Uma “instituição” que passou à história …

Foi inventado pelos gregos, popularizado durante a Idade Média, mas sobretudo do século XIV para diante. Entrou em Portugal há séculos e foi um artefacto de uso corrente no dia a dia para alívio de tantos nós. Ganhou muitas formas e feitios, os altos e os baixos, redondos e achatados, cheirosos e os que se limitavam a receber o cheiro da evacuação, mas o redondo com asa foi o mais tradicional. Há os que se partem e os que não quebram de jeito nenhum. Há-os em porcelana e até em madeira. De barro e em vidro, tal como em cerâmica ou em plástico. Também existem de ferro fundido e em alumínio, mas o mais preferido foi sempre o de ferro esmaltado. Já não falo nos feitos de ouro, esses reservados somente aos traseiros reais. Mas o John Bull, um inglês agachado com o braço a servir de asa, é o mais célebre entre nós, tendo sido desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro para satirizar os ingleses após o ultimato que fizeram a Portugal no final do século XIX para se retirar de alguns territórios de África. O objeto está no Museu Soares dos Reis e nunca chegou a ser comercializado. Foi criado com a intenção dos portugueses poderem “obrar” para dentro do John, vingando-se assim da humilhação dos ingleses. Claro que estamos a falar do bacio, também conhecido por “vaso de noite” e, mais popularmente, por penico. Enfim, uma instituição.

O penico serviu reis e rainhas, nobres, burgueses, ricos e remediados. Só não serviu os pobres das zonas rurais. Esses tinham de fazer as “descargas” das suas necessidades no campo, numa estrumeira em frente à porta da cozinha ou mesmo nas cortes do gado. Já no Palácio da Pena, em Sintra, existia um penico fora do vulgar, com tampa, que era da rainha D. Amélia e que hoje se encontra no museu. A certa altura, o penico até ganhou uma estrutura adjacente, uma cadeira à sua volta, exclusivo para ricos, burgueses e nobres. O penico é um objeto ingrato, tão útil quanto rejeitado, algo muito escondido pelos burgueses e nobres, mas carregado pelos escravos para momentos de aflição durante as viagens.

Por norma, o penico era colocado debaixo da cama, à mão de semear, para alívio dos aflitos em “apertos noturnos”. Mas, de vez em quando era “atropelado” a pontapé por cliente ensonado, espalhando o seu conteúdo malcheiroso, quando não metia a “pata na poça”. Muitas vezes tinha um lugar especial reservado na parte inferior de um móvel do quarto, a mesinha de cabeceira, fabricada em estilo próprio, com direito a porta privativa para tão importante artefacto. Pode-se dizer com toda a propriedade que outrora “os quartos com penico, lavatório e jarro de água” constituíram-se como o primeiro “quarto com casa de banho privativa”, um luxo que não era para toda a gente.

A cultura ocidental associa muitas vezes a vergonha a atos tão naturais e essenciais como o respirar, o comer, o defecar e o urinar. Sobre tal, Bernard Shaw dizia: “Só uma sociedade muito refinada é capaz de pensar nestas coisas (penico, retrete ou sanita) e, ao mesmo tempo, ruborizar-se ao falar delas”. A um objeto destinado a recolher dejetos e odores nada refinados como é o penico, fazem-se bastantes associações negativas como é o caso de uma caricatura célebre em que no penico está escrito “políticos” e o interior cheio de homens de casaca. Nesta linha de pensamento, quem não é militante de qualquer partido, é tido por “desalinhado” e, como tal, diz-se que “mija fora do penico”. Ora, quando Marinho Pinto foi candidato apelou aos jovens portugueses, precisamente para “mijarem fora do penico”, isto é, votando nele. Onde terá mijado quem lhe fez a vontade?

O penico serviu de instrumento der agressão à falta de melhor arma, foi despejado vezes sem conta janela fora sem se consideração nem respeito por quem ia a passar na rua, “aromatizando” os transeuntes incrédulos, serviu der caneca improvisada para rodadas de cerveja e até foi usado como “boné” de estudantes caloiros em desfiles universitários. Mas perdeu terreno para o saneamento das casas, deixando o interior das mesas-de-cabeceira e tornando-se uma brincadeira de crianças. Mas a sua força cultural é muito maior do que o objeto que é, porque além da função para que foi vocacionado também serviria e serve de inspiração aos criadores de piadas. A Dona Joaquina atendeu o telefone, dizendo: “Bom dia, fala a Joaquina. Com quem estou a falar?” E ouviu a resposta: “Daqui fala o Manuel. A senhora pode tirar-me uma dúvida?”, perguntou o homem do outro lado da linha. E ela, simpaticamente, disse: “Se eu souber. Qual é a dúvida?” Então o homem, armado em engraçadinho, perguntou: “D. Joaquina, a senhora sabe-me dizer se penico de barro enferruja?” E ela, oportuna e como se tivesse já a resposta na ponta da língua, respondeu: “Depende do cu que nele se senta, seu filho da …” E num instante a D. Joaquina despachou o chico-esperto com ironia e cinismo. Já a senhora Maria perguntou à Isaura: “Que barulho enorme foi aquele ontem à noite no teu quarto”? E a Isaura confessou: “Foi o bêbado do meu homem que tropeçou no penico”. 

Ainda recordo uma quadra popular que o José Barbosa, figura típica nos meus tempos de criança, de vez em quando recitava com ar brincalhão quando passava uma moça emproada: “Uma menina bonita/ por mais bonita que seja /sempre dá o seu peidinho/no penico quando “meija” (mija, mas em linguagem popular).

Vemos filmes das cortes com bailaricos e as festas de então, mas nunca vemos as divisões onde os penicos eram estrategicamente colocados para os convidados se aliviarem e nem sequer vemos um só penico. Lá está a tal vergonha e o pudor ocidental de, com naturalidade, falar, mostrar e, porque não, valorizar aquilo que tanto jeito deu a numerosas gerações, para não terem de sair de casa e ir a um canto qualquer a meio da noite, “arriar o calhau” ou despejar a bexiga antes que rebentasse. Não desvalorizemos o penico, considerado “o rei da noite”, uma “instituição” que já passou à história, pela importância que teve como “depositário” dos dejetos, líquidos e sólidos, dos “dois canos de esgotos” dos nossos avós, como de numerosos reis, rainhas, princesas, ricos e pobres, marqueses, aristocratas e burgueses, numa situação de igualdade democrática absoluta pois, por mais rendas, perfumes e bordados que os rodeassem, todos eles, mas todos mesmo sem exceção, foram sempre igualitariamente malcheirosos …

Uma carta que podia ser da Becas …

Adotei há cerca de 8 anos uma pequena cadela, a Becas, que a Teresa recuperou depois de recolhida pelo pai e irmã num estado miserável quando a encontraram no meio de um monte onde fora atada a uma árvore e abandonada pelo dono, condenada a uma morte horrível, de que escapou somente porque conseguiu roer a corda que o outro “animal” lhe colocara ao pescoço. E, apesar dos traumas que trazia depois de atravessar tal inferno, depressa se adaptou, insinuou e integrou como membro pleno desta família, encontrando aqui o porto de abrigo e a vida a que tinha direito. Recebeu e deu muito, deixando-nos uma imensa saudade quando partiu em consequência de doença grave. Cá em casa continuamos a sentir muito a sua falta, sofremos com a sua ausência e olhamos o vazio dos seus espaços. Mas ficou-nos a certeza que recebemos dela tanto ou mais do que aquilo que lhe demos. 

