Educação especial para pais e não só!

Quando estava a poucos meses de entrar para a universidade, ouviu a mãe dizer, com a voz embargada e lágrimas nos olhos: “Não temos dinheiro para a Cristina ir para a universidade”. Foi como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos seus pés. Toda a segurança que pensava ter, evaporou-se. A sua família, que sempre teve uma boa situação financeira, estava a lutar para se manter à tona da água. E nesse momento percebeu como a falta de educação financeira pode definir o futuro de uma família – as oportunidades que se têm ou se perdem, os sonhos que se realizam ou se desfazem. E foi um tio que lhe salvou o futuro, ao dispor-se a ajudá-la através de uma mesada, impondo condições claras: “Tens cinco anos para terminar o curso, nem mais um dia, nem mais um escudo”. A partir daí, aprendeu a gerir cada cêntimo da mesada, a planear e priorizar tudo, percebendo que nos falta uma verdadeira educação financeira, uma ferramenta muito importante contra o consumismo desenfreado e a imprudência financeira.

Os cinco anos seguintes foram tempo de lições financeiras e não só, mas o verdadeiro desafio surgiu quando se tornou mãe e viu que as abordagens que conhecia não eram adequadas para ensinar o seu filho na questão do dinheiro: Ele não se interessava. Foi quando percebeu que a educação financeira infantil é completamente diferente da dos adultos. Não querendo desistir de ensinar o seu filho, a sua frustração levou-a a estudar a fundo o assunto explorando várias áreas da ciência que foi adotando com ele, levando a que, pouco a pouco, se começasse a interessar, a poupar com objetivos claros e a compreender o valor do dinheiro. Assim, quando nasceu a sua filha, adaptou o ensino à idade usando uma abordagem lúdica, tendo ela incorporado os conceitos financeiros desde bem cedo, com muita facilidade e naturalidade. Hoje, faz disso um propósito de vida para suprir esta lacuna que é de todo o país, oferecendo às crianças, adolescentes e às suas famílias uma verdadeira educação financeira, que vai muito para além dos números e ensina de forma lúdica e prática. Porque, diz ela, “ensinar finanças a uma criança é muito mais sobre comportamentos e emoções do que sobre matemática e juros, criando uma relação saudável com o dinheiro”.

Para mim, a educação financeira não foi algo que tenha aprendido em casa desde criança, nem nada que me tenha sido ensinado na escola. A lição que recebi em casa de meus pais quando criança foi a mesma que a maioria das outras receberam nessa época: “Não há dinheiro”. Ora, como o dinheiro de cada família era muito pouco para satisfazer as “necessidades primárias” como comer, vestir e habitação, não havia lugar a dinheiro para os “desejos”, tudo aquilo que gostaríamos de ter, mas que não é indispensável para a nossa sobrevivência. Nesse tempo bem distante, um tostão era algo a que nos agarrávamos como se fosse um tesouro. E, quando se tratava do funeral de algum familiar de um dos ditos “fidalgos” de então, onde a participação na “cruzada” de cada criança que acompanhava o cortejo fúnebre era contemplada com uma “coroa” (cinco tostões), está bom de ver que ninguém faltava. Pelo contrário, as crianças e adolescentes de hoje, desde que nascem, são educadas a verem satisfeitos, não só todas as suas necessidades, como todos ou quase todos os seus desejos, seja através do pedido simples, seja através de um reforçado com amuos, berros, choradeira, insultos, quando não ameaças suficientes para ter os seus “desejos” satisfeitos num instante. E quantos pais são capazes de dizer “Não” ao “pequeno ditador”? E assim, desde tenra idade, lhes “é ensinado” que “o dinheiro cai do céu”, algo que aprendem muito depressa, mas que, com muita dificuldade ou nunca vão perceber que não é verdade. E assim nasce um consumista. Aí começam os problemas resultantes da tal falta de educação financeira na infância e na adolescência.

Cristina Lucas sentiu na pele os efeitos da falta de literacia financeira na família e teve a ousadia e coragem de deixar a situação privilegiada de que dispunha para se entregar à missão arrojada de remar contra a maré para mudar mentalidades e comportamentos de pais, educadores e professores, para que, juntos, possam contribuir para o sucesso das gerações futuras. Para tal, escreveu o livro “Desperte o génio financeiro do seu filho” e criou outras ferramentas complementares para abordar o tema, que considera fundamental para que os seus filhos possam navegar pelo mundo com confiança, sabendo fazer escolhas conscientes, responsáveis e com impacto positivo. Porque, como ela diz, “educar financeiramente uma criança é muito mais do que falar sobre dinheiro. É ajudá-la a construir um pensamento crítico que a prepare para enfrentar os desafios do mundo. O verdadeiro sucesso financeiro vem de uma base sólida de valores, comportamentos e emoções bem geridas. E tudo começa em casa”. E não deixa de acrescentar: “Ao longo da minha vida aprendi que somos nós, os pais, os primeiros responsáveis por criar um ambiente que promova essa relação saudável com o dinheiro. Cada conversa sobre finanças, cada exemplo que damos, cada escolha que fazemos pode ser uma oportunidade para fortalecermos laços com os nossos filhos e prepará-los para um futuro mais próspero”. 

Depois de ter lido o livro duas vezes, só tenho um reparo a fazer: esta obra, que é um guia importantíssimo para pais e educadores, para mim enquanto pai chega com, pelo menos, quarenta anos de atraso. O que não belisca a sua importância excecional para a educação das nossas crianças, adolescentes e até adultos, uma grande pedrada no charco na falta de literacia financeira do país …

Há quem não queira mesmo ouvir …

Já há muito tempo deixei de ter discussões ou debates com certo tipo de pessoas porque nem toda a discussão vale a pena. É que há uma grande diferença entre uma discussão saudável e um debate inútil. Com o tempo fui chegando à conclusão que só vale a pena alimentar uma conversa com alguém que tenha uma mentalidade suficiente para compreender que podemos ter perspetivas e opiniões diferentes, pois, caso contrário, não faz o menor sentido. É que, às vezes, não interessa se nos estamos a expressar com clareza ou não, se de facto a outra pessoa não está a ouvir para entender o nosso ponto de vista, mas somente para reagir, porque está presa às suas convicções pessoais e certezas ainda que tenham sido adquiridas nas conversas “informadas” das redes sociais, que considera serem as únicas, as verdadeiras. Os outros estão sempre errados. Conversar com alguém de mente aberta é agradável, ajuda-nos a compreender melhor as questões ouvindo outros conceitos e perspetivas, mesmo que não estejamos de acordo, num debate tranquilo e saudável. Mas tentar argumentar com alguém que se recusa a enxergar para além do nariz e das próprias crenças, é como falar com uma parede e só dá para a gente se cansar e chatear. E não importa que se use a lógica e a verdade porque ele vai distorcê-las, ignorará as nossas palavras, não porque estejamos errados, mas porque não está disposto a ver o outro lado, a analisar o outro ponto de vista. Por isso, evitar estas discussões não se trata de saber quem as vence, mas de perceber quando uma discussão não vale a pena. E trata.se de entender que a nossa paz é mais importante do que provar um ponto de vista a alguém radicalizado nas suas convicções. Daí que, nem todas as batalhas precisam de ser travadas e nem todas as pessoas merecem a nossa explicação. 

