Category Archives: Uncategorized

Somos tema mediático, mas de baixa cotação…

Na corrida dos dias e na estranha pressa de viver o amanhã à espera de que seja bem melhor que hoje, não chegamos a usufruir de tudo aquilo que temos no presente, no agora. E a prova disso é que não nos demos conta do quanto nós éramos felizes até há somente dois meses atrás, um passado tão recente e que todos nós, sem exceção, queríamos ter de volta. Como não nos apercebemos de muitas outras coisas que são parte da nossa vida, mas que os dias de pressa deixam ficar para trás, esquecidas ou abandonadas, enquanto o nosso tempo se perde. E nessa pressa, aqueles que têm mais idade seguramente são os primeiros a ser descartados, ignorados, abandonados à sua sorte. Numa pequena frase, Domingos Lopes disse mais que muitos num grande tratado: “num mundo dominado pela implacável mão justiceira do mercado, o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para inventário”. Por isso, é marginalizado, contentado com pouco, deixado preso a um qualquer lugar onde não incomode e não seja visto, para sossego de consciências. Mas às vezes alguém olha para o mundo que o rodeia com olhos de ver e levanta a voz. Aconteceu com o economista Jorge Silveira Botelho no momento em que o seu olhar atento se fixou naqueles a quem o tempo já não cede muito tempo: 

“Só um imbecil é que é indiferente ao sofrimento dos outros, mas não é por isso mesmo, uma maior prioridade, defendermos como maior princípio procurar dar condições dignas aos que são abandonados pela sorte e que querem viver, mas não têm como? Não é por esses idosos que se amontoam nos sítios mais inóspitos, que devemos lutar pelo seu direito também a terem uma vida decente e não a continuar a fingir que não existem? Se calhar andamos a esfregar as mãos há demasiado tempo, desviando as atenções para causas que se fecham em si mesmas e ignorando deliberadamente o flagelo oculto que está a assombrar a terceira idade. Porque a continuar assim, a pobreza envergonhada que se esconde por detrás do envelhecimento desta sociedade, vai ter como destino uma paragem obrigatória na “Boa Morte”.

É bom que tenhamos consciência que vamos ser o fardo de amanhã e que corremos o risco de que também ninguém queira pegar em nós, nesta sociedade envelhecida, endividada, desigual e profundamente egoísta. Somos os próximos a querer ocupar o tempo que os outros não têm para nos dar e que nos vão querer fazer sentir que estamos a mais, porque somos uma fonte enorme de desperdício de recursos …

Talvez nem nos vamos aperceber, mas podemos ser os próximos a sentirmo-nos envergonhados, simplesmente por querer reivindicar o direito de viver!”

Sejamos realistas, usando o chavão “este país não é para velhos”. É a sociedade que criamos e temos, política, económica e culturalmente. Salvo em momentos pontuais, como é o caso dos períodos eleitorais em que são muito requisitados, adulados, distinguidos, considerados, reconhecidos, elogiados e, sei lá, objeto de inúmeras promessas (que não passam disso mesmo, de promessas), por regra são ignorados e esquecidos pelos poderes públicos, quando não pela família. Se houve um tempo em que eram respeitados na família e na sociedade pela sabedoria, experiência e história de vida, os ventos da sociedade do século XXI e o aumento da longevidade fizeram deles um peso morto para o estado e família (salvo muitas e boas exceções), condenados ao canto do esquecimento como trastes inúteis e descartáveis. E nem sequer o facto de viverem com familiar é garantia de serem tratados com respeito e consideração e de estarem protegidos de maus tratos físicos e psicológicos.

Ora, estes mais de dois milhões de portugueses (é, ainda continuam a ser portugueses!), como se não lhes bastasse os problemas referidos, são agora o alvo privilegiado para essa “coisinha” que anda por aí e não se vê. Um alvo em função do “bilhete de identidade”, agora feito cartão de cidadão, por terem nascido há muitos anos. Pelo que dizem, o vírus discrimina os velhos, ataca-os e leva-os à morte antes daquele tempo que eles julgavam ser o seu. Nada a que os velhos não estejam habituados, pois a sociedade de mercado em que vivemos, onde vale só quem produz, também os discrimina, pois além de não produzir, ainda ocupam espaço necessário, consomem grande quantidade de recursos à sociedade, são um empecilho e não se sabe bem que fazer com eles. E, com franqueza, isso é cá uma grande chatice …

O aparecimento desta pandemia, trouxe à ribalta “esta faixa etária da população” (como agora se diz), deu-lhes visibilidade e até são muito falados, coisa que não acontecia há muito tempo. Esse pequeno vírus 

deu-lhes protagonismo, fez deles o tema principal das notícias, pois todos os dias aparecem na imprensa como “objeto de estatísticas” na contabilidade dos números apresentada nos telejornais à hora das refeições. “Morreram 15 idosos num Lar em …” ou “60% dos mortos tinham mais de 70 anos”, relatam os apresentadores. O vírus dá-lhes a prioridade nos noticiários que nunca tiveram e agora “compõem” os números, fazendo com que as estatísticas tenham dimensão, diria até, grandeza. Mas, não tenhamos ilusões. Quando esta crise passar e tudo voltar ao normal, os que por cá ficarem voltarão à sua condição de ignorados, esquecidos e abandonados, o lugar que tem sido o seu.

Na impossibilidade, verdadeira ou não, da família ser o seu “porto de abrigo”, os Lares são a alternativa, o mal menor para quem não pode nem deve estar só. E tem sido precisamente nestes locais que o vírus tem provocado a maior razia, qual “raposa em galinheiro”, quando o contágio não consegue ser contido. Sinto o drama, a incapacidade, o desespero e o medo daqueles que nesses lugares têm de travar uma batalha continuada e difícil, numa missão quase impossível “para salvar os seus velhinhos” de uma doença que lhes pode ser fatal. 

Eu sinto-o profundamente porque, na grande maioria, as Instituições não têm recursos adequados para este combate, que exige espaços, colaboradores substitutos para as “baixas em combate” e todos os equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade. E o Estado, a quem cabe a responsabilidade de cuidar dos idosos, “passa a bola” às instituições a troco de uma comparticipação ridícula que as deixa “em maus lençóis” para a gestão do dia a dia, quanto mais para travar um combate como este para o qual não têm “nem armas nem munições”. O Estado comparticipa os custos duma pensão rasca, mas exige hotel de cinco estrelas. E sinto muito as críticas que têm sido feitas a instituições que fizeram o seu melhor, com os (poucos) meios que o (pouco) dinheiro lhes permite. Seria muito mais justo que o Estado relevasse o trabalho excecional das Instituições, em vez de salientar nas conferências de imprensa a contabilidade de mortos em Lares, como se estes fossem local de “condenados à morte”. Uma luta inglória que, essa sim, é bem injusta …

E nem na hora da verdade o Estado assume a responsabilidade dos idosos ainda infetados, empurrando-os à pressa de volta aos Lares como se estes fossem aquilo que não são: hospitais … E não tenhamos ilusões: para um Estado pobre e demasiado endividado, quando tiver de deliberar sobre onde fazer o investimento, seguramente os velhos vão ser esquecidos, como o foram noutros países quando, por falta de ventiladores, foi preciso decidir quem vivia e quem morria. É, já não compensa “ligá-los à máquina”, porque são “Velhos” …   

Homens, estou solidário convosco …

Este tempo de “isolamento social” pode ser “delicado”, senão mesmo perigoso, ao alterar profundamente as horas de “convivência” entre marido e mulher, companheiro e companheira. Em situação normal só estão juntos à noite (a maior parte do tempo a dormir) e ao fim de semana. Mas agora, o “fim de semana” é permanente e convivem dia após dia. Sejamos realistas, não é fácil. Sobretudo para os homens. É que todos nós sabemos quem é lá em casa o “homem” da relação! Mas há que ter cuidado com o sorriso da mulher. Se ela for capaz de sorrir quando tudo está mal … é porque já pensou em quem deitar a culpa.

