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Ela perguntou: “Du yu espic inglish”?

Há alguns anos atrás (o que é caso para dizer: “ao tempo que isto dura”…), questionava aqui “porque não mudar de língua”? É que o português, português (de Portugal), morreu, já não existe. Tirando alguns “nativos” das aldeias do interior que ainda incluem no seu vocabulário palavras como “bloques”, “presigo”, “lapada”, “tringalha”, “borra-botas”, “indireita” e muitas mais que os jovens de hoje já não conseguem “traduzir”, já não se fala o português de Portugal. Nem se quer, nem se sabe falá-lo e, pior, até parece que temos vergonha de o falar. Porquê? Porque é uma língua de pacóvios, arcaica, ultrapassada e tão fora de moda. Tentamos espalhá-la pelo mundo e o que se vê nos países “ditos de língua portuguesa”? Adulteraram-na de tal forma que não os entendemos. À mistura com palavras da nossa língua, têm muitos outros vocábulos que ignoramos ou nos induzem em erro e até podem provocar-nos embaraços. Ora, façamos um teste: quando um brasileiro fala em “veado” julgamos que se refere a um animal selvagem de grande porte. Errado. Quer dizer “homossexual”. Ou se disser “galera”, não se refere a uma nau, mas a um conjunto de pessoas. E muitas mais poderíamos citar. Se saltarmos do português do Brasil, para o de Angola, Moçambique ou Timor, torna-se ainda mais complicado.

Mas o que mais incomoda é que, a cada dia que passa, substituímos mais e mais palavras nossas por “estrangeirismos” que nada têm a ver connosco. É só uma questão de moda, de querer dar um ar de que se sabe estar, se é culto, como dizia uma velhota da aldeia, “de armar ao pingarelho”. E tem razão. E desses “estrangeirismos”, o maior uso e abuso é de palavras inglesas. Por tudo e por nada, lá estamos nós a “gramar” com o know-how ao falar de experiência técnica, report quando temos “relatório” para dizer o mesmo, budget no lugar de orçamento ou dá-me o teu feedback quando se pede “só” opinião. Já Eça de Queirós no episódio das corridas do hipódromo em “Os Maias” exagerava de propósito dos “estrangeirismos” para mostrar quanto é ridícula essa mania.    

Engolimos a selfiequando nos estamos a fotografar a nós próprios, tudo é topquando devia ser bom ou fantástico, o que até graduava melhor. Já não corremos, fazemos running. Dizer que criamos uma “marca” é para atrasados mentais. Tem de ser brand. Até os tascos, tão tipicamente portugueses, já têm escrito à porta take awayou hot-dog. Onde é que vamos parar? Nem falo nos festivais de música que enchem os verãos deste palco à beira mar de norte a sul. NOS Alive, Freedom Festival, EDP Beach Party, Rock in Rio,EDP Cool Jazz, e muitos outros, que “não seriam nada se não fossem “vendidos” em inglês, como se a maioria dos espectadores fossem ingleses ou estivéssemos na terra dos “camones”. E não é de admirar. Quando o poder político, num gesto claro de submissão e “baixar as calças” aos reformados ingleses que povoam o extremo sul do país, pôs a sua chancela na mudança do nome dessa região para “ALLGARVE”, é caso para perguntar: “O que vem a seguir”.

Hoje deu-me para voltar a “pegar” com esta mania, esta “vergonha” ou medo de falar em português, porque um amigo me fez chegar a

carta que uma senhora escreveu a um canal de televisão para que a lessem em direto, intitulada “Du yu espic inglish?”. E eu, não tendo qualquer indicação do nome da autora, transcrevo-a em homenagem:

“Desde que aos emblemas chamam pins, a maricas gays, às comidas frias lunches e aos elencos de filmes castings, este país não é o mesmo: agora é muito, muitíssimo mais moderno. Antes as crianças liam banda desenhada em vez de comics, os estudantes colavam posters pensando serem cartazes, os empresários faziam negócios em vez de business, e os operários, tão ordinários que eles eram, pegavam numa caixa ao meio-dia em vez de tupperware.

Eu, no colégio, fiz aeróbica muitas vezes, mas, que tonta que era, pensava estar a fazer ginástica. Ninguém é realmente moderno se não disser todos os dias cem palavras em inglês. As coisas noutra língua soam-nos muito melhor.

É evidente que não é o mesmo dizerbaconem vez de presunto, ainda que tenham a mesma gordura, nem vestíbulo em vez de hall, nem deficiente em vez de handicap… sob este ponto de vista, nós, os portugueses, somos moderníssimos.

Já não dizemos biscoito, mas cup-cake, nem temos sentimentos, mas feelings. Compramos tickets, tablets, comemos sandwiches, vamos ao pub, praticamos rappele raffting, em vez de acampar fazemos camping, e quando vem o frio, assoamo-nos com kleenex.

Estas mudanças de linguagem influenciaram os nossos costumes e melhoraram muito o nosso aspeto. As mulheres não usam meias, mas panties, e os homens não usam cuecas, mas slipse depois de se barbearem deitam after-shaveque deixa a cara muito mais fresca que o tónico.

O português moderno já não corre, mas faz jogginge footing; não estuda, mas faz masterse nunca consegue estacionar, mas encontra sempre um parking. O mercado agora é o marketing, o auto-serviço o self-service, a escala o rankinge o diretor, o manager.

Os importantes são vips, os auriculares walkmen, os postos de venda, stands, os executivos, yuppies, as babás, baby-sitterse até nannies. No escritório, o chefe está sempre em meetingsou brain stormse quase sempre com public-relations, enquanto a assistantenvia mailingse organiza trainings. Depois irá ao ginásio fazer gim-jazze encontrar-se-á com todas as do jet, que acabam de fazerliftings e com algumatop-modelamante de iogurte light e do body-fitness.

O arcaico aperitivo deu lugar aos cocktails, onde se oferece roast-beef. Ainda que pareça o mesmo, engorda muito menos que a carne.

Uns trabalham num magazine, não num programa. Na televisão, quando o apresentador diz várias vezes O.K.e dança rodando pelo palco, a isso chama-se show, muito diferente, como sabem, do antiquado espetáculo; já não põem anúncios, mas spotsque, para além de serem muito melhores, permitem-lhe fazer zapping.

Espero que tenha gostado … e que não tenha ficado com stress”.

E eu paro por aqui, sem dizer “stop”, que seria mais moderno e muito mais chique …

Chá de limonete e água das Pedras…

Era dia de casamento lá na terra. Casava-se a irmã do Alberto e o que mais o estava a entusiasmar era a possibilidade de “tirar a barriga de misérias”. Passara o ano a comer praticamente caldo e broa, tirando uma ou outra ocasião em que a mãe matara uma galinha gorda que já não punha ovos e fora assim que “metera o dente” numa coxa de ave que teve de dividir com o irmão mais novo. Naquele dia a “conversa” seria outra. O almoço de casamento era obrigação dos pais e a mesa foi colocada debaixo da ramada, no quinteiro, para ficarem abrigados do sol intenso daquele dia quinze de Agosto. A mesa comprida para acomodar tantos convidados era composta por mais de dúzia e meia de pequenas mesas emprestadas pelos lavradores vizinhos a quem o pai recorrera. Cobertas com toalhas de linho branco, dava gosto olhar aquele alinhamento todo dos pratos, copos e talheres prontos para o que viria a seguir à missa de casamento. No seu fato domingueiro, ele foi dos primeiros a chegar a casa, tendo esperado somente pela saída dos noivos da igreja para lhe atirar os “confeitos”, enquanto as irmãs os cobriam de flores. Viera logo a seguir porque tinha de ajudar a preparar as canecas de vinho tinto da pipa que o pai mandara abrir de propósito para a boda.

