhecer há poucos dias a história de Edgar Cayce eu podia dizer que nada me surpreendia, mas agora dou comigo a tentar encontrar explicações para o que ele fez e como foi possível. Surpreendam-se também!!!

 “O pequeno Edgar Cayce estava doente e o médico mantinha-se à sua cabeceira. Não havia nada a fazer para salvar o garoto do estado de coma. Mas bruscamente, enquanto dormia, a voz do miúdo elevou-se, clara e tranquila, dizendo: “Vou dizer-lhes o que tenho. Apanhei uma bolada de base-ball na coluna vertebral. É necessário fazer-me uma cataplasma especial e aplicá-la na base do pescoço”. E, com a mesma voz, o garoto ditou a lista das plantas que era necessário misturar e preparar. “Despachem-se, senão o cérebro arrisca-se a ser atingido”. Por descargo de consciência, obedeceram-lhe. Ao anoitecer, a febre descera. No dia seguinte, Edgar deixava a cama, tão fresco como uma alface. Não se lembrava de nada e desconhecia a maior parte das plantas que indicara”. Assim nascia uma das histórias mais incríveis da medicina. Como é que Edgar Cayce, camponês dos Estados Unidos, completamente ignorante, lamentando sempre não ser “como toda a gente”, tratará e curará em estado de sono hipnótico mais de quinze mil doentes, devidamente confirmados pelas autoridades? 

Foi muito contrariado que aceitou fazer uso dos seus poderes para ajudar os doentes, em especial os desenganados da medicina, tendo exigido como condição que alguns médicos assistissem às sessões e de não receber um tostão, nem sequer o mais pequeno presente. Foi assim que o secretário local do Sindicato dos Médicos reuniu uma comissão de três, para assistir a todas as sessões, com espanto. De tal forma que o Sindicato Geral lhe reconheceu as faculdades e autorizou oficialmente a dar “consultas psíquicas”.

Virou notícia quando um médico homeopata, Wesley Ketchum, com problemas de saúde que o próprio e seis médicos diagnosticaram ser apendicite, quis pôr à prova os poderes de Cayce. Este, que não sabia da cirurgia, disse-lhe que era um problema de coluna, o que se viria a confirmar na semana seguinte para grande surpresa de Ketchum que o elogiaria publicamente como “uma maravilha médica”. A partir daí limitou-se a fazer só duas sessões por dia. Os diagnósticos e receitas feitas em estado de hipnose eram de tal precisão e acuidade que os médicos desconfiavam ser um médico disfarçado de curandeiro. Mas ele continuou a ser fotógrafo, recusou-se a ganhar conhecimentos de medicina, nada lia e continuou filho de camponeses com certificado de estudos correspondente à 4ª. classe. Quando se insurgiu contra a estranha faculdade que possuía e quis desistir, ficou mudo.

James Andrews, magnata americano, foi consultá-lo e, entre outras drogas, prescreveu-lhe “água de salva”. Não conseguindo encontrar o medicamento, Andrews publicou anúncios nos jornais e em revistas médicas do mundo à procura da “água de salva”, mas sem resultado. Não conseguindo, Cayce ditou-lhe a sua composição, muito complexa. Dias depois, Andrews recebeu a informação dum médico parisiense: fora o seu pai, médico, que elaborara a água de salva, mas deixara de a fazer 50 anos atrás. A composição é igual à sonhada pelo fotógrafo!

Cayce casou, teve um filho. Este, ao brincar com fósforos, fez explodir um depósito de magnésio. Os especialistas disseram que a cegueira era total e propuseram extrair um olho. Cayce mergulhou na hipnose, recusou a extração e prescreveu a aplicação de pensos embebidos em ácido tânico durante 15 dias. Os especialistas acharam uma loucura, mas Cayce não cedeu e 15 dias depois o filho estava curado.

São inúmeras as prescrições dele que deixavam todos estupefactos, inclusive Cayce, como a receita de Codirom, um medicamento que não existia nas farmácias. Mas ele indicou a direção do laboratório, em Chicago. Ao telefonarem, receberam um: “Como é que ouviram falar do Codirom se ainda não está à venda, acabamos de elaborar a fórmula e de lhe dar o nome”?

