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Que ele me perdoe o preconceito

Morreu Roberto Leal, tido como “o português mais brasileiro” para milhões de pessoas e “o brasileiro mais português” por muitos mais. Se durante alguns anos a sua música me “passou ao lado”, tal como a sua figura exótica, não posso deixar de reconhecer que, a partir do momento em que conheci a sua história e a força das suas convicções, passei a ter por ele um respeito acrescido, muito maior ainda quando fui confrontado no meio do Pantanal por um natural do “país irmão”. Tinha ido parar a uma casa nas margens do rio Paraguai levado por um amigo brasileiro que me prometera uma pescaria em grande ao “jaú”, um peixe que atinge mais de duzentos quilos e por lá fiquei durante três dias a “tentar pescar” durante muitas horas seguidas, a comer bem (e beber mais) e a borrifar-me de repelente para escapar ao ataque de milhões de melgas famintas de sangue fresco. À noite, entre um jogo de cartas e cerveja gelada, saíam conversas com a meia dúzia de pescadores idos de vários pontos do Brasil onde se falava de tudo. 

E aí, “no meio do nada”, um deles questionou-me o porquê de só haver um cantor português a atingir grande sucesso no Brasil e ser o único grande embaixador da música portuguesa e de Portugal. Fiquei sem saber a quem se referia e vieram-me à cabeça alguns nomes. Mas na dúvida, perguntei: -De quem está a falar? E então fui surpreendido pela resposta: – De Roberto Leal. E desfiou um enormíssimo elogio ao cantor, não só pela sua música, mas também pela forma como soube ajustar-se à cultura brasileira sem deixar de ser um grande promotor de Portugal naquele país. A conversa foi longa e o tema foi o Roberto Leal, como homem e cantor de sucesso por aquelas bandas.  

Tudo aquilo que aquele brasileiro me disse naquela noite coincidiu com outras informações que conhecera nos últimos anos e que me levaram a olhá-lo com respeito e admiração. Mais ainda, se tivermos em conta que teve de emigrar para o Brasil na companhia do pai e de mais nove irmãos, para fugir à miséria e à pobreza de Trás Os Montes (e do país), mais concretamente de Vale da Porca. Com onze anos viu-se num país estranho onde teve de trabalhar como sapateiro (e até engraxador) e depois comerciante de doces. Só mais tarde, criando um visual “ao gosto do mercado brasileiro” e com a canção “Arrebita” do António Mafra se viria a lançar como cantor, num sucesso sempre maior, traduzido em cerca de vinte milhões de discos vendidos. “Mais do que música, ele deu conforto a quem estava longe da sua terra e era consumido pelas saudades”, dizia um jornalista …

Profundamente religioso, sempre expressou publicamente a sua fé e o amor pelo país que o viu nascer. 

Na “Folha de S. Paulo”, Júlio Maria escreveu: “Mais do que a divindade Amália Rodrigues, mais do que a Mariza, mais do que a Carminho e bem mais do que António Zambujo, Roberto Leal foi quem levou ao mais distante dos quintais brasileiros a música do seu país, num tempo em que o Brasil não consumia nada de Portugal. O Brasil só descobriu Portugal com Leal a partir dos domingos em que ele entrava nos lares dançando o vira com uma desenvoltura de passista de escola de samba. Sozinho, foi ele que abriu as portas do Brasil quando ninguém por aqui queria saber de Portugal”.

Roberto Leal partiu desta vida com o sentimento de que o seu país não foi justo com ele e se esqueceu de reconhecer oficialmente o seu trabalho de “embaixador”. Aliás, o serviço que ele prestou a Portugal é reconhecido por todos os brasileiros, quer se identifiquem ou não com a sua música, que também não entendem como é que num país onde todos os anos se anda à procura de gente a quem entregar uma comenda, inclusive alguns tidos por ladrões e corruptos, ninguém se tenha lembrado do seu nome, se é que não houve discriminação pelo seu visual, pela sua música ou pelo que se disse dele em determinada altura.

Tudo isto para confessar qual a razão de trazer Roberto Leal à liça, aqui e agora. No momento em que a televisão noticiou a sua morte, parei com o que estava a fazer e, quase instintivamente, pensei nele e acabei por lhe pedir que me perdoasse lá do lugar onde a sua alma repousa. Não o conhecia pessoalmente, nunca fui a um concerto seu nem seguia o seu percurso profissional. Também não sou um maluco. Nada disso. Tive um rebate de consciência por ter tido durante uns quantos anos, alguns preconceitos em relação a ele, sem qualquer razão objetiva e comprovada. A minha opinião desfavorável não tinha por base dados concretos, pois nada sabia sobre a sua vida pessoal e só conhecia as imagens que vi na televisão e, eventualmente, alguns comentários do apresentador ou comentador. Diria mesmo que foi uma má primeira impressão e uma reação hostil às imagens de alguém exuberante na maneira de vestir, aos arranjos de músicas portuguesas, sei lá bem. Caí naquele mau hábito de um julgamento apressado e sem sentido. Foi assim que durante alguns anos não “ouvi” Roberto Leal a cantar, mas “vi” alguém sobre o qual tinha preconceitos. Só quando um acaso me deu a conhecer a sua história de vida, tive consciência do quanto eu tinha sido injusto e estúpido ao julgá-lo de forma leviana. 

Goste-se ou não se goste da sua música, do seu visual ou da sua cara, há que ter respeito por alguém que, saído do nada, subiu a pulso a escada do sucesso tendo de sujeitar a imagem (e o nome) à exigência da profissão, sem que por isso tenha perdido valores e as referências das suas origens e dos seus.

Junto à fronteira com a Bolívia e ao rio Paraguai, mas longe de tudo e confinado ao espaço limitado de uma casa abrigo de pescadores por “pressão” das nuvens de melgas que esperavam lá fora, ao ouvir os argumentos do pescador brasileiro a favor do “nosso” Roberto Leal colocando-o no ponto mais alto do sucesso luso em terras brasileiras, não tive qualquer problema em pensar que errara. E agora que está num “local” onde, sem continuar a cantar o “Arrebita”, o “Português Brasileiro” ou o “Canto a Portugal”, não irá receber a condecoração que mereceu, espero que os anjos e os querubins o levem tão alto no Céu quão alto chegou no país que o adotou … 

“T’ás c’o tau”? “Bai bergar a mola” …

Há muitos anos, tantos que ainda nem existia o GPS com aplicações onde introduzimos uma morada e somos “guiados” até ela, mesmo que seja “nos confins do mundo”, tive de ir a casa de uma pessoa lá para os lados de Ermesinde, numa zona de ruas e ruelas onde não era fácil chegar ao destino sem ajuda. Às tantas vi um homem sentado à porta de casa e parei, pedindo o favor de me orientar para encontrar a morada. E ele, com pronúncia muito vincada e linguagem típica “do Porto”, foi “claro e muito objetivo ao dar-me a indicação: “Olhe meu amigo, bocê bai por esta estrada sempre em frente. Bai aparecer-lhe à mão direita uma biela e bocê cague na biela. Siga em diante e quando bir outra rua à mão esquerda, cague também nessa rua. Só depois, na rua que bem a seguir, à mão esquerda, é que bocê bao por aí e logo na primeira casa à mão direita bai ber o Miro”. E foi tão “claro e direto” que fiz tudo aquilo que ele me mandou fazer, desde o “cagar na biela à mão direita”, “cagar na rua à mão esquerda” e “entrar” na outra rua à mão esquerda para ir ter direitinho à porta do Miro sem pedir mais informações a ninguém. Para cumprir todas as indicações que aquele homem havia dado tão simpaticamente, tive de “cagar” na “biela” e na rua como ele me indicou, sem ter de levar à letra o sentido literal da palavra, mas somente a sua “tradução” para a linguagem comum, que queria dizer “para as ignorar e ir em frente”. 