Quando toda a gente estava sentada, com os noivos instalados ao meio ladeados pelos padrinhos, “começou o trabalho” logo que da cozinha saíram as panelas de canja de galinha que as moçoilas foram servindo em grandes tijelas, amarelinha da muita gordura a boiar à tona, enquanto os convivas enchiam as tigelas com bocados de pão para fazer sopas. Seguiu-se o lombo de porco assado no forno com batatas, em assadeiras de barro, acompanhado de arroz em caçoilas, tostado por cima e amarelinho do açafrão, mas com bom aspeto. A cozinheira, que viera da aldeia vizinha era muito conhecida pelo seu arroz de forno. Toda a gente se serviu mais que uma vez e comiam muito calados, ao princípio. Mas, depois de emborcarem as primeiras canecas de vinho, a conversa animou. Desapertaram-se as gravatas, tiraram-se casacos, arregaçaram-se mangas e comia-se a bom comer. Quando o lombo começou a rarear, serviram o cozido à portuguesa, preparado com carne dos dois porcos que o pai da noiva matara para o repasto. Tinha carne da barriga, costela, colada, coração, salpicão, chouriça de sangue e muita tronchuda, além de arroz a acompanhar. O Alberto comia com sofreguidão, como se estivesse com medo que a comida acabasse e pudesse armazenar na barriga o suficiente para mais duas ou três semanas, como os camelos. Quando veio o cabrito assado, a barriga negou-se. Não cabia mais. “Não pode ser”, pensou. Olhava a assadeira e o apetite mantinha-se … na cabeça. Só. Agora que tinha ali comida à farta, não era capaz? Não hesitou. Levantou-se da mesa e foi ao fundo do quintal. Meteu dois dedos à boca e … “atirou a carga ao mar”. Não foi caso único, muitos outros fizeram o mesmo. E sentiu que podia voltar à liça, pois já tinha espaço para “armazenar” o cabrito e o que mais viesse a seguir.

No final, o pessoal ficou por ali encostado, alargando dois furos ao cinto para atenuar o incómodo da barriga inchada como um balão, de tanto enfartamento. Para “ajudar à digestão”, veio “bagaço”, que agravou mais do que ajudou. Numa boda cá da terra, alguém “enfardou” mais de “uma cesta de vindima de comida”. E ficou a chorar, com pena de não conseguir continuar …

O enfartamento por comer demais já vem de longe. Se nesse tempo só nos casamentos se podia “tirar a barriga de misérias”, nos dias de hoje, de outras formas, são muitíssimo mais as lautas “comezainas”, a sensação do estômago cheio que não passa, a indisposição que é um desassossego, a pança inchada de “vaca prenha” e a dor remoendo a parte superior da barriga. Os casamentos são o “mal menor”, porque nem são muitos. Mas os almoços e jantaradas, com parceiros do jogo da bola semanal, do grupo de ginásio, encontros de família, batizados, comunhões, Páscoas e Natais, nas festas de aniversários, celebrações e outras festas pelos motivos mais estranhos, são frequentes, muito frequentes. E, quando ainda não se recuperou de um, já temos de ir a outro. Então, nesta quadra natalícia, tudo serve para se organizar um almoço, jantar ou mesmo um lanche ajantarado, servido com comida que dava para várias refeições e o triplo de pessoas, que teimamos em comer numa só. Os amigos “vendem-nos a ideia” que se “come um cabrito espetacular” em Lamego, “lampreia à bordalesa” como não há outra em Monção, boas enguias em Benavente, um javali maravilhoso em Bragança, chanfana (cabra velha) de “morrer e chorar por mais” nas Beiras e o tradicional leitão à moda da Bairrada, mas noutro local qualquer, para não falar em mais algumas centenas de especialidades que nos levam a um roteiro gastronómico diferente para cada dia dos anos da nossa vida e onde, seguramente, comemos demais, bebemos melhor e saímos enfartados e com dor de barriga, a clamar por uma garrafa de “água das Pedras” para ajudar à digestão. E, chegados a casa, só resta apelar para a mulher: “Fazia-me tão bem um chá de limonete”!!!

Hoje comemos demasiado, como nunca. E por isso, “sofremos mais agora ao comer demais do que se sofria antigamente por comer de menos”. É que achamos espetacular “aquele restaurante” que tem entradas de arromba que, só por si, seriam um lauto almoço. Mas nós comemos as entradas (e acompanhamos com gin ou whisky) e ainda o almoço de um ou dois pratos (regados a vinho tinto) e atacamos as sobremesas, “fechando a porta” com café e “digestivo. É demasiado. E esse demais repete-se muitas vezes. Ainda sem recuperar de ontem, já estamos a “enfardar” hoje noutro. E não há barriga que resista …

Quem vai para uma “guerra” dessas onde sai sempre a perder, tem de tomar providências: “Engolir um “omeprazol” em jejum, pela manhã, beber água das Pedras antes de “começar a dar ao dente” e meter um “imodium rapid” na boca a derreter, pelo sim, pelo não”. Fica pronto para a refrega e o abuso nos “comes e bebes”.  Com isso, talvez evite as dores de barriga, o “roncar” da pança, os afrontamentos, arrotos e até os “gases”, mais ou menos sonoros, mais ou menos “perfumados”.

Cá por mim, que já ando “nesta vida” há muitos anos, prefiro seguir outra estratégia: “Muita conversa enquanto os outros comem. Comer um só prato de que goste e, na sobremesa, um pouco de fruta”. E isso resulta? Não posso afirmar que sim. A intenção é boa, mas como não costumo cumprir a rigor, quando chego a casa só me resta tomar chá de limonete e beber três ou quatro garrafas de água das Pedras para “desmoer”. E então, a tal pressão abdominal começa a abrandar. Quando abranda …

Quando morre a avó, perde-se tanto …

Avó também é mãe. Mas, muito mais que isso, é mãe de mães, o saco de histórias feitas belas prendas para os netos, a experiência de vida transformada em sabedoria, o rosto engelhado com alma macia, um coração de mãe adoçado pelo mel da idade. Quem tem uma avó ao longo de muitos anos tem um tesouro e pode orgulhar-se de viver com a história. Avó verdadeira marca a infância dos netos, é alguém especial que ensina coisas sábias da vida até pelo exemplo, que conta histórias de encantar, quer saber da vida dos netos, ser a confidente que compreende e não repreende, ouve e não acusa, ensina e não cobra. Sempre sabe dar um abraço quando todos querem dar castigo. Avó é cabelos brancos, olhos vivos, rugas profundas. Também regaço de netos e ajuda de filhos, sorriso tranquilo, armazém de paciência. Mas avó é mortal, é uma despedida, é perda, é adeus, um “até breve”.

Foi assim que morreu uma avó, de seu nome Maria, já na última etapa para chegar ao centenário. Teve vida plena e, por isso, deveríamos celebrar a sua partida para uma outra vida, se acreditamos nela, em vez de chorar a perda, uma manifestação do nosso egoísmo. Mas seus netos fazem o luto e choram, porque no luto não há certo nem errado já que a perda pode trazer tristeza, confusão, raiva, choro e solidão. O tempo curará tudo isso. E ajuda pensar no que se aprendeu com ela, na felicidade de a ter tido na vida, de saber que teve de atravessar o sofrimento e a dor, mais moral que físico, para chegar até aqui.

Nasceu pobre, igual à maioria das gentes do seu tempo e desde bem cedo teve que trabalhar como “criada de servir”, a profissão de uma vida, longa. Quando ainda solteira engravidou. Os pais, condicionados pela moral espartana de então, não aceitaram e, clamando desonra e vergonha da família, expulsaram-na de casa. Foi acolhida pelos donos do lar onde “servia”, que a trataram não como empregada, mas antes como filha. Dali saiu para casar na igreja com o amor da sua vida, um mês antes de nascer a filha. Dizia que nunca casaria com um lenhador ou pedreiro, pela vida dura que levavam. E o que lhe saiu na rifa foi … um lenhador.