Pela minha condição e vivência, estou solidário com os homens (elas que me desculpem), permitindo-me fazer-lhes algumas sugestões.  Quando perguntamos à mulher “o que se passa?” e ela responde “não é nada” ou, num tom seco e ríspido diz “naaaaaada”, de cara amuada, (que em gíria popular se traduz “de trombas” ou “de quem está com o toco”), é precisamente o contrário. Ela sabe, e nós sabemos, que algo não lhe caiu bem, que alguma coisa a incomoda. O quê? Se julgarmos que vai ser fácil descobrir “que mosca lhe mordeu”, estamos muito enganados. Em regra, não é nada fácil perceber ou só será possível depois dela “fazer muitas fitas”. E vai ser precisa uma grande dose de paciência, num jogo de (falsa?) preocupação, porque é isso que ela quer. Que fiquemos preocupados. Porque gosta de sentir essa nossa preocupação (real ou falsa). Dá-lhe um enorme prazer “assistir” ao “sofrimento” do “escravo”, como se aí esteja a sua redenção.

Se ela perguntar “este vestido faz-me gorda?”, é preciso ter cuidado a responder, porque “podemos ser presos por ter cão e presos por não ter”. A pergunta tem rasteira, porque ela tem consciência que aquele vestido a faz gorda. Assim, como já conhece a verdade, mas não quer ouvi-la da nossa boca, precisa de arranjar um “bode expiatório” pelo facto de o ter comprado e sentir-se desapontada por lhe ficar justo demais, fazendo realçar aqueles pequenos pneus à volta da cintura. Atenção, não lhe podemos dizer que a faz gorda, porque é disso que ela está à espera, para nos cair em cima dizendo que “não gostas de mim” ou “achas mesmo que sou gorda?”. Mas se cairmos também na patetice de lhe esconder a verdade, que é evidente, a reação poderá ser ainda pior com um acalorado “estás a mentir” ou “não é isso que estás a pensar”. Entre uma resposta e outra, há que escolher terceira via, uma alternativa e optar por não responder, porque nestes casos ela não quer ouvir resposta nenhuma da nossa parte. É uma pergunta somente para se ouvir, um desabafo atirado ao “vento”, que somos nós. E o vento nunca lhe responde, porque é mais inteligente do que nós. Ainda podemos optar pela fuga, inventando uma desculpa bem conseguida e fundamentada, para não dar azo a sermos “apanhados a mentir”. O argumento de que “temos de ir urgentemente à casa de banho” ou outro bem consistente, não pode deixar dúvidas para que a saída seja airosa. Lembremo-nos sempre que “a esposa é a mulher que está ao nosso lado para nos ajudar a resolver os problemas … que não teríamos se não estivéssemos casados”.

Por norma nunca estão satisfeitas, nada lhes agrada. Senão, vejamos: foi inaugurada em Nova Iorque The Husband Store (Loja do Marido), uma loja moderna e incrível onde as mulheres podem ir escolher um marido. Na entrada, as clientes recebem instruções de como a loja funciona: podem visitá-la APENAS UMA VEZ! São seis andares e os atributos dos maridos à venda melhoram à medida que vão subindo os andares. Mas há uma regra: podem comprar o marido escolhido num andar ou optar por subir mais um. MAS NÃO PODEM DESCER, a não ser para sair da loja diretamente para a rua. 

Foi assim que a mulher entrou na loja para escolher um marido. No primeiro andar havia um cartaz na porta: “1º Andar – Aqui todos os homens têm bons empregos”. Não quis ficar por ali e subiu mais um andar …

No andar seguinte o cartaz dizia: “2º Andar – Aqui os homens têm bons empregos e gostam de crianças”. Mas ela não ficou satisfeita e subiu ao seguinte …

No terceiro andar, o aviso dizia: “3º Andar – Neste piso, os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças e são bonitões”. “Uau!”, disse ela, mas achou que no andar de cima seriam melhores.

No andar seguinte o cartaz anunciava: “4º Andar – Aqui os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças, são bonitos e gostam de ajudar nos trabalhos domésticos”. “Ai meu Deus”, disse a mulher. Mas não resistiu à tentação e continuou a subir …

No piso seguinte lia-se no letreiro: “5º Andar – Aqui os homens têm ótimos empregos, gostam de crianças, são bonitões, gostam de ajudar nos trabalhos domésticos e ainda são extremamente românticos”. Mas, como ainda não estava satisfeita, subiu até ao sexto andar, onde encontrou o letreiro seguinte: “6º Andar – Você é a visitante número 31.456.012 deste andar. Cá não existem homens à venda. Este andar existe apenas para provar que as mulheres nunca estão satisfeitas e é impossível agradar-lhes!!!” Obrigado por visitar a Loja dos Maridos.

Anos mais tarde abriu uma loja do outro lado da rua, a Loja das Esposas, também com seis andares e idêntico regulamento para os compradores masculinos. O primeiro andar anunciava mulheres que adoram sexo. No segundo andar, propunham-se mulheres que, além de gostarem de sexo, gostam de cerveja. Sabe-se que os andares três, quatro, cinco e seis nunca foram visitados. Caso para dizer: “que tipo de gente é esta, que se contenta com tão pouco!!!”

E, cuidado com o telemóvel. Não sei se já conhece aquela nova loja de tecnologia, com um grande cartaz na porta a anunciar: “Conseguimos recuperar as mensagens apagadas do telemóvel do seu marido”. Se for lá espreitar, encontrará sempre quatro filas ao longo do passeio que até dão a volta ao quarteirão, todas de mulheres a querer entrar na loja …

Falta o Cristo na minha cruz de flores

A campainha da rua tocou. Era o senhor José que queria falar comigo. Abri-lhe a porta, mandei-o entrar e dirigi-me a ele de mão estendida. De imediato, ele deu dois passos atrás e olhou-me muito admirado, como se eu tivesse cometido o maior sacrilégio. Só então me lembrei que já não há lugar a cumprimentos, muito menos a beijos e abraços. Temos de ficar à distância uns dos outros, afastados, até daqueles de quem gostamos … 

Este é mesmo um tempo único, algo que nunca vi, nem imaginei ver. Se me falassem em algo do gênero, diria que só acontecia nos filmes de ficção científica. No entanto, há cinco anos atrás o multimilionário Bill Gates já fazia palestras a alertar que isto viria a acontecer mais dia menos dia e que os países se deveriam preparar para quando esse momento chegasse. Por alguma razão se tornou no homem mais rico do mundo … por muitas razões ninguém o quis ouvir … 

Ora, sendo este um tempo único, veem-se as coisas mais invulgares, originais, estranhas e absurdas, tal como os comportamentos de uns e outros: algum dia pensei ver mais de dois mil milhões de pessoas enclausuradas em casa, naquilo a que chamam “isolamento social”, caso único na história da humanidade? Como é possível um mundo parado, com milhões e milhões de fábricas e todo o tipo de recintos desportivos, recreativos e culturais encerrados? Algum dia imaginei ver missas e todo o tipo de celebrações religiosas sem fieis? De ver as lojas, ginásios e estabelecimentos de ensino diversos sem a atividade que os caracteriza, sem dia nem hora para reabrir? Não é no mínimo estranho ver uma fila em que as pessoas estão dois metros ou mais separadas umas das outras? Que se passa para que, das pequenas vilas às cidades de milhões e milhões de habitantes, as ruas, praças e avenidas estejam desertas, como se os seres humanos tivessem ido para nenhures? Se há gente a cumprir religiosamente os cuidados recomendados na prevenção contra o vírus, há também quem nem sequer acredite que ele existe (como houve e ainda há, quem não se convença que há cinquenta anos Neil Armstrong foi à Lua).