A forma de falar na região do Porto, para além duma fonética própria como a pronúncia acentuada do “ão” como “morcom” ou “ladrom”, o trocar o “v” pelo “b” como é o caso do “vai” pelo “bai” ou do “vir” pelo “bir”, além de outras, tem ainda como característica a incorporação de algumas expressões e palavras em calão e ainda as do chamado “baixo calão”. E nós aqui no Vale do Sousa, embora não tenhamos a pronúncia tão cerrada e própria de algumas zonas da cidade do Porto e arredores, acusamos uma forte influência, muito especialmente nas expressões e no calão que usamos com frequência.

O acesso generalizado da população à escola nos dias de hoje poderia fazer crer que o calão e algumas expressões mais brejeiras tenderiam a ter um uso muito diminuto, mas não me parece que seja o caso. Por isso, hoje como ontem, ouvimos muita gente com a língua “solta”, sem peias nem preconceitos, com toda a naturalidade, falar naquilo que é uso dizer-se, “português vernáculo”. E se o uso do calão pode ter uma carga ofensiva ao ser usado como “arma de arremesso” para agredir alguém verbalmente, na maior parte das vezes são só “palavras como as outras”, estranhas para quem não é de cá, mas que saem boca fora inocentemente sem qualquer intenção de ofender, sem complexos nem sentimentos de culpa, até com sentido elogioso. Ao conhecer as notas do filho na Secundária, uma mãe disse-lhe orgulhosa: “Saíste-me cá um filho da p. bem mais inteligente do que eu …”.

Tenho uma tia que sempre usou no seu vocabulário esses “palavrões” regionais, mas com uma pequena diferença, subtil. “Oh meu filho da curta” ou “vai-te cozer”, eram duas das expressões onde “torneava” a rudeza do calão que considerava “impróprio” para uma mulher, mas não deixava de o utilizar na sua versão “adoçada” pela simples troca de uma ou duas letras.

Para além do calão “puro e duro”, existem expressões de há muito tempo, vocábulos populares e gíria urbana de uso corrente na região.   

Algumas são até criativas como “mandei-lhe uma traulitada direta à caixa dos fusíveis” que o mesmo é dizer “dei um murro nas ventas”, “na caixa dos pirolitos”, “no focinho”, ou seja, na cabeça. Já quando alguém morre, dizem “foi fazer tijolo”, “deixou de fumar”, “secou-lhe o céu da boca”, “bateu a caçoleta”, “bateu a bota”, “esticou o pernil”, “foi para o Jardim das Tabuletas”, “foi desta para melhor”, “deu o peido mestre” e muitos outros. A verdade é que, se não estivermos dentro da gíria, podemos ouvir a conversa e ficar “como um burro a olhar para o palácio” porque não entendemos patavina, algo como quando os jovens falam na gíria atual e me deixam “sem perceber a ponta dum corno”.

Ele entrou no “boteco” pela “porta do cavalo” quando já “não podia com uma gata pelo rabo” e “sem saber de que terra era”, até porque apanhara a “bezaina” ao “correr as capelinhas”. De “chuço” na mão, parecia “um gato pingado” a fazer “conversa de chacha” quando “deu de trombas” com o João. “Estás com’ó aço”, disse-lhe ele, “e com cara de quem vai chamar pelo Gregório”. “Bai-me à loja”…  e então o João “lá bazou”, enquanto ele “birava o barco”. Mas logo a seguir já “tava a bombar” e a “mandar bitaites”. Quando passou uma amiga atirou-lhe: “Vais toda lampeira”, mas ela “estava com o toco” e respondeu: “Bai bergar a mola, morcom”. Ora, quando somos apanhados no meio de diálogos deste tipo, podemos ter alguma dificuldade em acompanhar e compreender o “filme” completo, porque nem sempre dominamos todas as expressões.

Há dias, o filho de um amigo hesitava em tomar uma decisão. O pai, já farto de esperar, às tantas explodiu: “Assim, nem o pai morre nem a gente almoça”. Não conhecia a expressão e lembrei-me de um outro momento em que ele se decidiu pela compra de um determinado modelo de carro. Quando o tentaram dissuadir, foi perentório: “Nem que a vaca tussa”. Se fosse a minha tia, no seu calão “adoçado”, diria: “Nem que te … cozas”.

Para “não borrar mais a pintura” e “não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada” nem “o olho do cu com a feira de Montemor” ou “a obra prima do mestre com a prima do mestre de obra”, “vou dar de frosques” e “corda nos sapatos”, munido “de armas e bagagens”, pois tudo o que eu possa dizer “não adianta um grosso” …  

Agosto, é o melhor e o pior para …

O mês de Agosto é em si um paradoxo, a começar pelo provérbio “Agosto nos mata, Agosto nos farta”. Mas é um paradoxo sobretudo por ser sem dúvida “o melhor e o pior” mês para se gozar férias. Até parece um absurdo que se seja uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo, mas Agosto tem essa particularidade. Mais ainda, também é o melhor e o pior mês para se trabalhar. E esta? E tudo é demonstrável como se poderá perceber, embora seja estranho quando duas ideias se opõe uma à outra, que é o contrário do que diz o senso comum de qualquer cidadão. Mas vamos a isto, porque a tarefa é ingrata …

A maioria das pessoas sempre escolheu o mês de Agosto para as suas férias, por uma ou outra razão. E cada uma tem as suas razões. O mês é tido como “época alta” e isso quer dizer com procura elevada. E se a maior parte de portugueses prefere o mês de Agosto, é porque ele é o seu preferido (ou o possível) para descansar. Nessa perspetiva, pode-se dizer que é o melhor mês para férias. Há muito sol, a água do mar é mais quente especialmente no Algarve, há mais dia que noite, muitos turistas, noites agradáveis (em todos os sentidos), diversões e festas para todos os gostos. É o mês em que governantes, políticos de todos os quadrantes, empresários de sucesso, figurantes e figurões de todo o tipo de mediatismo aparecem no sul de Portugal (porque querem bronzear, mas muito mais, estar no sítio certo para vir nas revistas cor de rosa). Os iates e lanchas saem das marinas, as esplanadas são invadidas por multidões dia e noite e as discotecas estão “a bombar”. É o S. Miguel das agências de viagem, que despacham povo para todo o mundo em férias “lá fora”, em contraponto com o “faça férias cá dentro”. Por tudo isso, quem não quer fazer férias em Agosto? 

Pois, para mim, Agosto é o pior mês para ir de férias. Sem dúvida. Se a estação é alta e as temperaturas são altas (este ano nem por isso), os preços não lhes ficam atrás. Vendo bem, neste mês tudo é exagerado. A começar pelas filas de trânsito, que são um teste à paciência. Mas há também as filas nas caixas do supermercado, dos restaurantes e até das tascas foleiras, das discotecas, das viagens turísticas. E todas as outras filas onde quem está de férias precisa entrar para o que quer que seja. E tem de se comprar o que há e não o que se quer, pois “está esgotado” e não se sabe quando vai haver. É o mau atendimento em restaurantes, hotéis e todo o tipo de serviços turísticos porque a procura é muita e a qualidade da oferta cai. 

