A “cunha”, essa instituição nacional …

Como os portugueses “andam em pulgas” querendo saber mais e mais sobre essa “cunha” fabulosa que valeu, ao que tudo indica, cerca de quatro milhões de euros (e de que todos nós fomos contribuintes sem o termos sabido), para além de acreditarem ter direito à verdade e saber quais os envolvidos nesse “filme” de que ninguém se assume protagonista, eu julgo ser uma ocasião propícia para falar sobre essa verdadeira instituição portuguesa conhecida por “cunha”.         Porque, goste-se ou não, vivemos no país da “cunha” e ninguém está imune e escapa ao seu contágio, embora uns, mais do que outros, convivem diariamente com muitos pedidos, influências, pressões ou empenhos. Apesar de, como português, já me ter habituado há muito a tal fenómeno, fico sempre impressionado com a naturalidade com que se usa e abusa de tal “ferramenta”, imprópria de um país dito democrático e civilizado.             Porque, muitas vezes, se sortir efeito, podem-se inverter as regras do jogo e prejudicar terceiros. E a “cunha” é para quem tem o poder de decidir, sejam governantes de qualquer nível, os amigos e os amigos dos amigos deles, dirigentes de instituições, repartições e de quem lhes é afeto ou sirva de trampolim para lá chegar. Mas sempre que ela não resulta, só fica mal visto quem a recusa, não quem a mete …        Todos sabem que em Portugal a cunha, o jeitinho, o empurrãozinho, a ajudinha, fazem parte da nossa matriz cultural e não conseguimos viver sem a utilização dessa bengala cultural e social. E isso acontece muitas vezes porque as instituições não funcionam ou funcionam mal e a administração pública está bloqueada por excesso de serviço ou problemas financeiros, incapacidade organizativa e burocracia mais que muita. Se houvesse bom rigor e tolerância zero, se as instituições funcionassem como deviam, seguramente que a cunha não medraria nem seria necessária.                                                                                                            Por vezes a “cunha” é embrulhada no sotaque brasileiro do “jeitinho”: “Podia fazer-me o “jeitinho”? E tudo encaixa como uma luva quando, numa expressão muito carinhosa, dizem “vou mexer os cordelinhos”. Está-se mesmo a ver que é a “cunha” adoçada com o “inho” tão típico da nossa língua, algo muito subtil, quase irrecusável e desculpável. Muitas vezes funciona como uma troca de favores: Hoje fazes-me este “jeitinho” e amanhã eu “mexo os cordelinhos” para te desenrascar. O intercâmbio social que está no nosso ADN e que até exportamos para o Brasil, onde cresceu e floresceu sob a roupagem de “jeitinho”, mas que não é mais do que a nossa “cunha” tradicional, tropicalizada, em muitas ocasiões à espera do retorno do favor. Lembro-me de Júlio Monteiro ter afirmado “ser a coisa mais natural do mundo meter uma cunha para que um amigo inglês chegasse à fala com o seu sobrinho, na altura ministro. Só não achou natural, disse ele, que o amigo não lhe tivesse agradecido o favor: “Depois até fiquei chateado porque usou o meu nome e nem obrigado me disse”. Quando alguém espera que agradeçam um favor …                                                                                 E foi tal “jeitinho” que tramou Eça de Queirós quando concorreu e ganhou o concurso para cônsul na Baía, mas que perdeu na secretaria ao esquecer-se do “fator C”, que outro candidato usou na hora certa. O “fator cunha”. Deste “atropelo ético” nasceria a inspiração para, com Ramalho Ortigão, escrever “As Farpas”, tendo-se referido numa delas ao seu caso assim: “Querido leitor: Nunca penses servir o teu país com a tua inteligência e, para tal, em estudar, em trabalhar e pensar! Não estudes, corrompe! Não sejas digno, sê hábil! E, sobretudo, nunca faças um concurso; ou quando o fizeres, em lugar de pôr no papel que está diante de ti o resultado de um ano de trabalho, de estudo, simplesmente escreve: Sou influente no círculo tal e não me façam repetir duas vezes!”                                                                                                                     Na literatura portuguesa há mais referências à “instituição cunha”, como é o caso de Almada Negreiros nos primeiros anos do Estado Novo, em 1933, nas páginas do Diário de Lisboa: “Há um Portugal profissional, civil e insubornável! Há, sim senhores! Mas entretanto … a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos”. Mudaram-se os tempos, mas os maus costumes não se mudaram. Eça e Almada retrataram o país das “cunhas” e, para mal dos nossos pecados, continuamos tão parecidos ao retrato que eles fizeram de nós! Aliás, não sei mesmo se com um tom mais carregado. A “cunha” é um pedido especial realizado por alguém a favor de outra pessoa. Normalmente diz-se “meter uma cunha”, para recomendar ou interceder por alguém. É uma especialidade nacional ao serviço de tudo e mais alguma coisa. A “cunha” veste roupagens diferentes, mas não deixa de ser a mesma coisa quando lhe chamam empenho, fator C, “jeitinho”, mexer os cordelinhos, empurrão, pedido ou a gasosa muito usada nos países africanos e o “pistolão” brasileiro. Vai dar tudo ao mesmo …                                                                                    Independentemente do nome que se lhe chamar, é algo que move interesses por maiores ou menores que eles possam ser, coisa que muitas vezes contorna os princípios morais, por vezes a ética e, em outras, a própria lei.                                                                                         Não deixa de ser curioso como é que neste caso presente, numa “cunha” tão valiosamente cara, ninguém a meteu, ninguém viu, ninguém sabe nada, nem ninguém assume a paternidade para uma situação de sucessivos privilégios, embora isso possa vir a abalar a própria Presidência da República. Claro, não cai bem à consciência nacional ver alguns processos administrativos ser resolvidos em tão poucos dias quando para um cidadão comum demora meses, talvez anos ou nunca chegam a ser resolvidos.  Alguém acha mesmo que somos todos iguais?

A importância da “presença” …

Na sua homilia, o padre celebrante contou uma experiência pessoal que acabara de viver e que o tocara muito. Ao acompanhar o grupo de catequese de uma das suas paróquias viu um menino afastado e, estranhando o facto, aproximou-se e perguntou-lhe o que se passava. O menino respondeu que estava triste. O senhor padre quis saber porquê e ele respondeu-lhe: “Porque a Daniela (colega de catequese) não está”. Foi a atenção dada pelo menino à não presença da sua companheira de catequese e ao seu sentimento de tristeza gerado por isso, que tocou o senhor padre. Ali estava uma criança a valorizar o que nós muitas vezes esquecemos de valorizar: a presença das pessoas de quem gostamos. 