Encontrou na sogra aquilo que perdeu da mãe, em proteção, carinho, compreensão e amor. Mas retribuiu-lhe em dobro, ao ponto de fazer questão de tirar para ela o melhor bocado do almoço de domingo e levar-lho a casa mesmo antes de comer. Trabalhou em diversas casas de família, sendo profissional excelente, zelosa e merecedora de toda a confiança. Por onde passou deixou amizades para a vida, respeitou e fez-se respeitar. E até soube manter na ordem um patrão conhecido por “abusar” das empregadas. Ignorou-o quando simulou doença só para a atrair e quando na cozinha lhe apareceu por trás e a abraçou pela cintura, não hesitou um segundo e passou-lhe a faca ao correr dos dedos fazendo-lhe um golpe em todos eles que o fez dar um salto, recuar e gemer a sério. Acabou-se ali o “assédio” …

Em casa, acendia o lume no lar com pinho, lenha e tonas de eucalipto que apanhava no monte e carregava à cabeça atado molhes. Por duas vezes foi chamada à GNR, acusada por um proprietário forreta que aos pobres nada dava. Só lhes tirava o suor. A sua vida ficou marcada pelo trauma da expulsão de casa pelos pais. Só conseguiu apaziguar a mágoa quando voltou a ouvir deles o “Deus te abençoe, minha filha”. Ao morrer a avó Maria perderam-se histórias, sabedoria, experiência, memórias e tantas coisas mais. Mas ela ganhou: regressa finalmente à casa paterna e ao convívio dos pais …

Porque é um hino maravilhoso e sentido à “Avó Maria”, a “Guerreira”, da autoria de uma neta, não posso deixar de partilhar este poema:

“Onde estão teus cravos Mulher?

Gastaste seu cheiro para abafar tuas lágrimas

Abafaste um regime para vencer tua luta

Desafiaste autoridades para sustentar tua casa.

Mulher de trabalho árduo

Que sempre ajudaste quem por ti clamou

Trabalhaste na dura labuta para seres alguém.

E foste, e és.

Irmã mais velha de uma imensa família.

A ti eram imputadas todas as fainas

Grávida e sem matrimónio consumado

Por teus pais foste excomungada

Verteste lágrimas de sangue.

Mas tua força maior não vacilou

O Homem que ao teu lado estava

E que teu coração cedo roubou

Não te abandonou, sempre te amou.

Tua força era medonha

Teus dias completavam muitas horas

Tuas mãos concebiam trabalhos muitos

Tua cabeça molhos de lenha carregou

Para tua lareira arder e bocas alimentares.

Onde estão teus cravos Mulher?

Cortaste-os para as sepulturas asseares

Dos entes que partiram sem deixares

Mulher a quem os anos levaram

A força braçal imensa

A destreza de tuas pernas

O sorriso e as palavras poucas.

Onde estão teus cravos Mulher?

Estão agora em teu jardim

Que admiras com prazer

Nos dias que descontam

Tuas histórias de Mulher

Teus conselhos prudentes

Tuas palavras parcas.

Onde estão teus cravos Mulher?

Para sempre em teu coração…

Quer um conselho? Não roube. Desvie …

Não sou juiz, nem pretendo julgar ninguém. Sou um simples cidadão que, dos tribunais, só gostaria de ter notícias através da comunicação social. Mas não, também tenho a minha dose, especialmente no que toca a esperar. Esperar no átrio da entrada para saber se há ou não há julgamento. Esperar anos e anos para que o julgamento tenha um fim. Ir a tribunal para ser ouvido como testemunha e esperar toda a manhã ou a tarde sem sequer ser ouvido, tendo de lá voltar outra vez, quando não mais algumas vezes, sem que alguém tenha respeito por nós testemunhas, como se fossemos escravos que podem ser usados quando e como o sistema quiser. E sem direito a reclamar. Mas não é sobre isso que hoje escrevo, mas de algo que me parece um paradoxo. Julgo que a Justiça portuguesa é só uma, com as mesmas leis para todos os tribunais e que, à luz dessas leis, julgamentos e sentenças devem ter uma linha comum, com coerência, onde ninguém se sinta discriminado por ser rico ou pobre, mais gordo ou magro, mais alto ou baixo, da religião A ou B, do partido centrista ou comunista, ou por ser branco ou negro. A verdade é que, às vezes, não parece que assim seja. “Todos somos iguais, mas um são mais iguais do que outros”. Ou parecem …

O tribunal de Aveiro julgou um antigo funcionário bancário por ter “desviado” 286.000 euros de clientes, tendo sido condenado a três anos e meio de prisão … com pena suspensa por igual período. Ainda foi condenado ao pagamento de 35.000 euros, a serem pagos em sete prestações de 5.000 euros cada. Só vai “bater com os costados na cadeia” se não pagar a “multa”. Caso cumpra, pode fazer com o resto do dinheiro ROUBADO o que quiser, sem que tenha de pagar por isso. O que “até acho bem”, pois o homem precisava de ser recompensado pelos momentos de angústia – se é que os tinha – sempre que “estava a meter a mão no prato”, ou melhor, “na conta dos clientes”. Daí ser justa a “pena suspensa”, até porque eu nem era cliente do banco …

Que é que isto tem de original? Nada, até porque o bancário não fez nada de mal. Não roubou. Ele “DESVIOU”, o que é bem diferente de ROUBAR. Que não haja confusões. Ladrão, ladrão é aquele malvado que o tribunal de Braga acaba de condenar a um ano e meio de prisão efetiva por ter roubado a avultada quantia de … 6,00 euros. Repito e por extenso: SEIS EUROS!!! No julgamento, o arguido confessou o crime, mostrou-se arrependido e pediu desculpa à vítima. Disse que na altura consumia estupefacientes e “andava desesperado” por falta de dinheiro para comprar droga. Segundo a acusação, ele abeirou-se da vítima, disse-lhe que tinha uma faca e exigiu que lhe desse todo o dinheiro que tinha consigo. E a vítima deu-lhe a carteira com 6,00 euros, que ele levou, pondo-se em fuga. Mas este, sim, é um ladrão a sério, que diz que roubou. E logo na rua, à vista de quem passa, o que é uma ousadia maior. Ainda se fosse escondido num gabinete, mesmo foleiro, vá que não vá. Mas, na rua, é obra. Merece ir “ver o sol aos quadradinhos”, até para que na próxima aprenda a não roubar, mas a “desviar” ou a “governar-se” para nós, opinião pública, o absolvermos automaticamente quando dissermos: “Este é que foi esperto” …

Eu confesso, não assisti a nenhum dos julgamentos e reproduzo o que a comunicação social informou, tendo mesmo questionado se devia o “ladrãozeco” apanhar tanto por tão pouco. Presumo que a imprensa não tenha mentido e comparam-se critérios, se é que são os mesmos. Leio outras notícias sobre outra sentença. Que posso pensar ao ler a notícia que “o conhecido banqueiro que levou um banco à falência foi condenado a cinco anos de cadeia … com pena suspensa. O roubo terá sido também suspenso? E ainda a informação de que um maestro foi condenado a cinco anos de prisão … com pena suspensa. “Utilização indevida” de 720.000,00 euros do erário público e falsificação de documentos. Porque será que estes “dois ladrões”, com penas bem maiores, tiveram direito a que fosse suspensa a aplicação efetiva da sentença, enquanto o “pilha-galinhas” que roubou seis euros – sendo certo que a carteira podia conter alguns milhares, que não tinha – não teve a mesma “benesse” de ver a pena suspensa? Acho que o dito não usa suspensórios, com toda a certeza … Por uma questão de transparência, convém dizer que o “pilha-galinhas” já era reincidente, mas, “por seis euros” deve-se pô-lo “à sombra” por mais ano e meio? Custa a entender a lei. Daí o espanto dos jornalistas … e o meu.

Comparando com outros julgamentos e outras sentenças, para quem não é juiz nem quer julgar nada, “a bota não bate com a perdigota”. E se basculhar na imprensa por notícias de sentenças diversas, tanto de roubos como de crimes económicos (que não são outra coisa senão roubos), já para não falar em violações, pedofilia e outros, encontro com certa frequência a aplicação de prisão, mas com pena suspensa. Provavelmente as prisões estarão com excesso de lotação e há que travar o fluxo de mais “clientes” para aqueles “hotéis”, cuja fatura é paga por todos nós. Não acredito que seja pela cara mais ou menos bonita do “artista”, pela sua capacidade oratória e desempenho como ator dramático ou pela roupa que veste no momento.