Será que tenho o espírito de contradição? De maneira nenhuma. Há muita gente que sente esse problema, mas “tem de fazer férias em Agosto”, porque é quando a empresa encerra para férias ou quando os filhos não têm aulas. Está em sintonia comigo e, mais ainda, porque não gosta de ir para a praia e andar a esmolar um pedacinho de areal para estender a toalha, ficar com o bafo a cerveja do vizinho mais próximo, ser incomodado pelos atropelos e “banhos de areia” de quem passa ou apanhar as cascas de banana e as gargalhadas altas do lado. E até para ir tomar banho no mar ter de pedir autorização para entrar na água. Lá para a ponta sul do país, é atendido em inglês, como se estivesse no estrangeiro. Até pode ser “chique”, mas estamos em Portugal!!! E tem de se aprender a esperar, mesmo que seja por uma simples garrafa de água. E a ter paciência, muita paciência mesmo para não estragar as férias. Em suma, quem procura tranquilidade encontra confusão, quem deseja silêncio tem barulheira e quem quer fugir ao stress, “mete-se na boca do lobo”. De tal forma que, quando se está na longa fila à espera de mesa no restaurante, chega a pensar que entrou na fila “da sopa dos pobres” …

E se Agosto é o melhor e o pior mês para ir de férias, também é o pior e o melhor mês para ficar a trabalhar. Porque quem fica a trabalhar é impedido de o fazer ou, pelo menos, tem a vida muito complicada. Se quiser comprar alguma coisa para o seu trabalho, vai descobrir que a empresa fechou para férias e só abre no mês que vem ou só lhe fazem o fornecimento na segunda quinzena de Setembro. Para conseguir um simples orçamento vai ter que esperar porque o responsável não está ou o stock está esgotado e só será reposto nessa altura. Mas se precisar de ir a uma repartição ou organismo público, tire a senha e espere. Quando chegar a sua vez, vai descobrir que o funcionário que trata do assunto que você quer resolver foi para o estrangeiro ou só vem na segunda semana de Setembro. E se souber por mero acaso que o seu processo foi analisado e tem parecer favorável, é certo e sabido – e pode estar a contar – que o responsável que tem de dar o despacho final não vai estar. Porque, como é o mês de Agosto, o mês das férias, muita gente não vai estar e você não vai conseguir que lhe resolvam assunto nenhum. Você até se vai arrepender de não ter ido também de férias. Com um pouco de sorte podia encontrar por lá a pessoa responsável e era meio caminho andado para despachar o seu caso. Bem vistas as coisas, até parece que se uniram todos aqueles de que precisa para fazer o seu trabalho, só para o chatear. Mas não é só consigo. Agosto é isso mesmo, não dá para trabalhar, especialmente para resolver problemas em que se depende de outros. Você pode até resolver manter em funcionamento a sua fábrica de confeções, mas se precisar de um “carrinho de linhas”, vai ver que o fornecedor … 

Eu tinha vários assuntos para tratar este mês, mas não consegui resolver um único. Nada. Só queria riscar um da lista, mas nem isso. Estavam de férias. Por isso, Agosto é o pior mês para se trabalhar. Mas é e não é. É mais uma vez um paradoxo. Se é verdade que é o pior mês como vimos, também não deixa de ser verdade que é o melhor. Exato. O melhor para trabalhar e, curiosamente, o pior para tirar férias. Porquê? Pela simples razão de que, como a maioria das pessoas vai de férias, quem fica “tem férias” dos que partem e por isso está mais à vontade, sem pressão. Para mim, fazer férias noutro mês que não em Agosto é como se tivesse dois meses de férias: o mês que se escolhe para ir passear e “laurear a pevide” e o mês de Agosto, porque poucos são os que ficaram para nos “fazer trabalhar”. Já viu o que é trabalhar numa repartição durante esse mês e atender a pouca gente que não foi de férias? Já sei que vêm os emigrantes a querer resolver assuntos pendentes durante os dias que estão por cá. Mas há sempre uma saída: “O colega que trata disso está de férias” …

Ora, para este ano já estamos conversados pois o Agosto já se foi e não adianta dizer que quer fazer férias nesse mês. Agora, já só para o ano que vem. Mas não se esqueça que Agosto é o pior e o melhor mês para fazer férias, tal como o melhor e o pior para ficar a trabalhar. E se tiver dúvidas disso, arranjo-lhe testemunhos que comprovam uma coisa e o seu contrário. Um paradoxo? Talvez. Por isso meu caro, para a próxima a escolha continua a ser sua … e seja o que Deus quiser …  

Mal por mal, qual o mal menor?

Datas não são o meu forte. Deve ser por isso que não fui bom aluno a história. E porque “levava na cabeça” de vez em quando por esquecer aniversários ou outras datas tidas por importantes. E ainda levo. Mas há um dia que não esqueço e sobre o qual amanhã já se completam onze anos: aquele em que encontrei a Luísa tombada de lado na casa de banho sem dar acordo de si na sequência de um derrame cerebral, que se viria a repetir de forma mais grave cerca de quinze dias depois quando ainda estava internada no Hospital de S. João. Alguns meses de hospital em hospital, de tratamento em tratamento, de avanços e recuos, fizeram com que chegássemos a uma situação relativamente estável, mas com perdas graves. E essas perdas são totais, ou quase, no equilíbrio, na autonomia, na memória de curto prazo, além de outras condicionantes graves em termos de higiene e saúde pessoal. Desorientada no espaço e no tempo, muito dificilmente consegue saber onde está, para onde vai, qual é o dia ou o mês. Ao longo destes onze anos “habituamo-nos” às suas limitações e ao seu mutismo, estando quase sempre junto de nós, mas na realidade bem longe, num mundo que é só seu. É muito raro ouvi-la dizer que lhe dói isto ou aquilo, mas de vez em quando verbaliza um “estou mal disposta”, que pode significar várias coisas, até mesmo que alguma coisa lhe está a doer. Enfim, uma vida passada entre a cama e a cadeira de rodas, mas num mundo à parte …

A sua “ausência da realidade” é como uma moeda de duas faces. Por um lado, é uma perda terrível que a faz estar fora do mundo que lhe passa ao lado a cada momento, sem o perceber, pois não consegue compreender um filme por mais simples que seja a sua história. Por outro, acaba por ser uma bênção, pois não tem consciência do estado de saúde e da dimensão das suas limitações, vivendo o dia a dia com tranquilidade. Se tivesse essa perceção, como estaria o seu lado psíquico?

Foi neste estado de saúde que hoje, às seis da manhã, fui acordado pelas palavras que a Luísa proferiu: “Estou a sofrer muito”. E logo de seguida, acrescentou: “O que me vai acontecer?”. Percebi logo que a Luísa estava bem acordada e tomara consciência do seu estado e das suas limitações. Daí o seu sofrimento e a sua preocupação pelo que lhe iria acontecer em função delas. Foi-se o sono e veio um pedaço de conversa para a acalmar, até conseguir que voltasse a adormecer, para só acordar quando a manhã ia adiantada, sem memória alguma do que se passara e de novo “ausente”. 

Não deixa de ser curioso que, no dia a dia e enquanto está connosco sentada na cadeira de rodas, embora pareça estar concentrada na televisão ou noutra coisa qualquer e não dê atenção ao que fazemos ou dizemos, de vez em quando faz um comentário assertivo e que se encaixa perfeitamente na conversa, como se estivesse atenta. Foi o que sucedeu quando uma estudante de enfermagem a fazer estágio num hospital contava o que lhe tinha acontecido com um doente afetado por problemas mentais e que não reagia a nenhum estímulo. Dizia ela que, para estimular o doente e ver se tinha alguma reação, quando a enfermeira passou, disse: “Já viu que a senhora enfermeira é gira?”. Aquele doente teve então um sorriso rasgado. A Luísa, que ouvia calada, meteu a “colherada”: “É porque ele não estava doente das vistas …”.  