Às vezes, imagino-me a receber uma carta sua, como inúmeros donos gostariam de receber dos seus animais que partiram, dizendo:

“Querido dono, perdoa-me por te ter feito chorar e sofrer, mas chegou o momento de eu partir. Rogo-te que não chores mais. Sei que estás triste por ter ido embora, mas devo dizer-te que estou muito feliz por te ter conhecido. Quantos como eu, nascem, vivem, sofrem e morrem sem conhecer alguém especial? A maioria passa demasiado tempo só, entregue à sua sorte. Só conhecem o frio, a fome, a sede e o perigo, lutando todos os dias para arranjar comida, um lugar onde se sintam protegidos, enfim, sobreviver. Veem muitas pessoas diariamente, que passam e olham sem os ver. E muitas vezes é melhor que não os vejam para não acabarem maltratados. De vez em quando há um rosto que olha, vê e se condói da nossa indigência. E acontece o milagre quando nos recolhe, trata das feridas e cuida plenamente. E adotam-nos e até nos dão um NOME e, com isso, uma identidade. Eu tive a felicidade de ser encontrada, recolhida, cuidada e aceite por uma família humana que também me deu um nome. Tornei-me então muito “especial”, deixando de ser mais uma anónima, para ter um lugar e um lar a quem passei a pertencer. Já nunca mais tive medo, fome, frio nem senti solidão ou perigo. Se os humanos pudessem calcular quanto isso nos faz felizes! Pois para nós, qualquer casa é um palácio e não importa se é grande ou pequena, rica ou pobre. Já não temos de nos preocupar se chove ou neva, de um carro a grande velocidade ou de alguém que nos vai maltratar. E, principalmente, já não estamos sozinhos. É que, a solidão é terrível. Que mais se pode pedir? Eu sei que a minha partida te entristeceu, mas o meu sofrimento era inútil e chegou a minha hora. E peço-te que não te culpes por nada. Ouvi-te a soluçar por achares que deverias ter feito algo mais por mim. Não digas isso, pois fizeste muito mesmo! Sem ti não teria conhecido a beleza da vida e guardo-a comigo. 

Sabes bem que nós, animais, sentimos dor, fome, medo, alegria, mágoa, tristeza e raiva. Sofremos ao ser abandonados E até pressentimos se o nosso dono estás triste, alegre, feliz ou zangado, assustado ou furioso. E, como os humanos, não queremos morrer sozinhos. As nossas vidas começam quando conhecemos o amor, como o que me deste. És o meu anjo sem asas. Por isso te digo que, se vires um animal abandonado e gravemente ferido, a quem só reste um bocadinho de tempo, prestas-lhe um enorme serviço se o acompanhares nos seus momentos finais. Como te disse, nenhum de nós gosta de estar só, menos ainda quando percebemos que chegou a hora de partir. Por isso, ficar ao nosso lado é muito importante, acariciando-nos, segurando a nossa pata, dizendo algo em língua estranha, mas que o coração sabe traduzir. Isso ajuda-nos a ir em paz. 

Não chores mais, por favor, eu vou feliz. Tenho na lembrança o nome que me deram, o calor da tua casa e da família que também se tornou minha. Levo o som da tua voz falando para mim, mesmo quando não entendia o que dizias. Guardo a saudade das nossas caminhadas matinais, das brincadeiras no jardim ou deitada aos vossos pés e do meu lugar nos sofás da casa onde adormecia com a cabeça no teu colo ou subia para as costas do sofá para servir de encosto à tua cabeça, sentindo-me tão segura e protegida. Carrego no coração cada carícia que me fizeram e todo o amor que me dedicaram. E, não falando a vossa língua, certamente pudeste ler nos meus olhos a minha imensa gratidão, “pois as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar”.

Só te peço mais alguns favores: lava o rosto e começa a sorrir; lembra-te como foi bom os momentos que vivemos juntos; não esqueças as palhaçadas que fazia para te alegrar; e não digas que não adotarás outro animal porque tens sofrido muito com a minha partida. Sem ti eu não teria uma vida tão bela. Não faças isso e não prives o teu coração de se dar de novo, por medo de sofrer! Há muitos outros esperando por alguém como tu. Dá-lhes o que me deste, eles precisam de um anjo assim como eu precisei de ti. Continua essa missão nobre, pois agora cabe-me a mim ser o teu anjo, porque aqui no céu, é-nos concedido o direito de velar e zelar por alguém que amamos. Vou acompanhar-te no teu caminho e ajudar-te-ei a ajudar outros como eu. E quando falar com os outros animais que estão aqui comigo, vou contar-lhes tudo o que fizeram por mim e dizer-lhes com orgulho: “Aquela é a minha família”. E nas noites estreladas olha o céu e verás uma estrela a piscar. Sou eu a abrir e fechar um olho, a avisar-te que cheguei bem e a dizer-te: “Obrigado pelo amor que me deste”. E não te vou dizer ‘adeus’, mas somente um “até já”, porque há um céu especial para pessoas como vocês, o céu para onde todos nós vamos, onde continuamos a viver no coração um do outro. E a vida recompensa-nos, fazendo com que nos voltemos a encontrar. Não tenhas pressa, estarei sempre à tua espera”!

Este texto, mistura de retalhos de mensagens, vida e sentimentos, 

é um tributo não só à Becas, um animal feliz, dócil e adorável, mas mais ainda, a todos as pessoas que amam os seus animais e os consideram como membros da família, muitas vezes criticados por o fazerem em excesso. Mas é justo dizer que são essas mesmas pessoas sensíveis, que amam igualmente os seus familiares, os amigos, o emprego, o jardim, um livro, uma banda rock, o vizinho do lado, o outro que sofre, o desconhecido que pede ajuda. E isso diz-nos tudo sobre quem são e o que são …

Num mundo desigual, há razões para celebrar a vida …

Somos mais de dez milhões e meio de portugueses neste nosso país à beira-mar plantado o que é muita gente para alimentar, vestir, calçar, educar, tratar da saúde, mandar de férias e até viver de subsídios. E aqui temos pobres, remediados, ricos e alguns (poucos) muito ricos.  

Mas, se olharmos para todo o planeta Terra, para este mundo que conhecemos e de que fazemos parte, são “somente!” um pouco mais de 8 biliões (para melhor percebermos o que isso é, aí vai o número: 8.000.000.000. Um susto)! E no planeta há mesmo de tudo: muito pobres, pobres, remediados, bem de vida, ricos e muito ricos. Mas aqui há um enorme absurdo que nos diz bem o estado dessa sociedade global: do grupo muito restrito dos tais “muito ricos”, também conhecidos por “multimilionários”, há 26, e repito, somente 26, que são possuidores de mais riqueza do que os 4.000.000.000 (quatro mil milhões) de almas mais pobres do planeta, isto é, cerca de metade da população mundial, que vivem com rendimento diário entre 1,6 euros e 8,1 euros. Alguém consegue imaginar como é possível? Se estes 26 marmanjos se quiserem sentar à volta de uma mesa, quem os impede de talhar o mundo à fatia e distribuí-lo entre eles? É a maior desigualdade da história da humanidade e a tendência é para que os ricos fiquem cada vez mais ricos. E, como em regra não sabem parar, transformam o poder económico em poder político, corroendo as democracias e usando-o então para aumentar a sua riqueza. É um problema central da política: os privilegiados adquirem progressivamente o poder de aumentar os seus privilégios.

