Foi inventado pelos gregos, popularizado durante a Idade Média, mas sobretudo do século XIV para diante. Entrou em Portugal há séculos e foi um artefacto de uso corrente no dia a dia para alívio de tantos nós. Ganhou muitas formas e feitios, os altos e os baixos, redondos e achatados, cheirosos e os que se limitavam a receber o cheiro da evacuação, mas o redondo com asa foi o mais tradicional. Há os que se partem e os que não quebram de jeito nenhum. Há-os em porcelana e até em madeira. De barro e em vidro, tal como em cerâmica ou em plástico. Também existem de ferro fundido e em alumínio, mas o mais preferido foi sempre o de ferro esmaltado. Já não falo nos feitos de ouro, esses reservados somente aos traseiros reais. Mas o John Bull, um inglês agachado com o braço a servir de asa, é o mais célebre entre nós, tendo sido desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro para satirizar os ingleses após o ultimato que fizeram a Portugal no final do século XIX para se retirar de alguns territórios de África. O objeto está no Museu Soares dos Reis e nunca chegou a ser comercializado. Foi criado com a intenção dos portugueses poderem “obrar” para dentro do John, vingando-se assim da humilhação dos ingleses. Claro que estamos a falar do bacio, também conhecido por “vaso de noite” e, mais popularmente, por penico. Enfim, uma instituição.
O penico serviu reis e rainhas, nobres, burgueses, ricos e remediados. Só não serviu os pobres das zonas rurais. Esses tinham de fazer as “descargas” das suas necessidades no campo, numa estrumeira em frente à porta da cozinha ou mesmo nas cortes do gado. Já no Palácio da Pena, em Sintra, existia um penico fora do vulgar, com tampa, que era da rainha D. Amélia e que hoje se encontra no museu. A certa altura, o penico até ganhou uma estrutura adjacente, uma cadeira à sua volta, exclusivo para ricos, burgueses e nobres. O penico é um objeto ingrato, tão útil quanto rejeitado, algo muito escondido pelos burgueses e nobres, mas carregado pelos escravos para momentos de aflição durante as viagens.
Por norma, o penico era colocado debaixo da cama, à mão de semear, para alívio dos aflitos em “apertos noturnos”. Mas, de vez em quando era “atropelado” a pontapé por cliente ensonado, espalhando o seu conteúdo malcheiroso, quando não metia a “pata na poça”. Muitas vezes tinha um lugar especial reservado na parte inferior de um móvel do quarto, a mesinha de cabeceira, fabricada em estilo próprio, com direito a porta privativa para tão importante artefacto. Pode-se dizer com toda a propriedade que outrora “os quartos com penico, lavatório e jarro de água” constituíram-se como o primeiro “quarto com casa de banho privativa”, um luxo que não era para toda a gente.
A cultura ocidental associa muitas vezes a vergonha a atos tão naturais e essenciais como o respirar, o comer, o defecar e o urinar. Sobre tal, Bernard Shaw dizia: “Só uma sociedade muito refinada é capaz de pensar nestas coisas (penico, retrete ou sanita) e, ao mesmo tempo, ruborizar-se ao falar delas”. A um objeto destinado a recolher dejetos e odores nada refinados como é o penico, fazem-se bastantes associações negativas como é o caso de uma caricatura célebre em que no penico está escrito “políticos” e o interior cheio de homens de casaca. Nesta linha de pensamento, quem não é militante de qualquer partido, é tido por “desalinhado” e, como tal, diz-se que “mija fora do penico”. Ora, quando Marinho Pinto foi candidato apelou aos jovens portugueses, precisamente para “mijarem fora do penico”, isto é, votando nele. Onde terá mijado quem lhe fez a vontade?
O penico serviu de instrumento der agressão à falta de melhor arma, foi despejado vezes sem conta janela fora sem se consideração nem respeito por quem ia a passar na rua, “aromatizando” os transeuntes incrédulos, serviu der caneca improvisada para rodadas de cerveja e até foi usado como “boné” de estudantes caloiros em desfiles universitários. Mas perdeu terreno para o saneamento das casas, deixando o interior das mesas-de-cabeceira e tornando-se uma brincadeira de crianças. Mas a sua força cultural é muito maior do que o objeto que é, porque além da função para que foi vocacionado também serviria e serve de inspiração aos criadores de piadas. A Dona Joaquina atendeu o telefone, dizendo: “Bom dia, fala a Joaquina. Com quem estou a falar?” E ouviu a resposta: “Daqui fala o Manuel. A senhora pode tirar-me uma dúvida?”, perguntou o homem do outro lado da linha. E ela, simpaticamente, disse: “Se eu souber. Qual é a dúvida?” Então o homem, armado em engraçadinho, perguntou: “D. Joaquina, a senhora sabe-me dizer se penico de barro enferruja?” E ela, oportuna e como se tivesse já a resposta na ponta da língua, respondeu: “Depende do cu que nele se senta, seu filho da …” E num instante a D. Joaquina despachou o chico-esperto com ironia e cinismo. Já a senhora Maria perguntou à Isaura: “Que barulho enorme foi aquele ontem à noite no teu quarto”? E a Isaura confessou: “Foi o bêbado do meu homem que tropeçou no penico”.
Ainda recordo uma quadra popular que o José Barbosa, figura típica nos meus tempos de criança, de vez em quando recitava com ar brincalhão quando passava uma moça emproada: “Uma menina bonita/ por mais bonita que seja /sempre dá o seu peidinho/no penico quando “meija” (mija, mas em linguagem popular).
Vemos filmes das cortes com bailaricos e as festas de então, mas nunca vemos as divisões onde os penicos eram estrategicamente colocados para os convidados se aliviarem e nem sequer vemos um só penico. Lá está a tal vergonha e o pudor ocidental de, com naturalidade, falar, mostrar e, porque não, valorizar aquilo que tanto jeito deu a numerosas gerações, para não terem de sair de casa e ir a um canto qualquer a meio da noite, “arriar o calhau” ou despejar a bexiga antes que rebentasse. Não desvalorizemos o penico, considerado “o rei da noite”, uma “instituição” que já passou à história, pela importância que teve como “depositário” dos dejetos, líquidos e sólidos, dos “dois canos de esgotos” dos nossos avós, como de numerosos reis, rainhas, princesas, ricos e pobres, marqueses, aristocratas e burgueses, numa situação de igualdade democrática absoluta pois, por mais rendas, perfumes e bordados que os rodeassem, todos eles, mas todos mesmo sem exceção, foram sempre igualitariamente malcheirosos …