Tenho muita dificuldade em perceber se estes “comentários”, apesar de simpáticos, se serão conscientes ou reações instintivas, fruto da sua forma de ser e brincar com as situações. Ontem mesmo, quando víamos a história de um português pelo mundo, para a despertar do mutismo em que se refugia, comentei: “O rapaz é bonito”. E ela reagiu de imediato: “… para ver de passagem”. Mantem esse instinto natural da resposta pronta “na ponta da língua”. Consciente ou inconsciente? Boa pergunta …

Não sei se a sua “ausência” da realidade se deve somente à doença que a afetou ou se é alguma medicação específica para impedir que novo derrame volte a acontecer que a inibe e lhe retarda o “acesso” à realidade. Enquanto leigo nestas questões de saúde, imagino que antes do amanhecer e quando já estava um pouco repousada e “livre” dos efeitos inibidores dessa tal medicação, conseguiu chegar até mim, à realidade, e ganhou consciência do seu verdadeiro estado físico e das suas limitações, ainda que por um período de tempo curto. E foi aí que ela manifestou o “seu sofrimento” pelo que estava a “ver” em si própria. Porque, pela forma como disse “estou a sofrer muito”, deu a entender que tinha percebido o seu verdadeiro estado de saúde e que teria sido um “choque” enorme para quem voltava à realidade. Mais ainda, quando disse “o que me vai acontecer?”, manifestou um medo enorme do futuro, como se esse futuro incerto e negro só começasse naquele momento. E eu, na minha preocupação, também fiquei com medo. Medo de que esse “acordar” seja mais frequente, duradoiro e até permanente e pelas consequências que isso poderá trazer para a saúde psíquica de alguém que tem tendência para depressões.

Agora mesmo, ao olhar para ela de olhos fixos na televisão como que hipnotizada pelas imagens contínuas e variadas que a sua “memória de curto prazo” já não retém, questiono-me sobre o que será melhor para a sua muito relativa “qualidade de vida”: Se esta tranquilidade aparente, fruto da “ausência” do mundo real que não compreende e da falta de consciência das suas grandes limitações físicas e psíquicas, mas que não lhe trazem ansiedade nem agitação ou pelo contrário, a hipotética de uma crise depressiva consequência de alguma melhoria no estado de saúde, suficiente para a consciencializar de como está, mas não o suficiente para a curar??? Por uma questão de humanidade e, não sei, se com alguma dose de egoísmo, prefiro ter junto de mim a Luísa tranquila e capaz de fazer intervenções que nos fazem sorrir. Porque ela sorri também …   

Se é para “fingir”, as leis são inúteis…

Quando Al Gore chegou à Casa Branca e foi incumbido de verificar uma determinada lei, chegou à conclusão que existiam mais de 500 leis só para regular a compra de cinzeiros para aquela casa. Cada uma definia o tipo de cinzeiro, o material de que deveria ser feito, a forma e os modelos, se eram para três ou mais cigarros, cores, desenhos e um sem número de pormenores, apesar de haver uma única lei em vigor que dizia: “É proibido fumar na Casa Branca”. Em suma, eram mais de 500 “leis inúteis”. Diz quem sabe, que em Portugal também existem imensas “leis inúteis”. E que nesse pacote há as estúpidas, as estranhas, as parvas, as desatualizadas e mesmo as que não fazem sentido nenhum. Para que se tenha uma ideia, há dois anos um grupo de juristas tinha identificado mais de 1.200 leis criadas entre 1976 e 1978 que já não serviam para nada e deveriam ser revogadas. No entanto, como o “caixote do lixo de leis” é infinito, o Parlamento continua a “parir” leis atrás de leis, como se a quantidade fosse sinal de qualidade … 

Só no último dia de trabalhos antes das férias, foram votados 170 diplomas, dos quais 59 projetos de lei … Exemplo disso é a “lei do piropo” criada há poucos anos, para criminalizar o “perigoso instrumento de assédio sexual” que é. Resultado? Que se saiba, até hoje ninguém foi a tribunal. Ou as pessoas “assustaram-se” com a lei e “calaram o bico” ou é inútil como muitas outras a que nem cidadãos, nem autoridades dão importância e ninguém cumpre. Verdade seja dita, também não há quem penalize o incumprimento. Ora, sempre que existe impunidade, sabe-se no que se torna: uma inutilidade.

“As leis inúteis debilitam as necessárias”, dizia Barão de Montesquieu e Bismark dava-nos outra pista ao afirmar que “quanto menos as pessoas souberem como se fazem as salsichas e as leis, melhor dormirão à noite”. E, se calhar, é aconselhável não sabermos mesmo.

E lembro-me de há muitos anos “ter vindo a lume” que numa certa lei alguém conseguiu introduzir uma vírgula entre duas palavras e dessa forma alterar-lhe o sentido, o que terá valido “uma pipa de massa” ao autor da “proeza”.

Dizia-me um jurista que Portugal sofre de “diarreia legislativa” e que ao querer-se legislação para tudo, naturalmente muitas dessas leis acabam por não servirem para nada. E que muitas vezes quem as faz é quem as atira para o “caixote do lixo legislativo”.   

Vem isto a propósito do que “veio a lume” sobre uns “kits” que a Proteção Civil distribuiu pelo país e, muito especialmente, das famosas “golas antifumo” que deviam proteger os seus utilizadores, mas que, afinal, não seria tanto assim. Ora, quando acontecem coisas como esta, começam a “cavar” e a “cada cavadela, cada minhoca”. Assim se percebeu que o negócio dos “Kits” (e das golas) tinha sido feito por uma empresa em que era sócio o filho de um governante. Vem daí algum mal ao mundo? O homem não pode fazer negócios sem ser chateado? É uma boa questão, onde cada um tem a sua opinião, goste-se ou não. No entanto, uma coisa parece clara e não deixa lugar a dúvidas. A lei impedia-o e prevê sanções tanto para o governante como para a empresa que fez a venda. Insatisfeitos, os profissionais de “escavações” continuaram a “cavar” mais fundo e descobriram que, desde a “feitura” da lei e a sua entrada em vigor em 1995 – há vinte e quatro anos – muitos negócios se fizeram entre empresas de familiares de ministros e outros governantes e o estado, sem que se tivesse aplicado a lei uma única vez para exemplo. Agora, “ao levantarem a lebre”, descobriram que se “andou a mijar fora do penico” sem que “se chame à pedra os responsáveis”. Será por estar em causa governantes e seus familiares? Será porque a uns e outros não dá jeito que se aplique a lei? Apesar disso, andaram 24 anos a prevaricar, aqui e ali, “às escondidas”, sem coragem para a revogar, pois seria tido como um golpe contra a “transparência”.

Como “começou a cheirar a esturro”, os que “abanaram a cabeça” à lei, tentam agora “tapar o sol com a peneira”. O primeiro ministro, não sabendo “como descalçar a bota” e para “encanar a perna à rã”, pediu um parecer e pode ser que chegue só depois das eleições e já não há consequências. Ora, o ministro dos negócios estrangeiros foi mais longe, dando a entender que isto “é uma tempestade num copo de água” ao afirmar que “seria um absurdo fazer uma interpretação literal da lei, sendo que se deve olhar para isto com razoabilidade e bom senso …”. Já o secretário de estado que “foi apanhado na curva”, “assobiou para o lado” como se nada tivesse a ver com o caso nem que a lei se aplique a ele. E “ética” é coisa para outras democracias … 

A chamada Lei das Incompatibilidades e Impedimentos de titulares de Cargos Políticos e Altos Cargos Públicos, bem ou mal, foi feita para impedir situações de favorecimento a familiares de governantes. A lei impede que a família direta de um governante faça negócios com o estado, prevendo a sua demissão quando acontece. Exagerada? Não fui eu que a fiz. Foram eles, os mesmos que agora dizem ser absurda. E um governante, por mais sério que seja, não pode dizer àqueles que governa para cumprirem a lei, se não for o primeiro a dar o exemplo. Tal como um pai não consegue educar um filho dizendo “não roubes”, se ele próprio fizer o contrário. Deixará de ter moral para se impor, tal como os governantes.

