Quando estava a poucos meses de entrar para a universidade, ouviu a mãe dizer, com a voz embargada e lágrimas nos olhos: “Não temos dinheiro para a Cristina ir para a universidade”. Foi como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos seus pés. Toda a segurança que pensava ter, evaporou-se. A sua família, que sempre teve uma boa situação financeira, estava a lutar para se manter à tona da água. E nesse momento percebeu como a falta de educação financeira pode definir o futuro de uma família – as oportunidades que se têm ou se perdem, os sonhos que se realizam ou se desfazem. E foi um tio que lhe salvou o futuro, ao dispor-se a ajudá-la através de uma mesada, impondo condições claras: “Tens cinco anos para terminar o curso, nem mais um dia, nem mais um escudo”. A partir daí, aprendeu a gerir cada cêntimo da mesada, a planear e priorizar tudo, percebendo que nos falta uma verdadeira educação financeira, uma ferramenta muito importante contra o consumismo desenfreado e a imprudência financeira.
Os cinco anos seguintes foram tempo de lições financeiras e não só, mas o verdadeiro desafio surgiu quando se tornou mãe e viu que as abordagens que conhecia não eram adequadas para ensinar o seu filho na questão do dinheiro: Ele não se interessava. Foi quando percebeu que a educação financeira infantil é completamente diferente da dos adultos. Não querendo desistir de ensinar o seu filho, a sua frustração levou-a a estudar a fundo o assunto explorando várias áreas da ciência que foi adotando com ele, levando a que, pouco a pouco, se começasse a interessar, a poupar com objetivos claros e a compreender o valor do dinheiro. Assim, quando nasceu a sua filha, adaptou o ensino à idade usando uma abordagem lúdica, tendo ela incorporado os conceitos financeiros desde bem cedo, com muita facilidade e naturalidade. Hoje, faz disso um propósito de vida para suprir esta lacuna que é de todo o país, oferecendo às crianças, adolescentes e às suas famílias uma verdadeira educação financeira, que vai muito para além dos números e ensina de forma lúdica e prática. Porque, diz ela, “ensinar finanças a uma criança é muito mais sobre comportamentos e emoções do que sobre matemática e juros, criando uma relação saudável com o dinheiro”.
Para mim, a educação financeira não foi algo que tenha aprendido em casa desde criança, nem nada que me tenha sido ensinado na escola. A lição que recebi em casa de meus pais quando criança foi a mesma que a maioria das outras receberam nessa época: “Não há dinheiro”. Ora, como o dinheiro de cada família era muito pouco para satisfazer as “necessidades primárias” como comer, vestir e habitação, não havia lugar a dinheiro para os “desejos”, tudo aquilo que gostaríamos de ter, mas que não é indispensável para a nossa sobrevivência. Nesse tempo bem distante, um tostão era algo a que nos agarrávamos como se fosse um tesouro. E, quando se tratava do funeral de algum familiar de um dos ditos “fidalgos” de então, onde a participação na “cruzada” de cada criança que acompanhava o cortejo fúnebre era contemplada com uma “coroa” (cinco tostões), está bom de ver que ninguém faltava. Pelo contrário, as crianças e adolescentes de hoje, desde que nascem, são educadas a verem satisfeitos, não só todas as suas necessidades, como todos ou quase todos os seus desejos, seja através do pedido simples, seja através de um reforçado com amuos, berros, choradeira, insultos, quando não ameaças suficientes para ter os seus “desejos” satisfeitos num instante. E quantos pais são capazes de dizer “Não” ao “pequeno ditador”? E assim, desde tenra idade, lhes “é ensinado” que “o dinheiro cai do céu”, algo que aprendem muito depressa, mas que, com muita dificuldade ou nunca vão perceber que não é verdade. E assim nasce um consumista. Aí começam os problemas resultantes da tal falta de educação financeira na infância e na adolescência.
Cristina Lucas sentiu na pele os efeitos da falta de literacia financeira na família e teve a ousadia e coragem de deixar a situação privilegiada de que dispunha para se entregar à missão arrojada de remar contra a maré para mudar mentalidades e comportamentos de pais, educadores e professores, para que, juntos, possam contribuir para o sucesso das gerações futuras. Para tal, escreveu o livro “Desperte o génio financeiro do seu filho” e criou outras ferramentas complementares para abordar o tema, que considera fundamental para que os seus filhos possam navegar pelo mundo com confiança, sabendo fazer escolhas conscientes, responsáveis e com impacto positivo. Porque, como ela diz, “educar financeiramente uma criança é muito mais do que falar sobre dinheiro. É ajudá-la a construir um pensamento crítico que a prepare para enfrentar os desafios do mundo. O verdadeiro sucesso financeiro vem de uma base sólida de valores, comportamentos e emoções bem geridas. E tudo começa em casa”. E não deixa de acrescentar: “Ao longo da minha vida aprendi que somos nós, os pais, os primeiros responsáveis por criar um ambiente que promova essa relação saudável com o dinheiro. Cada conversa sobre finanças, cada exemplo que damos, cada escolha que fazemos pode ser uma oportunidade para fortalecermos laços com os nossos filhos e prepará-los para um futuro mais próspero”.
Depois de ter lido o livro duas vezes, só tenho um reparo a fazer: esta obra, que é um guia importantíssimo para pais e educadores, para mim enquanto pai chega com, pelo menos, quarenta anos de atraso. O que não belisca a sua importância excecional para a educação das nossas crianças, adolescentes e até adultos, uma grande pedrada no charco na falta de literacia financeira do país …