Solenidade, virou feira devaidades…

Maria é uma jovem mãe que anda empolgada, pois dentro de dias o seu filho vai fazer a primeira comunhão. O entusiasmo deve-se ao que isso representa na formação religiosa e humana do filho? Claro que não. O motivo da euforia é a festa. Ou seja, a “consequência” passou a importante enquanto a “causa” não conta. Já há alguns meses que começaram as suas preocupações com a cerimónia… Imagine-se o “trabalhão” que deu encontrar o vestido certo… Dias e dias a saltar de loja em loja, a experimentar toilete atrás de toilete. “Este não serve porque me faz gorda, aquele porque a minha cunhada tem um igual, o outro porque…” E para encontrar uns sapatos a condizer? Foi um sacrifício… Sapato de cerimónia, de tacão alto e fino, exigiu treino, muito treino, para não dar um trambolhão em plena igreja ou deixá-lo preso entre as frestas da calçada… Quantas horas não teve de passar em frente do espelho, estudar posições, dar passos com um “manear” das ancas? Não calculam como é cansativo… Com o cabelo entregou-se a quem sabe. Mesmo assim, teve de ir algumas vezes à cabeleireira escolher no catálogo de penteados qual o mais adequado à toilete, sendo que na última até se vestiu e calçou a rigor. É difícil…

Mas isto só foi uma das suas preocupações pois, convencer o marido de que não podia levar o fato cinzento que usou no casamento da prima Isilda e “tinha” de comprar fato novo, foi outra que tal. Nada fácil. Teve de utilizar a arma mais poderosa: Choro, com lágrimas e ranho… E lá foi, com ele a fazer figura de desgraçado, comprar o “fatito” italiano, de lã pura… É que a vizinha andava-se a gabar do seu Manel ir todo nos “trinques”, com um fato espetacular comprado no “Shopping”… Aquela “sirigaita” ia ver quem ia nos “trinques”…

Quanto ao filho, tinha de “dar nas vistas” na solenidade. Para isso, foi a uma casa especializada em fatos de comunhão e escolheu o mais bonito. Alugado… Mas ninguém saberia, pois ia dizer que o comprou numa loja de Braga… Era o que faltava, ser gozada como pelintra… No entanto, o que deu numa grande discussão lá em casa, foi a lista de convidados. O marido queria ficar-se pela família mais próxima e fazer o almoço no restaurante perto de casa. “Qual quê, não faltava mais nada. Não quero ser motivo de chacota na terra. Ninguém se vai ficar a rir de mim, ainda que tenha de pedir dinheiro emprestado”. E assim foi. Convidou a família dela e a dele. Toda. Para além dos padrinhos e filhos e alguns amigos mais ou menos próximos. Parecia um casamento… O restaurante da terra? Nem pensar. Alugou a sala “VIP” duma Quinta que está “na berra”, com ementa a condizer… Só rezava para que o senhor padre tivesse a feliz ideia de fazer a procissão logo a seguir à missa e ficava tudo “despachado” de manhã. No caso de a marcar para o fim da tarde, o “povo” ficava “alapado” no restaurante a comer e a beber até à hora da saída e receava que algum dos participantes, a começar pelo marido que era dado à “pinga”, não se “aguentassem nas canetas” e “armassem barraca”, sempre motivo de falatórios. É que, nos dias seguintes, nas mercearias, cafés, tascos, ruas e outros locais da terrinha, as mulheres iriam “passar tudo a pente fino”, até com fotografias no telemóvel: “Olha como a Joana ia vestida e pintada? Parecia uma mulher da vida…”; “A Teresa já usou aqueles sapatos na comunhão solene do filho da Laurinda”; “Viste o decote da Francisca? Se ao menos tivesse alguma coisa para mostrar”…; “E o homem da Antónia? Uma vergonha. Até ia com a fralda de fora”…

O “Pai Nosso”, a “Primeira Comunhão”, a “Profissão de Fé/ Comunhão Solene” e o “Crisma”, são cerimónias religiosas onde as crianças deviam ser as únicas “estrelas” a brilhar. Mas, pouco a pouco, tornaram-se motivo de grandes festas, marginalizando a cerimónia religiosa, numa autêntica “feira de vaidades” onde importa mais parecer que ser. Será que sabem o significado e importância de tal cerimónia? Ou isso é secundário? Os homens deixam as coisas quase sempre entregues às mulheres (verdade se diga, também não têm voto na matéria…) e estas fazem delas uma competição. E (quase) nenhuma quer ficar atrás da outra. Em nada. Na igreja ou na procissão, a sua atenção está… nas outras. O que vestem, usam, calçam, fazem… São a concorrência. É preciso estar melhor, fazer melhor, parecer melhor. Ser a “rainha da cerimónia”, nem que ao outro dia não tenham onde cair mortas.

Há coincidências espantosas. Quando tinha mais de metade desta crónica escrita, telefonou-me o meu filho da Colômbia através do “face time” (com imagem). Nem de propósito: Estava numa festa da primeira comunhão organizada por um colégio católico da Colômbia. E rodou o telemóvel apontando a câmara de vídeo para a paisagem da “finca” (quinta) onde estava a decorrer, uma grande propriedade com cavalos, atividades para miúdos e graúdos e um restaurante. A festa e o almoço de todas as crianças da primeira comunhão era comum. Os responsáveis do colégio e pais das crianças haviam-se reunido e tomado a decisão de não realizarem festas individuais. Mas, o mais curioso, é que também decidiram que o dinheiro que cada um iria gastar seria entregue à responsabilidade do colégio, constituindo um fundo destinado à organização da festa que estava a decorrer no momento em que me telefonou. Convidados? Só família muito próxima, cinco ou seis por criança. Mas havia algo de mais extraordinário naquela festa única, onde os egos e vaidades deram lugar ao bom senso: Para além das crianças do colégio em idade da primeira comunhão, também foram convidadas, e ali estavam, mais sessenta crianças de menor condição económica (de outros estratos sociais), sendo que cada criança do colégio era obrigada a partilhar e brincar durante o dia todo com uma dessas crianças, interagindo com ela como se ao colégio pertencesse.

À luz da nossa mentalidade, aqueles pais são estúpidos, atrasados mentais que não souberam aproveitar a oportunidade para exibir o dinheiro, esmagar a “concorrência” e passear a vaidade. Só mesmo na América latina… pensarão.

É caso para parar, meditar e escolher o que é verdadeiramente importante: Se continuar a seguir os caminhos do exibicionismo, da inveja e da estupidez feita vaidade ou valorizar estas cerimónias religiosas pelo que devem significar para na vida da criança e praticar atos sérios de humildade, solidariedade e fraternidade. Senão, não vale a pena ir à igreja, bater com a mão no peito e dizer “Senhor, Senhor”, porque não “bate a cara com a careta”… E, seguramente, não O conseguimos enganar…

Crenças, rezas e responsos. Resultam?