A realidade nua e crua é que, no mundo em que vivemos há muita gente verdadeiramente pobre, sem acesso a eletricidade, água potável e canalizada, cuidados de higiene e saúde, educação e a um rendimento minimamente aceitável para sobreviver. E sobrevivem, quando sobrevivem! Uma realidade que tantas vezes nos escapa e que ignoramos no dia a dia das nossas lamentações, reclamações, contestações e exigências. Ora, esta gigantesca desigualdade entre muito ricos e muito pobres que vemos, sobretudo a nível mundial e que vai aumentar, que pôs na mão de 26 pessoas uma riqueza igual à dos 4 biliões de mais pobres do planeta é inconcebível! Em pleno século XXI, não é de todo aceitável que haja manifestações trágicas de pobreza e miséria com a dimensão que sabemos existir, mas de que tantas vezes não temos plena consciência. O combate a desigualdade tão grande deveria ser uma necessidade ética urgente e imperiosa, pois o básico, numa sociedade civilizada, não pode faltar a ninguém e muito menos às crianças que não têm nenhuma responsabilidade pelo caos em que são jogadas. Não é uma questão de esquerda e direita, mas sim da elementar decência humana. Mas, infelizmente, não faz parte da agenda política das grandes potências mundiais nem de muitos outros líderes por esse mundo fora, tantas vezes mais preocupados com as suas agendas pessoais, com as suas guerras e esquecendo os que nada têm. Embora a desigualdade na Europa seja elevada, não tem nada a ver com a situação extrema da desigualdade a nível mundial, o que não deixa de ser preocupante. Esperemos que um dia destes os governantes, incluindo os de Portugal, tenham políticas que reduzam este fenómeno, bastando copiar alguns bons exemplos europeus, até porque os países menos desiguais, como é a Dinamarca, são mais pacíficos e mais equilibrados. Não se trata de distribuir armas, mas sim de equilibrar recursos.

Claro que devemos lutar por melhores condições de vida, trabalhar para tentar que se concretizem, revindicar quando se tratarem de injustiças relativas, mas, quando for caso disso, também celebrar e até mesmo agradecer tudo aquilo que já temos e milhões de almas por esse mundo fora não têm.                                                                                                                    Comparativamente com a população mundial e a título de exemplo:

Se tem 65 anos ou mais, deveria estar feliz e agradecido porque, nas condições atuais, em cada 100 pessoas neste planeta você é um dos 8 felizardos que tem a sorte de estar vivo. Se você não deixou este mundo antes dos 65 anos como 92% de pessoas que partiram antes de si, você já é abençoado entre a humanidade. Por isso, aprecie ao máximo a sua vida, aproveite cada momento do hoje e seja feliz. Cuide bem da sua saúde porque ninguém se importa mais de si do que você! Aprecie e viva cada momento restante com paixão! Quando somos um dos sortudos que já vivem há mais de 65 anos, não podemos ficar à espera de ter tudo para aproveitar a vidaE então, se chegarmos aos 81 como eu cheguei e que é a média da esperança de vida em Portugal, mais razões temos para festejar e estar gratos. 

Mas, para terminar as comparações à escala mundial: Se você tem casa própria, come 3 refeições completas por dia, bebe e tem água potável canalizada, tem carro próprio, telemóvel, pode aceder e navegar na internet, tem assistência social e de saúde, não está num país de alto risco ou elevados níveis de crime, tem ensino gratuito até ao 12º. Ano de escolaridade, você está num minúsculo lote de privilegiados, numa categoria inferior a 7% da população mundial, isto é, em cem pessoas, você é uma das 7 felizardas. Por isso goze e aproveite bem cada momento, como se este fosse o último dia da sua vida! Pois é certo que um dia destes você vai acordar morto e que seja um morto feliz …

A mudança, até na campanha eleitoral …

Há uma verdade definitiva: A vida é feita de mudança. E as campanhas eleitorais não fogem à regra, como aconteceu neste primeiro “round” para as presenciais. Já pouco têm a ver com as primeiras eleições para presidente da república ou até para o parlamento. Já não se realizam os grandes comícios eleitorais de outrora com discursos inflamados e multidões vibrantes, nem se fazem as enormes arruadas por esse país fora onde os candidatos eram “transportados” à borla aos ombros de militantes entusiasmados como se tratasse de ídolos vencedores de um qualquer campeonato de futebol. Nem se deixa os quatro cantos do país pejados de cartazes com a fotografia dos candidatos pendurados nos postes ou colados nas paredes, as faixas amarradas de árvore a árvore ou nas pontes das autoestradas e o apelo ao voto em pinturas improvisadas. O folclore eleitoral era maior, feito de mais espetáculo público, mas com mais improviso e maior fanatismo. 

Agora, a aposta maior trava-se na internet, especialmente através das redes sociais, promovendo-se verdades, meias-verdades e mentiras, com a mesmíssima roupagem e em mais ou menos quantidade. Na televisão, os muitos debates entre os candidatos proporcionam mais tempo de antena a inúmeros comentadores desses mesmos debates para cada um dar a sua interpretação daquilo que eles disseram ou queriam dizer. E durante os dias, antes e durante a campanha, visitam mercados, feiras, lares de terceira idade, lojas, cafés e todo o tipo de ajuntamentos de povo para uma conversa informal, mas intencional.

Estas eleições tiveram um dado novo: o elevado número de candidatos que concorreram, mesmo não contando com todos aqueles que não conseguiram “apanhar o comboio” a tempo ou por falta de “bilhete” de viagem. E convém realçar que tivemos de tudo um pouco: altos e baixos, novos e velhos recorrentes, trabalhadores e turistas, militares e civis, mediáticos e ignorados, carecas e cabeludos. Houve até quem concorresse para gozar com o sistema, com afirmações bombásticas como “eu só desisto se for eleito”, “prometo vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português e uma prostituta grátis em cada esquina”, para depois terminar com um cartaz radical: “Se gostas de vinho, p’tas e bebedeira, vota no Vieira”. E não foi o concorrente com menos clientela, embora não tenha chegado ao mínimo de 5% de votos para ter direito à subvenção do estado. Dirá: “Não há problema pois também só gastei 860 euros na campanha”! 

A campanha ficou marcada por um intenso ruído político, mas muito mais por uma orquestra de queixas e insinuações que nada abona a favor da democracia. Continuou-se a jogar com as emoções para captar votos em vez de uma postura de candidato presidencial que sabe o que significa disputar um lugar em Belém ao apresentar as suas propostas para o caso de vir a exercer o cargo, deixando em evidência alguns egos sensíveis. E, em vez de um confronto de ideias saudável e desejável, a campanha transformou-se numa mera contabilidade improvisada de ofensas, insinuações e acusações veladas, inclusive a jornalistas, tendo parte delas ficado a pairar sobre a campanha como um grande ruído persistente. Perderam-se assim temas como o mundo rural, a educação e a cultura, além do interior que, pouco falado, rapidamente voltará a ser esquecido.

Depois de um sábado para reflexão e dos eleitores levarem consigo as frases, os gestos, as queixas e até as ausências, o voto fez aquilo que nenhuma opinião ou sondagem consegue garantir: separar o acessório do essencial. E escolheram Seguro e Ventura para irem ao “tira-teimas” final, com resultado mais ou menos previsível.

Na grande leva de comentadores que se foram ouvindo ao longo do antes e durante a campanha eleitoral, alguém dizia que, “estamos entre o fim e o abismo. E que “há falta de coragem intelectual para admitir que Portugal pode precisar menos de mais um presidente e mais de um rei”. É verdade que alguns presidentes se comportaram como reis ao longo do seu mandato, esquecendo a “ética republicana”. E, a ser assim, mais-valia que a presidência passasse de pais para filhos e de filhos para netos ou, até mesmo, para um amigo ainda que fosse só “amigo dos copos”. Poupava-se o custo das campanhas eleitorais, não só para o estado (que somos todos nós), como para os candidatos se o valor recebido do estado (que somos todos nós) “não chegar para o petróleo”.   

Ora bem: depois de termos “o presidente das selfies” que tinha uma atração por microfones mais forte do que a de um íman potente por metais, que não poupava esforços para nos brindar todos os dias com opiniões sobre tudo e sobre nada, seria desejável que, aquele que nos vier a sair na “rifa” no próximo mês de Fevereiro, seja mais contido e ponderado. E menos falante. Era um favor que fazia aos portugueses, mas especialmente a mim para não ter de mudar tantas vezes de canal, pois devo dizer que já me custa carregar no botão do comando com o reumático e as artroses que, mais dia menos dia, me vão tramar as articulações … 

E, já agora, por solidariedade e respeito para com os outros candidatos derrotados, por que não cumprir uma das promessas do candidato Manuel João Vieira aos portugueses, uma só? Ficava-lhe bem e o povo daria saltos de contente, mesmo que não fosse o Ferrari …

“Caravana da morte”, a vergonha do país!