Se o ministro dos negócios estrangeiros disse, que “seria um absurdo fazer uma interpretação literal da lei…”, isso devia dar-me o direito de também fazer a “minha interpretação” das leis conforme o que me é mais conveniente. E, para que fique desde já claro, discordo das que me obrigam a pagar impostos. São “abusivas”, não as aprovei e são-me impostas contra a minha vontade. Ora, até tenho mais razões do que o ministro para discordar porque ele e o seu partido estavam lá e votaram a favor. E eu nunca aprovei nenhuma, muito menos as que não me “dão jeito” …

Não devia ser preciso uma lei para impedir o favorecimento dos familiares dos governantes até porque, como diz o jornalista Carlos Magno, “num país pequeno onde somos todos primos uns dos outros, é de aplicação difícil”. Mas, infelizmente, a prevaricação de alguns faz com que se criem leis para todos, “pagando o justo pelo pecador”. Os políticos têm “muita dificuldade” em fazer leis que “os condicionem”, como é o caso desta lei. E então fazem leis “a fingir” ou, como diz o povo, “a mangar”, mas que não são para cumprir. Uma inutilidade legislativa para nos enganar. É preferível acabar com o “incómodo” e revogar a lei. Assim, ficamos todos livres. Eles, para fazerem o que lhes apetece em função dos seus princípios morais, bons ou maus. E nós, de pensar o que bem nos apraz, porque “pela aragem se vê quem vai na carruagem” …

O primeiro dia do resto da outra vida…

O pensamento é como a corrente de um rio em movimento perpétuo e nada o faz parar. Por isso, naquele funeral não pude conter a força dessa corrente e deixei-me levar por ela e pelo que via ao meu redor.

Ao ver aquela fila interminável de filhos, genros, noras, irmãos, tios, sobrinhos, netos, cunhados, além de primos nos mais diversos graus, a receber os pêsames (e tantos eram que preenchiam as paredes da capela mortuária e ainda saíam porta fora), não pude impedir que o pensamento recusasse aquele “sacrifício”, em especial para alguns jovens que mostravam “estar no filme errado”. Por isso, comecei logo a fazer mentalmente a lista de “requisitos” para quando chegar “o meu dia” e for eu “o motivo” dum “ajuntamento” semelhante. 

Para começar, quero ser “o único morto da sala”. Eu serei suficiente. Mais que suficiente. E opto por isso pois, ao cumprimentar algumas pessoas em velórios ou funerais, estendem-me uma “mão morta”, de onde a vida se escapou. E não estão no caixão …

Não quero a fila interminável de familiares a receber cumprimentos de quem vai à capela mortuária. É cansativo e deixa desorientados os que chegam pois não conhecem a maior parte deles, ficando mesmo sem saber quem cumprimentar. Na dúvida, cumprimentam-se todos os que estão na fila e diz-se “os meus sentimentos” a uns e a outros. Mais do que tudo, o funeral é uma despedida daquele que parte e bastam os filhos para receber e agradecer a todos aqueles que forem despedir-se de “quem parte.  Ora, quando for “eu a ir embora”, são os meus filhos que eu mandato para agradecer em meu nome. Ninguém mais, por muito que sintam a minha partida. Não quero tal sacrifício, absolutamente inútil, que o é para quem ali está a receber, como para quem vai cumprimentar. No entanto, quero-os sorridentes, com boa disposição ao receber e agradecer em meu nome. 

Muito mais do que num casamento (onde as coisas podem correr mal), o “despacho do morto” tem todas as razões para correr bem. Porque o morto já não chateia mais nem vai moer o juízo a ninguém. Já não precisa que lhe engraxem os sapatos nem passem a roupa a ferro. Não ocupa a casa de banho quando os outros precisam, nem as pessoas …

Numa questão sou exigente e não cedo. Esqueçam se pensam que me vão vestir formalmente, de fato e gravata. Nem pensar. Já me basta quando os compromissos o exigem. Mas para uma viagem que eu não quero fazer e para onde só me levam à força – e é precisa a força de quatro homens para me “pôr a caminho” – então vou como bem me apetece. Até porque, se chegasse às portas do Céu assim “fardado”, S. Pedro não me reconhecia e podia pensar que estava disfarçado para o enganar. Para “ir confortável” tenho de vestir calças de ganga, polo ou camisa desportiva e botas de cano alto, porque vou passar o resto dos meus dias “com os pés na terra”. E as botas dão muito jeito. As calças de ganga começaram a ser usadas pelos mineiros, até que o pessoal da moda lhes roubou o protagonismo. Como também vou fazer vida de “mineiro”, faz todo o sentido a ganga. Quando muito, se “partir de viagem” no inverno, vistam-me uma camisola de gola alta e impermeável, porque a humidade ataca-me os ossos e o reumático é insuportável …

Esqueçam o preto. No meu funeral ninguém vai de preto. É a cor dos “mortos” e eu quero “estar vivo” nos que se derem ao trabalho de se irem despedir de mim. Só gosto do preto em vestidos de cerimónia, com certas “características” … porque, preto e de bico amarelo, só os melros. Por isso, nada de roupas escuras, nenhum sinal de luto. Só haverá motivos para festejar e celebrar, porque toda a gente vai dizer que “fui desta para melhor”. E quem “vai desta para melhor”, só pode estar entusiasmado e feliz. Vistam informalmente e usem cores bem garridas, mas não de vermelho. Nem nas touradas para lidar o touro.

Numa “reunião social” como aquela, é importante música de fundo para criar ambiente. Apesar de na adolescência a música francesa e italiana serem as dominantes, a irreverência e o génio dos Beatles, além desse fabuloso duo que dava pelo nome de Simon & Garfunkel, marcaram-me profundamente. Por isso, a música de fundo tem de ser de uns e outros, sendo que dos primeiros não pode faltar o “All you need is love” porque na realidade “todos precisamos de amor” e dos segundos, é imprescindível a extraordinária melodia “The Sounds of Silence”, mais do que adequada para o momento, pois os “Sons do Silêncio” passam a ser os únicos que terei por companhia …

É tradicional oferecerem flores, muitas flores, a quem já não as pode ver nem cheirar. Enquanto vivo, gosto muito, mas quando a caminho da cova, não me deem aquilo de que já não posso usufruir. Por muito que goste de flores, passarão a ser uma inutilidade sem sentido que não me fará feliz. E então as tradicionais “coroas de flores”, nunca. “Cheiram a morto” e é coisa que eu não quero que se sinta nesse dia …   

Para quem se vai despedir de mim, tenho a obrigação e até o dever de “dar a cara”. Mas desde já peço desculpa por não o fazer. Vou ficar “atrás da porta” que permanecerá fechada. É que, dado o meu “estado de saúde”, terei um “ar amarelado” que não augura nada de bom e me deixa com mau aspeto e sem um sorriso, por mais ténue que seja. Daí optar por ficar “oculto”, deixando aos filhos as relações públicas. Vou querer um “armário” XXXL. Não gosto de me sentir apertado e posso precisar de coçar as costas e outras partes de vez em quando, o que seria uma chatice se não tivesse espaço de manobra …

São cada vez mais aqueles que escolhem ser cremados. É um direito que lhes assiste e deve ser respeitado. Mas não estou para aí virado. Iria pensar que já estava no inferno quando “começasse a aquecer” o que, se vier a acontecer, que seja o mais tarde possível. E acho até que seria um desperdício duplo. Da energia gasta para me “assarem” no forno e da perda dum corpo humano como fonte de matéria orgânica tão necessária e útil a outros seres vivos. Em boa verdade, apesar de corpo morto, não deixa de ser uma fonte de vida, que seria inutilizada se incinerada. Por isso, quero regressar à terra para dar vida a outras vidas, para que “nada se ganhe, nada se perca e tudo se transforme” …