Quando lhe paguei o salário este mês, a Teresa guardou-o numa pequena bolsa. Ao outro dia, logo pela manhã e sem estarmos à espera, apareceu cá em casa à procura da bolsa. Não sabia onde a deixara. Já correra tudo e… “foi um ar que lhe deu”. Nem nós a vimos nem ela a encontrou, apesar de corrermos os quatros cantos da casa. Desanimada, convenceu-se que lhe teria caído no caminho de regresso a casa e com ela perdera tudo, dinheiro e documentos. Foi-se embora abatida pela perda e resolveu fazer aquilo que uma das irmãs costuma fazer nestes casos: Atar a perna da mesa com um pano de cozinha enrolado feito corda, para “amarrar o diabo”. E procurou novamente. Acredite-se ou não, a verdade é que a bolsa apareceu pouco depois…

Já quando era miúdo, se desaparecia alguma coisa, a minha mãe dizia-me: “Amarra o diabo”. E eu fazia o que a Teresa fez, atando uma das pernas da mesa com uma corda. Não há dúvidas, resultava. Porquê? Não sei e ninguém me sabe responder. Esta é uma das muitas crenças populares que vão passando de geração em geração e que têm sobrevivido às desmistificações científicas. Há ainda muitas coisas por explicar ou não queremos aceitar as explicações. Já agora que falamos em formas de recuperar objetos perdidos, também existe uma oração chamada “Responso a Santo António” para ser rezada quando já não há esperança de voltar a ver o que se perdeu. E deve ser rezada assim: “Eu vos saúdo, glorioso Santo António, fiel protetor dos que em vós esperam. Já que recebeste de Deus o poder especial de reencontrar objetos perdidos, socorrei-me neste momento, a fim de que, mediante o vosso auxílio, eu encontre o que procuro… Alcançai-me, sobretudo, uma fé viva, uma esperança firme, uma caridade ardente e uma docilidade sempre pronta aos desejos de Deus. Que eu não me detenha apenas nas coisas deste mundo. Saiba valorizá-las e utilizá-las como algo que nos foi entregue para nosso uso e procure sobretudo aquelas coisas que ladrão nenhum nos pode tirar e que nunca iremos perder. Assim seja”.

Mas, não se ficam por aqui as rezas e outras crenças em relação à forma como recuperar objetos perdidos. Há quem torça um lenço e dê três nós, enquanto vai dizendo: “Amarro o rabo da macaca e, enquanto não achar o que procuro, não desamarro este rabo”. Será que há alguma macaca responsável pelo desaparecimento dos nossos bens? Uma coisa parece ser importante: Acreditar. Daí que cada um tenha as suas crenças. Ainda existem os crentes em São Longuinho. Para esses, a solução é um responso a este santo: “ Caro São Longuinho, patrono dos pobres e o ajudante daqueles que procuram artigos perdidos, me ajuda a encontrar o objeto que eu perdi (referir qual é o objeto) e que eu encontre melhor uso para o meu tempo e o use para ganhar para Deus, maior honra e glória. Conceda-me esta graça e o seu precioso auxílio para todos os que procuram o que perderam, principalmente aqueles que procuram encontrar e ganhar novamente as graças de Deus e a vida eterna. Amén.

Com tantas formas de resolver o mistério das coisas perdidas e, apesar de em miúdo ter solucionado alguns casos “amarrando o diabo” com uma corda presa à perna da mesa, ainda não consegui recuperar uns óculos de sol “novinhos em folha”, que desapareceram “por encanto”. Até parece bruxaria… Como estava a precisar de proteger os olhos que me têm andado a doer devido ao excesso de luminosidade, acabei por comprar uns há cerca de um mês, já que o dinheiro colocado na testa não os protege dos raios solares… Alguns dias depois, quando a minha cadela me deu sinais de que queria levar-me a passear, resolvi “estriar” os óculos pois a manhã estava muito luminosa.

Lá fui, agarrado à trela, enquanto ela me conduzia para a volta habitual. Lembro-me de ter chegado a casa, fechar a porteira, tirar a trela à Diana e atender o telemóvel. Através da janela da cozinha a Ana Maria estranhou ver-me de óculos escuros, mas não disse nada. Entrei em casa, tomei banho, almocei e quando procurei os óculos para ir trabalhar… “óculos de grilo”. Nunca mais os vi. Andei para trás e para a frente, refiz os passos que penso ter dado depois de chegar a casa mas, nada. Não os vi em nenhum dos locais onde presumi que poderiam estar. A Teresa “amarrou o diabo” mas, nem assim. As “lunetas” não se dignaram aparecer. Toda a gente cá de casa andou a ver os cantos e o resultado foi nulo. Para explorar as alternativas, leram o responso a Santo António. No entanto, não sei se por falta de convicção na solução se por algum erro de leitura que tenha impedido a mensagem de “lá chegar”, se por os óculos terem voado misteriosamente, não resultou. Nada de óculos escuros. Terá sido por serem escuros? Por terem caído no saco do lixo sem me aperceber? Nos gatos que passam pelo meu jardim a correr, fugindo da Diana, não vi nenhum de óculos… Certo, certo, certo, é que já se passaram quatro semanas e parece-me que só vai haver uma solução: Comprar outros, por muito que me custe. E custa… Fica-me aquele amargo de boca de ter para aí uns óculos novos em qualquer lado e, feito parvo, ir comprar outros. Só a mim? De maneira nenhuma, pois as pessoas perdem de tudo. Até já houve quem perdesse um bidé… Será que é mesmo perda? Ou será só esquecimento do lugar onde colocamos o objeto?

Se “amarrar o diabo” ou o rabo da macaca e ler o responso a Santo António ou a São Longuinho continuo a interrogar-me se resulta. Porque não sei. É que, no meu caso, quem “fez o trabalho” foram outras pessoas. Será que tenho de ser eu a “amarrar o diabo” ou o “rabo da macaca”? E se resultar? Vou ter de acreditar, por mais céptico que seja? Como o que eu quero é reaver os óculos, irei tentar e logo se verá. Provavelmente, tenho é de “arranjar a corda certa”…

35 anos… É muito caminho…

Quem faz trinta e cinco anos é velho ou novo? Em tempo, são 12 783 dias, 1820 semanas ou 420 meses. E em espaço? Sim, há gente que “pensa fora da caixa” e substitui o tempo por… distância percorrida no constante girar da terra: Não diz que viveu um segundo mas que andou 465metros. Ou que percorreu 1 675 quilómetros (uma hora). Fazer trinta e cinco anos é motivo de comemoração. Para os casados, são as bodas de coral, que significam amadurecimento e fortificação do relacionamento. Para o CD, que também nasceu há trinta e cinco anos, já não é motivo de festa pois está em agonia no mercado musical. Já os GNR, a banda do Rui Reininho, comemoram esse aniversário “dando-nos música” (só o fui ver uma vez no Algarve, há muitos anos. A banda começou a tocar, Rui Reininho veio lá de trás a correr, deu um salto e… desapareceu. Acabou o concerto. As tábuas partiram-se e o Reininho aterrou debaixo do palco com algumas costelas partidas). Até Pinto da Costa assumiu a presidência do Futebol Clube do Porto vão três décadas e meia e foi um vendaval de títulos. Eu disse “foi”… Também pode haver tristeza no alcançar esta idade. Aos trinta e cinco anos, o campeão mundial de MotoGP Nicky Hayden, morreu num acidente. Ah, e se pensa engravidar mas tem trinta e cinco anos ou mais, deve ter em conta os factores de risco acrescidos. É por isso que já não engravido…

Em resumo, trinta e cinco anos é muito ou pode ser pouco tempo. Tudo depende daquilo a que se refere. Na vida de uma mosca é tempo demais, que nunca atingirá. Na de uma sequoia, é a infância. Mas, na vida de um jornal regional, é muito.