No ano que acabou de findar completaram-se 50 anos sobre um dos acontecimentos mais tristes e vergonhosos da nossa história, sem que políticos, governantes e imprensa (salvaguarde-se uma reportagem na RTP1 do jornalista António Mateus) lhe tivessem dado qualquer relevo e nem sequer um ato de memória em homenagem a todos aqueles que dele foram vítimas. Tratou-se da maior e mais dramática caravana de fuga da história deste país, apelidada por muitos como a “Caravana da Morte”, composta por milhares de viaturas e de muitos milhares mais de civis de todas as idades, quase todos portugueses, uns nascidos aqui, mas muitos mais em Angola, brancos, pretos e mestiços que fugiam ao caos e à violência que tomaram conta de Angola, início da guerra civil, meses antes da proclamação da independência daquele território, mas ainda sob a responsabilidade de Portugal, forçados a fugir para salvar a vida. Partiram dos quatro cantos de Angola para, a partir de Nova Lisboa onde a concentração ganharia tal dimensão, rumarem em direção ao sul, às chamadas Terras do Fim do Mundo, o Sudoeste Africano, atual Namíbia, que na altura estava sob o domínio sul africano, mas que era tido como o melhor porto de abrigo possível. E partiram, mesmo com a recusa das Forças Armadas portuguesas em assegurar-lhes proteção para os muitos perigos de uma fuga daquelas num país em guerra civil, a eles que eram cidadãos portugueses, por ordens de Lisboa dadas por políticos e governantes irresponsáveis, muitos deles ainda hoje tidos por “heróis” nacionais, com honrarias, medalhas, bustos e funerais para o Panteão Nacional, que fizeram questão de propagandear como “descolonização exemplar”, sem respeito nem consideração pelos milhares de vítimas torturadas, assassinadas, violadas, assaltadas, violentadas de todas as formas e despojadas por completo dos seus bens de uma vida de sacrifícios. Mais ainda, fez-se constar que eles eram “colonizadores” e estavam agora a pagar o preço do que tinham feito …  

Apesar dos muitos sinais, a maioria acreditara que a independência respeitaria todos os portugueses a viverem em Angola, fossem eles de que raça fosse nascidos cá, lá ou em qualquer outra parte do mundo pois eram todos angolanos até porque de Lisboa lhes chegavam “vozes inocentes” a dizer para terem calma e aceitarem os novos agentes do poder angolano, porque “eles” contavam com todos para a construção do país. Por isso foram ficando nas suas casas, nas empresas que construíram do nada, no trabalho que tinham, acreditando. Mesmo apesar das notícias de violência praticada por membros dos três movimentos partidários, que ocupavam casas, empresas, fazendas, pilhando, roubando, assassinando e violando mulheres de todas as idades, ainda foram acreditando. Até que sentiram a trágica realidade feita de violência selvagem caminhando de norte para o sul, mais ainda ao saberem que as autoridades militares portuguesas, que tinham a obrigação de os defender, haviam caído no ridículo ao deixarem que um batalhão tivesse sido emboscado, desarmado e obrigado a que todos despissem e entregassem as fardas e respetivo calçado. Imagine-se a estupefação de quem assistiu à chegada ao quartel de Nova Lisboa daqueles militares humilhados, “um batalhão em cuecas” e a confiança que podiam ter neles para os proteger, se eles nem eram capazes de se proteger a si mesmos, nem a fazer-se respeitar! E ficaram entregues a si próprios, com a agravante de, pela primeira vez na história moderna, eles como refugiados de guerra, serem tidos como parte do problema e denegridos se pegassem em armas para defender os seus. 

E então, enquanto alguns fugiam de barco e milhares de outros ficaram a gritar junto do palácio do governador em Luanda “tirem-nos daqui” e a exigir uma “ponte aérea” que os levasse para fora de Angola, muitos não quiseram ficar à espera de um país que os abandonara e optaram fugir por terra em direção ao sul, a fronteira mais credível para salvar o seu bem mais precioso, a Vida. E excluíram logo a ida para Portugal por considerarem que “pouco ou nada tinham a ver com um país que, agora, mais do que nunca, os olhava de lado”. E meteram-se a caminho reunidos em grupos de viaturas maiores ou menores através de rotas diversas, correndo enormes riscos pelo abandono do poder político e militar: das emboscadas e violência das guerrilhas, da fome, da doença e sede do deserto, dos acidentes, incidentes, imprevistos, das avarias mecânicas, dos dilemas morais e laços humanos forjados no desespero. A “Caravana da Morte”, tanto pelo número de viaturas e pessoas civis em fuga, como pelas incidências do percurso, pelo tempo que durou até que as últimas famílias chegassem a um local de acolhimento final, de mais de seis meses, pelos milhares de quilómetros percorridos desde os mais diversos pontos de Angola, parte deles em terreno de areia ou lama com atascamentos constantes, pelas estadias forçadas em vários campos de concentração improvisados e sem condições nenhumas e o enorme sofrimento físico e psíquico e incerteza no seu futuro, é o registo fundamental e emocionante da tragédia humana da descolonização e do trauma coletivo da “geração do retorno”. E deva-se realçar que, curiosamente, o único país que prestou assistência, aliviou o sofrimento e garantiu segurança aos integrantes da Caravana ainda desde terras angolanas, foi a África do Sul, nessa altura um país visto de lado e ostracizado pela comunidade internacional, por segregação racial com o “apartheid”. Mas valeram-lhes e muito! Curioso.

Nessa viagem recheada de milhares de percalços e fim incerto, o rádio foi essencial para ter informações, mas também aí a desconfiança dos fugitivos relativa aos meios de comunicação portugueses, alinhados com o MPLA, levou-os a recorrer à BBC, Radio France e Deutsche Welle para terem notícias credíveis. Desta fuga como de todo o processo de descolonização “exemplar”, nunca se chegarão a conhecer com certeza o número de vítimas violadas, assassinadas, mutiladas e torturadas e o destino final de todos os que conseguiram escapar à barbárie, muitos deles idos para destinos diversos, da África do Sul à Austrália, do Brasil à Alemanha e, claro está, a Portugal. 

A “Caravana da Morte” foi parte integrante do movimento de retorno de setecentos mil a um milhão de portugueses de África, um dos maiores êxodos migratórios da Europa do pós-guerra, marcando profundamente a nossa memória coletiva e ficando como uma enorme vergonha para o país, designadamente para os governantes de então que nunca assumiram tal responsabilidade e escaparam impunes, apesar do eco dos gritos das vítimas inocentes …   

Educação especial para pais e não só!

Quando estava a poucos meses de entrar para a universidade, ouviu a mãe dizer, com a voz embargada e lágrimas nos olhos: “Não temos dinheiro para a Cristina ir para a universidade”. Foi como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos seus pés. Toda a segurança que pensava ter, evaporou-se. A sua família, que sempre teve uma boa situação financeira, estava a lutar para se manter à tona da água. E nesse momento percebeu como a falta de educação financeira pode definir o futuro de uma família – as oportunidades que se têm ou se perdem, os sonhos que se realizam ou se desfazem. E foi um tio que lhe salvou o futuro, ao dispor-se a ajudá-la através de uma mesada, impondo condições claras: “Tens cinco anos para terminar o curso, nem mais um dia, nem mais um escudo”. A partir daí, aprendeu a gerir cada cêntimo da mesada, a planear e priorizar tudo, percebendo que nos falta uma verdadeira educação financeira, uma ferramenta muito importante contra o consumismo desenfreado e a imprudência financeira.

