Somos uma cambada de invejosos?

Numa mesa cheia de mulheres a conversa era animada e cada uma contava pormenores da sua vida, num ambiente alegre e divertido. Às tantas uma delas confessou estar muito feliz porque o marido a havia surpreendido ao comprar-lhe um BMW desportivo e estava à espera que lho entregassem. Mas eis que, do nada, surge uma das “amigas de longa data”, alguém com a capacidade de deitar tudo a perder para lhe roubar aquele momento de alegria, dizendo: “Não me parece que devas estar muito feliz pois essa marca desvaloriza muito. Até dizem que os donos desses carros têm duas alegrias: Quando o compram e quando o vendem”! E de onde pensava haver alguém que lhe queria bem, veio a surpresa na forma de um comentário maldoso ou um aparente conselho contaminado de amargura e inveja.

As pessoas normalmente orgulham-se dos seus pecados capitais. Orgulham-se da gula, como se comer demais fosse uma qualidade. Gabam-se da luxúria e dos seus desempenhos sexuais. Da ira e até da avareza, dizendo que são “contidas”. Abusam da preguiça e fazem da soberba uma qualidade. Mas da inveja … não. Porque é um sinal de fraqueza e impotência o desejar algo que o outro tem. É um pecado envergonhado porque têm de reconhecer que o outro é mais ou tem mais que elas. Por isso, é o único pecado de que ninguém se orgulha nem sai por aí a dizer “eu sou invejoso”. Como define S. Tomás de Aquino, “a inveja é a tristeza pela felicidade dos outros, a exultação pela sua adversidade e a aflição pela sua prosperidade. É uma vontade de que o outro não seja feliz”. Ora, como somos animais que vivem em bandos e cada vez há mais pessoas com muito dinheiro, um corpo mais bonito, têm mais sucesso e são (ou parecem) mais felizes do que nós, precisamos de ser bem resolvidos para não ceder a essa tentação de ter inveja. Mas, como quase ninguém é bem resolvido, a começar cá por mim, acabamos por viver num mar de inveja, ou seja, somos uma cambada de invejosos. Mas a gente disfarça bem para não ficar mal visto …

“Morreu a minha mãe”, estou com cancro”, “ardeu a minha casa” ou “tive um acidente”, são situações que despertam solidariedade. Mas experimente dizer no trabalho ou à família “tenho uma vida ótima”, “comprei um carro espetacular” ou “passei as férias num hotel de 7 estrelas”. Os rostos vão-se virar porque o sucesso incomoda. Pelo contrário, o fracasso alegra-nos”. Quando um rico ou famoso cai em desgraça ou é preso, há uma onda de júbilo nas redes sociais. A inveja é universal porque ela é uma maneira de dizer que o problema é o outro porque tem mais do que eu e não admitir que fui eu que não tive competência para conquistar mais coisas. Que há gente que trabalha menos que eu e é feliz. Que há pessoas que comem de tudo e não engordam. Que há gente que sabe muito com pouco esforço. Que tem dons naturais e um corpo ótimo sem grande trabalho. Quem não fica doido de inveja desta gente?

Óscar Wilde dizia: “Qualquer um pode simpatizar com os sofrimentos de um amigo, mas é preciso que de facto se tenha muito boa índole para se simpatizar com o sucesso de um amigo”. Conta-se que uma serpente perseguia um pirilampo e, quando estava quase a comê-lo, o pirilampo disse: “Posso fazer uma pergunta”? A serpente respondeu: “Por seres tu, podes fazer”. Ele questionou: “Fiz-te alguma coisa para me comeres”? “Não”, respondeu a serpente. “Pertenço aos animais que costumas comer?”, perguntou ele outra vez. “Não”, repetiu a serpente. “Então porque é que me queres comer?” quis saber o pirilampo. “Porque não suporto ver-te brilhar”, retorquiu a serpente.

Ao que parece, também nós não gostamos de gente que brilhe à nossa volta e nos ofusque. Recordo as palavras de um homem simples do campo, agricultor de profissão. Depois de lhe ter demonstrado que, fazendo a correção da acidez do solo e aplicando uma adubação conveniente aumentara de forma significativa a produção de milho, quando lhe perguntei se no ano seguinte repetia a receita executada na experiência, ele respondeu-me: “Não, porque eu só quero que o milho do meu vizinho seja pior do que o meu”! E fiquei sem palavras nem argumentos. Quando não importa que eu ganhe muito ou pouco, mas o que interessa é só que eu ganhe mais do que aqueles que me cercam, a cegueira da inveja ultrapassa o bom senso. 

A inveja em Portugal é mais do que um sentimento: É um sistema. Os homens querem ter sempre uma casa maior, um carro mais caro, a conta mais recheada do que o vizinho do lado ou o familiar direto, ainda que para isso se endividem até ao pescoço. Em suma, é uma questão de “tamanho da gaita”. Já as mulheres querem a joia mais cara, o vestido mais raro, os sapatos exclusivos ou a prenda de aniversário mais extraordinária para a exibir (e provocar inveja) às maiores “amigas”. Ou seja, é uma questão de mais “brilho”. E a inveja não é apenas individual. Criam-se grupos de inveja e um ambiente de inveja. Isto é, quando não somos bons, também não gostamos (nem deixamos) que os outros o sejam. Acabamos todos por “dar mais importância à língua da vizinha do que à vontade secreta da nossa alma”. 

A história da inveja é antiga e já Camões rematou os Lusíadas tendo como última palavra: “inveja”. Ela é um tipo de cegueira e de dor pelo sucesso alheio, pelo que o invejoso sofre quando o colega ou amigo teve êxito e tudo fará e tentará, de forma velada ou mascarada, para denegrir ou estragar o seu sucesso e imagem. E isso revela uma verdade inconveniente: continuamos a fazer parte de uma sociedade na qual se tenta condenar ou minorar o talento e sucesso dos outros. Como diz o ditado, “a inveja é como o sapo: tem olhos grandes, mas está sempre na lama”.

Por tudo isto, alguém aconselha a termos muito cuidado ao escolher as pessoas para quem revelar os nossos sonhos e projetos. Não que a inveja por si só os invialize, mas pode influenciar negativamente. E por isso, a recomendação é de falar só com as pessoas mais íntimas ou até mesmo para ninguém se quiser estar mais seguro. E “o seguro morreu de velho” …

Descobrimentos, essa saga fabulosa …

Por tudo aquilo que tenho lido, visto e ouvido nos últimos tempos, não somos mesmo dignos nem sequer merecedores de uma legião de homens (e mulheres) que nos precederam e realizaram a fabulosa saga dos Descobrimentos. Quanto mais conheço os seus feitos e a sua tenacidade, mais assombrado fico, por um lado, pela dimensão global e mundial da epopeia que abriu portas à primeira globalização e, por outro, pela nossa ignorância, falta de orgulho, esquecimento e querer apagar ou reescrever a história e nos tivéssemos até de envergonhar pelo que alcançaram. Como é possível?