De tudo o que li e ouvi, fico com a convicção de que, quem um dia quiser “governar-se”, deve começar por manter a “ficha limpa” até ao momento do “golpe”. Depois, não se proponha roubar, mas fazer um “desvio” para satisfazer um vício, verdadeiro ou falso, ainda que o tenha de inventar. E, por fim, não caia na patetice de “desviar” seis euros, nem nada parecido. Faça a coisa em grande, na ordem dos milhões, muitos. Quando for julgado, declare que está arrependido (chore para ser convincente) e diga que gastou tudo no casino, nas mulheres ou no “pó”. “Que tudo o vento levou”. Vai apanhar alguns anos de prisão, mas como é a primeira vez, terá certamente … a pena suspensa. Pode ter de pagar uma multazita, “aos bochechos”, mas vai sobrar-lhe muita “massa” para ter a reforma antecipada num paraíso qualquer, onde não terá tentações para ser reincidente.

E nunca será um ladrão, mas um homem “esperto” …  

E se esquecer, atrapalhar o dia a dia?

A meio do jantar levantei-me, fui à cozinha, abri a porta do frigorífico e … fiquei ali parado, sem saber o que ia fazer. Deu-me uma “branca”, um apagão, tive um lapso de memória. “Mas o que é que eu queria?” pensava com os meus botões. Voltei à sala, sentei-me e só depois me lembrei do que ia buscar ao frigorífico. Será isto normal? Sou um caso único ou toca a todos? Diz quem sabe que é coisa que acontece a toda a gente, embora a uns mais do que a outros, havendo fatores que podem contribuir para que isso aconteça mais. E o principal, e mais comum, é a idade. Quantas vezes não vamos fazer uma pergunta a alguém e, só porque somos interrompidos no momento, esquecemos o que queríamos perguntar? Sob o stress de um exame, quantos alunos não bloquearam perante uma pergunta que sabiam e não são capazes de “dar mais uma para a caixa”?

Esquecimentos ocasionais fazem parte da vida, sendo certo que, com a idade, os “lapsos de memória” começam a ser mais frequentes. Não lembrar o nome de alguém, onde se deixaram as chaves do carro ou os óculos de sol, em regra mais não é do que o envelhecer normal do cérebro, até porque um cérebro de 80 anos não tem as capacidades de um de 20. Para me defender, tento usar o sistema da organização pessoal. Coloco as chaves do carro e da casa sempre no mesmo local, tal como os óculos, o telemóvel, o relógio e todos os outros objetos pessoais. E não são só os pequenos.

Algumas vezes no centro da vila dou comigo à procura do carro, pois não me lembro do local onde o estacionei. E ele nem é assim tão pequeno. Mas há sempre quem faça mais que a gente. Um conceituado advogado de Lousada um dia foi ao Porto e levou a esposa consigo. Depois de a deixar no centro a fazer compras, foi tratar do assunto profissional que o fizera ir à cidade. Ao fim da tarde regressou a Lousada e, quando chegou a casa, perguntou ao filho: “Onde está a tua mãe”? “A mãe não foi consigo ao Porto?”, contrapôs o rapaz. “Ei, que me esqueci dela” …

Com o passar dos anos, aumentam os esquecimentos, a demora em aprender coisas novas. Se tenho muitas recordações do passado, não posso deixar de reconhecer que muitas outras já se varreram para as profundezas do cérebro onde não sei como as “desenterrar”. E ainda bem que esqueci certas coisas … até deu jeito. Aliás, costuma-se dizer que ter péssima memória pode ser divertido, pois usufrui-se diversas vezes das mesmas coisas, como se fosse a primeira vez. E convém, se não se quer ser agradecido, quando se não pretende pagar dívidas e até para não sofrer de saudades. A questão passa a ser preocupante quando os esquecimentos começam por atrapalhar o dia a dia de cada um, quando não se consegue ir de casa ao supermercado ou ser capaz de regressar, de lembrar como se tira um café, se frita um ovo ou se corta a barba. Daí que se conte a história de três irmãs com 80, 83 e 85 anos de idade que viviam juntas e se ajudavam. Ora, uma delas foi tomar banho e, quando estava com um pé dentro e outro fora da banheira, gritou: “Meninas, alguma de vocês sabe-me dizer se eu estava a entrar ou a sair da banheira”? Outra das irmãs ouviu-a chamar, começou a subir a escadaria, parou de repente e perguntou: “Sabem-me dizer se eu ia a subir ou a descer as escadas”? A irmã mais velha estava sentada na sala. Ao ouvi-las, abanou com a cabeça e disse: “Cruzes, estão mesmo velhas e cada vez piores”. E, batendo três vezes na mesa, disse: “Ainda bem que não estou tão mal como vocês. Eu já vos ajudo, mas antes tenho de ir atender à porta que alguém está a bater” …

No final da minha adolescência tive um gravador de fita, onde gravei a música que estava “na berra”. Com o uso e o desgaste, foi perdendo capacidades, tanto de gravação como de reprodução. Julgo que com a memória é algo semelhante e há quem ache que não se está a fazer tudo o que se deve para investigar doenças que a afetam, ao contrário de outras áreas. Foi a pensar nisso que o médico brasileiro Drauzio Varella comprovou que o mundo investe cinco vezes mais dinheiro em estímulos para a sexualidade masculina e em silicone para a beleza feminina do que no estudo e descoberta da cura da doença de Alzheimer.

Por essa razão, o médico profetizou: “Daqui a alguns anos, teremos velhas de seios grandes e firmes e velhos com “paus” duros, mas nenhum deles se lembrará para que servem”.

Tudo isto para dizer o quê? Que, graças aos avanços constantes da medicina e de um conjunto de outros fatores, passamos a viver mais tempo, a “durar mais”, embora nem sempre com a qualidade de vida mínima que seria desejável. É certo que, nesse aumento da esperança de vida, não se prolonga a juventude. Prolonga-se a velhice, muitas vezes num “arrastar” penoso, com doenças crónicas e debilitantes, entre as quais está a “doença de Alzheimer”. Já são muitos os idosos com incapacidade e demências, sendo esse acréscimo galopante bem evidente nas listas de espera dos lares institucionais que, em regra, foram construídos a pensar nos utentes autónomos. Já lhes basta os que ali acabam por ficar nessa situação.

Pessoas com dependências graves e demências são sempre um problema para as famílias, sendo evidente que muitas delas não têm quaisquer condições para os manterem em casa. Nem físicas, nem económicas, nem de vida. Temos de compreender que não é legítimo exigir-se que o façam, porque é obrigá-los a “carregar uma cruz” demasiado pesada. E será bom que tenhamos noção dessa realidade e não atiremos cuspe para o ar, porque nos pode cair em cima. Os alojamentos institucionais são muito poucos para tão grave problema e nada se tem feito de há muitos anos a esta parte. Sendo estes doentes uma responsabilidade do estado, cabe aos políticos com funções governativas dar respostas urgentes a problema tão grave, em vez de “assobiarem para o lado” ou esperar que o doente, no vai e vem das viagens de casa para o hospital e do hospital para casa, morra pelo caminho e passe a ser um problema a menos …

Encontro do presente com o passado

Hoje fui a Macieira, a minha aldeia natal, visitar alguns familiares e aproveitei para rever também condiscípulos, vizinhos, amigos e até outros conhecidos de outrora, do tempo em que aquela era a minha casa diária. Como não podia deixar de ser, comecei pela família, num reencontro sempre emotivo em que às vezes não consigo conter as lágrimas. “Estar com os meus” traz-me sempre muitas recordações, memórias, lembranças de vida comum, mas sobretudo o sentimento de pertença. E “falei-lhes” muito, apesar de permanecerem quietos, deitados e num “silêncio sepulcral”, pelos sete palmos de terra que nos separavam.