Os cinco anos seguintes foram tempo de lições financeiras e não só, mas o verdadeiro desafio surgiu quando se tornou mãe e viu que as abordagens que conhecia não eram adequadas para ensinar o seu filho na questão do dinheiro: Ele não se interessava. Foi quando percebeu que a educação financeira infantil é completamente diferente da dos adultos. Não querendo desistir de ensinar o seu filho, a sua frustração levou-a a estudar a fundo o assunto explorando várias áreas da ciência que foi adotando com ele, levando a que, pouco a pouco, se começasse a interessar, a poupar com objetivos claros e a compreender o valor do dinheiro. Assim, quando nasceu a sua filha, adaptou o ensino à idade usando uma abordagem lúdica, tendo ela incorporado os conceitos financeiros desde bem cedo, com muita facilidade e naturalidade. Hoje, faz disso um propósito de vida para suprir esta lacuna que é de todo o país, oferecendo às crianças, adolescentes e às suas famílias uma verdadeira educação financeira, que vai muito para além dos números e ensina de forma lúdica e prática. Porque, diz ela, “ensinar finanças a uma criança é muito mais sobre comportamentos e emoções do que sobre matemática e juros, criando uma relação saudável com o dinheiro”.

Para mim, a educação financeira não foi algo que tenha aprendido em casa desde criança, nem nada que me tenha sido ensinado na escola. A lição que recebi em casa de meus pais quando criança foi a mesma que a maioria das outras receberam nessa época: “Não há dinheiro”. Ora, como o dinheiro de cada família era muito pouco para satisfazer as “necessidades primárias” como comer, vestir e habitação, não havia lugar a dinheiro para os “desejos”, tudo aquilo que gostaríamos de ter, mas que não é indispensável para a nossa sobrevivência. Nesse tempo bem distante, um tostão era algo a que nos agarrávamos como se fosse um tesouro. E, quando se tratava do funeral de algum familiar de um dos ditos “fidalgos” de então, onde a participação na “cruzada” de cada criança que acompanhava o cortejo fúnebre era contemplada com uma “coroa” (cinco tostões), está bom de ver que ninguém faltava. Pelo contrário, as crianças e adolescentes de hoje, desde que nascem, são educadas a verem satisfeitos, não só todas as suas necessidades, como todos ou quase todos os seus desejos, seja através do pedido simples, seja através de um reforçado com amuos, berros, choradeira, insultos, quando não ameaças suficientes para ter os seus “desejos” satisfeitos num instante. E quantos pais são capazes de dizer “Não” ao “pequeno ditador”? E assim, desde tenra idade, lhes “é ensinado” que “o dinheiro cai do céu”, algo que aprendem muito depressa, mas que, com muita dificuldade ou nunca vão perceber que não é verdade. E assim nasce um consumista. Aí começam os problemas resultantes da tal falta de educação financeira na infância e na adolescência.

Cristina Lucas sentiu na pele os efeitos da falta de literacia financeira na família e teve a ousadia e coragem de deixar a situação privilegiada de que dispunha para se entregar à missão arrojada de remar contra a maré para mudar mentalidades e comportamentos de pais, educadores e professores, para que, juntos, possam contribuir para o sucesso das gerações futuras. Para tal, escreveu o livro “Desperte o génio financeiro do seu filho” e criou outras ferramentas complementares para abordar o tema, que considera fundamental para que os seus filhos possam navegar pelo mundo com confiança, sabendo fazer escolhas conscientes, responsáveis e com impacto positivo. Porque, como ela diz, “educar financeiramente uma criança é muito mais do que falar sobre dinheiro. É ajudá-la a construir um pensamento crítico que a prepare para enfrentar os desafios do mundo. O verdadeiro sucesso financeiro vem de uma base sólida de valores, comportamentos e emoções bem geridas. E tudo começa em casa”. E não deixa de acrescentar: “Ao longo da minha vida aprendi que somos nós, os pais, os primeiros responsáveis por criar um ambiente que promova essa relação saudável com o dinheiro. Cada conversa sobre finanças, cada exemplo que damos, cada escolha que fazemos pode ser uma oportunidade para fortalecermos laços com os nossos filhos e prepará-los para um futuro mais próspero”. 

Depois de ter lido o livro duas vezes, só tenho um reparo a fazer: esta obra, que é um guia importantíssimo para pais e educadores, para mim enquanto pai chega com, pelo menos, quarenta anos de atraso. O que não belisca a sua importância excecional para a educação das nossas crianças, adolescentes e até adultos, uma grande pedrada no charco na falta de literacia financeira do país …

Há quem não queira mesmo ouvir …

Já há muito tempo deixei de ter discussões ou debates com certo tipo de pessoas porque nem toda a discussão vale a pena. É que há uma grande diferença entre uma discussão saudável e um debate inútil. Com o tempo fui chegando à conclusão que só vale a pena alimentar uma conversa com alguém que tenha uma mentalidade suficiente para compreender que podemos ter perspetivas e opiniões diferentes, pois, caso contrário, não faz o menor sentido. É que, às vezes, não interessa se nos estamos a expressar com clareza ou não, se de facto a outra pessoa não está a ouvir para entender o nosso ponto de vista, mas somente para reagir, porque está presa às suas convicções pessoais e certezas ainda que tenham sido adquiridas nas conversas “informadas” das redes sociais, que considera serem as únicas, as verdadeiras. Os outros estão sempre errados. Conversar com alguém de mente aberta é agradável, ajuda-nos a compreender melhor as questões ouvindo outros conceitos e perspetivas, mesmo que não estejamos de acordo, num debate tranquilo e saudável. Mas tentar argumentar com alguém que se recusa a enxergar para além do nariz e das próprias crenças, é como falar com uma parede e só dá para a gente se cansar e chatear. E não importa que se use a lógica e a verdade porque ele vai distorcê-las, ignorará as nossas palavras, não porque estejamos errados, mas porque não está disposto a ver o outro lado, a analisar o outro ponto de vista. Por isso, evitar estas discussões não se trata de saber quem as vence, mas de perceber quando uma discussão não vale a pena. E trata.se de entender que a nossa paz é mais importante do que provar um ponto de vista a alguém radicalizado nas suas convicções. Daí que, nem todas as batalhas precisam de ser travadas e nem todas as pessoas merecem a nossa explicação. 

Tomemos consciência de como nos definimos a nós mesmos e como defendemos o nosso “território pessoal”. Por exemplo, considera-se de esquerda ou direita? E como defende a sua postura política? Já reparou como se “apossa” de uma mesa no café, de um lugar de estacionamento ou um lugar no autocarro? E como reage quando alguém lhe “ocupa o que considera seu”? Fica irritado e chateado? Nesse momento, como se define ao defender o seu “território pessoal”? Se pensar bem nisso, vai descobrir que está constantemente a definir um certo espaço físico específico como sendo seu, seja uma cadeira na sala, um lugar no sofá, a prateleira de um armário ou até um lugar no chão para a aula de ginástica. É que, para onde vá, o ser humano tem o hábito de fazer um ninho seguro e de defendê-lo. Também nos definimos pela posse de muitos bens e que muitas vezes até achamos que precisamos para nos completar e nos fazer felizes. Pode ser um carro, uma casa, um curso universitário, o reconhecimento público. E se não podemos ter aquilo que instigamos o nosso coração a querer, ficamos infelizes. Isso também nos define através daquilo que conseguimos ter e manter. Definimo-nos ainda pelas nossas posses intelectuais, exibindo o nosso conhecimento e defendendo vigorosamente os nossos pontos de vista, certos ou errados, mas que são nossos. E pensamos: “As minhas opiniões e convicções sobre este assunto é que estão certas. Vou argumentar até os convencer!” Ora, isso é extraordinariamente divertido se considerarmos que, num grupo de 30 pessoas, há 29 opiniões além da nossa. E então, porque será que temos de considerar que a nossa opinião é a única certa? Assim, quando nos apercebemos que a nossa opinião está a ser contrariada, tantas vezes desmontada, somos tomados pela irritação, quando não a raiva, indícios de que estamos a defender o nosso “território pessoal”, no fundo, no fundo, o nosso “Eu”. A raiva surge quando achamos que, para ser felizes, precisamos de nos livrar de algo ou de alguém. Pode ser um político, uma dor ou uma doença, um chefe ou um colega de trabalho desagradável, um vizinho irritante ou até um cachorro que não para de ladrar. Se não nos podemos livrar deles ficamos infelizes. E pergunta: “Porque é que o mundo não colabora para o que eu quero aconteça”? Novamente, isso é surpreendente e divertido. Por que razão as coisas deveriam acontecer do jeito que eu quero e não da maneira desejada pelos outros biliões de habitantes deste planeta?