Os Descobrimentos, goste-se ou não, foi um dos períodos mais ricos da História de Portugal, com feitos gloriosos de que nos deveríamos sentir muitíssimo honrados, embora os maldizentes cá da praça queiram reduzir os Descobrimentos à escravatura e fazer tábua rasa de tudo o resto. E é absurdo querer julgar o Passado de há 500 anos ou de outra ápoca qualquer à luz das nossas conceções morais e políticas do século em que vivemos. Mas, infelizmente, muitos governantes e outros políticos, para não perderem votos ou “não fazer ondas”, deixam-se manipular e dão ouvidos a certas ideias aberrantes de grupos pequenos das redes sociais, a maioria assentes em modas ou na ideia do “politicamente correto”, levando à sua implementação. E quem, senão governos fracos, tem alinhado na desvalorização e, pior, quase condenação, dos Descobrimentos? São os novos “moralizadores”, os vigilantes da nova censura da sociedade, que querem transformar heróis em bandidos, armadas em gangues, guerreiros em criminosos. E não é que lhe vão dando ouvidos e vão fazendo o que tais minorias querem? O mais perigoso ainda é a vontade de reescrever a História, destruir e apagar a memória do passado. Dizia Deana Barroqueiro que “é o maior absurdo e o maior desastre para a civilização, porque sem o conhecimento do nosso Passado coletivo, do bom e do mau que se fez ao longo de milénios, teremos um presente sem memória” …

Tive a oportunidade de visitar Mascate, a capital do Sultanato de Omã à entrada do Golfo de Omã, onde os portugueses se implantaram e dominaram durante mais de cem anos e fiquei impressionado com as estruturas defensivas do porto construídas há mais de 400 anos e que ainda hoje permanecem de pé, bem conservadas e aproveitadas pelos governantes do Sultanato, constando de 2 fortalezas, uma cerca abaluartada, fortins e pequenas torres de vigia espalhadas nos picos dos montes mais altos ao redor do porto. Era assim que no século XVI um vasto conjunto de muralhas e baluartes adaptados àquele terreno montanhoso, defendia a povoação e o seu porto. Lá, a milhares de quilómetros da sua terra natal, como em muitos outros pontos do mundo, essas gerações de verdadeiros heróis levaram a cabo imensas construções fabulosas que ficaram ali para perpetuar a memória dos seus construtores, tantos portugueses e heróis anónimos que ali são lembrados, mas esquecidos e ignorados na sua terra. 

Joias como a Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, A Fortaleza de Diu, na India, a Fortaleza de Mazagão, em Marrocos, A Igreja do Bom Jesus, na India, a Igreja e Convento de S. Francisco, no Brasil, a Igreja de S. Paulo, em Macau (China) e a Catedral de Goa, na India, são algumas das numerosíssimas obras espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Só Fortalezas são 800, mas há todo o tipo de construções a marcar o rasto dos nossos antepassados. É que a alma desses portugueses foi tão grande, que não coube na Europa e transbordou e abraçou todo o planeta, muito para além das ex-colónias, tendo chegado a lugares lá bem distantes como a Tanzânia, Irão, Bahrain, Malásia, Quénia, India, Uruguai, Gana, China e muitos, muitos outros. 

Seremos capazes de imaginar esses portugueses na sua maioria gente anónima e pobre à procura de um futuro melhor, a lançar-se numa aventura por mares desconhecidos que julgavam cheios de monstros e precipícios capazes de engolir barcos ou de sereias que os levariam à loucura ou morte? Das semanas a fio de falta de vento que fizesse avançar as caravelas e as imobilizasse enquanto apodreciam a água e os mantimentos? Das doenças para as quais não havia remédios e dos naufrágios em que os sobreviventes eram lançados nas praias de terras desconhecidas para morrer de fome ou às mãos dos indígenas?

Os Descobrimentos levaram o conhecimento do Ocidente ao Oriente e vice-versa provocando uma espantosa revolução, progresso e transformação do mundo. Nesse tempo, Portugal estava à frente de todas as nações europeias, com conhecimentos não teóricos, mas de experiências feitos. Tínhamos os melhores cientistas – geógrafos, astrónomos, cartógrafos, biólogos, físicos (médicos), boticários (farmacêuticos), engenheiros, inventores, construtores de navios e historiadores entre outros. Desfizeram-se mitos, superstições e ignorância com base nas provas dadas pela descoberta de terras e povos desconhecidos. Pela nova configuração dos continentes, os nossos navegadores desenharam, milha a milha, as cartas de marear, que espiões estrangeiros procuravam conseguir a todos o custo.

Com os Descobrimentos levados a bom porto por milhares de cidadãos anónimos, Portugal elevou-se ao topo da Europa. Pelo contrário e numa linguagem náutica, hoje “estamos a muitas milhas” dos outros países europeus e não há “bússola” que guie e trace a “rota” para “uma via” de recuperação, crescimento e riqueza. Por isso, vale a pena pensar realmente em que heróis nos podemos rever e orgulhar, sem medo, sem fantasmas, receio da má-língua ou do “politicamente correto” …

Vender um mono como artigo de luxo …

Há dias em que agarramos no comando da televisão e, por mais que mudemos de canal, nada acontece, não aparece um programa de jeito ou melhor, jeitoso. E, carregando no botão e passando de canal em canal, sem saber como nem porquê, fui cair num debate com todos os líderes dos partidos concorrentes às eleições do dia 10, com assento na Assembleia da República. E pensei cá para comigo: “Já agora, pode ser que fiques esclarecido e até aprendas alguma coisa”. Recostei-me no sofá com a cadela ao meu lado para o caso de me quererem atacar e pus o som mais alto para não perder pitada do que aqueles futuros responsáveis pelo meu futuro tinham para me dizer ou “vender”.   

Como sou muito crédulo, ainda pensei que iria assistir a um debate insosso e sem graça, com cada um dos candidatos a explicar as suas propostas e do seu partido para resolver os problemas da saúde e do SNS, que solução traziam no bolso para arranjar algumas centenas de milhares de habitações de um dia para o outro, a preços baixos e nas grandes cidades, que ideia luminosa tinham nas suas cabecinhas para que houvesse justiça igual para todos, qual a magia que traziam no bolso para elevar o padrão de qualidade do nosso ensino, o que iam fazer para calar os polícias, guardas prisionais, professores, forças armadas, bombeiros, médicos, enfermeiros, técnicos de exames de diagnóstico e mais não sei quantos profissionais que têm passado os últimos tempos a pregar no deserto, enquanto nos deixam à porta dos hospitais, escolas, tribunais e de tantas outras instituições do estado. Mas eu estava muito enganado porque a conversa não me deixou dormir. O debate animou até porque a cada pergunta vinha uma resposta que não era uma resposta, mas sim uma coisa que se queria dizer sobre aquilo que o outro disse, fez ou não fez. Melhor ainda, para animar o debate, interrompiam-se uns aos outros e esse excelente apresentador que é o Carlos Daniel viu-se e desejou-se para meter na ordem aquele “bando de crianças malcomportadas” que, na escola, levariam dois açoites (antigamente, pois agora é a professora que leva). Até admito que um ou dois dos intervenientes eram mais “certinhos” e conseguiram, numa ou outra ocasião, dizer aquilo que se propunham fazer numa ou duas matérias, se bem que nos fica a dúvida se não passava de “olha para o que eu digo pois não é o que eu faço”.