Os meus irmãos Álvaro e António, roubados desta vida de forma tão abrupta e instantânea como quem desliga a luz no interruptor, sem tempo para despedidas, para dizer um “adeus”, “até breve” ou sequer um aceno, permanecem jovens de vinte e três anos e quase trinta e dois, na memória, no coração e nas fotografias da pedra lapidar. Não vão envelhecer nunca, nem ganhar rugas, cabelos brancos. Não singrarão nas suas carreiras já iniciadas, em trilhos que pareciam seguros e firmes. Não chegarão a formar novas famílias, a ter filhos e netos. Só escaparam de aturar a mulher. Qualquer que fosse. “Falei-lhes” disso e, sobretudo, da grande falta que me fizeram ao longo destas mais de quatro décadas, talvez pelo meu egoísmo.

Na mesma “morada” está o meu pai que pouco lhes sobreviveu. Teve um fim penoso e com muito sofrimento. Os diabetes não o deixaram conhecer o Luís, o seu segundo neto. Ou terá sido o Luís que não chegou a tempo? Não chegou aos sessenta anos, muito menos à idade da reforma, agora mais distante. Ficou-se pelos cinquenta e seis anos, com boa apresentação, a imagem do meu Gregory Peck preferido. E assim permanecerá na minha recordação. “Falei-lhe” das viagens que fizemos em família, dos meus enjoos numa estrada cheia de curvas lá para os lados de S. Pedro do Sul que o obrigaram a parar algumas vezes, da companhia que me fez na primeira viagem a Nova Iorque. E a sua última, pois partiu já lá vão quarenta. Muito cedo para perder o seu conselho, o seu aviso, a sua orientação. Ficou ao lado dos pais: do meu avô António, de que pouco me lembro e da “mãezinha”, a mãe dele que nunca quis ser tratada por avó. Era uma comerciante nata e, tendo levado a vida a percorrer as feiras da região, não deixou de comprar e vender o que calhava pelos caminhos da aldeia quando a saúde e a idade já a tinham “aposentado” das outras andanças. Fui seu “motorista” durante as férias de estudante para as feiras de Fafe, Vizela, Amarante e Felgueiras, ao volante do enorme carro americano Dodge, carregado de mercadoria e ouvindo sempre as histórias do que acontecera na próxima curva, com o “ali despistou-se o Joaquim”, “acolá rebentou um pneu ao sr. João e esbarrou-se naquela árvore”, num alerta permanente à minha condução.

“Vi” o tio Peixoto, que chegou a ser agente da autoridade para depois se ocupar da “loja” ou “benda”, como chamavam então ao misto de mercearia e tasca. Pelos Santos Populares fazia sempre uma “cascata” junto da “loja” ao seu santo padroeiro e mobilizava a catraiada para pedir “um tostãozinho para o S. João” aos poucos que ali passavam. Tornou-se “santeiro”, escultor de santos em madeira com um simples canivete e ainda conservo como relíquia preciosa uma imagem de S. José que me ofereceu. Ali também está a tia Miquinhas, mãe sempre presente de uma mão cheia de filhos, muito tranquila e doce. Percorri todo o espaço e revi velhos amigos. O Zé, da Armindinha, conhecido como Zé Desportista por gostar da bola, meu condiscípulo e amigo. O Domingos Passeira, que regularmente ia a casa dos meus pais para nos cortar o cabelo. O senhor Cunha da Quinta de S. João Velho, de rosto magro e tostado pelo sol. Na memória, vejo-o a amarrar o porco à “cabeceira” do carro de bois e espetar-lhe um “facalhão”. Eu gostava de ajudar a chamuscar os pelos do porco com um molho de palha “centeia” a arder e esfregar depois a pele com pedra e água. Logo que podia, arranjava-nos uma febra que íamos a correr grelhar na chapa quente do fogão. Revi o senhor Marques e a Adelinha, o sr. Cunha e o Fernando da Rosinha, pedreiros de profissão, tendo este procurado uma vida melhor por terras de França com a família. E vi ainda lá os “representantes” de gerações recentes. Nunca chegarão a velhos … Enfim, a geração anterior já lá está quase toda e uma boa parte dos do meu tempo já “foram andando”. Por isso, devo dar graças a Deus.

O cemitério é um lugar especial sobre o qual se criaram mitos, medos e fantasmas, mas onde deveríamos ir com regularidade, no encontro do presente com o passado, para tomarmos consciência de qual será o nosso futuro. Como a morte é um nivelador implacável, ali todos chegam iguais e ninguém é mais do que ninguém. Nenhum é mais importante do que o outro, mais poderoso, arrogante, bonito ou feio, rico ou pobre. Todos lá chegam despidos de “teres e haveres”. Só existe o “Ser”, porque deixaram de ter o que quer que fosse. Fora do portal, ficou o poder, a vaidade, a arrogância, a ganância, a avidez, além dos bens materiais, resultado de uma vida cheia de trabalhos, habilidades, canseiras, ganhos lícitos ou mera exploração de outros. Não passa um cêntimo sequer para pagar a “portagem” de uma vida para a outra. Por isso, o cemitério deveria ser um simples parque relvado onde todos seriam colocados em igualdade de “instalações”, com uma simples cruz para “ostentar” (para aqueles que creem Nele) e uma pequena lápide, sem distinções, sem exibições ou competições. Mas não. Visitar o cemitério é verificar que muitos recusam aceitar o “nivelamento”. E tudo se faz ao contrário, numa estúpida competição pelo mausoléu mais imponente na “guerra” com o vizinho, o familiar.

Nalgumas vezes para “aliviar a consciência” da forma como se tratou o morto em vida ou para se querer mostrar “a dor que se não sente”. E os granitos polidos do Brasil ou Angola e os mármores de Estremoz ou Itália servem na perfeição para “atulhar” o cemitério, colocando homenagens sentidas ao lado de mentiras, sentimentos de dor a par de atos de hipocrisia, sinais de humildade de frente com uma feira de vaidades feita pedras luzidias que se atropelam umas às outras na ânsia de sobressaírem onde tudo deveria ser igual. Sem mentiras, sem vaidades, porque os mortos são todos iguais e já não mentem mais. As mulheres, em regra, são as mais dedicadas aos seus, as mais persistentes em não deixar esquecer. Limpam, lavam, enfeitam, iluminam e embelezam com flores e lamparinas o exterior da campa. E sentem a falta. Mais do que nós.

Pensando bem, talvez faça como os outros e arranje um monumento. Vou mandar construir uma “torre” no meu “talhão”, bem alta, a tocar o céu, dotada de elevador ultrassónico e com um motor de foguetão. Assim, quando “for desta para melhor”, enfiam-me nela e só tenho de entrar no ascensor, carregar no único botão que diz “Céu” e seguir direto ao Reino Celeste sem passar pelo Purgatório nem queimar os pelos do rabo no Inferno, “apeadeiros” que são um “atraso de vida”.

Sei que é difícil largarmos o “Ter”. Só alguns poucos o conseguem em vida. Mas a morte liberta-nos desse “peso” e impede-nos de continuar a ele agarrados. Por isso, sejamos capazes de compreender e aceitar esse desprendimento de bens, títulos, exibicionismos e vaidades para sermos verdadeiramente“livres” e iguais por natureza …

Será que gostaria de ser grande?

