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Uma carta que podia ser da Becas …

Adotei há cerca de 8 anos uma pequena cadela, a Becas, que a Teresa recuperou depois de recolhida pelo pai e irmã num estado miserável quando a encontraram no meio de um monte onde fora atada a uma árvore e abandonada pelo dono, condenada a uma morte horrível, de que escapou somente porque conseguiu roer a corda que o outro “animal” lhe colocara ao pescoço. E, apesar dos traumas que trazia depois de atravessar tal inferno, depressa se adaptou, insinuou e integrou como membro pleno desta família, encontrando aqui o porto de abrigo e a vida a que tinha direito. Recebeu e deu muito, deixando-nos uma imensa saudade quando partiu em consequência de doença grave. Cá em casa continuamos a sentir muito a sua falta, sofremos com a sua ausência e olhamos o vazio dos seus espaços. Mas ficou-nos a certeza que recebemos dela tanto ou mais do que aquilo que lhe demos. 

Às vezes, imagino-me a receber uma carta sua, como inúmeros donos gostariam de receber dos seus animais que partiram, dizendo:

“Querido dono, perdoa-me por te ter feito chorar e sofrer, mas chegou o momento de eu partir. Rogo-te que não chores mais. Sei que estás triste por ter ido embora, mas devo dizer-te que estou muito feliz por te ter conhecido. Quantos como eu, nascem, vivem, sofrem e morrem sem conhecer alguém especial? A maioria passa demasiado tempo só, entregue à sua sorte. Só conhecem o frio, a fome, a sede e o perigo, lutando todos os dias para arranjar comida, um lugar onde se sintam protegidos, enfim, sobreviver. Veem muitas pessoas diariamente, que passam e olham sem os ver. E muitas vezes é melhor que não os vejam para não acabarem maltratados. De vez em quando há um rosto que olha, vê e se condói da nossa indigência. E acontece o milagre quando nos recolhe, trata das feridas e cuida plenamente. E adotam-nos e até nos dão um NOME e, com isso, uma identidade. Eu tive a felicidade de ser encontrada, recolhida, cuidada e aceite por uma família humana que também me deu um nome. Tornei-me então muito “especial”, deixando de ser mais uma anónima, para ter um lugar e um lar a quem passei a pertencer. Já nunca mais tive medo, fome, frio nem senti solidão ou perigo. Se os humanos pudessem calcular quanto isso nos faz felizes! Pois para nós, qualquer casa é um palácio e não importa se é grande ou pequena, rica ou pobre. Já não temos de nos preocupar se chove ou neva, de um carro a grande velocidade ou de alguém que nos vai maltratar. E, principalmente, já não estamos sozinhos. É que, a solidão é terrível. Que mais se pode pedir? Eu sei que a minha partida te entristeceu, mas o meu sofrimento era inútil e chegou a minha hora. E peço-te que não te culpes por nada. Ouvi-te a soluçar por achares que deverias ter feito algo mais por mim. Não digas isso, pois fizeste muito mesmo! Sem ti não teria conhecido a beleza da vida e guardo-a comigo. 

Sabes bem que nós, animais, sentimos dor, fome, medo, alegria, mágoa, tristeza e raiva. Sofremos ao ser abandonados E até pressentimos se o nosso dono estás triste, alegre, feliz ou zangado, assustado ou furioso. E, como os humanos, não queremos morrer sozinhos. As nossas vidas começam quando conhecemos o amor, como o que me deste. És o meu anjo sem asas. Por isso te digo que, se vires um animal abandonado e gravemente ferido, a quem só reste um bocadinho de tempo, prestas-lhe um enorme serviço se o acompanhares nos seus momentos finais. Como te disse, nenhum de nós gosta de estar só, menos ainda quando percebemos que chegou a hora de partir. Por isso, ficar ao nosso lado é muito importante, acariciando-nos, segurando a nossa pata, dizendo algo em língua estranha, mas que o coração sabe traduzir. Isso ajuda-nos a ir em paz. 