O primeiro e único protagonista foi o ativista da Climáximo quando entrou pelo palco dentro a pregar a sua mensagem e interrompeu o debate por breves instantes. Mas, coitado do rapaz, ninguém lhe deu grande importância, talvez à espera de que algum outro protagonista sobressaísse naquela noite, o que não veio a acontecer para minha grande desilusão. E eu nem sabia que estava iludido … 

Com aqueles “piropos” que os “jogadores” trocavam entre si, o tempo de jogo útil foi pouco e acho que o Carlos Daniel, como “árbitro” desse jogo, devia ter dado mais algum tempo suplementar para compensar, pois assim “foram beneficiados os infratores”. Mas, pensando bem, seria prolongar um “jogo” em que os protagonistas se estavam a “arrastar” sem “dar uma para a caixa”. Assim, o “árbitro” decidiu bem em acabar com o sofrimento do nosso “castigo” …

Tal como algumas anedotas ligeiras, os debates são mais ou menos previsíveis e não alteram significativamente nem os argumentos dos protagonistas, nem a nossa visão sobre a realidade, mas, ao contrário das anedotas, estes debates não nos fazem sorrir e até nos deixam maldispostos. É certo que a população está cansada de promessas falsas, de palavras vazias e de ser enganada. Prometeram-lhe um médico de família para todos os portugueses e aumentou o número de pessoas sem médico. Prometeram melhorar os salários e saiu-lhes uma inflação alta. Prometeram-lhes um ensino de qualidade e é o que é. Prometeram-lhes recuperar as listas de espera para cirurgias e o raio das listas não param de crescer. Aqui, acho que o problema é dos portugueses estarem a adoecer mais e por isso a culpa é deles. E até nos prometeram que o Infarmed vinha para o Porto como bandeira da descentralização e o Porto vê o Infarmed por um canudo.

As eleições trazem esperança, mas não tarda a frustração. O eleitor está cada vez mais farto dos políticos, consolidando a ideia de que os políticos são todos iguais, pois prometem e não cumprem. Na eleição seguinte, aparecem novamente feitos anjos como se tivessem sido lavados por dentro e por fora e que é desta vez que vão fazer “o que ainda não foi feito” (por eles). E isso faz-me lembrar uma frase que alguns atribuem a Einstein: “Insanidade é continuar a fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Com a pandemia, diz-se que “o que é ruim ficou pior”. Não sei se esse slogan se refere ao estado do país, à vida dos portugueses ou aos candidatos requentados, mas o povo lá tem as suas razões. Deveria haver uma lei a obrigar os políticos a cumprir o que prometem ou então seriam “irradiados” como jogadores indisciplinados, que não cumprem as regras. Assim, não voltariam a tentar enganar e serviam de exemplo. 

Mas parece que a coisa funciona ao contrário e os que mais prometem (e que não cumprem) são precisamente os que mais “vendem”, o que não é de admirar neste tempo em que o marketing e a publicidade conseguem “vender qualquer mono como artigo de luxo”. E o curioso é que há sempre quem compre … 

A defesa do meio ambiente começa em cada um de nós …

A pomba-migratória, no seu auge, foi possivelmente a ave mais abundante do planeta. Os seus bandos escureciam os céus durante as migrações. Há relatos de um bando tão grande, que demorou três dias a passar sobre Louisville (Estados Unidos), voando a cerca de 60 quilómetros por hora. Outro bando avistado sobre Ontário (Canadá), tinha uma extensão de cerca de 500 quilómetros. Apesar de tudo isso, a pomba-migratória foi extinta pela caça descontrolada e pela perda e degradação do seu habitat. O último bando, com cerca de 250 mil aves, foi exterminado num único dia de caçada em 1896, tendo o último exemplar morrido num zoológico em 1914. Todos julgavam impossível o desaparecimento desta enorme população existente até então, tendo-se tornado num exemplo muito negativo da influência destrutiva do homem sobre o meio ambiente. Para recordação, existe uma pomba-migratória no Museu Real de Ontário …, empalhada!

Este caso, só por si terrivelmente dramático, é uma gota no oceano de tudo o que o ser humano tem feito de mau à “casa onde habita”, isto é, ao planeta Terra. À nossa casa. 

Estamos (quase) todos de acordo em como o homem (e mulher) tem o dever solene de proteger o meio ambiente para as futuras gerações e a responsabilidade de salvaguardar a herança da vida selvagem através de políticas públicas adequadas. Os recursos naturais são um património coletivo e aqueles que não são renováveis, devem ser tratados por forma a preservá-los para as gerações vindouras. Mas não estão a ser.

Além dos desafios ambientais bem conhecidos como a poluição, o uso intensivo de produtos tóxicos na agricultura, a destruição das florestas, a caça e pescas excessivas e o comércio ilegal de espécies selvagens, as preocupações centram-se ainda na urbanização sem controle, a manipulação genética, falta de água potável, aquecimento global, o impacto das guerras e de muitos outros. Os estragos feitos no último século são imensos, muitos deles tidos por irreversíveis, apesar dos avisos constantes de cientistas e organizações diversas. Estamos num momento crítico na história da Terra e a humanidade tem de escolher o seu futuro, em conjunto, porque é comum a todos. Os políticos prometem salvar o meio ambiente, mas a economia faz com que depressa se esqueçam das promessas e “quem vier a seguir que feche a porta”. E lá vai o meio ambiente “pró galheiro”. Porque há coisas que em política não dão votos. As organizações ambientalistas fazem o que podem com os recursos limitados que têm, pois lutam contra grandes poluidores, quase sempre indivíduos com interesses empresariais e políticos e com grande poder económico, que usam para impedir a implementação das mudanças socioambientais  defendidas pelos ambientalistas tais como os direitos dos animais, preservação dos recursos naturais, consumo consciente, luta contra as mudanças climáticas, fim dos combustíveis fósseis, poluição da água e do solo. Sobra a luta entusiástica dos jovens, quase sempre estudantes, quase sempre inconsequente, até porque a maioria apregoa o que não pratica e faz da velha máxima a sua luta: “Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço” como: “Abaixo a exploração do lítio”, mas usam o smartphone com bateria de lítio cuja origem já não os preocupa; “luta pela defesa dos recursos hídricos de água potável”, mas praticam o desperdício de água no dia a dia como se não houvesse amanhã, seja a lavar as mãos, tomar banho ou dar banho ao carro; “luta pela defesa dos recursos naturais”, mas são os primeiros a comprar, comprar e a tornarem-se consumistas desses mesmos recursos; “fim dos combustíveis fosseis”, mas consomem-nos sem conta, peso nem medida; “poupança de energia”, mas são quase sempre os maiores consumidores lá de casa. 

