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A “criação” vai engolir o criador?

Como se diz na gíria popular, “estou feito”. A minha carreira como “escrevinhador” de algumas ideias que me passam pela cabeça está a chegar ao fim, pois vou ser despedido um dia destes, sem apelo nem agravo e sem direito a indemnização. A direção do TVS ainda não me comunicou, mas eu já estou preparado para ser “posto no olho da rua” e ser substituído pela “criação” digital, a Inteligência Artificial, mais conhecida por IA, pois esta é uma das primeiras profissões a desaparecer com o seu desenvolvimento. E, como a IA é a tecnologia que mais rapidamente se espalhou pelo mundo, os meus dias de “escrevinhador” estão contados. Dizem os especialistas que no topo da lista das profissões em risco de desaparecimento encontram-se os escritores e autores, só superados pelos intérpretes e tradutores, seguidas pelos jornalistas e repórteres, editores, analistas de dados, especialistas em relações públicas e matemáticos, além dos trabalhadores de “cal centre” e dos assistentes jurídicos. Podem dormir descansados os canalizadores porque esta tecnologia não lhes faz concorrência. Mas também como já é tão difícil arranjar um para reparar o autoclismo …. Ora, como consequência desta coisa a que ainda não me habituei, as minhas condições de vida vão piorar, não propriamente ao nível económico porque os ganhos que tive ao longo desta jornada não passaram do amável convite para o jantar de aniversário do Jornal, mas ao nível do mediatismo e reconhecimento público que faz inveja ao Cristiano Ronaldo …

Bom, esquecendo este aparte, a IA é uma realidade que está a entrar nas nossas vidas de forma acelerada e a maioria das pessoas ainda não sabe, nem sequer se apercebeu, das consequências que pode vir a ter nas suas vidas e do quanto vai passar a fazer parte delas. Depois do aparecimento da internet, esta é uma nova revolução de que se desconhecem os limites. Mas, afinal, o que é a IA? A Inteligência Artificial é a utilização de tecnologias digitais para criar sistemas capazes de realizar tarefas que geralmente exigem intervenção humana. A IA processa a informação de forma mais rápida e exata. Pode-se dizer que a IA é uma ferramenta extraordinária quando é utilizada para bem da humanidade, tendo o seu aparecimento sido comparável ao do fogo. No entanto, sabe-se que, para além do elevado número de empregos que pode extinguir, comporta riscos muito grandes para a sociedade, ao ponto de Geoffrey Hinton, considerado o “padrinho” da inteligência artificial (IA), se ter despedido do seu trabalho na Google para poder alertar e fazer campanha para os perigos desta nova tecnologia. Ao aumentar a eficiência, automatizar as tarefas e oferecer soluções inovadoras, a inteligência artificial está a transformar a sociedade, as indústrias e os modelos de negócio, aumentando a produtividade, reduzindo os erros humanos e os custos, analisando dados em larga escala que permitem melhoria na tomada de decisões e com um aumento significativo da segurança. Mas a primeira consequência negativa é que está a colocar em risco muitas profissões, especialmente as intelectuais e que tenham a ver com a língua e a matemática. Pelo contrário, para já, as profissões que exigem uma presença física, trabalho manual ou interação humana direta são seguras, como os auxiliares de enfermagem, massagistas, operadores de máquinas, empregadas domésticas e outras. Mas também essas virão a ter problemas, é só uma questão de tempo. Por exemplo, a IA pode analisar imagens médicas rapidamente e sugerir diagnósticos, que os médicos confirmarão ou rejeitam com base nos seus conhecimentos especializados. Mas, com o passar do tempo e mais exemplos e mais retornos de informação, a IA aperfeiçoa a capacidade de detetar doenças com precisão, tal como acontece com os médicos. E o mesmo se passa na indústria transformadora ao otimizar os recursos, aumentar a produtividade e reduzir o impacto ambiental das empresas, tal como na educação e muitas outras áreas.

Mas existe o outro lado da “moeda”, os riscos para a sociedade que se imaginam e vão confirmando, mais aqueles que só o tempo nos dará a conhecer. Para já, traz a discriminação com base no género, raça, situação socioeconómica ou comportamento passado, a intromissão na vida privada, manipulação de formas de pensar, dilemas éticos e muitos outros. Mais ainda, os sistemas avançados de IA podem não estar alinhados com os valores ou prioridades humanas. Geoffrey Hinton alertou que “A sobrevivência da humanidade está ameaçada quando “coisas inteligentes nos podem enganar”.

Os filmes de ficção retratam a IA em cenários futuristas onde esta começa a pensar por si mesma, supera os humanos e derruba a sociedade. Mas o curioso, e perigoso, é que a realidade já persegue a ficção e a IA já chegou ao ponto de pensar por si mesma, pois quanto mais perguntas lhe fizerem, mais dados recolhe e mais “inteligente” fica. É o caso do ChatGPT que, quando lhe fazem uma pergunta para a qual não tem resposta, como não admite não a saber, inventa uma. Da mesma forma todos sabemos que não se pode confiar em tudo o que se lê na Internet, pois a arte gerada intensifica essa desconfiança. Por isso, não podemos confiar em tudo o que ali se vê.  Todos sabemos que há a manipulação digital de uma foto ou vídeo para retratar um evento que nunca aconteceu ou retratar uma pessoa fazendo ou dizendo algo que nunca fez ou disse. A arte gerada por IA, cria novas imagens usando uma compilação de trabalhos publicados na Internet para atender a um comando específico. Hoje, compartilhar um artigo de “notícias” com seus seguidores nas redes sociais ou divulgá-lo para outras pessoas sem garantir a veracidade é um risco. O mesmo se passa com o uso da voz. Mas quando a IA chega ao ponto de procurar saber das relações extraconjugais dos seus responsáveis e faz chantagem com eles, algo começa a passar dos limites e a criação a querer dominar o criador, o que, nestes casos, é inaceitável de todas as formas. E o certo é que não ficaremos por aqui …