Há momentos em que gostava de ser um homem grande. Não grande em importância ou fama, boa ou má, mas grande no tamanho, na altura, mesmo que não fosse “grande coisa”. Mas essa crise ataca-me a “mona” só nos momentos em que precisava de mais um palmo para ter visibilidade sobre a multidão, nada mais. Fico frustrado quando há um evento ou algo ocorre e quero ver o que se passa mais à frente, mas meia dúzia de “cabeçorras” colocadas à minha altura, tapam-me a visibilidade, como que propositadamente. Parecem maiores do que na realidade são. Não queria ser grande para ter pés grandes, pernas grandes e tudo o mais grande (e imagino que um homem assim deve ter mesmo tudo grande). Ser grande tem vantagens e inconvenientes. E se estou interessado nalgumas vantagens que isso me proporciona, já não digo o mesmo dos inconvenientes. Não são interessantes nem simpáticos e não são assim tão poucos: num espetáculo, homem alto é odiado por todos os que lhe estão atrás; quando é preciso retirar algo sem escadote do armário mais alto, ele é a “muleta” mais à mão; tanto no vestir como no calçar, fica muito mais caro, pois gasta mais pano, mais cabedal, porque nunca veste menos que XXL ou até XXXL; não encontra roupa nem calçado que lhe sirva com facilidade e tem de ir a casas especiais, que também devem ser especiais no preço; para ele, a cama tem de ser feita por medida senão, tem de dormir com os pés de fora; e, nas muitas situações em que as cadeiras são para gente normal, quando sentado, fica com as pernas encolhidas, em posição incómoda e ridícula. Imagino como será viajar de avião em classe económica, com pernas dobradas e os joelhos a empurrar o queixo para cima. Só pode usar um furgão como meio de transporte, para não ter de baixar a cabeça ou andar às turras ao tejadilho. Está fora de questão o uso de automóveis desportivos, a não ser que sejam descapotáveis ou com teto de abrir para viajar com a cabeça de fora. Caso contrário, resta-lhe como solução tirar o banco do condutor e sentar-se no chão do automóvel. E em dias de vento forte, tem muito mais dificuldade em segurar-se de pé, apesar dos sapatos parecerem duas raquetes de ténis. Tive dois colegas com mais de dois metros de altura, medindo um deles quase dois e dez. Causava-me impressão estar perto dele. Olhava e via um homem sem cabeça. Só quando levantava a minha inclinando o corpo para trás, é que me dava conta de estar completo. “Afinal, também tem cabeça”, pensava para mim.

Mas o que mais me impressiona num homem grande é que, por regra, tem de namorar com mulher pequena. Ou, pensando melhor, mulher pequena faz questão de namorar com homem grande. Talvez para compensar a “falta” com as “sobras”. Ou deve ser a física a funcionar: os polos opostos atraem-se. Um casal destes faz lembrar a história do gigante e do anão ou, traduzido na gíria popular, “a sorte grande e a terminação”.Dizem para aí que, num relacionamento como este, há “excedentes” que seriam desnecessários, pela mesma razão que, um bom carpinteiro, não usa “pregos galiota” para “pregar” madeira de forro…

Quando era miúdo dizia-se que um “homem grande” não precisa de escada para vindimar ou apanhar fruta. No entanto precisa de ter dois olhos no alto da cabeça, pois está muito mais sujeito a bater com a testa nas padieiras das portas do que alguém como eu. Apesar de ter passadas maiores e mais largas, não é sinónimo de correr mais do que um homem normal. E, se tem a cabeça num lugar mais alto que qualquer outro, não sendo sinónimo de “maior estatura moral” nem de inteligência maior, significa que, quando cai, o tombo é maior …

Dos meus colegas “grandalhões”, o tamanho foi decisivo para que um deles fosse atraído para o basquetebol. Dizia ele que tinha como vantagem o facto de “morar” mais perto do cesto. E morava. “Só por isso” é que, na disputa com ele, eu não apanhava uma.

É sabido que, de há um século até aos nossos dias, há um acréscimo na altura média dos adolescentes, de geração para geração. De tal forma que, num estudo efetuado entre os alistados no serviço militar no Brasil, verificou-se um aumento de oito centímetros na média no espaço de … dez anos.

A razão para se ser mais alto do que o normal é (quase) toda genética, embora as questões ambientais contam um pouco. Por isso, os pais baixotes não podem esperar que o filho “saia” uma “estaca”. Pode até acontecer, mas não é comum … e nem estou a desconfiar. A Holanda é tida como o país onde mais se tem crescido. De tal forma que a altura média dos holandeses é de 1,84m, enquanto entre as mulheres se situa em 1,71m, ultrapassando os americanos. Claro que, além da genética, importa uma boa nutrição, o controle das doenças comuns da infância, melhor qualidade de vida e exercícios físicos e desporto.  

Confesso que também não gostava de ser “baixinho”, chamado “roda vinte e três”, apesar deles dizerem que “têm uma visão privilegiada das mulheres com saia curta”, “de quando abraçam a namorada ficam com a cara enfiada entre o melhor de dois mundos”, “que numa briga de homens têm mais facilidades de golpear o opositor no saco dos berlindes” e que “como são leves, quando morrerem qualquer um lhes pega no caixão”.

Tamanho não é argumento. O importante é o uso que se faz dele. E, pensando bem, não sendo grande, também não sou pequeno. Não sendo alto, também não sou “baixinho”. Não calçando o quarenta e oito, também não calço o trinta e seis. Sinto-me bem como sou, chego onde quero e vejo até onde preciso ver. E, mais importante, tenho “a medida certa” para não ter dado grandes “tombos”, a suficiente para me ter levantado “sempre que caí”, o que é bem mais importante do que pensar que se vai estar sempre “lá em cima” ou “em baixo”. Aliás, o ditado popular até diz que “no meio é que está a virtude”. Embora eu não seja propriamente um homem virtuoso …

Importantes, mas invisíveis. Ou não…

Umas cuecas, que se dizem ter ficado esquecidas num hotel de luxo por Adolf Hitler, foram a leilão, tendo sido arrematadas por alguns milhares de euros. Só não sei se tinham bordado o monograma do ditador e, eventualmente, algum do seu odor corporal. A esse preço eu vendia todo o meu stock pessoal e ainda fazia um desconto de cinquenta por cento, promoção que já nem os supermercados são capazes de fazer. Mas não sou o símbolo do nazismo, nem de outro culto. E, confesso, comprar umas cuecas antigas, ao preço do ouro e fora de moda, eventualmente rotas e sujas, não é nada que esteja nos meus sonhos. Nem de perto, nem de longe… Nem para usar, nem para cheirar, nem para admirar a “coisa” como objeto de arte…

As cuecas, são a peça de roupa interior que protege as partes mais resguardadas de homens e mulheres. São a primeira barreira contra “despejos imprevistos” e a última defesa se “o castelo é assaltado”. Embora de eficácia muito duvidosa, tanto numa como noutra função…

Em miúdo, usava cuecas compridas e largas que me chegavam até ao joelho, feitas pela mão da senhora Emilinha, do Ferreiro, a costureira da minha mãe. Abertas à frente, fechavam com dois botões, se é que “fechavam” alguma coisa …

À medida que os anos e as modas passaram, o tamanho das cuecas foi sendo reduzido, tanto no comprimento como na largura, chegaram novos modelos havendo hoje uma multiplicidade tal que, como diz a publicidade da RTP, “o difícil é escolher”. Tudo depende do gosto, da ousadia e do exotismo. Pode-se optar entre o “slip” e o “fio dental”, os “boxers” e o “sungão”, entre o “fundoshi” e o “jockstrap”, para além do “samba-canção” e muitos outros. Também há variedade de cores, muito importantes quando as cuecas andam parcialmente à mostra…

Ao descobrir várias embalagens de cuecas no banco de passageiros do carro oficial da Prefeitura de Ribeirão Bonito, a Procuradoria do Brasil questionou o chefe do executivo, Chiquinho Campaner, para saber se o carro não estaria a ser usado para fins irregulares que não os autorizados da viatura oficial, face às peças de roupa interior ali encontradas. O Perfeito argumentou que as embalagens de cuecas andavam no carro por uma questão de segurança, para o caso de ter um desarranjo intestinal … Pelo que se sabe no município, nunca o tal Perfeito teve manifestações de “caganeira” pública …

Cá entre nós, não é do conhecimento público (pelo menos do meu) onde param as cuecas dos nossos políticos. Nem sequer interessa. Só se sabe que alguns têm feito muita m. . E tem sido tanta, que já nem estranhamos quando se descobre as “borradas” de mais algum. Podemos dizer que é natural, “tão natural como a nossa sede”, algo que já faz parte do nosso quotidiano … Noutros tempos, as cuecas eram uma espécie de “bastião”, a “torre de menagem” de proteção e último reduto onde se protegia o “poder” dos olhos inimigos sempre que a primeira defesa, as calças ou saias, caíam por acidente ou “ataque” intencional … Nesse objetivo, eram grandes, opacas e fortes, tal como a “torre” do castelo. Mas com o tempo e as modas, a “fortaleza” passou a mera decoração e enfeite, feito fio dental ou tira transparente que nada protege, nada tapa, mais feito “mel para atrair moscas” ou “enfeite para conquistar o inimigo” …

Para os supersticiosos, existem “cuecas da sorte” que fazem questão de usar em “momentos” de que se espera ser “bafejado” por ela. Não quero arriscar em dar grandes palpites de quais os “momentos” em que eles e elas consideram ser importante usar as “cuecas da sorte”, que mais não são do que as peças usadas à meia noite da Passagem de Ano. Será que a mudança do Ano Velho para o Ano Novo atribui poderes especiais às cuecas que trazemos coladas ao corpo por uma qualquer razão que a ciência não consegue explicar? E, afinal, qual a “sorte” que se pretende atrair? Arranjar alguém que ajude a comprar um saco delas? A lavá-las à mão? Ou a despi-las?