Pessoalmente, não acredito que a defesa do meio ambiente seja bem-sucedida, porque (quase) todos nós somos egoístas ao pensar que quem se deve privar de consumir, gastar, desmatar, poluir, caçar e tudo mais, são os outros. Porque o nosso contributo não é importante e por isso não conta. Nós podemos fazer tudo e mais alguma coisa, só os outros, a começar pelos que “estão lá em cima”, é que têm de fazer tudo o que for preciso para travar a destruição do planeta. E com esta mentalidade, não vamos lá, a não ser à força de chicote. 

Seremos capazes de produzir só os bens, tecnologias e serviços que sejam realmente necessários e sem que o lucro seja o objetivo e com o uso mínimo de recursos naturais? De fazer a reciclagem, se já nem aproveitamos a sério, roupas, calçado e outros artigos usados? A causa ambiental tem que ser uma luta de todos e não resulta delegar nos governos e instituições a mudança geral de hábitos e valores de toda a sociedade.

Não espero voltar a ver novamente todo o tipo de aves com quem vivi na minha infância, das quais uma boa parte já desapareceram desta região há muito. Não espero voltar a poder beber água diretamente do rio Sousa sem receio de poder ser intoxicado. Não espero voltar a ver aproveitado até à última migalha qualquer pedaço de pão, em vez de descartado impunemente. Tal como não espero voltar a colher uma maçã da árvore e comê-la com casca e tudo, sem receio de ter resíduos do que quer que seja.

É no meio ambiente que estão os recursos naturais necessários à vida, tanto dos seres humanos como de outros animais. Sem eles, como o sol, a água e os alimentos, não sobreviveríamos e não há tecnologia ou inovação que os substitua. Se não tivermos consciência de que os nossos atos se refletem direta e significativamente no ambiente em que vivemos, em breve não teremos mais um planeta para chamar de Lar, um legado que temos a obrigação de deixar aos nossos descendentes. Tenho sérias dúvidas de que sejamos capazes de deixar de ser egoístas, de pensar só no hoje, só em nós. Os que aí vêm, não nos irão perdoar …    

Que raio de mundo é este?

Vivemos numa época muito estranha. Apesar de termos mais saúde, mais riqueza e mais liberdade do que em qualquer outra época da história deste planeta, tudo nos parece terrivelmente “lixado”. É o aquecimento global, são as economias em colapso, é a concentração da riqueza com os ricos a serem cada vez mais ricos e os pobres mais pobres, são as guerras e é toda essa enorme legião de ofendidos e até exaltados a pregar nas redes sociais. Temos acesso a tecnologias e a diversas formas de comunicar que os nossos avós nunca imaginariam possíveis, mas mesmo assim sentimo-nos sozinhos e basta olhar para o elevadíssimo número de idosos condenados à solidão. Afinal o que é que se passa?                                                                                    Somos doidos e cegos a caminhar para o abismo? O certo é que, no meio de um enorme progresso e quando todas as coisas estão melhor do que nunca ao nível científico, tecnológico e compreensão dos seres humanos e da natureza, andamos sob stress permanente, sempre a correr porque o tempo não chega para tudo, cada vez mais atarefados com a profissão, a carreira e o sucesso pessoal, com tempo para passar horas diante de um pequeno ecrã, mas sem tempo para viver, para interagir com os outros a começar na própria família. Somos praticamente o oposto de outras épocas, vivendo com pressa e sem espaço. Porque, apesar dos tempos terem evoluído e de sermos uma geração com o futuro na mão, regredimos na política do viver. O tempo “passa a correr” com a pressa de viver, do trabalho, dos compromissos e não desfrutamos da vida, essa coisa que nos foi concedida. Ao contrário das populações rurais, não temos tempo nem espaço nas cidades, não interagimos com o vizinho seja o do fundo da rua ou da frente da nossa porta que às vezes nem sequer chegamos a conhecer. Com a mente entupida de preocupações, não temos tempo nem disposição para apreciar a luz do sol, o sorriso das crianças, o problema do nosso semelhante. O tempo passa e o espaço escasseia. No entanto, só nós temos o poder de “abrandar” o tempo e viver sem pressas. Estamos a correr para onde?

O progresso científico é extraordinário, de tal forma que nem temos tempo para valorizar cada descoberta, cada evolução tecnológica, cada nova forma de nos prolongar a vida. Mas, ao mesmo tempo, temos um grave problema social que tende a agravar-se. Somos o país mais envelhecido da Europa onde os idosos são tidos como um peso morto na sociedade porque já não produzem, votados ao abandono, por vezes agredidos, esquecidos e violentados. Enfim, um artigo descartável, que só é valorizado nas vésperas das eleições porque o seu voto vale tanto como o de qualquer outro palerma, mas depressa são esquecidos, enganados com promessas mirabolantes que não passam senão de … promessas. E cá estamos nós em tempo de eleições, em tempo de promessas… por mais uns dias. Depois, vem o raio do esquecimento, crónico nos políticos …

Somos um animal social que precisa de interagir com os outros para ser feliz. É isso que nos leva à empatia, compreensão, generosidade e solidariedade para com as outras pessoas. No entanto, tornou-se já comum observar uma completa indiferença e falta de empatia. Dos quatro cantos do mundo chegam imensas notícias de guerras e catástrofes naturais, de massacres, pandemias e das piores doenças sociais, que os jornais e televisões exploram até ao tutano, porque “só se vende o que choca”. E como as notícias “graves” e “tristes” são tantas e repetidas até à exaustão, a nossa mente vai-se habituando até ficar indiferente ao sofrimento alheio. É assim que nos tornamos indiferentes aos outros seres humanos porque estão lá longe e não passam de figurantes anónimos no ecrã da televisão. E refugiamo-nos nos casulos de nossas casas, confortados pela sensação de impotência e indiferentes, reclamando pelo almoço “estar assim ou assado”. E com a cabeça na almofada, sonhamos ser mais e ter mais …

O Homem está a tornar-se um ótimo trabalhador, mas um péssimo ser humano. Vivemos uma época em que já não somos comunidade e em que a vida é um “salve-se quem puder”. As crianças num instante são adultas e velhos e doentes e dependentes, com o sentimento do tempo perdido. Tantas vezes perdemos tempos importantes como o crescer dos filhos, a experiência dos mais velhos, a sabedoria dos avós. E já não sabemos viver, mas sobreviver. 

Os governantes concordam em salvar o planeta, mas não agem. Em construir a paz, mas fazem as guerras. Em eliminar a pobreza, mas aumentam o número de pobres. Em combater a corrupção e o tráfico de influências, mas praticam-nos. O espaço encolhe porque somos mais e sobra mais lixo, poluição, fome, falta de água potável e todos os recursos naturais. E o pior é que estamos a ficar sem opções tais são os estragos, sem tempo para salvar o planeta. Mas caminhamos alegres e felizes, como os bois para o matadouro. 