Se há quem respeite e cumpra o isolamento social para conter a pandemia, por acreditar ser a melhor forma de cuidar de si, além dos outros, também sabemos existir demasiada gente que não tem qualquer respeito pelo aconselhamento das autoridades, nem sequer das leis que os obrigam a ficar em casa. Viu-se nas longas filas das estradas e autoestradas deste país, como se fosse um tempo de férias. A par do açambarcamento de alguns, há a partilha de outros. Contrariando a especulação vergonhosa de oportunistas, vimos dádivas solidárias de gente bondosa. Ao lado dos profissionais de saúde entregues à nobre tarefa de salvar vidas cuidando dos outros até à exaustão, há quem não esteja disponível para colaborar nas coisas mais básicas, como se não fosse nada com eles. Enfim, um mundo parado, feito de heróis e do seu oposto, sem atividade, mas com esperança … 

Nunca se viu um dia de Páscoa assim, em que não pudemos celebrar juntos a Ressurreição de Cristo. Ficamos privados da visita pascal, de receber o Senhor em casa, pela mesma razão pela qual a ela estamos confinados. Para compensar a perda e afirmar a condição de crente,

durante a manhã apanhei algumas camélias, abri a porta da rua e fiz uma pequena cruz florida à entrada. Depois, fiquei ali a olhar aquela cruz colorida onde faltava um Cristo que lhe desse sentido e lembrei-me dum texto escrito por Graça Alves, que se ajusta perfeitamente à minha cruz de flores, simples, mas colorida. Como ela, fiquei a pensar que o Cristo que falta na minha cruz, está de Serviço. Mas é preferível deixar que as suas palavras, que reproduzo, emocionem os leitores como me emocionaram a mim:

 “Tenho a cruz à porta. Vazia. Ok. O Cristo da minha cruz foi cuidar de quem cuida, vestiu a bata e anda pelos hospitais do mundo inteiro a segurar a vida que anda suspensa nos beirais da História.

O Cristo da minha cruz vai dentro das ambulâncias que correm pelas cidades desertas, em lutas contra o tempo e contra a morte e foi percorrer o mundo inteiro, evitando os desesperos de quem não sabe como vai ser a vida a seguir.

O Cristo da minha cruz foi suster o ânimo dos que criam as vacinas, os medicamentos, um meio seguro de nos salvar a vida. Foi ajudar quem trabalha na terra, quem foi pescar, quem faz o pão e mo entrega em casa.

O Cristo da minha cruz foi abraçar os braços vazios de abraços, foi dar a mão a quem morre sozinho, foi limpar as lágrimas dos que não podem dizer adeus a quem amam, dos que andam nas ruas vazias a recolher o lixo, a desinfetar as praças, a limpar o medo e a acompanhar as solidões que espreitam as esquinas.

A minha cruz está vazia. E eu sei (sabemos todos) que esta Semana Santa será Maior do que tantas Semanas Santas das nossas vidas: Cristo lavará os pés a todos os que, exaustos, não desistem de lutar pela vida e beijá-los-á, certamente, porque são esses os pés que, nos nossos dias, anunciam a esperança e fará com eles a Ceia de Quinta-Feira; estará à beira dos que sofrem e morrem, ajudando-os a percorrer o caminho que une o chão ao infinito e consolando os que, à beira das cruzes que se erguem no mundo inteiro, têm o coração em frangalhos.

O Cristo da minha cruz (vazia, minha cruz) está vivo. É o rosto cansado dos que não veem os filhos há muitos dias, porque têm de os proteger. Está nas mãos dos que enfrentam o medo (todos têm medo) para ajudar quem precisa. Enxuga as lágrimas dos que estão sós. Está nos que têm de tomar decisões (difíceis, as decisões). Está nos que nos mantêm informados e nos dão esperança no meio do povo. E não o deixa cair na tentação de desanimar, apesar de todos os cansaços, apesar de tudo.

Tenho a cruz à porta. Vazia. O Cristo mudou-se para dentro de cada um”.

“A vida é hoje. Não deixes para depois”

Sem sequer o imaginar, a jornalista da RTP Sandra Felgueiras já me tramou com uma parte do seu trabalho no último programa “Sexta às 9”. E porquê? Porque andei eu a escrever uma crónica durante esta semana a propósito do uso ou não de máscaras de proteção por toda a gente quando sai à rua a exemplo do que fazem os orientais e ela, ao tratar do mesmo assunto, com outros dados que não aqueles a que eu tenho acesso, retirou-me o “protagonismo que tanta falta me faz para a minha vaidade pessoal e o meu Ego”. Paciência, tenho de arranjar outra conversa para esta crónica semanal, senão a direção do TVS corre comigo sem “direito a indemnização. Agora, o artigo já pecaria por tardio, correndo mesmo o risco de ser acusado de copiar algumas informações que ali deu. 

Não sendo médico nem sequer especialista em questões de saúde, ao ler e ouvir diversas opiniões, estatísticas e dados cronológicos da evolução do novo vírus no mundo e usando o senso comum, nesse esboço defendia o uso de máscara por todos nós sempre que vamos à rua porque, boa ou má, certificada ou de fabrico caseiro, tem de reduzir drasticamente o contágio. Se eu usar e o outro com quem falo usar também, há uma dupla proteção por mais fraco que seja o tecido. Já o tinha lido, mas a jornalista desenvolveu bem a comparação entre a República Checa e Portugal, países com a mesma população. Lá, o primeiro infetado surgiu a um de Março, enquanto aqui apareceu no dia seguinte. E se nas duas primeiras semanas a evolução da doença foi em tudo semelhante nos dois países, a partir do momento em que lá foi decretado o uso obrigatório de máscara, o aumento de mortos e infetados disparou em Portugal enquanto por lá foi subindo lentamente, ao ponto de hoje, com pouco mais de uma semana, a perda de vidas na República Checa ser quatro vezes menos do que em Portugal com esta doença. 

Mas estes dados já vinham da China e outros países orientais onde, até por razões culturais, o uso de máscara é normal nestas e outras situações semelhantes, pois as perdas de vidas por milhão de habitantes são muito inferiores ao que se passa no ocidente, onde teimamos em andar na rua ou às compras sem proteção, como se fôssemos imunes ao vírus. Verdade é que até Trump e Bolsonaro já se converteram à realidade, embora à custa de muitas mortes talvez desnecessárias. Por cá, apesar da mudança do discurso oficial, ainda andamos “a ver no que param as modas” … 

Já que me “mataram” o tema que tinha para esta edição, substituo-o pela morte do “depois” provocada por uma razão qualquer, agora até pelo Covid-19. Todos aqueles que andaram a atirar para “depois” uma viagem, encontro de colegas de curso, reunião de amigos, ida à Festa do Fumeiro, das Fogaceiras, dos Tabuleiros ou qualquer festa emblemática que há muito tempo gostariam de fazer mais longe ou mais perto, mas se foi deixando para o “depois”, agora não sabem quando, como, nem sequer se o vão poder fazer. Isso e muitas outras coisas que teimamos em “postergar”, isto é, deixar para depois. Sobre tal, nada melhor (e mais fácil para mim) do que transcrever um texto de autor anónimo que acho encantador.   