A tecnologia e redes sociais dão-nos uma falsa sensação de presença, pois é possível acompanhar a vida de centenas de amigos, colegas, conhecidos do Facebook, Instagram e participar em conversas no WhatsApp. Por isso, temos a sensação de estarmos satisfeitos. Mas será mesmo assim? Até parecemos aquele chato que nos diz que ver um espetáculo na televisão é a mesma coisa que assistir ao vivo!                                                               Todos sabem que não é verdade. Dizem que a tecnologia aproximou os distantes e distanciou os próximos, uma realidade. Agora é muito fácil falar com alguém que está do outro lado do mundo (e eu sei bem disso por experiência própria), o que é bom. Mas na verdade, a maior parte das pessoas com quem mantemos contacto no dia a dia estão bem perto, tantas vezes tão perto que era possível falar com elas cara a cara, na sua presença e não estar a falar sozinho para um pequeno aparelho, quando não a falar “para o boneco” com um apetrecho enfiado em cada ouvido. Se alguma coisa positiva teve a quarentena imposta pela pandemia, foi fazer-nos perceber claramente que nos faz falta estar junto, na presença das pessoas. E isso quer dizer estar com elas, poder tocar-lhes, encostar, abraçar e beijar. Porque o “falar à distância” não tem nada, mesmo nada a ver com o estar presente. Mas a tecnologia fez com que tenhamos negligenciado a necessidade dessa presença, levando-nos a trocar um benefício por um prejuízo. Quem acreditar que, “para estar junto não precisa de estar perto”, está errado. Sabemos que nem sempre é possível, mas esse tem de ser o desejo e o objetivo principal nas nossas vidas. Porque não há videochamada que substitua o olho no olho, nem emoji que substitua o abraço. A tecnologia tem coisas boas e facilitou as nossas vidas, mas só serve para ajudar. Vendo bem, ao dizermos “vamos almoçar” ou “encontramo-nos em casa, no café ou na rua” é que está certo. Todos nós sabemos disso, mas esquecemos depressa. E não podemos ficar à espera de uma nova pandemia para nos lembrar de novo o valor da “presença”.

Estar presente faz toda a diferença, porque é um sinal de prioridade e a forma de estar e sentir. Relações requerem comprometimento e sacrifício para gerar confiança. Mandar um e-mail não é o mesmo que estar no velório e dar os parabéns pelo telefone não é a mesma coisa que estar na fotografia atrás do bolo com o aniversariante. Presença é uma grande demonstração de amizade ou amor, porque através dela oferecemos algo muito valioso: Tempo.

É sabido que muitas vezes não damos o devido valor ao que temos e só nos damos conta disso quando deixamos de o ter. E nisso incluem-se as pessoas de quem gostamos, porque no corre, corre da vida, nós damos a sua presença como adquirida e garantida. E estamos muito enganados.

Ao olhar para trás é esse sentimento que me ficou em relação à Luísa, antes e mesmo depois de adoecer. Acredito que não soube usufruir da sua presença tanto quanto podia e devia. Apesar de tudo, nos últimos anos aproveitei a sua presença sempre que pude, mesmo quando não havia nada para dizer pela sua dificuldade em comunicar. Mas até nos seus silêncios os abraços diziam-me muito e um simples “obrigado” que ela usava frequentemente sempre que a ajudava em qualquer pequena tarefa, quando não acompanhado de um sorriso, enchiam-me a alma. E, apesar de condicionada pela doença e todas as suas limitações, mentiria se dissesse que hoje não sinto muito a falta da sua presença cá em casa, aquilo que eu dava por adquirido, mas que, afinal, não era. No meu consciente, jamais achei que a perderia. Num tempo em que jovens e menos jovens privilegiam o contacto com os outros através das redes sociais em prejuízo do cara a cara, em que mesmo quando estão juntos fisicamente comunicam entre si pelos meios virtuais como que ausentes de quem está presente, a “presença” completa do corpo e espírito de uns para os outros, isso de olhar olhos nos olhos e ver o brilho de um sentimento, é um valor que nunca podemos deixar cair, sem correr o risco de deixar de ser humanos …  

Somos a soma das nossas escolhas …

As escolhas que fazemos, definem-nos. Escolhes seguir em frente ou viver no passado? Escolhes ser feliz ou passar a vida a reclamar? Escolhes ser solidário ou egoísta? Escolhes ser gentil ou grosseiro? E escolhes virar à direita, à esquerda ou parar? Escolhas, decisões e opções. As escolhas fazem-nos seguir diferentes caminhos, diferentes histórias de vida. Permitem-nos ser quem queremos ser, mas toda a escolha gera consequências. Por isso, somos livres de escolher, mas devemos ponderar antes de escolher pois ficamos prisioneiros das consequências. É que, ao fazermos uma opção estamos a rejeitar outra. E, de opção em opção, tecemos aquilo a que chamamos vida.

Fui almoçar com dois amigos e, enquanto eles decidiram comer os tradicionais filetes de pescada, eu tentei-me e escolhi carne de porco à alentejana, que já não comia há alguns anos. Durante a tarde senti algumas cólicas intestinais, que se agravaram noite dentro. A carne de porco não se deu bem com as ameijoas e quem sofreu fui eu. Já a pescada “não andou à bulha” com ninguém e sorte tiveram os meus amigos, que não tiveram de passar a noite sentados na sanita. Quem “escolheu” mal, fui eu.

A vida é constantemente uma encruzilhada. E, a cada passo, temos de fazer escolhas e aguentar (quase) sempre com as consequências. Não podemos seguir por dois caminhos diferentes ao mesmo tempo. Por isso, em cada encruzilhada temos de decidir por um deles, vivendo muitas vezes na incerteza se essa foi a melhor opção. E se tivéssemos ido pelo outro, como seria? Quantos de nós, no momento de tomar a decisão sobre o curso que queríamos tirar, optamos por um que, anos mais tarde, se revelaria uma escolha errada? Quantos passaram uma vida profissional contrafeitos com a sua profissão, porque o caminho escolhido não foi o certo e foram incapazes de recomeçar do zero em uma outra em que sentissem bem? E muitas vezes as escolhas até são bem simples … 

Viajando pelo interior do Brasil, um homem começou a sentir fome à medida que se aproximava a hora do almoço. Como nem ele nem o seu companheiro de viagem conheciam a região, passaram a ficar atentos a algum letreiro que anunciasse algum restaurante ou local para almoçarem. Alguns quilómetros mais adiante viram um grande letreiro sobre uma casa rural, escrito em letras gordas em madeira escura, onde se lia: “COMIDA A ESCOLÊ”. Pela escrita, entenderam que o proprietário se enganara ou não era muito letrado, mas queria dizer que havia comida para escolher. Pararam, entraram e foram atendidos por uma mulher simples. Como não havia ementa à vista, perguntaram-lhe o que havia para comer. “Frango frito”, respondeu rapidamente a mulher. “E que mais”, insistiram eles? “Só frango frito e mais nada”, respondeu ela de novo. “Mas a tabuleta diz COMIDA A ESCOLHER”, argumentou o amigo. Sem pestanejar, a mulher disse: “Sim, o senhor escolhe se quer comer ou se não quer comer”. E ela tinha razão. Comer ou não comer exigia optar … 

Um casal amigo esteve recentemente em S. Tomé e Príncipe e aquilo que mais os encantou naquele país pobre e onde as pessoas vivem com muito pouco, foi a sua alegria de viver, muito especialmente nas crianças. Muito mais do que as paisagens fantásticas daquela ilha tropical, foi essa felicidade que os comoveu, apesar de terem muito pouco. E sensibilizou-os o saber que, mesmo nessa situação extrema, eles fizeram uma opção e escolheram ser felizes em vez de ficarem amargurados e revoltados, apesar de terem falta de tudo, até do mais básico para viver. Para quem ia de um mundo onde o “ter” é muito mais importante do que o “ser”, foi uma surpresa extraordinária. Nós temos (quase) sempre escolhas a fazer. Alguns escolhem viver e ser felizes com o pouco ou quase nada que têm. Enquanto muitos de nós optamos por ser infelizes apesar de desfrutar de uma abundância relativa onde até nos damos ao luxo de escolher o que queremos ou não queremos comer, vestir, usar, ser, etc., embora achemos que só conseguimos ser felizes precisamente com aquilo que não temos. Mas, na realidade, quando alcançamos aquilo que achamos que nos vai trazer a felicidade, como não a vamos encontrar, sobretudo nas coisas materiais, transferimos esse encontro com ela para outra coisa que alguém tem e nós não temos, numa busca interminável, porque nos esquecemos ou não queremos ver que a felicidade está nas nossas mãos, no nosso coração e não nos nossos desejos. É que o grande segredo está na capacidade de sermos felizes com aquilo que temos em vez de ficar à espera que a felicidade venha embrulhada no novo desejo. 