Somos consumidores e consumidos pelas redes sociais, apostamos nas relações virtuais sem o toque, o cheiro, o olhar e a sedução, e as relações são uma mera questão de conveniência. Tal como qualquer embalagem, artigo ou utensílio, também as pessoas são descartáveis. Por serem velhas, por serem deficientes, por serem dependentes, por ser o parceiro ou conjugue que já não queremos ou por não receber os “likes” do “amigo” virtual cujo descartar fica à distância de um “clik.

Há mais pessoas stressadas, cada vez mais gente a queixar-se de dores de cabeça, dores nas costas e de cansaço. Com a televisão, os telemóveis e os computadores, as pessoas esqueceram-se do “mundo lá fora” e ficaram “presas” em casa, aos ecrãs minúsculos. E até as crianças, pois já não as vemos a brincar na rua, por ser a forma de as manter quietas e caladas. E de não chatearem. Mas, pelas frases feitas nas redes sociais, toda a gente é maravilhosa, feliz e tem uma vida fantástica. Então, porque vivemos num mundo de m…? Essa ilusão ajuda as pessoas a sobreviver, mas lá bem no fundo, não vivem.

Apesar de toda a evolução tecnológica, esta época é realmente muito estranha. Resta-nos ao menos a esperança, mas temos de acordar do pesadelo e assumir o nosso futuro …

Porquê, Eu? Porquê a mim?

As perguntas perante a dor são sempre muito mais fortes do que a nossa capacidade para lhe dar uma resposta adequada: “Porquê a mim”? “Que mal fiz eu a Deus para merecer isto”? “Porque é que o mal só acontece aos bons”? Estas e outras continuam a ser sempre as perguntas que fazemos quando somos apanhados pelo sofrimento de uma perda, acidente ou o que quer que seja e não temos mais nada para dizer. E quem nunca o fez? As perguntas dolorosas saem-nos da boca como uma prece que não será atendida, esperando a resposta que não virá. Saem-nos da alma quando a vida para de repente, sem aviso, sem justificação, quando tudo em nós fica suspenso. “Porquê a mim”? “O que fiz de errado”? “O que fiz ou fizemos para merecer a doença, a tragédia que ninguém previa, a perda e o luto, o adeus para sempre”? Nada.

Quase sempre não se fez nada nem foi por merecimento. Aconteceu simplesmente, como acontece todos os dias com milhões de pessoas que não conhecemos. Mas se acontece com elas, porque não pode acontecer connosco? Porque sim. Mas esse “porque sim” não nos chega para aplacar a dor que não podíamos adivinhar, nem prever. Nem sequer evitar ou fugir. De repente estamos confrontados com algo que não queríamos que acontecesse. Mas temos de aguentar ao ser postos à prova. E só depois do choque, sofrimento e choro, a vida nos ensina que não vale a pena fazer tais perguntas porque não têm resposta. Resta-nos aceitar e percorrer o caminho carregando a cruz que ninguém pode carregar por nós, de sublimar a tristeza e a mágoa com o renovar da união com aqueles que partilham connosco o mesmo problema e a mesma dor, porque a dor aproxima mais do que a alegria. Até podemos não merecer nada do que nos acontece e atormenta, mas temos de ser dignos do que vem depois sem esperar respostas ao “porquê a mim?”, mas procurar e encontrar a força nos que ficaram connosco nos escombros da nossa dor.

O americano Arthur Ashe tornou-se um tenista famoso ao vencer 18 títulos nos principais torneios mundiais de ténis como o Us Open, Roland Garros, Open da Austrália e Wimbledon, passando a ser um ídolo para milhões de fãs. Viria a ter problemas cardíacos e, depois de duas cirurgias ao coração, o tenista estava a morrer com HIV (SIDA), que nessa altura era fatal. Fora contaminado com o sangue de uma transfusão que lhe fizeram durante a segunda cirurgia. O seu drama gerou uma enorme consternação entre os seus fãs, de quem recebeu numerosas cartas de apoio e incentivo. Mas houve uma a chamar-lhe atenção especial pela pergunta que lhe colocava: “Porque é que Deus o escolheu para ter uma doença tão terrível”?

A resposta de Arthur Ashe é uma lição de vida excecional. Disse ele:

“Há alguns anos, cerca de 50 milhões de crianças começaram a jogar ténis. Eu era uma dessas crianças. Dessas, cinco milhões aprenderam realmente a jogar ténis e quinhentas mil delas tornaram-se tenistas profissionais. Porém, só cinquenta mil chegaram a jogar no circuito mundial, tendo cinco mil logrado jogar no Grand Slam (os 4 eventos anuais mais importantes do ténis). Mas das 5 mil, só 50 conseguiram entrar no torneio de Wimbledon (Reino Unido) e houve quatro que alcançaram as meias-finais. 

Dessas, duas apuraram-se e vieram a disputar a final. Uma delas era eu. E a verdade é que, quando eu estava a comemorar a vitória com a taça na mão, nunca me ocorreu perguntar a Deus: “Porquê eu”? Então, agora que estou com dores, como posso perguntar a Deus, “Porquê eu”? A felicidade mantém-te doce e as provações mantêm-te forte! A dor mantém-te humano e a falha mantém-te humilde! O sucesso mantém-te brilhante, mas só a fé te mantém de pé”, terminou ele”! 

Há ocasiões em que até podemos não estar satisfeitos com a nossa vida, enquanto muitas pessoas neste mundo sonham por poder ter a nossa vida. Quando uma criança a viver numa quinta vê um avião que voa, sonha voar. Mas o piloto do avião que voa sobre a quinta, sonha em voltar para casa. Se a riqueza é o segredo da felicidade, os ricos deveriam estar a dançar nas ruas. Mas só as crianças pobres fazem isso. Se o poder garante segurança, os VIPs deveriam andar sem guarda-costas. Mas apenas os simples têm essa liberdade. Se a beleza e a fama atraem ideais, as celebridades deveriam ter os casamentos melhores, mais felizes e duradouros. Mas não é isso que acontece!

Diz-se que, depois da dor vem a paz e depois do chão vem o céu. Que depois da queda vem a força para nos levantar e depois das lágrimas a luz do sol. Que depois das pedras vem o caminho melhor e depois da subida íngreme vem a descida para podermos voar!

Esta história real de um homem que atingiu o topo e, por um acaso infeliz contraiu uma doença mortal, deve servir-nos de exemplo para quando somos confrontados com as doenças, os acidentes e até a morte, avaliar se tem algum cabimento a pergunta “Porquê Eu?”.

E não posso deixar de relembrar aqui a história do Paulo que, afetado por um cancro terminal e já acamado entre o hospital e casa, nunca perguntou “Porquê a mim?”, mas fez a aceitação e chamou os seus inimigos para se reconciliar, pedir perdão e que não guardassem rancor.
A vida é uma aventura louca da qual nunca sairemos vivos. Por isso, quando chega a nossa vez – e não há idades nem tempo para tal – e a desgraça nos bate à porta, será que vale a pena ficar agarrado ao “Porquê Eu”, como se tivéssemos o privilégio especial de poder “passar entre a chuva sem nos molharmos?