Mas ele ficaria na história pela sua capacidade de prever o futuro. Foi assim ao prever a 1ª. e 2ª. Guerras Mundiais, a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, o surgimento do nazismo, os conflitos raciais nos Estados Unidos, a morte de dois presidentes americanos a até a localização de poços de petróleo, enriquecendo alguns fulanos que o consultaram, sem ele nada beneficiar. Tendo todas as sessões sido registadas por uma estenógrafa, veio-se a verificar que das 14.246 leituras, só 200 estavam erradas. Até viria a acertar em cheio no dia e hora da sua morte …  

Interrogado no estado de hipnose sobre a sua forma de proceder, ele declarou, para não se lembrar de nada ao acordar, que podia entrar em contacto com qualquer cérebro humano vivo e de utilizar todas as informações contidas nesse cérebro ou cérebros, para o diagnóstico e tratamento de cada caso. Como é possível um fotógrafo da aldeia sem curiosidade científica poder funcionar como um médico de génio ou o espírito de todos os médicos do mundo, em simultâneo e no instante?

Ao conhecer a história deste homem, sobre o qual há documentação abundante e até instituições a tentar explicar tal fenómeno, tenho de me confessar surpreendido e até espantado. É caso para perguntar: “Como era possível”? E fica-me uma grande pena pela falta que neste momento faz, não a mim em especial, mas a toda a humanidade. Com a sua capacidade de utilizar todos os conhecimentos que circulam no mundo da mesma forma que alguém usa uma monumental biblioteca, quase instantaneamente ou à velocidade da luz, talvez fosse capaz de prescrever um remédio adequado para combater o Covid-19 e salvar milhões de pessoas deste flagelo que já virou pesadelo, para surpresa e espanto de todos, eu incluído … 

Estamos todos no mesmo barco …

A minha mãe está a dois anos e meio de completar um século de vida e, para nossa alegria, mantem uma boa saúde física e mental que lhe assegura qualidade de vida. Sempre que a tenho visitado nos meses de pandemia ela está sentada na salinha junto à cozinha, espécie de marquise aquecida pelo sol de verão e pela “salamandra” no inverno, tendo a minha irmã e a televisão por companhia, pois não abdica de “ver o Telejornal para se manter informada”. Quando lhe dizem que o Telejornal só apresenta desgraças e calamidades e que muito do que ali se diz não é verdade, responde tranquilamente: “Não há problema, pois eu só acredito no que quero”. Nesta segunda vaga de Covid-19 só sai para ir ao jardim e à missa, contida nos contactos com vizinhos e amigas, num novo confinamento voluntário para se proteger. 

Quase em todas as visitas me põe a par das suas preocupações, sendo uma delas recorrente: “Eu tinha uma consulta marcada no mês de Março na minha médica de família, mas foi cancelada por causa do vírus. Fiquei à espera que me voltassem a marcar a consulta, mas até agora não me disseram nada”. Depois de desabafar sobre essa ausência de notícias relativamente à sua consulta desmarcada, acaba sempre por dizer: “Também não me faz falta nenhuma. Não me dói nada, não me posso queixar de nada. E se algum dia me doer alguma coisa, sei bem o que fazer. Vou a Lousada ao Hospital porque sou logo atendida e não tenho de ficar tanto tempo à espera”.

Duas coisas me deixam feliz na sua atitude. A primeira, é o facto de “não lhe doer nada” e de “não se queixar de nada”, o que é admirável, algo que eu, uns bons anos mais novo, já não posso dizer. A segunda, é o sentido prático de “saber o que fazer se lhe doer alguma coisa”!!!

A pandemia colocou um enorme desafio à humanidade e Portugal não foi exceção. E a resposta que o serviço público deu, com os altos e baixos, avanços e recuos, certezas e contradições, ações eficientes e exibicionismos patéticos, tem nos profissionais de saúde um trabalho heroico que deve ser reconhecido por todos sem exceção. Mas nesta luta que obrigou à mobilização geral dos recursos humanos centrada na pandemia, é um facto o grande esquecimento dos outros doentes, muitos deles em situação dramática e que foram deixados à sua sorte como é reconhecido por gente muito mais qualificada que eu, tendo um fim antes do tempo que lhes era devido e de quem a estatística Covid-19 nunca falará. Exemplo disso foi uma mensagem que recebi há dias de um colega e amigo. Dizia: “A Teresa deixou-nos”. Percebi logo que a sua mulher tinha falecido. Na impossibilidade de lhe ir dar um abraço a Coimbra, telefonei ao Carlos para saber o que se passara. Depois de alguns desabafos, falou-me da mulher, que era uma doente cancerosa estabilizada, com uma ida mensal ao Hospital. No entanto, a consulta de Março foi-lhe cancelada. Passou o Abril e Maio sem que fosse remarcada e, apesar da insistência, veio o Junho e Julho e nada aconteceu. Por muita insistência, só em finais de Agosto voltaria ao Hospital, onde fez um longo tratamento de oito horas. Quando entrou em casa desabafou com o marido: “Carlos, prepara-te porque não vou durar uma semana. Hoje mataram-me com o tratamento”. E só teve mesmo mais uma semana de vida … A Teresa, como muitos outros doentes que já partiram neste período difícil, seguramente não fará parte das estatísticas Covid-19 que a imprensa nos dá todos os dias. 