Hoje, as redes sociais deram a (quase) toda a gente opinião “informada, avalizada e especializada” que lhes confere autoridade moral para não ouvir o que o outro tem para dizer, numa conversa que deveria ser civilizada e saudável. Vive-se muito em bolhas de informação, sejam elas políticas, futebolísticas ou outras, onde a “verdade” que circula é aquela que os “crentes” querem ouvir. Por isso, para as suas mentes, tudo o que vem de fora dessa bolha não é credível, não merece ser ouvido. E não ouvem mesmo, por mais alto que a verdade os atinja na cara …   

A envelhecer se aprende e esquece!

Segundo a estatística, em Portugal há cerca de 2,5 milhões de pessoas com mais de 65 anos (um em cada quatro portugueses), a quem chamam reformados, idosos, seniores, sessenta mais e, como é natural, velhos. E também lhes chamam alguns nomes bem “menos simpáticos”, mas aos que o fazem “dá-se-lhes um desconto. Eu sou um elemento da estatística e não faço disso um problema até porque, mentalmente, ainda penso que sou muito mais novo, se bem que não seja nada fácil ter muita idade neste país. Ainda pensei que, para além dos descontos nos transportes públicos pudesse ter mais algumas benesses, a começar pela deferência e atenção de algumas pessoas mais novas na cedência do lugar sentado quando está tudo ocupado. Mas isso acontece tão, tão raramente, que já nem me lembro da última vez que vi alguém fazê-lo, embora não a mim que ainda tenho boas pernas. E rio-me para mim mesmo ao ver os olhares focados no telemóvel ou na paisagem só para fingir que não viram. Mas fingem tão mal …                                                                                                                    É comovente os ensinamentos que podemos colher da sabedoria dos idosos. Perguntaram a um aposentado que está já há alguns anos na reforma: “O que é que o senhor faz de especial na vida enquanto aposentado”? E ele, depois de pensar um pouco respondeu: “Eu tenho muita sorte de ser graduado em engenharia química e uma das coisas que mais me agrada fazer é transformar a cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas em urina. E estou a sair-me muito bem” …               Desde que tomei a decisão de me “reformar” da Instituição onde era dirigente voluntário, tenho-me movimentado mais noutros círculos onde encontro com muito maior frequência gente da minha idade e tem sido muito agradável retomar relações que a vida levou para caminhos diferentes. E desses encontros cheguei à conclusão de que, à medida que os anos passam, cada vez comemos menos, enquanto cada vez tomamos mais medicamentos. Alguns locais são ponto de encontro certo pois encontramos quase sempre amigos e conhecidos nos supermercados, velórios e funerais. Relembram-se tempos idos, amigos que se foram e, em muitos casos, relata-se o historial clínico com mais ou menos pormenor e que é recontado a cada encontro porque a memória recente vai-se e esquecemos o que fizemos hoje, onde deixamos o telemóvel, a chave do carro, o que íamos buscar, quando não um encontro ou acontecimento importante.                                                 Sejamos francos, envelhecer é uma merda! Quando achamos que já sabemos tudo, é quando começamos a esquecer, quando queremos saltar o muro é quando as pernas nos falham e quando pensávamos que éramos importantes é quando descobrimos que o mundo gira e continua a girar como se nunca tivéssemos existido. Mas, está claro, a alternativa ao envelhecer é muito pior …

Ao longo da vida enquanto envelhecemos aprendemos muitas coisas, mas só nos damos conta do valor de umas quantas muitos anos mais tarde. Aprendemos que um dos momentos mais pacíficos do mundo é ter uma criança adormecida nos braços. Aprendemos que um sorriso é a maneira mais barata de melhorar a nossa aparência, tal como aprendemos que ninguém é perfeito … até nos apaixonarmos por essa pessoa. Pessoalmente, aprendi também que gostaria de ter dito ao meu pai e meus dois irmãos que os amava, antes de eles morrerem prematuramente. 

Com o tempo, vamo-nos afastando das multidões barulhentas, das festas e dos eventos, não porque perdemos a vontade, mas porque aprendemos a escolher, aprendemos que não precisamos mais de estar em todos os lugares a sorrir o tempo todo. A gente aprende a não forçar a nossa presença onde o coração já não pulsa e, com a tranquilidade que antes não tínhamos, dizemos que “isso já não é para mim”. E quem ouve, às vezes sente pena, mas só quem chegou até aqui entende que não é tristeza, mas sim alívio e o sentimento de paz, de quem não precisa de provar mais nada.                                          Aprendemos ainda que o dinheiro é importante, que pode comprar muita coisa, mas que não compra classe. Pessoalmente, aprendi muito mais da vida com as pessoas humildes, que em milhentos pormenores me ensinaram muito sem pedirem nada em troca, coisa que não encontrei em certas cabeças importantes.                                                                                     Aprendemos que a vida é uma sucessão de perdas, desde o leite materno aos colegas da escola primária, dos amigos mais ou menos próximos aos familiares mais ou menos velhos. E que o tamanho da saudade e do sofrimento não se mede pela dimensão da manifestação pública dessa perda, mas pelo sentimento pessoal e íntimo de cada um que nem sempre traz lágrimas à mistura.                                    Quando olho para trás, recordo-me perfeitamente que, no momento seguinte ao ter acabado o meu curso, senti que não sabia nada e só me veio um pensamento à cabeça: “Agora estou mais preparado para aprender”. E foi o que fiz ao longo das seis décadas que se seguiram: Aprender, aprender, aprender. Mas a fase que se segue, certamente, é a do esquecimento, do que fiz, do que me disseram, do que aprendi, do que vi ou li, algo para o qual a medicina ainda não descobriu uma solução. E questiono-me: Será que morro antes de me esquecer quem sou ou esqueço-me de quem sou antes de morrer?

Precisamos de ir ainda mais além …

Dia sim, dia sim, os casos acontecem, uns a seguir aos outros, cada dia mais chocantes. E ficamos a perguntar-nos: como isto é possível? Um casal morava numa das freguesias do nosso concelho e, por razões pessoais, teve de se mudar para o Algarve, carregando consigo a família, os móveis e os trastes. Mas, para trás deixou uma pequena cadela, abandonada à porta de casa como “lixo sem utilidade”. E o pequeno animal, fiel aos seus donos, ficou por ali à espera que eles regressassem, acreditando que eles não a trairiam e iam voltar como sempre voltaram. Mas eles não regressaram para a vir buscar, dar-lhe de comer e até brincar, embora ela permanecesse junto de casa, esperando. Como se não bastasse o abandono, os vizinhos sempre que a viam escorraçavam-na à pedrada, umas vezes sem lhe acertar, mas outras atingindo-a com mais ou menos gravidade. Numa das ocasiões, um deles conseguiu encurralá-la e deu-lhe pontapés atrás de pontapés até se fartar, criminosamente, para descarregar a sua fúria, raiva e a maldade escondida no ser humano. Até que, alguém consciente, dando conta do caso, comunicou-o a um responsável da Associação Lousada Animal, tendo de imediato duas voluntárias se deslocado ao local para recolher aquele pequeno animal indefeso. E depararam-se com uma cadelita extremamente dócil, ferida de lado, que se sentava e dava a pata tremendo toda nos quartos traseiros. Como sempre, foi conduzida à clínica veterinária onde foi observada, e tratada, ficando para mais tarde uma intervenção cirúrgica. Mas há histórias tristes que acabam por ter um final feliz e esta é uma delas, pois, felizmente, ainda há muitos humanos que trazem ao de cima o seu lado bom. Colocada a sua história e fotografia nas redes sociais, rapidamente uma família se dispôs a adotá-la, “agradecendo por poder vir a fazer parte da vida da cadelita”. Como esta, há centenas ou milhares de histórias que, na comparação entre os ditos “animais de estimação” e os seres humanos, nada dignificam estes. 