Não é fácil a um jornal de província sobreviver em termos económicos, na luta contra a crise, contra os aumentos de custos e a baixa de receitas. Por isso, o TVS está de parabéns. São merecidos. Associo-me nas felicitações. Já não gostaria de me ver na pele de diretor do TVS. Ter de matutar semana a semana em como preencher o jornal e, em simultâneo, assegurar a sua sustentabilidade, é obra. Daí que, no caso do aniversariante, trinta e cinco anos é muito tempo. É uma vida. Uma vida feita de notícias, informações, anúncios, artigos de opinião, avisos e até de publicidade encapotada. De bom material jornalístico que se lê com agrado, mas também de outro que basta ver o título para saber que é mais do mesmo. Uma coisa é certa: Se fosse noutros tempos, o jornal nunca perdia a sua função principal, fosse qual fosse a qualidade da informação: Na falta de papel higiénico, servia sempre para limpar o cu.

Até percebo que ao longo do tempo houve “espaços” que tiveram de ser preenchidos com material de recurso, colaboradores que se desejavam atirar abaixo da “camioneta” com esta em andamento mas que se tiveram de aguentar por conveniência. Se calhar, sou um deles. Dizem-me que ocupo muito espaço no jornal. Tenho de “me pôr a pau”… Como nunca tive a responsabilidade de dirigir um jornal (e nem espero ter), não consigo imaginar a dificuldade das muitas “curvas” do caminho na vida do jornal. E devem ter sito imensas (na última edição a “curva foi bem apertada”…).

Acredito que nestes anos de vida houve momentos com excesso de artigos e dificuldade em justificar o adiamento da publicação de alguns, o que terá ocasionado mal estar aos “escrevinhadores” mais sensíveis. Se fosse comigo, “atirava a albarda ao ar”. É que o que me pagam por artigo, é “bom demais”. Nestes anos de colaboração, já me pagaram dois jantares… Em contrapartida, terão existido outras ocasiões em que o diretor teve de “inventar” matéria para o jornal poder sair. Daí que, o jornal está maduro, bem adulto… Se fosse uma mulher, nunca iria atingir tal idade, por ser o limite psicológico. E queria ficar por aí durante alguns anos. Também foram trinta e cinco os anos de seca extrema na África do Sul que levaram os responsáveis de um parque a mandar matar trezentos e cinquenta hipopótamos e búfalos. Uma carnificina em nome da sobrevivência de outros…

Duas teorias estão confirmadas nestas coisas da idade: Na primeira, estudos provam que quem faz mais aniversários é mais velho, durou mais tempo… E na segunda, que os primeiros quinhentos anos são os mais difíceis…

Diz-se também que nesta vida tudo nasce, cresce, vive e morre, sendo que se vive o que se tem de viver. E o Jornal TVS vive e está vivo. E bem vivo.

Há quem afirme terem sido razões económicas a causa principal para introduzir no jornal algumas páginas centrais suficientemente “apelativas”. Ora, eu discordo. Aliás, “discordo em absoluto”. A meu ver, tal deveu-se a “critérios jornalísticos rigorosos”, à necessidade de “encher o olho” do leitor, que é determinante. Assim, a direção do jornal está de parabéns por ter tão “boa visão jornalística”, embora nalguns casos “a escolha do material” não seja a melhor…

Não posso deixar de realçar a afirmação de independência do jornal em relação aos poderes económicos e políticos, coisa que quase todos afirmam. No tempo em que tinha patrão, que era quem me pagava o ordenado, também eu gostava de me gabar ser independente dele…

Brincadeiras à parte, é hora de dar os parabéns ao TVS e lembrar as pessoas a quem se deve a sua existência. De trazer à memória o seu fundador, Manuel Afonso da Silva, homenageando-lhe o arrojo e coragem da “empreitada”, bem como à D. Orquídea sua esposa, a quem manifesto a minha maior consideração. Aos filhos, por lhes terem seguido o exemplo, continuando a dar vida a este jornal que nos fala um pouco do que nos é mais próximo. E a todos aqueles que se sentem ou sentiram um pouco parte do TVS, como trabalhadores, colaboradores, anunciantes ou outra coisa qualquer. Sem todos eles, não haveria jornal, e ainda bem que há. E já são 1 555 números… Uma vida de informação que também é um pouco de nós…

Não saiba a mão esquerda o que faz a tua direita

Com a idade, tornei-me desconfiado. Daquele miúdo ingénuo e crédulo, que acreditava em tudo o que via e ouvia, já quase nada resta. As caneladas da vida arrefeceram o meu entusiasmo e fazem-me analisar os factos com mais frieza. Questiono e tendo a duvidar. Perante a atitude ou ação de alguém, pergunto-me muitas vezes “quais as intenções reais” que não as aparentes?

Ao longo da vida encontrei gente muito boa, solidária, capaz de dar a camisa pelo outro. Pessoas dispostas a ajudar, prontas a fazer um favor ou a contribuir para uma causa. Vi até gente admirável e sinto-me honrado por ter conhecido pessoas assim. No entanto, também vi muito “gato por lebre”, de “beneméritos”, gente disponível para ajudar, mas que não deixaram de “apresentar a factura” ao exigir reconhecimento público dos seus “atos de benemerência”, na divulgação do seu gesto de boa vontade, chegando a impor a presença da imprensa para assegurar a ostentação. Em suma, o espetáculo da bondade… E já excluo os políticos que nos habituaram a essas tristes representações de “dar o que não é deles” para cobrarem os dividendos do costume em imagem e… votos Ora, “isso” de dar esperando em troca a recompensa pela publicidade, reconhecimento público ou elogio, não pode ser tido como um ato de bondade a sério, mas um mero negócio de que se espera tirar ganhos superiores ao investimento. É falsa bondade, falsa solidariedade, humanidade a fingir. Só o que é conveniente. Quem realmente “DÁ”, não quer contrapartida, é espontâneo, discreto, anónimo. A recompensa chega-lhe na alegria do coração, na paz interior e no sentir que foi útil ao outro, sem importar quem.

Se fazer o bem sem ostentação é muito digno, esconder a mão que dá ainda o é mais. Indica uma elevada superioridade moral só possível aos que conseguem apagar em si a vaidade pessoal e interesses, muitas vezes inconfessáveis. Quantos há que praticam o bem à espera que o beneficiado o proclame aos quatro ventos? Dão grande contributo à frente da multidão e das luzes, mas nem um cêntimo na discreta caixa de esmolas. O recato do contributo evita a vergonha ao beneficiado, fazendo-o aceitar a ajuda sem humilhação, sem ferir a sua sensibilidade e dignidade. E isso é fundamental, especialmente na pobreza envergonhada, onde se aceita um serviço mas é-se capaz de recusar a esmola. Daí que a ajuda muitas vezes tem de ser bem dissimulada para evitar melindres e sofrimento moral inútil.