Afinal, quem escolhe o nosso destino?

Os fatalistas dizem que “ninguém foge ao seu destino” enquanto os mais realistas afirmam que “cada um constrói o seu próprio destino”. E, na verdade, uns e outros vivem de acordo com as suas convicções e são escravos delas. Diz um desconhecido que “nada adianta querer apressar as coisas, porque tudo vem a seu tempo. O destino vai-se encarregar de o colocar no lugar certo, na hora certa”. Mas já Sarah Westphal afirma: “Não deixe que a saudade o sufoque, que a rotina o acomode, que o medo o impeça de tentar. Desconfie do seu destino e acredite em si. Gaste mais horas a realizar do que a sonhar, a fazer do que a planear e a viver do que a esperar”.

Estas palavras de Sarah ajustam-se perfeitamente à vida de um amigo meu que já nos deixou, um empreendedor nato que não perdia tempo a sonhar e planear pois passava de imediato à ação, à realização e que viveu como se o tempo lhe fugisse. E fugiu cedo demais …

Desde criança que ouço frequentemente mais ou menos as mesmas palavras sempre que acontece alguma coisa a alguém: “Foi o destino”, “ele já tinha o destino marcado” ou algo do gênero. Como se cada um de nós seja uma marionete com a vida toda programada antes de vir a este mundo, do nascimento até à morte, e em que a nossa vontade, desejos e capacidade de escolha não exista. Será mesmo assim? Afinal, nós somos robôs programados que cumprem tarefas pré-definidas sem possibilidade de alterar o que quer que seja ou temos poder e capacidade de decisão sobre as nossas escolhas? E se o nosso destino já estava “escrito”, quem foi que o escreveu?

Para os cristãos, Deus concedeu o livre-arbítrio aos seres humanos, isto é, a liberdade para realizarem tudo aquilo que desejarem, sendo que isso lhes gerará consequências. Daí que, se com essa liberdade alguém resolver fazer o mal, está a cometer pecado. E, além disso, os seres humanos não estarão livres de terem de assumir também as consequências dos seus atos perante a lei nos casos em que esta limite ou condicione as suas ações, como é o caso dos roubos, crimes, etc. Assim, o livre-arbítrio trata-se de uma capacidade que Deus nos deu, cabendo a todos os seres humanos aprender a melhor forma de a usar bem, pois com essa liberdade desenvolvem a consciência sobre tudo o que fazem.

Mas na tradição popular o destino é o “destino” e não há como lhe fugir. É assim que continua a haver muita gente a acreditar piamente que a vida de cada um de nós “está traçada” e por mais que façamos isto ou aquilo, estamos a seguir um “guião” que não foi escrito por nós, em que tudo o que nos vai acontecer acontecerá por força desse chamado destino, embora parecendo ser uma escolha nossa. Porque “ninguém foge ao seu destino”. Para eles, quando alguém faz uma escolha entre duas ou mais hipóteses, já é o “destino” a empurrá-lo para escolher aquela que lhe está reservada. Por isso, escolhendo uma ou outra ou uma terceira, para os defensores desta teoria será sempre tida como uma escolha feita pelo destino.

Os filósofos que se dedicam a esta questão têm uma variedade muito maior de teorias sobre quem é o responsável pelas escolhas que todos nós fazemos constantemente e que determinam aquilo a que chamamos a nossa história de vida, mas não vou por aí. Já S. Tomás de Aquino, frade católico italiano e teólogo, debruçou-se sobre isto afirmando que, quando fazemos uma escolha – seja comprar algo, ir trabalhar, virar à direita ou á esquerda ou brincar com o cão, ela é determinada principalmente pela nossa vontade, mas também tem o auxílio da inteligência e das paixões, seguindo a conceção católica.   Todos nós queremos ser livres e ter pelo menos a possibilidade de fazer algumas escolhas nesta vida. E a verdade é que a maior parte das pessoas acredita que são livres para escolher o que fazem, das coisas simples às mais complicadas como: “Tomo um café com ou sem açúcar”? “Vou para o trabalho de carro ou comboio”? “Vou votar ou não nas próximas eleições e em quem”? “No fim de semana vou ver o futebol ao estádio ou fico em casa a ler”? A questão que se pode colocar muitas vezes é saber quem está encarregue de tomar essas decisões e há que considerar que tomamos decisões a todo o momento! Muitas decisões! Desde as mais simples – como falar de alguma coisa, abrir uma gaveta, fechar a porta, pôr ou não pôr açúcar no café, meter comida à boca e mastigar, fazer a higiene matinal, sorrir a alguém – às mais complexas – como resolver comprar uma casa, abrir um negócio, mudar de residência ou até de país. Como precisamos de agilidade dado o grande número de decisões diárias, a maior parte das vezes decidimos de forma inconsciente, automática, sem refletir, seguindo padrões que se foram estabelecendo no nosso cérebro ao longo da nossa vida para o poupar e libertar para pensar nas coisas complexas. Ora, quer sendo o subconsciente a decidir, quer seja o consciente, somos nós que tomamos as decisões e construímos assim o nosso destino e ninguém é responsável pelo nosso destino a não ser nós mesmos.

Arthur S. dizia que “em geral, chamamos destino às asneiras que cometemos”. 

Tendemos a “acusar” o destino ou fazer dele o bode expiatório quando algo corre mal na nossa vida, muitas vezes para aliviar a consciência das nossas inconsciências e arrependimentos. Apesar de estarmos sujeitos diariamente à manipulação comercial e política diariamente através do marketing e publicidade através dos meios de comunicação e redes sociais, de uma forma consciente ou inconsciente, agindo pela razão ou pela emoção, ainda somos nós que comandamos a nossa vida e temos a responsabilidade de escrever a nossa história de vida! Esse, sim, é o nosso “destino” …

A importância do humor, mesmo nas coisas sérias …

Assinalou-se no passado dia 18 de Janeiro o Dia Internacional do Riso – ao que parece, há dias para tudo. Porque, dizem, é preciso chamar a atenção para como é importante rir, pois o riso contribui para o bem-estar do ser humano. As pessoas riem-se das piadas porque o humor incorpora fenómenos de identificação. Mas em Portugal, fazer piadas continua a ser motivo de críticas, de censura e a liberdade de expressão parece estar a perder-se para dar lugar ao politicamente correto. Se há limites para o humor – e há quem os queira impor – também há para a liberdade de pensamento. Se as pessoas se ofendem e isso é suficiente para proibir o humor, então deixa de haver sátira. O humor tem o seu papel na sociedade e esse papel não é só fazer rir. Também pode ser o de consciencializar, alertar e questionar através da sátira.