Quando a minha memória me transporta ao meu tempo de criança e revejo o que havia para comer, vestir, calçar, usar, usufruir, etc. nada, mas mesmo nada tinha a ver com aquilo que hoje está à disposição de todos nós e, tal como em S. Tomé e Príncipe, recordo como as pessoas eram pobres, mas também o quanto eram felizes. Ainda estou a ver e ouvir as mulheres a cantar enquanto lavavam a roupa numa presa ou sachavam o milho em rancho (a troco do almoço) ou espadelavam e fiavam o linho ou na desfolhada à procura do “milho-rei”. Porque a alegria de viver é um destino em função duma escolha que fazemos. E por isso se diz, que “nós somos a soma das nossas escolhas” …       

Apesar de tudo, gostamos de Portugal

 Pelo que consta nos anais da história, desde há muito tempo temos o péssimo hábito de dizer mal dos portugueses, isto é, de nós mesmos. Eça de Queirós é o exemplo acabado de como é possível, e de forma muito contundente, arrasar o portuguesinho. Fernando Pessoa dizia que, num grupo de cinco portugueses, o culpado é sempre o sexto. Somos assim, muito bons críticos de nós, mas não aceitamos que os estrangeiros o façam.                                                                              Portugal é o país do deixa andar, do deixa para amanhã o que podes fazer hoje, do desenrasca, do bota-abaixo, dos três efes. É ao mesmo tempo o Quinto Império e “os cafres da Europa”, no dizer do Padre António Vieira. Os portugueses “são excessivamente sentimentais, com horror à disciplina, individualistas, mas sem dar por isso, falhos de espírito de continuidade e de tenacidade na ação” – a descrição é de 1938 e pertence a Salazar.                                                                     Durante os Descobrimentos os portugueses agruparam-se à volta do Estado e continua a ser assim. Adoram o Estado, à sombra do qual muitos vivem. Submissos e resignados (“O Estado vai tomar conta de nós”). Mas queixam-se de que o Estado paga as suas contas “tarde, mal ou nunca”, que presta maus serviços, é lento, burocrático. É uma relação de “amor-ódio”. E se já era assim há 600 anos, significa que não temos emenda. Não conseguimos mudar! Para mudar a maneira de vivermos é preciso implementar reformas de fundo. Mas se nem com uma maioria absoluta foram capazes de o fazer, quando é que tal vai acontecer? E até que ponto nós portugueses queremos mudar a nossa maneira de viver? É que, para sermos ricos como os alemães, suíços, holandeses e nórdicos temos de entrar ao trabalho às oito da manhã, trabalhar até às seis, jantar às sete e estar na cama às nove. É esta a vida que queremos? E é difícil ir para a cama tão cedo com este clima (quando não nos atraiçoa …), que mata tal intenção ou a torna impossível! É verdade que temos grandes qualidades, embora não achemos que sim como dizia o ex-ministro Luís Amado: “Só oiço dizer mal de Portugal em Portugal”, enquanto Boaventura S. Santos fala de uma má consciência por causa da passividade, que todos reconhecem, mas que não conseguem mudar. 

Raramente dizemos: “A culpa é minha e a responsabilidade é minha.” Por norma atiramos a culpa para o outro. E temos pouca participação democrática. Temos medo. Medo de falar de frente, de assinar a petição, de dar a cara quando é preciso enfrentar e confrontar. Medo de ser mal vistos, de fazer figura de parvo, de levantar a voz e ser ridicularizados, ser castigados, como se o poder esteja lá em cima e nós estejamos cá em baixo (“é melhor ficar calado, está mal, mas ainda pode ficar pior, recebo pouco, mas é melhor que nada”). É o medo de tentar ir mais além. [Miguel] Torga. Descreve os portugueses assim: Um “pacífico coletivo de pessoas revoltadas”. Mas estes portugueses foram para França nos anos 60 e foi precisa uma coragem de gigante para quem nunca tinha saído de cá e nem falava francês.  Quiseram acreditar e conseguiram.                                                                                                     Mas sabemos que a produtividade em Portugal é um problema, mas ninguém se esforça muito para a mudar. Alguns esforçam-se, têm sucesso, como a Jerónimo Martins. Mas o grosso das empresas, em especial as do Estado, vivem de fazer o suficiente para sobreviver. Assim, como é que podemos queixar-nos? E de quem?                                                                                                    Somos maus a gerir os dinheiros públicos. Vejamos os milhares de milhões de euros que vieram dos Fundos a União Europeia, de que uma boa parte foi desperdiçada em obras para nada. António Barreto disse que foi um convite ao esbanjamento e à corrupção. E depois?                                                                                                          Ainda somos um país de “chico-espertos” que conseguem contornar o sistema. Quem foge aos impostos é o grande herói! O que consegue dar a volta ao Estado e evitar pagar impostos é o campeão. Andar no limite de velocidade nas estradas ou conseguir estacionar sem pagar são pequenas vitórias do dia-a-dia. Além do tráfico de influências e a corrupção, que começa pelo “jeitinho” e nunca se sabe onde acaba.                                                                                               Quando a Coca-cola quis entrar em Portugal, Salazar escreveu-lhes uma carta a recusar, dizendo que Portugal era um sítio pacato, que queria que ficasse assim, que tinha medo do progresso e que não queria que os camiões da Coca-Cola mudassem o ritmo de vida dos portugueses. Alguém dizia: “Percebo Salazar. O que estava a dizer tem a ver com os valores, com a maneira como queremos viver.” Os portugueses não querem viver como os americanos, gostam da maneira de viver em Portugal.

Queixam-se muito, mas gostam. Se os portugueses não gostassem da vida em Portugal, já tinham mudado. Gostam de ir almoçar durante uma hora e meia, duas horas, à sexta-feira (e todos os dias é sexta-feira …), de chegar tarde ao trabalho e depois ficar lá mais tempo a falar… E no fim do mês, queixam-se que recebem pouco, que lá fora é melhor! Mas não são grandes adeptos da mudança. Porque a temem.                                                                        Os portugueses dizem que são invejosos – que o outro é invejoso, mas nunca o próprio, bem entendido. “Se não posso ter, não quero que os outros tenham. Fico com as minhas coisinhas e fico contentinho.” O “inho” vem também de uma frustração na vida, de sentir que não consegue ter. Os portugueses não pensam que se trabalharem muito, se se esforçarem, pouparem, investirem bem, arriscarem, conseguem chegar lá. Olham para a pessoa que tem [com desconfiança]: “Deve ter conseguido o que tem com malandragem ou teve uma cunha.”         Nós dizemos mal de Portugal e mal uns dos outros, mas adoramos Portugal. Como alguém da nossa família que não suportamos, mas que é da nossa família. Porque gostamos mesmo de Portugal. E não tenhamos dúvidas: Os que tiveram de imigrar, se pudessem ficar cá, também ficavam … 

A felicidade no “cordão d’oiro” …

Ainda era adolescente quando integrei um grupo de conterrâneos numa ida à festa de S. Simão, em Guilhufe-Urrô, Penafiel, conhecida por ser o santo apóstolo de Cristo padroeiro dos cravos onde muitos fiéis iam “pagar as suas promessas” e a primeira onde se bebia “vinho doce”. Duas das moçoilas que integravam o grupo, mais velhas do que eu, apresentavam-se vestidas com um traje tradicional, de lenço na cabeça, faces coradas, um cordão de ouro que dava três ou quatro voltas ao pescoço para depois cair sobre o peito e, pendentes de cada orelha, duas grandes “arrecadas” também em ouro. Como de costume nas festas de então, passeava-se de um lado para o outro, elas para se mostrarem à espera de um possível candidato enquanto eu, o mais novo do grupo, apreciava todo o movimento. 