Mas não é fácil sobrepor a discrição da benemerência à vontade de a exibir, de a anunciar com megafone. É a tentação de a tornar um negócio, nada mais que um negócio. Até algumas empresas já viram nisso uma forma de retirar dividendos junto dos clientes…

E tudo isto para falar de Manuel Peixoto de Sousa Freire, um homem que terá levado à letra o que Jesus disse no Sermão da Montanha, esse importante discurso que definiu o código de conduta que ainda hoje é a base da moralidade ocidental. Fez parte do grupo de “cavalheiros do concelho” de Lousada que estiveram presentes na reunião que ocorreu na Câmara Municipal de Lousada no dia 30 de Maio de 1896 a convite do Conde de Alentém (não se sabe se terá sido mesmo o mentor de tal reunião), de onde sairia a decisão da fundação da Misericórdia de Lousada, com o objetivo de assumir a propriedade e administração do Templo do Senhor dos Aflitos concluído alguns anos antes e de construir um hospital “para abrigo dos doentes pobres”.

Comemoram-se dentro de dias 121 anos dessa reunião… A Misericórdia veria os seus estatutos consagrados em 1897, vão 120 anos, sendo ele eleito como primeiro provedor. Estranhamente, durante os mandatos que exerceu até à sua morte em 1902, não promoveu qualquer diligência para a construção do hospital, uma das razões da fundação da instituição, sendo ainda mais estranho pelo facto dele ser um dos grandes entusiastas da sua criação. Isso viria a compreender-se na abertura do seu testamento, ao deixar uma verba avultada à Santa Casa da Misericórdia de Lousada para a construção do hospital, com indicações precisas e quem seriam as pessoas que deveriam integrar a comissão que levaria a efeito tal tarefa. Mas, o mais interessante, é que o seu testamento fora efetuado em 1895, no ano anterior à referida reunião na Câmara de Lousada onde foi deliberada a fundação da Misericórdia e da qual ele participaria, sendo ainda de assinalar que, provavelmente para o manter “no segredo dos deuses”, foi escrito e lacrado num cartório notarial do Porto… Despiu-se da vaidade e da ostentação para fazer o bem, que manteve escondido do domínio público até se ter “retirado” discretamente do palco da vida, quando o poderia ter feito durante os seus mandatos à frente da Instituição e assim colher pessoalmente os louros de grande benemérito, como muitos outros o fizeram por esse país fora.

Os seus contemporâneos reconheceram nele “o protótipo do benemérito, um homem caridoso sem ostentação, afável, humilde, sem laivos de falsa modéstia, apelidado de apóstolo da caridade”. Um exemplo vivo de quem seguiu à risca o Sermão da Montanha, quando Jesus disse: “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a mão esquerda o que fez a tua direita”. O que não é para todos…

Nunca dês nada por garantido…

Há ocasiões em que precisamos de parar para avaliar o deve e haver da vida, o que temos em comparação com o que tivemos, o que somos e o que fomos. E agradecer, porque temos muito a agradecer. Para mim, hoje foi um desses dias. Tudo começou logo pela manhã quando dava o passeio matinal com a Diana. Recebi uma mensagem pelo telemóvel para tomar uma decisão sobre o restaurante e a ementa a servir no encontro de colegas de curso que vai acontecer ainda este mês em Coimbra. Por e-mail enviaram-me os dados. Era urgente. Parei, li, escolhi e dei a resposta. Assunto encerrado.

Então questionei-me: “E se isto acontecesse quando era miúdo”? Aquilo que ficou resolvido em cinco minutos demoraria mais de uma semana… a correr bem. Senão, vejamos: Não havia e-mail, nem mensagens, nem… telemóveis. Até telefones, muito poucos. A única forma de comunicar mais acessível era por carta ou postal, mas demorava uns dias para cá e outros para lá. Ir a Coimbra de propósito estava fora de causa pois era muito longe… Havia muito poucos carros, quase nada de transportes públicos a não ser o comboio do “tempo da outra senhora”. Por isso, este pequeno aparelho que (quase) toda a gente trás no bolso e que dá pelo nome de telemóvel (agora smartfone) é algo que em criança era inimaginável. Que me lembre, nem o próprio Júlio Verne os sonhou.

Mas não fiquei por aqui. Após o passeio, fui para a casa de banho e comecei por cortar a barba. Abri a torneira e jorrou água, quente ou fria, a gosto. Naquele outro tempo, quem tinha água em casa ao simples levantar de um manípulo? Ninguém. As mulheres se queriam água, iam à fonte de Talhos que ficava a uma certa distância, com um cântaro de barro que traziam à cabeça para casa. E dele iam tirando pouco a pouco até porque, quando acabasse, tinham de voltar à fonte, com chuva ou com sol. Mas hoje abro a torneira e a água jorra em abundância dia e noite sem parar. Para ensaboar a cara, o pincel de cerdas de porco era bem esfregado em sabão macaco até fazer espuma, enquanto o corte ficava para a navalha. Só mais tarde apareceram as primeiras lâminas de barbear, muito simples. Hoje há cremes de barba e espuma de várias qualidades, múltiplas “gillettes” e máquinas de barbear, cada vez mais sofisticadas. Depois fui tomar banho, de água morna, à temperatura escolhida em torneira termostática. Um luxo que nem sequer entrava nos meus sonhos de criança… Naquele tempo era num alguidar de barro (quem tinha alguidar), atirando chapadas de água para o corpo…

E a eletricidade? Uma comodidade de hoje que se tornou um direito de todos. Carrega-se no interruptor e a luz jorra em quantidade como se fosse dia. E a ela estão ligados múltiplos aparelhos que nos facilitam a vida e a tornam mais cómoda. No meu tempo de criança, quase todas as casas tinham luz… a petróleo, que se vendia na mercearia. Havia uns bonitos candeeiros com campânula de vidro, que se passeavam pela casa conforme nos deslocávamos. Algumas pessoas utilizavam os gasómetros a carboneto. As poucas casas com eletricidade, nem sempre a tinham. Falhava muito. Às vezes, durante dias seguidos, especialmente no inverno. E a potência baixava à noite, ao ponto das lâmpadas não iluminarem. Se faltasse, esperava-se um dia antes de perguntar se quando voltaria. Hoje, não se espera um minuto…

Cresci com a rádio porque… não havia televisão. E só existiam meia dúzia de rádios na aldeia. Hoje o rádio é mais companhia de viagem porque a televisão dominou-o, melhor, dominou-nos. E é um milagre pegarmos num comando confortavelmente instalados no sofá e vermos o mundo em direto e a cores, saltando de canal em canal, de programa em programa… com o simples carregar no botão.

Pus-me a pensar nas milhentas coisas que o ser humano criou nas últimas seis décadas e que foram inventadas com o objetivo de simplificarem a nossa vida e de a tornarem mais cómoda. E difícil é enumerar os eletrodomésticos e todos os outros equipamentos, os meios de transporte que são cada vez mais rápidos (e cada dia chegamos mais atrasados), os novos meios de comunicação, do telemóvel ao smartfone, do “tablet” às redes sociais, dos computadores à internet. A massificação do ensino e a evolução na medicina de que hoje usufruímos como um direito, a anos luz de distância do pouco que havia naquele tempo. E seria cansativo enumerar bens e serviços que fazem parte do nosso dia a dia, que outrora não passavam de miragens ou nem isso.