Tomemos consciência de como nos definimos a nós mesmos e como defendemos o nosso “território pessoal”. Por exemplo, considera-se de esquerda ou direita? E como defende a sua postura política? Já reparou como se “apossa” de uma mesa no café, de um lugar de estacionamento ou um lugar no autocarro? E como reage quando alguém lhe “ocupa o que considera seu”? Fica irritado e chateado? Nesse momento, como se define ao defender o seu “território pessoal”? Se pensar bem nisso, vai descobrir que está constantemente a definir um certo espaço físico específico como sendo seu, seja uma cadeira na sala, um lugar no sofá, a prateleira de um armário ou até um lugar no chão para a aula de ginástica. É que, para onde vá, o ser humano tem o hábito de fazer um ninho seguro e de defendê-lo. Também nos definimos pela posse de muitos bens e que muitas vezes até achamos que precisamos para nos completar e nos fazer felizes. Pode ser um carro, uma casa, um curso universitário, o reconhecimento público. E se não podemos ter aquilo que instigamos o nosso coração a querer, ficamos infelizes. Isso também nos define através daquilo que conseguimos ter e manter. Definimo-nos ainda pelas nossas posses intelectuais, exibindo o nosso conhecimento e defendendo vigorosamente os nossos pontos de vista, certos ou errados, mas que são nossos. E pensamos: “As minhas opiniões e convicções sobre este assunto é que estão certas. Vou argumentar até os convencer!” Ora, isso é extraordinariamente divertido se considerarmos que, num grupo de 30 pessoas, há 29 opiniões além da nossa. E então, porque será que temos de considerar que a nossa opinião é a única certa? Assim, quando nos apercebemos que a nossa opinião está a ser contrariada, tantas vezes desmontada, somos tomados pela irritação, quando não a raiva, indícios de que estamos a defender o nosso “território pessoal”, no fundo, no fundo, o nosso “Eu”. A raiva surge quando achamos que, para ser felizes, precisamos de nos livrar de algo ou de alguém. Pode ser um político, uma dor ou uma doença, um chefe ou um colega de trabalho desagradável, um vizinho irritante ou até um cachorro que não para de ladrar. Se não nos podemos livrar deles ficamos infelizes. E pergunta: “Porque é que o mundo não colabora para o que eu quero aconteça”? Novamente, isso é surpreendente e divertido. Por que razão as coisas deveriam acontecer do jeito que eu quero e não da maneira desejada pelos outros biliões de habitantes deste planeta?

Hoje, as redes sociais deram a (quase) toda a gente opinião “informada, avalizada e especializada” que lhes confere autoridade moral para não ouvir o que o outro tem para dizer, numa conversa que deveria ser civilizada e saudável. Vive-se muito em bolhas de informação, sejam elas políticas, futebolísticas ou outras, onde a “verdade” que circula é aquela que os “crentes” querem ouvir. Por isso, para as suas mentes, tudo o que vem de fora dessa bolha não é credível, não merece ser ouvido. E não ouvem mesmo, por mais alto que a verdade os atinja na cara …   

A envelhecer se aprende e esquece!

Segundo a estatística, em Portugal há cerca de 2,5 milhões de pessoas com mais de 65 anos (um em cada quatro portugueses), a quem chamam reformados, idosos, seniores, sessenta mais e, como é natural, velhos. E também lhes chamam alguns nomes bem “menos simpáticos”, mas aos que o fazem “dá-se-lhes um desconto. Eu sou um elemento da estatística e não faço disso um problema até porque, mentalmente, ainda penso que sou muito mais novo, se bem que não seja nada fácil ter muita idade neste país. Ainda pensei que, para além dos descontos nos transportes públicos pudesse ter mais algumas benesses, a começar pela deferência e atenção de algumas pessoas mais novas na cedência do lugar sentado quando está tudo ocupado. Mas isso acontece tão, tão raramente, que já nem me lembro da última vez que vi alguém fazê-lo, embora não a mim que ainda tenho boas pernas. E rio-me para mim mesmo ao ver os olhares focados no telemóvel ou na paisagem só para fingir que não viram. Mas fingem tão mal …                                                                                                                    É comovente os ensinamentos que podemos colher da sabedoria dos idosos. Perguntaram a um aposentado que está já há alguns anos na reforma: “O que é que o senhor faz de especial na vida enquanto aposentado”? E ele, depois de pensar um pouco respondeu: “Eu tenho muita sorte de ser graduado em engenharia química e uma das coisas que mais me agrada fazer é transformar a cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas em urina. E estou a sair-me muito bem” …               Desde que tomei a decisão de me “reformar” da Instituição onde era dirigente voluntário, tenho-me movimentado mais noutros círculos onde encontro com muito maior frequência gente da minha idade e tem sido muito agradável retomar relações que a vida levou para caminhos diferentes. E desses encontros cheguei à conclusão de que, à medida que os anos passam, cada vez comemos menos, enquanto cada vez tomamos mais medicamentos. Alguns locais são ponto de encontro certo pois encontramos quase sempre amigos e conhecidos nos supermercados, velórios e funerais. Relembram-se tempos idos, amigos que se foram e, em muitos casos, relata-se o historial clínico com mais ou menos pormenor e que é recontado a cada encontro porque a memória recente vai-se e esquecemos o que fizemos hoje, onde deixamos o telemóvel, a chave do carro, o que íamos buscar, quando não um encontro ou acontecimento importante.                                                 Sejamos francos, envelhecer é uma merda! Quando achamos que já sabemos tudo, é quando começamos a esquecer, quando queremos saltar o muro é quando as pernas nos falham e quando pensávamos que éramos importantes é quando descobrimos que o mundo gira e continua a girar como se nunca tivéssemos existido. Mas, está claro, a alternativa ao envelhecer é muito pior …

Ao longo da vida enquanto envelhecemos aprendemos muitas coisas, mas só nos damos conta do valor de umas quantas muitos anos mais tarde. Aprendemos que um dos momentos mais pacíficos do mundo é ter uma criança adormecida nos braços. Aprendemos que um sorriso é a maneira mais barata de melhorar a nossa aparência, tal como aprendemos que ninguém é perfeito … até nos apaixonarmos por essa pessoa. Pessoalmente, aprendi também que gostaria de ter dito ao meu pai e meus dois irmãos que os amava, antes de eles morrerem prematuramente. 

Com o tempo, vamo-nos afastando das multidões barulhentas, das festas e dos eventos, não porque perdemos a vontade, mas porque aprendemos a escolher, aprendemos que não precisamos mais de estar em todos os lugares a sorrir o tempo todo. A gente aprende a não forçar a nossa presença onde o coração já não pulsa e, com a tranquilidade que antes não tínhamos, dizemos que “isso já não é para mim”. E quem ouve, às vezes sente pena, mas só quem chegou até aqui entende que não é tristeza, mas sim alívio e o sentimento de paz, de quem não precisa de provar mais nada.                                          Aprendemos ainda que o dinheiro é importante, que pode comprar muita coisa, mas que não compra classe. Pessoalmente, aprendi muito mais da vida com as pessoas humildes, que em milhentos pormenores me ensinaram muito sem pedirem nada em troca, coisa que não encontrei em certas cabeças importantes.                                                                                     Aprendemos que a vida é uma sucessão de perdas, desde o leite materno aos colegas da escola primária, dos amigos mais ou menos próximos aos familiares mais ou menos velhos. E que o tamanho da saudade e do sofrimento não se mede pela dimensão da manifestação pública dessa perda, mas pelo sentimento pessoal e íntimo de cada um que nem sempre traz lágrimas à mistura.                                    Quando olho para trás, recordo-me perfeitamente que, no momento seguinte ao ter acabado o meu curso, senti que não sabia nada e só me veio um pensamento à cabeça: “Agora estou mais preparado para aprender”. E foi o que fiz ao longo das seis décadas que se seguiram: Aprender, aprender, aprender. Mas a fase que se segue, certamente, é a do esquecimento, do que fiz, do que me disseram, do que aprendi, do que vi ou li, algo para o qual a medicina ainda não descobriu uma solução. E questiono-me: Será que morro antes de me esquecer quem sou ou esqueço-me de quem sou antes de morrer?

