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A mudança, até na campanha eleitoral …

Há uma verdade definitiva: A vida é feita de mudança. E as campanhas eleitorais não fogem à regra, como aconteceu neste primeiro “round” para as presenciais. Já pouco têm a ver com as primeiras eleições para presidente da república ou até para o parlamento. Já não se realizam os grandes comícios eleitorais de outrora com discursos inflamados e multidões vibrantes, nem se fazem as enormes arruadas por esse país fora onde os candidatos eram “transportados” à borla aos ombros de militantes entusiasmados como se tratasse de ídolos vencedores de um qualquer campeonato de futebol. Nem se deixa os quatro cantos do país pejados de cartazes com a fotografia dos candidatos pendurados nos postes ou colados nas paredes, as faixas amarradas de árvore a árvore ou nas pontes das autoestradas e o apelo ao voto em pinturas improvisadas. O folclore eleitoral era maior, feito de mais espetáculo público, mas com mais improviso e maior fanatismo. 

Agora, a aposta maior trava-se na internet, especialmente através das redes sociais, promovendo-se verdades, meias-verdades e mentiras, com a mesmíssima roupagem e em mais ou menos quantidade. Na televisão, os muitos debates entre os candidatos proporcionam mais tempo de antena a inúmeros comentadores desses mesmos debates para cada um dar a sua interpretação daquilo que eles disseram ou queriam dizer. E durante os dias, antes e durante a campanha, visitam mercados, feiras, lares de terceira idade, lojas, cafés e todo o tipo de ajuntamentos de povo para uma conversa informal, mas intencional.

Estas eleições tiveram um dado novo: o elevado número de candidatos que concorreram, mesmo não contando com todos aqueles que não conseguiram “apanhar o comboio” a tempo ou por falta de “bilhete” de viagem. E convém realçar que tivemos de tudo um pouco: altos e baixos, novos e velhos recorrentes, trabalhadores e turistas, militares e civis, mediáticos e ignorados, carecas e cabeludos. Houve até quem concorresse para gozar com o sistema, com afirmações bombásticas como “eu só desisto se for eleito”, “prometo vinho canalizado em todas as casas, um Ferrari para cada português e uma prostituta grátis em cada esquina”, para depois terminar com um cartaz radical: “Se gostas de vinho, p’tas e bebedeira, vota no Vieira”. E não foi o concorrente com menos clientela, embora não tenha chegado ao mínimo de 5% de votos para ter direito à subvenção do estado. Dirá: “Não há problema pois também só gastei 860 euros na campanha”! 

A campanha ficou marcada por um intenso ruído político, mas muito mais por uma orquestra de queixas e insinuações que nada abona a favor da democracia. Continuou-se a jogar com as emoções para captar votos em vez de uma postura de candidato presidencial que sabe o que significa disputar um lugar em Belém ao apresentar as suas propostas para o caso de vir a exercer o cargo, deixando em evidência alguns egos sensíveis. E, em vez de um confronto de ideias saudável e desejável, a campanha transformou-se numa mera contabilidade improvisada de ofensas, insinuações e acusações veladas, inclusive a jornalistas, tendo parte delas ficado a pairar sobre a campanha como um grande ruído persistente. Perderam-se assim temas como o mundo rural, a educação e a cultura, além do interior que, pouco falado, rapidamente voltará a ser esquecido.

Depois de um sábado para reflexão e dos eleitores levarem consigo as frases, os gestos, as queixas e até as ausências, o voto fez aquilo que nenhuma opinião ou sondagem consegue garantir: separar o acessório do essencial. E escolheram Seguro e Ventura para irem ao “tira-teimas” final, com resultado mais ou menos previsível.