Não chores mais, por favor, eu vou feliz. Tenho na lembrança o nome que me deram, o calor da tua casa e da família que também se tornou minha. Levo o som da tua voz falando para mim, mesmo quando não entendia o que dizias. Guardo a saudade das nossas caminhadas matinais, das brincadeiras no jardim ou deitada aos vossos pés e do meu lugar nos sofás da casa onde adormecia com a cabeça no teu colo ou subia para as costas do sofá para servir de encosto à tua cabeça, sentindo-me tão segura e protegida. Carrego no coração cada carícia que me fizeram e todo o amor que me dedicaram. E, não falando a vossa língua, certamente pudeste ler nos meus olhos a minha imensa gratidão, “pois as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar”.

Só te peço mais alguns favores: lava o rosto e começa a sorrir; lembra-te como foi bom os momentos que vivemos juntos; não esqueças as palhaçadas que fazia para te alegrar; e não digas que não adotarás outro animal porque tens sofrido muito com a minha partida. Sem ti eu não teria uma vida tão bela. Não faças isso e não prives o teu coração de se dar de novo, por medo de sofrer! Há muitos outros esperando por alguém como tu. Dá-lhes o que me deste, eles precisam de um anjo assim como eu precisei de ti. Continua essa missão nobre, pois agora cabe-me a mim ser o teu anjo, porque aqui no céu, é-nos concedido o direito de velar e zelar por alguém que amamos. Vou acompanhar-te no teu caminho e ajudar-te-ei a ajudar outros como eu. E quando falar com os outros animais que estão aqui comigo, vou contar-lhes tudo o que fizeram por mim e dizer-lhes com orgulho: “Aquela é a minha família”. E nas noites estreladas olha o céu e verás uma estrela a piscar. Sou eu a abrir e fechar um olho, a avisar-te que cheguei bem e a dizer-te: “Obrigado pelo amor que me deste”. E não te vou dizer ‘adeus’, mas somente um “até já”, porque há um céu especial para pessoas como vocês, o céu para onde todos nós vamos, onde continuamos a viver no coração um do outro. E a vida recompensa-nos, fazendo com que nos voltemos a encontrar. Não tenhas pressa, estarei sempre à tua espera”!

Este texto, mistura de retalhos de mensagens, vida e sentimentos, 

é um tributo não só à Becas, um animal feliz, dócil e adorável, mas mais ainda, a todos as pessoas que amam os seus animais e os consideram como membros da família, muitas vezes criticados por o fazerem em excesso. Mas é justo dizer que são essas mesmas pessoas sensíveis, que amam igualmente os seus familiares, os amigos, o emprego, o jardim, um livro, uma banda rock, o vizinho do lado, o outro que sofre, o desconhecido que pede ajuda. E isso diz-nos tudo sobre quem são e o que são …

Num mundo desigual, há razões para celebrar a vida …

Somos mais de dez milhões e meio de portugueses neste nosso país à beira-mar plantado o que é muita gente para alimentar, vestir, calçar, educar, tratar da saúde, mandar de férias e até viver de subsídios. E aqui temos pobres, remediados, ricos e alguns (poucos) muito ricos.  

Mas, se olharmos para todo o planeta Terra, para este mundo que conhecemos e de que fazemos parte, são “somente!” um pouco mais de 8 biliões (para melhor percebermos o que isso é, aí vai o número: 8.000.000.000. Um susto)! E no planeta há mesmo de tudo: muito pobres, pobres, remediados, bem de vida, ricos e muito ricos. Mas aqui há um enorme absurdo que nos diz bem o estado dessa sociedade global: do grupo muito restrito dos tais “muito ricos”, também conhecidos por “multimilionários”, há 26, e repito, somente 26, que são possuidores de mais riqueza do que os 4.000.000.000 (quatro mil milhões) de almas mais pobres do planeta, isto é, cerca de metade da população mundial, que vivem com rendimento diário entre 1,6 euros e 8,1 euros. Alguém consegue imaginar como é possível? Se estes 26 marmanjos se quiserem sentar à volta de uma mesa, quem os impede de talhar o mundo à fatia e distribuí-lo entre eles? É a maior desigualdade da história da humanidade e a tendência é para que os ricos fiquem cada vez mais ricos. E, como em regra não sabem parar, transformam o poder económico em poder político, corroendo as democracias e usando-o então para aumentar a sua riqueza. É um problema central da política: os privilegiados adquirem progressivamente o poder de aumentar os seus privilégios.