Às tantas, uma delas deu um grito e, quando olhei, vi-a deitar a mão ao pescoço e ainda conseguir segurar a ponta do cordão de ouro que já se lhe escapava, em resultado da tentativa de roubo por algum “artista” que, com subtileza, conseguira cortar o cordão e que deveria seguir de perto à espera que caísse naturalmente. Imagino que tenha sido auxiliado por alguns colaboradores, pois isto deu-se num momento em que passamos por um aglomerado de pessoas onde era grande o aperto, julgo que intencional para a distrair e não se dar conta do golpe. E foi por pouco que não conseguiram os seus intentos. 

Para a moça seria um duro golpe se os ladrões tivessem concretizado o roubo, porque o “cordão d’oiro” tinha um enorme significado para ela, como o teria para todas as jovens daquele tempo: era um sonho de criança concretizado, era o seu mealheiro e também o fruto de anos de trabalho.

A Miquinhas Mota tinha a sua casa cinquenta metros abaixo da casa dos meus pais. Morava no andar e a parte de baixo era dedicada ao negócio do “folhelho”. Para quem não conhece o termo, o “folhelho” corresponde à “camisa” das espigas de milho, isto é, a parte que cobre toda a espiga. Ela comprava aos lavradores essas “camisas” tal como eram separadas da espiga nas tradicionais desfolhadas e usava-as para enchimento de colchões no tempo em que não havia a gama de materiais para o fabrico colchões de hoje. Para além do “folhelho”, só as penas, mas essas eram muito caras. No entanto, antes de ser usado no enchimento dos colchões, tinha de ser “ripado”, isto é, passado por um “ripo” que rasgava as folhas em tiras finas para o produto final se tornar mais fofo e confortável. Maria era uma das jovens “ripadeiras” da aldeia que “ripava folhelho”. Mas desde que começou a trabalhar na “ripagem”, pediu à Miquinhas Mota que lhe guardasse uma parte daquilo que tinha de lhe pagar por cada saco de produto ripado até ela conseguir “juntar dinheiro” suficiente para comprar um cordão. E na verdade, quando anos mais tarde ela atingiu um certo montante de dinheiro poupado, suficiente para comprar o cordão d’oiro com que tanto sonhou, “meteu pés ao caminho” na companhia da mãe e foi à vila satisfazer o desejo de longa data. Porque esse era o desígnio de qualquer jovem de então e a sorte dos ourives da época.

Não havendo praticamente empregos para as mulheres, muitas mães procuravam pôr as suas filhas “a servir”, se possível numa casa rica onde sabiam que seria bem tratada e educada (e isso começava por querer dizer que comeria e vestiria bem, o que em casa dos pais não seria assim). Ora, também aí a moça costumava pedir à patroa que lhe guardasse o dinheiro com que ficava (a outra parte muitas vezes era entregue à mãe para ajudar lé em casa) para comprar o tal cordão d’oiro e se possível um dos maiores e mais pesados, que já custavam dois ou três contos. E, tal e qual como a Maria, também elas tinham de trabalhar alguns anos para conseguir amealhar dinheiro suficiente para o sonhado cordão.

Para aquelas que não conseguiam juntar o dinheiro suficiente para um cordão d’oiro, muitas vezes acabavam por comprar um trancelim, também em ouro, mas mais leve e, consequentemente, muito mais barato. 

Olhando para trás nesse tempo distante, recordo com respeito e um certo sentimento de saudade esse desejo fascinante das moçoilas de então, de possuírem um “cordão d’oiro”, angariado à custa de muito suor, de anos e anos de trabalho duro, sacrifício porque “tiravam-no da boca” para poder juntar algum dinheirito e uma confiança cega na sua “patroa” que funcionava como o “banco” em quem confiavam as poupanças com mais tranquilidade do que nós hoje podemos confiar. E era bonito ver o quanto se sentiam orgulhosas e vaidosas sempre que tinham a oportunidade de o colocar à volta do pescoço num dia especial, fosse dia de feira ou romaria ou até num simples domingo, numa manifestação feliz de que tinham alcançado o seu sonho. E esse sonho, apesar de simples, era a sua felicidade … 

Ser ou não ser extraordinário. Eis a questão …

Em miúdos, e não só, todos nós sonhamos ser extraordinários, vestir a capa de super-herói, ser bestiais em todas as áreas da vida. Mas, na realidade, somos quase todos medianos, bastante medianos mesmo. E até quando somos bons em alguma coisa, o mais provável é que sejamos médios ou abaixo da média na maioria das outras. É assim a vida. Para que alguém se torne verdadeiramente excelente nalguma coisa tem de lhe dedicar muito tempo e energia. E como estes nos são limitados, muito poucos se tornam verdadeiramente excecionais em mais do que uma coisa, se tanto. Pode-se dizer que é improvável que alguém seja extraordinário em todas as áreas da vida ou mesmo em muitas áreas. 

É por isso que os empresários brilhantes têm muitas vezes uma vida pessoal lixada. Atletas extraordinários são muitas vezes frívolos e brutos como calhaus. Celebridades que admiramos estão tantas vezes perdidas quanto as olhamos embasbacados. Gente que conseguiu ganhar fama e muito dinheiro acaba morta por suicídio.  Em geral somos medianos, mas são os extremos que têm toda a publicidade. Por isso, todos os dias somos bombardeados com o verdadeiramente extraordinário. O melhor do melhor ou o pior do pior. As maiores proezas físicas, as piadas mais engraçadas, as façanhas mais incríveis. E também as notícias mais perturbadoras e chocantes, as coisas mais exóticas, aberrantes e imbecis. Porque no negócio da comunicação social é isso que faz arregalar os olhos e os olhos arregalados trazem dinheiro. Ora é isso que interessa. Contudo, a grande maioria da vida é até bastante mediana.                                                                                                                                        Esta onda de informação do extremamente fantástico, excecional e aberrante nos meios de comunicação e redes sociais até nos leva a acreditar que o extraordinário é o “novo normal”. E, porque somos quase todos medianos, ao sermos encharcados com a informação do excecional, pode fazer-nos acreditar que não somos suficientemente bons e que se passa algo de errado connosco. E isso traz problemas sérios à sociedade porque muita gente acha que “também tem esse direito de ser excecional”. Assim, a inundação do excecional faz com que as pessoas, sobretudo jovens, possam ficar mal consigo e fá-las sentir que precisam de ser mais extremas e mais radicais para que reparem nelas ou para ter alguma importância face a esses padrões irrealistas que não conseguem atingir.