Com a “memória” no bolso…

Dizem os cientistas que o cérebro humano tem capacidade quase ilimitada. Dizem mesmo que é ainda maior do que a internet. Coisa estranha, pois muitos de nós temos dificuldade em decorar o simples nome de alguém, uma morada, o número de telefone ou as tarefas do dia, pelo que “não bate a cara com a careta”. Das duas, uma: ou não somos capazes de fazer uso dessa apregoada capacidade quase infinita da nossa memória ou o seu tamanho não tem nada a ver com aquilo que os investigadores e cientistas afirmam “a pés juntos”. E isso vê-se todos os dias nos “esquecimentos” que todos temos ao ir daqui para acolá. Quando lá chegamos para ir buscar algo de que precisamos, já não nos lembramos do que íamos fazer. Se coisas bem simples como esta acontecem, imagine-se o que é ter de fazer várias tarefas ao longo de um dia em locais diversos se a tal “memória” não ajudar e resolver pregar-nos partidas. Em miúdo, como não existia papel ao desbarato nem esferográficas ou canetas à mão, tinha de se memorizar bem os afazeres para “dar conta do recado”, ou então ficavam algumas coisas por realizar. No entanto, conheci gente com uma memória impressionante, que registava bem datas e horas de compromissos com um rigor e precisão admiráveis. Mas também me lembro de quem amarrava um fio no dedo ou no pulso para lembrar algo. Só à medida que a utilização do papel se foi vulgarizando no dia a dia, também passou a ser usado como “auxiliar de memória”, vindo só a ser substituído a quando do aparecimento e desenvolvimento das chamadas “novas tecnologias” para relembrar os compromissos, através de diversos equipamentos eletrónicos. E é assim que hoje em dia já poucas pessoas se dão ao trabalho de decorar o que têm para fazer. Por isso, fazem-se acompanhar de algum telemóvel com lembretes sonoros, um computador com agenda ou um Ipad, onde se anotam todas as tarefas, não só para o dia, mas para a semana, meses ou anos. Chamam-lhe “agenda desmaterializada”, nome pomposo da “cábula” moderna. No entanto, se uma boa parte fica dependente das novas tecnologias com apitadelas a toda a hora e toques diversos que vão da música mais na “berra” à buzinadela, das marimbas até aos sininhos, só para lembrar o interessado que está na hora de tomar o remédio para a caspa ou de levar o filho à natação, ainda há muitos que preferem recorrer aos métodos antigos, à velha anotação numa agenda de bolso, no pequeno bloco ou até num simples retângulo de papel que se mete no bolso das calças ou do casaco e que se consulta volta e meia, para relembrar o que ainda falta fazer, se bem que ainda há os que assinalam a tarefa com uma cruz ou um nome escrito com esferográfica na mão ou no braço. 

Os “auxiliares de memória” são cada vez mais variados e dependem da organização de cada pessoa. Já há muitos anos estou habituado ao uso de uma agenda dita “de secretária”, que renovo a cada ano que passa, onde anoto (ou penso que anoto) o que é importante para o meu dia a dia. Os compromissos, os encontros e todos os afazeres. E até registo o resultado de algumas reuniões, acordos ou conversas. Mas, mesmo assim, é frequente dar comigo a utilizar papelinhos mais ou menos pequenos, onde faço a relação daquilo que é prioritário para o dia, por uma questão de facilidade de manipulação e acesso, o que me faz andar com as duas coisas em simultâneo para… me esquecer de as consultar. É que a “cábula”, esse pequeno retângulo de papel, tem como vantagem permitir usar a esferográfica sempre que executo uma tarefa qualquer, para a riscar da lista. É menos uma, o que me dá algum consolo, embora de curta duração. Só dura até ver o que me falta fazer …

Estas listas de tarefas são profundamente ingratas, sejam elas feitas em papelinhos ou em agenda. É que, por cada tarefa que faça e abata, o que é sempre uma satisfação, há logo mais duas ou três novas para acrescentar ao rol, tornando a missão de acabar com a lista simples miragem. Em vez de mingar, o diabo da lista cresce, feita massa de bolo dentro do forno.

O Jaime era um “profissional” nessas “memórias de bolso” feitas de papel. Sempre que se aproximava a realização de algum dos eventos desportivos que realizamos ao longo de anos, ele usava um retângulo pequeno escrito com letra miúda onde tinha elencado tudo o que lhe competia fazer na distribuição de funções, guardando essa listagem de prova para prova, de ano para ano. Dada a sua grande capacidade de organização de trabalho, ia dando conta do rol de afazeres com uma regularidade impressionante. Trabalhamos juntos durante anos e anos e invejava-o sempre que o via riscar uma ou outra tarefa na sua lista de letra miudinha. É que, pelo contrário, no meu “auxiliar de memória”, as tarefas não paravam de crescer … 

As agendas, em papel ou “desmaterializadas”, ajudam na organização individual de cada pessoa, tal como o simples papelinho … desde que se não perca ou não nos esqueçamos de o consultar. O importante não é o tipo de “auxiliar de memória” que usamos, mas a sua eficácia e o bom ou mau uso que dele fazemos. Isso tem a ver com a nossa organização pessoal. Como “burro velho não toma andadura”, eu vou continuar a usar a agenda, assessorada pelas “memórias de bolso” feitas de papel, se bem que o aumento da idade seja inversamente proporcional à memória. Mas, para isso, não há volta a dar …   

Uma viagem acidentada…

Há viagens que nos ficam mais na memória, às vezes não pela beleza das paisagens, mas pelos insólito a que estivemos sujeitos. Dois anos depois da revolução em Portugal, vivia-se um clima difícil e muito tenso, sem sabermos se, ao sair de uma ditadura, iríamos cair noutra. Casados há pouco mais de um ano, eu e a Luísa decidimos ir visitar a Madeira, levando “à boleia” alguns familiares de um e outro lado. Ao todo, éramos meia dúzia de turistas. Como não havia voo direto do Porto para o Funchal, fomos apanhar o avião em Lisboa. Na hora do embarque, quando chegamos junto do avião deixei-me ficar para trás dando prioridade à família e aos outros, acabando mesmo por ser o último a entrar no avião. Como não havia lugares marcados, cada um dos passageiros foi procurando acomodar-se à medida que entrava. Então eu, que era o último, já tive de procurar lugar no avião todo, mas… nada, não havia lugar para mim. Fiquei de pé no corredor, junto à cadeira onde a Luísa estava sentada. Passaram as hospedeiras de bordo para trás e para diante, apercebendo-se que eu “estava a mais”. Por isso, o comandante veio ter comigo. Cumprimentou e disse: “Peço muita desculpa, mas é incompreensível que tenham vendido um bilhete a mais do que a capacidade do avião. Isto só acontece porque estamos a viver um período revolucionário na empresa, em que as pessoas se estão a preocupar mais com plenários, greves e outras manifestações, do que em cumprir as suas funções laborais com dignidade. A TAP nunca foi isto…” E, para minha surpresa, perguntou: “Não se importa de ir comigo na cabine do avião?” Claro que não ia perder a oportunidade que me era oferecida e aceitei de imediato. Daí a instantes, estava sentado junto do comandante e do co-piloto. Mas o avião continuou parado. Então, o comandante explicou-me: “Não vou levantar voo enquanto não vier a refeição que falta, já que temos uma pessoa a mais. Já avisei os serviços de terra”. Meia hora depois, com o meu “tacho” a bordo, levantamos voo rumo à Madeira levando a meu lado um comandante muito simpático que foi o tempo todo a explicar-me para que serviam todos os botões e alavancas. Sempre que mexia num, dava-me conta da sua função. A viagem foi espetacular, comigo ali sentado no “bico” do avião.