Precisamos de ir ainda mais além …

Dia sim, dia sim, os casos acontecem, uns a seguir aos outros, cada dia mais chocantes. E ficamos a perguntar-nos: como isto é possível? Um casal morava numa das freguesias do nosso concelho e, por razões pessoais, teve de se mudar para o Algarve, carregando consigo a família, os móveis e os trastes. Mas, para trás deixou uma pequena cadela, abandonada à porta de casa como “lixo sem utilidade”. E o pequeno animal, fiel aos seus donos, ficou por ali à espera que eles regressassem, acreditando que eles não a trairiam e iam voltar como sempre voltaram. Mas eles não regressaram para a vir buscar, dar-lhe de comer e até brincar, embora ela permanecesse junto de casa, esperando. Como se não bastasse o abandono, os vizinhos sempre que a viam escorraçavam-na à pedrada, umas vezes sem lhe acertar, mas outras atingindo-a com mais ou menos gravidade. Numa das ocasiões, um deles conseguiu encurralá-la e deu-lhe pontapés atrás de pontapés até se fartar, criminosamente, para descarregar a sua fúria, raiva e a maldade escondida no ser humano. Até que, alguém consciente, dando conta do caso, comunicou-o a um responsável da Associação Lousada Animal, tendo de imediato duas voluntárias se deslocado ao local para recolher aquele pequeno animal indefeso. E depararam-se com uma cadelita extremamente dócil, ferida de lado, que se sentava e dava a pata tremendo toda nos quartos traseiros. Como sempre, foi conduzida à clínica veterinária onde foi observada, e tratada, ficando para mais tarde uma intervenção cirúrgica. Mas há histórias tristes que acabam por ter um final feliz e esta é uma delas, pois, felizmente, ainda há muitos humanos que trazem ao de cima o seu lado bom. Colocada a sua história e fotografia nas redes sociais, rapidamente uma família se dispôs a adotá-la, “agradecendo por poder vir a fazer parte da vida da cadelita”. Como esta, há centenas ou milhares de histórias que, na comparação entre os ditos “animais de estimação” e os seres humanos, nada dignificam estes. 

Quem vai a um canil público ou um abrigo privado de animais, ouve histórias atrás de histórias como a do rafeiro preto que os pais deram ao filho porque ele pediu muito, para um mês depois ser largado bem longe porque sujava a casa, roía a mobília e molhava ao redor do bebedouro. E dava trabalho. E outro, quando começou a dar despesa no veterinário. E muitos outros por largarem pelo que não deveriam ter. E por razões absurdas, de quem arranjou um animal por impulso sem pensar na responsabilidade que se assume (ou deveria assumir) quando se adota um. E abandona-se, ignorando o sofrimento desse animal – porque eles sofrem como nós – enchendo abrigos públicos e privados. Por isso, ao entrarmos num canil, ouvimos uma multidão de cães a ladrar atrás das grades e os seus olhos dizem o que sentem: que precisam de uma casa, de um dono que lhes dê afeto e cuidados. E que não os traia. Porque se eles pudessem escrever as suas crónicas como eu, que diriam? 

Como sociedade, evoluímos muito no cuidar dos nossos animais, mas ainda temos muito caminho a percorrer. Ainda há quem pense que, por dar comida e água a um animal já o está a tratar bem. Será? Às vezes passava por um determinado local onde há um terreno vedado. Amarrado a um cadeado preso com uma argola a uma verguinha de ferro com seis metros de comprimento estava um cão. Podia andar de um lado para o outro nessa distância de seis metros, fazendo deslocar a argola e o cadeado que o prendia, mas nada mais que isso. Tinha alguma comida que o dono lhe deitava na pia, quando lá ia, dia sim dia não, ou de dois em dois, três em três dias ou mais. Ninguém mais. E tinha um bidão velho, ferrugento, como abrigo, para não apanhar com a chuva toda quando chovia. Imagino a solidão do pobre animal. Sendo uma criatura sociável, não gostava de viver sozinho. Mas o dono pensava que ele estava bem tratado, se pensava. Então, o que pensaria o dono se fosse acorrentado a uma parede, dia após dia, tendo de urinar e defecar a poucos metros do lugar onde dormia, convivendo dia e noite com o cheiro das fezes e da urina (e o olfato deles é muito mais sensível)? Em qualquer parte do mundo seria considerado desumano. 

Todos (ou quase todos) consideram bonito ter um animal de estimação. Como qualquer ser vivo, necessitam de cuidados e carinho. E depois? Muitos são maltratados e votados ao abandono em estado crítico, debilitados, com ferimentos graves ou completamente fragilizados. Então, há os que são recolhidos pelos serviços públicos, porque têm a obrigação, e por voluntários, porque têm vocação e devoção à causa. E recebem cuidados adequados e a chance de voltar a acreditar nos seres humanos. E os restantes?

Para irmos mais além, precisamos de duas coisas: por um lado, como os animais não podem falar nem comunicar, que cada um fale e comunique por eles, denunciando sempre que souber ou presenciar alguma cena de maus-tratos a qualquer tipo de animal. Por outro, os voluntários e suas associações precisam da ajuda de todas as pessoas comprometidas, através de doações em dinheiro, rações, tapetes higiénicos, medicamentos, produtos de limpeza, caminhas, etc. E há sempre lugar para mais voluntários. E, no caso da Associação Lousada Animal, de famílias de acolhimento temporário para animais recolhidos até à adoção, por não dispor de abrigo. É que, cada gesto de solidariedade representa uma nova chance para um animal que sofreu, mas que ainda merece conhecer o verdadeiro significado de cuidado e pertencimento. E que ainda há um lado humano entre os humanos …Dia sim, dia sim, os casos acontecem, uns a seguir aos outros, cada dia mais chocantes. E ficamos a perguntar-nos: como isto é possível? Um casal morava numa das freguesias do nosso concelho e, por razões pessoais, teve de se mudar para o Algarve, carregando consigo a família, os móveis e os trastes. Mas, para trás deixou uma pequena cadela, abandonada à porta de casa como “lixo sem utilidade”. E o pequeno animal, fiel aos seus donos, ficou por ali à espera que eles regressassem, acreditando que eles não a trairiam e iam voltar como sempre voltaram. Mas eles não regressaram para a vir buscar, dar-lhe de comer e até brincar, embora ela permanecesse junto de casa, esperando. Como se não bastasse o abandono, os vizinhos sempre que a viam escorraçavam-na à pedrada, umas vezes sem lhe acertar, mas outras atingindo-a com mais ou menos gravidade. Numa das ocasiões, um deles conseguiu encurralá-la e deu-lhe pontapés atrás de pontapés até se fartar, criminosamente, para descarregar a sua fúria, raiva e a maldade escondida no ser humano. Até que, alguém consciente, dando conta do caso, comunicou-o a um responsável da Associação Lousada Animal, tendo de imediato duas voluntárias se deslocado ao local para recolher aquele pequeno animal indefeso. E depararam-se com uma cadelita extremamente dócil, ferida de lado, que se sentava e dava a pata tremendo toda nos quartos traseiros. Como sempre, foi conduzida à clínica veterinária onde foi observada, e tratada, ficando para mais tarde uma intervenção cirúrgica. Mas há histórias tristes que acabam por ter um final feliz e esta é uma delas, pois, felizmente, ainda há muitos humanos que trazem ao de cima o seu lado bom. Colocada a sua história e fotografia nas redes sociais, rapidamente uma família se dispôs a adotá-la, “agradecendo por poder vir a fazer parte da vida da cadelita”. Como esta, há centenas ou milhares de histórias que, na comparação entre os ditos “animais de estimação” e os seres humanos, nada dignificam estes. 