Sabe-se que a cor do artigo tem significado e que as cuecas vermelhas são sinal de paixão e amor. Se são cor de rosa, será pureza e beleza e as azuis, segurança e tranquilidade. Se as laranjas falam de conquistas, muito importante são as amarelas, a cor do dinheiro, da riqueza e da sabedoria. A ser verdade, meio mundo andava de amarelo canário e o outro meio … de amarelo torrado.

A variedade nas cuecas de mulher é tanta que, dizem os entendidos, existe um tipo para cada mulher. Das conservadoras às ousadas, das clássicas ás exóticas, das “fechadas a sete cadeados” às “abertas como um ouriço maduro”, das que “assustam” às que convidam, enfim, um mundo infinito de variedade. Se bem que, a “perspetiva” que muitos homens têm, pode ser um tanto “estranha”. Numa roda de amigos um deles contava que vira uma mulher esbelta, que todos conheciam, em cuecas. “E que tal”, perguntou a malta? “Como era ela”? Atrapalhado e como que apanhado em flagrante delito, conseguiu dizer: “De íntimo, não vi nada. Estava tudo tapado com as cuecas … “fio dental. Só vi o fio …”

As cuecas têm servido para alguns usos que nada têm a ver com o fim para que foram feitas. E não se sabe porquê (ou, se calhar, sabe-se), em muitas circunstâncias são o “bolso” onde alguns políticos do Brasil têm passado dinheiro sujo e em que as (e os) “strippers” aceitam que os (e as) entusiastas “enfiem” dinheiro em notas de certo valor. Por falar em sujidade, o entendimento desta é variável de povo para povo. As estatísticas dizem que na Irlanda do Norte, parte dos homens lava as cuecas uma vez por mês. Já dez por cento dos ingleses só lava depois de usadas sete vezes e duram entre quatro a dez anos. Por essa razão, o “fedor” é motivo para acabar com uns quantos relacionamentos. Dos portugueses não tenho estatísticas. Não sei se as usam uma ou dez vezes antes de as lavar. Uma coisa sei: se as cuecas tivessem “nariz”, ou morriam intoxicadas pelos gases que saem do “tubo de escape” que tapam ou habituavam-se ao cheiro e até podiam ficar “viciadas” e “dependentes” dessa “ganza”.

Num navio de cruzeiro uma senhora de 83 anos estava de pé junto da amurada. Com o tempo muito ventoso, segurava o chapéu para não lhe fugir da cabeça. Um cavalheiro inglês aproximou-se e disse-lhe: “Perdoe, madame, mas o seu vestido está a voar com o vento forte”. “Sim, eu sei”, disse ela, “mas preciso de ambas as mãos para segurar este chapéu”. O cavalheiro corou e exclamou: “Mas, madame, apesar das cuecas, a sua intimidade está exposta”. A mulher olhou para baixo e depois para o homem. Então sorriu e respondeu: “Senhor, qualquer coisa que vê, já tem 83 anos, ao contrário do chapéu, que o comprei ainda ontem”. Uma questão de prioridades …

O Latoeiro

Não nasci entre brinquedos de plástico nem sequer fui lavado em banheira de plástico, porque ainda não existia esse material que veio revolucionar a produção de embalagens, peças para automóveis, todo o tipo de acessórios, utensílios de cozinha, vasilhas e os milhares de artigos que hoje se fabricam com ele. O plástico só viria a entrar mais tarde nas nossas vidas. E então, como é que nós vivíamos, pergunta a geração de hoje? Como se transportava a água, de que eram feitas as diversas vasilhas, os brinquedos, embalagens e tantas coisas mais? Em suma, como era possível viver sem o plástico? Bem ou mal, ainda vivi muitos e bons anos sem sequer saber o que isso era. Muito bem, para benefício do planeta que ainda nem imaginava o que aí vinha para o poluir.

Bem para nós, porque apesar de não dispormos de um produto barato e moldável como o plástico, não morremos por causa disso. O facto de não haver plástico obrigava-nos a utilizar materiais que estavam disponíveis à época e a ser mais criativos. A maioria dos brinquedos eram feitos em madeira por algum habilidoso ou mesmo em casa, desde o peão ao espeto, da bilharda à fisga. Havia outros em barro como os apitos e bonecos diversos. E alguns ainda em chapa. O cântaro para ir à fonte era em barro, mais barato do que os feitos em chapa, que conhecíamos por “lata”, se bem que não saiba dizer qual o material mais usado no fabrico de vasilhas. Quem fabricava artigos em chapa (“lata”) eram chamados de “latoeiros” (e não de chapeiros).Perto da casa dos maus pais havia um, o Miro “Latas”, filho do senhor Paulino e da senhora Albertina e irmão do Alberto “espingardeiro”, herdeiro na habilidade, inteligência e criatividade. Tinha a oficina numa das onze casas do “bairro” que o meu pai mandou construir em 1951, numa conceção de habitação social avançada para a época. Não existindo a moderna maquinaria de hoje para trabalhar a chapa, toda a modelação era feita manualmente, com a ajuda de ferramentas bem rudimentares, algumas delas fabricadas por ele, tanto no fabrico de vasilhas (fosse o almude, o cântaro, o litro), como de caleiros para os telhados (e é bom lembrar que, não existindo qualquer maquinaria para cortar, dobrar e curvar a chapa, todo o trabalho era feito à mão, inclusive dar a forma arredondada ao caleiro, o que só era possível à custa de muitas marteladas…), almotolias, candeeiros, gasómetros,  funis e balsas (funil grande para trasfega do vinho), baldes para tirar água dos poços e outros utensílios.

Acendi muitas vezes a forja e dei à manivela para aquecer os ferros de soldar até pô-los em brasa. E era com estes ferros e um pouco de solda – feita ali, num cadinho, de uma mistura de estanho e chumbo em proporções de que já não me recordo – que a chapa, depois de moldada e recortada, era soldada a estanho.

Foi na sua oficina que vi nascer um cântaro de “lata” que depois de pronto revestiu com placas de cortiça virgem. Entregue à cliente, só o voltei a ver quase um mês depois nas Festas da minha terra em honra de S. Gonçalo, embrulhado em folhas de hera, à cabeça da mulher que o encomendara, apregoando a água doce e fresca (da mina). Ainda bebi um “caneco” desse refresco, de uso coletivo e sem direito a ser lavado (não deviam existir micróbios nesse tempo…), que a mãe me comprou para matar a sede. Sabia a limão e era uma maravilha …

Foi com o “Latoeiro” que aprendi a fabricar vinho doce, incluindo a própria “vasilha de fermentação”, que é muito interessante. Depois de uma tarde de aulas na escola primária, fui até à sua oficina e dali fomos às uvas “morangueiras” aos Morgadinhos, já maduras e com aquele cheirinho típico que nos aguça o apetite. Depois de encher a barriga, ele entrou pelo campo de milho dentro até encontrar uma abóbora, pois era costume na região semear abóboras e feijões entre o milho. Tirou então uma navalha do bolso e com ela fez um corte em quadrado na parte superior da abóbora, como se fosse uma tampa, que retirou com a ponta da lâmina. Depois, meteu a mão pelo buraco e retirou todo o miolo, incluindo as sementes, num processo rápido de limpeza eficaz, acabando por construir como que uma pequena “vasilha”. Assim preparada, foi só enchê-la com uvas “morangueiras” e esmaga-las à mão para fazer o mosto. Para completar o trabalho, foi recolocado o quadrado que servia de tampa, com um pequeno corte para entrar o ar, mas de tal forma que o lavrador se passasse por ali não se apercebia que a abóbora tinha sido “violada” e transformada numa “pipa”. Dois dias depois voltamos ao local do “crime” para beber vinho doce como o mel através duma cana da índia furada. Aprendi tão bem a lição que, por mais alguns anos, repeti a dose, mas já sem a orientação e presença do “professor”, mas de outros alunos.