Na cultura ocidental tornou-se comum acreditar que estamos todos destinados a fazer algo extraordinário. É isso que dizem os políticos. Também é o que dizem as celebridades, além dos magnatas e gurus. Que todos merecemos a grandeza. E é a pensar nisso que muitos pais levam os filhos para as escolas de futebol e alguns, na ânsia do “tem que ser”, fazem cenas ridículas ao querer a todo o custo que o filho tenha sucesso, talvez para que ele consiga dar-lhe aquilo que ele não conseguiu ter na vida: ser extraordinário. Se pensarmos bem vemos que, se fôssemos todos extraordinários, isso seria a “normalidade” e assim passaríamos a ser “normais”. Em função dessa exaltação do ser “extraordinário”, ser “médio” tornou-se o padrão do fracasso, pois o pior sítio para se estar é no meio do rebanho. Quando o padrão de sucesso é o extraordinário, é preferível estar no extremo mais baixo do que no meio. Pois lá em baixo e pelos piores motivos, continua-se a ser muito especial e a poder merecer atenção, quanto mais não seja da comunicação social. Alguns escolhem a estratégia de provar a toda a gente que são os mais infelizes, os mais oprimidos ou as maiores vítimas. Ou então ser os piores dos piores porque lá estarão os meios de comunicação social para lhes dar tempo de antena como se fossem especiais. E a verdade é que são, mas pelas piores razões …                                                                                                 As raríssimas pessoas que se tornam verdadeiramente excecionais nalguma coisa não o fazem por acreditarem que são excecionais. Pelo contrário, elas tornam-se fantásticas porque estão obcecadas pelo aperfeiçoamento e essa obsessão vem da crença de que ainda não o são, o que os leva a esforçar-se mais e mais, pois sabem que só com o trabalho, esforço e sacrifício é possível ambicionar tal desígnio. Toda esta história de que “toda a gente pode ser extraordinária e atingir grandeza” não é mais do que uma mentira piedosa para fazer cócegas ao ego de cada um, a nova miragem do mundo ocidental.

A receita para a nossa saúde emocional é aceitar verdades correntes como “As tuas ações, na verdade, não contam assim tanto no grande esquema das coisas” ou “A maior parte da tua vida será monótona, de rotina, anónima e sem nada digno de nota e isso não é um problema”. Vai saber muito mal reconhecer que não seremos extraordinários, mas depois seguimos em frente já sem essa pressão constante de ter de ser fantástico. E vem a consciência e aceitação da nossa existência neste mundo, livres para fazer o que desejamos, sem críticas nem as expectativas altas. E pode-se apreciar melhor os prazeres da amizade simples, de criar alguma coisa inclusive os filhos e uma família, de rir com alguém que se ama, de dar tempo aos outros.

Parece chato para quem se farta de ouvir falar constantemente nos excecionais e fantásticos, mas já há muito que se confirma a teoria de que a felicidade está nas coisas simples, nas coisas vulgares da vida. Porque, vendo bem, são aquilo que na verdade importa …

Mas não esqueçamos que, a qualquer momento da vida, podemos ser chamados a ser simplesmente extraordinários, se o acaso nos tornar em “cuidador informal” de um filho, esposa, marido, outro familiar ou até amigo. Tal como o são hoje centenas de milhares de portugueses. Quando confrontados com o drama de uma doença incapacitante, de acidente ou deficiência de alguém que lhes é próximo, arregaçaram as mangas e sacrificaram a sua vida pessoal e profissional por amor incondicional ao colocarem os interesses do “outro” à frente dos seus, já que foram esquecidos por quem de direito. Tem um custo? Se tem! Mas vai sentir-se recompensado se o fizer de alma e coração. E então, quem o conhecer vai achá-lo verdadeiramente “extraordinário”.                                                   Faço-lhe um aviso prévio: Não fique à espera de que a comunicação e as redes sociais promovam o seu desempenho porque o consideram extraordinário. Esqueça. Não o vão fazer. Porque para eles isso não vende, não é negócio, não dá dinheiro … 

A “família alargada” e a comunidade

Quando acabei o curso fui fazer o estágio em Angola pois as condições oferecidas pelo estado eram excelentes quando comparadas com o que se pagava por cá, provavelmente com intenção de fixar técnicos naquela “província ultramarina”. Viagens pagas no paquete Infante D. Henrique e com um salário cinco vezes maior do que recebia aqui no “continente”, não exitei e foi uma experiência que me marcou para a vida. Chegado a Angola com mais de uma dezena de colegas, tocou-me fazer o estágio no Instituto do Algodão e tive de passar por Catete, Malange e a Baixa de Cassange, uma região imensa e com aptidões excecionais para a cultura. Viria a acompanhar um grupo de nativos numa experiência onde era atribuída uma parcela de terreno para cultivar algodão a cada um, seguindo as orientações dos técnicos e sendo-lhes fornecidos todos os meios para levarem a cultura da sementeira à colheita e até ao mercado. Quando o algodão estava pronto para ser apanhado, a empresa Cotonang que tinha a concessão exclusiva da compra do algodão na região, instalou na aldeia um ponto de recolha da produção. Cada agricultor levava os fardos de algodão, eram pesados, classificados em função da qualidade (com critérios duvidosos pois só havia aquele comprador) e o seu valor era pago imediatamente ao produtor.                                                                     De repente, um nativo que em geral não tinha nada, via-se na posse de bastante dinheiro. Foi então que eu vi uma coisa espantosa: com o dinheiro na mão, o agricultor era logo rodeado por inúmeros familiares, alguns deles vindos de muito longe, filhos, irmãos, tios ou primos, homens ou mulheres, e dirigiam-se para um largo onde estavam os comerciantes (brancos) com todo o tipo de coisas para vender, desde comida e bebida para celebrar como não podia deixar de ser, a roupa, calçado, relógios, rádios, óculos, tudo o que se possa imaginar nessa época distante. Para as mulheres havia panos coloridos para se enrolarem e as bugigangas do costume. No fim dos festejos, se sobrasse algum dinheiro da colheita era milagre. A família toda usufruía do que o agricultor conseguira, pois, os africanos têm o conceito cultural de “família alargada”. Dizem que há sempre alguém, algum tio ou primo que precisa de dinheiro e têm de ajudar. Nunca chegam a poupar nada. É a velha tradição africana: “divide o que tens com os outros membros da família, do clã, da tribo”. Aquele que viola este princípio autocondena-se ao ostracismo.                                                                                                      Achei esta tradição excecional. O conceito da “família alargada” não é só africano. Existe também na Ásia, Índia e na América Latina. Diz o escritor Gonçalo Cadilhe que “só os ocidentais é que casam tarde, divorciam-se cedo, desaparecem no anonimato das grandes cidades, põem as suas crianças no jardim-de-infância a partir de poucos meses de idade, os seus velhos nas casas de repouso e nos lares e trocam os deveres comunitários pelos prazeres individuais”. O sentimento de família, comunidade e de solidariedade perde-se num individualismo e egoísmo exacerbados, centrados no eu e não no outro.                          À nossa moda, já tivemos o conceito de “família alargada” traduzido na solidariedade das comunidades rurais quase extintas. Mas, pouco a pouco esse espírito comunitário e solidário foi desaparecendo e hoje não passa de uma memória do passado. Ficaram as instituições de solidariedade social para suprir algumas carências e passamos a olhar o estado como uma vaca onde a maioria possa mamar. Venderam-nos a ideia do Estado Providência que a todos tudo provia, mas este faliu e ficou em legado o Estado Social para servir uma sociedade egoísta e centrada em si própria, que exige tudo sem admitir que lhe peçam algo em troca e demasiadas vezes sem consciência de que é cada um daqueles que trabalha no duro que financia o sistema.                                 O que pagamos ou prescindimos de receber deveria servir para ajudar quem precisa e para termos amparo se nos virmos em maus lençóis. Mas essa lógica de precaução e visão de longo prazo sucumbiram ao individualismo, sob o comando de quem vê as funções governativas como uma saída profissional e oportunismo pessoal e não como uma missão nobre de serviço aos outros. Transformaram o meio num fim. Assim, ganhar eleições e manter o poder passou a ser o objetivo final da distribuição massiva de subsídios e o Estado Social foi inchando para tentar dar algo a todos, tornado instrumento para ajudar a ganhar eleições e a criar uma sociedade de dependentes do estado.                                                                                                                   Para os que de facto precisariam de ser apoiados e não tendo a chamada “família alargada” a quem recorrer, vai sobrando cada vez menos, o que aumenta o fosso entre os que têm alternativa e vontade de fazer e os que ficam à espera do que alguém decide que merecem.                                   Entretanto exigimos equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mas quase não estamos disponíveis para atender um pedido de ajuda de um colega aflito. Recusamos trabalhar ao fim de semana, mas exige-se que nos levem as compras à porta ao domingo à noite. Queremos que a justiça castigue aqueles que roubam, enganam e prevaricam, mas praticamos e promovemos a cultura do jeitinho, partilhando favores, músicas, filmes, jornais e passwords, e alimentamos uma economia paralela quando arranjamos o carro ou fazemos obras sem fatura. Recusamos aceitar empresas que não promovam a sustentabilidade, mas não queremos pagar mais pela embalagem de vidro ou pelos produtos biológicos. Pregamos a economia circular e a luta contra o desperdício, mas não descansamos enquanto não tivermos o novo iPhone apesar de possuir o modelo anterior ainda novo. Recusamos as roupas, calçado e outros artigos da moda do ano anterior apesar de boas para comprar o que a moda dita, como recusamos quase sempre os restos do jantar da véspera sem olhar ao desperdício contra o qual berramos. Estamos na primeira fila na luta pelo meio ambiente e pela defesa dos recursos naturais, mas desperdiçamos água, eletricidade, alimentos, montanhas de roupas e tantos outros bens como se não houvesse amanhã. Todos queremos viver melhor, com mais conforto e qualidade de vida e por isso exigimos mais direitos, condições de vida e respostas para todos os nossos problemas. Mas poucos estarão dispostos a procurar ser, eles próprios, agentes ativos da mudança, o exemplo daquilo que apregoam com veemência, mas sem coerência. Porque somos muito exigentes com os outros, como se eles fossem os únicos responsáveis e negligenciamos as nossas responsabilidades como se isso não fosse também connosco. Poucos reconhecem que a sua ação, parecendo insignificante, pode ter efeito imediato e reflexo nos outros. E ainda mais escassos os que, sabendo-o, estão dispostos a agir. Sobretudo se o dano não os toca diretamente. Que importa que haja pessoas que cegaram e se tornaram dependentes à espera de uma simples operação às cataratas, se a maioria vê bem? Quem se rala que as novas tabelas do imposto de circulação vá tirar mais dinheiro a quem tem carros antigos, se uns quantos até vão beneficiar no IRS? O que interessa a quem está a receber apoio às rendas que quem recebe pensões de alimentos só tenha direito a uma pequena fração dessa prestação, mesmo que os seus rendimentos reais sejam miseráveis?  Sobra-nos o Estado Social que deveria prover só a quem precisa e não ser “fonte de produção” de dependentes do estado tornando aquele insustentável e injusto. E, por isso mesmo, com “prazo de validade” …                                                                 

