“Caravana da morte”, a vergonha do país!

No ano que acabou de findar completaram-se 50 anos sobre um dos acontecimentos mais tristes e vergonhosos da nossa história, sem que políticos, governantes e imprensa (salvaguarde-se uma reportagem na RTP1 do jornalista António Mateus) lhe tivessem dado qualquer relevo e nem sequer um ato de memória em homenagem a todos aqueles que dele foram vítimas. Tratou-se da maior e mais dramática caravana de fuga da história deste país, apelidada por muitos como a “Caravana da Morte”, composta por milhares de viaturas e de muitos milhares mais de civis de todas as idades, quase todos portugueses, uns nascidos aqui, mas muitos mais em Angola, brancos, pretos e mestiços que fugiam ao caos e à violência que tomaram conta de Angola, início da guerra civil, meses antes da proclamação da independência daquele território, mas ainda sob a responsabilidade de Portugal, forçados a fugir para salvar a vida. Partiram dos quatro cantos de Angola para, a partir de Nova Lisboa onde a concentração ganharia tal dimensão, rumarem em direção ao sul, às chamadas Terras do Fim do Mundo, o Sudoeste Africano, atual Namíbia, que na altura estava sob o domínio sul africano, mas que era tido como o melhor porto de abrigo possível. E partiram, mesmo com a recusa das Forças Armadas portuguesas em assegurar-lhes proteção para os muitos perigos de uma fuga daquelas num país em guerra civil, a eles que eram cidadãos portugueses, por ordens de Lisboa dadas por políticos e governantes irresponsáveis, muitos deles ainda hoje tidos por “heróis” nacionais, com honrarias, medalhas, bustos e funerais para o Panteão Nacional, que fizeram questão de propagandear como “descolonização exemplar”, sem respeito nem consideração pelos milhares de vítimas torturadas, assassinadas, violadas, assaltadas, violentadas de todas as formas e despojadas por completo dos seus bens de uma vida de sacrifícios. Mais ainda, fez-se constar que eles eram “colonizadores” e estavam agora a pagar o preço do que tinham feito …  

Apesar dos muitos sinais, a maioria acreditara que a independência respeitaria todos os portugueses a viverem em Angola, fossem eles de que raça fosse nascidos cá, lá ou em qualquer outra parte do mundo pois eram todos angolanos até porque de Lisboa lhes chegavam “vozes inocentes” a dizer para terem calma e aceitarem os novos agentes do poder angolano, porque “eles” contavam com todos para a construção do país. Por isso foram ficando nas suas casas, nas empresas que construíram do nada, no trabalho que tinham, acreditando. Mesmo apesar das notícias de violência praticada por membros dos três movimentos partidários, que ocupavam casas, empresas, fazendas, pilhando, roubando, assassinando e violando mulheres de todas as idades, ainda foram acreditando. Até que sentiram a trágica realidade feita de violência selvagem caminhando de norte para o sul, mais ainda ao saberem que as autoridades militares portuguesas, que tinham a obrigação de os defender, haviam caído no ridículo ao deixarem que um batalhão tivesse sido emboscado, desarmado e obrigado a que todos despissem e entregassem as fardas e respetivo calçado. Imagine-se a estupefação de quem assistiu à chegada ao quartel de Nova Lisboa daqueles militares humilhados, “um batalhão em cuecas” e a confiança que podiam ter neles para os proteger, se eles nem eram capazes de se proteger a si mesmos, nem a fazer-se respeitar! E ficaram entregues a si próprios, com a agravante de, pela primeira vez na história moderna, eles como refugiados de guerra, serem tidos como parte do problema e denegridos se pegassem em armas para defender os seus. 

E então, enquanto alguns fugiam de barco e milhares de outros ficaram a gritar junto do palácio do governador em Luanda “tirem-nos daqui” e a exigir uma “ponte aérea” que os levasse para fora de Angola, muitos não quiseram ficar à espera de um país que os abandonara e optaram fugir por terra em direção ao sul, a fronteira mais credível para salvar o seu bem mais precioso, a Vida. E excluíram logo a ida para Portugal por considerarem que “pouco ou nada tinham a ver com um país que, agora, mais do que nunca, os olhava de lado”. E meteram-se a caminho reunidos em grupos de viaturas maiores ou menores através de rotas diversas, correndo enormes riscos pelo abandono do poder político e militar: das emboscadas e violência das guerrilhas, da fome, da doença e sede do deserto, dos acidentes, incidentes, imprevistos, das avarias mecânicas, dos dilemas morais e laços humanos forjados no desespero. A “Caravana da Morte”, tanto pelo número de viaturas e pessoas civis em fuga, como pelas incidências do percurso, pelo tempo que durou até que as últimas famílias chegassem a um local de acolhimento final, de mais de seis meses, pelos milhares de quilómetros percorridos desde os mais diversos pontos de Angola, parte deles em terreno de areia ou lama com atascamentos constantes, pelas estadias forçadas em vários campos de concentração improvisados e sem condições nenhumas e o enorme sofrimento físico e psíquico e incerteza no seu futuro, é o registo fundamental e emocionante da tragédia humana da descolonização e do trauma coletivo da “geração do retorno”. E deva-se realçar que, curiosamente, o único país que prestou assistência, aliviou o sofrimento e garantiu segurança aos integrantes da Caravana ainda desde terras angolanas, foi a África do Sul, nessa altura um país visto de lado e ostracizado pela comunidade internacional, por segregação racial com o “apartheid”. Mas valeram-lhes e muito! Curioso.

Nessa viagem recheada de milhares de percalços e fim incerto, o rádio foi essencial para ter informações, mas também aí a desconfiança dos fugitivos relativa aos meios de comunicação portugueses, alinhados com o MPLA, levou-os a recorrer à BBC, Radio France e Deutsche Welle para terem notícias credíveis. Desta fuga como de todo o processo de descolonização “exemplar”, nunca se chegarão a conhecer com certeza o número de vítimas violadas, assassinadas, mutiladas e torturadas e o destino final de todos os que conseguiram escapar à barbárie, muitos deles idos para destinos diversos, da África do Sul à Austrália, do Brasil à Alemanha e, claro está, a Portugal. 

A “Caravana da Morte” foi parte integrante do movimento de retorno de setecentos mil a um milhão de portugueses de África, um dos maiores êxodos migratórios da Europa do pós-guerra, marcando profundamente a nossa memória coletiva e ficando como uma enorme vergonha para o país, designadamente para os governantes de então que nunca assumiram tal responsabilidade e escaparam impunes, apesar do eco dos gritos das vítimas inocentes …