“O tempo não pode ser segurado: a vida é uma tarefa a ser feita e que levamos para casa

Quando vemos, já são 6 horas da tarde

Quando vemos, já é sexta-feira

Quando vemos, já terminou o mês

Quando vemos, já terminou um ano

Quando vemos, já passaram 50 ou 60 anos

Quando vemos, nos damos conta de ter perdido um amigo

Quando vemos, o amor da nossa vida parte e nos damos conta que é  tarde para voltar atrás …

Não pares de fazer alguma coisa que te dá prazer por falta de tempo

Não pares de ter alguém a teu lado ou de ter prazer na solidão

Porque os teus filhos subitamente não serão mais teus e deverás 

 fazer alguma coisa com o tempo que sobrar

Tenta eliminar o “depois” …

Depois te ligo …

Depois eu faço …

Depois eu falo …

Depois eu mudo …

Penso nisso depois …

Deixamos tudo para depois, como se o depois fosse melhor, por que não entendes que: 

Depois, o café esfria …

Depois, a prioridade muda …

Depois, o encanto se perde …

Depois, o cedo se transforma em tarde …

Depois, a melancolia passa …

Depois, as coisas mudam …

Depois, os filhos crescem …

Depois, a gente envelhece …

Depois, as promessas são esquecidas …

Depois, o dia vira noite …

Depois, a vida acaba …

Não deixes nada para depois, porque na espera do depois se podem perder os melhores momentos, as melhores experiências, os melhores amigos, os melhores amores …

Lembra-te que depois pode ser tarde

O dia é hoje, não estamos mais na idade em que é permitido

postergar.

Talvez tenhas tempo para ler, compartilhar ou talvez deixes para depois …”

Nada na vida é dado por adquirido…

Devo ter medo. Devemos ter muito medo, porque o mundo à nossa volta está inseguro, perigoso, eventualmente letal. Nalguns países, descontrolado, a caminho do caos. Se folhearmos jornais dos últimos dias, em Itália e Espanha a secção de óbitos tem mais de uma dúzia de páginas. E tudo por causa do novo “coronavírus” que, no dizer de quem sabe, nem sequer é um organismo vivo, mas “uma molécula de proteína coberta por uma camada protetora de gordura”. Invisível a olho nu? Certamente, mas só é “invisível” para quem não quer vê-lo, tal é a velocidade de propagação e a dimensão das consequências. Um vírus, um simples vírus anónimo, desconhecido e microscópico. Já nos tirou muito, mas pode tirar-nos muito mais. Para começar, já nos tirou a segurança, a certeza de um amanhã tranquilo e saudável. Tirou-nos salários, rendimentos, trabalho, além da possibilidade de exprimirmos os afetos através dum abraço, dum beijo, duma carícia ou de um simples cumprimento. Colocou-nos à distância dos outros, alegadamente para não o espalharmos por aí, mas sem certezas pois não o vemos e nem sabemos se o temos ou o tem aquele com quem falamos. É um jogo de “cabra-cega”, jogado às escuras e de olhos bem vendados. Devemos ter medo? Claro, sem entrar em pânico, tomando as cautelas que todas as entidades sanitárias aconselham. Com rigor, o máximo rigor. Disso depende a sua evolução e a segurança, nossa e dos outros, porque todos estamos no mesmo barco.

Pode-se dizer que esta pandemia é democrática, já que nos nivelou a todos, porque todos estamos expostos ao contágio. Ricos ou pobres, famosos ou anónimos, altos ou baixos, homens ou mulheres, pretos ou brancos, justos ou pecadores, intelectuais ou ignorantes. Ele não exclui ninguém, independentemente da classe, gênero, religião ou raça. Mas não é tão linear quanto isso, pois certamente estará mais protegido aquele que se meteu no seu avião privado e voou para uma ilha isolada onde há poucas possibilidades de contágio, do que aquele morador duma barraca nas favelas de Rio de Janeiro ou da África do Sul. Veja-se o caso do rei da Tailândia: só está em “isolamento” num hotel de luxo na Alemanha, com 20 concubinas …

Também se pode dizer que o novo coronavírus fez de nós exilados na nossa própria casa, obrigando-nos a regressar ao convívio da família. E devemos tirar partido disso, dando aos nossos o tempo que não concedíamos antes da sua chegada. Será que vamos aproveitar ou cansamo-nos depressa uns dos outros? Será que isto nos vai servir de lição para o futuro?

Esta terrível pandemia fez-nos descobrir o melhor e o pior que há no ser humano. Ao sermos confrontados com ela, tanto encontramos a solidariedade de quem partilha o que tem com os outros como damos de caras com o egoísmo de quem só pensa em si, açambarcando e ignorando as necessidades de quem lhe está próximo. E tanto vemos atitudes de generosidade e dedicação aos mais frágeis, como o fazem as senhoras que cuidam dos idosos nos dois Lares da Misericórdia de Lousada, em períodos contínuos de sete dias, noite e dia dentro das instalações com os idosos, sacrificando as famílias e as suas vidas, como vemos os “bem instalados” que não querem, nem se sujeitam a estender a mão a quem precisa, especialmente nos dias que correm, ainda que seja somente para o ajudar a levantar-se.  E tanto vemos os profissionais de saúde numa luta constante e aturada até à exaustão, alvos privilegiados do mal que combatem por nem sempre estarem devidamente protegidos, como topamos negligentes a “fazer turismo em dia de sol”, sem respeitar instruções das autoridades no combate à pandemia. Não devo deixar de citar o contraste entre fornecedores da Instituição a que estou ligado, em que uns ofereceram o que lhes foi possível dos produtos de proteção, enquanto outros apareceram … com propostas vergonhosas de tão especulativas e oportunistas. Uns abutres. Da solidariedade ao egoísmo, da dedicação à indiferença, da generosidade à maldade, do trabalho ao absentismo, são múltiplos os exemplos que nos sensibilizam e fazem acreditar na humanidade, tal como existem os que chocam e nos tornam descrentes. 

Uma das grandes lições que temos obrigação de tirar desta crise que nos afeta a todos e de consequências sanitárias e económicas ainda não mensuráveis, é que “nesta vida, nunca podemos dar nada como adquirido”. Se pensarmos que há pouco mais de um mês fazíamos a vida normal, trabalhando e produzindo riqueza, planeando com a família sobre qual o destino para as próximas férias, eventualmente numa viagem há muito sonhada, programando a conclusão de um negócio, a abertura de mais uma loja, andando por aí livremente sem restrições e sem limitações, podendo “ir à bola”, ao shopping ou ao cinema, jantar com os amigos ou viajar livremente em qualquer meio de transporte, com a certeza de que o amanhã seria risonho, que sentimento nos domina volvidos que são pouco mais de trinta dias e o que poderemos esperar dum amanhã que é uma grande incógnita e em que a maior parte do que estava dado como certo já não o é? 

De repente, deixamos de poder falar de liberdade quando estamos confinados a quatro paredes por tempo indefinido, condicionados a saídas esporádicas e breves; deixamos de poder falar de segurança já que até temos medo da proximidade dos outros, medo de perder o trabalho, medo da doença; deixamos de poder projetar o futuro que estará condicionado, quando não hipotecado por muitas incógnitas; deixamos de poder fazer a vida normal, porque tudo à nossa volta perdeu a normalidade. Refugiados em casa como meros prisioneiros, temos medo do vírus como se de um fantasma se trate, sem saber por onde anda, quando chega, se nos vai assaltar e o que nos vai roubar: é a carteira? O emprego? A saúde? Ou a vida? De repente, perdemos as certezas e só ganhamos dúvidas e medos. Enfim, “não podemos dar nada por adquirido”, pois tudo o que existe na nossa vida pode deixar de existir de um momento para o outro. O sinal que tudo é transitório e nada é nosso … embora haja sempre um amanhã.