Sermos capazes de rir de uma piada significa que também somos capazes de identificar o alvo da mesma e assim refletir e pôr em causa o que acontece à nossa volta. Quando se fazem piadas acerca da política, o foco não é a política, mas a piada e se a piada atinge dimensão, a culpa não é do autor. A verdade é que o humor tem a capacidade de ridicularizar as situações e de fazer pensar acerca da realidade.

Quando rimos, libertamos tensão, beneficiamos de um certo alívio, reduzindo, através das gargalhadas, emoções negativas como a raiva e frustração, a tristeza e a dor. É uma forma socialmente aceitável de manifestar as nossas fragilidades, inclusive de ocupar a mente com emoções positivas sem espaço para problemas e medos.

Quase ninguém ficou indiferente ao slogan publicitário do Ikea para a promoção de uma estante, associando à fotografia desta a seguinte frase: “Boa para guardar livros. Ou 75.800 euros”. Espalhados pelo país de norte a sul, os cartazes provocaram reações contraditórias, pois se muitas pessoas acharam o cartaz muito bem-humorado ao aproveitar um facto político do momento, nas redes sociais houve quem acusasse a empresa de fazer declarações partidárias com a campanha num momento de crise política, numa alusão às buscas realizadas à residência oficial do primeiro-ministro, em que as autoridades encontraram no escritório do agora ex-chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, a quantia de 75.800 euros em dinheiro guardado em envelopes dentro de livros e numa caixa de vinho – locais bem estranhos para guardar dinheiro vivo. No entanto, o Ikea negou “ter qualquer intenção” de contribuir “para o debate partidário e para o atual contexto pré-eleitoral no país”. A verdade é que, em condições normais, ninguém estaria a comentar esta publicidade e, por isso, o truque resultou bem e a intenção da marca foi conseguida. 

A responsável pelo marketing na empresa diz que esta ação pretende retratar o próprio humor com que muitas vezes os portugueses abordam os temas mais sérios e que esta campanha bem-humorada a partir de temas da atualidade, serve para animar e divertir quem por eles passa. Para Rodrigo Freitas, especialista na matéria, a atitude foi corajosa e não afeta a marca. “É um abanar do politicamente correto e uma lufada de ar fresco dentro do espetro da comunicação dos últimos tempos, dominado pelos partidos políticos, não sendo politicamente tendenciosa e que brinca com temos “insistentemente discutidos na opinião pública”.

A publicidade à estante foi tão bem conseguida que logo outras marcas seguiram a ideia. A Moviflor promoveu o seu roupeiro com a frase: “Cabe bem mais que 75.800 euros. Mas pode levá-lo por muito menos”. Outra empresa faz o mesmo com um sofá-cama: “No Gato Preto há um esconderijo melhor”. E até o Clube de Paços de Ferreira anunciou o jogador Afonso Rodrigues como reforço de inverno, com uma frase alusiva: “Bom para a esquerda e direita. Vale mais que 75.800 euros”.

Brincar com assuntos sérios é realmente a verdadeira comédia e é ao público que cabe definir limites: Rir daquilo que acha piada e não rir do que a não tem. Porque as piadas não matam nem fazem mal. Muito pelo contrário. Fazem-nos bem, porque nos fazem rir. E porque nos fazem pensar. Algo que, se fosse dito de outra forma, não o conseguia fazer. É que o humor é a arte de fazer rir e de pensar, envolvendo o pensamento e a imaginação. E o querer condicioná-los impondo limites, a começar por factos do domínio e interesse público, é privar-nos da possibilidade de poder sorrir, rir ou, melhor ainda, soltar fortes gargalhadas tão necessárias em tempos de paz, que são ainda mais imperiosas e necessárias nestes tempos conturbados de guerra e pandemia!

Para já, não me esqueci do artigo …

Como estava bastante frio, cobri a cabeça com um boné que os meus filhos me ofereceram para fazer as vezes do cabelo que o tempo foi deixando espalhado pelos dias desta vida e fui visitar a minha mãe. Quando regressei, ainda não tinha chegado a casa e já a minha irmã me estava a telefonar para dizer que me esquecera do boné. Não me incomodei o suficiente para voltar para trás e segui para casa pois os esquecimentos já se vão tornando vulgares. Dei comigo a pensar que outrora era eu um dos que contava histórias e anedotas sobre os esquecimentos de outras pessoas mais velhas e do caricato de muitas situações que criavam, como já o fiz aqui na crónica semanal e agora já sou tema para esta conversa com os leitores. Mas, sempre que me acontece um “lapso de memória” como o esquecimento do boné, não faço nenhum drama e encaro a situação com humor. Que ganhava eu se me chateasse? Como se costuma dizer, só tinha dois trabalhos: chatear-me e “deschatear-me”.

Mais ainda, quando converso com as pessoas da minha geração não encontro uma única que não me diga sofrer do mesmo mal. Por isso, concluímos que é a “fruta da época e temos de aceitá-la. Claro que há sempre alguém que nos vende logo uma receita milagrosa para estas “falhas de memória”: “O que tu precisas é de tomar umas vitaminas”, como se as vitaminas sejam o remédio milagroso para tudo. Também me têm aconselhado a fazer exercícios para a memória tal como passatempos do tipo palavras cruzadas, sudoku e outros. Mas se eu já faço isso há muitos anos, o que devo mudar agora? Aumentar o tempo que dedico a tal prática ou mudar para o jogo do xadrez?                                                        Nalgumas ocasiões, ao pousar o telemóvel ou a chave do carro, já dou comigo a pensar: “Deixa-me tomar bem nota onde ficas para não me esquecer”. E na verdade, quando faço este exercício mental para não cometer esse erro, a coisa resulta quase sempre: E eu esqueço-me …

É vulgar irmos a um supermercado de propósito para comprar um produto que precisamos e quando chegamos a casa damos conta que compramos diversos artigos, mas não trouxemos aquele que nos levou a ir lá. A partir de certa altura esquecemos onde deixamos os óculos, as chaves, o telemóvel, a carteira e muitos outros objetos de uso diário. Quando tal acontece, dedicamo-nos à investigação …

Lembro-me de um episódio caricato que se passou quando ainda andava a estudar em Coimbra. Como quando ia para lá tinha de ficar por lá o trimestre completo pois não havia condição económica para vir a casa uma vez que fosse, um dia tiraram-me uma fotografia durante uma pequena viagem de estudo e fiz questão de a enviar aos meus pais para ver que estava bem. Escrevi uma carta bonita (nesse tempo ainda se escreviam cartas à mão) a dizer que juntava a fotografia da viagem, fechei o envelope, selei e meti no correio. Quando cheguei à escola dei com a fotografia em cima da mesa. Escrevi logo outra carta à pressa e voltei a proceder da mesma forma até entregar a carta nos correios. E vim a descobrir que a fotografia teimava em ficar de fora. Esquecera-me novamente. Só há terceira tentativa não a esqueci porque antes de escrever outra carta pequei num envelope e coloquei dentro a fotografia. Será que com os meus 18 anos de então já me estavam a morrer neurónios?   