A vida é uma forma de sofrimento

A partir do momento que perdemos a inocência natural da infância, percebemos que a vida é uma forma de sofrimento, um amontoado de problemas que se sucedem continuamente. O rico sofre por causa das suas riquezas enquanto o pobre sofre por causa da sua pobreza. As pessoas sem família sofrem por não terem família enquanto as pessoas com família sofrem por causa desta. Aqueles que procuram os prazeres terrenos sofrem por causa dos prazeres terrenos, mas os que se abstêm desses prazeres sofrem pela sua abstenção. E até o ditado diz: “Quem tem filhos tem cadilhos e quem não tem cadilhos tem”.           Dizia-me o meu filho que futebol é sofrimento porque, quando assiste a um jogo do seu clube, se ele está a perder sofre, mas se está a ganhar, continua a sofrer com medo de que o adversário marque a qualquer momento e inverta o resultado. Mas não sendo o sofrimento todo igual, a verdade é que todos nós temos de sofrer. Daí que, a dor e a perda são inevitáveis e deveríamos deixar de tentar resistir-lhe e aceitá-las sem negação e sem vitimização.                                                                                                         Nós sofremos pela simples razão de que o sofrimento é útil na nossa vida. É a forma que a natureza encontrou para nos levar a mudar. Se andar descalço cá em casa e der um pontapé descuidado num móvel que estava quieto e não se meteu comigo, vou dar um berro e soltar um palavrão contra o móvel “que não teve culpas no cartório”. Mas, por muito que a odeie, esta dor é útil. É a dor que nos ensina a não ser descuidados e a prestar mais atenção, especialmente quando somos jovens. Mostra-nos o que é bom e o que é mau. Também nos ajuda a compreender e conformar-nos com as nossas limitações. Ensina-nos a não fazer asneiras, a não tocar no lado afiado da faca porque corta e magoa, a não pôr a mão no fogo ou no disco do fogão quente porque queima, a não enfiar um objeto metálico numa tomada elétrica pois dá choque e a ter cuidado com uma agulha ou qualquer coisa afiada porque pica. Assim, nem sempre é benéfico evitar a dor, viver numa redoma com todas as necessidades e desejos satisfeitos, visto que a dor pode, por vezes, ser de importância vital para o nosso bem-estar. Tal como a dor física, também a dor psicológica nos traz sofrimento e é sinal de que algo não está bem. Se a namorada de quem gostávamos muito de repente nos trocar por outro, sentimos a dor da perda e da traição, que não é menor do que a dor física. E também essa dor nem sempre é má ou indesejável. Assim como a pancada com o dedo do pé no móvel nos ensina a não esbarrar com este ou outros, também a dor emocional da rejeição ou do fracasso, ensina-nos a evitar os mesmos erros no futuro. Ora, numa sociedade que cada vez mais se tenta proteger dos inevitáveis desconfortos da vida, perdem-se os benefícios de experimentar doses saudáveis de dor, uma perda que pode desligar-nos da realidade do mundo que nos rodeia. E não há uma vida sem dor, nem sem problemas. Não existe. Temos de aceitar a ideia de que teremos sempre de sofrer alguma coisa. Façamos o que fizermos, a vida é composta por muita coisa pois a par dos sucessos, ganhos, alegrias e da própria vida, também tem à mistura as perdas, fracassos, remorsos e até a morte. Por isso, a partir do momento que aceitarmos com naturalidade todo o sofrimento que a vida nos atira, sem revolta nem vitimização, estaremos em condições de ultrapassar a dor.                                                                                                                       Os problemas são uma constante da vida e dela fazem parte. Quando resolvemos um problema muitas vezes estamos a criar outro. Se eu comprar um carro a crédito para resolver o transporte pessoal, passo a ter o problema da prestação mensal. Se pagar a inscrição no ginásio para resolver a falta de condição física, crio problemas novos porque tenho de me levantar cedo para chegar a horas, de suar durante uma hora ou mais na elítica, passadeira e outras máquinas de tortura para abater a barriga e criar músculo. Não podemos esperar uma vida sem problemas. Isso não existe. Apenas são trocados ou sofrem alterações tipo “upgrades”. Em vez disso, vamos pedir uma vida cheia de bons problemas. E, sejam quais forem os problemas, só há uma forma de seguir em frente: resolvê-los para ser feliz. Infelizmente, para muitos de nós a vida não parece ser tão simples e arranjamos dificuldades ao adotar uma postura de negação do problema ou de vitimização. Ora, isso não ajuda a resolver nada. Ao negar a realidade, escondemos o problema, nada mais, e ao vitimizarmo-nos procurando culpar os outros ou as circunstâncias externas pelos nossos problemas para nos sentirmos melhor a curto prazo, acumulamos raiva e desespero. Normalmente as pessoas culpam os outros pelos seus problemas pela simples razão de que é fácil e sabe bem, ao passo que resolvê-los é difícil e frequentemente desagradável. Quanto mais tempo evitarmos e mais tempo ficarmos entorpecidos, mais doloroso será quando nos decidirmos enfrentar as nossas questões.                                                    Os nossos problemas são recorrentes e inevitáveis. A pessoa com que casamos é a pessoa com quem brigamos. A casa que compramos é a casa que temos de reparar. O emprego de sonho que arranjamos é o que nos causa stress. Esta é uma pílula difícil de engolir, porque nos agrada a ideia de que existe a forma suprema de felicidade que pode ser atingida, de que podemos aliviar sempre todo o nosso sofrimento e de nos sentirmos realizados e satisfeitos com as nossas vidas para sempre. Mas não podemos.                                                                                As pessoas querem um corpo magnífico, mas isso só é possível com a muita dor e o esforço de viver no ginásio, hora após hora, e planear e controlar ao pormenor tudo o que come. As pessoas querem lançar o seu negócio, mas ninguém tem sucesso se não se sujeitar ao risco, aos fracassos repetidos, à incerteza, às horas insanas devotadas a algo que pode não render nada. As pessoas querem um parceiro, marido ou mulher, mas não se atrai alguém maravilhoso sem aceitar tensões, superar rejeições e diferenças. O que determina o sucesso não é “de que quer desfrutar?”, mas “que dor deseja suportar?”. O prazer é a questão fácil, todos o queremos. A questão é “qual a dor que quero suportar?”. Porque não há recompensa sem luta nem vitória sem batalha. As pessoas que lutam e sofrem no ginásio são as que correm triatlos e têm abdominais esculpidos. Quantos de nós, sentados na comodidade do sofá, não os invejamos? Mas não queremos a dor do seu sofrimento, mas só o resultado. E não há colheita sem o trabalho e o sofrimento de quem cultiva …                                                              