Fique em casa e cuidado com o bolso

Fiquei em casa, cumprindo uma regra fundamental no combate ao “inimigo invisível” que nos ataca a todos. Aqui, na Europa, no mundo. Mas confesso que demorei um pouco mais do que devia a interiorizar que tinha de o fazer. Por mim, pela família e pelos outros. Porque só com o empenho de todos somos capazes de sair desta, mais depressa e com “menos baixas”. Sejamos francos: começamos por não levar isto a sério, por não acreditar que este vírus é um assunto grave e por pensarmos estar imunes e ser um problema “dos outros”. “Temos a nossa vida e não podemos parar”, pensamos. Até porque esse (mau) exemplo “veio de cima”, tal como veio de vários lideres mundiais que negaram as evidências. Só quando a “sua casa lhes começou a arder” acordaram para a realidade. Alguns até aconselharam os seus povos a enfrascarem-se com whisky e vodka para que o “bicho não pegue” e só agora estão a tomar (alguma) consciência desta dura realidade.

A viver na China como treinador adjunto de futebol no Shangai SIPG, Luís Miguel criticou o que se fez na Europa, em especial Portugal, e aconselhou os portugueses a mudarem alguns comportamentos. O técnico português afirma que a Europa não está a levar este vírus com a devida seriedade, tal como fizeram os chineses, “os únicos no mundo que estão a conseguir controlar a epidemia: “A China está a conseguir controlar bem o vírus, que é mortífero, porque tem muito respeito e disciplina. Tiveram muita paciência, fecharam-se em casa, a economia parou … mas ficaram em casa. Dói-me ver o que se passa na Europa. Tivemos três meses para aprender com a China, mas nós desvalorizamos o “inimigo”. Vê-se o que se passa na Itália, Espanha, Irão. Fiquei aterrorizado quando me desloquei para a China. No aeroporto de Lisboa ninguém estava protegido, não houve controle de temperatura. Zero. Aqui está tudo de quarentena. Há disciplina. Aconselho: parem, fiquem em casa com a família. Só uma pessoa deve ir às compras. Quando voltar, desinfete os sapatos, ponha a roupa para lavar e tome banho. Parem as caminhadas, as corridas fora de casa. É preciso muita disciplina, paciência e respeito por este vírus”. 

Será que percebemos bem esta mensagem e que a estamos a praticar em pleno? Ou achamos (e eu incluo-me no grupo) que não tem mal nenhum fazer uma caminhada ou corrida lá fora, que não é preciso esse rigor de ir só uma pessoa à rua e à chegada ter de desinfetar o calçado, deitar a roupa para lavar e tomar banho?

Sejamos realistas: não é fácil aceitar que temos de parar, deixando o negócio, a atividade, o lazer, os deveres lá de fora, em suma, a vida, com todas as consequências económicas e financeiras atuais e futuras que virão depois, quando não já. Está visto que esta batalha é ganha só com a “ausência”, o que só por si é um ato heroico, se bem que os verdadeiros heróis sejam os que lutam 24 horas por dia para nos salvarem. Mas será que vale a pena pôr em risco a saúde, quando não a nossa vida – e a dos outros que amamos e nos rodeiam – porque o futuro fica comprometido? Mas não está ele desde já comprometido? O nosso e de (quase) todos?

E digo “quase todos” e não “todos” porque, como em tudo na vida, há sempre quem se aproveite da situação, sem escrúpulos ou vergonha, para ter ganhos indevidos, especulando com os bens necessários ao combate contra o vírus, já para não falar de outros. Falo no caso dos produtos de prevenção contra a propagação do novo coronavírus – equipamentos de proteção individual e dispositivos médicos, como máscaras, luvas e fatos, e produtos biocidas como o álcool, gel e desinfetantes. Mais que nunca, a não serem gratuitos, deviam estar acessíveis a preços normais. Mas, apesar das notícias dizerem que as “entidades públicas responsáveis” não encontraram sinais de abusos de preços depois de “visitar alguns estabelecimentos”, todos sabemos que a realidade nada tem a ver com essa “ficção”. E, se precisamos de nos defender do maldito vírus que vai virar as nossas vidas de pernas para o ar, em momento tão difícil, infelizmente também temos de nos defender dessa cambada de especuladores e oportunistas que não respeitam nada nem ninguém. 

Para que se compreenda a dimensão dos “roubos” e o tamanho da pouca vergonha, vou só fornecer alguns números: até há pouco tempo compravam-se “máscaras cirúrgicas” às empresas fornecedoras a “4” cêntimos. Repito para que se perceba bem: 4 CÊNTIMOS. E, de repente, como por magia, o mesmo artigo no mesmo fornecedor passou a custar … 60 CÊNTIMOS. Cada uma. O que é isto senão um assalto sem arma, um roubo à descarada? E a falta de vergonha é tal que outro fornecedor teve o desplante de nos dizer que guardou uns milhares delas para nós, por consideração. E a que preço? Um euro e meio. CENTO E CINQUENTA CÊNTIMOS. Mais de trinta e cinco vezes. Que grande consideração!!! E há uma empresa na região que as fabrica em grandes quantidades, mas nenhuma para cá. Vão todas para fora. Dizem-me que a 5,00 € cada!!! Cento e vinte e cinco vezes mais caras … e não há requisição civil. Não estamos num “estado de emergência”? A especulação nestas máscaras acontece também com as máscaras “bico de pato”, gel de álcool, desinfetantes, álcool e tantos outros. As batas impermeáveis, que nada têm a ver com o vírus, subiram quase vinte vezes. E aqueles “pés cirúrgicos” que se enfiam nos pés, saltaram de 5 cêntimos para 2,00 €.

Nem no tempo da II Guerra Mundial os bens essenciais inflacionaram tanto em tão pouco tempo, o que só vem comprovar que estamos noutra Guerra, com consequências sanitárias e económicas incalculáveis. E é neste clima que os especuladores, qual “abutres” a aproveitar-se da necessidade e do sofrimento alheio, “medram a olhos vistos, sem que ninguém os ponha onde deveriam estar”. Como penso “que podemos esperar sentados”, tenhamos consciência que “estão mexendo no nosso bolso” de forma brutal, escandalosa, a raiar o obsceno, sem ter quem nos defenda …

Com máscara ou sem máscara, vou continuar por casa, tentando ser “chinês em quarentena” ou, pelo menos, a saber copiá-lo, para meu bem e daqueles que me são próximos. Estou a aproveitar para pôr as minhas coisas em ordem, fazer jardinagem, cuidar da pequena horta, ler, fazer passatempos e separar algum do muito “lixo” que tenho cá em casa para aliviar a carga. Para não ficar aborrecido, espero não ir contar quantos grãos tem um pacote de arroz e questionar porque é que o outro pacote, que pesa o mesmo, tem mais 6 ou 7 grãos …

E não preciso de estudar para, quando me disserem que a doença é respiratória, não correr disparatadamente por aí a comprar papel higiénico às carradas… 

“Discriminados”. Ouça, fique em casa

Há dois mil anos existia uma doença terrível que, nessa altura, não tinha cura: A lepra. Quando alguém tinha sintomas da doença, dirigia-se ao Templo e era o sacerdote a confirmar se era “leproso” ou não. Em caso afirmativo, era privado do convívio com as outras pessoas, tinha de viver num lugar isolado e informar os outros que sofria de lepra. Os leprosos deviam morar fora dos muros das cidades. Como a doença era incurável e contagiosa, os lideres religiosos judaicos criaram regras que dificultavam muito a vida dos doentes. Uma delas impunha a distância mínima entre um leproso e uma pessoa sadia em 2 metros, mas que, com vento, passava para 45 metros. Os leprosos acabavam por ter de viver em cavernas isolados da sociedade e, se quisessem contactar alguém, teriam de tocar o sino para se fazer anunciar, manter a distância de segurança e dar conta que ia passar um imundo, um contaminado pela lepra, arriscando ser corridos à pedrada pelo líder religioso. As regras a que os leprosos estavam sujeitos eram minuciosas. Não podiam entrar em casas, hospedarias e igrejas, nem tocar em objetos usados por todos, como corrimões de escadas, sem usar luvas. Tinham de usar uma veste especial e levar sinetas a anunciar a sua presença. Em suma, eram discriminados pela sociedade. A sua situação era humilhante e durante grande parte da História foram vítimas desse “estigma social”. 