Quem vai a um canil público ou um abrigo privado de animais, ouve histórias atrás de histórias como a do rafeiro preto que os pais deram ao filho porque ele pediu muito, para um mês depois ser largado bem longe porque sujava a casa, roía a mobília e molhava ao redor do bebedouro. E dava trabalho. E outro, quando começou a dar despesa no veterinário. E muitos outros por largarem pelo que não deveriam ter. E por razões absurdas, de quem arranjou um animal por impulso sem pensar na responsabilidade que se assume (ou deveria assumir) quando se adota um. E abandona-se, ignorando o sofrimento desse animal – porque eles sofrem como nós – enchendo abrigos públicos e privados. Por isso, ao entrarmos num canil, ouvimos uma multidão de cães a ladrar atrás das grades e os seus olhos dizem o que sentem: que precisam de uma casa, de um dono que lhes dê afeto e cuidados. E que não os traia. Porque se eles pudessem escrever as suas crónicas como eu, que diriam? 

Como sociedade, evoluímos muito no cuidar dos nossos animais, mas ainda temos muito caminho a percorrer. Ainda há quem pense que, por dar comida e água a um animal já o está a tratar bem. Será? Às vezes passava por um determinado local onde há um terreno vedado. Amarrado a um cadeado preso com uma argola a uma verguinha de ferro com seis metros de comprimento estava um cão. Podia andar de um lado para o outro nessa distância de seis metros, fazendo deslocar a argola e o cadeado que o prendia, mas nada mais que isso. Tinha alguma comida que o dono lhe deitava na pia, quando lá ia, dia sim dia não, ou de dois em dois, três em três dias ou mais. Ninguém mais. E tinha um bidão velho, ferrugento, como abrigo, para não apanhar com a chuva toda quando chovia. Imagino a solidão do pobre animal. Sendo uma criatura sociável, não gostava de viver sozinho. Mas o dono pensava que ele estava bem tratado, se pensava. Então, o que pensaria o dono se fosse acorrentado a uma parede, dia após dia, tendo de urinar e defecar a poucos metros do lugar onde dormia, convivendo dia e noite com o cheiro das fezes e da urina (e o olfato deles é muito mais sensível)? Em qualquer parte do mundo seria considerado desumano. 

Todos (ou quase todos) consideram bonito ter um animal de estimação. Como qualquer ser vivo, necessitam de cuidados e carinho. E depois? Muitos são maltratados e votados ao abandono em estado crítico, debilitados, com ferimentos graves ou completamente fragilizados. Então, há os que são recolhidos pelos serviços públicos, porque têm a obrigação, e por voluntários, porque têm vocação e devoção à causa. E recebem cuidados adequados e a chance de voltar a acreditar nos seres humanos. E os restantes?

Para irmos mais além, precisamos de duas coisas: por um lado, como os animais não podem falar nem comunicar, que cada um fale e comunique por eles, denunciando sempre que souber ou presenciar alguma cena de maus-tratos a qualquer tipo de animal. Por outro, os voluntários e suas associações precisam da ajuda de todas as pessoas comprometidas, através de doações em dinheiro, rações, tapetes higiénicos, medicamentos, produtos de limpeza, caminhas, etc. E há sempre lugar para mais voluntários. E, no caso da Associação Lousada Animal, de famílias de acolhimento temporário para animais recolhidos até à adoção, por não dispor de abrigo. É que, cada gesto de solidariedade representa uma nova chance para um animal que sofreu, mas que ainda merece conhecer o verdadeiro significado de cuidado e pertencimento. E que ainda há um lado humano entre os humanos …

Um pedido: COntinua essa nobre missão!

No centro de Lousada junto às bombas da Repsol, um carro travou e parou, fazendo parar os carros que o precediam. O condutor abriu o vidro da janela, pôs o braço de fora com uma gata na mão e, para surpresa de quem via, jogou-a para a frente do seu carro e arrancou em grande velocidade, passando-lhe por cima ante a incredibilidade de quem via . Por mero acaso, num dos carros da fila havia uma voluntária da Associação Lousada Animal que saiu em socorro da gata, percebendo que ainda estava viva e que, além de ferida, estava muito doente e débil, tendo-a levado de imediato para uma das clínicas com quem a Associação tem parceria.  O seu estado era tal que, antes de a operar, tiveram de a tratar primeiro da doença para poder aguentar a cirurgia, tendo conseguido salvar-lhe a vida. Depois de curada fisicamente, foi parar a casa da Teresa, uma fundadora, dirigente e voluntária das mais ativas da Associação, como “família de acolhimento”, para completar a recuperação em resultado do trauma sofrido. A convalescença foi excelente e a gata ao fim de algum tempo já deixava a Teresa pegá-la ao colo, acariciá-la, brincar com ela e até ronronava de satisfação. 

Um dia, ao abrir a porta do jardim pela manhã, a gata aproveitou e fugiu para o exterior que não conhecia por estar confinada dentro de casa. Teresa foi logo atrás dela, mas a gata foi-lhe escapando até a conseguir agarrar em cima do muro. Mas, ao dirigir-se para casa, ela esperneou e quando Teresa a poisou no solo, foi atacada pela gata, esgadanhando-a com as patas e mordendo onde podia. Só ao fim de algum tempo, com auxílio de uma rede e depois de muitos arranhões nos braços e mãos e várias mordidas nos dedos, é que conseguiu levá-la, mas com braços e mãos a sangrar. Ao fim do dia a sua mão direita, em especial o indicador, tinha sinais evidentes de infeção, o que a fez deslocar-se a um Centro de Saúde para ser observada e tratada com antibiótico para combater a infeção. Aí começou um longo calvário ao longo de vários meses que a fez passar por um médico que, depois de lhe lancetar o dedo infetado para retirar todo o pus e tratar, a aconselhou a ser vista por um cirurgião ortopédico, o que viria a acontecer, tendo-a ele operado sob fortes reservas pois, à partida, ia com a intenção de lhe amputar o dedo. Depois de várias semanas com a mão empalada, 2 ferros enfiados no interior, da ponta do dedo à base, de mais de 60 dias a antibiótico e muitas dores, com recuperação longa a necessitar de fisioterapia e a certeza que as duas falanges do indicador ficarão unidas para sempre sem capacidade de flexão, Teresa não sabe quais as consequências finais de todo este incidente, físicas e psicológicas, com uma gata que não era sua, mas por quem lutou e tudo fez para salvar e recuperar plenamente.

A partir do momento do incidente, Teresa passou de maior amiga a maior inimiga da gata Camila, numa regressão enorme do processo de recuperação e em função do avivar de traumas passados. Mas não desistiu dela e continuou a fazer tudo para a recuperar e encontrar a pessoa adequada para a adotar, tendo conseguido escolher alguém que desde o início se interessou pela sua história e pelo drama de mais um animal doméstico agredido nos seus direitos, nas palavras da Teresa “a pessoa certa para a cuidar e compensar do que sofreu pela maldade humana”.