Na grande leva de comentadores que se foram ouvindo ao longo do antes e durante a campanha eleitoral, alguém dizia que, “estamos entre o fim e o abismo. E que “há falta de coragem intelectual para admitir que Portugal pode precisar menos de mais um presidente e mais de um rei”. É verdade que alguns presidentes se comportaram como reis ao longo do seu mandato, esquecendo a “ética republicana”. E, a ser assim, mais-valia que a presidência passasse de pais para filhos e de filhos para netos ou, até mesmo, para um amigo ainda que fosse só “amigo dos copos”. Poupava-se o custo das campanhas eleitorais, não só para o estado (que somos todos nós), como para os candidatos se o valor recebido do estado (que somos todos nós) “não chegar para o petróleo”.   

Ora bem: depois de termos “o presidente das selfies” que tinha uma atração por microfones mais forte do que a de um íman potente por metais, que não poupava esforços para nos brindar todos os dias com opiniões sobre tudo e sobre nada, seria desejável que, aquele que nos vier a sair na “rifa” no próximo mês de Fevereiro, seja mais contido e ponderado. E menos falante. Era um favor que fazia aos portugueses, mas especialmente a mim para não ter de mudar tantas vezes de canal, pois devo dizer que já me custa carregar no botão do comando com o reumático e as artroses que, mais dia menos dia, me vão tramar as articulações … 

E, já agora, por solidariedade e respeito para com os outros candidatos derrotados, por que não cumprir uma das promessas do candidato Manuel João Vieira aos portugueses, uma só? Ficava-lhe bem e o povo daria saltos de contente, mesmo que não fosse o Ferrari …

“Caravana da morte”, a vergonha do país!

No ano que acabou de findar completaram-se 50 anos sobre um dos acontecimentos mais tristes e vergonhosos da nossa história, sem que políticos, governantes e imprensa (salvaguarde-se uma reportagem na RTP1 do jornalista António Mateus) lhe tivessem dado qualquer relevo e nem sequer um ato de memória em homenagem a todos aqueles que dele foram vítimas. Tratou-se da maior e mais dramática caravana de fuga da história deste país, apelidada por muitos como a “Caravana da Morte”, composta por milhares de viaturas e de muitos milhares mais de civis de todas as idades, quase todos portugueses, uns nascidos aqui, mas muitos mais em Angola, brancos, pretos e mestiços que fugiam ao caos e à violência que tomaram conta de Angola, início da guerra civil, meses antes da proclamação da independência daquele território, mas ainda sob a responsabilidade de Portugal, forçados a fugir para salvar a vida. Partiram dos quatro cantos de Angola para, a partir de Nova Lisboa onde a concentração ganharia tal dimensão, rumarem em direção ao sul, às chamadas Terras do Fim do Mundo, o Sudoeste Africano, atual Namíbia, que na altura estava sob o domínio sul africano, mas que era tido como o melhor porto de abrigo possível. E partiram, mesmo com a recusa das Forças Armadas portuguesas em assegurar-lhes proteção para os muitos perigos de uma fuga daquelas num país em guerra civil, a eles que eram cidadãos portugueses, por ordens de Lisboa dadas por políticos e governantes irresponsáveis, muitos deles ainda hoje tidos por “heróis” nacionais, com honrarias, medalhas, bustos e funerais para o Panteão Nacional, que fizeram questão de propagandear como “descolonização exemplar”, sem respeito nem consideração pelos milhares de vítimas torturadas, assassinadas, violadas, assaltadas, violentadas de todas as formas e despojadas por completo dos seus bens de uma vida de sacrifícios. Mais ainda, fez-se constar que eles eram “colonizadores” e estavam agora a pagar o preço do que tinham feito …  