Por isso, o pior de ficarmos velhos é que, quando começamos a achar que já sabemos quase tudo, começamos a esquecer. E não há volta a dar! Encontrei recentemente um amigo que já não via há bastante tempo e ele manifestou-me uma certa tristeza por estar a envelhecer, ficar esquecido e já não ter a energia que tinha. Para o animar disse-lhe: “Não te entristeças por envelhecer, pois é um privilégio negado a muitos. Quanto ao facto de teres cada vez mais esquecimentos, seja do nome das pessoas, dos aniversários de familiares e amigos e até de encontros, podes estar descansado que eles encarregar-se-ão de te fazer o mesmo. E as contas ficam acertadas”. 

Os pequenos esquecimentos são comuns a partir dos sessenta anos de idade e ocorrem com mais ou menos frequência em função da morte de neurónios, o que é tido como o normal no processo de envelhecimento e é em regra comum a toda a gente. Claro que nós podemos recorrer ao “memofante” e outros produtos semelhantes, que não são mais do que suplementos alimentares naturais indicados para o cansaço e o desempenho mental, mas que se saiba, não dão vida aos neurónios mortos (ao contrário, o Viagra dá vida a outros “mortos”, se bem que só por alguns instantes). E o certo é que esses esquecimentos têm tendência a ir aumentando com a idade e à medida que os neurónios vão morrendo. No entanto, como cada um de nós tem mais de 80 mil milhões de neurónios, se nos morrer um ou dois por dia, ainda temos neurónios para dar, vender e levar para a cova ainda uma enorme quantidade …

Há dias fui acordado às sete e meia da manhã pelo toque do meu telemóvel. Era um amigo a perguntar-me a que horas era o almoço do grupo de que ambos fazemos parte. Ainda meio a dormitar, consegui lembrar-me e dizer-lhe que era no dia 8, mas só do mês seguinte e não naquele. Esse episódio teve o condão de me fazer crer que ao Magalhães (esse meu amigo), já devem ter morrido mais neurónios do que a mim ou, pelo menos, lhe devem estar a fazer mais falta.

Esquecimentos todos temos, sobretudo a partir de uma certa idade e há que encará-lo com naturalidade, tranquilidade e algum humor sem fazer disso um filme, embora possam ser sinais de algo mais preocupante do que um simples esquecimento. Mas, para bem da nossa saúde, até essa possibilidade devemos votar ao esquecimento e não nos preocuparmos. Até quando tiver de ser …

Só sabemos o que vivemos …

Hoje não me arrisco sequer a pensar qual é o grau de sofrimento e dor de uma mulher ao ter um parto, se é que se pode graduar de alguma forma esta ou aquela dor. E não me arrisco, porque não a vivi (nem irei viver nunca). Já sobre a dor renal posso pronunciar-me porque a experienciei por mais que uma vez, mas a verdade é que nem assim posso, nem quero, fazer comparações com a dor de outros doentes renais. É por isso que se diz, e é bem verdade, que em muitas coisas na vida “só sabemos o que vivemos”. A primeira vez que ouvi esta frase “já lá vai um par de anos”, não compreendi o que o seu autor verdadeiramente pretendia dizer com ela, mas o tempo ajudou-me a chegar lá.                                                                                                             Uma das primeiras lições recebi-a quando cumpri o serviço militar e mais propriamente na comissão de serviço em Moçambique. Tendo-se reunido em Évora o batalhão em que me integrei, foi ali que fui conhecendo os companheiros, em especial os da minha companhia, com quem passaria a lidar mais de perto e, tanto em Évora como ao longo de barco da viagem de cerca de trinta dias no barco Niassa e já em Moçambique nos primeiros tempos, fui ficando com uma ideia da possível reação de muitos daqueles homens quando se encontrassem pela primeira vez debaixo de fogo. E, das conversas havidas e alguns comportamentos, fui formando uma ideia peregrina daqueles que se iriam comportar com valentia e determinação e dos que rapidamente se esconderiam até a tempestade passar. Mas na verdade, só quando “vivemos” um ataque dos terroristas ao aquartelamento e ficamos debaixo de fogo ao som de uma sinfonia infernal dos estoiros das bombas dos morteiros e do silvo das balas, é que soubemos ao certo o que é a guerra e a forma como reagimos, pois alguns que se diziam valentes “baixaram a bolinha” e outros pelos quais não se dava nada, vieram para fora das casernas como se o tiroteio fosse ”música para os seus ouvidos”.                                                                                            Quase sempre imaginamos o que não conhecemos, aquilo que nunca vivenciamos, com base no que ouvimos dizer, no que lemos ou ainda no que vemos em filmes ou documentários. Mas a verdade é que não estávamos lá, não sentimos a dor ou alegria, o cansaço ou o repouso, a vitória ou a derrota, a força mental ou o esgotamento psíquico, o grau de dificuldade ou as facilidades. E isso faz toda a diferença para que, aquilo que imaginamos que é algo, pode estar muito longe da realidade.                                                                                                        Sempre que ouvia falar de alguém que “tomava conta” de um familiar, fosse pai, mãe, conjugue ou filho em situação de doença prolongada ou deficiência e até quando contactava diretamente com a pessoa que estava nessa condição, lamentava o sucedido, “dizia duas a abater”, mas mal me virava para o lado já a “dor” me ficava para trás, embora a verdadeira dor e sofrimento continuassem lá com a pessoa que cuidava, o chamado “cuidador informal”. Porque esses, sim, “sabem” verdadeiramente o que isso significa e muito especialmente quando se veem esquecidos pelos amigos, quando não por familiares mais ou menos próximos que descartaram o problema para cima do “bode expiatório”. E só quando a Luísa teve o AVC e ficou numa situação de dependência, aí passei a “viver” a situação de cuidador ao longo de dias, semanas, meses e anos e fiquei a “saber” o que realmente é isso, se bem que tenho de dar graças a Deus por me ter dado condição que me permitiu ter “ajudas” para aliviar, e muito, as dificuldades, o que não acontece à maioria dos cuidadores. Só ao “viver” a personagem de cuidador e de “vestir a sua pele”, passei a “sentir e saber” o que isso significa.                                                                                                        Ao longo dos 15 anos de doença da Luísa fui-me mentalizando que a era incurável, não tinha reversão e, pelo contrário, iria-se agravando com o tempo. E, achava eu, que estava preparado e mentalizado para enfrentar a sua morte com tranquilidade quando esse dia chegasse. O último ano foi particularmente difícil com várias infeções que a foram debilitando ainda mais, até que uma mistura explosiva de covid com uma bactéria resistente lhe deu o golpe final. Mas depressa percebi que a tal mentalização que eu achava que vinha fazendo para fazer a aceitação da sua partida a qualquer momento não serviu para nada. E cheguei à velha conclusão de que, afinal, nunca estamos preparados para um momento destes, o que veio confirmar a máxima de que “só sabemos o que vivemos” …