Teresa tem sido excecional na sua dedicação à defesa dos animais e, já agora para os críticos destas pessoas, à defesa e ajuda de pessoas em situação difícil, tendo participado com outros voluntários no salvamento, recuperação e adoção de centenas de animais nestes cerca de 10 anos de Associação o que, para quem tem recursos muito escassos porque vive de donativos, é obra digna de ser respeitada e elogiada. E a ela cabe uma boa quota de trabalho e responsabilidade por esse sucesso. No entanto, as consequências do incidente para a Teresa foram enormes. Uma das mordidas da gata perfurou a cápsula da articulação e infetou-a de tal forma que um dos ortopedistas não acreditava que fosse possível salvar-lhe o dedo que já parecia estar a gangrenar. Em consequência do uso de tantos antibióticos, as unhas tendem a descolar e deverão acabar por sair. Depois de muitos meses de recuperação física, não se sabe como vai reagir emocionalmente e quais as consequências psicológicas pelo sofrimento e limitações com que ficou provocadas involuntariamente por um animal que ajudou a salvar. 

Quando penso no que aconteceu à Teresa e ao saber que todo o seu sofrimento físico e psicológico a tem feito pensar abandonar a Associação e essa nobre missão a que se tem dedicado com alma, coração, muito empenho e sucesso, fico a pensar que, para contrabalançar, seria suficiente que ela colocasse no outro prato da balança a alegria e satisfação pessoal que certamente teve ao longo destes anos por cada um dos muitos casos bem-sucedidos e que resultaram na salvação, adoção e bem-estar de tantos animais, algo que não tem preço e justifica, só por si, todos os sacrifícios. E ao pensar que muitos desses animais, para além de abandonados pelos donos, foram criminosa e violentamente mal tratados, muitos deles de forma selvagem como o foi a gata Camila desta história verídica, não só foram recuperados, como tiveram um final feliz ao ser adotados por uma família selecionada, que lhes deu um lar e a conhecer o lado bom dos seres humanos, peço a Deus e a todos aqueles que conhecem o seu trabalho voluntário, que não a deixem desistir dessa nobre missão de salvar animais. Porque se soubermos cuidar deles, dão-nos mais do que recebem … 

Da ”besta” que conduzia o automóvel nada mais se soube, mas de uma coisa tenho a certeza: é um animal muito mais irracional do que a gata que quis matar na via pública, num miserável espetáculo … 

A política como “Serviço Público” …

A proximidade de mais um ato eleitoral para as autarquias traz-me à memória umas quantas recordações dos primeiros anos após a revolução de Abril e das ilusões que tinha acerca da democracia. E uma dessas muitas ilusões era de que, todos nós, deveríamos dar à sociedade o nosso contributo para a construção do bem comum, concedendo de forma gratuita e desinteressada uma parte do nosso tempo. Numa boa dose de santa inocência, achei que a política como “serviço público” era um desses exercícios e, por isso, os cargos políticos até um certo nível deveriam ser “um trabalho voluntário” e, como tal, gratuitos. Mas o tempo haveria de me tirar todas as ilusões nesse campo e afastar por completo da atividade política. Percebi isso à medida que os partidos e a política foram sendo assaltados por gente com outros interesses que não o bem comum, até chegar o momento de dizer “para mim basta”. Nesse processo de rotura perdi o meu melhor amigo de então, que não quis entender o porquê do meu afastamento. O certo é que o tempo me daria razão e todos nós assistimos à forma como “governaram a vida” toda uma legião de gente através dos mais diversos poderes, desde simples presidentes da junta (que vieram substituir os antigos “regedores” de quem se dizia “que eram abaixo de cão 3 vezes”, mas não tinham salário), vereadores e, claro está, presidentes de câmara, até responsáveis dos maiores cargos públicos (com alguns a contas com a justiça em processos intermináveis que se arrastam penosamente pelos tribunais, talvez à espera da prescrição), degradando de forma arrasadora a imagem dos políticos e deixando caminho aberto ao populismo e extremismos para onde caminhamos a passos largos. Desse meu sonho, encontrei entre outros, dois políticos que personificam ideais que, por muito que me custe dizê-lo, nunca iremos alcançar.

Ingvar Carlsson é reformado e vive num andar térreo de 82 m2 de um condomínio popular na Suécia, com uma sala atolada de livros e recordações, um escritório modesto, um quarto de dormir simples e uma cozinha junto do hall de entrada. Ali não há máquinas de lavar roupa, porque a lavandaria é comunitária, sendo gerida por todos os moradores do condomínio. Também não há empregados na casa. É o próprio Carlsson que faz as tarefas domésticas com a mulher, como cozinhar, lavar e passar, além de limpar a neve da entrada. Ainda hoje usa o autocarro, meio de transporte que sempre usou quando ia para o seu trabalho. E o que tem isto de especial? É que Carlsson foi várias vezes ministro da Suécia e duas vezes primeiro-ministro, havendo participado nas decisões que desenvolveram a Suécia e o estado de bem-estar social, tendo-a levado de país pobre e desigual a um dos países mais ricos e igualitários do mundo. Hoje continua a viver no mesmo apartamento em que vivia antes de ser ministro. Questionado porque não tem direito a carro, motorista, guarda-costas e a outras mordomias como em muitos outros países mais pobres, ele sorri e diz: “Um político deve praticar o que prega. Não se pode fazer belos discursos, mas usar o carro presidencial, pois isso afeta a confiança dos cidadãos nos políticos e no próprio sistema político e tem sérias consequências para a democracia. A Suécia trata os seus políticos como qualquer outro cidadão”. Ele diz que não tem qualquer tipo de privilégio. Como todos os outros trabalhadores tem apenas a sua pensão de reforma.

 “Represento os cidadãos e não tenho nenhum interesse nem nenhum direito de viver uma vida de luxo como político. A construção de uma democracia ética é responsabilidade de todos. A democracia é o melhor sistema político, mas cabe-nos a responsabilidade de dar o exemplo”. Para ele, “a participação política não é um caminho glamoroso, mas é assim que se constrói uma sociedade democrática”.

José Mujica era tido como “o presidente mais pobre do mundo”. O ex-presidente do Uruguai vivia com apenas 10% do seu ordenado, doando todo o resto. Dizia ele que “as repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes monárquicas. As repúblicas nasceram para dizer que somos todos iguais. E, entre os iguais, estão os governantes”. Para ele, “não somos uns mais iguais que outros”. Sempre que o questionavam por ser o presidente mais pobre do mundo, no seu jeito habitual respondia: “Chamam-me o presidente mais pobre do mundo, mas eu não sou um presidente pobre. Pessoas pobres são aquelas que precisam sempre de mais, aquelas que nunca têm o suficiente, porque estão num ciclo infinito. Sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo apenas com o suficiente para que as coisas não me roubem a minha liberdade”.

Quando lhe perguntavam porque não tinha avião presidencial, dava uma outra opção: “Avião e helicóptero, são para salvar vidas. Porquê, nós políticos, temos de viver como a maioria e não viver como uma minoria?” Enquanto foi presidente do Uruguai continuou a viver na sua “chacara”, um pedaço de terra onde cultivava seus legumes, com uma velha casa de 50 metros quadrados, deslocando-se no seu velho “carocha” de 1986.