E ao lembrar-me de tudo isto, não deixo de pensar que nos tornamos dependentes de tantas coisas, sem as quais nos sentiríamos perdidos e incapazes de viver. Como seria a nossa reação se a água deixasse de correr nas torneiras e a eletricidade de dar vida às nossas casas durante um mês? Seria o colapso porque não estamos preparados para viver sem elas. Já as consideramos como “direitos adquiridos”. E a verdade é que, para além de aceitar a vida como ela é, devemos também não dar as coisas boas como garantidas… porque um dia podem deixar de sê-lo, por mais absurdo que isso nos pareça.

Ainda há poucos dias conheci dois homens que cavalgaram uma vida de milhões onde acediam a tudo o que o dinheiro podia comprar para, em muito pouco tempo, ficarem a viver das esmolas da segurança social e da sopa dos pobres. E pensavam eles que os milhões e a vida boa era um dado adquirido, para sempre… Tal como nós pensamos sobre um conjunto de bens e serviços a que hoje temos acesso e de que usufruímos displicentemente, como se fossem inesgotáveis e durassem até ao fim dos tempos. Mas não vão durar, a começar pelo acesso fácil à água e o direito ao desperdício… Por isso, para nosso bem, nunca demos nada por adquirido nem garantido…

Testemunhas são feitas para esperar…

Para cumprir o meu dever de cidadão, subi mais uma vez as escadas de um tribunal logo pela manhã, a tempo de ouvir a oficial de justiça gritar o meu nome por cima do ruído das conversas naquele corredor comprido e frio. Tão frio como o mármore dos bancos onde, sentar-me, seria candidatar-me a congelar o traseiro. Na qualidade de testemunha da acusação em que o arguido é um caloteiro encartado que usa todos os furos da lei para que o julgamento não chegue a lado nenhum, juntei-me ao meu grupo numa amena cavaqueira, já que ali não havia mais nada para fazer, além de esperar. Sim, porque aquilo que as testemunhas mais têm de cultivar num tribunal, é a paciência. De saber esperar, ir embora, voltar e continuar a esperar. E foi o que eu fiz. Chegou o advogado carregado com uma pasta pesada. E era pelas pastas que eu os ia identificando no rio de gente que percorria o corredor. Pouco tempo ficou connosco, pois foi “lá para dentro”. E nós continuamos à espera. Não havia televisão, nada de cadeiras confortáveis, nem sequer um bar ou um café. Nem mesmo uma “musiquinha” de fundo… Só uma máquina que engole moedas e vomita comida embalada e bebidas enlatadas. E não tínhamos informações. Parece um aeroporto com voos atrasados, onde os passageiros andam “feitos baratas tontas” sem saber a que horas o voo parte ou chega, se há voo ou não. Aliás, no aeroporto ainda existem painéis com indicações sobre os voos, se chegaram, se estão atrasados, se foram cancelados. No tribunal, nem isso. Ninguém sabe o ponto de situação, se vai haver julgamento ou não. Só o advogado vai dando alguma informação, quando tem a possibilidade de “vir cá fora”. Resta-nos esperar. E esperamos quase até ao meio dia. Mais uma vez foi ele que nos trouxe a notícia costumeira: “O advogado de defesa apresentou um requerimento e o julgamento foi adiado para daqui a três meses”.

Cá está, viemos todos, apanhamos uma seca e… nada. Ninguém nos veio pedir desculpa, oferecer um cafezinho, dar umas palmadinhas nas costas “para abater ao prejuízo”. Mais coisa menos coisa, foi a repetição do que se havia passado há cerca de três meses atrás, quando o julgamento foi adiado para este dia. Agora, o resultado foi o mesmo: Adiamento. E por quantas vezes mais terei eu de voltar a subir as escadas daquele tribunal, ouvir gritar pelo meu nome, responder com outro grito “presente”, esperar toda a manhã para, quando a fome começar a apertar, virem dizer novamente que foi adiado? Vou ter de fazer horas extraordinárias e cultivar a paciência. Depois de ter ouvido um homem queixar-se que se tinha apresentado pela décima vez no tribunal e o julgamento fora adiado em todas, que posso eu, enquanto testemunha, esperar? E aquele homem com o julgamento adiado pela décima vez vinha de França, de propósito. Posso queixar-me?

Já não sei a que propósito, um advogado disse-me um dia que gostava muito de tribunais. Quando lhe perguntei porquê, respondeu-me: “Porque é um lugar onde, algumas vezes, se faz justiça”. E essa ficou-me na cabeça. Ele já ficava satisfeito por, “algumas vezes”, se fazer justiça. E eu estou inteiramente de acordo até porque já tive a sorte de ter sentenças justas, como o azar de sofrer as consequências de outras, com injustiças de bradar aos céus. Mas devo confessar que nessas, em que a sentença foi em meu prejuízo, a culpa foi sempre minha, por ter confiado em pessoas que, afinal, não o mereciam. Não eram pessoas de bem e agiram de má fé. E paguei a fatura, não podendo responsabilizar os juízes por decidirem mal. É que não me cuidei como devia, com documentos capazes de me salvaguardar se a coisa desse para o torto, como deram. Não procedi como o meu pai me recomendou pouco antes de morrer: “Não confies em boas palavras, porque te vão enganar. Faz tudo com documentos feitos por quem sabe”. Mas eu ainda tendo a ir confiando e… dá no que dá.

Nos tribunais há outros fatores anómalos que fazem da justiça injusta e não há como lhes fugir porque os homens são assim.

Um advogado acabara de sair do tribunal onde a sentença lhe foi favorável. Num grupo restrito onde eu estava, gabou-se de o ter conseguido à custa de testemunhas falsas. “De tal forma foi”, disse ele, “que a juíza se apercebeu que a prova tinha sido forjada. Então, ao acabar de ler a sentença, disse: – Fica-me a sensação de que posso não estar a ser justa. Se por isto for para o inferno, vou a cavalo nas testemunhas”.