Percebe-se que a capacidade de resposta não dá para tudo, mas não se explica convenientemente e as pessoas não entendem alguma falta de resposta, sobretudo dos cuidados de saúde primários. Nalgumas unidades, mais parecem que estão encerrados num castelo, onde se atende com um distanciamento social que não se limita à distância dos 2 metros da praxe, mas também fazendo questão de falar “de cima da burra”, com arrogância e desrespeito por aqueles que sofrem ou que vão procurar alívio para os seus que lá não podem ir. 

Há dias contava-me a mãe de um amigo que vive num concelho vizinho, ter sido tratada como se tivesse “lepra”, apesar de estar devidamente protegida. Fora ao seu Centro de Saúde para entregar um documento e a senhora que a atendeu, mesmo atrás dum balcão, deu dois passos atrás, recusou-se a tocar-lhe e tomar conta dele, informando-a com muito maus modos: “Vá para casa e mande isso pela internet”. E a mãe do meu amigo, uma velhinha muito simpática, rematou a sua história: “Nem sequer me deu tempo para lhe dizer que não tenho internet e, se tivesse, não sabia como a usar” …

O combate a esta pandemia é a prioridade, não tenhamos dúvidas, e temos de estar todos envolvidos. Cada um de nós tem de fazer a sua parte. Percebe-se que o novo coronavírus é encarado de formas mais diversas. Uns com visão obsessiva, doentia, que leva à depressão e ao sofrimento permanente como se o vírus fosse já o fim. Outros, olham-no despreocupadamente, desvalorizando os riscos, o que se sabe e o que se diz, de forma leviana. Há os dogmáticos, que cumprem todas as instruções das autoridades, os conselhos da família, do amigo, dos vizinhos, da imprensa escrita e falada, às vezes contraditórias, mas achando que o último conselho é o melhor. E há os racionais, que se protegem usando o bom senso e fazendo a triagem da informação que lhes chega. E se a maioria tem o sentido da responsabilidade, da necessidade de se proteger e assim proteger os outros, há muitos que facilitam, pensando que por estarem em família já podem festejar um aniversário, a despedida do amigo, a chegada de alguém, Há dias uma senhora desabafava: “A minha comadre convidou-me para ir lá a casa no primeiro aniversário da minha afilhada. Já tinha 23 convidados e contava comigo. Perante a gravidade da situação da pandemia aqui na região, pedi-lhe desculpa, mas não iria porque o risco era muito grande. Ficou zangada dizendo que eram todos da família e eu tinha de ir, não havia problema. Bem quis chamá-la à realidade, mas ela só vê o aniversário da filha, como se a festa fosse muito importante para quem tem só um ano de idade” … 

A verdade é que temos mesmo de nos “proteger” dos familiares que não vivem connosco todos os dias para não cairmos no risco do contágio inocente, porque de estranhos sabemos nós proteger-nos. Algo parecido com “que Deus me defenda dos meus amigos, que dos inimigos me defendo eu” …

Sejamos realistas. Estamos todos metidos no mesmo barco, no mar encapelado da pandemia e a enfrentar a segunda vaga, com o pessoal de saúde ao leme. Mas todos nós, sem exceções, somos chamados e temos um papel fundamental para “levar este barco a bom porto” e o mesmo é dizer, para nos salvar-nos. Se cada um fizer a sua parte no “combate” a este vírus e travar ao máximo a sua transmissão, vamos chegar a bom porto, seguramente, conscientes de que, mesmo assim, haverá uma fatura pesada a pagar. Em vidas, condição económica e segurança. 

Antes de nos demitirmos de cumprir o papel que cabe a todos e cada um, lembremo-nos que podemos vir a fazer parte da estatística …