Já quase na Madeira, disse: “Vamos ter de regressar a Lisboa. Há muito nevoeiro no Funchal e não temos condições para aterrar”. Deu meia volta e regressamos à Portela. Ao aterrar, encaminharam-nos para uma sala de espera isolada, onde ficaríamos até haver condições de voltar a voar para o Funchal. Deixei entrar a família à minha frente e, no momento em que eu ia atravessar a porta de entrada, dei meia volta e fiquei cá fora a passear de um lado para o outro, enquanto os outros passageiros iam entrando. Porque recuei? Foi instintivo. No momento em que me aproximei da porta vi um polícia com um daqueles detetores de metais com que nos percorrem o corpo, usando-o em todos aqueles que entravam na sala. Lembrei-me então que não podia entrar. Era perigoso. Seria apanhado em flagrante e, na “febre revolucionária” que se vivia então, seria um problema grave. O que foi? A sede da empresa onde trabalhava ficava em Lisboa e, um dos empregados, como sabia que eu ia passar pela capital, tinha-me pedido para lhe arranjar seis balas para uma pistola pessoal. Nesses tempos conturbados, era conveniente não ter só a arma …  e foi fácil comprar as balas. Coloquei-as numa pequena caixa de plástico, daquelas onde vinham os rolos fotográficos. Só que, quando cheguei a Lisboa, nunca mais me lembrei de dizer ao Soares que tinha a sua “encomenda”. Entrara no avião com ela no bolso, fora até ao Funchal, regressara e ninguém detetara nada. Felizmente. 

Mas, ao ver o polícia a rastrear os passageiros, acordei. “Alto e para o baile, posso ser apanhado”, disse cá para mim. Enquanto pensava, só olhava para a forma como o polícia fazia o rastreio: passava o aparelho pelo corpo acima e abaixo, primeiro à frente e depois atrás. Os passageiros iam entrando e, às tantas, só estavam dois à minha frente. E depressa chegou a minha vez, não dando para fugir mais. Agarrei a pequena caixa na mão, fui direito ao polícia e, quando ele se preparava para me revistar com o aparelho, levantei os dois braços ao alto, por forma a que o sensor ficasse bem longe da minha mão. O sensor percorreu-me acima e abaixo toda a frente do corpo e depois repetiu a manobra nas costas. E o polícia, fez-me sinal para seguir. Lá dentro, a família estranhou o meu comportamento. Quando cheguei, perguntaram-me. “Estás tão amarelo. O que se passa?” Pedi para nos afastarmos da entrada e só depois contei o sucedido. E as balas? Despejei-as num vaso enorme que estava num canto da sala. Uma hora mais tarde, regressamos ao avião e instalei-me novamente na cabine junto do comandante que, dessa vez, conseguiu fazer-nos aterrar na Madeira. Apesar de estar a grande distância temporal, ainda me recordo que as férias foram excelentes. Mas, mesmo com toda a simpatia e boa vontade do comandante do avião, a “aula de pilotagem” não me habilitou para conduzir aviões …

Lições para o Caminho e… a vida

Estou de regresso a casa depois de me ter feito ao Caminho. Porque é a “casa” que o Caminho nos faz regressar, passado o sofrimento e as dores por que passa o caminhante de muita estrada. E, para quem sai do Porto de mochila às costas com o essencial (e algum supérfluo na falta de experiência), são duzentos e quarenta quilómetros a pé por estradas, avenidas, ruas, vielas, calçadas, carreiros e trilhos, feitos de subidas e descidas através de cidades, vilas e aldeias, por campos e montes, vinhas e carvalhais, seguindo as setas amarelas que indicam o norte, a direção e o destino. Nas vésperas, a incerteza de resistir ao desafio pela falta de preparação física para tão duro teste. Animava-me a força do querer e a última mensagem do “Peregrino Lider”, um alento a quem parte na motivação espiritual e que não resisto em divulgar (que me perdoe a inconfidência …). 

“Está declarada a “Ultreya y Suseya”, o mesmo que dizer: para a frente, na busca de uma meta de vida que, com fé, será sempre alcançada; para cima, na busca de uma realização espiritual. Era assim na Idade Média, será assim para um peregrino hoje e amanhã. Depois disto, só os fracos fenecem (e eu posso ser o primeiro deles…).

Quem está fica e faz o Caminho e quem não está seguirá no nosso pensamento. O destino é Santiago e o campo das estrelas. Em boa verdade o primeiro milagre do Santo já se operou comigo, quando me obrigou a sair de mim (da instalação da vida, do conforto, das coisas fáceis ou mais acessíveis, etc….). Às vezes é preciso isso: “sair” para “ver”. É como subir à montanha.

Levarei comigo os que partiram e os que, no reino dos vivos, gostariam de ir sem o poder fazer. Que cada um busque, pois, a sua âncora ou “leitmotiv” (motivo condutor) para o Caminho.

Levo no peso da minha bagagem a simbologia do ser pecador. Cada passo dado em direcção ao destino me recordará isso.

Levo nas noites mal dormidas nos albergues o teste necessário à certeza de que quero alcançar o destino.

Levarei no corpo, nas pernas e nos pés cansados, quiçá magoados, o derradeiro teste do meu querer e da alegria de conseguir chegar. 

Se “cair” no Caminho sei que seguirei. Retomo ali, nesta ou noutra vida. Para mim já não há mais regresso. Abraçarei Santiago.

Certezas? Sim, num grupo familiar que soube responder à chamada e se fez ao Caminho. Chegaremos? Claro que sim!”

Até parece que o número nove era um bom presságio. Foi num dia nove, às nove horas da manhã, que o grupo de nove pessoas se juntou frente à Sé do Porto como “Peregrinos por Santiago” (e nove foram os dias que demoramos a chegar e abraçar o Santo). Todos eles eram maridos/esposas, tios/sobrinhos e irmãos. Todos estavam em duas destas situações, pelo menos. Só eu era “o primo”. O “Peregrino Artesão” distribuiu os “bastões”, um seu trabalho manual em madeira natural. Com as “credenciais de peregrino” para carimbar ao longo do “Caminho”, as “vieiras” penduradas na mochila, símbolo de Santiago e já com mochilas às costas, instalados nas escadas laterais da Catedral fizemos pose ante a objetiva do Alcindo para documentar em imagem fotográfica a partida do Porto e o ritual do grito “Por Santiago”. E, a partir daí, “fizemo-nos à estrada”, por Santiago.

Seria maçudo fazer aqui o relato desses nove dias a caminhar e dizer que no final fiquei com a “credencial de peregrino” onde colecionei carimbos da minha passagem, a “vieira” como símbolo do Santo e do Caminho, o bastão personalizado pelo “Artesão” e a “Compostela”, o certificado em como fiz o Caminho a pé a partir do Porto, emitida pela “Oficina do Peregrino”. O significado do Caminho vai muito mais além disso. Estava preparado? Não, nem física, nem mentalmente. E essa consciência tomei-a ao longo da jornada, porque é importante que o caminhante conheça os seus limites, seja persistente e se dispa por completo do supérfluo. Mais importante que chegar ao destino, Santiago de Compostela, é a jornada que nos leva até lá e o caminho que cada um faz. Porque cada um faz a sua jornada, como tem a sua vida. E lida com as dificuldades do Caminho como as da própria vida, duas faces da mesma moeda. Reclamando ou aceitando, com má cara ou tranquila e pacientemente. 