Mas, voltando às salas de espera dos tribunais, acho que merecem alguma reflexão por quem de direito. É que, enquanto na sala de audiências decorre o “espetáculo” onde cada um representa o seu papel, que exige atenção redobrada para não cair nas armadilhas que os advogados vão lançando pelo caminho e que não deixam tempo para dormir, na sala de espera não se passa nada e podia-se dormir à vontade. Por isso, para exercitar a mente das testemunhas, que bem precisam para se lembrarem de factos ocorridos há muitos anos, ou se instalam poltronas cómodas apropriadas para dormir e descansar a “mona” ou se põe à disposição dos “clientes” (ali as testemunhas são clientes que não devem pagar nada) computadores e todo o tipo de jogos educativos, e até mesmo televisões onde passem séries completas telenovelas, porque vão ter tempo suficiente para as ver todas… E até era apropriado abrir-se ali o programa “Novas Oportunidades” para completar o liceu ou tirar licenciatura…

Já agora, para reduzir ou evitar as tais “testemunhas falsas”, nada melhor que um tasco ou um “bar aberto”, com bebidas alcoólicas gratuitas e à descrição. É que, com espera prolongada e bebidas à borla, quando as testemunhas forem inquiridas, “falam que nem papagaios”, contando “toda a verdade “feitos meninos do coro”. Tal e qual aquela testemunha “trabalhada” que não respondeu da forma que o seu advogado queria. Ao aperceber-se do desagrado dele, não se conteve: “Eu só respondi como o senhor doutor me ensinou”…

Como pôr a “massa” no seguro…

Quando liguei a televisão, a pergunta estava ali “escarrapachada”: “Podem os portugueses confiar nos bancos”? A meio do programa a votação era absolutamente clara: Oitenta e cinco por cento tinham escolhido o NÃO o que, presumo, não é surpresa para ninguém. Depois de nos últimos anos nos “limparem” milhares de milhões de euros, de serem protagonistas de alguns dos maiores golpes do nosso tempo e de estarem no centro dos grandes escândalos financeiros a que assistimos, a imagem que tínhamos dos bancos alterou-se radicalmente, passando de instituições confiáveis, respeitáveis e sérias a “casas de assalto organizadas”, controladas por “ladrões de cartola e gravata” com ar muito respeitável, mas que de respeitável nada têm. É por isso que, de “cofre” das nossas economias que eram, já só o são para aqueles que consideram não haver alternativa para guardar o “graveto”. Vai daí, anda toda a gente com “as calças na mão” pois já não sabe onde o guardar. Afinal, onde é que ele está seguro?

Ter dinheiro é agradável, dá tranquilidade e proporciona conforto. Tanto mais conforto quanto maior for o “monte”. No entanto, apesar de ser bom, também passou a ser um problema, cujo volume de preocupações é diretamente proporcional à quantidade de “papel” que se tem, pois as notícias sobre os bancos com porta aberta em Portugal são cada vez mais preocupantes. Aliás, estamos cada dia mais convencidos que aquilo que se sabe é só a “ponta do icebergue”. E a prová-lo, estão os últimos acontecimentos sobre o Montepio e a Caixa. Sempre a Caixa onde “já não dão uma para a Caixa”. Não há dúvida que tais instituições foram de confiança… noutros tempos, com outra gente. Hoje, deviam ser obrigadas a ter à porta um letreiro a avisar: “SE QUER SER ASSALTADO, ENTRE”.

Mesmo com falta de alternativas seguras, há milhões de portugueses que já tiraram a “massa” dos bancos, no todo ou em parte. E foram muitos milhares de milhões de euros. Aqueles que têm “nota até dar c’um pau”, já a “puseram ao fresco”, que é como quem diz, abrigada num dos muitos paraísos fiscais deste mundo (e que são motivo de inveja para quem não tem nada para lá pôr). Ora, para os outros que já o sacaram do banco e têm “abafado” em casa, existem muitos conselhos sobre onde e como se deve guardar. E o primeiro é de que nunca o devem colocar num cofre, pois é demasiado óbvio e será o primeiro local onde qualquer “aprendiz de ladrão” vai procurar. Por isso, esqueçam o cofre, deixem-no trancado mas só com papéis inúteis e veneno para os ratos. Alternativas? Noutros tempos, guardava-se no colchão entre o “folhelho” ou num dos muitos buracos das paredes de casa, mas já não há “folhelho” nem buracos nas paredes. É melhor escondê-lo no fundo de um dos vasos de flores que tenham aí em casa ou debaixo de um objeto pesado como uma mesa de bilhar – os ladrões são preguiçosos e pouco dados a grandes esforços físicos. Também se sugere guardá-lo numa tomada elétrica desativada (se o “pacote” for grande, têm de escavar a parede o suficiente para lá caber tudo), no aparelho de ar condicionado ou colocá-lo no congelador do frigorífico misturado com a carne e o peixe – cuidado para depois não meteram a “massa” na panela, por que não é suficientemente boa para fazer sopa… Mas nada disto é inovador pois vem nos “livros” e a internet ensina tudo, tanto aos que o querem guardar como aos que o andam a “gamar” (e não me refiro aos bancos…).

Também se pode emprestá-lo, algo que não se tem revelado ser boa política. Se lhe passar pela cabeça de ceder à tentação de emprestá-lo a um “amigo do peito” que lhe anda a fazer o choradinho, peça à sua mulher que o tranque a si na dispensa, a sete chaves, sem telemóvel nem outro meio de comunicação, até que essa febre lhe passe. É que, se levar essa patetice por diante, seguramente perde o dinheiro e o amigo, vai chatear-se com a mulher porque “bem o avisou” (e vai dar-lhe na cabeça durante os próximos cem anos…) e você fica com um grande “melão” e a chamar-se de burro até voltar a fazer o mesmo com outro “amigo”. Porque nunca se aprende…

Pode ainda emprestá-lo ao estado, o que não deixa de ser tentador. Até paga juros excelentes, como foi o caso do empréstimo à Caixa Geral de Depósitos. Mas, e há sempre um mas, há uns “maduros da política” que defendem a teoria de que os mercados devem perdoar metade da dívida, para já, e depois se verá em relação ao resto (e há partidos que até já puseram cá fora um estudo a propor formas de tramar os credores…). Ora, se emprestarmos ao estado, fazemos parte dos “mercados” como os outros e também podemos estar sujeitos às consequências de uma dessas “ideias peregrinas”. E a gente que lá tem a massa é que fica a “arder”…

Pensando ajuizadamente, se quer emprestar o cacau que juntou durante anos de sacrifício, empreste-o a… si. Isso mesmo, a si e a mais ninguém. Empreste já algum a si e vá dar a volta ao mundo. Vá ver o pôr do sol no polo norte, a desova dos salmões no Canadá ou a grande migração dos animais selvagens em África vista de balão. Vá onde a sua viagem de sonho o levar, porque só a pode concretizar enquanto andar por cá… Vai ver que, se o fizer, será o dinheiro mais bem aplicado, mais bem guardado, que nunca perderá. Será sempre um bom investimento… E você precisa de investir em si, enquanto é tempo. Até porque, será o único “capital” que vai levar consigo na última viagem…

O objectivo de cada dia: Ser Feliz

Já há duas semanas que tenho por cá o meu filho mais velho, um dos muitos portugueses que deixou o país e por outras bandas carrega a saudade. Veio recarregar baterias, satisfazer essa necessidade que todos têm de voltar à terra e aos seus. E nós dele… Durante uma semana também esteve cá o Rodrigo, um amigo colombiano, parceiro num projeto educativo. Engenheiro físico de formação, tem um mestrado em educação e é dono de uma empresa que está instalada dentro de uma das maiores universidades da Colômbia e com quem tem parceria para desenvolver projetos em áreas específicas. Um dos projetos que lidera neste momento visa descobrir através das ondas cerebrais a “frequência da felicidade”, estudo que tem envolvidas quatro universidades e um orçamento de peso. Será que, depois de se descobrir qual é essa frequência, poderemos ser todos felizes?