Costumava dizer que “a humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o “deus mercado” que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir, consumir. E quando não podemos, carregamos frustrações, pobreza e autoexclusão. Dizia ainda: “A vida escapa-se e vai-se minuto a minuto e não podemos ir ao supermercado comprar mais vida. Então, lutem para vivê-la”.

Numa visão filosófica diz que “arrasamos as selvas e implementamos selvas anónimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insónia com comprimidos e a solidão com tecnologia, porque somos felizes longe da convivência humana”, além de que “o poder não muda as pessoas, apenas revela quem realmente são”. 

Será que algum destes dois homens teria lugar entre os eleitos cá do nosso “bairro”? 

Justiça com compaixão e humanidade

O ritmo dos dias e desta vida agitada em que toda a gente tem pressa e o tempo lhe falta porque acha que tem de fazer tudo e mais alguma coisa, leva-nos a ter de acompanhar a passada da tecnologia e, muitas vezes, a cumprir regras e tarefas esquecendo que estamos a lidar com pessoas que têm problemas diversos como todos nós. E, nessa forma de agir, desumanizamo-nos. Mas, de vez em quando, surge no meio da multidão alguém que se levanta acima do cidadão comum e age como ser humano que se interessa verdadeiramente pelos outros. Imaginemos um juiz que, diante de cada caso, não veja somente números, infrações e a lei, mas histórias de vida. Alguém que, em vez de aplicar a lei friamente, ouvia, sorria, aconselhava e até perdoava. É real, esse juiz existiu e o mundo conheceu-o como Juiz Frank Caprio, “o juiz mais gentil do mundo” e morreu há poucos dias, conhecido mundialmente pela capacidade de unir Justiça com Misericórdia. Aos 88 anos, a sua partida não deixou apenas uma cidade de luto, Providence, nos Estados Unidos, mas milhões de pessoas que se reviam na sua forma humana e compassiva de lidar com a lei. Uma das histórias mais marcantes foi a de um homem de 96 anos que levou uma multa por excesso de velocidade. O senhor Coella contou ao juiz que seguia devagar e estava a levar o filho deficiente a exames ao sangue relacionados com tratamentos oncológicos. O juiz, visivelmente emocionado, elogiou aquele pai pela sua dedicação e compromisso com a família apesar da sua idade avançada, livrando-o da acusação. 

Amado pela sua compaixão, humildade e crença inabalável na bondade das pessoas, o juiz Caprio tocou a vida de milhões de pessoas através do seu trabalho no tribunal e fora dele. O seu calor, humor e gentileza deixaram uma marca em todos aqueles que o conheceram. Como juiz no Tribunal Municipal de Providence, julgava infrações de trânsito e pequenos crimes de reduzido potencial ofensivo, mas a sua forma “menos institucional” de resolver os seus processos teve tal repercussão que o seu irmão começou a filmar as sessões no tribunal para mais tarde serem transmitidas em programa televisivo regional e depois nacional e mundial e, daí, saltarem para as redes sociais, tendo feito dele uma celebridade.                                    São inúmeros os casos de decisões “fora da caixa”, que sensibilizam: A um homem de meia-idade acusado de estacionar mal o carro e não pagar a multa, o juiz perguntou quem era a criança que estava com ele, tendo-lhe ele dito que era o seu filho Jacob. Então o juiz chamou-o: “Olha Jacob, vem daí ajudar-me com este caso porque estou com dificuldades em resolvê-lo”. E sentou o rapaz loirinho, de cinco anos, perto de si, dizendo-lhe: “Tenho três opções: multar o teu pai em 90 dólares, 3º dólares ou não o multar. O que devo fazer”? O miúdo decidiu-se pelos 30 dólares. Mas o juiz teve outra ideia: “Vou fazer um acordo com o teu pai: se ele te levar a tomar um bom pequeno-almoço eu deixo cair a multa”. E assim ficou. Noutro caso de um condutor apanhado em excesso de velocidade, ao perguntar ao filho do acusado se o pai era culpado ou inocente, o miúdo respondeu com um “culpado”, mas o juiz foi pela outra sugestão. Já uma mulher acusada de várias infrações de trânsito seguidas, justificou-se dizendo que teve de passar vários sinais vermelhos porque estava a ser perseguida por uma pessoa de quem era vítima de violência doméstica. Então, Caprio disse que recebia com frequência cheques de pessoas anónimas para ajudar outras pessoas e passou-lhe três deles, tendo ela agradecido e perguntado se lhe podia dar um abraço, ao que ele anuiu.     Num dos episódios mais conhecidos mostra Caprio diante de uma mãe que acumulava multas porque precisava levar os filhos à escola em horários difíceis. Em vez de condená-la, ele compreendeu a situação, reduziu a penalidade e, com palavras de incentivo, ofereceu algo muito maior do que a anulação de uma dívida: ofereceu dignidade. Casos como este tornaram-se marcas do seu legado.

A história de Frank Caprio mostra que ser autoridade não tem de significar distância ou frieza. Em vez disso, ele ouvia as histórias, considerava as dificuldades pessoais e avaliava cada situação com olhar humano. Pelo contrário: ele demonstrou que a autoridade verdadeira é aquela que se aproxima, que escuta, que é capaz de se ajoelhar diante da fragilidade humana. Seus vídeos continuarão a ser vistos pelas novas gerações que talvez nunca tenham entrado num tribunal, mas que aprendem e aprenderão com ele, que a justiça mais transformadora nasce da compaixão. Num mundo marcado por discursos duros, ódios, divisões e intolerância, Caprio destacou-se justamente por escolher outro caminho. A sua simplicidade, o seu jeito de falar com crianças, idosos, mães de família ou trabalhadores comuns revelava uma grande lição: a lei deve servir ao ser humano e não o contrário.

Na lógica fria da lei, uma multa pode parecer apenas um número. Mas na lógica da compaixão, cada caso tem rosto, nome e história. Caprio entendia isso e mostrava ao mundo que justiça e misericórdia não são conceitos opostos. Pelo contrário: quando caminham juntos, revelam a grandeza da verdadeira humanidade.

Avós: O último recurso, mas …

Joana e o marido estão reformados há mais de uma década e ambos estão muito perto dos oitenta anos de idade, a gozar uma merecida reforma na sua moradia. São avós, ele dedica-se ao jardim, ao quintal e ao serviço de manutenção da casa e ela à cozinha e ao lar. E ao neto. Logo de manhã, bem cedo, chega a filha de carro com a criança ainda de pijama e a avó já tem preparado o pequeno-almoço para os dois, o almoço para a filha levar e a cama para o neto acabar de dormir um sono que lhe foi interrompido. Durante o dia aquela avó tem quase todo o seu tempo dedicado ao pequenote, como cuidadora a tempo inteiro. Ao fim da tarde, já com o neto de barriga cheia, volta a filha do trabalho para levar o miúdo para casa já com o pijama vestido e o jantar para si e para o marido. E este ciclo repete-se nos dias seguintes, nos outros dias da semana, dos meses e de anos. 

A incorporação efetiva da mulher no mercado de trabalho para sua autorrealização e, claro, para melhorar o orçamento de casa, gerou uma série de necessidades no contexto familiar, tanto afetivo quanto de responsabilidade em relação às crianças. Com esta nova estrutura familiar, os avós passaram a ter o papel de cuidadores e, muito mais, pois assumem o papel principal no desenvolvimento pessoal e emocional dos netos. Eles chegam ao mesmo nível dos próprios pais e o seu apoio é fundamental para o funcionamento da sociedade. São uma figura comum na porta das escolas e nos parques de todas as vilas e cidades. Cuidam de seus netos durante muitas horas enquanto os pais trabalham. A impossibilidade de conciliar a vida familiar com o horário de trabalho ligada à falta de recursos e de assistência social para as crianças, levam as famílias a contar com os avós como uma rede de apoio, a mais importante para cuidar dos netos.