Ora, não estando infetado por uma das bactérias que provoca a lepra – tanto quanto sei – nem tendo sido declarado pelo “sacerdote do Templo” como “leproso”, apesar de também não estar infetado com o covid-19, senti-me a modos que um “novo leproso” nos últimos dias só pelo facto de viver em Lousada. E, como eu, todos os que moram cá e em Felgueiras, estejam ou não infetados com o coronavírus. Será que vamos ter de avisar que chegamos ou até que vamos passar, para terem tempo de se afastarem e manter uma distância de segurança? Percebo que o medo do desconhecido cria o pânico e este conduz a comportamentos absurdos, até porque nenhuma autoridade impôs e nem sequer aconselhou a quarentena. Faz algum sentido que, numa paróquia de concelho vizinho, no limite com o nosso, se diga a uma criança “não vais fazer o Pai Nosso porque frequentas uma escola que está no concelho de Lousada”? Faz algum sentido que uma jovem que estuda num colégio privado de um outro concelho, quando lá chegou em transporte do colégio, tenha sido informada para recolher as suas coisas de imediato e regressar a casa como se fosse “leprosa”, sem lhe assegurarem transporte, sem dinheiro e sem respeito, entregue a si mesma, só porque … Estiveram bem os presidentes das câmaras de Lousada e Felgueiras ao denunciar as “pressões sofridas por alunos nas Universidades para não frequentarem as salas de aulas e demais espaços delas, alegadamente devido ao vírus, medidas consideradas discriminatórias, ilegais e lesivas das pessoas.

Claro que a forma como a informação passou e a imprensa explorou, ajudou a que esta “onda discriminatória” ganhasse velocidade, qual tsunami. Senti isso nalguns telefonemas que recebi de mais ou menos longe a perguntarem-me se estava bem e não tinha nenhum sintoma, como se por morar aqui fosse sinónimo de “infeção automática”; em encontros desmarcados à última hora porque “não me parece ser o momento oportuno”, “adoeceu-me o adjunto e já não posso sair” ou outra desculpa mais ou menos esfarrapada.

Entretanto, o vírus está a espalhar-se a um ritmo crescente a partir de várias origens, aumentando o número de infetados e já com um morto na estatística, o que tem levado as autoridades a tomar mais medidas, novas medidas, sendo que a atividade do país é reduzida. Instituições, empresas, estabelecimentos comerciais, desportivos, recreativos e muitos outros encerram ou quase. E o conselho geral das autoridades é um só: “Fique em casa”. Porque é preciso conter a disseminação do vírus. É que, ao estar com alguém, não sabemos se estamos ou não a correr riscos. Começamos a ter noção dos contactos cruzados, que A esteve com B e este com C que se soube agora estar infetado. A cabeleireira encerrou o salão ao saber que uma cliente esteve em contacto com familiares de outra a quem foi diagnosticada a infeção. E uma esteticista telefonou a todas as clientes cancelando as marcações, ao tomar conhecimento que a mãe fora confirmada como mais um caso. E quem se encontrou com alguém nesta situação pergunta-se: “Será que também já estou”? 

Por isso, custe o que custar, faça tudo o que puder para ficar em casa, ainda que isso não seja fácil. E como o humor continua a ser uma das formas de combater o medo, transcrevo a mensagem enviada por um amigo metido em casa, de autor desconhecido:

“Primeiro dia de isolamento- Isto do covid até tem as suas vantagens: não vou para o escritório aturar o pascácio do chefe e posso dormir até mais tarde. Vou aproveitar para ler aqueles livros que comprei na feira do livro em 1988 quando namorava com a minha mulher e a levei lá. E ver se desligo um bocado da net e do facebook e fortaleço laços com a patroa e os miúdos.

Segundo dia de isolamento- O meu apartamento até é bem fixe e acolhedor. Tenho uma família 5 estrelas: a minha mulher é meiga e os putos são porreiros. A vizinhança é do melhor.

Terceiro dia de isolamento- Os miúdos acordam muito cedo. A minha mulher ressona. Gostei muito do pequeno almoço feito por ela, mas não percebi muito bem o que ela quis dizer que isto não é nenhum hotel. Os vizinhos são um pouco estranhos.

Quarto dia de isolamento- Os sacanas dos putos já levaram duas galhetas cada um. São dois terroristas. A gaja também já começou a desconversar. Fui lá abaixo pôr o lixo, alguém desinfetou o elevador com lixívia. Carreguei nos botões com os cotos.

Quinto dia de isolamento- Matem-me. Prefiro apanhar o vírus do que estar neste inferno. Acabou o álcool, o suicídio parece-me a melhor solução. A bruxa não me larga. Desconfio que os miúdos não sejam meus. Os vizinhos de cima não me dispensaram um rolo de papel higiénico. Forretas.

Décimo dia de isolamento- A privação de álcool e tabaco provoca-me alucinações. A minha mulher e eu estamos muito melhor desde que ela se barricou no quarto. Dei os putos para a adoção. Os vizinhos são uns filhos” …

Caso sério, que importa desanuviar…

“Estamos feitos ao bife”, diria um amigo meu que já não anda por cá. É que já ninguém fala da Operação Marquês, do Sócrates, do Salgado e companhia. Nada. Já ninguém fala do Benfica ter caído ao segundo lugar do campeonato. Nada. Também ninguém fala da novela sobre o novo aeroporto de Lisboa, agora a não poder “aterrar” no Montijo. Nada. Ninguém fala dos dez milhões de euros que o Varandas pagou por uma “cria de treinador” de futebol. Nada. Ninguém agora fala dos impostos altos, da vida cara, das loucuras do Trump, nem da Cristina e do Cláudio e da telenovela que os une ou separa. Nem tão pouco das “lindas canções” que a RTP nos ofereceu no Festival da Canção. Nada. Porque o que está a dar, é só o “coronavírus”. Basta ver os telejornais das televisões nacionais (não sei como são as outras).  Começam logo a abrir com as notícias mais impactantes sobre a epidemia e depois passam metade do tempo a venderem-nos o “coronavírus” como se nos fosse “limpar o sarampo” a todos, para não falar na contabilidade sobre casos suspeitos daqui à China, para além dos infetados curados e outros mais. “Já são dois os infetados”, “já são cinco”, “atingiram a dezena”. A imprensa vibra e mais parece um relato de futebol. Das duas uma: ou apanhamos o vírus (ou será ele que nos apanha?) ou apanhamos uma depressão. Não há meio termo. Dizia uma mãe num desabafo após um período de isolamento que a deixou desesperada: “Depois de uma semana fechada em casa com os meus filhos por causa das medidas impostas pelo governo, se eles não morrerem com o coronavírus, sou eu mesma que os mato” …

É um vírus muito contagioso? É. Tão perigoso para a saúde como uma gripe? Mais contagioso e, provavelmente, é mais letal. Temos de ter cuidados? Temos, mas não precisamos de alarmismo. O alarmismo leva-nos a comportamentos irrefletidos e estúpidos que não ajudam. Em nada. De um edifício de acesso público onde existem embalagens de produto para desinfetar as mãos têm desaparecido muitas delas. Será normal ou está tudo louco? É verdade que já temos infetados, é espectável que o número aumente muito ou um pouco menos e que pode haver mortos. O que é natural, como doença que pode agudizar. Vai chegar a nossa casa? Acredito bem que sim. Há essa possibilidade, mesmo que tome todas as medidas de prevenção aconselhadas pelas autoridades (e as outras que vizinhos e familiares defendem …). Mas corre menos riscos se adotar medidas preventivas. Claro, sabendo sempre que um dia destes tocam à porta e quando for atender “ouvirá” o coronavírus dizer: “Cheguei!!!  