A realidade nua e crua é que, no mundo em que vivemos há muita gente verdadeiramente pobre, sem acesso a eletricidade, água potável e canalizada, cuidados de higiene e saúde, educação e a um rendimento minimamente aceitável para sobreviver. E sobrevivem, quando sobrevivem! Uma realidade que tantas vezes nos escapa e que ignoramos no dia a dia das nossas lamentações, reclamações, contestações e exigências. Ora, esta gigantesca desigualdade entre muito ricos e muito pobres que vemos, sobretudo a nível mundial e que vai aumentar, que pôs na mão de 26 pessoas uma riqueza igual à dos 4 biliões de mais pobres do planeta é inconcebível! Em pleno século XXI, não é de todo aceitável que haja manifestações trágicas de pobreza e miséria com a dimensão que sabemos existir, mas de que tantas vezes não temos plena consciência. O combate a desigualdade tão grande deveria ser uma necessidade ética urgente e imperiosa, pois o básico, numa sociedade civilizada, não pode faltar a ninguém e muito menos às crianças que não têm nenhuma responsabilidade pelo caos em que são jogadas. Não é uma questão de esquerda e direita, mas sim da elementar decência humana. Mas, infelizmente, não faz parte da agenda política das grandes potências mundiais nem de muitos outros líderes por esse mundo fora, tantas vezes mais preocupados com as suas agendas pessoais, com as suas guerras e esquecendo os que nada têm. Embora a desigualdade na Europa seja elevada, não tem nada a ver com a situação extrema da desigualdade a nível mundial, o que não deixa de ser preocupante. Esperemos que um dia destes os governantes, incluindo os de Portugal, tenham políticas que reduzam este fenómeno, bastando copiar alguns bons exemplos europeus, até porque os países menos desiguais, como é a Dinamarca, são mais pacíficos e mais equilibrados. Não se trata de distribuir armas, mas sim de equilibrar recursos.

Claro que devemos lutar por melhores condições de vida, trabalhar para tentar que se concretizem, revindicar quando se tratarem de injustiças relativas, mas, quando for caso disso, também celebrar e até mesmo agradecer tudo aquilo que já temos e milhões de almas por esse mundo fora não têm.                                                                                                                    Comparativamente com a população mundial e a título de exemplo:

Se tem 65 anos ou mais, deveria estar feliz e agradecido porque, nas condições atuais, em cada 100 pessoas neste planeta você é um dos 8 felizardos que tem a sorte de estar vivo. Se você não deixou este mundo antes dos 65 anos como 92% de pessoas que partiram antes de si, você já é abençoado entre a humanidade. Por isso, aprecie ao máximo a sua vida, aproveite cada momento do hoje e seja feliz. Cuide bem da sua saúde porque ninguém se importa mais de si do que você! Aprecie e viva cada momento restante com paixão! Quando somos um dos sortudos que já vivem há mais de 65 anos, não podemos ficar à espera de ter tudo para aproveitar a vidaE então, se chegarmos aos 81 como eu cheguei e que é a média da esperança de vida em Portugal, mais razões temos para festejar e estar gratos. 

Mas, para terminar as comparações à escala mundial: Se você tem casa própria, come 3 refeições completas por dia, bebe e tem água potável canalizada, tem carro próprio, telemóvel, pode aceder e navegar na internet, tem assistência social e de saúde, não está num país de alto risco ou elevados níveis de crime, tem ensino gratuito até ao 12º. Ano de escolaridade, você está num minúsculo lote de privilegiados, numa categoria inferior a 7% da população mundial, isto é, em cem pessoas, você é uma das 7 felizardas. Por isso goze e aproveite bem cada momento, como se este fosse o último dia da sua vida! Pois é certo que um dia destes você vai acordar morto e que seja um morto feliz …