Mas a utilização deste “recurso” para resolver uma necessidade da família, pode trazer problemas que importa salvaguardar e clarificar desde o princípio, para que não haja mais prejuízos do que vantagens que, quase sempre, não são previamente ponderadas. O aumento da esperança de vida e o envelhecimento ativo, fazem com que os idosos tenham uma qualidade de vida cada vez melhor. Ora, avós autónomos que convivem, viajam e têm vida própria, poderão ter dificuldades de assumir a função de cuidar dos netos a tempo inteiro e abdicar de ter vida própria. Culturalmente ainda são vistos como egoístas, ao dar prioridade ao seu conforto e bem-estar em detrimento dos filhos. É uma avaliação injusta, pois quem o faz defende o seu direito a uma velhice digna e saudável e a poder usufruir do tempo extra que o ter de não trabalhar lhe proporciona. Claro que a melhor alternativa será um meio caminho, em que as pessoas mais velhas possam desfrutar da autonomia, do seu tempo e da saúde que possuem e também possam, de forma razoável, ser um apoio para os filhos. Mas, em muitos casos, não há esse equilíbrio.                                                                                              A sabedoria popular já dizia: “ser avó é ser mãe duas vezes”. Cada avó ou avô tem seu jeito de lidar com os netos e preservar e fortalecer a relação é muito positivo e benéfico para os dois lados!  Avós e netos fazem uma combinação perfeita em qualquer dia, qualquer hora ou qualquer época do ano. Quem não tem boas recordações dessa convivência? Avós “são pais com açúcar”, como também se diz que os avós que ajudam a criar os netos vivem mais tempo do que os que não têm intervenção na rotina das crianças. Por isso mesmo, para eles também é importante essa função de cuidador. Da mesma forma que a criança toma os pais como exemplo de comportamento e conduta, também se espelhará nos avós. Contudo, há quem garanta que a convivência entre avós e netos pode não ser tão boa quanto isso, porque os estragam com mimos e falta de regras em vez de ajudarem os pais na difícil tarefa de educá-los.                                                                                                                                                     O papel dos avós na educação dos netos é fundamental, pois, além da vasta experiência vivida, eles terão a oportunidade de transmitir valores que as crianças em desenvolvimento precisam. E a criança que tem a avó ou o avô por perto, crescerá com uma base emocional muito boa e forte, muito especialmente com os avós que gostam de compartilhar experiências. Mas, apesar dessa importância, nem todos os avós são muito felizes por passarem a maior parte do seu tempo a tomar conta deles. E, por maior que seja a valia, é importante que os avós sintam que dispõem de tempo de qualidade para eles, pois cuidar dos netos ocasionalmente é diferente de virar cuidador principal. O problema está em encontrar a medida exata para não abdicar da sua autonomia e até de não entrar em conflito com os filhos na educação dos netos, já que a responsabilidade da educação das crianças é deles. Tirando isso, o bom relacionamento entre pais e avós e entre avós e netos, só traz vantagens a toda a família, inclusive aos próprios avós que ficam mais ativos, física e psicologicamente, sentindo-se melhor e mais uteis.                                                              Como conciliar que as pessoas mais velhas possam desfrutar da sua autonomia, do seu tempo e da saúde que possuem e também, de forma razoável, possam ser um ponto de apoio para os seus filhos? É nesse equilíbrio que está o segredo para o protagonismo dos avós na educação dos netos num tempo em que, longe de diminuir a necessidade dessa ajuda, é cada vez maior e a sua ajuda para os pais tem um valor incalculável. E por isso, todos nós enquanto sociedade, lhes devemos muito …                                                

A “criação” vai engolir o criador?

Como se diz na gíria popular, “estou feito”. A minha carreira como “escrevinhador” de algumas ideias que me passam pela cabeça está a chegar ao fim, pois vou ser despedido um dia destes, sem apelo nem agravo e sem direito a indemnização. A direção do TVS ainda não me comunicou, mas eu já estou preparado para ser “posto no olho da rua” e ser substituído pela “criação” digital, a Inteligência Artificial, mais conhecida por IA, pois esta é uma das primeiras profissões a desaparecer com o seu desenvolvimento. E, como a IA é a tecnologia que mais rapidamente se espalhou pelo mundo, os meus dias de “escrevinhador” estão contados. Dizem os especialistas que no topo da lista das profissões em risco de desaparecimento encontram-se os escritores e autores, só superados pelos intérpretes e tradutores, seguidas pelos jornalistas e repórteres, editores, analistas de dados, especialistas em relações públicas e matemáticos, além dos trabalhadores de “cal centre” e dos assistentes jurídicos. Podem dormir descansados os canalizadores porque esta tecnologia não lhes faz concorrência. Mas também como já é tão difícil arranjar um para reparar o autoclismo …. Ora, como consequência desta coisa a que ainda não me habituei, as minhas condições de vida vão piorar, não propriamente ao nível económico porque os ganhos que tive ao longo desta jornada não passaram do amável convite para o jantar de aniversário do Jornal, mas ao nível do mediatismo e reconhecimento público que faz inveja ao Cristiano Ronaldo …

Bom, esquecendo este aparte, a IA é uma realidade que está a entrar nas nossas vidas de forma acelerada e a maioria das pessoas ainda não sabe, nem sequer se apercebeu, das consequências que pode vir a ter nas suas vidas e do quanto vai passar a fazer parte delas. Depois do aparecimento da internet, esta é uma nova revolução de que se desconhecem os limites. Mas, afinal, o que é a IA? A Inteligência Artificial é a utilização de tecnologias digitais para criar sistemas capazes de realizar tarefas que geralmente exigem intervenção humana. A IA processa a informação de forma mais rápida e exata. Pode-se dizer que a IA é uma ferramenta extraordinária quando é utilizada para bem da humanidade, tendo o seu aparecimento sido comparável ao do fogo. No entanto, sabe-se que, para além do elevado número de empregos que pode extinguir, comporta riscos muito grandes para a sociedade, ao ponto de Geoffrey Hinton, considerado o “padrinho” da inteligência artificial (IA), se ter despedido do seu trabalho na Google para poder alertar e fazer campanha para os perigos desta nova tecnologia. Ao aumentar a eficiência, automatizar as tarefas e oferecer soluções inovadoras, a inteligência artificial está a transformar a sociedade, as indústrias e os modelos de negócio, aumentando a produtividade, reduzindo os erros humanos e os custos, analisando dados em larga escala que permitem melhoria na tomada de decisões e com um aumento significativo da segurança. Mas a primeira consequência negativa é que está a colocar em risco muitas profissões, especialmente as intelectuais e que tenham a ver com a língua e a matemática. Pelo contrário, para já, as profissões que exigem uma presença física, trabalho manual ou interação humana direta são seguras, como os auxiliares de enfermagem, massagistas, operadores de máquinas, empregadas domésticas e outras. Mas também essas virão a ter problemas, é só uma questão de tempo. Por exemplo, a IA pode analisar imagens médicas rapidamente e sugerir diagnósticos, que os médicos confirmarão ou rejeitam com base nos seus conhecimentos especializados. Mas, com o passar do tempo e mais exemplos e mais retornos de informação, a IA aperfeiçoa a capacidade de detetar doenças com precisão, tal como acontece com os médicos. E o mesmo se passa na indústria transformadora ao otimizar os recursos, aumentar a produtividade e reduzir o impacto ambiental das empresas, tal como na educação e muitas outras áreas.