A força mais importante não é a das pernas, que tantas vezes pedem clemência, mas da mente, na persistência, capacidade de superação e força de vontade. Em muitos momentos é preciso ignorar a dor para prosseguir, as irregularidades do piso para caminhar, os incómodos do tempo para não desistir. A maior lição desta peregrinação veio-me da mochila que carreguei às costas, como símbolo do que carregamos na vida. O “Lider” dizia que nela levamos “o peso dos pecados”. O seu peso foi decisão minha, com tudo o que lá meti, necessário ou não. Só quando tomei consciência que cada grama tornaria a caminhada mais penosa, fui capaz de me despojar do supérfluo, ainda que isso tenha significado ter de lavar roupa no fim da jornada para secar à noite ou no dia seguinte pendurada na mochila, “um estendal em movimento”. E é esse despojamento que precisamos de fazer na vida, libertando-nos do “excesso de carga” que carregamos no dia a dia. Seremos capazes? 

Que posso dizer sobre o Caminho? Mais do que uma peregrinação, o Caminho é uma lição para a vida, um compêndio da sabedoria que deixamos de lado por comodismo, arrogância, inveja e vaidade. O Caminho, faz-nos sair da nossa zona de conforto e do comodismo em que formatamos as nossas vidas, voltando às origens.

Caminhar é uma oportunidade para meditar e refletir sobre a vida e praticar o despojamento do que não é essencial, só com a ajuda do cajado e da mochila. E o cansaço da caminhada chega a ser relevado com a saudação frequente de outros peregrinos ou não com que nos cruzamos, desconhecidos, mas solidários, com a frase motivadora e generosa de “Buen Camino”.  

Um amigo perguntou-me se ainda me sinto peregrino. Respondi-lhe com uma frase feita bem conhecida, que expressa o meu sentimento: “Uma vez peregrino, é-se peregrino para sempre”. E, como peregrino que vou continuar a ser, espero conseguir aplicar a aprendizagem do Caminho no “caminho da minha vida” …  

Viver tomando banho… ou não

Numa casa de habitação de uma das aldeias de Lousada, mãe e filha conversavam sobre a necessidade de tomar banho a propósito de um vizinho pouco asseado. A filha, para além dos trinta anos, perguntava à mãe: “Será que uma pessoa que não toma banho há mais de quinze dias, não sente que cheira mal”? A mãe, num raciocínio mais lógico e inteligente, respondeu-lhe: “Provavelmente, não. Há medida que os dias vão passando e o odor corporal se deteriora, o sentido do olfato adapta-se e acompanha a alteração, considerando-a normal”. Quando soube desta troca de ideias, lembrei-me do como e quando as pessoas tomavam banho no meu tempo de criança e, na realidade, tenho a certeza que não sentiam qualquer mau cheiro. Estavam habituados. Quem tomava banho e quando? Com regularidade, ninguém. E uma vez por outra, que o mesmo é dizer de mês a mês, muito, mas muito poucos. É um erro observar esses tempos à luz das comodidades de hoje, em que basta rodar o manípulo da torneira ou da misturadora e temos água quente e fria quanta se queira, até para desperdiçar, com regulação automática, e não se concebe que alguém tenha desculpas para não tomar banho. 

Não sabem e nem imaginam que por estas bandas há sessenta anos, para não puxar o filme mais atrás, as casas não tinham água canalizada. Pior, muitas delas nem sequer tinham água. A maioria das habitações eram em pedra, térreas, com o chão em terra e já era uma sorte quando tinham poço, de onde podiam tirar água ao balde, com um sarilho, com que se enchia o cântaro, o “depósito” ambulante que servia a casa. Mas, como uma boa parte nem sequer tinha poço, as mulheres iam buscar a água à fonte (que por vezes ficava a grande distância de casa) num cântaro de barro feito na Fábrica do Barro, em Nogueira, que carregavam à cabeça em cima de uma “rodilha” num equilíbrio perfeito, sujeito a partir-se em cacos ao mínimo descuido. No meu lugar, muita gente ia buscar água à “fonte de Talhos”, um pouco distante para alguns. O cântaro ficava arrumado na cozinha e dele se tirava água para beber, cozinhar e … lavar. E a casa de banho? Se alguém fizesse a pergunta nesse tempo, a resposta viria noutra pergunta: “O que é isso”? Só nalguns solares era possível encontrar esse luxo, onde havia uma banheira de ferro que se enchia… a cântaro. Aí, a água era aquecida no fogão de lenha ou na lareira em grandes panelas e, mesmo assim, de longe a longe. 

Na casa dos meus pais existiam lavatórios em ferro esmaltado para lavarmos a cara e as mãos, “à gato”. A água estava no jarro ali ao lado… Para tomar banho, usávamos um alguidar de barro e, está bom de ver que ninguém se metia lá dentro… não dava para isso. Era na “retrete” que se punha o alguidar para nos podermos “lavar”. Sim, na “retrete”, aquele espaço onde havia um “caixote de madeira com um buraco redondo” para assentar a “padaria” e fazer as “necessidades” sobre uma fossa cheia de mato, onde moscas e moscardos “zoavam” como pequenos aviões em constante movimento. Mal se “largava a carga”, tapava-se à pressa com a tampa de madeira munida com pega, que se ajustava perfeitamente. Ao tapar o buraco, não passavam os insetos, mas aquele “odor selvagem” subia pelas frinchas e “aromatizava” o espaço. Mas a maior parte das casas nem sequer tinha “retrete” nem lavatórios, quanto mais lugar para tomar banho. Por isso, passavam-se dias, semanas e normalmente meses, sem um banho. Pensando bem, só o rio Sousa proporcionava aos homens o luxo de um banho durante o verão e poucas vezes com um pedaço de “sabão macaco” a ensaboar o corpo depois de um mergulho. As mulheres? Não tinham essa sorte. Ao falar com a filha sobre isto, questionou-me como era possível viver assim, sem tomar banho durante dias e dias. “Muito fácil”, respondi-lhe. “Como não havia condições nem existia o hábito de tomar banho diário, não se sentiam nem a necessidade nem os odores corporais ou o mau cheiro”. Faziam parte da natureza …

Nos anos sessenta estive no interior norte de Angola e trabalhei com muitas pessoas de raça negra. A maioria eram pequenos agricultores que cultivava algodão. Todas elas tinham um odor corporal intenso, forte, que se dizia ser o “cheiro a catinga”. Não posso afirmar se era uma característica da raça negra ou se tal seria o resultado da falta de higiene. Certo é que, quando comentava isso com algum deles e lhes dizia que “cheiravam a catinga”, a resposta nunca mudava: “E vocês, brancos, cheiram a morto” …

Durante o meu serviço militar, depois de uma longa marcha forçada de um dos pelotões da nossa companhia, o furriel de serviço mandou todos os recrutas tomar banho quando chegaram ao quartel. Estava-se em Julho e, embora não houvesse água quente, o banho sabia bem. Às tantas, o furriel apercebeu-se que um dos recrutas ficou para trás e deu sinais de que não ia tomar banho. Então deu-lhe a ordem para se juntar aos outros, tendo ouvido como resposta: “Tomar banho outra vez? Eu ainda tomei banho pelo Natal …”  

Hoje, o banho é uma conquista civilizacional e está enraizado nos nossos hábitos de higiene, contribuindo com a sua quota parte para o aumento da nossa longevidade. No entanto, estamos a exagerar ao tomar demasiados banhos. Estudos revelam que mais de dois banhos com sabonete ou similar prejudicam o equilíbrio natural da gordura e bactérias que são benéficas e protegem a pele, como que a “barreira protetora”. Conheço alguém que chega a tomar quatro e cinco banhos por dia. A brincar, diz-me, que gasta o sabonete, o shampoo, a água, a reserva de toalhas, o tempo e … a pele. Vejam quanto economizaria se tivesse vivido setenta anos atrás, tomando banho de meio em meio ano …