Há seis meses nasceu-lhe uma filha e toda ela é felicidade. Se tem fome, ri-se. Se está suja, ri-se. Se quer dormir, ri-se. Nem parece uma criança normal, mas é assim. E a razão dessa boa disposição parece dever-se ao facto de, durante toda a gravidez, com base no projeto, “ter-lhe dado música”. É verdade, junto da barriga da mãe colocava uma aparelhagem a transmitir determinado tipo de música que induz à tranquilidade e… à felicidade. E esta? Até agora, a investigação fez progressos e talvez venha a revelar coisas interessantes. E eu não deixo de ficar curioso para saber se a filha do Rodrigo vai continuar a sorrir de felicidade…

A investigação sobre as causas da felicidade é um dos desafios do século e muitos são os estudiosos que procuram a fórmula para se ser feliz, esse estado de espírito algo abstrato, que não se consegue definir bem. Sente-se. Ora, para o atingir, segundo os cientistas que se dedicam a estas coisas, aprende-se, como a jogar a bola ou a dançar. E, dizem eles, “o segredo está em aceitar-se a vida tal como ela é”, não se devendo dar as coisas boas da vida por garantidas, mas agradecer-se por elas. Mas também acrescentam que se deve simplifica-la no lazer e no trabalho, perdoar, arriscar, ser grato pelas vitórias e aprender com as derrotas, fazer amigos, celebrar a vida, cuidar do corpo e respeitar os outros.

Tendo sido uma semana em que este assunto veio à baila por causa do projeto em que o Rodrigo está envolvido, por coincidência ou não, uma senhora amiga acabou de me enviar um e-mail sobre o tema e que entendi partilhar pelo contributo para esta questão, até porque vem de alguém muito especial, cuja autoridade moral é reconhecida por todo o mundo: O papa Francisco. A sua mensagem é para que aprendamos a ser Felizes!

“Podes ter defeitos, estar ansioso e viver irritado algumas vezes, mas não te esqueças que a tua vida é a maior empresa do mundo. Só tu podes evitar que ela vá à decadência.

Há muitos que te apreciam, admiram e te querem.

Gostaria que recordasses que ser feliz não é ter um céu sem tempestades, caminho sem acidentes, trabalhos sem fadiga, relacionamentos sem decepções. Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.

Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas também refletir sobre a tristeza. Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos. Não é apenas ter alegria com os aplausos, mas ter alegria no anonimato.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar por dentro do seu próprio ser.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar ator da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no longínquo de nossa alma. É agradecer a Deus cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz não é ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica mesmo que seja injusta. É beijar os filhos, mimar os pais, ter momentos poéticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.

Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples, que vive dentro de cada um de nós. É ter maturidade para dizer “enganei-me”. É ter a ousadia para dizer “perdoa-me”. É ter a sensibilidade para expressar “preciso de ti”.

É ter a capacidade de dizer “amo-te”.

Que tua vida se torna um jardim de oportunidades para ser feliz…

Que nas tuas primaveras sejas amante da alegria. Que nos teus invernos sejas amigo da sabedoria.

E que quando te enganares no caminho, comeces tudo de novo. Pois assim serás mais apaixonado pela vida.

E podes facilmente encontrar novamente que ser feliz não é ter uma vida perfeita.

Mas usar as lágrimas para regar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para esculpir a serenidade. Usar a dor para delapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.

Nunca desistas…

Nunca desistas das pessoas que amas.

Nunca desistas de ser feliz, pois a vida é um espetáculo imperdível!”

Só nos sai “disto” na rifa…

A escola fez uma rifa com o intuito de angariar fundos para uma viagem de estudo dos alunos do último ano. Um deles abordou-me na rua com uma caderneta na mão, para ajudar. Em cada rifa estava referido o valor a pagar, dissimulado da maneira mais comum: Uma “bala”. Fiquei com cinco e entreguei cinco “balas”. Uma pequena ajuda para a viagem da rapaziada…

As rifas são uma forma informal e expedita que a sociedade tem para financiar associações, organizações, grupos e até atos nobres de solidariedade se bem que, para os devidos efeitos, são ilegais. Por melhor que seja a intenção da iniciativa, por mais altruísta e nobre que seja a causa, a lei, cega e surda, diz que é ilegal. A não ser que venha a ser emitida uma autorização do Ministério da Administração Interna, o que não é para todos…

A Secção Desportiva dos Bombeiros Voluntários de Monção efetuou uma rifa com o objetivo de angariar fundos para a compra de equipamento de combate a incêndios. Algum tempo depois de consumada a rifa, pelo simples facto de ser efetuada com base nos números da lotaria nacional, receberam uma notificação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para pagarem uma multa que, despesas incluídas, foi superior ao dinheiro arrecadado em tal sorteio. É que a Misericórdia de Lisboa – uma instituição privada que se tornou organismo público por via da nacionalização em 1834 mas que nada tem a ver com as outras Misericórdias – é detentora do exclusivo dos jogos sociais e “dos sorteios” mas, apesar de ter “Misericórdia” no nome, não teve qualquer misericórdia com os bombeiros, nem mesmo quando estes invocaram os “fins humanitários” da rifa. O argumento caiu em ouvidos nada “misericordiosos” e “surdos” ao apelo dos inocentes membros da Secção Desportiva dos BV de Monção.

Desde muito jovem vendi rifas para os mais variados fins sociais, sem que me tivesse passado pela cabeça estar a cometer um crime de “lesa pátria”. Nem sei como escapei à prisão… Pensando bem no que fiz e na quantidade de rifas que vendi, podia até ter passado metade da minha vida atrás das grades… Percebo que deve existir legislação que evite o jogo clandestino, as lotarias ilegais, mas o zelo excessivo é absurdo, mais ainda se vindo de uma instituição que se diz ter “objetivos sociais”. E pensava eu que já tinha visto de tudo!!!…

Em plena crise, alguns portugueses ao confrontarem-se com a impossibilidade de continuarem a pagar o empréstimo contraído ao banco para aquisição de casa e, para evitarem ficar sem ela e sem o dinheiro das prestações já pagas, optaram por fazer uma rifa em que o prémio seria a própria casa. A ideia era boa pois com a receita pagariam ao banco, reaviam o dinheiro já pago e libertavam os fiadores de qualquer risco. No entanto, para o fazerem, teriam de ter a tal licença do MAI. Um dos primeiros a avançar com a iniciativa foi um açoriano que, rapidamente, conseguiu a autorização do governo regional mas… acabaram aí as licenças. Não houve mais nada para ninguém, nem nos Açores nem no continente. Porquê? É um segredo de estado, reservado aos “deuses”…