Apesar dos muitos sinais, a maioria acreditara que a independência respeitaria todos os portugueses a viverem em Angola, fossem eles de que raça fosse nascidos cá, lá ou em qualquer outra parte do mundo pois eram todos angolanos até porque de Lisboa lhes chegavam “vozes inocentes” a dizer para terem calma e aceitarem os novos agentes do poder angolano, porque “eles” contavam com todos para a construção do país. Por isso foram ficando nas suas casas, nas empresas que construíram do nada, no trabalho que tinham, acreditando. Mesmo apesar das notícias de violência praticada por membros dos três movimentos partidários, que ocupavam casas, empresas, fazendas, pilhando, roubando, assassinando e violando mulheres de todas as idades, ainda foram acreditando. Até que sentiram a trágica realidade feita de violência selvagem caminhando de norte para o sul, mais ainda ao saberem que as autoridades militares portuguesas, que tinham a obrigação de os defender, haviam caído no ridículo ao deixarem que um batalhão tivesse sido emboscado, desarmado e obrigado a que todos despissem e entregassem as fardas e respetivo calçado. Imagine-se a estupefação de quem assistiu à chegada ao quartel de Nova Lisboa daqueles militares humilhados, “um batalhão em cuecas” e a confiança que podiam ter neles para os proteger, se eles nem eram capazes de se proteger a si mesmos, nem a fazer-se respeitar! E ficaram entregues a si próprios, com a agravante de, pela primeira vez na história moderna, eles como refugiados de guerra, serem tidos como parte do problema e denegridos se pegassem em armas para defender os seus. 

E então, enquanto alguns fugiam de barco e milhares de outros ficaram a gritar junto do palácio do governador em Luanda “tirem-nos daqui” e a exigir uma “ponte aérea” que os levasse para fora de Angola, muitos não quiseram ficar à espera de um país que os abandonara e optaram fugir por terra em direção ao sul, a fronteira mais credível para salvar o seu bem mais precioso, a Vida. E excluíram logo a ida para Portugal por considerarem que “pouco ou nada tinham a ver com um país que, agora, mais do que nunca, os olhava de lado”. E meteram-se a caminho reunidos em grupos de viaturas maiores ou menores através de rotas diversas, correndo enormes riscos pelo abandono do poder político e militar: das emboscadas e violência das guerrilhas, da fome, da doença e sede do deserto, dos acidentes, incidentes, imprevistos, das avarias mecânicas, dos dilemas morais e laços humanos forjados no desespero. A “Caravana da Morte”, tanto pelo número de viaturas e pessoas civis em fuga, como pelas incidências do percurso, pelo tempo que durou até que as últimas famílias chegassem a um local de acolhimento final, de mais de seis meses, pelos milhares de quilómetros percorridos desde os mais diversos pontos de Angola, parte deles em terreno de areia ou lama com atascamentos constantes, pelas estadias forçadas em vários campos de concentração improvisados e sem condições nenhumas e o enorme sofrimento físico e psíquico e incerteza no seu futuro, é o registo fundamental e emocionante da tragédia humana da descolonização e do trauma coletivo da “geração do retorno”. E deva-se realçar que, curiosamente, o único país que prestou assistência, aliviou o sofrimento e garantiu segurança aos integrantes da Caravana ainda desde terras angolanas, foi a África do Sul, nessa altura um país visto de lado e ostracizado pela comunidade internacional, por segregação racial com o “apartheid”. Mas valeram-lhes e muito! Curioso.

Nessa viagem recheada de milhares de percalços e fim incerto, o rádio foi essencial para ter informações, mas também aí a desconfiança dos fugitivos relativa aos meios de comunicação portugueses, alinhados com o MPLA, levou-os a recorrer à BBC, Radio France e Deutsche Welle para terem notícias credíveis. Desta fuga como de todo o processo de descolonização “exemplar”, nunca se chegarão a conhecer com certeza o número de vítimas violadas, assassinadas, mutiladas e torturadas e o destino final de todos os que conseguiram escapar à barbárie, muitos deles idos para destinos diversos, da África do Sul à Austrália, do Brasil à Alemanha e, claro está, a Portugal. 

A “Caravana da Morte” foi parte integrante do movimento de retorno de setecentos mil a um milhão de portugueses de África, um dos maiores êxodos migratórios da Europa do pós-guerra, marcando profundamente a nossa memória coletiva e ficando como uma enorme vergonha para o país, designadamente para os governantes de então que nunca assumiram tal responsabilidade e escaparam impunes, apesar do eco dos gritos das vítimas inocentes …