Quem vai a um canil público ou um abrigo privado de animais, ouve histórias atrás de histórias como a do rafeiro preto que os pais deram ao filho porque ele pediu muito, para um mês depois ser largado bem longe porque sujava a casa, roía a mobília e molhava ao redor do bebedouro. E dava trabalho. E outro, quando começou a dar despesa no veterinário. E muitos outros por largarem pelo que não deveriam ter. E por razões absurdas, de quem arranjou um animal por impulso sem pensar na responsabilidade que se assume (ou deveria assumir) quando se adota um. E abandona-se, ignorando o sofrimento desse animal – porque eles sofrem como nós – enchendo abrigos públicos e privados. Por isso, ao entrarmos num canil, ouvimos uma multidão de cães a ladrar atrás das grades e os seus olhos dizem o que sentem: que precisam de uma casa, de um dono que lhes dê afeto e cuidados. E que não os traia. Porque se eles pudessem escrever as suas crónicas como eu, que diriam? 

Como sociedade, evoluímos muito no cuidar dos nossos animais, mas ainda temos muito caminho a percorrer. Ainda há quem pense que, por dar comida e água a um animal já o está a tratar bem. Será? Às vezes passava por um determinado local onde há um terreno vedado. Amarrado a um cadeado preso com uma argola a uma verguinha de ferro com seis metros de comprimento estava um cão. Podia andar de um lado para o outro nessa distância de seis metros, fazendo deslocar a argola e o cadeado que o prendia, mas nada mais que isso. Tinha alguma comida que o dono lhe deitava na pia, quando lá ia, dia sim dia não, ou de dois em dois, três em três dias ou mais. Ninguém mais. E tinha um bidão velho, ferrugento, como abrigo, para não apanhar com a chuva toda quando chovia. Imagino a solidão do pobre animal. Sendo uma criatura sociável, não gostava de viver sozinho. Mas o dono pensava que ele estava bem tratado, se pensava. Então, o que pensaria o dono se fosse acorrentado a uma parede, dia após dia, tendo de urinar e defecar a poucos metros do lugar onde dormia, convivendo dia e noite com o cheiro das fezes e da urina (e o olfato deles é muito mais sensível)? Em qualquer parte do mundo seria considerado desumano. 

Todos (ou quase todos) consideram bonito ter um animal de estimação. Como qualquer ser vivo, necessitam de cuidados e carinho. E depois? Muitos são maltratados e votados ao abandono em estado crítico, debilitados, com ferimentos graves ou completamente fragilizados. Então, há os que são recolhidos pelos serviços públicos, porque têm a obrigação, e por voluntários, porque têm vocação e devoção à causa. E recebem cuidados adequados e a chance de voltar a acreditar nos seres humanos. E os restantes?

Para irmos mais além, precisamos de duas coisas: por um lado, como os animais não podem falar nem comunicar, que cada um fale e comunique por eles, denunciando sempre que souber ou presenciar alguma cena de maus-tratos a qualquer tipo de animal. Por outro, os voluntários e suas associações precisam da ajuda de todas as pessoas comprometidas, através de doações em dinheiro, rações, tapetes higiénicos, medicamentos, produtos de limpeza, caminhas, etc. E há sempre lugar para mais voluntários. E, no caso da Associação Lousada Animal, de famílias de acolhimento temporário para animais recolhidos até à adoção, por não dispor de abrigo. É que, cada gesto de solidariedade representa uma nova chance para um animal que sofreu, mas que ainda merece conhecer o verdadeiro significado de cuidado e pertencimento. E que ainda há um lado humano entre os humanos …Dia sim, dia sim, os casos acontecem, uns a seguir aos outros, cada dia mais chocantes. E ficamos a perguntar-nos: como isto é possível? Um casal morava numa das freguesias do nosso concelho e, por razões pessoais, teve de se mudar para o Algarve, carregando consigo a família, os móveis e os trastes. Mas, para trás deixou uma pequena cadela, abandonada à porta de casa como “lixo sem utilidade”. E o pequeno animal, fiel aos seus donos, ficou por ali à espera que eles regressassem, acreditando que eles não a trairiam e iam voltar como sempre voltaram. Mas eles não regressaram para a vir buscar, dar-lhe de comer e até brincar, embora ela permanecesse junto de casa, esperando. Como se não bastasse o abandono, os vizinhos sempre que a viam escorraçavam-na à pedrada, umas vezes sem lhe acertar, mas outras atingindo-a com mais ou menos gravidade. Numa das ocasiões, um deles conseguiu encurralá-la e deu-lhe pontapés atrás de pontapés até se fartar, criminosamente, para descarregar a sua fúria, raiva e a maldade escondida no ser humano. Até que, alguém consciente, dando conta do caso, comunicou-o a um responsável da Associação Lousada Animal, tendo de imediato duas voluntárias se deslocado ao local para recolher aquele pequeno animal indefeso. E depararam-se com uma cadelita extremamente dócil, ferida de lado, que se sentava e dava a pata tremendo toda nos quartos traseiros. Como sempre, foi conduzida à clínica veterinária onde foi observada, e tratada, ficando para mais tarde uma intervenção cirúrgica. Mas há histórias tristes que acabam por ter um final feliz e esta é uma delas, pois, felizmente, ainda há muitos humanos que trazem ao de cima o seu lado bom. Colocada a sua história e fotografia nas redes sociais, rapidamente uma família se dispôs a adotá-la, “agradecendo por poder vir a fazer parte da vida da cadelita”. Como esta, há centenas ou milhares de histórias que, na comparação entre os ditos “animais de estimação” e os seres humanos, nada dignificam estes. 

Quem vai a um canil público ou um abrigo privado de animais, ouve histórias atrás de histórias como a do rafeiro preto que os pais deram ao filho porque ele pediu muito, para um mês depois ser largado bem longe porque sujava a casa, roía a mobília e molhava ao redor do bebedouro. E dava trabalho. E outro, quando começou a dar despesa no veterinário. E muitos outros por largarem pelo que não deveriam ter. E por razões absurdas, de quem arranjou um animal por impulso sem pensar na responsabilidade que se assume (ou deveria assumir) quando se adota um. E abandona-se, ignorando o sofrimento desse animal – porque eles sofrem como nós – enchendo abrigos públicos e privados. Por isso, ao entrarmos num canil, ouvimos uma multidão de cães a ladrar atrás das grades e os seus olhos dizem o que sentem: que precisam de uma casa, de um dono que lhes dê afeto e cuidados. E que não os traia. Porque se eles pudessem escrever as suas crónicas como eu, que diriam? 