Isto está a ficar muito estranho. Basta sair à rua, ver os sinais. Vamos cumprimentar alguém e puxa-se a mão atrás dizendo que “agora não se pode”. Vai-se dar um beijo e as cabeças ficam a vinte centímetros, não mais perto. Se possível, “não pode ser”. Pode-se dizer sem errar que é uma doença “anti-social”. Não se pode beijar, trocar um aperto de mão, fazer um afago, muito menos abraçar. Até a ministra pede para nos contermos nesses cumprimentos e manifestações diárias de sociabilidade e afeto. Por isso, mantenha a distância. Use fita métrica.

O humor é uma forma do ser humano vencer o medo. É um consolo de último recurso a que nos podemos agarrar. Porque todos temos medos, especialmente do que se não conhece, mesmo que não demos sinais nem o queiramos reconhecer. E o coronavírus é desconhecido. Por isso o ser humano tem usado humor para “combater” este medo manifestando-se por todo o mundo das mais variadíssimas formas, brincando com uma coisa séria, que se pode enfrentar com humor. Basta ver o que circula nas redes sociais e a criatividade imensa que nos faz sorrir. Satirizam as máscaras de proteção preconizando o uso de preservativos, seja só para a cabeça ou mesmo para o corpo todo;     

utilizam o simples garrafão de plástico da água recortado por forma a que a cabeça se encaixe dentro, com ventilação pelo gargalo; o copo de plástico seguro no focinho de um cão ou peças de roupa interior de senhora adaptadas como máscara numa crítica saudável à falta de material no mercado, esgotadas pelo açambarcamento.

Os chineses primeiro e agora os italianos fazem parte dos “bonecos”.  Um deles diz: “Meu Deus, com esta história do coronavírus os pobres não têm um dia de descanso. Sempre que veem um chinês a virar a esquina, põem-se logo a correr em sentido contrário” … Houve um que fez circular nas redes sociais algo como: “aluga-se chinês, que dá direito a quinze dias de férias em quarentena” … Ou então, há quem sugira que os turistas italianos e chineses devem ser aconselhados a visitar o Palácio de S. Bento, pois “é um belo edifício que vale a pena conhecer. E até quem ponha o vírus a “falar”, como no caso: Quando perguntaram ao coronavírus qual é uma das suas grandes paixões, respondeu: “Dar a volta ao mundo” …

Confesso que, de vez em quando, dou comigo a empurrar as portas com o ombro ou a puxar pela manga da camisola para me agarrar ao puxador, quando não usando outro estratagema qualquer para evitar pôr as mãos em contacto com algo que pode ser um transmissor do “bicho” por contágio. Paranoia ou precaução? A verdade é que é real em todos nós, com manifestações muito variadas. Para isso, o melhor texto é de um autor anónimo, que transcrevo:

“Hoje, no trabalho, empurrei a porta do WC com o joelho, acendi a luz com o ombro, levantei o tampo da sanita com o pé, acionei o botão do autoclismo com o cotovelo, abri e fechei a torneira da água com o antebraço, sequei as mãos sem tocar no secador, puxei a porta com a biqueira do sapato e atravessei os corredores sem tocar em nada. Uma hora depois, na pausa do café, avisado por uma colega bastante alarmada, reparei que me esquecera de arrumar o “instrumento” e de fechar a braguilha!…”.

O preocupante é que nos andaram a dizer que estávamos preparados e, afinal, não estávamos, apesar do tempo que o vírus nos “concedeu”. Mas, talvez nos valha a nossa capacidade de improviso … ou O Senhor dos Aflitos … 

O valor duma simples bola de trapos

Precisei de falar com um amigo e, sabendo que estava a assistir ao treino de futebol do seu filho ainda muito novo, fui lá procurá-lo. Achei interessante ver parte do treino e, em especial, o entusiasmo com que alguns pais vivem tão intensamente a evolução do seu rebento e o sonho lindo de uma carreira a dar chutos na bola. Mas, quando vi aqueles sacos cheios de bolas não pude deixar de sentir uma ponta de inveja porque, quando eu era criança, não havia sacos de bolas de futebol, não havia sequer bola de futebol. O que nós tínhamos para jogar era … uma bola de trapos E para isso, algum de nós tinha de conseguir arranjar lá por casa uma meia velha. As melhores meias para fazer a bola de trapos eram as “de vidro”, porque conseguia-se que a bola fosse maior. Mas, na sua falta, qualquer uma servia, sendo cheia com trapos velhos ou mesmo folhas de jornal amarrotadas, que se comprimiam o mais possível enquanto se lhe dava uma forma arredondada. 

Jogávamos a bola nos caminhos de terra (eram todos) com mais ou menos buracos, sendo as balizas delimitadas por duas pedras. Não havia treinador nem lugar a táticas e as fintas eram difíceis, até porque jogar com uma bola de trapos dava para o que dava. Como era “tudo ao molho e fé em Deus”, valia mais o pontapé para a frente e direto à baliza, se possível, defendida pelo miúdo descalço e de calças rotas, na tentativa de marcar golo. E lembro-me que se jogava com entusiasmo e alegria natural. O resultado era menos preocupante do que o raspanete da mãe quando chegasse a casa por ir todo sujo, quando não com mais um rasgão nas calças. Não havia bolas de “couro” p’rá malta. Eram inacessíveis.

Só para se ter uma ideia, assisti a jogos do Lousada no velho campo junto à feira, em que só havia uma bola de cada equipa. Se durante o jogo um chuto mais forte e torto a atirasse para o campo de milho para lá da vedação, havia sempre alguém do lado de fora para ir atrás dela. Houve ocasiões em que o jogo teve de ficar parado, à espera que a bola fosse devolvida ao terreno de jogo … por não haver outra.

Nós, miúdos, quando recebíamos alguns tostões como nos funerais por integrar a “cruzada”, íamos logo investi-los a comprar rebuçados de fraca qualidade, mas que traziam a embrulhá-los fotografias de jogadores de futebol, ídolos do nosso tempo, parte da coleção de cromos que se colava numa caderneta, com a vã esperança de a poder completar e ganhar aquela linda bola de futebol, tida como feita em cabedal, mas que muitas vezes mais parecia do tipo cartão prensado. Havia sempre um cromo único de um jogador que o fabricante desse negócio colocava bem no fundo da caixa para se venderem os rebuçados até ao fim, pois caso contrário, mal alguém completasse a caderneta e levasse a bola, acabava-se o negócio. O miúdo que a ganhasse era o felizardo, muito invejado por todos os outros que queriam muito poder dizer que “jogaram com uma bola de couro”. Ficavam pendentes dele para começar ou acabar um jogo. É que ele era o “dono da bola”. Bastava que a sua equipa estivesse a perder ou não o deixassem marcar o penalti, agarrava na bola meio amuado, dava o jogo por terminado e caminhava para casa …

Já adolescente, joguei pela equipa lá da terra, o Macieira, contra outras freguesias dos arredores. Os jogos e treinos eram realizados no terreno do adro de S. Gonçalo e a bola, já em couro, cosida à mão e com câmara de ar, de vez em quando furava ou rompia-se pelos pontos da cosedura. Um dia um dos remates foi forte e direitinho … a uma lança da grade que havia na capela e a bola “morreu” de repente. Quando isso acontecia, acabava o jogo por não haver bola substituta …

Ao ver que hoje bolas de cabedal não são problema, nem em qualidade nem em quantidade e ao olhar para essa infância distante, fico dividido: Se ter inveja pelo muito que hoje há comparado com o nada de “ontem” ou ficar feliz pelo entusiasmo, alegria, gosto e entrega ao jogo pelo jogo desse “ontem” – porque era só um jogo de bola que estava em causa – sem ilusões do vedetismo que hoje se persegue e que, quase sempre, termina em frustração dos miúdos, quando não bem mais dos próprios pais. 