Na casa ao lado trabalhava o Avelino, “pauzeiro” de profissão. Fazia manualmente os “cascos” em madeira de amieiro para a fábrica de tamancos dos Eidos Novos. Meu irmão António, eu e outros rapazes de então eramos assíduos frequentadores da casa dele, passando horas e horas junto ao “banco” do Avelino em amena conversa depois das aulas. Quando o Miro estava a trabalhar na “oficina”, também por lá nos perdíamos até porque, além de ser inteligente e perceber do ofício, também tinha jeito para a malandragem, sendo o “cérebro” das incursões que se faziam ora ao vinho doce do lagar da Quinta de Talhos, aos melões da Quinta do Souto ou às cerejas nas Cepas, para onde mobilizava o grupo. E com a cumplicidade do Avelino, de vez em quando pregava-nos uma partida, sendo a mais comum fazer sentar a “vítima” num banco de madeira preparado para o efeito. Faziam-lhe dois furos muito finos e num deles enfiavam uma agulha com o bico para cima, presa numa linha que passava pelo outro furo. Quando a “vítima” se sentada no banco, um deles puxava pela linha e esta fazia subir a agulha no buraco, picando-lhe o traseiro e fazendo com que desse um salto. Só depois de duas ou três picadelas ou dos sorrisos contidos das testemunhas é que a “vítima” descobria a razão do “desconforto” daquele banco.

Até partir para a “terra” onde não são necessários artefactos em lata, manteve-se na profissão já adaptado às novas tecnologias, aos novos materiais e à nova designação que lhe conferiram na sua profissão: picheleiro. Embora para mim, mesmo quando o encontrar naquele lugar onde não se devem fabricar vasilhas de “lata”, ele não deixará de ser o “Latoeiro”, amigavelmente o Miro “Latas”, a quem não posso deixar de agradecer as “lições” que me deu enquanto “professor”.

O fascínio pelos “exclusivos”…

Catarina (e não me perguntem se é esse o seu verdadeiro nome) deu entrada na igreja onde se realizava o casamento, confiante no sucesso que o seu vestido novo iria fazer. Era um modelo “exclusivo” que viu numa passagem de moda organizada pela boutique onde costumava comprar a sua roupa. Quando aquela modelo passou junto de si, deu-se o “clique” e viu logo que tinha de ser “aquele vestido” lindo, único exemplar da loja e, por isso, um “exclusivo” que mais ninguém teria. Fez sinal de imediato à dona da loja. O gesto que selava a compra. Só alguns dias mais tarde passou o cheque sem discutir o preço, porque os “exclusivos” não têm discussão no que toca ao valor, já depois de ter estado na loja para os “ajustes” do vestido, por forma a que ele lhe “assentasse como uma luva”. Ao lado do marido, fazia um tremendo esforço para caminhar a direito e olhar em frente com a pose altiva própria de uma rainha, pois a sua vontade pedia-lhe que olhasse de um lado para o outro e gozasse o triunfo espelhado nas expressões e nos olhares das outras, o que não lhe saía do pensamento. O marido deu-lhe passagem para se sentar num banco vazio a meio da igreja, o que fez com pose estudada de “mulher produzida”.

O templo foi-se enchendo com muitos outros convidados e, pouco antes da noiva fazer a sua entrada pela porta do fundo ao som da marcha nupcial, quem surgiu vindo da lateral foi um enorme “pesadelo” para a sua autoestima e uma grande “machadada” na sua vaidade: “Outra convidada com um vestido rigorosamente igual ao seu”. Até os sapatos eram parecidos com os que trazia calçados. Como era possível? O seu vestido “era um exclusivo”, não podia haver outro igual. Fora enganada pela dona da loja de quem era “amiga” há tantos anos? A cara transfigurou-se em poucos segundos. A imodéstia e riso superior deram lugar ao ar de surpresa pelo inesperado, acabando num rosto fechado, revoltado e desejoso de vingança. Precisava de um bode expiatório onde despejar a sua raiva. Quando o marido lhe disse qualquer coisa ao ouvido, fuzilou-o com o olhar. Num instante ele passou de “bengala a vítima”. Mas lá se aguentou até ao final da cerimónia. No entanto, quando saía do seu lugar para se dirigir à entrada da igreja e aguardar a passagem do novo casal, deu de caras com outro vestido igual ao seu “pendurado” no corpo de uma jovem convidada ao fundo da igreja. Mais tarde confessou ter desejado que se abrisse um buraco para desaparecer e fugir daquela situação tão incómoda e constrangedora que nunca lhe acontecera.

E acabou por ser condescendente e até sentir pena das outras duas convidadas, suas “sósias de traje” e “companheiras de desdita”, que deviam ter sentido a mesma humilhação que ela sentiu. Pois é. São histórias da vida dos “exclusivos” …

O ser humano é assim mesmo. Quer estar no “topo da pirâmide”, no lugar único onde todos o invejem. Para isso precisa de ter aquilo que todos desejam, mas mais ninguém tem.  Daí adorar “arrear” modelos de roupa exclusivos e únicos, calçar “ferraduras” com entalhes em ouro que não são acessíveis ao comum dos mortais, conduzir e ser dono daquela “carroça” da Ferrari, modelo F12 TRS de que só foram fabricados dois exemplares, frequentar o “tal” clube de empresários muito exclusivo e de acesso extremamente restrito, ter casa e morar no condomínio residencial só para gente privilegiada, fazer as suas refeições em restaurantes “gourmet” de “Chefe” premiado com duas “estrelas Michelin”, enfim, usufruir de “exclusivos”, se possível algo que mais ninguém possua ou seja de acesso limitado a determinados indivíduos selecionados. Faz parte da natureza humana querer ser único e diferente dos outros.

O caso das roupas é um bom exemplo, esquecendo-se as clientes que os tais “modelos únicos” o são naquela loja, mas não no país todo. Porque, quem os produz, não se limita a fabricar só um exemplar, que teria de ser demasiado caro. Assim, faz uns quantos de que vende um em cada vila ou cidade, batizando-o de “exclusivo”. E é, naquela loja. E é, o único a ser vendido naquela terra. Só que, à procura do vestido ideal para um casamento ou para outra cerimónia qualquer, uma mulher corre “este mundo e o outro” feita detetive e acaba por encontrar um exemplar seja onde for. E depois há “incidentes” como o da Catarina, muitos outros que conheço e muitíssimos mais de que nem faço ideia…

Mas a obsessão pelos exclusivos não é um “exclusivo” das mulheres. O pessoal do sexo masculino também anseia poder usufruir. Quantos homens não querem fazer parte do “tal clube privativo” onde só se entra por convite e condicionado à aprovação dos outros, apesar da “joia” de entrada custar uma fortuna? São clubes de acesso exclusivo, limitado somente a “alguns”, onde “eleitos” só convivem com outros “eleitos”. É algo como estar no Olimpo, onde só os doze Deuses da Mitologia Grega convivem entre si … E como faz bem ao ego ser “algum” dos eleitos, porque não um dos “deuses”!!! Nesse, como em outros, a maioria dos “exclusivos” pelos quais os homens “correm” têm como objetivo o negócio, o estar num outro nível de contactos que dão acesso a maiores interesses comerciais. O “Ego” a pensar no “bolso”. Já as mulheres, perseguem os “exclusivos” pelo exclusivo, esse desejo íntimo de possuírem o que mais nenhuma tem, de ser a “rainha do baile” na “dança da vida”.