As rifas são um meio usado em todo o mundo para angariar dinheiro com os objetivos mais diversos, tão diversos como o são os prémios (ou as promessas de prémios…) atribuídos. E todos querem conseguir fundos. Atletas, para financiarem a participação em campeonatos, clubes de bairro e outros, para a compra de material desportivo, paróquias, para obras na igreja, associações, para a aquisição de equipamentos ou construção de sedes. Enfim, um mundo de usos e abusos.. E os prémios vão desde carneiros a automóveis, de bicicletas a televisores, de lenha a violas. Um australiano ganhou um complexo hoteleiro no Pacífico que o dono rifou por estar cansado de aturar turistas… Americanos fazem rifas de armas como se de ursos de peluche se tratassem, até porque todos os americanos gostam de “brincar” com elas… Houve um que até já quis “rifar” a própria mulher mas, ao que parece, não teve interessados no prémio do sorteio… Numa aldeia do interior da Colômbia, com o objetivo de angariar dinheiro para as obras da igreja local, o padre fez a rifa de uma carrinha Toyota oferecida por um comerciante da terra. Anunciou a sua intenção em plena missa, apelando aos paroquianos para aderirem à iniciativa. Ora, a adesão foi excepcional e os bilhetes da rifa foram todos vendidos, conseguindo-se o dinheiro necessário para a recuperação da igreja. Durante a homilia da missa do domingo seguinte, o padre dirigiu-se aos fieis presentes, muito satisfeito: “Caros irmãos, é com grande alegria que hoje vos anuncio ter sido alcançado o nosso objetivo na angariação de fundos para as obras de restauro da igreja. Estou muito feliz pelo vosso contributo e todos estão de parabéns. Quanto à rifa, quero anunciar que o número sorteado saiu a … S. Felismin, nosso padroeiro. Ora, como ele está impedido de conduzir a carrinha Toyota, terei de ser eu a fazer isso por ele”…

A verdade é que a vida, sendo injusta, mais não é do que uma grande rifa. A uns, que “nasceram com o cu virado para a lua”, sai-lhes a sorte grande mesmo antes de porem os pés neste mundo. A outros, um prémio de consolação que às vezes nem chegam a receber. E à grande maioria, “que dá o corpo ao manifesto”, nem sequer o direito à terminação. E não é só uma questão de sorte no jogo…

As palavras que valem sorrisos…

Durante a noite e sempre que a Luísa está a dormir, costumo entrar e sair do quarto com a luz apagada por respeito ao seu descanso. Ao fim de tantos anos conheço a casa de olhos fechados e mexo-me bem e sem fazer ruído… desde que alguma coisa não corra mal. É que, às vezes, o sono atrapalha. Numa dessas noites em que a cabeça pesava mais que a vontade, levantei-me às escuras e, como habitualmente, não acendi a luz. E aconteceu. Ao contornar a cama, não calculei bem o lugar onde se encontrava a cadeira e dei-lhe um pontapé, fazendo um barulho tal, que até os vizinhos devem ter acordado. Mantive-me estático por uns segundos na espectativa de não a despertar mas, com a cabeça enfiada debaixo dos lençóis, teve discernimento para perguntar: “Não te estás a entender com a mobília”? No silêncio do quarto, tive de conter o riso para não a despertar mais…

Foi à quase nove anos que a Luísa sofreu dois AVCs e, desde aí, vive no limbo, quase sempre fora da realidade, entre a cama e a cadeira de rodas. Mas há momentos assim, em que sai do mutismo onde vive refugiada e faz uma pergunta que tem tanto de humor como de inesperada. Era assim a Luísa no seu melhor , subtil e assertiva… Na televisão passava um filme em que o protagonista principal andava à procura de uma mulher desaparecida. Como eu não estava a prestar atenção ao programa, ao olhar por acaso uma cena em que o ator entrou numa casa de banho, perguntei à Luísa: “O que é que ele vai fazer agora”? A resposta foi imediata: “Vai-se enfiar de cabeça na sanita”…

A maior parte do tempo em que está acordada, fica na sala, em regra concentrada na televisão, parecendo acompanhar tudo o que esta transmite. Porém, se lhe perguntar qual é o programa ou o filme que está a passar, encolhe os ombros em sinal de que não sabe. A sua memória de curto prazo “foi-se” porque o “gravador” deixou de gravar novas informações. Mantem o ar de ausência, como que numa apatia a tudo o que a envolve mas, muitas vezes, está com o olho na tv e o ouvido na conversa do lado, o que lhe permite introduzir comentários com graça.

No final de um almoço de família algumas das irmãs dela ficaram à conversa, a trocar impressões sobre receitas de bacalhau e durante uma boa parte da tarde. Já cansada de as ouvir falar de receitas e comida, às tantas a Luísa perguntou-lhes: “Vocês ainda não comeram, pois não”? Tal como naquela conversa, cá em casa eu comentava a notícia de que os russos tinham despenalizado a violência doméstica. Dizia então que “agora, na Rússia, nódoas negras e arranhões na vida doméstica, já não são crime”. E a Luísa, que estava à margem da conversa, “tirou logo da manga” uma das suas tiradas e meteu a colherada: “Então o que são? Medalhas?”

Só reconhece as pessoas que conhecia antes da doença se manifestar mas há ocasiões, como aconteceu ontem à noite, em que a confusão na sua cabeça deve ser muito grande, ao ponto de me perguntar: “Onde está o meu marido”?

Na televisão, um treinador de futsal gesticulava e gritava com os seus jogadores, incentivando-os a fazerem mais e melhor pois as coisas não estavam a correr bem à equipa. Depois de o observar naquele misto de azáfama e histerismo, virou-se para mim e perguntou-me: “Aquele é o treinador? Se ele acha que não estão a jogar bem, porque não vai ele lá para dentro fazer melhor”?

Pergunta-me pelos filhos várias vezes ao dia, quase sempre a querer saber porque não estão em casa ou porque não vieram dormir como se ainda fossem solteiros e vivessem cá. E, sempre que pergunta, relembro-lhe onde cada um agora se encontra. Numa dessas explicações, quando ia falar do José Miguel que nesse preciso momento viajava de avião, pus-me em pé, abri os braços e agitei-os para baixo e para cima. Ao ver-me naquela posição, perguntou: “O que estás a fazer”? “A tentar levantar voo”, respondi na brincadeira. Porém, ela desarmou-me num instante: “Mas voltas amanhã, não”?

Ainda foi há poucos dias que ocorreu a alteração da hora Apesar de saber que a Luísa esqueceria de imediato o que lhe dissesse, naquela noite de final de Março não deixei de a informar do que iria acontecer a meio da noite: “Sabes, hoje muda a hora”. E ela, apesar de parecer ausente, perguntou-me: “E muda para onde”? Ri-me mas continuei a falar com ela e com outra pessoa que estava connosco. No meio da conversa voltei a repetir “a hora muda hoje”. Meia distraída e dando a entender que não estava a participar na conversa, lá foi dizendo: “Não, não, a hora não muda. As pessoas é que a mudam”… E tive de me calar.

Repetem-se os dias e os ritmos e com estes os rituais de cada dia, no cuidar, nos medicamentos, no levanta/deita, no cama/cadeira de rodas/cama, nas refeições e cuidados de higiene e saúde, como se cada dia fosse igual ao anterior e ao que vem a seguir. E a verdade é que, na sua presença com ausência, a sua não percepção da realidade acaba por jogar a seu (e a nosso) favor, pois não tem consciência das suas limitações nem do seu estado, o que tem evitado depressões e outras consequências. E as gargalhadas ocasionais e os ditos com humor, acabam por ser um prémio e uma bênção que ajudam a suportar a dureza da caminhada…