Como sociedade, evoluímos muito no cuidar dos nossos animais, mas ainda temos muito caminho a percorrer. Ainda há quem pense que, por dar comida e água a um animal já o está a tratar bem. Será? Às vezes passava por um determinado local onde há um terreno vedado. Amarrado a um cadeado preso com uma argola a uma verguinha de ferro com seis metros de comprimento estava um cão. Podia andar de um lado para o outro nessa distância de seis metros, fazendo deslocar a argola e o cadeado que o prendia, mas nada mais que isso. Tinha alguma comida que o dono lhe deitava na pia, quando lá ia, dia sim dia não, ou de dois em dois, três em três dias ou mais. Ninguém mais. E tinha um bidão velho, ferrugento, como abrigo, para não apanhar com a chuva toda quando chovia. Imagino a solidão do pobre animal. Sendo uma criatura sociável, não gostava de viver sozinho. Mas o dono pensava que ele estava bem tratado, se pensava. Então, o que pensaria o dono se fosse acorrentado a uma parede, dia após dia, tendo de urinar e defecar a poucos metros do lugar onde dormia, convivendo dia e noite com o cheiro das fezes e da urina (e o olfato deles é muito mais sensível)? Em qualquer parte do mundo seria considerado desumano. 

Todos (ou quase todos) consideram bonito ter um animal de estimação. Como qualquer ser vivo, necessitam de cuidados e carinho. E depois? Muitos são maltratados e votados ao abandono em estado crítico, debilitados, com ferimentos graves ou completamente fragilizados. Então, há os que são recolhidos pelos serviços públicos, porque têm a obrigação, e por voluntários, porque têm vocação e devoção à causa. E recebem cuidados adequados e a chance de voltar a acreditar nos seres humanos. E os restantes?

Para irmos mais além, precisamos de duas coisas: por um lado, como os animais não podem falar nem comunicar, que cada um fale e comunique por eles, denunciando sempre que souber ou presenciar alguma cena de maus-tratos a qualquer tipo de animal. Por outro, os voluntários e suas associações precisam da ajuda de todas as pessoas comprometidas, através de doações em dinheiro, rações, tapetes higiénicos, medicamentos, produtos de limpeza, caminhas, etc. E há sempre lugar para mais voluntários. E, no caso da Associação Lousada Animal, de famílias de acolhimento temporário para animais recolhidos até à adoção, por não dispor de abrigo. É que, cada gesto de solidariedade representa uma nova chance para um animal que sofreu, mas que ainda merece conhecer o verdadeiro significado de cuidado e pertencimento. E que ainda há um lado humano entre os humanos …

Um pedido: COntinua essa nobre missão!

No centro de Lousada junto às bombas da Repsol, um carro travou e parou, fazendo parar os carros que o precediam. O condutor abriu o vidro da janela, pôs o braço de fora com uma gata na mão e, para surpresa de quem via, jogou-a para a frente do seu carro e arrancou em grande velocidade, passando-lhe por cima ante a incredibilidade de quem via . Por mero acaso, num dos carros da fila havia uma voluntária da Associação Lousada Animal que saiu em socorro da gata, percebendo que ainda estava viva e que, além de ferida, estava muito doente e débil, tendo-a levado de imediato para uma das clínicas com quem a Associação tem parceria.  O seu estado era tal que, antes de a operar, tiveram de a tratar primeiro da doença para poder aguentar a cirurgia, tendo conseguido salvar-lhe a vida. Depois de curada fisicamente, foi parar a casa da Teresa, uma fundadora, dirigente e voluntária das mais ativas da Associação, como “família de acolhimento”, para completar a recuperação em resultado do trauma sofrido. A convalescença foi excelente e a gata ao fim de algum tempo já deixava a Teresa pegá-la ao colo, acariciá-la, brincar com ela e até ronronava de satisfação. 

Um dia, ao abrir a porta do jardim pela manhã, a gata aproveitou e fugiu para o exterior que não conhecia por estar confinada dentro de casa. Teresa foi logo atrás dela, mas a gata foi-lhe escapando até a conseguir agarrar em cima do muro. Mas, ao dirigir-se para casa, ela esperneou e quando Teresa a poisou no solo, foi atacada pela gata, esgadanhando-a com as patas e mordendo onde podia. Só ao fim de algum tempo, com auxílio de uma rede e depois de muitos arranhões nos braços e mãos e várias mordidas nos dedos, é que conseguiu levá-la, mas com braços e mãos a sangrar. Ao fim do dia a sua mão direita, em especial o indicador, tinha sinais evidentes de infeção, o que a fez deslocar-se a um Centro de Saúde para ser observada e tratada com antibiótico para combater a infeção. Aí começou um longo calvário ao longo de vários meses que a fez passar por um médico que, depois de lhe lancetar o dedo infetado para retirar todo o pus e tratar, a aconselhou a ser vista por um cirurgião ortopédico, o que viria a acontecer, tendo-a ele operado sob fortes reservas pois, à partida, ia com a intenção de lhe amputar o dedo. Depois de várias semanas com a mão empalada, 2 ferros enfiados no interior, da ponta do dedo à base, de mais de 60 dias a antibiótico e muitas dores, com recuperação longa a necessitar de fisioterapia e a certeza que as duas falanges do indicador ficarão unidas para sempre sem capacidade de flexão, Teresa não sabe quais as consequências finais de todo este incidente, físicas e psicológicas, com uma gata que não era sua, mas por quem lutou e tudo fez para salvar e recuperar plenamente.

A partir do momento do incidente, Teresa passou de maior amiga a maior inimiga da gata Camila, numa regressão enorme do processo de recuperação e em função do avivar de traumas passados. Mas não desistiu dela e continuou a fazer tudo para a recuperar e encontrar a pessoa adequada para a adotar, tendo conseguido escolher alguém que desde o início se interessou pela sua história e pelo drama de mais um animal doméstico agredido nos seus direitos, nas palavras da Teresa “a pessoa certa para a cuidar e compensar do que sofreu pela maldade humana”.

Teresa tem sido excecional na sua dedicação à defesa dos animais e, já agora para os críticos destas pessoas, à defesa e ajuda de pessoas em situação difícil, tendo participado com outros voluntários no salvamento, recuperação e adoção de centenas de animais nestes cerca de 10 anos de Associação o que, para quem tem recursos muito escassos porque vive de donativos, é obra digna de ser respeitada e elogiada. E a ela cabe uma boa quota de trabalho e responsabilidade por esse sucesso. No entanto, as consequências do incidente para a Teresa foram enormes. Uma das mordidas da gata perfurou a cápsula da articulação e infetou-a de tal forma que um dos ortopedistas não acreditava que fosse possível salvar-lhe o dedo que já parecia estar a gangrenar. Em consequência do uso de tantos antibióticos, as unhas tendem a descolar e deverão acabar por sair. Depois de muitos meses de recuperação física, não se sabe como vai reagir emocionalmente e quais as consequências psicológicas pelo sofrimento e limitações com que ficou provocadas involuntariamente por um animal que ajudou a salvar. 

Quando penso no que aconteceu à Teresa e ao saber que todo o seu sofrimento físico e psicológico a tem feito pensar abandonar a Associação e essa nobre missão a que se tem dedicado com alma, coração, muito empenho e sucesso, fico a pensar que, para contrabalançar, seria suficiente que ela colocasse no outro prato da balança a alegria e satisfação pessoal que certamente teve ao longo destes anos por cada um dos muitos casos bem-sucedidos e que resultaram na salvação, adoção e bem-estar de tantos animais, algo que não tem preço e justifica, só por si, todos os sacrifícios. E ao pensar que muitos desses animais, para além de abandonados pelos donos, foram criminosa e violentamente mal tratados, muitos deles de forma selvagem como o foi a gata Camila desta história verídica, não só foram recuperados, como tiveram um final feliz ao ser adotados por uma família selecionada, que lhes deu um lar e a conhecer o lado bom dos seres humanos, peço a Deus e a todos aqueles que conhecem o seu trabalho voluntário, que não a deixem desistir dessa nobre missão de salvar animais. Porque se soubermos cuidar deles, dão-nos mais do que recebem … 

Da ”besta” que conduzia o automóvel nada mais se soube, mas de uma coisa tenho a certeza: é um animal muito mais irracional do que a gata que quis matar na via pública, num miserável espetáculo …