Na minha infância as brincadeiras de miúdos eram na rua, saudáveis e alegres, de forma despreocupada e segura. A grande preocupação dos pais era arranjar-nos forma de nos instruirmos e evoluir na educação e ensino. Ao contrário, hoje a preocupação é conseguir tirá-los de casa, afastá-los dos jogos informáticos e do computador para brincarem ao ar livre. O que será mais saudável? 

Nos dois últimos dias perdi dois amigos, quando recordo com nostalgia e emoção esses jogos usando uma simples “bola de trapos” num qualquer caminho da aldeia. De um deles que jogava descalço, levei caneladas “quanto baste”, apesar de eu estar “munido” de botas ou “chancas”. Mas a alegria, entusiasmo e vida desses convívios, com ou sem “caneladas”, marcando ou sofrendo mais golos e apesar da “bola de trapos” nem sempre aguentar inteira até ao fim, ficaram como boas recordações, memórias que um deles fez questão de relembrar e partilhar comigo poucos dias antes de “partir”, porque são “pedaços de felicidade” que dão cor à vida … e que nos unem. 

“Obrigado”. “Gosto de ti”. É tão fácil!

Vivemos a correr e não tomamos consciência sequer do quanto esta vida é transitória, “uma passagem para a outra margem”. Por isso, já nem damos tempo ao tempo, perdemos a paciência porque temos pressa e esquecemos a “arte de esperar”. Queremos tudo para ontem e, qualquer contrariedade, grande ou pequena, “é o fim do mundo”. Ficamos tristes com pequenas coisas e acabamos por perder tempo com o nada. Por nada. E não damos o abraço que desejamos e que o olhar do outro pede. Não nos aproximamos o quanto baste para não expor a nossa fragilidade emocional e nem sequer fazemos aquele carinho que tanto nos apetece, porque não estamos acostumados e nos sentimos retraídos. Nem dizemos vezes suficientes “gosto de ti”, porque achamos sempre que o outro sabe quanto isso é verdade. Mas reclamamos muito do que não temos, do que não é suficiente, do que chegou tarde, do que os outros têm a mais e nós não temos. Também consumimo-nos fazendo cobranças dos amigos, da família, dos que nos são alguma coisa ou coisa nenhuma, enfim, da vida. E, por fim, até de nós. Fazemos comparações, demasiadas comparações com outros, mas só com quem tem mais para nos podermos lamentar, achando injusto. Mas nunca nos comparamos com quem tem menos que nós, porque com esses deixamos de ter argumentos para reclamar.

A Luísa tinha muita vida e alegria de viver, saúde e relações, trabalho e preocupações. E perdeu (quase) tudo de um momento para o outro ao ficar presa a uma cadeira de rodas e a um mundo psíquico que é só seu e ao qual não temos acesso. A sua saúde virou-se por completo e deixou-a dependente da ajuda dos outros, do levantar ao deitar, para se vestir, cuidar, movimentar e tudo o mais. Mas, apesar da ausência e desorientação no espaço e no tempo, manifesta de onde em onde o seu sentido de humor oportuno e incisivo, como aconteceu depois da minha caminhada matinal com a Becas. Ao passar pelo barbeiro aqui perto de casa, vi que ele estava disponível. Por isso, disse à Luísa logo que cheguei cá: “Vou cortar o cabelo”. E ela, numa reação instantânea que lhe é tão característica e atrás dum sorriso irónico, questionou-me: “Que cabelo”? 

Mas o que é extraordinário e mais me impressiona e sensibiliza é que, no seu maior ou menor mutismo a que a falta de saúde a remete e na dificuldade que em certos momentos tem em expressar por palavras o que lhe vai na mente e no coração, há uma coisa de que raramente se esquece: “Agradecer”. Quando a ajudamos a levantar, agradece. Se a formos vestir, volta a agradecer. Se a ajudarmos a cuidar de si, claro que agradece. Se lhe servimos a refeição, lhe chegamos alguma coisa, a levamos de um lado para o outro ou o que quer que se lhe faça, a Luísa não deixa de manifestar a sua gratidão e da sua boca ouvimos muitas vezes ao dia um “muito obrigado”, independentemente de ser da família ou de alguma das pessoas que aqui trabalha. Mas não se fica pelo agradecimento. Não lhe é suficiente. E por isso, manifesta os seus sentimentos por cada um de nós, individualmente e com muita frequência, com um abraço, um beijo e, mais vezes ainda, com “gosto muito de ti”. Apesar dos seus diversos condicionamentos, a Luísa usa o coração para expressar em palavras de gratidão os sentimentos que nutre por nós, sem filtros, sem constrangimentos e sem inibições. E o quanto somos importantes para ela e por fazermos parte da sua vida, pelo abraço, pelo carinho, pela ajuda, pela atenção, pela companhia, pelo apoio, pela companhia. Até chega a expressar, com alegria e boa disposição, o “obrigado por existires, senão tinhas de ser inventado”.

A doença remete-a muitas vezes ao silêncio, parecendo estar ausente e fechada no seu mundo, como na noite em que no canal 1 da RTP decorria um programa do “Prós e Contras” dedicado à questão da redução do IVA que o governo propôs no orçamento de estado para uma parte dos espetáculos culturais assentando a discussão se essa redução devia ser também alargada aos espetáculos de tauromaquia, sob o tema de “Touradas – Cultura ou Tortura”. A Luísa quis assistir ao debate que acompanhou desde o princípio com muita atenção, até porque a discussão estava muito acalorada entre os dois lados em confronto. Quando o programa foi interrompido pela apresentadora e nos mandou para intervalo, impingindo a publicidade do costume, ela deu uma gargalhada e disse com ar de gozo: “Está visto que não vão chegar a conclusão nenhuma porque o maior interessado nesta discussão, nem está lá”. Como estava meio distraído, com um olho na televisão e outro no computador, acabei por fazer aquela pergunta inocente: “Quem”? E ela respondeu, como se já estivesse à espera da pergunta: “O Touro”.

Por norma, somos mal agradecidos pela vida que temos e que foi feita (quase) sempre por nós. Até no seio da família reclamamos do copo fora do sítio, das botas sujas, dos pelos que o cão larga, da luz acesa e de milhentas ninharias, as pequenas chatices que fazemos questão de transformar em problemas. Só quando temos problemas de verdade como as doenças é que esses nadas com que andamos entretidos são esquecidos para focarmos o olhar no que importa. Deixamos pouco por reclamar e muito por agradecer, de tal forma que W. Shakespeare dizia: “Aprendi que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo o que lhe pedimos”. 

Ora, não sei se pela doença, se pela sua índole, a Luísa agradece por todas as pequenas coisas e lembra-nos do quanto gosta de nós. Sempre. Estou longe de estar ao seu nível. Já para não falar no humor subtil. Já perto do Natal, o país foi assolado pela tempestade “Elsa”, com vento e chuva forte que provocou muitas inundações. Enquanto a minha cunhada lamentava a situação dos casos mais dramáticos, a Luísa tinha os olhos postos na televisão onde se sucediam imagens atrás de imagens, com inundações em prédios, ruas que até pareciam rios e rios saídos fora de margens que mais pareciam lagos. Depois de ver aqueles cenários de tragédia em que havia água por todo o lado como se fosse um mal geral, sem mais nem menos a Luísa comentou: “Estou a ver que tenho de comprar umas barbatanas” …