Mas existe o outro lado da “moeda”, os riscos para a sociedade que se imaginam e vão confirmando, mais aqueles que só o tempo nos dará a conhecer. Para já, traz a discriminação com base no género, raça, situação socioeconómica ou comportamento passado, a intromissão na vida privada, manipulação de formas de pensar, dilemas éticos e muitos outros. Mais ainda, os sistemas avançados de IA podem não estar alinhados com os valores ou prioridades humanas. Geoffrey Hinton alertou que “A sobrevivência da humanidade está ameaçada quando “coisas inteligentes nos podem enganar”.

Os filmes de ficção retratam a IA em cenários futuristas onde esta começa a pensar por si mesma, supera os humanos e derruba a sociedade. Mas o curioso, e perigoso, é que a realidade já persegue a ficção e a IA já chegou ao ponto de pensar por si mesma, pois quanto mais perguntas lhe fizerem, mais dados recolhe e mais “inteligente” fica. É o caso do ChatGPT que, quando lhe fazem uma pergunta para a qual não tem resposta, como não admite não a saber, inventa uma. Da mesma forma todos sabemos que não se pode confiar em tudo o que se lê na Internet, pois a arte gerada intensifica essa desconfiança. Por isso, não podemos confiar em tudo o que ali se vê.  Todos sabemos que há a manipulação digital de uma foto ou vídeo para retratar um evento que nunca aconteceu ou retratar uma pessoa fazendo ou dizendo algo que nunca fez ou disse. A arte gerada por IA, cria novas imagens usando uma compilação de trabalhos publicados na Internet para atender a um comando específico. Hoje, compartilhar um artigo de “notícias” com seus seguidores nas redes sociais ou divulgá-lo para outras pessoas sem garantir a veracidade é um risco. O mesmo se passa com o uso da voz. Mas quando a IA chega ao ponto de procurar saber das relações extraconjugais dos seus responsáveis e faz chantagem com eles, algo começa a passar dos limites e a criação a querer dominar o criador, o que, nestes casos, é inaceitável de todas as formas. E o certo é que não ficaremos por aqui … 

Até por sete palmos de terra …

Dos sete filhos daquela senhora que enviuvara muito cedo e tudo fizera para os criar com dignidade, só a Maria deixou o emprego para se dedicar à mãe a tempo inteiro quando lhe foi diagnosticada uma doença grave. E, apesar da sua fraca condição económica, assistiu-a na doença e dela cuidou com uma dedicação inexcedível e um amor infinito, suavizando-lhe o sofrimento durante os poucos anos que ainda viveu. Dos outros filhos? Algumas visitas esporádicas para não parecer tão mal, embora breves, talvez “para não pegarem a doença”. A mãe foi a enterrar em campa rasa própria e, a partir desse dia e até hoje, ao longo de mais de vinte e cinco anos, tem sido exclusivamente aquela filha Maria que dela cuida e enfeita com flores. E semana após semana, mês após mês, ano após ano, sempre que consegue usando flores oferecidas e, quando não, compra-as com algum dinheiro do seu parco salário. Nunca confrontou nenhum dos outros filhos com o dever que também lhes é devido de homenagear a mãe, nem deles exigiu o que quer que seja para o efeito. E esta mulher, que carrega sozinha esta “empreitada”, sem qualquer proveito pessoal a não ser a satisfação do dever cumprido para com quem a “trouxe ao mundo”, ao fim de vinte e cinco anos foi questionada e confrontada por alguns deles, acusando-a de se ter apoderado pessoalmente da campa como se a tivesse roubado, quando afinal o título daquela “propriedade” está, e sempre esteve, na posse de um dos irmãos e é a prova de que pertencia à mãe e, agora, a todos os sete filhos, mesmo que dela não tenham cuidado. Desolada, desabafava comigo por não compreender como era possível que ao fim de tantos anos, irmãos e irmãs, sangue do mesmo sangue, tenham levantado suspeitas sobre a honestidade dela e insinuar que os seus interesses seriam outros que não os de “cuidar da campa da mãe” desinteressadamente. Conhecendo bem como conheço este caso, diria que, se os irmãos e irmãs da Maria tivessem “um pingo de vergonha”, “enfiavam a viola no saco” e só teriam de dar graças à Maria, em vez de a querer crucificar na praça pública ao inventarem “segundas intenções” que ela nunca teve, ainda por cima acerca de “uma propriedade” da qual não se colhe rendimento algum. No caso dela, só lhe tem dado responsabilidades, canseiras e despesas, de que todos os outros se demitiram. Talvez as insinuações deles não sejam senão uma forma de querer aliviar o seu sentimento de culpa por nada terem feito pela mãe. É o habitual!

Se uma situação destas se passa em relação à propriedade de uma simples campa, que nunca chegou a ser promovida a jazigo, é caso para nos questionarmos sobre o que se passa por aí quando se trata de heranças e partilhas, e as guerras miseráveis que os herdeiros, antes familiares e depois beligerantes e inimigos figadais fazem entre si, como se de uma batalha se tratasse. E trata. Porque está em causa a disputa pelo melhor e maior bocado, sem respeito pelos direitos dos outros, tal como os chacais e abutres o fazem. Só que estes, são frontais. 

Conheço bastantes casos de lutas judiciais e até físicas, por pequenos e grandes legados, que só desprestigiam os seres humanos. Felizes são os animais ditos irracionais, que não esperam nada. Se os pais antes de morrer soubessem os problemas e divisões que a herança iria provocar depois de mortos, especialmente quando se trata dos filhos, muitos deles deixavam-lhes somente uma marreta e um monte de pedras bem duras para partirem aos bocados quando quisessem libertar a sua frustração. Quando sete filhos se juntam, dias depois da mãe ser enterrada, sendo que seis deles nunca a visitaram nos anos que esteve num lar, para saberem “o que sobrou” e descobrem que só “restaram uns brincos”, a forma de resolver quem os apanhava foi à sapatada uns aos outros. Seis mereciam ter “levado no focinho” e os brincos deviam ser entregues à filha que sempre visitou a mãe. Mas a partilha não é feita pelo mérito filial ou sentimental, nem pela maior ou menor dedicação à mãe … 

Já fiz avaliações de propriedades para efeitos de partilhas, com mais ou menos bens, e o sentimento que guardo de umas quantas é de que parte dos interessados, apesar de estar a receber riqueza para a qual não contribuiu nada, nunca ficaram satisfeitos com o quinhão que lhes tocou. Mais grave ainda é quando todos os herdeiros concordam que os lotes sejam feitos por avaliador independente, quando depois todos concordam que os lotes estão equilibrados e que a definição do lote que toca a cada um seja feita por sorteio e depois de tirarem à sorte um número que correspondente ao seu lote, quem não aceite o que lhe saiu porque acha que é o mais fraco, que vale menos ou que tem outro defeito qualquer. Porquê? É que, na sua cabeça, permanece sempre a dúvida de que pode estar a ser prejudicado na divisão dos bens, pelo que os bocados que tocaram aos outros vão parecer-lhe sempre que são melhores que o seu. E aí começam as guerras …

Felizes são os animais de estimação pois, à morte do seu dono, não esperam receber nada e só lhes fica a saudade …