Entre a franqueza honesta e as delicadezas falsas …

Em 2009 M. Manson largou o apartamento onde vivia e partiu numa viagem pelo mundo que o levaria a viver temporariamente em 55 países como nómada digital a alimentar o seu blogue. Nessa viagem, em 2011 viajou para São Petersburgo, na Rússia. Nas suas palavras, “a comida era péssima, o tempo era péssimo e o meu apartamento era péssimo. Nada funcionava. Era tudo caríssimo. As pessoas eram malcriadas e tinham um cheiro esquisito. Ninguém sorria e todos bebiam demasiado. E, contudo, adorei. Foi uma das minhas viagens favoritas”. Porque existe um sem cerimónia na cultura da região que, normalmente, desagrada aos ocidentais. Não há delicadezas falsas nem as tiradas verbais polidas, mas que não dizem nada. Não se sorri para estranhos nem se finge gostar de algo de que não se gosta.                                                               Porque ali, se uma coisa é estúpida as pessoas dizem que é estúpida. Se alguém está a ser cretino, dizem-lhe que está a ser cretino. Se gostam de uma pessoa e estão a passar um bom bocado com ela, dizem-lhe que gostam dela e que estão a passar um bom bocado. Não importa se a pessoa é um amigo, um estranho ou alguém que acabou de se conhecer cinco minutos antes na rua.                                                     Durante a primeira semana ficou desconfortável com esta realidade. Teve um encontro num café com uma rapariga russa e três minutos depois de estarem sentados juntos ela olhou-o cara a cara e, sem rodeios, disse-lhe que o que ele acabara de dizer era estúpido. Quase se engasgou com a bebida. Não falou de forma exaltada, mas disse-o, apenas, como um facto trivial fosse ele o estado do tempo no dia ou o número que calçava. Mas ele ficou chocado, pois essa franqueza no Ocidente era considerada muito ofensiva, especialmente vindo de alguém que acabamos de conhecer. Mas era assim com toda a gente. Todos lhe pareciam constantemente rudes e a sua mente ocidental mimada sentia-se atacada por todos os lados. Mas, à medida que as semanas passavam, habituou-se àquela franqueza clara, tal como se habituou aos pores do sol à meia-noite e à vodca que se bebia como água gelada. E depois começou a apreciá-la exatamente pelo que era: expressão não adulterada. Honestidade no verdadeiro sentido da palavra. Comunicação sem condições, sem segundas intenções, sem motivo ulterior, nada de conversa fiada de um qualquer vendedor ou com o desejo desesperado de querer ser apreciado.                                                                         Diz ele que, após anos de viagem, foi provavelmente no lugar menos americano de todos os lugares, que experimentou pela primeira vez um gosto particular de liberdade: a capacidade de dizer tudo o que pensava e sentia, sem receio de repercussões, sem medo de ofender ou chocar a outra pessoa desde que fosse honesto e dissesse o que sentia e não o que era conveniente para lhe agradar. Sentiu uma estranha forma de libertação através da aceitação da rejeição. E, sendo alguém a quem faltava muito este gênero de expressão desempoeirada durante a maior parte da vida, embriagou-se nela como … bem, como se esta fosse a mais requintada vodca que já bebera. Quando chegou ao fim o mês que passou em São Petersburgo conforme programara, não queria ir embora. E nada do que sentiu tem a ver com o sistema político e muito menos com os governantes e criminosos de guerra de hoje, mas com o povo da região onde viveu.                                                                                                                     Viajar é uma excelente ferramenta de desenvolvimento pessoal pois retira-nos dos valores da nossa cultura e mostra-nos que, noutras sociedades, pode viver-se com valores completamente diferentes e, ainda assim, funcionar e não se odiar a si mesmas. Esta exposição a valores culturais e critérios diferentes força-nos então a reexaminar o que parece óbvio na nossa vida e a considerar que, talvez, este não seja afinal o melhor modo de viver. Neste caso, o povo desta região russa fez-lhe ver e reexaminar a comunicação de treta e a falsidade que são tão comuns na cultura ocidental e perguntar a si mesmo se esta não estaria, de certa forma, a tornar-nos mais inseguros em relação uns aos outros e a prejudicar a nossa intimidade.                                                                      O seu professor de russo tinha uma teoria interessante sobre estas grandes diferenças entre as duas culturas: “Tendo vivido sob o comunismo durante tantas gerações, com poucas ou nenhumas oportunidades económicas e engaiolada numa cultura de medo em relação ao sistema governante, a sociedade desta região descobriu que a moeda mais importante era a confiança. E, para construir confiança, é preciso ser honesto. Isso significa que, quando as coisas são uma porcaria, isso é dito abertamente e sem desculpas. As demonstrações de honestidade desagradável eram compensadas pelo simples facto de serem necessárias para a sobrevivência – as pessoas tinham de saber em quem podiam e não podiam confiar e tinham de o saber depressa.                                                                          Porém, no Ocidente “livre”, continuou o seu professor de russo, “existe uma abundância de oportunidades económicas, tantas que se tornou muito mais valioso uma pessoa apresentar-se de uma certa maneira, ainda que falsa, do que ser efetivamente dessa maneira. A confiança perdeu o seu valor. A aparência e a capacidade de venda tornaram-se formas de expressão mais vantajosas. Conhecer muitas pessoas superficialmente é mais benéfico do que conhecer poucas intimamente. Foi por isso que se tornou muito normal nas culturas ocidentais, sorrir e dizer coisas de cortesia, mesmo que não sentidas, dizer pequenas mentiras inocentes e concordar com alguém mesmo que não se concorde. É por isso que as pessoas aprendem a fingir que são amigas de outras de quem nem sequer gostam, a comprar coisas que, de facto, não querem. É o sistema económico que promove estas ilusões. A grande desvantagem é que, no Ocidente, nunca se sabe se é possível confiar completamente na pessoa com quem falamos. Por vezes, isto acontece mesmo entre bons amigos ou familiares. Existe uma tal pressão para se ser apreciado que, muitas vezes, as pessoas reconfiguram completamente a sua personalidade, dependendo de com quem estão a lidar e das intenções que têm”.                                 Ainda há dias me dizia um amigo que a sua frontalidade em dizer as verdades a qualquer pessoa, sem meias palavras nem dourar a pílula, tem-lhe trazido bastantes dissabores porque há quem não as queira ouvir. Mas ele não gosta de fingir que está tudo bem quando não está, que gosta do que não gosta, que tem de elogiar o que não merece um elogio. Dizia-me ainda que “se finge muito, abraça-se e beija-se quem se detesta porque é conveniente e, logo de seguida, nas suas costas, se dizer o que realmente se pensa.                                                                               Olhando para este confronto de atitudes culturais antagónicas e sem introduzir na equação a toxidade dos governantes, será caso para perguntar qual das duas deveríamos escolher: se a atitude franca e honesta do povo daquela região russa ou a atitude das sociedades ocidentais feita de delicadezas falsas onde é mais importante parecer que ser, com muita falsidade e hipocrisia que tantas vezes só deixa palavras de conveniência, não sinceras, que não correspondem aos sentimentos nem à prática de todos os dias …

E os lobos mudaram o curso dos rios!

Para além das catástrofes naturais, a ação humana é um dos grandes responsáveis do desequilíbrio ambiental, um enorme problema da atualidade. Se num ecossistema, o ambiente e os seres vivos estão em sintonia perfeita, qualquer perturbação pode levar a uma reação em cadeia que afeta vários seres vivos, incluindo nós, seres humanos. E o homem não para de fazer asneiras e dar cabo da “casa onde habita”, de tal forma que muitas vezes nem se apercebe como uma ação bem simples pode desencadear reações negativas em cadeia, tanto para o mal como para o bem. Prova-o esta história real, mas com final feliz:

O Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, criado pelo presidente Ulysses S. Grant, o primeiro a nível mundial e com quase o tamanho do Minho e Algarve juntos, já foi terra das nações índias durante mais de 10.000 anos e é coberto por pradarias, montanhas e florestas em grande parte, para além das áreas vulcânicas que vão do majestoso geiser denominado Old Faithful até à magnética fonte termal Grand Prismatic. Perdi a oportunidade de conhecer um pouco desta maravilha da natureza há alguns anos, numa viagem em que visitá-lo fazia parte do roteiro quando, ao chegar a Salt Lake City, tomamos conhecimento que uma tempestade se instalara sobre o Parque, fazendo-nos mudar o rumo para outro local mais ameno. Diz-se que as maravilhas são tantas que os mais céticos insistem em vê-las com os próprios olhos, por não acreditarem que a natureza foi capaz de esculpir tal cenário. E ficou-me a pena de as não ter visto.

Inscrito na lista de Património da UNESCO tem algumas más histórias ambientais para contar. Entre elas, a introdução de trutas não nativas no lago dizimou as espécies que já lá viviam e em 1925 foi ali caçado o último lobo-cinzento. Hoje, o elevadíssimo número de turistas é um dos problemas ambientais mais graves.                                                                                   Mas a razão por que abordo aqui o Parque Nacional de Yellowstone é precisamente pelas consequências resultantes do abate do último lobo-cinzento em 1925, caçados impiedosamente pelas suas peles e má reputação. Os lobos são talentosos caçadores e, naquele Parque, a sua dieta era feita, basicamente, de veados, o que mantinha o número destes animais controlados. Com o sumiço dado aos lobos, o número de veados, cervos, alces e gamos cresceu drasticamente. E, resultado disso, as árvores do Parque começaram a secar, uma grande área do local virou pastagem e, consequentemente, os pássaros e os insetos passaram a ser mais raros. Além da população de veados ter crescido, também os coiotes passaram a ser vistos com mais frequência. Os moradores da região ainda tentaram controlar o número de veados, porém o esforço foi em vão.

Em face disso, em 1995, setenta anos depois de ter sido abatido pelo ser humano o último lobo do Parque, os lobos foram reintroduzidos naquele habitat através de um programa especial, numa tentativa de conter o crescimento assustador dos veados pois estavam a destruir toda a vegetação da região. Assim, com a chegada dos lobos, as suas necessidades alimentares levaram-nos a ir matando alguns veados e,

perante isso, os outros veados passaram a evitar as zonas do Parque onde poderiam ser encurralados mais facilmente pelos lobos, muito especialmente vales e desfiladeiros. Ao fim de seis anos, nessas áreas as árvores já tinham crescido até cinco vezes mais e até a vegetação rasteira ficou mais verde e mais alta. As circunstâncias associadas fizeram com que a vegetação nesses locais começasse a regenerar-se imediatamente e as bordaduras dos vales que antes estavam secas, transformaram-se em florestas rapidamente, atraindo mais castores porque gostam de comer árvores. E estes, que com os lobos são tidos de engenheiros do ecossistema, criaram barragens de ramos, galhos e troncos nos rios, fornecendo um habitat ideal para as lontras, ratos almiscarados, patos, peixes, repteis e anfíbios. Além disso, como os lobos iam matando coiotes que dizimavam os camundongos, ratos e coelhos, estes, sem os coiotes para os caçar, começaram a crescer em grande número e o mesmo é dizer mais presas para os falcões, as doninhas, raposas e texugos, que se mudaram também para o Parque face ao aumento de “comida” para caçar. Juntaram-se-lhes ainda os corvos e as águias que começaram a pousar na região para comerem os restos das carcaças que os lobos deixavam. Com o ressurgimento das florestas veio um enorme número e variedade de pássaros e aves migratórias, enriquecendo o novo ecossistema. E, finalmente, à caça de veados jovens ou à procura das bagas produzidas pelos muitos arbustos que se desenvolveram, chegaram os ursos, hoje residentes certos do Parque. 

Mas algo de mais surpreendente veio a acontecer na região: como as margens dos rios estavam agora ocupadas pelas florestas, passou a haver menos erosão, o curso dos rios foi-se tornando mais estreito, estabilizou e formaram-se piscinas naturais, reativando afluentes, fazendo surgir cascatas que tinham desaparecido e evitando que secassem como já era habitual. Em resumo, a reinserção dos lobos no Parque de Yellowstone, mesmo em pequeno número, conseguiu não só transformar a geografia física, mas também a paisagem natural do Parque, restabelecendo o delicado equilíbrio dinâmico da teia da vida ao resultar em algo totalmente inesperado até para os responsáveis do projeto pois constatou-se que não só fizeram regressar ao Parque um elevado número de espécies, como os próprios rios mudaram em resposta ao regresso dos lobos, passando a ter maior estabilização  e fluidez do seu curso, o que redundou na alteração do próprio meio ambiente e no ressurgimento da vida selvagem na sua plenitude.

Este extraordinário evento mostra-nos que todos os seres vivos estão interligados e interdependentes entre si e podem manter o equilíbrio na natureza quando o homem decide ajudar ou, pelo menos, não atrapalhar. Se for retirado ou afetado negativamente um só nó dessa teia, todo o ecossistema de milhões de anos de evolução pode entrar num enorme colapso. E não serão apenas os seres vivos a sofrer as consequências, mas também a civilização humana já que a economia é totalmente dependente da ecologia …